Debaixo dos Céus Os Mundos de Manuel Amaro Mendonça

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Os Anjos Têm Olhos Azuis



No princípio tudo estava escuro. Pequenos pontos de luz, quase como estrelas, viam-se ao longe. Estaria a ver o céu? Estaria deitado num prado relvado numa noite estrelada de verão? Algumas “estrelas” moviam-se lentamente e outras com mais velocidade… mas moviam-se sem dúvida. Estrelas cadentes? Tantas? O universo estava definitivamente vivo!
O negrume intimidador parecia até convidativo, sentia vontade de se juntar àquela dança de estrelas, de ser uma delas a vogar na imensidão. Sentia isso, mas não percebia o que sentia mais, havia uma leveza, uma ausência de algo… O seu corpo; percebia que mandava comandos aos dedos e depois aos braços e às pernas, mas não sabia se eram executados. Na escuridão absoluta, mexia os braços e as pernas e não tocava em nada. Não, não estava deitado no prado verdejante, antes flutuava naquela matéria escura, longe das estrelas. Flutuava? Caía! Uma sensação de terror percorreu o corpo que não sentia e arrepiou os pelos do pescoço que não sabia se estavam lá.
Agora estava… no fundo do mar? A sua visão ondulava, como que debaixo de água e havia pequenas fitas verdes, que partiam do chão coberto de seixos e areia dourada, agitavam-se, tentando libertar-se e fugir para a superfície. Vendo-as de perto, parecia distinguir rostos que apareciam e desapareciam em expressões de angustia ou simplesmente desespero. Por entre as fitas, passavam por vezes corpos escuros, como golfinhos luzidios e sorridentes, flutuando, nadando?
“Isabel?” O pensamento pareceu ganhar forma e solidez e como as sombras escuras, nadou para longe. Mas o que quer que fosse que o fez pensar naquele nome, não se fora embora e o rosto dela acudiu-lhe à memória, dolorosamente.
Uma das sombras escuras pareceu imobilizar-se à distância e observa-lo, por entre as ondulantes fitas verdes. Depois, nadou decididamente na sua direção enquanto se metamorfoseava numa mulher, de cabelos escuros e esvoaçantes. O corpo coberto por um diáfano vestido branco, ocultava-lhe os pés, que agora caminhavam. Toda ela era em tons de cinzento, sobressaindo da tonalidade azulada das águas e do verde das fitas entre eles.
“Luís.” A voz quente ecoou-lhe na privacidade dos seus pensamentos. “Vieste!”
“Como poderia não vir?” Ele achava que tinha lágrimas nos olhos, se eles existissem.
“Não devias!” A voz que o acariciava, repreendia-o. “Fiz-te muito mal, deixei-te...”
“Disse-te que o meu amor estava para além de tudo. Não podia deixar de vir.”
Ela “flutuou” em volta dele fazendo-o rodar sobre si próprio e reluzir fracamente, como um holograma. Encostou o nariz ao dele, focando os expressivos e brilhantes olhos azuis, a única parte que parecia manter-se colorida nela.
“Os teus olhos… tão azuis!” Ele suspirou mentalmente.
“Já eram azuis, assim continuam.” Ela afirmou pragmática.
“Todos os anjos têm olhos azuis?” Era mais um pensamento do que propriamente uma pergunta.
“Porque achas que sou um anjo?” Havia divertimento na interrogação.
“És bela como um anjo, flutuas… tens olhos azuis...”
“A beleza, é a dos teus olhos. Aqui somos todos iguais: simples sombras acinzentadas, vagueando numa tristeza morna. Libertos da prisão do corpo, mas presos numa decisão precipitada. São os teus olhos que me veem com amor e constroem aquilo que não se vê… como podiam os olhos serem azuis, num mundo onde o cinzento reina?”
“Mas há os teus olhos, azuis, as fitas verdes que se querem libertar do chão de areias douradas. A própria água é um azulado cristalino!” Ele contrapôs.
O rosto dela mascarou-se de uma tristeza momentânea, antes de brilhar novamente com esperança. Ergueu lentamente uma mão que usou para acariciar com suavidade o rosto de Luís, que se tornou sólido para receber o afago. E ele sentiu aquele toque suave e meigo, embora sem calor, mas igual a tantos outros, há tantos milhares de anos atrás.
“És um anjo sim!” Concluiu ele, de olhos fechados, com um sorriso beatífico. “Agora estou feliz.”
“Também estou feliz por te ver.” Os lábios finos dela arredondavam-se num sorriso subtil, mas os olhos tremiam numa tristeza profunda. “Fiz-te muito mal e gostava de te poder compensar… não sei se alguma vez conseguirei… Fiquei feliz por te ver, mas não pode ser assim!”
“Que dizes?” Todo o corpo dele começava a adquirir uma solidez igual à dela e os dois seres, cinzentos, flutuavam um em frente ao outro, de mãos dadas.
“Não pode ser assim.” Ela repetiu, afastando o azul dos olhos para se perderem no horizonte. “Ainda não é hora! Não podemos ficar juntos.”
“Porquê? O que se passa?” Havia alarme nos pensamentos fazendo tremeluzir as águas, pressentindo o desequilíbrio.
“Não é hora, simplesmente.” Ela soltou as mãos dele e afastou-se uns centímetros. “Tens de ir!”
“Não quero!” Ele insistiu, o corpo cintilando entre desvanecer-se e agrupar-se num corpo quase sólido.
O rosto dela endureceu por uns segundos mas rapidamente voltou a máscara do amor e os seus lábios estreitaram-se num beijo. No segundo seguinte, empurrou-o com violência e imprimiu forte o pensamento: “Vai!”
Foi de um salto só que ele caiu da banheira, de joelhos sobre o tapete da casa de banho, completamente encharcado e nu.
Chorando de dor e saudade, vomitou golfadas de água e comprimidos mal digeridos.




segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

2016 Foi um ano fantástico

Este foi um ano confuso e agitado. O fantasma da guerra nuclear foi ressuscitado com as experiências da Coreia. O monstro terrorista assolou o mundo com atentados nunca vistos, como o de Burkina Faso, os atentados nos aeroportos de Bruxelas e de Istambul, ou os camiões de Nice e da feira de Natal de Berlim, passando pelo avião da Egyptair. Paralelamente, casos como o da discoteca gay onde um americano assassinou mais de 50 pessoas ou o assassinato do embaixador russo na Turquia, chocam-nos e aumentam as tensões existentes, sejam políticas, sociais ou religiosas. A guerra da Siria já se arrasta há cinco anos...
Uma tentativa falhada de golpe de estado na Turquia redundou numa purga que ninguém sabe quando terminará e que está a levar à prisão de milhares de turcos.
Os refugiados continuaram a naufragar nas costas europeias em busca de um futuro melhor, ou a morrer na tentativa.
O próprio planeta terra não precisa de ajuda no que toca a eliminar seres humanos e o sismo do Equador e o surto de virus Zica fizeram a sua quota parte de vítimas mortais e um desastre de avião leva uma equipa de futebol inteira no Brasil.
Desapareceram grandes vultos do mundo e de Portugal, como os cantores David Bowie, Prince, Leonard Cohen e George Michael e o ator Nicolau Breyner. Morreu também aquele que era o símbolo de Cuba e da resistência ao poder dos Estados Unidos, Fidel Castro. (Se quiserem consultar uma lista exaustiva sobre as grandes figuras que desapareceram durante o ano de 2016 podem fazê-lo na página do "Público".)
O escândalo dos Panama Papers, que tanta tinta têm feito correr, arriscam-se a ser mais uma triste prova que as montanhas podem parir ratos e gradualmente tudo vai sendo esquecido sem condenações ou prisões de maior.

A Inglaterra espantou o mundo com o seu brexit e ela própria está a ter dificuldade em digerir a sua decisão. A Europa agoniza numa crise que parece não ter fim e, completamente desnorteada, vota para que sejam aplicadas sanções ao nosso país.No Brasil, de boca aberta, assistiu-se à destituição de Dilma Roussef.A eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos da América, fez-nos fechar a boca e prender a respiração num: "Como vai ser agora?"

Também houve acontecimentos positivos e que nos dão alguma esperança: Para provar que o mundo está a mudar, o ainda presidente Barack Obama visitou Cuba e reatou as relações diplomáticas com o país interrompidas desde a célebre "Crise dos Mísseis de Cuba" quando o presidente americano era John F. Kenedy. Um inesperado e bem vindo acordo de paz na Colômbia vem pôr fim a anos de guerra entre o governo e as milícias FARC que tantos mortos causaram.

