Debaixo dos Céus Os Mundos de Manuel Amaro Mendonça

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Mais um ano a chegou ao fim


Chegamos ao fim do ano de 2018, que trouxe mais umas reviravoltas a este mundo em que vivemos.

Nas linhas seguintes será apresentada uma relação de eventos de 2018 de Portugal e do mundo, que me pareceram importantes e alguns comentários, aos que me mereceram mais alguma atenção. Em seguida, farei um resumo dos factos mais relevantes para a minha carreira das letras, sendo que, ao contrário daquilo que eu previa, não foi possível fazer a edição de mais um livro este ano... talvez 2019 traga novidades.


CRONOLOGIA DO MUNDO EM 2018


A ciência não pára e há muitas novidades, em termos de tecnologia espacial, como o Electron, da Rocket Lab que se torna o primeiro foguete a fazer voo orbital através do uso de motor alimentado por bomba elétrica ao mesmo tempo que velhos "players", como a estação espacial chinesa Tiangong, que caiu na terra e o telescópio espacial Kepler, da NASA, que ficou sem combustível, saem de cena. Se a estação espacial chinesa tinha apenas sete anos e caiu para a terra, desintegrando-se na entrada da atmosfera, a sonda Kepler tinha quase dez e descobriu mais de 2.600 exoplanetas e agora, exaurida, vai manter sua órbita atual e segura, longe da Terra.
Também da NASA, foi lançada a sonda Parker, em direção ao Sol e chegou a Marte a sonda Insight.



Nos últimos anos, verifica-se que a corrida ao espaço está definitivamente lançada e a Space X, empresa privada, fundada pelo multi-milionário Elon Musk, que também é o fundador da Tesla Motors, lança foguetes cada vez mais avançados, a série Falcon, com o objetivo de tornar uma futura viagem e colonização de Marte mais acessíveis e cria projetos destinados a liberalizar o "turismo" no espaço como o DearMoon.  



A ESA, Agência Espacial Europeia, em conjunto com a JAXA, a sua congénere japonesa, lançaram a sonda BepiColombo em direção a Mercúrio.

Triste, é que mesmo com tantos desenvolvimentos e tanta tecnologia, seja possível que o último rinoceronte-branco-do-norte macho do mundo, morra no Quênia. Mais uma espécie a juntar às lista das extintas. Também o Japão, abandona os tratados internacionais e retoma a pesca à baleia para fins comerciais... se todos os outros signatários lhe seguirem o exemplo, em breve se acabarão as baleias.

No mundo, aconteceram algumas novidades, umas esperadas e outras não.
O papa Francisco, apenas igual a si próprio, continua de "peito aberto" a desafiar os poderes e a falar o que muitos não querem ouvir e, logo no início do ano, na sua viagem ao Chile e ao Perú, não hesita em falar na corrupção, que é um vírus que ataca povos e democracias da América Latina. Também no seu discurso anual, em dezembro, enfrentou a vergonha, que a Igreja Católica não queria assumir e apela aos padres e ministros da igreja, prevaricadores, que se entreguem à justiça dos Homens e se preparem para a Justiça Divina. Se por um lado, cresce a admiração internacional por este homem, por outro, também cresce o número dos seus inimigos, à medida que a sua luta contra a corrupção no Vaticano se intensifica.  



Com mais ou menos surpresa, no mês de fevereiro, Raul Castro, irmão de Fidel, abandona o poder. Acabava-se assim o governo da dinastia Castro, que durou 60 anos.

Sem surpresa, em março, Vladimir Putin é reeleito presidente da Rússia

Donald Trump assinalou um ano na presidência dos Estados Unidos da América e assinou a saída do país do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Num completo desprezo pelas instituições internacionais, o país mais poderoso do mundo (?) continua a abandonar protocolos e acordos assinados, alguns deles de sua própria iniciativa. A estratégia de isolamento e protecionismo do Estados Unidos está a tomar proporções complicadas e a anunciar uma guerra comercial que ninguém sabe como poderá terminar.

