Debaixo dos Céus Os Mundos de Manuel Amaro Mendonça

sábado, 16 de janeiro de 2016

Passagem de Ano


A passagem de ano é como um salto para passar uma porta, através de uma cortina fechada. Sentimos o medo do desconhecido que está para lá dela, que se acoita no escuro.
Assim estava a minha vida naquele momento, num salto para o desconhecido. E se estava tudo claro, ainda há pouco tempo atrás, agora tudo parecia nublado e cinzento.
Soaram as últimas badaladas e aquelas pessoas desconhecidas, na enorme praça no centro do Porto, gritaram, riram, comeram passas e beberam espumante barato.
Riram, porque acreditavam que, entrando naquela nova e desconhecida etapa a rir, assim seria o resto do período, até que este novo ano se consumasse.
Mas eu, foi com lágrimas nos olhos que te abracei e beijei, a ti, que tantas vezes amei e desejei e por quem dei este salto no escuro que estava a viver naquele momento.
A minha mente traidora, agora que tinha aquilo que tantas vezes desejara, torturava-me com imagens que eu não queria ver; ali, no meio daquelas pessoas que festejavam com alegria fingida, que espantavam os medos com uma coragem que não sentiam, a ideia de Noémia e Sílvia sozinhas em casa, na passagem de ano mais triste das suas vidas, não me saía da cabeça.
E tu beijaste-me e riste-te, como todos os outros e bebeste um e dois copos de espumante, feliz, ou fingindo que sim... ou achando que sim...
E eu, dono de uma angustia do tamanho do mundo, sentia o enorme nó na garganta que me impedia de beber e não deixava responder ao “Amo-te” gritado/sussurrado, ao ouvido, que me ofereceste. Antes fechei os olhos e virei o rosto ao céu, tentando aliviar a garganta e sossegar a respiração cada vez mais opressiva.
Fitei-te e passei-te a mão pelo cabelo com carinho, num gesto velho de anos, dos tempos em que não eras minha e eu não era teu... e tu limpaste a lágrima traidora que corria dos meus olhos congestionados, que miraste através da luz bruxuleante do fogo de artifício.
Articulaste um “Estás bem? Enquanto me seguravas ambas as faces para que os nossos olhos estivessem no mesmo comprimento de onda.
Não, não estou bem, pensei enquanto a tua irmã me abraçava e beijava, não, não estou bem, quando o teu cunhado me apertava a mão. Não, não estou bem, neste desconhecido, no outro lado da cortina escura. Não, não estou bem, aqui, nesta vida que tanto desejei e sem a qual pensei que não poder viver.
Agora sou eu que tomo o teu adorado rosto entre as mãos e beijo-te com um beijo forte e quente, deixando finalmente correr livremente as lágrimas.
É um novo ano que nasce com o coração cheio de amor, mas sem alegria e afogado em remorso.
Ofereci-te um sorriso triste, tentando dar uma coragem que não sentia, ao teu olhar preocupado. A esses teus olhos fascinantes e luzidios, gravados a fogo na minha alma.
Fechei os meus e inspirei fundo enquanto sentia o teu abraço e o fogo de artifício troava incessantemente. Tornei a abri-los para aquele mundo novo, que não reconhecia, ali, do outro lado da cortina e beijei-te docemente a testa, enquanto me soltava suavemente do teu amplexo.
Olhaste-me com uma pergunta, mas com medo da minha resposta e eu, com o meu patético sorriso triste, quase abafado pelas explosões, disse-te:
- Desculpa-me, meu amor, mas não consigo!
Sem mais, voltei-me e caminhei em passos largos, por entre a multidão, enquanto o fogo de artifício se silenciava e era substituído pela ovação das pessoas agradecidas.
E eu deixei-te ali, no meio do desconhecido, por trás da cortina, que eu achava que ambos queríamos, mas que eu não conseguia suportar.
Corri, corri como um louco, de volta para os braços da minha mulher e da minha filha. Corri, sufocando a angústia que sentia, porque elas estavam sozinhas, sem mim, do lado de cá da cortina, onde eu disse que estaria sempre. Corri, sufocando o medo, que não me conseguissem perdoar.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

O Assalto

 

** Foi distinguido com o 1º prémio no 7º concurso literário Papel D'Arroz Editora
** Incluído na coletânea "Um Dia de Loucos" da mesma editora



