Debaixo dos Céus Os Mundos de Manuel Amaro Mendonça

quarta-feira, 29 de março de 2017


segunda-feira, 27 de março de 2017

A Moura do Castelejo






** Publicada no blogue "Memórias e Outras Coisas" http://5l-henrique.blogspot.pt/2017/09/a-moura-do-castelejo.html

O fim da tarde e a altura para o regresso a casa aproximavam-se a passos largos quando Mário Júlio se apercebeu da falta de uma das cabras mais novas. Ergueu-se da pedra onde estava sentado e espreitou o rebanho que balia e bulia incessantemente.
- Zé! - Gritou pelo sobrinho. - Ó Zé, onde andas, lapantim?
- Estou aqui, meu tio! - O rapaz respondeu do fundo da ladeira, na margem do Tua, onde se entretinha fazer ressaltar pedras na superfície calma do rio.
- Que fazes aí, em vez de olhar pelas cabras, excomungado? Falta aqui a salta-pocinhas, a mais pequena.
O rapazinho, aparentando uns dez anos, com um casaco que não era obviamente seu, calças remendadas e pés descalços, subiu para junto do rebanho. Olhou desalentado a toda a volta tentando localizar a fujona.
Mário subiu numa fraga mais alta para ver ainda mais longe, mas não obteve melhores resultados. Levantou a boina basca e limpou o suor da testa com as costas da mão. O seu casaco já conhecera melhores dias e apesar de ter os cotovelos com remendos e estar ainda bastante calor àquela hora, sempre era melhor levar o casaco e suportar o calor, que mostrar a camisa puída que envergava.
- Raios te pelem, rapaz! - Amaldiçoou Mário antes de descer da fraga. - Para que serves tu afinal? Ainda comes da côdea que trago e nem olhas pelas cabras! Quando chegarmos ao povo vou dizer ao teu pai que não que não te trago mais. O meu irmão pensa que eu sou tua ama, mas ou vales a côdea que comes ou…
- Não faça isso, meu tio! - O miúdo implorou com as lágrimas nos olhos. - Ele “malhar-me” outra vez.
Ignorando o sobrinho, saltou para junto da margem e seguiu alguns metros ao longo do rio enquanto Zé, com as lágrimas a correr no rosto, encaminhava as cabras, ajudado pelo Fusca, que latia zelosamente em volta do rebanho.
- E pergunta-me ao meu irmão --- Gritou ainda ao rapaz. --- quando pensa pagar a cabra que levou no mês passado!
Enquanto o alarde provocado pelas dezenas de animais e o cão se afastava, Mário caminhou ao longo do rio, resmungando baixinho contra o sobrinho, a cabrita fujona, as cabras em geral e o mundo. Sempre fora um homem amargo e só. Em tempos estivera para casar, mas não quisera o destino que tal acontecesse e a rapariga com que “conversava”, quando era mais jovem uns vinte anos, foi levada por uma febre ruim, junto com mais umas dúzias de pessoas da região. Se já era pouco sociável nessa altura, pior se tornou e vivia para amontoar todos os tostões que ganhava, nem ele sabia bem para quê, pois não tinha mulher nem filhos. Os únicos que ainda conseguiam alguma proximidade eram o irmão Simão, o pai do Zé e irmã Maria de Jesus; ele era sapateiro e seu vizinho na aldeia do Pombal e ela vivia no São Lourenço onde o marido herdara uma pensão. Simão convenceu Mário a levar o sobrinho mais novo para pastor, para que aprendesse a dureza da vida, mas ele bem sabia que era para ver se lhe herdava as “fazendas”. Os outros três filhos mais velhos trabalhavam com o pai, mas os ganhos não davam para tanta gente. Mário, por seu turno, ganhava a vida com as cabras e nunca aceitava trocas pelo fruto do seu trabalho, tinha que ser tudo pago em dinheiro. Precisava de ver luzir a prata, para se lhe rirem os olhos de cobiça. Resmungava com todos e depois que chegava a noite, ninguém o via fora do casebre onde vivia e onde se dizia que ficava a contar as moedas até tarde na noite, às escuras para não gastar as velas.
Precisava de encontrar a cria antes que os lobos dessem com ela. Era filha da Rela e do Marrão, que eram fortes e saudáveis e em breve lhe renderiam uns bons cobres, ela deveria ir pelo mesmo caminho… se fosse enfezada não tinha desaparecido. Apoiou-se no bordão para regressar ao caminho que acompanhava o rio, assim que a margem desapareceu nas fragas que lhe barravam o caminho.
- Junta a porcaria das cabras e vai “cerra-las”. Depois vai para casa. Umas boas “correadas” só te fazem bem. Eu vou “à pergunta” da salta-pocinhas. E não vás pelo São Lourenço fazer queixinhas à minha irmã! Vai direto para Pombal! Livra-te de me deixar o rebanho por aí!
Não andava por ali ninguém, não que costumasse andar, ou não fosse esse o motivo da sua escolha para levar o rebanho, mas acabava sempre por passar alguém. Por vezes eram os jovens que vinham tomar banho ao rio, outras vezes, pessoas das aldeias vizinhas que iam tomar os banhos na fonte santa.
Aquele lugar era impressionante, junto aos areais do rio Tua, onde este fazia uma curva larga e se arrastava pachorrentamente em direção ao Douro onde desaguaria, a alguns quilómetros dali. Era um local de muita paz e silêncio, cercado pelos altos montes que o rodeavam, imponentes e graves, como se se encontrasse numa profunda e impressionante cova.
Escalou a ladeira de terra húmida, resmungando. Ali escorriam alguns dos ramais não explorados das águas sulfurosas da “fonte santa” do São Lourenço, na povoação do mesmo nome, umas boas centenas de metros acima. O caudal dessa fonte brotava água quente durante todo o ano. Jorrava em tal quantidade, que havia pequenas nascentes e regos, que não eram aproveitados para os apreciados banhos medicinais e a água corria monte abaixo formando grandes poças, autenticas banheiras naturais, antes de se misturar com o rio Tua. Muitas pessoas do povo, não querendo pagar os banhos no balneário da aldeia, procuravam e banhavam-se nesses locais. Olhou de soslaio para o céu onde a lua já se mostrava, nem tinha dado tempo a que o sol desaparecesse atrás das serras. Aquele mês de Junho não era nada normal. Chegou ao cimo da ladeira, junto de uma fileira de grandes pedras que o povo dizia agrupadas por magias antigas e espreitou por entre os espaços.