No nosso pequeno país, Marcelo Rebelo de Sousa vence as presidenciais com uma diferença de votos para os restantes candidatos como não se via há muito tempo. Foi inaugurado o túnel do Marão, na autoestrada A4, que simbolizou a quebra de uma grande barreira que separava trás os montes do resto do país. Se para lá do Marão continuam a mandar os que lá estão, tanto os de cá como os de lá podem movimentar-se de um lado para o outro com maior facilidade. Durão Barroso saiu da presidência da União Europeia e António Guterres tornou-se secretário-geral das Nações Unidas. 

Não podemos esquecer que Portugal venceu a França na final do Euro 2016 em Paris e tornou-se campeão da Europa em futebol pela primeira vez na nossa história. Sara Moreira sagrou-se campeã da Europa na meia-maratona nos Europeus de Atletismo de Amesterdão. Jéssica Augusto conquistou o bronze e Patrícia Mamona é campeã europeia em Triplo Salto. Tsanko Arnaudov, búlgaro naturalizado português, conquistou a medalha de bronze no lançamento de peso. O ciclista português Ivo Oliveira foi o vice-campeão europeu em perseguição individual sub-23 e a selecção Portuguesa de hóquei em patins tornou-se também campeã europeia.

Também este vosso amigo, por entre todas as notícias que atrás vos referi, teve um ano fantástico, cheio de acontecimentos que o vão marcar para o resto da vida. Percam um bocadinho de tempo a relembrar cada um deles e, se quiserem saber mais pormenores, basta clicar na imagem correspondente.

De qualquer modo, percam ou não tempo a vê-los, é muito importante que saibam que o sucesso destas actividades a vocês o devo, que são a minha inspiração e o meu estímulo para escrever.

Desejo a todos uma passagem de ano maravilhosa e feliz e um 2017 cheio de bons acontecimentos, saúde e felicidade. Como eu costumo dizer: "Que os que gostam de nós sejam abençoados e os que não gostam, iluminados!"

Fevereiro


O conto "Passagem de Ano" foi seleccionado para a coletânea "Labirintos da Mente" da Papel D'Arroz Editora



O conto  "O Assalto" foi agraciado com o 1º prémio no sétimo concurso da Editora Papel D'Arroz com o tema "Um Dia de Loucos"




Março

A revista online "Divulga Escritor" que dedica as suas páginas à divulgação dos autores lusófonos e as suas obras, publicou uma entrevista no âmbito do lançamento do meu livro de contos "Terras de Xisto e Outras Histórias" à venda desde Agosto de 2015.


O ISLA de Gaia, instituto superior que frequentei, não deixou passar a oportunidade de anunciar o prémio que me foi atribuído.



Abril



No dia 20 de Abril, mais uma obra assinada por mim passa a fazer parte dos livros escritos em português disponíveis para o público.
"Lágrimas no Rio", um romance passado numa aldeia transmontana no século XIX, começou a estar à venda em todos os sites da Amazon no mundo inteiro.



Maio
 

O conto "Sorte Grande" foi seleccionado para a colectânea  "Sexta Feira 13" da editora Euedito/Suigeneris

 

O conto "Menina Bonita" foi seleccionado para a colectânea "Décadas" da Editora Papel D'Arroz


Junho
 

Em Junho foi-me dada a grande honra de apresentar o meu novo livro no auditório do ISLA de Gaia.
Na presença de várias dezenas de amigos e familiares, além de alguns dos meus antigos professores, foram apresentados o autor e a sua nova obra, além de um pequeno momento musical.



Julho


O conto "Montês" foi seleccionado para a colectânea "Saloios e Caipiras" da editora Euedito/Suigeneris.


Setembro


Com o lançamento do novo livro "Lágrimas no Rio", a revista "Divulga Escritor" tornou a honrar-me com algumas páginas dedicadas à nova obra, no âmbito de uma edição especial dedicada aos novos autores portugueses.


Outubro

Em Outubro, a Câmara Municipal de Carrazeda de Ansiães honrou-me com um convite para a apresentação de "Lágrimas no Rio" aos habitantes de Carrazeda no âmbito do mês da Cultura e Património do Concelho.


