Debaixo dos Céus Os Mundos de Manuel Amaro Mendonça

segunda-feira, 13 de abril de 2015


Corrécio 3ª parte - Vida dura



Regressar a 2ª parte




-         Zé!, Ò Zé. - A voz chegava longínqua, estridente, a querer arrancá-lo do doce torpor em que se encontrava. - Zé, acorda, homem de Deus que já nasceu o sol faz tempo.
-         Que queres? - Rosnou mal humorado, soerguendo-se.
-         Acorda, que já está todo o povo p'rá vindima. Esta noite fechaste as portadas e eu não senti o sol nascer nem o cantar do galo.
A mulher de rosto redondo, já vestida, lenço colorido na cabeça, corpete, blusa branca e saia rodada de cotim, chamava-o preocupada.
-         E que queres que te faça? - Sentou-se na borda da cama vestido apenas com as ceroulas e com os pés descalços nas tábuas do soalho – Tou cá com uns azeites que se não fosse por nada nem ia trabalhar... - Esfregou os olhos.
A mulher fitou o corpo pálido, com vários hematomas, do marido. As mãos que esfregavam os olhos e desapareciam debaixo da cabeleira encaracolada negra tinham feridas nos nós dos dedos.
-         Andaste outra vez à bulha, Zé Corrécio, excomungado! - Exclamou ela.
-         E se andei? - Ergueu-se e empurrou-a violentamente para o lado erguendo a mão como se a fosse esbofetear.
Ela encolheu-se à espera da bofetada mas ele mudou de ideias e com novo empurrão dirigiu-se à bacia da água em barro que estava pousada na cómoda ao lado do jarrão do mesmo material.
Já se haviam passado cerca de oito anos desde que se casaram e o seu comportamento para com ela alternara sempre entre a indiferença e a brutalidade com sexo embriagado à mistura.
Ela era a filha do taberneiro, mais nova que ele e em quem ele não reparava. Ele era o Zé Corrécio, brigão, valente, que levara uma “saronda” do velho fidalgo por lhe andar a rondar a filha.
Aos seus olhos ele era admirável, mesmo quando se envolvia nas rixas, que ganhava a maior parte das vezes, e era corrido da taberna pelo seu pai, João Francisco, que apesar de tudo sempre respeitou.
Um dia, os oponentes eram três e ele levou uma “malha” tão grande que ficou desacordado no chão. Foi o ti João taberneiro que correu com os adversários a varapau, salvando-lhe a vida.
Como os pais do Zé Corrécio não lhe falavam há algum tempo devido às “vergonhas” que este lhes fazia passar com bebedeiras e rixas constantes,  João Francisco e a mulher Mariana de Jesus acolheram-no, temporariamente, num dos quartos da taberna que também servia de estalagem.
Calhou a Maria dos Anjos, felicíssima com a sua sorte, a maior parte do trabalho de cuidar do ferido. Este, com os desvelos da jovem, recuperou rapidamente e reparou finalmente na admiração de que era alvo.
Assim que se encontrou melhor, ti Mariana achou por bem que o jovem voltasse para o casebre onde vivia e saísse de ao pé da sua filha virgem e casadoira.
Era já tarde, porém. Maria dos Anjos estava grávida.
Embora furiosos, os taberneiros viram-se obrigados a a falar com os pais do José e obrigarem o jovem a corrigir a “sua falta” e casar com Maria dos Anjos.
Tantos anos depois, ela ainda não conseguia deixar de amar aquele homem que nada fazia para alimentar esse amor.
Ele lavou o rosto com ruído enquanto ela, perdido o medo, o observava desaprovadoramente de mãos na cinta:
-         A  minha mãe disse que o meu pai te ia proibir de ir lá beber à taberna se tornasses  a armar tourada por aquelas bandas.
-         Sossega Maria dos Anjos... Não foi na taberna. Foi mais um ajuste de contas com um tratante, mas agora já está tudo em pratos limpos. Prepara aí uma côdea, vá, que tenho que ir. - Exigiu enquanto vestia a camisa e as calças.
