Debaixo dos Céus Os Mundos de Manuel Amaro Mendonça

sábado, 28 de novembro de 2015

Natal em Família



** Selecionado para publicação na coletânea "Boas Festas" da Silkskin Editora

Afonso deu um último arranjo à toalha de mesa que estava um pouco encorrilhada. As crianças, Maria e Pedro de doze e nove anos respetivamente, riam e empurravam-se em tentativas simuladas para derrubar o outro da cadeira. Ele deitou um olhar em volta; a luz que inundava a sala espaçosa, a árvore decorada com cores vivas e brilhantes, os presentes por baixo. Tudo estava a regressar ao normal. Sim, tudo iria ficar bem.
-    Podes sentar-te, “môrzito”. - A sua esposa, Francisca, nunca perdera o hábito de o tratar por aquele apelido carinhoso. E ali estava ela, com a travessa das batatas cozidas com bacalhau, tão típicas da época. Era uma tradição que ele detestava, mas suportava.
Sentou-se, compôs os pratos, moveu-os uns centímetros para um lado ou para o outro, nervosamente. Compôs os talheres em cima dos guardanapos enquanto admoestava as crianças:
-    Vá, meninos, comportem-se agora. Vamos comer, senão, ainda acabam por magoar-se.
-    Sim, papá!!! - Gritou Maria com a voz propositadamente esganiçada, como ela gostava de fazer.
-    Maria! - Avisou Francisca. - Então, que é isso? Comporte-se, menina!
-    Sim, papá!!!! - Gritou Pedro, imitando a irmã.
-    Então?!? - A voz forte do homem fez-se sentir, num ralho carinhoso. - Vamos sentar quietos e fazer o jantar de Natal como deve de ser ou não?
-    Pai. - O tom de voz de Maria mudou radicalmente para a de criança mimada. - Posso ver o que o Pai Natal me trouxe, antes de jantar?
-    Eu também quero!!! - Exclamou Pedro.
-    Não. Ninguém vai ver prendas antes de acabar de jantar. - Determinou Afonso.
-    Primeiro vamos todos comer como deve de ser. Vamos portar-nos muito bem e só depois veremos as prendas. - Brincou Francisca, compondo o guardanapo à volta do pescoço de Pedro. - O Pai Natal disse que só se pode abrir depois de jantar, senão para o ano não traz nada e põe o nosso nome na lista dos mal comportados.
-    Eu não sou mal comportado, pois não mãe? - Quis saber Pedro.
-    Não, meu querido filho, claro que não, és um menino muito bem comportado. Tu e a tua irmã são as maiores prendas que Deus nos poderia ter trazido.
-    Mãe! - Exclamou Maria. - Se tu já tens “estas prendas”, eu posso ficar com que o Pai Natal trouxe para ti?
Os pais soltaram uma gargalhada quase em coro.
-    Não podes querer tudo para ti. - Afonso passou, carinhosamente, a mão pela cabeça da filha. - Este ano temos prendas para todos.
A refeição correu de forma pacífica e era visível, no rosto agradavelmente corado de Francisca, que estava muito feliz. Conseguiram conversar de forma mais ou menos amena, envolvendo as crianças o mais possível, falando da escola e dos professoras, das peripécias do recreio e dos colegas. Cada vez que cruzavam olhares, milhares de palavras eram passadas de um para o outro sem qualquer som. Havia muita conversa para pôr em dia.
Assim que acabaram de jantar, foi um furacão que varreu a área onde estavam os presentes. Num instante, todo o chão da sala estava cheio de pequenos bocados de papeis. Maria sentou-se no chão, ao pé do sofá, a brincar com o kit de maquilhagem e a enorme boneca que a deixou felicíssima. Pedro estava deitado no chão da sala a brincar com a garagem com vários piso cheios de automóveis que ele havia pedido ao Pai Natal mais do que uma vez.
Afonso e Francisca, recostados e enlaçados, no sofá, apreciavam as brincadeiras da sua prole.