O conto "À Vista de Deus" foi seleccionado para a colectânea "A Bíblia dos Pecadores, os Três Testamentos" da editora Euedito/Suigeneris


Dezembro

Em Dezembro, a minha grande amiga e "irmã das letras" honrou-me convidando-me para dizer algumas palavras no lançamento do seu livro "Almas Feridas"


O Correio do Porto é uma revista digital independente do Porto (PT) e sobre o Porto (distrito). Conta histórias de vida (pessoas e coisas) de um mundo à parte (físico e noticioso) e concedeu-me uma página onde me fizeram algumas perguntas.


2016 foi mesmo um ano fantástico, venha 2017 e esperamos que seja ainda melhor.




domingo, 18 de dezembro de 2016

Apresentação de "Almas Feridas" de Suzete Fraga



Foi no passado dia 11 de Dezembro que a autora Suzete Fraga fez o lançamento do seu primeiro livro "Almas Feridas" da editora Euedito/Suigeneris. A minha amizade com a Suzete não é muito antiga, mas desde os primeiros contactos que o nosso gosto pela escrita nos aproximou e a sua maneira de ser, franca e espontânea, fez o resto. Quando fiz as apresentações do meu último livro "Lágrimas no Rio" no ISLA em Vila Nova de Gaia em Junho e no CITICA de Carrazeda de Ansiães em Outubro, a sua presença foi de uma mais valia e um orgulho inigualáveis, quer pelas palavras que teve a amabilidade de me dedicar, quer pelos sacrifícios a que se sujeitou para poder estar presente.


Não há uma forma suficientemente capaz para agradecer a sua generosidade desinteressada, pelo que foi para mim uma honra que ela me tivesse convidado para dizer algumas palavras naquele que é um dos melhores dias da sua vida.

A apresentação decorreu num cenário de sonho, cheio de história, o Santuário de Nossa Senhora de Porto D'Ave na Póvoa de Lanhoso  e teve honras de casa cheia.

 
Ali, através do grande número de amigos, família e, claro, admiradores, tivemos a possibilidade de comprovar o quanto a nossa Suzete é querida por todos.

 

Tratou-se de um evento planeado ao pormenor, onde as capacidades de organização de Vítor Macedo e o apoio da Câmara Municipal, da Junta de Freguesia, do Grupo de Catequese e do professor Rafael e de Adelino Abreu foram inexcedíveis. Todos compareceram em peso.

 
A sessão foi brilhantemente apresentada por Daniel Mogas e teve a
participação musical de vários jovens prometedores, Ricardo e Margarida Soares, Joana Magalhães e Gabriel Sousa.


 


Agora, se quiserem assistir ao video da minha intervenção no evento, é só clicar no video abaixo.


Não podia faltar o nosso amigo e irmão das letras Jorge Santos


E também o escritor Cunha de Leiradella (à direita na fotografia)


Suzete: Estamos à espera do próximo, felicidades!


Fotos:

Podem ver várias fotos do evento nesta ligação 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Entrevista para "Correio do Porto"


O "Correio do Porto" é uma revista digital independente do Porto (PT) e sobre o Porto (distrito). Conta histórias de vida (pessoas e coisas) de um mundo à parte (físico e noticioso). Divulga notícias do outro mundo quando falarem do Porto. O Correio do Porto foi concebido para utilizadores com muitas horas de leitura (livros, revistas, jornais, banda desenhada, cartoons, postais, selos, cartazes, folhetos, catálogos, etc). É a geração do papel a navegar no mar digital.

Recentemente, lançaram um desafio, aos leitores e simpatizantes, para que fossem enviados postais com pequenas histórias para serem publicadas numa homenagem ao pedaço de história que representam os postais trocados entre pessoas. No âmbito da minha participação nesse desafio, tiveram a amabilidade de me convidar a responder a algumas perguntas. O resultado dessa entrevista pode ser lido aqui.


domingo, 11 de dezembro de 2016

Discurso no lançamento de "Almas Feridas" de Suzete Fraga


Apresentação do livro “Almas Feridas” de Suzete Fraga

11 de Dezembro de 2016

Póvoa do Lanhoso



Introdução

É com muita alegria que estou aqui, neste evento, neste local fantástico, cheio de história, aquecido pelo carinho dos amigos e suportada pelas mais diversas instituições… não há dúvidas que a Suzete é mesmo uma mulher afortunada.
É por isso também, pelo amor a esta nossa amiga, que aqui estou neste espaço recheado de história e também de arte. Vejam-se estes jovens intérpretes musicais fantásticos, a pintura do meu lado direito e as letras do lado esquerdo… quase me sinto um penetra nesta sala.
Agora, depois de ouvir o meu amigo Daniel a tecer-me tantos elogios, sinto-me um pouco envergonhado por não ter a sua capacidade de improviso e precisar de um papel para ler umas poucas palavras sobre a minha amiga Suzete Fraga.
A autora Suzete Fraga