Através da ramagem de castanheiros e sobreiros, viu uma das poças da água do São Lourenço, o cheiro que dali provinha não enganava ninguém, era grande o suficiente para se deitarem duas pessoas… já lá estava uma mulher, de longos cabelos negros, sentada dentro de água, de costas para ele e completamente nua. Mário até parou de respirar enquanto os seus olhos se demoravam, lubricamente, por aquela pele alva e firme, pelo contorno suave dos ossos da coluna que surgiam por baixo da luxuriante cabeleira e desciam costas abaixo até ao sacro. As formas perfeitas das ancas faziam com que se parecesse com uma deusa. Ela ergueu-se, com a água pelo meio das coxas e ficou de lado, braços erguidos, enrolando o cabelo numa trança. Passou a água pelo pescoço e pelas costas, com os olhos fechados numa expressão de prazer. O contorno dos peitos bem torneados e os mamilos eretos, provocaram uma reação no baixo ventre dele.
- Vais ficar aí pasmado a olhar? –- A voz dela era suave mas firme e os olhos escuros pareciam vara-lo, através das folhas e dos ramos que ele achava que o escondiam.
Mário atirou-se para trás, surpreendido e assustado com a certeza com que ela olhara na direção dele, como se soubesse há muito tempo que se encontrava ali. Rebolou descontrolado até ao trilho de onde viera e, erguendo-se de um salto, começou a correr para longe dali.
- Espera, vem cá! –- Ouvia ainda a voz chama-lo. –- Não fujas, não te faço mal!
Mário não queria saber e num instante estava no caminho que o levaria de volta casa. Mesmo em frente a ele, na bifurcação que separava o trilho do São Lourenço do do Pombal, estava uma pequena cabrita cinzenta.
- Olá pequena… --- Rapidamente se esqueceu da perturbadora e inusitada visão, dedicando-se à pequena cria, que parecia chegar de propósito para suprir a perda da outra. --- Viste por aí a salta-pocinhas? Não? E não queres tu vir comigo?
A cabrita baliu, sem receio, mas com aspeto de se sentir perdida, olhando em volta, enquanto ele se aproximava, lentamente, para não a assustar.
- É melhor vires comigo. --- Mário acariciou a cabeça da criatura, antes de a segurar suavemente pelos cornos. --- Alguém deve andar à tua “pregunta” e se não andar, quer dizer que achou a minha salta-pocinhas e acatou a troca. Mas assim eu fico a perder, tu és mesmo um saco de ossos.
Puxou o animal para o caminho mas ela balia e fincava as patas, não se queria mover.
- Diacho de bicho ruim! --- Ele exasperava-se a trazer a cabra de arrasto. --- Anda daí! Se encontrar o teu dono, ainda lhe dou umas boas “arroxadas”.
Pegou na cria e colocou-a às costas, iniciando decididamente a subida de volta a casa.
Pelo caminho, não lhe saía da ideia a bela mulher que vira. Se fechasse os olhos ainda conseguia ver aquele perfil que parecia gravado a fogo do lado de dentro das suas pálpebras. «Quem seria? Não a reconheci. É verdade que estava de lado e não olhei muito para a cara… mas não devia de ser destes lados, tão bem feita.» --- Perdido nos pensamentos, caminhava em passos largos. --- «Será de alguma aldeia do outro lado? Da Amieira? Já não vou lá há uns anitos...»
Já se via a primeira casa da aldeia, quando Mário, a transpirar, resolveu parar um pouco para recuperar o fôlego. A cabrita à volta do pescoço fazia-lhe muito calor e a dura subida esgotara-lhe as forças. De repente, a pequena cria, que até ali se mantivera quieta, começou a agitar-se e a escoucinhar, obrigando o homem a pousa-la. Assim que o fez, o animal soltou-se numa corrida e parou a poucos metros dele, olhando-o.
Mário não tinha forças para perseguir a cabrita, estava esgotado e ela começou a dar pequenos pinotes de felicidade à volta dele, parecendo caçoar com a situação.
- Anda cá, bandida! --- Mário resmungou entre a respiração pesada e deu um salto para a agarrar.
O pequeno animal saltou graciosamente para o lado, frustrando-lhe os intentos ao mesmo tempo que balia o que parecia uma gargalhada e repetia a graça de saltitar em volta do pastor.
- Maldita! --- Exasperou-se. --- Se te ponho as mãos…
- Descansa que não pões! --- Exclamou nitidamente a cabra enquanto soltava os seus balidos.
- Diacho! --- Mário, com os olhos a querer sair-lhe das órbitas, tirou a boina e usou-a para limpar o suor da testa. --- O sol e o calor mexeram-me com o juízo.
- Não estás endoidado, Mário Júlio, estás mesmo a ouvir falar. --- Os balidos/risos da criatura percebiam-se perfeitamente. --- Que bem me soube vir em tal cavalgadura pela serra acima.
- Como diachos é que falas, cabra dos infernos? –- Ele benzeu-se ao mesmo tempo. –- Como sabes o meu nome?
- Vim trazer-te um recado. --- Baliu a cria. --- Não viste lá baixo uma mulher? Não te chamou ela?
Mário gelou por uns segundos, mas logo recuperou e, de um pulo, tentou agarrar a cria novamente. A cabrita deu um salto e esquivou-se, deixando-o estatelar-se no chão desequilibrado. Deu duas voltas ao homem caído, balindo/rindo e desatou numa corrida pelo trilho abaixo de volta ao caminho do rio.
Desalentado, ergueu-se e sacudiu a terra da roupa, enquanto olhava o animal a desaparecer na curva do caminho, tendo como pano de fundo os cumes dos montes  emoldurados a vermelho pelo sol que desaparecia no longínquo mar.
Apanhou o bordão do chão e retomou o seu caminho. A primeira casa da aldeia era da Antónia “da rampa”, que tinha fama de bruxa, herdada da sua mãe e que ela nada fez para a desmerecer. Perdera o marido, há cerca de um ano; diziam as más línguas que se suicidou no rio, pois o Diogo tinha fama de bom nadador, mas Antónia sempre  desmentiu e dizia que ele haveria de voltar. O certo é que, um dia foi tomar banho ao rio e nunca mais ninguém o tornou a ver.
A mulher estava sentada à entrada da casa a depenar uma galinha e olhou-o de soslaio fingindo-se ocupada na tarefa. Mário olhou-a e benzeu-se, fruto de hábitos antigos.