Num estranho incidente, diversos pacotes suspeitos com explosivos são enviados simultaneamente para líderes do partido Democrata nos Estados Unidos, entre eles, o ex-presidente Barack Obama, a ex-primeira-dama Hillary Clinton e a rede de TV CNN, além de congressistas e personalidades

O Reino Unido e o seu BREXIT mantiveram durante todo o ano uma dança de aproximação e afastamento e Theresa May começa a ver-se numa situação complicada para levar até ao fim o seu intento. A sua própria bancada ameaça não aceitar as negociações com a União Europeia, pois não concorda com um "mau acordo" e, com a libra a descer diariamente, a primeira ministra tem um prazo cada vez mais curto. Não é surpresa para ninguém que os ingleses sempre quiseram a parte boa de qualquer negócio e esperavam que a UE se "atirasse para o chão" a implorar que não saísse e a oferecer tudo o que eles quisessem. A desilusão é grande e os britânicos vêem-se sem um plano B que possa "salvar a face". Na minha modesta opinião, um resultado de 51,9% dos votos, diante de 48,1% não deveria ser vinculativo e houve muito descontente que achou que iria dar uma lição, ao votar contra e outros fizeram-no sem perceberem muito bem as implicações. O resto, foi aproveitamento político de umas quantas figuras menores, para chegar à ribalta, embora alguns  não tenham suportado o peso da responsabilidade e se sentissem esmagados pela enormidade do seu feito.




Donald Trump e Kim Jong-un fazem reunião de cúpula entre Estados Unidos e Coreia do Norte na ilha Sentosa, Singapura. Ninguém sabia exatamente o que esperar desta reunião, mas de certeza que grande parte das pessoas contava com alguma coisa de "disparatado" de algum dos intervenientes.

O presidente sul-coreano Moon Jae-in e o líder norte-coreano Kim Jong-Un comprometem-se a assinar um acordo de paz para encerrar oficialmente a Guerra da Coreia, iniciada em 1950




Este ano assinalou-se também o centenário do fim da Primeira Guerra Mundial, um dos mais sangrentos conflitos da história.

Em junho de 2018, é finalmente autorizado às mulheres conduzir automóveis na Arábia Saudita. A mentalidade medieval demora a ser deixada para trás.

No Brasil, o clima altamente instável, desde a impugnação de Dilma Rousseff e governação interina de Michel Temer e prisão do ex-presidente Lula da Silva, termina com a surpreendente eleição do polémico candidato da extrema direita, Jair Bolsonaro.



Um incêndio de grandes proporções atingiu os três andares do prédio do Museu Nacional do Brasil, na Quinta da Boa Vista, zona norte do Rio de Janeiro. Com ele desaparecem peças únicas e de valor incalculável para a história do Brasil e de Portugal.

Nos Estados Unidos, a fricção entre os adeptos do fim do livre acesso às armas e o poder da industria do armamento, continua sem fim à vista e entretanto os assassinatos múltiplos mantêm-se sem controlo:  14 de fevereiro — Um jovem chamado Nikolas Cruz entra armado num cólegio de Parkland, Flórida e deixa 17 mortos e 15 feridos, 27 de outubro — Um atirador identificado como Robert Bowers invade uma sinagoga em Pittsburgh, na Pensilvânia, e dispara deixando 11 mortos e 4 feridos, 7 de novembro — Um atirador invade uma festa de universitários em Thousand Oaks, na Califórnia, e deixa 12 mortos.

Os ataques terroristas em França, com "lobos solitários" equipados com armas, um em março, outro em setembro e outro em dezembro, fazem poucas vítimas, mas inspiram terror, já o ataque químico com gás Sarin em Douma, na Síria, fez mais de cinquenta mortos.

