Debaixo dos Céus Os Mundos de Manuel Amaro Mendonça

domingo, 19 de dezembro de 2010

Vagueando




A dor de cabeça surgiu de repente, do nada.
Ao mesmo tempo um zumbido intenso que pouco a pouco se foi tornando no murmurar contínuo e surdo das pessoas em volta de alguma coisa.
Estava na rua, com a bicicleta pela mão. Por um momento sentiu-se desorientado sem saber como chegou ali.
Um grande grupo de transeuntes acotovelava-se em volta de algo no meio da estrada. Um automóvel parado mesmo ao lado do ajuntamento, com os quatro sinalizadores piscando, ostentava marcas de um choque recente.
Caminhou, puxando o velocípede ao lado, até ao grupo de pessoas.
Tentou, sem sucesso, espreitar o objeto de tanta curiosidade e escutava uma voz longínqua que gritava: - Deem espaço, deixem respirar!
Os seus pés tropeçaram em algo… Uma roda de bicicleta retorcida que os curiosos calcavam, ignorando-a.
-        Mais um pobre ciclista atropelado. – Comentou, de si para si, afastando-se.
Os sons de tumulto soavam longínquos e confusos, as vozes retorcidas e irreais.
Caminhou, ignorando o acidente e abandonou a estrada entrando na mata que a flanqueava. Não se recordava daquelas árvores tão perto daquele local.
O ar ruidoso e carregado de luz foi substituído por uma atmosfera cinzenta e silenciosa.
Uma sensação de irrealidade impunha-se, oprimindo-o e atordoando-o.
Esparsos raios de sol rompiam, filtrados pela copa das árvores, acendendo pequenos círculos de luz a seus pés.
Distraidamente, encostou a bicicleta ao tronco mais próximo e continuou a vaguear, calcando o suave tapete de folhas que forrava o chão.
Murmúrios, em tons de urgência, chegavam até si de muito longe e ele ignorava-os usufruindo daquela sensação de leveza e liberdade que parecia provir não sabia bem de onde.
Olhou para o alto, abriu os braços e começou um lento rodopiar, embriagando-se daquela luz que provinha dos céus e lhe atingia o rosto como pequenas pedras preciosas, ofuscando-o e maravilhando-o.
Deixou-se cair de costas, saboreando a vertigem causada pela rotação e assim ficou, de rosto para o ar, soltando uma gargalhada de desafio aos céus e ao mundo, sentindo uma euforia imensa tão inexplicável como irresistível. 
Conseguia divisar as nuvens brancas por entre as árvores. Formavam rostos, uns belos outros não, uns novos, outros velhos…
-        Cristina! – Um dos rostos das nuvens foi suficientemente perfeito para que uma sensação de urgência o fizesse levantar.
Olhou em volta. A bicicleta não estava à vista.
Não sabia onde estava. Ao longe um bip bip contínuo fazia-se ouvir, cadenciado, parecendo transmitir calma, mas ao mesmo tempo preocupação.
Novamente o murmurar longínquo e quase reconhecível… - Onde estás, Tina? Não te vejo. – Lamentou-se, como que respondendo a alguém.
Soltou um suspiro, enquanto uma inexorável onda de resignação o envolvia. Não conseguia compreender o que se passava consigo,  tal era o  afluxo de sensações descontroladas que sentia, saídas não se sabe de onde.
Decidido, recomeçou a caminhar em frente, como se tivesse optado finalmente por um caminho.
Novamente a lembrança de Cristina lhe afluiu à ideia. Parecia escutar as ondas por entre o bip bip omnipresente, ao recordar o passeio que fizeram juntos no dia anterior.
O seu longo cabelo escuro, despenteado pelo vento suave que acariciava as ondas, os pés de ambos descalços, na areia gelada daquela manhã de fevereiro… Parece que foi há tanto tempo que ela lhe deu aquela notícia maravilhosa:
-        Pedro, a partir de agora vais ter de me tratar ainda com mais cuidado do que o costume.
Ele enfrentou-a com um olhar sério, os seus olhos castanhos nos preciosos verdes dela, enquanto inquiria:
-        Que se passa? Estás doente?
-        Não tolinho! Vais ser pai!
Numa explosão de alegria pegou-a ao colo e rodopiaram abraçados até caírem na areia, exaustos e a rirem.