Naquela tarde quente de agosto, três homens conversavam, por entre a frescura bem vinda das árvores. Faziam um interessante trio. Com roupas que já conheceram melhores dias e socas de pau, espraiavam-se na pequena clareira, como que esperando alguma coisa.
–     Pois é como te digo, Xico. - Dizia o das fartas suíças, sentado num tronco de árvore, enquanto acariciava uma pistola ornamentada. - Desta vez não há que enganar! Se algum se armar em galaró, amando-lhe um chumbo entre os olhos, que há de logo ir dar com os cornos aos pés do mafarrico.
O mais novo dos três, com largas melenas encaracoladas, a escapar-se do chapéu puído, benzeu-se apressadamente.
–     Ora, tem juízo, Zé. - O terceiro, tronco de barrica, barba farta e pele morena, rematou. - Aposto que nem sabes usar esse farragatcho. Estoura-se-te o bacamarte na mão e quem vai desta p’ra melhor és tu!
–     Quê? - O outro ergueu-se de um salto, sacudindo a arma no ar. - Nem tu imaginas as bujardas que já mandei com esta daqui!
–     Ensina-me a atirar com o bacamarte, Zé! - Pediu o mais novo.
–     Isto não é um bacamarte, Tone, sua cavalgadura! - Exclamou o visado, com ar de entendido. - Isto é uma pistola! E uma pistola de fidalgo, por sinal.
–     E atão onde arranjaste essa fidalguia? - Quis saber o Xico.
–     Não te alembras da “visita” à casa do juiz Sarmento?
–     Bô! - O outro não queria acreditar. - Pois astreveste-te a pôr as unhas na pistola do velho baboso? E não disseste nada?
–     Ora pois, aqui, como a vês!
–     Deixa-me atirar, Zé! - Tone insistiu.
–     Quieto! Isto não é brinquedo, Tone, ainda matas alguém! Deixa-te por aí com o varapau e a faca, que é onde és mais artista!
–     Pois a merda do juiz pouco lá tinha que se aproveitasse. Uns cobres descuidados e umas pratas... aposto que o fideputa tem os dobrões enterrados por lá.
- Não te podes queixar muito. – Continuou Zé. – Lembras-te do presuntinho que mamamos na taberna do Julião à custa do que trouxemos de lá?
- Atão não? E aquele tinto de estalo? – Xico concordou.
–     Dispara tu, então, Zé! Deixa-me ouvir! – Tone insistia indiferente às lembranças gastronómicas.
–     Deixa-o, Tone! - Riu-se Xico. - Tenho cá a ideia que esse patranhas nem sabe usar a geringonça.
–     Dizes tu, ò zangão! - Zé enervou-se pela utilização da sua alcunha e ofendeu o outro com a dele. Mas começou a explicação aos dois, que entretanto se aproximaram... - Isto é só carregar a póvora e a bala e já está! Ósdepois puxa-se aqui o fecho e está pronta a...
O potente estampido produzido pela arma deixou todos sem fala enquanto o chapéu de palha do Xico voava e o seu rosto ficava coberto de fuligem.
–     Ah! Excomungado dos demónios! - Gritou o Xico Zangão erguendo o varapau. - Por um cibo não me arrebentavas com os cornos, filho de um cabrão!
–     Foi sem querer, desculpa! - Gritou o patranhas fugindo para trás de umas pedras próximas.
–     Deixa-o! - Pediu Tone colocando-se no caminho do ofendido. - Não vês que foi sem querer?
–     Se tornas a chegar-te a mim com esse estadulho dos infernos, racho-te à barduada! Seu patranhas desmiolado!
–     Pronto! Desculpa, já disse, fugiu-me o fecho dos dedos. - Desculpou-se Zé.
Amuado, Xico sentou-se numa pedra a resmungar sozinho. Não era sem razão, que era conhecido por zangão; as suas fúrias repentinas e o ar de poucos amigos, punham qualquer um em respeito. A aldeia raiana de onde provinham, era fértil em rebatizar os seus habitantes e Zé, por seu lado, era o patranhas, sempre a exagerar as histórias em que se envolvia e os resultados delas, que a maior parte das vezes lhe eram desfavoráveis. Já o Tone, irmão de Xico, era o canhoto, ou o russo. Poucos gostavam das alcunhas que lhes davam, mas todos colaboravam nos batismos populares que, à falta de outra coisa, podiam servir como insulto ou provocação.
Mantendo um olho na arma e o outro a vigiar o Xico, Zé recarregou a pistola com pólvora e colocou a esfera metálica que pressionou para o fundo do cano, várias vezes, com a vareta. Em seguida, testou o fecho de pederneira, várias vezes, para se certificar que não se repetia o acidente. Tone falava baixo com o irmão que não parava de resmungar.
O relincho próximo de um cavalo, deixou os três de ouvido apurado. Breve se começaram a escutar vozes masculinas que conversavam calmamente.
–     Estão aí! - Sussurrou Zé, correndo para junto dos outros.