Preocupada, a mulher obedeceu e foi à cozinha preparar uma lasca grossa de pão centeio e uma fatia de presunto que dobrou cuidadosamente num retalho de pano. Ao lado depositou uma maçã (que sabia que ele não levaria) e a bota com o vinho que não podia faltar.
Ele pegou a colher e a malga de madeira com a sopa fria e comeu tudo em quatro colheradas.
-         E a canalha? - Ele perguntou ao pegar na merenda e limpando a boca com a manga da camisa – Não os acordas?
-         Não. Estou atrasada a ti Luísa depois vem a trazer-lhes de comer e a vesti-los. - Referiam-se aos filhos Olinda e João de cinco e sete anos respetivamente.
-         Vê lá se começas a por os ganapos a fazer alguma coisa. Não me cries aqui dois madraços ou encho-te de lambadas. - E enquanto fazia esta ameaça, pegou a faca de cozinha que estava em cima da mesa e prendeu-a na cintas.
Saiu, batendo a porta com estrondo e logo se ouviram soar as tamancas de madeira ritmadamente pelo caminho.
A passo, pôs o chapéu em palha com abas largas, que detestava, na cabeça e correu pelo canelho para buscar o cavalo.
Chegado à vinha, já toda a gente trabalhava em bom ritmo e teve que ouvir um “ralhete” do capataz antes de pegar ao trabalho, advertindo-o que, se tornasse a atrasar-se, escusava de aparecer.
João bem sabia que só trabalhava naquelas vindimas porque  pertenciam ao marido de Paula, o Dr Henrique de Mello, desde o casamento com ela. Se continuassem na posse do velho Sampaio, não haveria ali nada para ele.
Ensonado, começou as suas “caminhadas” com o cavalo carregado até à carroça com as dornas.
Demorava cerca de vinte minutos em cada viagem de ida e volta e conseguiu fazer quase dez viagens antes de darem ordens para parar para o “mata-bicho”.
Todos os trabalhadores se reuniram nas paredes que compunham os socalcos para fazerem um pequeno intervalo e comerem alguma coisa que trouxessem ou simplesmente descansarem um pouco.
Zé manteve-se, como sempre, sozinho. Roeu a côdea e mordeu o presunto que acompanhou com umas goladas do tinto granjeado por ele e por seu pai com quem tinha reatado alguns anos atrás.
De repente notou que o Zé Sardinheiro e o Quim da Ribeira falavam em sussurros deitando-lhe olhares de soslaio.
-         Que foi? Não vos chega a bucha? Querem a palha do meu chapéu? - Zé provocou. - Ou alguém quer acabar o que começamos ontem?
O Quim da Ribeira virou-lhe as costas com uma expressão de desprezo mas o Zé Sardinheiro retrucou, jocoso e ignorando a ameaça:
-         A menina Paula não te veio ver hoje.
Corou e deitou-lhe um olhar furioso. Olhou demoradamente a faca de cozinha com que estava a cortar o presunto antes de responder:
-         E que te dá a ti? Se a esposa do Dr. Henrique Mello vem ou não ver-me?
-         Cá a mim, nada, é verdade. Isso lá terá que ser entre vocês os três... ou os quatro. - O Sardinheiro soltou uma gargalhada.
-         Sabes porque a menina não veio hoje? - Meteu-se o Quim – Porque já andou o povo todo montes fora à “pregunta” dela. Desapareceu esta noite de casa. Com cavalo e tudo.
-         Chegou-se a dizer que tinhas culpas no cartório. - Tornou o Sardinheiro – A tua sorte é que aqui o Quim te viu chegar bêbado a casa tarde na noite.
Zé olhou os dois homens, cada vez mais furioso.
-         Se tivesses sido tu que andavas a larpar a menina, era agora que o Doutor te mandava chegar uns chumbos ao coiro. - Assegurou Quim e ambos riram com vontade. - Tás a dever-me um copo!
