Debaixo dos Céus Os Mundos de Manuel Amaro Mendonça

terça-feira, 12 de maio de 2015

Luis e Isabel



Luís olhou demoradamente o rosto de linhas perfeitas, adormecido entre os alvos panos rendados.
O corpo magro mas bem proporcionado deitado no ataúde, envolto em rendas e flores, quase parecia uma boneca de jade numa caixa.
Por momentos, também ele fechou os olhos com força para reter as lágrimas que pareciam querer explodir fruto da dor que morava em seu peito.
Não podia entender como fora tão cego... como deixara que tudo aquilo tomasse o rumo que tomou e desencadeasse numa trama incontrolável.
Amar demais também é erro...
Não conseguira nunca dizer que não àquela mulher.
Como era possível dizer-lhe que não?
Como era possível desgosta-la? Se ela dizia que queria algo, ele desdobrava-se em esforços para o conseguir. Se ela dizia que não gostava de algo, ele desfazia-se imediatamente do que fosse... por mais que lhe custasse.
Quando deu por si, toda a situação fugira do seu controlo e ela, que ele tanto amava, por quem ele se desdobrava em agrados e atenções, achou que já chegava... e partiu para os braços de outro homem.
Desde que perderam a criança com poucos meses de gestação num aborto espontâneo, aquela Isabel, doce, alegre e feliz, tornou-se mimada, fútil e sem conseguir dedicar-se ao que quer que fosse mais do que uns escassos minutos seguidos. Alternava entre períodos de melancolia e frenética alegria.
Agora tudo parecia distante e nubloso, mas ao mesmo tempo vivido e doloroso.
Claro que ele compreendeu e aceitou as explicações dela para acabar o casamento...
… os belos olhos azuis marejados de lágrimas num pedido de desculpas desesperado, gritado e implorado.
… quem pode recusar a liberdade à bela ave que conservamos numa gaiola? Por mais dourada que ela seja?
“Amo-te demais” conseguiu ele dizer numa voz estrangulada pela dor “para te prender num sítio onde não queres estar.”
E ela, esplendidamente bela, soltou gritinhos de felicidade, deu-lhe abraços e molhou-lhe o rosto com as suas lágrimas salgadas... misturando-as com as dele:
“Eu sabia que ias compreenderias meu amor.” ela não percebia como essas palavras eram facadas dolorosas no coração fraco dele.
Também por amor, compareceu num casamento feliz onde a bela Isabel se uniu ao hercúleo Carlos. Não conseguiu sentir raiva de nenhum deles.
Seis anos se passaram e estava tudo ainda tão claro na sua mente.
Numa interrupção das recordações, fitou de novo o rosto dela, percebe que possui uma serenidade e uma majestade que ele não notara antes. As pálpebras, caídas sem esforço sobre os olhos que ele sabia azuis, eram como um reposteiro que abriga da luz do sol mantendo todo o universo na penumbra.
Era assim que ele se sentia agora... afastado do seu olhar, numa penumbra eterna, num purgatório do qual não sabia se sairia algum dia.
Lembrava-se ainda da ultima coisa que lhe escrevera... que não tivera coragem de lhe mostrar, como milhares de outras coisas que não tivera coragem de dizer ou fazer;


Tivesse eu palavras,
Para descrever a dor que me consome o peito.
Conseguir explicar a amargura que ferra a alma.
E as lágrimas que me queimam os olhos.
Tivesse eu palavras,
Para te dizer como és importante para mim.
Mostrar-te como é vazia minha vida sem ti.
Como fica vazio o meu coração sem teu amor.
Tivesse eu palavras,
Para implorar que fiques.