Ato contínuo, Tone, em vários saltos, deslocou-se sobre as pedras para o maciço de árvores que os separava da estrada e pôs-se a espreitar.
–     Já lá vêm! - Sussurrou.
–     Quantos são? - Quis saber Xico.
–     Dois na carroça e um a cavalo. O cavaleiro deve ser gente fina, belo chapéu, boas botas...
–     Merda! A coisa deve ser coisa fina, mesmo. Para trazer um guarda...  - Reconheceu Zé. – Hoje vamo-nos consolar outra vez na taberna… ai presuntinho…
–     O badocha não te disse o que traziam? - Xico ficou desconfiado.
–     Não. Disse que levavam coisa fina para o solar dos Resendes.
–     Ai! Raios me partam, que caio sempre nas tuas patranhas.
–     Bô! Mas que queres tu? Não encheste os bolsos com o outro mercador de Penafiel? E o peleiro de Amarante? Não vinha cheio de moedas? O badocha não se costuma enganar!
–     Pouca ladradeira aí! - Sussurrou Tone. - Tão quase a chegar! Apresta-te lá prà frente deles, Zé, já que tens o bacamarte.
–     Pistola, asno! - Ralhou-lhe o visado enquanto corria para emboscar a carroça.
Na estrada, se se pode chamar assim ao caminho de terra batida que ziguezagueava por entre as árvores, os dois carroceiros conversavam despreocupadamente. O cavaleiro que os seguia parecia dormitar em cima da sela. A caixa da carroça vinha ocupada com seis arcas de madeira, cobertas com uma enorme sarapilheira suja.
Com a cara tapada por um colorido lenço e a pistola apontada aos viajantes, o patranhas caminhou calmamente da berma para o meio da estrada, até que o vissem.
–     Alto lá! - Ordenou.
–     Que é isto? - Indignou-se o condutor da carroça.
–     Isto é um negócio a não perder, amigos forasteiros, - Brincou Zé. - Vocês deixam a carroça e os cavalos e eu deixo-vos ir embora vivos.
O cavaleiro preparou-se para esporear o cavalo mas, ao nível do rosto, surgiu-lhe a ponta do varapau de Xico que avisou:
–     Quieto aí ò echelência! Não queremos amassar esse bonito chapéu, pois não?
–     Que querem vocês, escumalha da estrada? - A voz carregada de desprezo, fez-se ouvir, enquanto mirava o salteador maltrapilho, de cara tapada, que o ameaçava.
–     Não vos disse já o meu amigo ao que vínhamos? - Tone saltou para a carroça, com um varapau numa mão e uma faca com doze centímetros de lâmina na outra. - Queremos o que tão bem guardais!
–     Pois sabes tu quem queres roubar? - Perguntou o carroceiro voltando-se para o salteador nas suas costas. - Esta encomenda é para o casamento da filha do senhor da casa do Pinheiro!
–     E a filha também aqui vem? Se viesse talvez se lhe arranjasse serventia! - Riu Tone.
–     Pelo menos durante algum tempo! - Apoiou Zé soltando uma gargalhada.
–     Escumalha! - Sem dar tempo a Xico reagir, o cavaleiro puxou de uma pistola que apontou para Zé. O visado, que tinha a sua própria arma apontada para o ar, baixou rapidamente a pistola para disparar. A esfera de chumbo caiu do cano, para espanto de todos.
Quem salva a situação é Xico. Desfechou uma violenta pancada na arma do cavaleiro fazendo-a disparar-se inadvertidamente junto à orelha da montada. Assustado, o animal empinou-se, derrubando o cavaleiro em cima do assaltante e desatando num galope desenfreado. Zé conseguiu atirar-se para o lado no último momento e salvar-se de ser pisoteado. O carroceiro controlou o outro cavalo com dificuldade, enquanto Tone ameaçava o pendura com a faca:
–     Quieto aí, ò artajeiro! Não te astrevas a mexer!
A força descomunal de Xico foi suficiente para, com um empurrão e um soco, levar a melhor sobre o cavaleiro apeado e ameaça-lo com a sua faca:
–     Quieto já! Ou queres ir visitar o barzabu? - Sem tirar os olhos do homem, gritou para Zé. - Que os diabos te encham de pulgas, trampolineiro de um raio! Não te disse que esse bassouro só ia arranjar m...?
–     Caiu a porcaria da bala! Que queres que te faça? Era pequena! - Desculpou-se ele.
–     Vocês são uns pantomineiros! - Acabou por rir-se o cavaleiro. - O circo está montado!
Xico socou o homem com força num braço:
–     Estás a pedi-las! Vamos levar as coisas e deixar-vos aqui, vê lá se queres que te  deixe com uma perna partida.
–     Deixem-se de refustedo! - Gritou Tone. - Amarra esse fideputa, e tu, Zé, anda aqui ajudar a amarrar estes! Deixa a excomungada da bala, não procures mais!
