Debaixo dos Céus Os Mundos de Manuel Amaro Mendonça

sábado, 9 de agosto de 2003

Calor

Calor.
A mente ferve, o corpo incendeia.
Os pensamentos são difusos,
A imaginação não se refreia,
Os nossos seres estão confusos.
Calor.
A cabeça não funciona,
O corpo verte àgua, sua.
Todo o meu ser se emociona,
Ao sonhar com a boca tua.
Calor.
A noite é imensa, eterna,
As horas não querem passar,
Sonho com a caricia terna
Que teima em não chegar.
Calor.
Esta noite é infernal,
O corpo em àgua se esvai
Só a tua presença não faria mal
Enquanto a consciência se vai.
Calor.
Por fim o sono benvindo,
Onde sonho que estás aqui
Mas quando o sonho é findo
Me apercebo do que perdi.

quarta-feira, 6 de agosto de 2003

Sonho


Dormia calmamente quando senti o toque fresco da tua mão no meu rosto em contraste com o calor que fazia no quarto.
Abri os olhos e vi-te de pé em frente a mim sorrindo como só tu sabes sorrir. Teu cabelo solto criava uma aura em contraluz com a luminosidade que se escoava pela janela atrás de ti.
Tocaste com o indicador nos meus lábios para me impor silêncio. Fechei os olhos por segundos e quando os abri novamente já lá não estavas.
As cortinas da porta do terraço esvoaçavam languidamente ao sabor da brisa noturna.
Ergui-me e caminhei para a porta. A frescura da noite chegou ao meu corpo despido lentamente, sub-repticiamente, envolvente.
E ali estavas de novo, em pé no meio do terraço, qual Eva renascida trazendo contigo o Pecado Original.
Sentaste-te e deitaste-te graciosamente enquanto eu me aproximava, o corpo tenso, ereto em homenagem à tua beleza.
Ajoelhei junto ao Altar do teu corpo, Sacerdote de uma qualquer religião esquecida adoradora de Vénus. Extasiado devido a tão radiosa aparição.
O veludo negro do céu e os diamantes que o ponteavam eram as únicas testemunhas de tão irreal acontecimento, de tão imortal encontro.
Os Deuses, algures no Olimpo, congeminaram esta nossa união que tem tanto de sagrado como de herético. Divertem-se durante vidas inteiras aproximando-nos e afastando-nos a seu bel-prazer mas esta noite deram-nos tréguas.
Os meus lábios tocaram os teus e repousei o meu corpo suavemente sobre ti. Envolvemo-nos num abraço sem tempo, uma união única de corpos e mentes de sintonia total como só acontece uma vez em cada milhão de anos.
Vibramos silenciosamente, rodando, penetrando, sugando loucamente por uma eternidade. Explorei cada ponto da tua geografia, vagueei pelas tuas colinas, acariciei cada contorno das tuas planícies, deixei-me perder no teu mato aveludado e doce, convidativo e húmido.
O tempo deixou de existir e o cenário noturno esbateu-se lentamente até toda a realidade se projetar numa explosão de cores e sentidos desordenados terminada numa lassidão cheia de amor e carinho.
Quando abri os olhos, os primeiros laivos de luz do sol estavam a romper sobre os telhados das casas e eu estava deitado no terraço frio e sozinho.
Foi um sonho?
Eu acho que não.