Já lhe tinha dito que podia seguir uma outra vida, longe dele, se essa era a vontade dela... e ela foi. E ele deitou fora o papel manchado pelas lágrimas que continha aquelas palavras. Como se assim encerrasse aquela página da sua vida e fechasse a porta ao sofrimento. Não conseguiu porém evitar que ficassem gravadas a fogo na sua memória.
Os anos seguintes foram pancadas que pouco a pouco iam doendo menos, ou às quais ele se dando menos importância. Com o tempo, um Luís magríssimo começou a conseguir manter uma relação amorosa com uma colega do emprego.
Até que nuvens de tempestade assombraram o paraíso e o casamento de Isabel começou a revelar-se problemático.
Por várias vezes os ciúmes doentios dela, infundados ou parcos em provas, causaram separações mais ou menos prolongadas. Invariavelmente Isabel telefonava, lavada em lágrimas, pedindo-lhe desculpas pelo que o fez passar e implorando que a não deixe sozinha.
Invariavelmente, Luís largava tudo o que estivesse a fazer para correr ao apartamento onde viveram momentos tão felizes e do qual nunca se desfizera da chave.
Invariavelmente ela encontrara já o seu consolo na bebida e nos comprimidos para dormir. Limitavam-se a ficar abraçados na cama enquanto ela chorava o sofrimento que Carlos lhe causava numa voz cada vez mais sumida. Até cair no sono.
Invariavelmente Luis telefonava a Carlos a pedir que volte para a mulher e faça por se entender com ela... embora no fundo do seu coração desejasse precisamente o contrário.
Invariavelmente, ao sair daquele tão familiar apartamento, de lágrimas nos olhos, hesitava se deveria ou não deixar para sempre a chave. Invariavelmente levava-a consigo junto ao coração onde a esperança teimava em não morrer e renascia a cada chamada.
Inevitavelmente a sua companheira percebeu que não havia espaço suficiente no peito dele para ambas e deixou-o.
Seis anos, uma vida...
Olhou para Carlos sentado no outro lado da sala, pálido, olhar perdido no infinito. Nunca conseguira odiar aquele gigante bem disposto, por muito que tentasse. Acabou sempre por fazer o possível para que eles se dessem bem, a felicidade de Isabel estava acima de tudo.
Nos últimos meses as crises sucediam-se mais amiúde e as separações entre eles mais prolongadas. Luís ainda passou uma ou duas noites no apartamento com ela, sem que acontecesse nada entre eles. Ela pedia-lhe que não a deixasse e ele ia ficando, em silêncio, ouvindo-a chorar e prometendo que ficaria até que adormecesse. Pela manhã percebia o olhar culpado dela que lhe pedia perdão por se servir do seu amor não retribuído e saía vazio e sem esperança.
Na última noite, cansado de uma semana de muito trabalho, observou a foto de uma longinqua e sorridente Isabel a vibrar no telemóvel. Sem alento, deixou que tocasse até ser atendido pelo correio de voz. Ela insistiu mais três vezes com o mesmo resultado. Da última vez deixou uma mensagem antes de desligar.
Luís colocou o equipamento em silêncio, tentou dormir e ignorar, Após imensas voltas na cama, ao fim de quase uma hora, ligou ao correio de voz para escutar a mensagem.
A voz que chorava, mas que mesmo assim aquecia a alma, implorava:
“Luís, por favor, atende. Eu sei que sempre abusei muito de ti, mas agora chega, acabei tudo com o Carlos. De vez. Preciso de ti meu amor, nunca deverias ter-me deixado fazer o que eu queria, devíamos ter ficado juntos para sempre. Volta, amor.”
A explodir de felicidade ele tentou devolver a chamada mas o telefone estava fora de serviço. Apercebeu-se que havia outra mensagem; a amada voz, nitidamente alcoolizada, sentenciava:
“Acabei de passar em tua casa e vi o carro à porta. Percebo que estejas cheio de mim e tens toda a razão em não me perdoar. Sou uma estúpida que não soube o que fazer da vida e só trouxe infelicidade a todos aqueles que toquei. Achei que eras culpado da nossa infelicidade, de termos perdido o bebé. Culpado pela tua mansa aceitação do inevitável, da tua serenidade perante o inimaginável... Mas a verdade é que, na minha maneira estúpida, nunca deixei de te amar. Espero que me perdoes”
Desesperado tentou mais algumas vezes o telemóvel dela e depois o de Carlos, que também não atendia.
Correu como louco para o carro e para o apartamento dela.
Abriu atabalhoadamente a porta e entrou no quarto de rompante.
Carlos estava sentado na cama ao lado do corpo adormecido de Isabel...
Luís hesitou e preparava-se para sair quando ele, sem levantar o rosto, gemeu: “Acabou tudo.” E ergueu um frasco de barbitúricos vazio.