-    Já não sabia o que era um Natal em família... mas este ano foi todo diferente. - Ele comentou pensativamente enquanto ligava a TV com o controlo remoto.
-    Já há mais de quatro anos que não estavas disponível nesta altura. - Francisca confirmou. - O teu trabalho, como enviado do jornal no Alto Comissariado para os Refugiados, estava a afastar-te muito de nós.
Como que a propósito, na televisão, estavam a passar imagens da chegada de mais umas centenas de emigrantes africanos às praias italianas. As cenas de dor, crianças e adultos desesperados, o resgatar dos corpos do mar, a chuva intensa que caía, eram imagens dolorosas.
-    Estes pobres diabos vêm da fome e da guerra para a fome e indiferença. - Afonso tinha lágrimas nos olhos.
-    Antes a indiferença que a guerra! - Afirmou Francisca. - E não somos assim tão indiferentes, estamos a fazer mais por eles, que são de outros países, do que às vezes pelos nossos. Também há fome por cá. Graças a Deus não há guerras.
-    Concordo de certa forma mas... é uma dor de alma...
-    Mas já agora, nunca explicaste completamente o que se passou, para deixares a tua função no Alto Comissariado.
-    Oh, isso foi... um pequeno desentendimento com um elemento do staff do Guterres. Mas já passou, “convidaram” o jornal a tirar-me daquelas funções, mas eu não me importei muito, já estava farto. O cretino que causou esta confusão toda também não teve muita sorte, ouvi dizer que foi assassinado num assalto, lá na Itália, à saída de um bar. Nem conseguiu ter a felicidade de me ver sair do país, diz-se que “Cá se fazem e cá se pagam”.
-    Que horror. Não devias ficar contente com a morte de alguém, ainda que nos tenha feito mal. - Francisca soergueu-se para o olhar nos olhos.
-    Não estou contente nem triste. O tipo era-me completamente indiferente, só achei engraçada a coincidência... “Deus não dorme!” - Piscou-lhe um olho e beijou-lhe rapidamente os lábios.
-    Pelo menos assim estás mais próximo de nós, não tens todas aquelas viagens para fazer, apenas umas noitadas por entre outras.
-    Sim, estou feliz por regressar... retomar o meu lugar na redação do jornal, voltar a escrever artigos mais genéricos.
Na televisão passava agora a noticia de mais um homicídio na cidade. Já se contavam sete homicídios, no espaço de poucos meses, ligados a um assassino em série a que chamavam “A Sombra”. A polícia, desesperada, não conseguia pistas para o apanhar.
-    Terrível, este assassino. - Comentou Francisca. - Dizem que agride as vítimas com algo pesado e que, depois de estarem sem sentidos, faz-lhes um corte na jugular e deixa-as a morrer.
-    Então até não é muito mau. - Afonso deu um sorriso trocista. - A maior parte deles nem deve perceber o que lhes aconteceu.
-    Parvo! - Ela exclamou. - Isso é coisa que se diga?
-    A sério! - Ele continuou. - Podia até tortura-las, tirar-lhe bocados, como fazem os grandes assassinos que vemos nos filmes, sei lá eu. Mas põe-nas a dormir e depois manda-as à vida... ou à morte, mais propriamente.
A notícia continuava e o jornalista fazia uma relação das vítimas, que foram assassinadas nas próprias casas, e dos produtos roubados. Eram, na sua maioria, mulheres com posses, que viviam sozinhas, ou não tinham companheiro certo. Os roubos eram normalmente dinheiro e joias, além de algumas obras de arte esporádicas. O assassino sempre fora cuidadoso em deixar de lado peças famosas, ou demasiado valiosas, que pudessem ser identificadas. Mas desta vez cometera um erro; uma das peças era muito valiosa e tinha, inclusivamente, seguro próprio. No ecrã foi exibida a fotografia de um magnífico pingente de ouro e pedras preciosas e o jornalista pediu, a quem visse aquela peça, participasse imediatamente às autoridades. A família da vítima oferecia uma choruda recompensa, assim como a companhia de seguros.
