Debaixo dos Céus Os Mundos de Manuel Amaro Mendonça

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Rute - 4ª parte - O fim do mistério




No dia seguinte, acordou decidido. Barbeou-se, tomou um banho, preparou uma mala pequena com algumas peças de roupa e saiu para a rua: Não haveriam de lhe deitar a mão sem encontrar Rute.
O céu estava forrado a nuvens escuras, ameaçando o mundo com um novo dilúvio que toda a gente parecia ignorar. Ao longe, escutavam-se já trovões.
O primeiro passo foi ir ter com um amigo na repartição de finanças e lá obteve as informações fiscais dela, (tinha mudado de residência por várias vezes e a esta hora não deveria já estar na última indicada) mas havia outra informação importante; o nome e a morada do escritório de advogados do ex-marido.
Pediu para marcar um encontro com ele, através da secretária do escritório. Alegou “assuntos do seu interesse, relacionados com a sua ex-esposa” e deixou o número do telemóvel.
Menos de vinte minutos depois recebia uma chamada:
-         Boa tarde! Meu nome é Aníbal Silveira. Ligou há pouco com a minha secretária, pode esclarecer-me qual é o assunto? Não tenho nada a ver com a minha ex-mulher e não tenho nenhum contacto com ela, há alguns anos. Inclusivamente, já enviei cartas para os principais bancos e para as finanças a isentar-me de quaisquer responsabilidades com os seus atos e eventuais custos que advenham daí.
-         Boa tarde. Descanse, não pretendo acusá-lo nem responsabilizá-lo de nada. - João tentou acalmar o interlocutor. – Simplesmente há um assunto para resolver com a Rute e não consigo contactá-la.
-         Já tentou o apartamento na rua Cinco de maio? - A voz continuava na defensiva.
-         Não sabia que tinha um apartamento nessa morada, a última que tenho é na rua da Beira Alta. - Mentiu, dando a morada anterior à Cinco de maio que constava da sua lista. Aníbal, por uns segundos, ficou em silêncio antes de perguntar: :
-         Pode vir ao meu escritório agora? Quero conversar com mais calma.
-         Com certeza, dentro de dez minutos estarei aí. Obrigado e  até já.
O escritório ficava num edifício elegante e as instalações tinham um aspeto usado, mas de bom gosto. Não era uma firma qualquer, via-se que deveria ter muitos (ou pelo menos bons) clientes.
Não tardou muito, após se apresentar à rececionista, até ser chamado a um gabinete.
A sala era ampla, mas mais parecida com um escritório de uma casa particular do que com o de  uma firma. Havia à esquerda uma estante enorme cheia de livros, uma lareira e um conjunto de sofás em pele, voltados em semicírculo para ela. Mesmo em frente, a alguns metros da entrada, uma imponente secretária em madeira maciça bem envernizada, mas de aspeto antigo. Encostada a ela, um homem alto de cabelos platinados, aguardava em pé com os braços cruzados sobre o peito.
João aproximou-se em passos largos e esticou a mão apresentando-se:
-         João Ferreira, muito obrigado por ter a amabilidade de  me receber.
-         Aníbal Silveira, muito prazer. Queira sentar-se por favor. - O anfitrião aceitou a mão estendida, após o que indicou os sofás.
Sentaram-se ambos e João mudou várias vezes de posição enquanto ganhava tempo, sem saber como começar.
-         O senhor é da polícia? - Aníbal sentou-se num gesto apenas, ficando estático no sofá, de costas direitas. - Investigador? Advogado?
-         Não, não!. - Desmentiu rapidamente – Sou um ex-colega de trabalho que tem uma necessidade urgente de a encontrar para resolver uns assuntos pendentes;  ela abandonou o emprego e ninguém sabe onde a encontrar.
-         Lamento dizer-lhe isto, mas se ela desapareceu assim de repente, quer dizer que já fez uma malandragem qualquer e tratou de desaparecer de circulação. E o facto de você estar aqui, não sendo nenhum dos três tipos de pessoas que enunciei, então quer dizer que, ou é vítima ou achava que era cúmplice. Perdoe-me a franqueza.
João olhou aquele homem, conhecedor de todas as vertentes do problema que era Rute.
-         Não sei bem por onde começar. - João rendeu-se.
-         Podemos começar pelo princípio. Aceita uma bebida? - O anfitrião ergueu-se para servir, agora que já tinha percebido todo o enredo.
A narrativa da história demorou apenas uns minutos, tendo sido interrompida por algumas perguntas de Aníbal. João foi sincero e narrou praticamente tudo, desde a relação deles até às histórias que ela lhe contara e à forma como teve conhecimento de tudo. No fim, ficaram ambos em silêncio de olhar perdido no copo vazio que mantinham entre as mãos.