A cacofonia para de repente quando se apercebem do ar ameaçador de Zé, com a faca em punho, preparando-se para espetar alguém.
-         Quietos! Que é lá isso? Não quero cá merdas! - O capataz, Francisco da Mata, que acabava de chegar intervém no momento certo. - Zé Corrécio, poisa lá a faca das cebolas. Se fazes baderna aqui vais já corrido pra casa.
-         Essas duas comadres não têm que fazer e estão a pedir umas cabeçadas... ou uma facada no bucho. - Zé rosnou, sem baixar a guarda, agastado por Francisco ter usado usado a sua alcunha, que era coisa que poucos se atreviam a fazer.
-         É verdade o que eles dizem. - Asseverou o capataz – A mulher do Doutor desapareceu esta noite. Mas já se sabe mais. Acharam o cavalo dela preso ao pé da estação do comboio... o dela e o do Manuel Pinho, da aldeia vizinha. Devem ter apanhado o primeiro comboio da manhã. Nunca mais ninguém os vê.
-         A sério? - O Sardinheiro não queria acreditar – O Manel Seminarista e a menina Paula? Ora quem haveria de dizer, o santinho de pau oco.
-         Os pais dele estão uma tristeza só. - Continuou o Francisco – Ele deitou-lhes a mão a um monte de dinheiro e foi-se embora.
-         Roubou o dinheiro aos pais e a mulher ao Doutor Mello. - Riu-se alto o Quim.
-         Pouco barulho, fala baixo que te ouvem, boca de lavagem. Agora vamos mas é ao trabalho que se faz tarde. - Admoestou o capataz antes de levantar a voz e gritar – Ao trabalho! Todos ao trabalho.
Durante todo este diálogo final Zé, como se não lhe interessasse a conversa, embrulhou o que restava da merenda, bebeu um trago de vinho e virou-lhes as costas.
Carregou o cavalo com mais quatro cestos e começou a subida íngreme tomando o cuidado de guiar o animal pelas pedras menos escorregadias.




Corrécio 2ª parte - A Tentadora e os Provocadores


Regressar a 1ª parte



Zé olhou Paula no olhos. Ela no alto da sua montada, senhoril e ele suado e com roupas remendadas. Não havia duvidas que pertenciam a mundos diferentes:
-         Depois de tantos anos afastados, – Ele tentou concluir – vossa senhoria casada com o meu patrão, não espera que tome liberdades...
-         Zé. - Ela insistiu – Sou eu, a Paula, que brincava contigo em miúda... Que desafiava a autoridade do pai para se encontrar contigo. Houve demasiado entre nós para que me desprezes desta forma. Sabes que não casei por minha vontade.
-         Não, não sei. - Cortou olhando-a nos olhos – O que sei é que te foste e não voltaste senão casada com esse homem... porque é rico... e eu sou pobre.
-         Não digas isso, por favor. Eu não sou feliz sabes? - Os olhos verdes humedeceram-se – Passaram-se tantas coisas desde que nos afastaram... eu era muito jovem, não poderia desobedecer ao meu pai.
-         Sim, passaram. - Concordou ele baixando os olhos e deixando transparecer a dor que permanecia no seu coração – Passaram uns ossos partidos, o teu afastamento, o ódio do teu pai e a desaprovação do meu... que nunca me perdoou tê-lo desonrado para com o homem com quem estava desavindo. Casaste e depois também eu casei. Se antes estavas apenas demasiado alta para mim, agora estás inatingível. Vai-te, faz de conta que não nos encontramos e não nos arranjes problemas.
-         Um casamento – sentenciou ela – a maior parte das vezes não passa de umas palavras memorizadas ditas sem convicção a um representante de Deus sem vocação. O meu não foi diferente. Henrique é um bruto egoísta e não quer saber de mim para nada... para ele sou apenas mais uma propriedade que ganhou quando fez o sacrifício de casar comigo.