-    Tá tramado! - Disse Afonso pensativamente.
-    Parece impossível que consiga andar por aí alguém a matar pessoas e a polícia não consiga fazer nada. - Francisca estava apreensiva.
-    Não é fácil. Estes criminosos estão cada vez mais mais evoluídos. Têm acesso a informações e tecnologias como nunca tiveram antes. Por acaso, até acho que vou abordar esse tema na minha próxima crónica de opinião no jornal. Será “Polícia versus criminosos, estaremos a perder a corrida?”
-    Oh. A tua crónica? Já ta deram outra vez?
-    Não te disse que tenho estado a reocupar o meu lugar na redação? Eles têm que reconhecer o meu valor.
-    Mas não tinham dado a crónica ao... àquele tipo horrível, com o capachinho ruivo e os óculos grossos... o Norberto, não era?
-    Sim, era esse, mas eu avisei logo o meu chefe que o Norberto não era de confiança. Tinha aparecido há coisa de um ano e tal, sem ninguém saber de onde, armou para lá umas confusões na redação, “calcou cabeças” e “subiu às costas” de quem pôde para conseguir o que queria. Agora, penso que já deve ter atingido os objetivos dele, desapareceu há umas semanas... não atende o telemóvel, a casa alugada está vazia e com a renda paga até ao fim do mês.
-    Por isso devolveram-te a crónica.
-    E um bónus, que eu reclamei logo. - Afonso soltou uma gargalhada. - Caiu muito bem agora nesta altura do Natal.
Beijaram-se ternamente e começaram a acariciar-se.
-    Não achas que são horas das crianças irem para a cama? - Ele perguntou.
-    Penso que sim. - O sorriso dela dizia tudo. - Meninos, vamos dormir.
-    Oooohhh, mãe!!!! - As crianças gemeram em uníssono.
-    Nada de confusões! - Insistiu ela erguendo-se e batendo as palmas.
Afonso deixou-se ficar um pouco, com um sorriso nos lábios, olhando a sua adorada família. Por fim ergueu-se também e gritou para a área dos quartos:
-    Vou à cave ver a caldeira e já vou ter contigo ao quarto.
Era realmente um homem afortunado, com uma família bela e feliz como aquela... que mais poderia desejar? Acendeu a luz da escadaria da cave e desceu, pensativamente.
Na ampla divisão, dirigiu-se a um armário, que abriu com uma chave que trazia no bolso. Pegou uma mochila preta do interior e caminhou para a porta da caldeira onde ardia um lume forte, visível através do vidro.
Abriu a portinhola e, de dentro da mochila, tirou uma cabeleira ruiva e uns óculos com armações de massa, que olhou por uns segundos com um sorriso nos lábios. Atirou os objetos para o fogo com umas palavras de despedida:
-    Adeus Norberto! Espero que encontres um jornal onde escrever lá no Diabo que te carregue.
Mais uns segundos a olhar para o fundo da mochila e tirou um fantástico pingente em ouro e pedras preciosas que fez rodar em frente dos olhos enquanto comentava: 
-    É uma pena... ias render bom dinheiro, se as outras renderam o que renderam, tu ias garantir umas boas férias com a família..."
Atirou a peça para o lume enquanto comentava para consigo:
-    Sete homicídios?!? Palermas, já passei os vinte.
Atirou também a mochila para o interior da caldeira, fechou a porta e abandonou a divisão, a caminho da cama onde a sua adorada mulher o aguardava.


segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Antologia Boas Festas - Texto seleccionado

 

O conto "Natal em Família" foi seleccionado para fazer parte da coletânea "Boas Festas" da Silkskin Editora.

BOAS FESTAS Antologia de Natal Prosa e Poesia

Foram seleccionados cinquenta autores para integrar «Boas Festas», a antologia de Natal que a Silkskin Editora publicará - já no fim de Novembro. Esta obra inclui 29 textos em prosa (contos e crónicas com as mais variadas histórias ambientadas na quadra natalícia) e 51 poemas natalinos ao longo de 260 páginas. Todos os Autores estão de parabéns! Divulgamos (já a seguir) o nome de todos os autores que integram este verdadeiro «presente» de Natal... assim como a capa da antologia.
BOAS FESTAS
50 Autores - 80 Textos - 29 Contos e Crónicas - 51 Poemas
Coordenação: Isidro Sousa | Edição: Silkskin Editora 
www.facebook.com/silkskineditora
Email: silkskineditora@gmail.com
AUTORES:
Akira Sam
Albertina Vaz
Amélia Ferreira
Ana Maria Dias
Ana Paula Barbosa
Ângela Cerqueira
Angelina Violante
António B. Fonseca
António Guedes Alcoforado
Arnaldo Teixeira Santos
Carla de Sá Morais
Carla Santos Ramada
Carlos Arinto
Chico Mulungu
David Sousa
Diniz de Sousa
Eduardo Ferreira
Eduardo Oliveira
Estêvão de Sousa
Fernanda Cruz
Filipe Vieira Branco
Guadalupe Navarro
Isidro Sousa
J. V. Forte
Joaquim Bispo
Joaquim Calado Mendes
Jorge Manuel Ramos
José Teixeira
Lia Molina
Lucinda Maria
Manuel Albergaria
Manuel Amaro Mendonça
Manuel Timóteo Matos
Marcella Reis
Margarida Piloto Garcia
Maria Côrrea
Maria João Pacheco
MtM Teresa Manuel
Ondina Duarte
Paula Laranjo
Pedro Miguel Ferreira
Rafa Goudard
Ricardo de Lohem
Ronair Gama
Rosa Branquinho
Sara Timóteo
Sávio Christi
Sérgio Sola
Suzete Fraga
Vítor Duarte