Foi Aníbal que interrompeu a meditação e olhando-o nos olhos informou:
-         Não há uma maneira simpática de dizer o que tenho a dizer. Por isso aqui vai; Rute é uma vigarista e uma ladra. - Fez uma pausa para que a afirmação fosse digerida. - Não foi sempre assim. Quando casamos, ela trabalhava neste escritório na contabilidade, era altamente eficiente e honesta. O seu trabalho era muito apreciado por todos.
Dirigiu-se para a janela atrás da secretária e, de costas, continuou:
-         Tudo começou quando apareceu o irmão dela. Estava desaparecido há uns tempos e regressara, vindo de uma cura de desintoxicação. Tinha uma relação muito próxima com ela e ficou a viver lá em casa, connosco, durante algum tempo. Os problemas começaram a partir daí.
Relembrar aquele período estava a ser tremendamente penoso, mas ao fim e ao cabo, mesmo indo embora, Rute nunca saíra da sua vida com os constantes ecos das suas tropelias. Continuou:
-         Começou a desaparecer a meio do expediente e a deixar trabalhos por concluir ou com defeitos. Como era minha esposa, os restantes empregados evitavam de dizer fosse o que fosse e acabavam encobrindo as suas ausências e os trabalhos mal feitos. – Tossiu para clarear a voz .– Andava constantemente com o irmão e gradualmente o desleixo começou a invadir o lar… Não dava instruções, à empregada, para as refeições e não lhe pagava. Já não fazíamos amor. Estava sempre com sono ou já dormia quando eu me deitava.
-         Então não reclamava? – João interveio.
-         No início não me apercebia de tudo. O facto de estar uma fase sem sexo não era muito grave. Era mesmo isso, uma fase. Mas, um dia a empregada veio falar comigo e contou-me que não recebia há dois meses e que a senhora quase não falava com ela e quando lhe perguntava as ordens para as refeições respondia “Qualquer coisa”. Paguei-lhe, pedi-lhe desculpas… e fiquei preocupado.
-         E mesmo assim não falaste com ela?.
-         Tentei puxar conversa para ver o que dizia. Mas respondeu com incongruências e queixas sem sentido a meu respeito e do meu trabalho excessivo e falta de atenção para com ela.… Enfim, a culpa era minha. E se calhar era. Com as filhas no colégio ela deveria sentir-se muito sozinha.
Aníbal quedou-se um pouco em silêncio, olhando pela janela e continuando de costas para o seu interlocutor:
-         Um dia, no escritório, um dos meus sócios abordou-me por causa de algo que lhe chegou aos ouvidos; o comportamento de Rute nos últimos meses.
Não estava preparado para ouvir o que ouvi. Havia de tudo, maus tratos verbais ao pessoal, desleixo, falta de profissionalismo geral e… desvio de fundos.
Furioso, procurei-a no escritório;, claro que não estava lá.  Corri para casa  e  entrei como um furacão, dirigindo-me até à sala onde ouvia vozes. Sentia-se um cheiro estranho, adocicado e havia fumo no ar. Foi então que os vi. - Não conseguiu reter um suspiro. – Enrolados, dois amantes… irmãos. Os charros fumegantes, sabe-se lá de que porcarias, que estavam a fumar criavam uma atmosfera nublosa e irreal. Mas eu não conseguia parar de olhar, paralisado. Até que ela me viu.
Cobriu-se como pôde,  chorou, implorou, arranjou desculpas e explicações esfarrapadas, para algo que a minha mente ainda se recusava a aceitar.
Por fim, consegui recuperar o autocontrolo e com a voz que consegui arranjar disse-lhe que queria os dois fora da minha casa imediatamente. Ela passou das súplicas às ameaças e por fim deu-me um estalo ao qual   eu respondi com toda a raiva que me dilacerava a alma. Ela caiu e aquele animal, que era o irmão dela, atirou-se a mim e lutámos. Ele era mais novo, mas não estava com todas as faculdades e dei-lhe uma grande tareia enquanto ela gritava como  cabra que é.
Em seguida, fui buscar a minha arma e só lhes dei tempo para se vestirem,  antes de  os pôr fora da porta.
Ela apresentou queixa por maus tratos e eu exigi o divórcio que se arrastou por vários anos. Eu consegui a casa, mas ela levou-me um dos carros (o meu) e muito dinheiro.
De vez em quando, chegam-me notícias das patifarias daquele par; mais umas pessoas enganadas e roubadas e a polícia acaba sempre por me vir bater à porta a fazer perguntas.
… O resto é a sua história.
João estava sem palavras. Não conseguia digerir toda aquela informação e ainda estava de boca aberta a olhar o seu anfitrião, quando ele se voltou e, de lágrimas nos olhos,  acrescentou:
-         Ah, já me esquecia, realmente temos duas meninas maravilhosas num colégio interno caríssimo. Rute nunca foi uma mãe extremosa e ficou felicíssima com a ideia de se ver livre delas e da responsabilidade de as educar. Sim, aquele colégio foi exigência minha mas sou EU quem está a  pagar, nunca ela.