Rapidamente, os três homens foram sentados de costas uns para os outros e amarrados todos juntos. Os apavorados carroceiros mantinham as cabeças baixas mas o cavaleiro continuava desaforado e olhava furiosamente os assaltantes.
–     Que foi? - Xico deu-lhe um pontapé num braço. - Queres comer-me é? Tens muito que crescer, ò fininho!
–     Ainda hei de descobrir quem são vocês! Arranjarei com que deem com o lombo no calabouço, seus facínoras!
–     Isso querias tu, fidalgote! - Agora era Zé apontava a pistola ao nariz do provocador. - Olha que já está carregada!
–     Onde arranjaste uma arma decorada a prata, pelintra? - O homem não se intimidava.
Os três assaltantes olharam-se e depois olharam a arma.
–     Não sabiam! - O cavaleiro soltou uma gargalhada. - Vocês são os ladrões da mais triste figura que já vi!
–     Vamos embora daqui antes que eu arrebente com o cornos a este artajeiro. - Disse Xico.
Saltaram os três para a carroça e começaram a deslocar-se rindo-se e acenando adeus ao infortunados assaltados. O cavaleiro ficou a insulta-los e a amaldiçoa-los em altos berros.
Depois de uma viagem de mais de uma hora, em que Xico não parou de insultar e humilhar um amuado Zé, pararam afastados da estrada, junto de uma descida para o rio.
Atiraram-se às arcas e rebentaram os fechos para verem o valor da presa; a primeira, estava cheia de pratos da mais fina porcelana, pintados à mão. Tone ficou-se de boca aberta a olhar para os outros exibindo uma das coloridas peças de loiça.
Furiosos, abriram todas as arcas. Mais pratos e copos de cristal. Não havia dúvidas que tinham entre mãos a loiças destinadas ao casamento da filha do senhor da casa do Pinheiro.
–     Por todos os demónios dos infernos!!!!! - Gritou Xico numa fúria, dando murros e desfazendo as tampas das arcas. - Só roubamos cacos!!!! Ai a cabra da sorte!!!
–     Quando eu puser as mãos no moncoso do badocha, vou fazê-lo em pedaços!!! - Exclamou Zé, ultrajado.
–     Eu havia de te arrebentar as fuças a ti, seu patranhas do inferno! Tu é que nos meteste nesta porcaria! Porque é que me deixo sempre levar por ti? - Xico ergueu Zé pelos colarinhos enquanto encostava nariz com nariz.
–     Esperem, esperem! - Tone sorria. - Sei de um galego em Chaves que dará bom dinheiro por isto, os pais dele têm uma tenda na Espanha e vendem esta bosta toda lá. Às tantas ainda compra o cavalo e a carroça também. Estamos safos!
Xico atirou com Zé para o chão da carroça:
–     Pode ser que não seja por hora que mando este infeliz para o inferno! Vamos ver também se não quer comprar uma pistola decorada a prata!
Cabisbaixo, Zé ergueu-se, apanhou a adorada pistola do soalho da carroça e meteu-a na cinta. Prendeu-a pela corda que lhe segurava as calças puídas.
–     Vamos embora então. - Disse Tone enquanto se sentava no lugar de condutor da carroça. - Temos que chegar com dia.
Zé encaminhou-se para o lugar do pendura e estava a sentar-se quando Xico o empurrou para fora:
–     Espera lá! Agora vou eu aí!
Desequilibrado, ele saltou da boleia para junto das patas traseiras do cavalo. A pistola caiu-lhe da cinta e bateu com força numa pedra. O disparo ecoou como uma bomba no silêncio do vale e o animal espantou-se com o súbito ruído. Com um potente coice na carroça, fez cair os dois bandidos e partiu à desfilada, levando a carga aos saltos pelo caminho pedregoso. Logo na primeira curva, o veículo voltou-se e despedaçou-se num estrondo de cacos e vidros. Sentindo-se solto, o cavalo aumentou o galope desapareceu de vista.
Os três infelizes quedaram-se incrédulos a assistir ao epílogo da sua aventura até que Zé, olhando para os outros dois, desatou a correr na direção contrária à tomada pelo animal.
–     Espera aí, seu manhuço! Filho de um coirão! - Xico começou a correr atrás dele. - Não fujas, vou-te dar uma saronda que te racho, cochino, labrego! Espera que já as vais larpar, seu gandulo! Não fujas!
Desanimado, Tone quedou-se a olhar a nuvem de poeira deixada pelo cavalo em fuga e para os restos despedaçados da carroça. Depois olhou para o outro lado, onde o seu irmão perseguia o patranhas, aos gritos. Baixou-se, apanhou a pistola e prendeu-a na cinta.
“Pelo menos a prata deverá valer alguma coisa, porque como arma, é uma desgraça.” – Pensou enquanto se metia ao caminho, atrás dos outros dois. – “Talvez consigamos chegar a casa ainda antes da meia noite… mas desta vez não põem os dentes no presunto da taberna do Julião.”