- Para que estás tu com isso? --- Censurou-o ela, olhando-o diretamente. --- Nem acreditas nisso que fazes, para que te pões com essas patranhas?
- E tu, porque me falas hoje, se nunca o fazes? –- Ele retorquiu enfadado.
- Quem deixou de me falar foste tu! –- Acusou-o. –- Há muitos anos atrás!
Mário recordou a sua infância o dia em que esteve a brincar com Antónia até muito tarde e quando chegou a casa, o pai, ouvidos cheios pela mãe, deu-lhe uma tareia com a cilha do burro que nunca mais se esqueceu: «A dançar com as bruxas, bandalho?», gritava-lhe entre as pancadas, «Eu já te dou as “companhas”!», caía nova malhada, «Volta para as bruxas, que eu tiro-te o fado com pancadas!». Nunca percebeu muito bem que “fado” era aquele e não se atrevia a perguntar aos pais, com medo de levar outra “desanda”, mas pelo sim pelo não, nunca mais abeirou sozinho por aquele lado do povo enquanto foi criança. Depois de adulto, como a maior parte do povo, não lhe falava, uns por medo, outros por desprezo e ele… nem sabia bem porquê.
- Que aconteceu ali? --- Perguntou Antónia, perante o silêncio dele, que contudo não se tinha afastado.
- Ali? No caminho? Porque achas que aconteceu alguma coisa?
- Esta galinha que aqui vês, torci-lhe o pescoço e não morria, cortei-lhe a cabeça e queria fugir-me do alguidar… não me atires terra para os olhos, homem! Alguma coisa estava a acontecer ali onde estavas há pouco… a falar sozinho.
Mário olhou-a, indeciso sobre o que podia ou não dizer… a verdade era que, se havia alguém que podia explicar-lhe o que estava a acontecer era ela. Encheu o peito de ar e contou-lhe tudo o que se passara. Mesmo para Antónia, todas essas revelações eram demais: uma mulher bela como uma deusa, tão próximo do dia de São João, a tomar banho nas águas santas, uma cabra que fala e que lhe diz para ir ter com a mulher!
- Cuidado contigo, homem! --- Alertou-o ela. --- Só pode ser a Moura do Castelejo! Só aparece à luz da lua e dizem que encanta os homens e transforma-os em pedras; parece uma mulher muito bonita mas é uma horrível serpente gigante!
- Cala-te lá, mulher maluca! A quem eu fui contar…
- Maluco és tu, se não te acautelas! Não vás mais para ali e se a cabra falante te aparecer outra vez, fere-a com qualquer coisa, mas tens que fazer sangue, e o feitiço desfaz-se!
- Mas que “rinchadeira” de patranhas aí vai… --- Mário retomou o seu caminho. --- Como é que se me meteu na cabeça perguntar-te.
- Ouve o que eu te digo! –- Insistiu Antónia. –- Dizem que a moura guarda sacos cheios de moedas e que seduz os homens com o ouro, quando a beleza dela não chega. Foi amaldiçoada porque deixou que os cavaleiros cristãos matassem o próprio pai só para ficar com o tesouro.
- Eh lá, mulher, deixa-te de doideiras! Não admira que o teu homem se matasse!
- Ah! Filho de um cão! --- Furiosa, começou a atirar-lhe com batatas. --- Foge-me da vista, maldito sejas! Que a moura se esfregue todo em ti, depois de te transformar em pedra!
Acabou por rir-se enquanto fugia dos projéteis que a irada mulher arremessava. Apesar de ter perdido a cabrita, até que estava divertido por ter irritado a “bruxa” da aldeia.
Estava a chegar a casa, a noite caía rapidamente e viu o irmão, Simão, que caminhava apressado, de rosto angustiado em sentido contrario ao seu.
- Ah, abençoado seja o Senhor! –- Exclamou Simão assim que o viu. --- Saí agora mesmo para ir à tua “pregunta”, o Zé disse-me que tinhas ficado no vale por causa de uma cria.
- E que ias lá fazer? --- Mário esboçou uma careta. --- Tinhas medo que me perdesse era?
- Sabes bem que aqueles lugares lá para o rio não são bons sítios para se andar à noite. Além de que podes encontrar alguma coisa ruim nalguma encruzilhada…
- Ora! Coisa ruim sou eu! --- Riu com desdém. --- Não te disse mais nada o teu Zé? Não te perguntou do dinheiro da cabra?
- Sabes eu… --- Simão fitou o chão. --- Não temos andado lá muito bem de dinheiro…
- Pois não, que novidade! --- Mário ergueu os braços ao ar. --- Geres o teu negócio como se fosse uma misericórdia! Qualquer bandalho vai a tua casa pelos sapatos e fica-te a dever. E tu tens medo de lhe ir pedir o dinheiro que te devem! Metade do Pombal deve-te dinheiro, homem!
- Eh, que exagero! São apenas dois ou três… ou quatro.
- Ou cinco ou dez, ou cinquenta! --- Mário levantou a voz. --- E eu é que fico a arder sem o dinheiro porque o caloteiro é o meu irmão!
- Por favor, Mário. Ainda não tenho o dinheiro, logo que tenha, pago-te. De resto, tu não precisas assim tanto do dinheiro…
- Não preciso?!? --- Escandalizou-se o outro.
- … tens o trabalho do Zé, que não pagas e …
- O teu filho?!? --- Mário soltou uma um ruído de escárnio. --- Ainda tenho que dividir a minha côdea com ele, come mais do que o que vale!
- Essa côdea que divides com ele, não será do trigo que te mando quando cozemos para nós? E do qual nunca te pedi nem um tostão?
- Não faltava aí! Mandar receber de uma coisa que eu nunca mandei vir! Não mandes mais pão nenhum! Se quiseres devolvo-te o resto que tenho lá em casa!
- Não, meu irmão! --- Simão tinha o rosto afogueado e os olhos reluzentes. –- Não quero que morras de fome, para não gastar um vintém quando se te acabar o pão.
O irmão virou-lhe as costas e foi-se embora batendo os socos com força na calçada. «Não passa de um pobre diabo, um sapateiro que nem faz um sapatos para si!» Pensou Mário desalentado.
Mas a verdade é que o desalento foi “sol de pouca dura” e, naquela noite, comeu o caldo quase azedo sentado à porta, para não ter que acender a lamparina e gastar mais azeite. Deixou ainda umas quantas couves no fundo para o desjejum da manhã seguinte. A noite, passou-a agitado a sonhar com cabras que falam, mulheres belas, cobras e… muitas moedas de ouro.
Quando saiu de casa, já lá estavam Zé e as cabras, ele já tinha escutado o rebuliço que fizeram ao chegar. Chegou a temer que o irmão dissesse ao filho para não voltar, era uma criança, era verdade, quase não fazia nada, também era, mas já se tinha afeiçoada à sua presença, às suas perguntas de criança e ao fascínio que mostrava pelas coisas mais corriqueiras. Não conseguiu passar por ele sem um afago na cabeça e um bom dia.