Agora, se não se importa, gostaria de ficar sozinho.
-         Com certeza. – O aturdido João levantou-se meio trôpego sem saber o que mais dizer e encaminhou-se para a entrada balbuciando – Obrigado pela sua ajuda.
-         Espere!. – Aníbal abriu a gaveta da secretária e trouxe junto dele, já à porta, um papel e algo envolvido num pano de camurça castanha. – Este papel tem a morada de um apartamento meu que sei que eles utilizam de vez em quando e aqui... – mostrou o embrulho – está uma arma que comprei no mercado negro, sem número de série, para matar aqueles dois canalhas… nunca tive coragem. Leve-a, pode precisar de se defender. E agora, adeus.
Suave, mas firmemente, empurrou-o para fora do gabinete.


5ª e última parte

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Rute - 3ª parte - O golpe

Regressar a 2ª parte




Os meses foram correndo e as coisas pareceram voltar ao normal. Ela continuava a não dormir no apartamento dele nem a querer mudar-se, mas jantavam juntos e lá passavam parte da noite .
No emprego, ela ia tomando cada vez mais as rédeas dos trabalhos e, com a  permissividade dele, tomava decisões com o resto da equipa.
João começava agora a ter uma vida mais descansada e, ao contrário do que teria imaginado, estava a gostar.
Por fim, chegaram as férias e não podiam ausentar-se ambos ao mesmo tempo por isso adiaram o mais que puderam. Era já outubro quando se permitiu gozar três merecidas semanas. Nos outros anos, ele quase não tinha senão um dia ou dois espaçados, pois ia ao escritório quase todos dias; agora sim, seriam férias.
Os fins de tarde eram os melhores. Ela saía do emprego, correndo para os seus braços, para umas horas de amor e para o jantar,  sendo esse o momento em que Rute o punha ao corrente de todas as novidades.
Assim se passaram quase duas semanas até que João recebeu um telefonema de um primo que vivia na aldeia transmontana, de onde ele era oriundo; tinha de se deslocar lá para acertarem alguns documentos de propriedades adquiridas aos pais de João e assinar títulos em falta.
Foi com pesar que se despediu da sua amada. Promessas de amor, de telefonemas diários e juras de memória eternas, como se fossem separar-se por alguns anos... E não apenas por um par de dias.
A viagem foi mais rápida do que ele imaginara e, fruto de dois dias de muita atividade entre conservatórias e advogados, não estranhou muito a ausência do contacto de Rute. Quando tentou ligar-lhe pelo telemóvel, no comboio de regresso e ela não atendeu  ficou cismado; e mais ainda com o passar das horas sem que lhe devolvesse a chamada.… Teria acontecido alguma coisa? E ele que nunca fora a casa dela (ela sempre o demoveu) e nem tinha nenhum número fixo com que a contactar.
Passou uma noite infernal, tentando imaginar o que teria acontecido . Ela nunca tinha deixado passar um dia sem falar com ele…
No outro dia, logo pela manhã, dirigiu-se ao escritório e cumprimentou um grupo de colegas, boquiabertos à sua chegada, que lhe responderam com monossílabos hesitantes.
Não percebeu o espanto, mas a sua preocupação era outra e dirigiu-se rapidamente para o seu gabinete, cuja secretária estava impecavelmente vazia. Os usuais montes que continham o seu trabalho haviam desaparecido.
Após pensar um pouco, voltou-se para se ver de caras com um dos seus colegas, o Faria. Nunca teve nenhuma simpatia por aquele indivíduo que apresentava ar de superioridade e desprezo pela raça humana. :
-         Que se passa aqui? – Perguntou – Onde está a Rute?
Faria pareceu ficar surpreendido:
-         Não a viste? Há quanto tempo não falas com ela?
-         Há dois dias, mais ou menos. Onde está?
-         Não sei. Julguei que estarias com ela. – O ar de surpreendido foi novamente substituído pelo de superioridade trocista. – O patrão quer falar contigo. É para ir já ao gabinete dele.
Por um instante, João esteve para descarregar a sua fúria numas quantas palavras de “apreço” pela atitude que esta abominável criatura fazia questão de exibir, mas conteve-se, virou-lhe simplesmente as costas e dirigiu-se para o gabinete do patrão.
A porta estava aberta e Fernandes  estava sentado de costas direitas virado para ela. Aguardava-o.
-         Dá-me licença?
O rosto inexpressivo olhava-o de frente, parecendo hesitar antes de responder:
-         Entre e feche a porta.