Parece que não foi apenas ontem, mas há uma eternidade… Terá sido ontem? Terá sido apenas esta manhã que, como todas as manhãs de domingo, saiu de casa deixando a cama onde ela dormia ainda quente, e lançou-se nas ruas frias cavalgando a sua bicicleta?
Afinal que é que isso interessa? Olhou para as mãos com as luvas de competição e sorriu: - Ia jurar que não as tinha há uns minutos atrás…
Por uns segundos, os murmúrios tornaram-se na voz suave de Cristina: 
-        Volta para mim, meu amor, não me deixes.
Aquelas sensações de urgência e dor pareciam voltar… Ela precisava dele, onde estava ela…? …Onde estava ele?
Parou.
Estava em frente a um muro enorme, de aspeto antigo e sombrio que se estendia em ambas as direções a perder de vista.
Todas as preocupações varreram-se-lhe da memória.
Conseguia escutar os acordes da sua música preferida, “Sitting” de Cat Stevens. Alguém deveria ter um rádio… Caminhou numa das direções do muro, cantarolando os versos do poema:
“Oh I'm on my way I know I am, somewhere not so far from here
All I know is what I feel right now, I feel the power growing in my hair
Sitting on my own now by myself, everybody's here with me
I don't need to touch your face to know, I don't need to use my eyes to see”
Sempre se identificara imenso com esta música; sempre se sentira caminhando nalgum sentido, alheio a tudo o que se passava à sua volta.
Nunca sentira a solidão porque pressentia o mundo à sua volta. No seu egoísmo não tinha nada para dar ao mundo, mas ele estava ali para si.
O muro estava abruptamente interrompido por uma enorme arcada sem porta, antes de continuar novamente a perder de vista.
Para lá da arcada era um negrume imenso; impossível divisar fosse o que fosse.
Sentou-se no chão, frente àquela enigmática entrada, como que esperando alguma coisa enquanto a música continuava a ressoar na sua mente:
“I keep on wondering if I sleep too long, will I always wake up the same (or so)?
And keep on wondering if I sleep too much, will I even wake up again or something”
Até agora tudo isto lhe parecia um sonho no qual ele vagueava, eternamente. E, como na canção, podia mesmo perguntar se não estaria a dormir de mais, e se acordasse, ainda seria a mesma pessoa.
No gigantesco umbral pareceu materializar-se uma pessoa; uma jovem morena, pequena e de cabelo curto que o olhou com ar de quem já sabia que ele se encontrava ali.
Sem saber como, percebeu que a sua espera terminara e ergueu-se enquanto ela se aproximava em passos pequenos e suaves.
-        Está na hora. – A sua voz soou, como uma doce melodia, acompanhada de um sorriso compreensivo para o seu ar de confusão. – Segue-me,  podes deixar aí a bicicleta. - Voltou-lhe as costas e começou a caminhar na direção do portal.
Ele olhou para o chão, a seu lado, onde jazia a sua bicicleta retorcida e sem a roda da frente.
Largou o capacete quebrado, que não sabia como tinha ido parar às suas mãos e só então foi atingido por uma onda de compreensão.
Avançou atrás da jovem e penetrando na fria escuridão. Antes, porém, deitou um último olhar para as nuvens, onde o rosto entristecido de Cristina ainda se divisava, e murmurou: - Adeus, meu amor…
Ao longe, o bip bip transformou-se num silvo contínuo durante alguns segundos substituído depois por um bem-vindo silêncio.
Como se mergulhasse nas águas escuras do oceano, a confusão de escuridão e luz que se seguiu apagou todos os restos de medos, dores, solidão…


Cristina ficou ainda mais uns minutos sentada ao lado da cama onde jazia o seu marido. Perdera a noção do tempo.
O pequeno ipod, com os auriculares direcionados para o ouvido de cada um, continuava a tocar Cat Stevens que ele tanto gostava. Esperava que, por milagre, as músicas o trouxessem de volta para algo que ele gostava... Que o trouxessem de volta para ela.
Depois de tanto tempo embalada pelo hipnótico bip bip, ficara em choque quando ele, após várias horas em coma, lhe sussurrou um “Adeus, meu amor”.
Continuava apática quando a pequena enfermeira, morena de olhar triste, desligou o equipamento, cujo apito contínuo anunciava o fim de mais uma vida.