O rapazinho encolheu-se, não que estivesse habituado a levar porrada, pois o tio nunca lhe batera, mas o gesto fora tão inusitado que ele ficou sem saber como reagir.
Partiram em direção ao rio, com rebuliço das cabras à frente, guiadas por Zé e pelo fiel Fusca, que latia e ameaçava, cada vez que uma delas aparentava querer sair da formação. Atrás, com ar de satisfação, seguia Mário Júlio, afiando a ponta do seu cajado com a faca, enquanto exibia um distraído sorriso de satisfação.
Passaram à porta de Antónia, sem que se visse viva alma, mas tão logo o “cortejo” se afastou, assim se abriu a porta para dar passagem à proprietária. Ela sentou-se no degrau de granito onde estivera na noite anterior, alisou a terra entre os seus pés e lançou um grupo de pequenos gravetos e pedras brilhantes para o chão. Moveu alguns dos objetos pensativamente, recolheu-os e lançou-os novamente. O resultado fê-la empalidecer e olhar para Mário Júlio e companhia, que desapareciam no declive do caminho. Benzeu-se, recolheu os objetos e retirou-se para casa.
Chegados à margem do rio, Mário parecia satisfeito com o resultado no cajado e experimentou espetar umas folhas que arrancara de uma videira ao descer. Transformara a vara num bom espeto… «Na certa, não passava de uma mulher que veio banhar-se na água santa, mas se existir mesmo uma moura que se transforma em cobra, uma boa “barduada” e uma espetadela com este bico, acaba-se-lhe o fado num instante! Depois veremos onde anda o tal tesouro.» Pensou, sorridente.
Deixou o rapaz com o rebanho e apressou-se para o local do estranho encontro do dia anterior. Não sem algum receio, o bico do improvisado pique erguido, passou pelo meio das pedras e aproximou-se da pequena lagoa que largava os vapores sulfurosos, empestando os ares. Não havia ninguém à vista, nem pegadas além das suas… Em vão, procurou nos buracos e nas pedras em volta. «Parece impossível, mas se houvesse assim tanto ouro, tem de estar escondido por aqui, a moura não deve andar por aí a passear com sacos de ouro às costas.» Falou em voz baixa, enquanto olhava de forma ausente a superfície cristalina das águas. «Espera! A Antónia não disse qualquer coisa da lua? À luz da lua, pois era e ontem ela nem deu tempo a desaparecer o sol, hoje deve ser igual. Voltarei mais tarde.»
Se bem o pensou, melhor o fez e regressou ao rebanho, mantendo-se calado e pensativo durante todo o dia, mesmo durante a parca merenda que excecionalmente Zé trouxera para os dois.
Acabou por adormecer durante a tarde e acordou sobressaltado quando o sobrinho o chamou, que eram horas de regressar. Mandou-o à frente com o rebanho dizendo que breve os apanharia.
A lua disputava já o céu com o sol, que caminhava para trás dos montes. Mário empunhou a sua “arma” e dirigiu-se decididamente para o local do encontro.
À chegada à encosta que precisava escalar, lá estava a cabrita cinzenta a mira-lo no que parecia um olhar de desafio… ou divertimento.
- Que fazes aqui? --- Riu a cabrita. --- Queres levar-me monte acima outra vez?
- Ainda não me explicaste como é que tu falas. --- Retorquiu ele, aproximando-se devagar, embora sentindo os pelos da nuca eriçados.
- Ora, falo pela boca! És assim tão asno? Vá, pega-me às costas e leva-me a passear, cavalgadura, vamos! --- A insolente criatura caçoava dele.
Mário percorreu o resto da distância que os separava com um salto e agarrou-lhe com força os cornos. A cabrita começou a escoucear e a balir desesperadamente assim que percebeu a faca na mão do homem, mas não conseguiu evitar que ele lhe fizesse um corte num dos quartos traseiros, que começou a sangrar de imediato. Nesse momento, todo o corpo da criatura começou a estremecer e a fumegar e Mário afastou-se, assustado, enquanto assistia aos estertores. Quando tudo terminou, restava um homem completamente nu, embrulhado em posição fetal, com um pequeno, mas sangrento, corte numa coxa. O estranho mexeu-se fracamente e Mário Júlio, apesar do rosto sujo e cabelo e barba desgrenhados, reconheceu, sem sombra de dúvida, o desaparecido marido de Antónia.
- Diogo?!? --- Admirou-se. --- Que fazes, homem?
- Valha-me Nossa Senhora! --- Gemeu o “transformado”, erguendo-se e tentando abraçar o outro. --- Que Deus te abençoe, meu bom Mário.
- Então eras tu a cabra? –- O espanto não impediu que o pastor se furtasse ao abraço do homem nu.
- Sim, era eu, foi a serpente que me transformou! Eu via tudo mas não conseguia fazer nada e quando me tentava aproximar da aldeia, era como se esbarrasse numa parede.
- Tapa-te lá, que andas aí com “as vergonhas ao pendurão”. --- Mário não disfarçava o incómodo que lhe causava a nudez de Diogo. --- Dizes que foi a serpente…?
- Sim! A moura, a bruxa! Quando me apercebi, já estava ao pé de mim, junto do rio, não consegui fugir! --- O outro exclamou, alterado, com os olhos arregalados e a espumar da boca. Tentou agarrar o braço do vizinho.
- Ai! –- Exclamou Mário já alterado. –- Deixa-me lá, homem! Não te agarres mim, que estás nu, raios partam! Vai-te lá saber da tua mulher que te julga morto. Se fores depressa ainda apanhas o meu sobrinho Zé com o rebanho e ele que te dê uma manta, para não apareceres no povo assim  descomposto.
- Que o senhor Deus te cubra de bênçãos e o São Lourenço te proteja de todo o mal! --- Gritou Diogo já a correr pelo carreiro. --- Não vás atrás da moura! Olha que te enfeitiça!
Mário Júlio ficou a ver o homem nu a correr aos saltos sobre as pedras, as giestas e os tojos do caminho. Por um instante duvidou da sua ideia e olhou para o alto do talude que escalara no dia anterior, onde as pedras alinhadas assinalavam o local do estranho encontro. Depois, porém, as palavras de Antónia ecoaram-lhe na memória: “Dizem que a moura guarda sacos cheios de moedas e que seduz os homens com o ouro, quando a beleza dela não chega.”