O tom ríspido nunca fora empregue com ele. Os seus sentidos disparavam campainhas de alarme. Obedeceu.
Não foi convidado a sentar e manteve-se de  pé, em frente à secretária, sentindo-se um pobre coitado prestes a ser repreendido sem saber por que razão. Ele continuou a olhá-lo, da sua cadeira de braços, almofadada a couro genuíno, como que perguntando-se por onde começar.
-         Mandou-me chamar? – João deu o mote.
-         Não foi preciso. Você veio de vontade própria. – O tom continuava agressivo mas ao mesmo tempo surpreso. – Não tem nada para me dizer?
-         Dizer? - O espanto crescia dentro dele. – Não sei o que se passa. Estou de férias, lembra-se? Vinha procurar a Rute…
-         A Rute? . Quer dizer que a sua gaja não falou consigo?
Sentiu o sangue ferver nas veias com o insulto, mas conseguiu controlar-se o suficiente para inquirir:
-         Não sei sobre o que se está a falar. A Rute não é a minha gaja, mas sim  uma senhora que lhe merece respeito! Agradecia que não falasse dela, desse modo.
-         Não costumo respeitar as pessoas que me roubam! – Gritou erguendo-se. – Se me roubam, não me respeitam.
-         Roubar? – A voz tremeu-lhe – Não percebo.
-         Mas você continua nisso? Faz-se de “sonso”? Está tudo descoberto! O Faria descobriu a “marosca” que vocês os dois estavam a fazer. Faturas falsas, pagamentos a fornecedores inexistentes, o diabo! Este tempo todo a trabalhar para mim e faz-me uma desfeita destas. Só ainda não deu com os ossos na cadeia porque quero acreditar que esta puta lhe deu a volta à cabeça e que antes dela você era um homem honesto.
O coração parecia querer sair-lhe do peito, batendo furiosamente, latejando na garganta, na cabeça, nas mãos…
-         Então? – Fernandes insistia ante a falta de resposta dele. – Não tem nada a dizer? Neste momento, o Faria, está a auditar todas as contas dos anos anteriores para  verificar há quantos anos isto se passa.
-         Não vai encontrar nada… - A voz sumida quase nem se ouvia, enquanto desviava o olhar e desapertava o colarinho que parecia estrangulá-lo.
-         Ferreira, ou melhor, João... – Pareceu acalmar-se um pouco enquanto se dirigia para ele e lhe agarrava um braço. – Diga-me que não tem nada a ver com isto. Diga-me que não traiu a minha confiança e que essa cabra nos enganou a todos.
O olhar que deitou ao patrão, com as lágrimas a querer irromper, parecia o de um alucinado. Olhos esbugalhados e vermelhos, pupilas dilatadas e peito arfante. As pernas tremiam-lhe, ameaçando falhar a todo o momento.
-         Diga-me. – Implorou mais suave. – Diga-me que não está metido nisto. Chamamos a polícia para que vá atrás dela e tudo voltará a ser como antes.
-         A policia não!. – Conseguiu rouquejar em voz sumida – Por favor, policia não!. Diga-me onde ela está. Tem que ser um mal-entendido.
Fernandes voltou-lhe as costas e caminhou lentamente até à parede. Aí, após o que pareceram uns segundos de reflexão, olhou-o de frente resmungando:
-         Você é mais imbecil do que eu pensava. Deixou que um rabo de saias lhe “comesse” o juízo. Deixou-se pensar com a cabeça errada este tempo todo.! Idiota! Vá-se embora da minha vista! Vá procurar a gaja,. ela disse que ia ter consigo. Disse que já não tinham  dinheiro para devolver o que roubaram e que se preparavam para sair do país, você e ela. Na hora, só não chamei a polícia por sua causa. Sou tão estúpido, esperava que você desmentisse tudo.
-         Não é o que parece… Não pode ser! - Gemeu – Eu vou procurá-la e trago-a cá novamente, tem que haver uma explicação...
-         Vá-se embora! – Gritou de novo – Ponha-se a andar da minha vista. Considere o facto de o não mandar prender agora mesmo como uma recompensa pelos anos que me serviu honestamente, penso eu. E vá procurar essa puta. Na minha ideia já está longe há muito. Enganou-nos a ambos. Desapareça da minha vista que eu vou participar isto e depois serão vocês e as autoridades. Rua!!!
Abandonou o gabinete como um sonâmbulo e atravessou o escritório, por entre os ex-colegas, sem nada ver nem ouvir, só conseguindo recuperar as sensações no exterior do edifício.
Corria uma brisa fresca. O ruído dos carros em circulação e das pessoas que passavam atarefadas, trouxe-o de volta à realidade.
Não sabe quantas horas vagueou pelas ruas, mas já era noite quando deu por si à porta de casa. Entrou, atirou-se para cima do sofá e adormeceu profundamente.