-         Deixa-o. - Um brilho de esperança reluziu nos olhos castanhos de José. - Foge comigo. Também eu vivo uma vida que não é a minha, suspirando pelos momentos que passamos juntos.
-         Meu querido. - Havia lágrimas nos olhos dela – Passaram-se mesmo muitas coisas desde o “nosso tempo” que já acabou. Vêm-se outros locais, conhecem-se outras pessoas... aquilo que quero de ti é apenas que me recordes sempre com esse amor que vejo em teus olhos... e não me julgues, seja o que for que te digam a meu respeito.
Tocou a égua com o pingalim e afastou-se sob o olhar espantado de José que se quedou vendo-a afastar-se na direção da aldeia vizinha, como nos dois dias anteriores.
Entretanto, outro dos seus companheiros aproximava-se com nova carga:
-         O capataz está de olho em ti, Zé, mexe-te.
-         Manel. - José retorquiu rapidamente – Leva-me aqui o Catita e ata-mo lá na carreta que eu tenho que ir aliviar a tripa... muito depressa.
Manuel, preocupado, olhou a jovem Paula a desaparecer na curva do caminho antes de fitar o companheiro para que ele percebesse que não o enganara:
-         Está bem, vai lá, mas vê se fazes “o teu trabalho” depressa e o deixas de modo que o fedor não nos chegue ao nariz... ou nos emporcalhe.
E com esta recomendação amarrou a rédea do Catita ao seu próprio cavalo e retomou a subida sem olhar para trás.
José saltou agilmente para o pinheiral que ladeava a face mais elevada do caminho e desapareceu de vista.
Por entre as árvores e o mato agreste, evitando os caminhos, ele foi progredindo com dificuldade até ao topo do monte de onde podia ver a totalidade do atalho que conduzia à aldeia. Não havia sinal de Paula... e não tivera tempo de chegar ao povoado.
Caminhou cautelosamente até escutar vozes e aproximando-se viu, numa clareira Paula abraçada a um homem que não conseguia perceber quem era por estar de costas.
Por trás deles, a clareira abria-se para o vazio e um penhasco de várias dezenas de metros até às fragas do rio fazia o limite da pequena área onde os dois se encontravam.
Contornou a clareira ocultando-se na vegetação até conseguir perceber o que diziam:
-         … tenho já tudo preparado. - A voz de baixo do homem ouvia-se com dificuldade – Sei onde está o dinheiro e tenho alguma roupa numa trouxa pronta a agarrar e correr. E tu?
-         Tenho alguma roupa escondida também, assim como uma roupa de homem, uma boina e umas botas que consegui surripiar a um dos pobres coitados que trabalha para nós. - Paula falava com a voz tremente mas aparentemente feliz – Vestida de homem, ninguém desconfiará... ninguém reparará em dois homens a viajar no comboio.
-         Quando sair daqui vou comprar os bilhetes... - Calaram-se enquanto se beijavam ternamente.
À medida que rodavam, José conseguiu vislumbrar o bigode e a barba loiros e finos. Estava identificado o seu rival; era o Manuel de Pinho, filho dum casal de lavradores abastados da aldeia vizinha... andava no seminário no Porto e por isso chamavam-lhe Manel Seminarista. Belo padre que iria sair dali.
-         Amanhã – recomeçou o homem – Vens ter aqui antes do nascer do sol. Deves sair já vestida à homem, para que não chames a atenção a algum vadio que para aí ande, mas traz a tua roupa numa trouxa. Assim, nunca pensarão procurar-te vestida de homem.
Envolveram-se novamente em beijos e caricias que rapidamente evoluíram. Depressa a saia dela era erguida e ele possuía-a, em pé, encostados a um pinheiro, num coro de gemidos abafados.
José não queria ver mais.
Foi-se embora tão silenciosamente como chegara e passou o resto do dia acabrunhado e de dentes cerrados falando apenas quando era estritamente necessário.