Olhou a ponta aguçada do cajado e apalpou o cabo da faca na tira de pano que usava à cinta, sentindo-se de imediato mais confiante. «Se há alguma mulher serpente com ouro por estes lados, é hoje que fico rico e acaba-se com uma besta dos infernos.»
Atirou-se ao talude e subiu-o ágilmente até à muralha natural, de onde se pôs a espreitar; lá estava a bela mulher com os longos cabelos negros, sentada na água, de costas para ele.
Mário começou a contornar as pedras o mais silenciosamente que conseguia, com a ponta afiada apontada na direção dela.
- Viste por aí a minha cabrita? --- A mulher perguntou sem se voltar.
O homem estacou e sentiu uma onda de terror percorre-lo.
- Então? --- Ela voltou-se diretamente para ele, mostrando uns estranhos, mas belos olhos amarelos reptilíneos. --- Não respondes? O gato comeu-te a língua?
- N...não. –- Gaguejou, começando a duvidar da sanidade da empresa a que se propunha.
A mulher ergueu-se expondo despudoradamente o seu voluptuoso corpo ao olhar cobiçoso do aldeão.
- Vou ter de a castigar. Ontem disse-lhe que te fosse buscar e não me apareceu cá nem um nem outro. –- Ela continuou a falar sem fazer o mínimo gesto para se tapar. --- Sinto-me tão sozinha, preciso de um homem que me faça companhia.
Embora não conseguisse desviar os olhos do deslumbrante corpo, Mário, completamente mudo, não se aproximava da tentadora, de braços estendidos num aguardado abraço.
- Não vens até mim? --- A mulher não saía da pequena lagoa com água sulfurosa, através da qual se via a difusa forma dos pés. –- Vem, abraça-me! Dou-te o ouro que quiseres. Faço de ti o homem mais rico da terra.
- Ou transformas-me em cabra… –- Ele pareceu recuperar do feitiço  e olhou-a desafiadoramente nos olhos amarelos.
- Porque haveria de fazer isso? --- Um esgar divertido. --- Preciso de um homem, aquele palerma não servia para nada.
- Como sei que tens ouro? --- Os olhos dele brilharam de cobiça e foi a sua vez de exibir um sorriso trocista. --- Como sei que não és uma bruxa que está aí só à espera para me transformar num bicho qualquer só pelo gozo que isso te dará.
As belas formas da mulher oscilaram, enquanto ela lhe voltou as costas e dirigiu-se para uma das enormes fragas próximas. Debruçou-se sobre uma fenda, permitindo uma vez mais que ele apreciasse longamente a sua nudez e retirou um saco, do tamanho de um braçado, que transportou sem esforço até perto do pastor. Pousou-o e abriu-o frente a ele, tendo o cuidado de não lhe tapar a visão dos bem delineados seios com a cabeça; centenas, milhares de moedas de ouro brilhante reluziam quase ofuscando a visão lúbrica dos peitos que desejavam ser apertados e beijados.
Grossas gotas de transpiração perlavam a testa de Mário. Engoliu em seco, todo o seu corpo tremia enquanto a sua mão esquerda avançava muito lentamente, ainda indecisa se sentiria o frio do metal ou o calor da carne, quando os seus olhos se focaram para lá da borda do saco e do corpo apetitoso. Afastada das águas sulfurosas, a verdadeira forma da mulher começava a revelar-se e, em lugar dos pés e das pernas, havia agora um grosso corpo de serpente!
Foi como se lhe despejassem um balde de água fria sobre a cabeça e, mais rápido que a reação do estranho ser, o cajado do pastor rodou no ar e bateu na cabeça da criatura com o som de uma pedra a bater noutra. Em seguida, de faca em punho, saltou sobre a atordoada mulher, agora completamente verde e coberta de escamas e cravou-lhe profundamente a sua faca no peito por várias vezes. O sangue que lhe espirrou dos ferimentos para as mãos e para o rosto, doeu-lhe, queimou e fumegou. Afastou-se de um salto e olhou, repugnado, o ainda belo corpo que se retorcia. A criatura bufava e gemia, tentando em vão conter as golfadas de vida que se escapavam. Percebendo finalmente que a sua existência terminava, deitou o olhar amarelo cheio de ódio para Mário e começou um enorme berro lancinante que não tinha fim e ameaçava rebentar-lhe os tímpanos.
Mário pegou o seu cajado e cravou a ponta aguçada bem entre os seios da criatura e usou todo o seu peso para a atravessar, até que o grito parou.
Ofegante, olhou as mãos trementes, onde as pingas de sangue gravaram sulcos cinzentos, fumegantes que causavam bastantes dores. Passou os dedos no rosto e sentiu dolorosamente os mesmo sulcos. Deu um forte pontapé no corpo sem vida e amaldiçoou-a.
Pegou no saco às costas e permitiu-se um sorriso ao sentir o peso da sua recompensa. Desceu ao caminho e dirigiu-se para casa, tomando um atalho por trilhos menos movimentados, para não ter que responder a perguntas incómodas. Mas o seu troféu cada vez pesava mais e as pernas começavam a custar a movimentar-se, as feridas da mão e da cara ardiam imenso e por fim, quando olhou de perto para a mão que segurava a boca do saco, viu-a completamente cinzenta, como se de pedra se tratasse. Tentou movimentar os dedos e o saco rebentou no chão, numa explosão de moedas douradas, que tilintaram em todas as direções. Aterrorizado olhou as mãos empedernidas que quase não conseguia mexer e, com enormes gritos de terror tentou correr em busca de auxílio. As pernas, como enormes cepos, não dobravam os joelhos e poucos passos conseguiu dar antes de cair de bruços e ver um dos braços estilhaçar-se ante os seus olhos. Abriu a boca do rosto cinzento num grito mudo de terror e assim ficou.
Nunca mais se ouviu falar do pastor Mário Júlio, nem da Moura do Castelejo. Durante algumas semanas, Simão e o filho Zé procuraram-no pelas margens do rio e pelos caminhos em volta, sem sucesso. Acabou por ser esquecido… e pouco chorado.
Ainda hoje, quem descer da aldeia do Pombal para a do São Lourenço, poderá ver, algures no caminho, uma estranha formação de pedras que quase parece um rosto humano a gritar... se quiser ficar rico, bastará cavar em volta.