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Prioridades



** Texto seleccionado para a coletânea "Obsessões" da Lua de Marfim Editora



Fábio, de olhos fixos no ecrã, roía nervosamente a caneta. Apontamentos em dezenas de folhas estavam espalhados sobre o tampo da secretária, por baixo dos cotovelos e sobre o teclado. As linhas pretas sobre fundo branco pareciam ondular e emitiam reflexos sobre as lentes dos óculos. De tempos a tempos, ideias brotavam através dos dedos para as teclas e fundiam-se em frases que se materializavam no texto. 
De súbito, uma dúvida assaltou-o e começou a rebuscar os rascunhos até que, pelo canto do olho, percebeu a presença encostada ao umbral da porta.
Olhou, entre o surpreendido e o confundido para Eduarda que, de braços cruzados, exibia uma expressão de desagrado.
-    É... para ir jantar? - Perguntou hesitante.
-    Era. Era mesmo para ir jantar. - A voz rouca dela era firme e cheia de acusações. - Há uma hora atrás, quando te vim chamar e me disseste que já ias.
-    Uma hora?!? - Ele continuava confundido. - Chamaste-me? Não me lembro.
-    Sim, uma hora, Fábio Ferreira. Mais de uma hora que estive à tua espera. Acabei agora mesmo o meu jantar… frio!
-    Oh, meu amor, desculpa-me, mas eu...
-    Sim, eu sei, tens esse teu maldito livro na cabeça e não tens espaço para mais nada. Há mais de quatro meses que não pensas noutra coisa... mesmo!
-    … tenho que acabar este livro, enquanto não o fizer, não consigo sequer dormir!
A posição dela alterou-se. Colocou as mãos atrás do corpo e olhou para o chão enquanto se queixava baixinho:
-    Não aguento mais isto…
-    Por favor... - Ele ergueu-se e tentou abraça-la, sendo sacudido de imediato. - Não vês que é uma fase? Assim que acabar o livro tudo será diferente.
-    Diferente? Diferente até quando? Até ao próximo livro? Achas que é fácil? Viver num mundo sozinha, em que tu estás de corpo presente mas com a cabeça sabe-se lá onde? Faço-te perguntas e não respondes ou respondes tanto tempo depois que já nem sei do que falas. Há quanto tempo não temos uma conversa sobre qualquer coisa? Passo refeições sozinha, a olhar para televisão, sem saber o que está a dar... contigo a meu lado.
-    Mas estou ao teu lado sempre que posso... Acusas-me de ser lento a responder-te porque estou ausente e não te dou atenção. Para ti é fácil, a tua cabeça está cheia de ligações ao mundo e ao ambiente que te rodeia. A minha, está cheia de mundos e de vida interior... quando demoro a responder, é porque já vivi uma vida inteira, entre a tua pergunta e a minha resposta.
Ela olhou-o estranhamente e ele sorriu-lhe com tristeza enquanto apreciava o cabelo claro, curto, que lhe dava um aspeto de rapazinho e o rosto fino e sardento que ele tanto amava. Tentou acariciar-lhe o rosto mas ela evitou o contato. 
-    Ausente, sempre! - Concluiu ela. - Seja absorvido por um livro, seja a escrevinhar com demência em qualquer papel, ou enclavinhado no computador! - A voz alterada atenuou-se e as lágrimas pareciam querer explodir nos olhos castanhos. - Onde estás tu, que não estás comigo? Que é que te leva para esse mundo distante, onde eu não estou e não te faço falta?
-    Não é verdade, que não me fazes falta! Eu amo-te, preciso de ti e não posso viver sem ti!
-    Para te lavar a roupa, arrumar a casa e... fazer amor... quando te lembras. Quantas vezes dormiste, nessa secretária, só este mês? Quantas vezes vieste gelado para a cama, já de madrugada, apenas para te enroscares em mim e adormecer de imediato? Estou farta!
-    Desculpa-me! Eu compreendo que não deve ser fácil para ti mas, não consigo evitar. São os mundos, dentro da minha cabeça, milhões de mundos, aos quais me ligo e me perco. Quando as ideias começam a fluir, é como um transe onde visualizo cada cena, cada personagem, cada expressão. Tenho que escrever tudo, antes que se vá. Antes que desapareçam para sempre, como farrapos de um sonho aos primeiros raios da alvorada.
-    Não posso mais! - Ela repetiu agora voltando-lhe as costas e dirigindo-se para o quarto. - Fica-te com os teus mundos e não me incomodes... eu vou arranjar, o que for preciso, para não te incomodar mais.
A porta do quarto estrondeou com força fazendo tremer os vidros na cristaleira.
Ele quedou-se em pé olhando o corredor e a luz que se escoava por baixo da porta. Sabia que devia ir ter com ela, tentar compor as coisas, a sua cabeça fervilhava de ideias, de coisas que precisava escrever. Olhou para a secretária e, no chão, reluzia o apontamento que ele procurava. Apanhou-o, sentou-se em frente ao computador e recomeçou a escrever.
A luz do sol entrava pela aberturas das persianas, Fábio dormia com a cabeça sobre a secretária, os óculos dobrados a marcar-lhe o rosto e a boca aberta numa respiração pesada. Alguns papéis espalhavam-se pelo chão.
Eduarda, mala na mão, olhou-o uma última vez. As lágrimas corriam-lhe livremente pelo rosto enquanto, por breves instantes, refulgiram com aquele brilho que ele acendia neles há uma eternidade atrás. Depois, como que acordada de um sonho, limpou as lágrimas com as costas da mão e pousou as chaves da casa na secretária ao pé do homem adormecido.
Caminhou, lenta mas firmemente e saiu do apartamento, fechando a porta com cuidado para não acordar o marido.