Terminado o trabalho, depois de cuidar do Catita, passou pela taberna antes de ir para casa jantar. Tinha bebido o vinho todo que levara e não comera quase nada... sentia-se um pouco tonto e a calçada, ainda quente do sol, parecia oscilante.
Na entrada da taberna do ti João já estavam reunidos vários homens que falavam e riam em altas vozes. O João Sardinheiro e o Quim da Ribeira eram dois deles, não pegavam no trabalho com muito empenho mas eram lestos a deixa-lo, por isso já se encontravam ali há algum tempo.
Passou por eles, cumprimentou com um breve aceno de cabeça, deitou um olhar de soslaio ao sorriso escarninho do Sardinheiro e entrou na taberna.
O interior era escuro e apenas umas poucas velas davam alguma luz às paredes enegrecidas por décadas do fumo da lareira que acendiam nos dias frios. Três mesas com os respetivos bancos corridos preenchiam o espaço em conjunto com o balcão sebento de milhares de mãos que pousavam moedas e levantavam géneros.
Por trás do balcão, uma fiada de pipas servia de pano de fundo aos seus sogros, ti João e ti Mariana, para matar a sede aos trabalhadores.
Pediu um púcaro de tinto com um seco “boas tardes”, pagou e saiu novamente, que fazia muito calor no interior. A sua relação com os sogros não era a melhor; o casamento não lhes agradava porque José bebia muito, era briguento e constava que não tratava a filha deles da melhor maneira.

Sentou-se sozinho à direita da porta nas grandes pedras que lá existiam para o efeito.
-         Então Zé? - O Quim da Ribeira estava ansioso por novidades e com a sua voz de gozo inquiria – Estás triste? Correu-te mal o dia?
-         Quieto, que o homem tá aborrecido. - Brincou o Sardinheiro por entre os sorrisos dos companheiros e um olhar de ódio de Zé.
-         Não te “emplouricaste” hoje na tua menina? - Insistiu o Quim.
-         Já vos avisei para acabarem com a “ladradeira” sobre mim, “lapouços” da merda. - Zé ameaçou engolindo o conteúdo do púcaro de barro em duas longas goladas.
-         “Lapouços”? - O Sardinheiro indignou-se e deu um passo em frente enquanto os outros riam. - “Lapouço” és tu, seu lambão, que andas aí a ver se “larpas” a Paulinha... O Dr Henrique que te pilhe...
Não conseguiu acabar a frase porque José, que entretanto se levantara, assestara-lhe um soco no peito que o deixou sem fôlego.
Quando Quim tentou avançar na direção do agressor, este colocou a lâmina trabalhada da sua faca ao pé do nariz do valente:
-         Conheces esta? Já ta mostrei várias vezes, vai ser hoje que “larpas” com ela no bucho?
Perante o recuo cauteloso José começou a afastar-se sem dar as costas aos provocadores.
Ti João, que entretanto alguém tinha ido chamar, apareceu de rompante à porta da taberna empunhando um varapau:
-         Zé! - Avisou
-         Não se apoquente comigo, ti João. Vou-me embora antes que tenha que dar uma “saronda” numa dessas alcoviteiras.
Assim que se achou a uma distância segura, virou costas e afastou-se com os tamancos a ecoar nas paredes das casas.
Irrompeu pela porta da casa como um furacão.
-         Credo em Cruz, homem de Deus! - Exclamou Maria dos Anjos, ocupada a descascar batatas para uma malga em cima da mesa – Assustaste-me.
Sem-se importar em responder à sua mulher, deslocou-se até outra mesa encostada no extremo da cozinha, pegou na cabaça que sabia cheia de vinho e encaminhou-se para a porta.
Maria dos Anjos percebeu logo que ele estava furioso e preparava-se para mais uma bebedeira:
-         Vais te pôr já a “larpar” o vinho? Anda mas é cear, que tá pronto daqui a um “cibo”
-         Não quero comer. - Rouquejou ele com a porta entreaberta, indeciso entre sair ou entrar.