Nota: Este conto foi baseado nas lendas do Pombal de Ansiães transmitidas por tradição oral e registadas no site “Lendarium.org”
http://www.lendarium.org/narrative/o-castelejo-versao-a/
http://www.lendarium.org/narrative/o-diabo-as-costas/ 



sexta-feira, 24 de março de 2017

Daqueles Além Marão - Em lançamento







Depois de um grande conjunto de contratempos, está finalmente por dias o lançamento do meu novo livro intitulado "Daqueles Além Marão".

Esta nova obra é composta por oito contos escritos entre 2015 e 2017.

A sinopse deste livro, transcrita abaixo, não podia ser mais expressiva no tema escolhido e cada um dos contos reúne sem duvida situações extremas em que a fibra e a resistência dos personagens é posta à prova.

 "Para além do Marão, mandam os que lá estão", é uma máxima que não se pode contestar.Gente dura, os transmontanos. São filhos da terra e das pedras: gerados sob o tórrido verão e embalados nas neves que coroam os montes e gelam as casas. Como o ferro bem temperado, das pedras herdaram a dureza e a força, e do sol o calor da simpatia e da lealdade.Vamos conhecer camponeses, guardadores de cabras e até salteadores. Mas seja na vivência de uma das muitas lendas da região, nas dores do amor, ou nas agruras das invasões napoleónicas, é a sua tempera que vai sobressair e, tal como o azeite na água, assim eles se distinguirão dos restantes.É deles que se fala neste livro, Daqueles Além Marão, que lá vivem, trabalham, riem e choram.

Eis um pequeno resumo de cada uma das histórias incluídas neste volume.

"Corrécio" Uma vez mais é abordado o fosso entre ricos e pobres. Mesmo o mais liberal dos Senhores pode-se revelar preconceituoso quando menos se espera e também ficamos a saber que o amor nem sempre move montanhas.

"O Assalto", passa-se numa altura em que as estradas eram perigosas e pejadas de salteadores que nos levariam os bens, e por vezes a vida, com a maior das facilidades. A história aqui contada é uma visão bem disposta de uma época complicada. (Este conto obteve um primeiro prémio num concurso literário)

"Petêmossur" A palavra não existe, claro, o leitor terá que ler uma história em que a pacatez da vida do campo é perturbada com a chegada dos soldados, para perceber o seu significado.

"Montês" Um camponês que foge da vida dura do campo, mesmo nos nossos dias não é novidade, mas agora imagine-se no século passado, onde era fácil morrer de qualquer maneira... até de fome.

"A Cripta" Os cemitérios são lugares tétricos e podendo, o melhor é deixar os mortos em paz.

"Tudo em Jogo" Até onde se está disposto a ir pelo vício do jogo? O que é que estaremos dispostos a pôr em jogo, com a febre de que a nossa sorte irá mudar? (Este conto obteve um terceiro prémio num concurso literário)

"Salvo" As lendas não podiam deixar de fazer presença neste livro e neste conto, o limite entre a realidade e o sonho é tão diáfano, que por vezes não se sabe de que lado se está.

"A Queda do Porto" Em plena 2ª invasão francesa, três malfeitores vão ser engolidos pela fúria dos acontecimentos e participar inadvertidamente em alguns dos grandes acontecimentos deste período. 

Espero ter despertado a sua curiosidade.

Não perca este novo livro que, tenho a certeza, será um bom companheiro durante algumas agradáveis horas.

Boas leituras.