“As raparigas do Norte têm belezas perigosas, olhos impossíveis. Têm o ar de quem pertence a si própria.
Olham de frente. Pensam em tudo e dizem tudo o que pensam. Confiam, mas não dão confiança. Acho-as verdadeiras. Acredito nelas.
Gosto da vergonha delas, da maneira como coram quando se lhes fala e da maneira como podem puxar de um estalo ou de uma panela, quando se lhes falta ao respeito.
São mulheres que possuem; são mulheres que pertencem. As mulheres do Norte deveriam mandar neste país. Têm o ar de que sabem o que estão a fazer.”
Miguel Esteves Cardoso


Este pequeno excerto de um texto de Miguel Esteves Cardoso respeitante ao Norte de Portugal, assenta como uma luva na minha amiga Suzete, que penso estar a viver hoje um dos dias mais felizes da sua vida. O lançamento de um livro, deve ter o mesmo sabor que receber nos braços o filho acabado de nascer. E ela já pode falar destes dois casos por experiência própria.
Desde os nossos primeiros contactos, via Facebook, que parece ser o método natural de se conhecer as pessoas nos nossos dias, se gerou entre nós uma empatia e uma amizade que parece velha de anos. Filha do Minho, esta vimaranense tem o coração perto da boca e as suas palavras são sempre ditas com uma paixão contagiante, própria de quem acredita em si e nas suas capacidades. Põe todo o seu ser em tudo o que faz e por isso estamos aqui hoje a celebrar o lançamento do primeiro livro daquela a quem, com muito orgulho, chamo “irmã das letras”. Se por um lado ela se tornou admiradora dos meus trabalhos e não perde um livro nem um lançamento, por outro lado, a leitura de alguns dos seus escritos deixaram-me ansiando por este momento, onde finalmente deixaria que o mundo espreitasse sobre o seu ombro para ver a qualidade dos textos que saem da sua fértil imaginação.
Entre as várias coisas que sobressaem na escrita da Suzete, estão a forma como consegue fazer-nos sentir e reconhecer coisas do nosso dia-a-dia, às quais não deitamos importância, mas que fazem parte de nós e da “música de fundo” que acompanha o filme da nossa vida. No seu conto “Invisibilidade”, merecidamente escolhido para a coletânea “Caprichos e Virtudes” descreve aquela pessoa com quem nos cruzamos todos os dias, mas fingimos, ou não vemos de todo. Vou citar um pequeno excerto: “o seu passo apressado, engolia a solidão das bermas enquanto camuflava a própria solitude. Palmilhava as ruas da aldeia num incessante vaivém. Depois, a noite caía e só na madrugada seguinte voltaria a ser vista. Nunca ninguém lhe dedicava uns míseros minutos, a menos que precisassem de algum favor. Nunca lhe perguntavam como estava. Não fosse o barulho dos seus passos e seria completamente invisível”.
Os seus personagens são multifacetados e tão diferentes uns dos outros, como se dos diversos heterónimos de Pessoa se tratassem. Noutro dos seus contos, a protagonista é tão supereficiente como supertrapalhona e especialista em arranjar “bodes espiatórios” quando não consegue executar uma tarefa, que diga-se de sua justiça não lhe foi entregue atempadamente. Num outro, a triste realidade da violência doméstica é cruamente representada e a submissa esposa, alvo sucessivos anos de maus tratos e acusações infundadas, enche-se de coragem e toma finalmente uma atitude. Noutro ainda, uma jovem, vítima do assédio de um professor da “velha guarda” que agride os alunos e foi responsável pela desgraça de vários dos antigos pupilos, descarrega acusações e “cospe” o seu desprezo, numa carta cheia de palavras duras.
Todos estes trabalhos estão repletos de figuras de estilo e descrições de sentimentos capazes de nos fazer viver tudo o que os seus personagens sentem.
É a sensibilidade na observação destes pormenores e a forma como são descritos, que me fez perceber estar perante um sério caso de sucesso e prever que o “nascimento” do seu primeiro livro seria apenas uma questão de tempo e, principalmente, que este livro será apenas o primeiro, pois outros o seguirão.