-         Já me disseram que a menina Paula falou contigo hoje. Que te queria? - Quis ela saber sem olhar para ele.
Fora de si, Zé deu-lhe um murro num braço que fez com que a malga e as batatas voassem para o chão.
Ergueu a sua faca e espetou-a com força no tampo da mesa. Os arabescos que decoravam a lâmina reluziram:
-         Já te te avisei, mulher, para não dares ouvidos às “ladradeiras” do povo! Não te metas comigo que ainda faço um desatino. Acabo contigo ou com essas putas que te andam a envenenar.
Arrancou a faca da mesa quase levando-a junto e saiu batendo a porta com estrondo deixando para trás o choro e os insultos gritados pela mulher.



Corrécio 1ª parte - Ecos do passado


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Estava-se numa manhã solarenga de um quente mês de Setembro. O sol brilhava, inclemente, sobre as dezenas de pessoas que se afadigavam por entre as vinhas e em subidas e descidas dos caminhos.
Era difícil de acreditar que ainda há dois dias chovera copiosamente transformando os trilhos em rios e as terras em lodaçais.
Há já três dias que José dos Santos, conhecido por Zé Corrécio, trabalha nas vindimas das terras dos Mello. Ele e todos quantos possuíam cavalos, tinham trabalho garantido nas vindimas dos grandes proprietários com vinhedos longínquos alcantilados nas encostas do rio.
As vinhas do Douro produzem uvas que dão um vinho único, no entanto, o terreno agreste em que são plantadas, tornam a sua colheita uma tarefa digna de Hércules.
Por entre as vinhas, circulam os vindimadores, que vão enchendo os cestos dos carregadores. Estes transportam os cestos pelos caminhos estreitos e de grandes desníveis até os carregarem em cavalos. A partir daí, cada animal transporta-os, em cargas de quatro, conduzido à rédea até ao caminho onde o aguarda a carroça com as dornas. Com as dornas cheias de uvas, faz-se o transporte final até aos lagares onde serão pisadas para produzir o néctar filho da Natureza e do suor dos Homens.
Zé e o seu cavalo, o inseparável Catita, passavam os dias que durasse a vindima a transportar as uvas desde as vinhas até às carroças.
Em todos esses dias, ele pôde ver a esposa do proprietário, Paula Mello, a descer da aldeia com a sua montada pelo caminho que conduzia à aldeia vizinha.
Nos dois primeiros dias, os outros carregadores estavam muito perto e ela limitou-se a uns “Bons dias meus senhores” e um sorriso dirigido a ele. Ontem porém cruzaram-se a meio da ladeira sem ninguém por perto.
Montada à amazona, a jovem estacou a pequena égua parda ao pé de José que guiava o seu possante macho pela arreata.
Ela vestia uma blusa branca aos folhos e uma saia cinza que lhe chegava aos pés. Na graciosa cabeça tinha um chapéu de abas preso por um lenço que a envolvia como um capuz. Os seus olhos verdes reluziam na sombra do chapéu:
-         Olá José. Como tens andado? - A voz suave e quente causou-lhe um arrepio.
-         Como se pode, minha senhora. - Respondeu sem erguer os olhos.
-         Então, Zé. Porque me tratas assim? Fomos criados juntos... depois de tudo o que se passou entre nós...
Ele ergueu os olhos para ela. Havia um brilho de amor e tristeza ao mesmo tempo. O seu rosto, por barbear, tisnado do sol, exibiu uma expressão de adoração enquanto lhe passavam pela cabeça imagens dispersas do passado comum.
Em crianças, o pai do Zé, João Oliveira, era o feitor da Casa dos Sampaio e enquanto os seus dois irmãos mais velhos trabalhavam já, o que podiam, nos diversos ofícios do Solar, ele corria toda a propriedade e toda a casa sem que ninguém lhe pusesse travão. Estava permanentemente junto com a Paulinha, filha de Luís Sampaio. Se encontrasse um deles, o outro não andava longe.