Este livro é publicado através da Createspace e distribuído pela Amazon.




quarta-feira, 8 de março de 2017

A Cripta


** Publicado no blogue "Correio do Porto" http://www.correiodoporto.pt/prioritario/a-cripta
** Incluído no livro "Daqueles Além Marão"


Envolto na capa e o rosto oculto pela aba do chapéu, Umbelino saltitou de sombra em sombra, evitando ser visto pelos funcionários que acendiam os lampiões da rua. Colou-se à parede do adro da igreja, correu para o entreaberto portão de metal e penetrou nas sombras das árvores. Ofegante, aproveitou aquele momento para se acalmar e trazer os batimentos cardíacos a um ritmo aceitável.
Não gostava nada daquilo que lhe pediram para fazer, mas a verdade é que tiraram as sortes e ele perdeu… agora não podia dar parte de fraco. Não que tivesse qualquer escrúpulo, simplesmente… há coisas que deviam ser deixadas sossegadas.
As vozes longínquas dos acendedores de candeeiros ecoavam na rua, indistintas, mas revelando que ainda se encontravam por perto. O embuçado manteve-se quieto e calado nas sombras. Um gato preto passou e eriçou os pelos do dorso, surpreendido e assustado com a silenciosa presença, antes de fugir a bufar em grandes saltos.
Finalmente as ruas estavam em silêncio e o homem ergueu-se e caminhou lentamente até ao portão do adro e espreitou a praça vazia. Ao fundo, uma caleche passou apressada, os cascos do cavalo batendo forte na calçada. O silêncio regressou em seguida.
Ele voltou a ocultar o rosto embrulhando-se na capa e baixou a aba do chapéu. A sua respiração saía sob a forma de vapor da estreita abertura que deixara para os olhos. Avançou, com passos silenciosos, pela viela estreita que subia paralela ao adro da igreja. Não havia  ninguém nas ruas naquela noite de Novembro, o frio fazia com que ninguém quisesse sair de casa, mesmo que ela tivesse poucas condições. O calor da lareira, haveria de os aquecer um pouco durante a ceia e depois recolher-se-iam para “debaixo das mantas”. Também Umbelino preferia estar na taberna a beber aguardente, em vez de estar ali, ao frio, quase a fazer algo que não queria. Como que por se recordar, tirou um pequeno cantil de bolso e sorveu dois golos que queimaram forte na garganta.
***
Deveria ter desconfiado, logo que o criado bem vestido o abordou na taberna da viúva, que não lhe trazia “recado” fácil. Foi a qualidade das roupas do enviado, que despertou a cobiça de Adalberto e Silvério, que com ele partilhavam as  “aventuras” com que iam conseguindo “aquilo com que se compram as sardinhas”. Assim que o estranho contou o que se pretendia, Umbelino preparava-se para recusar, mas os outros dois protestaram e quiseram saber qual a paga. O “cliente” estava disposto a pagar dez mil reis! Todos ficaram de boca aberta. Vendo que captara a nossa atenção, o criado explicou que o seu patrão pretendia reaver um objeto de grande valor sentimental que fora sepultado com a sua esposa e para isso estava disposto a desembolsar dez mil reis, se lhe entregassem o que pretende.
“Mas afinal, se é a tumba da esposa, porque não a manda exumar e recolher o que quer?” Perguntou Silvério desconfiado.
“A falecida senhora minha patroa, era de origem abastada já antes do casamento e possuía muitos bens próprios; houve coisas que a família exigiu que fossem sepultadas com ela, de acordo com o escrito no testamento. O meu patrão não podia desonrar-se e recusar.” Respondeu o criado simplesmente.
“Mas de que se trata afinal? Que é que o seu patrão quer assim tanto, para pagar uma fortuna dessas?” Apesar da ideia do cemitério não lhe ser amigável, a paga fazia Umbelino reconsiderar.
“Um simples anel! O anel que o meu patrão lhe ofereceu de noivado e que pretende manter de sua propriedade, como recordação da amada esposa.” Concluiu o criado sorridente. “Apenas têm que trazer algo que cabe no bolso do colete e receber dez mil reis por isso.”
Claro que concordaram em fazer o serviço. Não era uma quantia que se visse todos os dias. Além de que, era muito mais fácil roubar um morto, que um vivo que grita, esperneia e às vezes traz uma pistola ou uma faca. Não era contudo trabalho para ser feito por mais do que um; três homens a vaguear na rua à noite, rapidamente atrairiam as atenções e tudo poderia correr mal. Acordaram em tirar às sortes com os dados… e Umbelino perdeu. Esteve quase a acovardar-se e dar o dito por não dito, mas não se atreveu a  ser alvo da chacota dos companheiros.
***
Chegou finalmente ao portão engradado do cemitério e fez-se um só com os contornos do granito, numa manobra que mostrava experiência, enquanto se certificava que a rua continuava vazia. Mais dois golos, serviram para lhe dar alguma coragem, antes de escalar ágilmente o enorme portão e saltar para o empedrado do lado de dentro.
A visão da “floresta de mármore”, fracamente iluminada pela luz bruxuleante das velas e pequenas luminárias, não contribuía em nada para que se sentisse mais calmo. O coração batia apressadamente e sentia as costas húmidas e geladas. Percorreu o cemitério ao longo dos mausoléus,  escondendo-se do fraco brilho da lua, enquanto contava mentalmente os sepulcros. As instruções eram claras: era o mausoléu da família Vasques de Sá, o décimo sexto após a porta lateral e terceiro antes da interceção com a nova ala do campo-santo. A chave estava pendurada do lado de dentro amarrada a um cordel e o caixão era o segundo à direita.
Chegou ao sepulcro correto. Inspirou fundo, e bebeu mais um pouco, antes de atirar o braço através da grade do portão e tatear em busca da chave. Sentia todos os pelos da nuca eriçarem-se. O ruído de passos sobressaltou-o e encolheu-se no espaço escuro entre os dois mausoléus. O brilho metálico de uma faca refulgiu na sua mão.
