Debaixo dos Céus Os Mundos de Manuel Amaro Mendonça

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Historia Interminavel


Num turbilhão de luz
Dei por mim sem saber como tinha chegado ali.
E tive consciência de quem era.
Criança inocente brincando com o presente acabado de receber.
Sem ter noção das palavras, os dias eram de Verão, aquecidos pelo amor dos pais e dos avós.
Os dias passam-se e cresci.
As palavras fazem parte do dia-a-dia
E centenas de estranhos fazem parte dos meus dias de Primavera
Temperados e doces com os avós longe e os pais a distanciar-se.
Em plena estação conheci o meu amor e deu-se inevitável casamento
Aproximava-se o fim da Primavera quando conheci o meu filho.
Era o fim de uma época quando ele crescia e meus pais se distanciavam
Dias mornos de Outono salteados com chuva.
O mundo muda-se.
Os professores do meu filho são cada vez mais novos e os amigos estão distantes e cada vez menos.
Meu filho cresce e torna-se um homem e a estação está no auge.
Os meus pais são uma memória distante.
O Outono aproxima-se do fim e os dias frios tornam-se uma constante.
As chuvas de Inverno apanham-me em cheio.
Está frio e dói-me o corpo.
Meu filho casou e está longe.
Trouxe-me um neto para que o conhecesse.
Minha esposa, cabelos de neve, cuida de mim e atura pacientemente as minhas casmurrices.
As dores são muitas e os dias intermináveis…
Este Inverno não tem mais fim e eu estou tão cansado.
Não durmo muito com as dores e o ócio embrutece-me e deixa-me sonolento.
Os olhos pesam-me finalmente e ajeito-me para dormir.
Acalmo a cabeça na travesseira perante o olhar cansado mas preocupado do meu amor.
Sorrio para a sossegar e fecho os olhos com um suspiro.
E é um turbilhão de luz numa paz imensa e celestial.
Dei por mim sem saber como tinha chegado ali.
E tive consciência de quem era.
Criança inocente brincando com o presente acabado de receber.
Sem ter noção das palavras, os dias eram de Verão, aquecidos pelo amor dos pais e dos avós.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

As folhas




A vida é uma sucessão de encontros e desencontros.

Como folhas soltas caídas num ribeiro, corremos velozes, num frenesim que não é nosso, na corrente eterna.
Estas folhas, depois de um curto voo, livres, são presas da correria desenfreada da torrente que corre para um e outro rio até chegar ao mar.
Algumas folhas, perdem velocidade e rumo e ficam-se pelas margens, encostadas, abandonadas, vendo as outras passar em grande velocidade até se perderem na distância. Ficam-se até a natureza fazer o seu papel e não restar memória do simples organismo que ali ficou.
Há folhas que correm rápido, pelo lado mais forte da corrente, fazendo curvas apertadas e saltando sobre os seixos, preocupadas em chegar ao fim… mas sem saberem o QUE é o fim. Correm ignorantes do destino mas conscientes que têm de lá chegar... Acabarão por chegar mas sem saber que existiram.
Folhas que, sem se desviar, navegam pelo lado mais lento da corrente, apreciando cada curva, dobrando cada tronco caído, beijando até cada seixo do leito. Têm trajectos longos, contactam muitas folhas e a sua marca em cada uma durará até que a ultima delas desapareça.
Outras, sem rumo, não percebem a corrente nem os seus meandros e deixam-se vaguear em cada remoinho, prender em cada ramo, perdidas do norte e do Objectivo… Estarão lá para sempre, são aquelas que todos vemos mas não reconhecemos.
Durante o seu percurso, algumas folhas encontram-se, tocam-se, para se soltarem no segundo seguinte e seguirem o seu caminho separadas. Em corridas paralelas mas distantes.
Folhas há que colam-se não se soltando mais todo o percurso, vivendo num eterno rodopiar uma em volta da outra numa valsa silenciosa.
Mas há folhas, que estando muitas vezes sozinhas, flutuam em pequenos grupos que se vão tocando e revezando entre si sem ficarem presas… Nem completamente livres.
E a corrente plena de folhas continuará a chilrear por entre os seixos da planície até que a árvore, velha de anos, caia sob o seu próprio peso e novos ramos de outras árvores soltem novas torrentes de folhas.