Assim se passaram os anos até que, quando José tinha cerca de doze anos, aconteceu uma grande discussão entre o pai e o patrão, Luís Sampaio. Na sequencia desta, João Oliveira foi despedido e ele e toda a família foram mandados embora da casa do feitor e tiveram que arranjar outra casa na aldeia. Passaram a viver dos parcos rendimentos das pequenas propriedades herdadas e de um terreno comprado uns anos atrás.
Em plena adolescência, viu-se atirado de uma vida boa onde não faltava nada em casa, para uma subsistência difícil. Ali compreendeu que apesar de brincar com a filha dos Sampaio e comer muitas vezes à mesa da família, não era um deles.
A fartura era pouca em casa e o filho mais velho do casal acabou por se ir embora, emigrado para o Porto, em busca de melhores paragens e vida mais fácil, enquanto o seguinte, mais débil, acaba por falecer de uma pneumonia.
Repentinamente filho único, as coisas pareceram melhorar.
Apesar do pai estar proibido de entrar nas propriedades e o capataz avisado para lhe não dar trabalho, José continuou a encontrar-se com Paula, mais ou menos às escondidas e o romance entre os dois jovens florescia.
Alertado para a “perigosa” situação da sua única filha se apaixonar por um pé-rapado e fazer “algo que não tenha remédio”, Luís Sampaio deu ordens para que a filha não andasse mais sozinha, embora nunca a tivesse proibido de ver ou falar com o rapaz.
Os anos passavam-se e José crescia alto e forte, puxado pelo trabalho duro da terra onde se iniciara tarde mas com afinco.
Paula fazia por estar pelo centro da aldeia ao fim da tarde quando os trabalhadores regressavam a casa no inverno ou após o almoço no verão para beneficiar da hora em que todos faziam a sesta e encontrar-se “por acaso” com o jovem agora com dezasseis anos.
Cansados dos jogos de olhares e as poucas palavras a que estavam limitados, numa tarde de verão, Paula aproveitou a sesta da ama para fugir pela janela do quarto e correr para os braços do seu amor de juventude que a esperava na sombra do pinheiral próximo.
Saciaram a fome de anos, mataram o desejo que nascia desde crianças e viveram minutos que foram horas e horas que eram vidas inteiras... muito ou pouco tempo, foi o suficiente para a fuga ser notada e a ama, em pânico, pôr o solar todo em alvoroço atrás da “menina que tinha fugido de casa”.
Quando Paula regressou tinha o pai e mais dois homens preparados para sair pelos montes à sua procura enquanto a mãe e a ama choravam agarradas uma à outra. Um drama tão grande que ela não percebia, nem mesmo quando a mão do pai lhe acertou no rosto com força pela primeira vez na sua vida.
Zé, felicíssimo por seu turno, deu uma volta larga de forma a aparecer na aldeia pelo lado contrário àquele onde estivera.
O sol estonava as pedras da calçada e as paredes das casas causando ondulações de calor que faziam parecer que tudo era irreal. A rua deserta que levava ao centro da aldeia e à sua casa era um forno que o cozia lentamente sem que ele notasse.
Ao chegar à ultima curva já as vozes masculinas iradas se ouviam acompanhados de choros de mulher.
Correu a ver o que se passava e deparou com Luís Sampaio, de pistola em punho, acompanhado de dois dos seus trabalhadores, a gritar furioso com seu pai enquanto a mãe gritava desesperada à porta de casa.
O jovem correu a postar-se na frente do fidalgo:
-         Senhor Sampaio. - Interpelou assustado, com o rosto afogueado e a transpiração a escorrer por baixo do chapéu braguês preto. - Que aconteceu? Que fez o meu pai a vossa Senhoria?
O olhar baço fixou-se no rapaz, o homem que se tornava a partir da criança que permitira que brincasse em sua casa, com a sua filha. A sua menina!
-         Que fez o teu pai, celerado? Que fez o teu pai, seu bandido, seu corrécio? - O velho fidalgo que tantas vezes vira com ar benevolente estava estava fora de si. - O que ele fez de mal foi parir-te mais a tua mãe! E tu, celerado, traíste a minha confiança!