Através do espaço entre duas lápides, Umbelino viu o guarda do cemitério, vindo do acesso à ala nova, empunhando uma candeia. Passava e espreitava para dentro de cada um dos sepulcros. Preparou o punhal para uma estocada que o silenciasse rapidamente e aguardou. Não foi necessária a violência, pois o vigia passou rapidamente e a espreitar apenas de relance. Nunca saberá como esteve perto de perder a vida naquela ronda.
Assim que os passos deixaram de se ouvir, retornou à sua busca e logrou finalmente apanhar a chave. Foi quando tentou abrir a porta, que verificou que o cordel era demasiado curto para chegar à fechadura e demasiado resistente para que o conseguisse rebentar. Resmungou baixo a sua frustração e preparou-se para o cortar, mas depois pensou que deveria deixar tudo como estava e seria melhor desamarra-lo e atá-lo novamente. Com pouca luz e mãos enregeladas, teve muitas dificuldades em perceber como estava o nó e passou imenso tempo a insultar o fio, a chave, o cemitério, o seu patrão e ele próprio por se deixar levar nesta aventura. Furioso, num impulso irrefletido, sacou da faca e cortou brutalmente o cordel… a chave tilintou no interior escuro da cripta.
Se pudesse gritar aos céus as suas frustrações, tudo seria mais fácil, como não podia, viu-se na obrigação de dar saltos de fúria, enquanto praguejava sem soltar um som, executando uma dança grotesca.
Atirou-se sobre o portão e apalpou inutilmente o chão tentando ouvir ou sentir o objeto. Repetiu a operação com a ponta da faca, novamente sem sucesso. O desespero estava quase a leva-lo às lágrimas; sentou-se no chão, de costas para o mausoléu, com a cabeça entre os joelhos.
Recomposto, repetiu as tentativas para encontrar a chave, no interior completamente escuro. Soprou a fúria e chutou a impotência contra o portão. Com um gemido de ferro enferrujado, este abriu-se ligeiramente. “O maldito portão nunca esteve fechado!” Gritou silenciosamente enquanto amarrotava o chapéu na cabeça, furioso com a sua própria estupidez.
Empurrou a grade com receio e deu os primeiros passos no escuro. Algo tilintou em contacto com a bota e ele, num dos seus acessos de fúria, chutou a chave. Vários objetos metálicos tilintaram e alguns caíram em ruídos nada bem-vindos a quem não quer ser visto nem ouvido. Encolheu-se com os dentes cerrados, surpreendido com a sua própria estupidez. Espreitou para o exterior a ver se o guarda por um acaso regressava.
Sentindo-se mais seguro, olhou para as silhuetas difusas dos caixões nas prateleiras à sua direita. Estavam os três limpos, mas não havia duvidas que o do meio brilhava com madeira nova. Engoliu em seco, benzeu-se e puxou o ataúde para fora, com esforço. Deixou que a cabeceira continuasse em cima da prateleira e pousou a parte dos pés  no chão. Com a faca, trabalhou a fraca fechadura e abriu-a, dedicando-se depois a cortar o chumbo que o lacrava. Um cheiro intenso a morte invadiu o compartimento quase  fazendo-o vomitar.
Levantou a tampa respeitosamente e contemplou na penumbra a velha senhora Vasques de Sá. Quase não se conseguia distinguir os pormenores, mas percebia-se que estava cuidada e não muito envelhecida. Não fosse o cheiro e poderia dizer-se que dormia. Pegou no lenço das mãos e tapou o nariz. Pensando melhor, tirou o pequeno cantil do bolso e engoliu mais dois golos, depois humedeceu o lenço e tornou a tapar o nariz com ele… “Ah, muito melhor!”.
Renovou a benzedura e soltou um pesado suspiro. Afastando a cara o mais que podia, apalpou as mãos da falecida até identificar, entre os diversos anéis que lhe adornavam os dedos, aquele com a pedra quadrada que era o seu objetivo. Dada a proximidade do rosto do cadáver, conseguiu também distinguir o brilho do ouro, num grosso cordão, em volta do pescoço. Puxou o anel por várias vezes, parecia que a morta não queria ver-se despojada da joia, mas por fim acabou por sair. Mirou o objeto à luz difusa que se escoava para o compartimento antes de o meter no bolso. Observou novamente a mulher… “Afinal, ela já não precisa de nada do que tem.” pensou. Se bem o pensou, melhor o fez e ignorando o cheiro, colocou as mãos atrás do pescoço da morta para soltar o cordão. Nesse preciso momento, o ataúde escorregou para fora do seu apoio e caiu ruidosamente no chão de mármore, arrastando Umbelino para cima do cadáver, boca com boca, num involuntário ato de  necrofilia. Horrorizado com o inusitado ósculo, ele gritou enlouquecido e tentou sair do ataúde, de onde não se conseguia soltar. Durante o que lhe pareceu uma eternidade, lutou para libertar o braço, bloqueado atrás do pescoço da mulher, enquanto gritava por perdão. Atirou o peso do seu corpo para fora e arrastou o cadáver e o caixão, ficando desta vez por baixo do conjunto. Os uivos desesperados que soltava, seriam capazes de gelar o sangue nas veias de qualquer um que se abeirasse do cemitério naquele momento. Quando conseguiu soltar-se e sair debaixo da “armadilha”, ergueu-se de um salto para sentir o toque diáfano do manto de um fantasma pousar-lhe na cabeça. Nova sequência de gritos enquanto tentava libertar-se do ser sobrenatural em que se enroscava cada vez mais. Gritou, gritou e gritou, até que uma luz trémula iluminou a cripta. Gradualmente, os gritos foram abrandando e transformaram-se num choro manso e soluçante.
O guarda do cemitério iluminou o mausoléu com a sua lanterna. Era o caos total: um caixão tombado, candelabros e outras peças de prata espalhados por todo o chão. Mesmo no meio, um homem de rosto cinzento, com o cabelo completamente branco e os olhos raiados de sangue, estava atabalhoadamente enrolado no tule das cortinas. Chorava e estendia a mão numa súplica muda.