-         Senhor Luís, por favor. - O pai de José, recuperada um pouco a serenidade tentou passar o rapaz para trás de si. - Tenha calma, vai ver que não se passou nada.
-         Nada! - O patriarca dos Sampaio não estava com vontade de deixar passar o agravo – Nada! Diz ele. Não se passou nada, diz o pai do bandalho!
No mesmo momento empurrou João na direção da casa e bateu com a pistola na cabeça do aterrorizado José atirando-o para os pés dos seus homens.
Os gritos lancinantes da mulher transformaram-se em pedidos desesperados de socorro que não aparecia de lado nenhum. As testemunhas acompanhavam todo o drama por trás das portadas entreabertas e das frinchas das portas.
-         Joaquim, dá umas malhas nesse filho da puta desse corrécio! - Luís Sampaio gritou para um dos seus homens enquanto apontava a pistola para os pais do jovem.
Todos se calaram enquanto o homem chamado Joaquim olhava com ar interrogativo para o jovem que conhecia desde criança e para o seu patrão.
-         Ouviste bem, seu palerma. Dá umas malhas nesse corrécio... - o fidalgo insistiu – Ou preferes que eu lhe dê um tiro e te despeça a seguir?
-         Não, Quim, por amor de Deus, olha que podia ser teu filho! - Maria da Anunciação gritava desesperada não se atrevendo a enfrentar a arma que estava apontada na sua direção.
 Em movimentos muito lentos, o enorme Joaquim ergueu o atordoado adolescente pelos colarinhos e desfechou-lhe uma bofetada com as costas da mão que atirou salpicos de sangue para o lado. O segundo homem virou a cara para o lado.
-         Mais! - Exigiu Sampaio.
Nova bofetada no rosto do jovem que não se movia, desacordado. O choro de Maria transformara-se num uivo continuo misturado com uma prece. João Oliveira, lívido, mantinha-se debaixo da ameaça da arma, de punhos cerrados a esperar uma oportunidade para reagir.
-         Mais! - Tornou.
-         Não! - A voz forte de Joaquim fez-se ouvir.
-         Não?!? - O fidalgo não queria acreditar.
-         Não senhor. As minhas desculpas mas eu não o quero matar e tenho a certeza que vossa senhoria também não quer matar um miúdo.
Luís Sampaio deitou-lhe um olhar de ódio mas depois concordou:
-         Tens razão. O responsável pela desonra da minha filha não é o filho, é o pai que nunca soube respeitar os seus superiores. - Terminou a frase com uma violenta pancada com o cano da pistola na cabeça de João fazendo-o o cair atordoado.
Joaquim pousou o corpo do jovem no chão cuidadosamente enquanto o  outro homem empurrava João que fez o gesto de atacar o fidalgo.
-         Vossa senhoria fala de respeito. Que respeito posso eu ter por um homem que manda bater numa criança? - Replicou João
-         A honra da minha filha e portanto a minha e da minha família, está acima desses preconceitos. Para limpar a minha honra posso até matar-vos a todos. - Firmou o que dizia com um pontapé no jovem desacordado. - E fica-te já aqui uma promessa, João Oliveira, reza para que a minha filha não emprenhe ou acabarei com ele e contigo pessoalmente.
Voltou as costas às vítimas e afastou-se em passos largos seguido de perto pelos dois homens que vigiavam as costas.
Maria da Anunciação e João Oliveira, com a testa a sangrar, correram para o filho que continuava tombado no chão.
Paula Sampaio não engravidou da sua aventura adolescente. O fidalgo aumentou a vigilância sobre a rapariga até conseguir o casamento, dois anos depois, com o médico Henrique de Mello.
José escapou de morte certa com uns dentes a abanar e uma costela partida. Sobreviveu, mas ficou-lhe, gravada a ferros, a alcunha do Zé Corrécio.


2ª parte