A incúria, ou simplesmente incompetência, causam acidentes aqui e ali: A Ponte Morandi, em Gênova na Itália, cai e causa 43 mortes, em Borba, Portugal, uma estrada que devia há muito estar encerrada, cedeu e arrastou para a morte cinco pessoas, em São Paulo, o viaduto da Marginal Pinheiros cedeu próximo à Ponte do Jaguaré e causou alguns feridos... podia ter sido bem pior.


Derrocada de estrada em Borba

A infelicidade bateu à porta daqueles que arriscam a vida em prol dos outros e um helicóptero do Instituto Nacional de Emergência Médica despenhou-se em Valongo, na Serra de Santa Justa e de Pias. Morreram os 4 ocupantes da aeronave que regressavam de um transporte de emergência entre Macedo de Cavaleiros e o Hospital de Santo António, no Porto.

Sem precisar de ajudas, também a natureza faz as suas vítimas e nos terremotos seguidos de tsunami, ocorridos na Indonésia em setembro e em dezembro, saldam-se mais de 2.500 mortos e mais de 5.000 desaparecidos. 

Neste ano desapareceram também grandes figuras das artes e da politica, entre as quais destaco a cantora americana Aretha Franklin, a cantora portuguesa Madalena Iglésias, a atriz brasileira Tônia Carrero, o realizador checo Miloš Forman,  o DJ sueco Avicii, o ator e humorista Agildo Ribeiro, o politico moçambicano Afonso Dhlakama,  o artista plástico português, Júlio Pomar, o escritor americano Philip Roth, o escritor e jornalista americano Jerry Hopkins, a atriz portuguesa Laura Soveral, o jornalista e escritor português Altino do Tojal, o médico e político português João Semedo, a cantora portuguesa Celeste Rodrigues, irmã de Amália Rodrigues, o político americano John McCain, o ator americano Burt Reynolds, o cantor francês Charles Aznavour a soprano espanhola Montserrat Caballé o empresário americano e co-fundador da Microsoft Paul Allen, a apresentadora portuguesa Helena Ramos, a cantora portuguesa Maria Guinot, o criador de histórias em quadradinhos americano e "pai" de muitos super-heróis Stan Lee, o militar e político Loureiro dos Santos, o cineasta italiano Bernardo Bertolucci, o pintor e filósofo argentino Tomás Maldonado e o ex-presidente dos Estados Unidos George H. W. Bush, alguns serão lembrados com saudade, outros nem por isso.

No nosso "jardim à beira mar plantado" começamos o ano de 2018 com uma vaga de frio que chegou a atingir os sete graus negativos em Carrazeda de Ansiães (para os distraídos da geografia, Carrazeda de Ansiães fica no distrito de Bragança) (para os outros que também não sabem e não percebem nada de geografia, o distrito de Bragança é aquele cantinho, da parte superior direita, no mapa de Portugal)






















O Festival Eurovisão da Canção foi finalmente realizado em Portugal, na sequência da vitória obtida  no anterior, por Salvador Sobral. Apesar do feito conseguido pelo cantor português, há muito que a minha credulidade na imparcialidade deste festival estava ferida de morte, por perceber que, muitas das vitórias, não têm praticamente nada que ver com a qualidade da canção, ou mesmo do intérprete. Isto, no ponto de vista do meu (duvidoso) bom gosto, nem vamos falar nos conhecimentos técnico-musicais, porque aí, de certeza que haverá uns quantos entendidos (leia-se especialistas) a chamar-me mentecapto, ignorante ou coisas piores. Diga-se de passagem que a vencedora da edição de 2018 não me convenceu que não havia nada um bocadinho melhor. Para não cometer o erro de comparar a canção vencedora com as outras, já há muito que não vejo este festival e limito-me a um interesse relativo em saber quem ganhou.


Agora o tema preferido da maioria dos portugueses... futebol... ou melhor, não falo do desporto em si, mas das coisas que existem nos bastidores e que, à semelhança do leite em ebulição, por vezes ferve demais e transborda. Depois de uma presidência, no mínimo polémica, Bruno de Carvalho sai em desgraça do cargo após um acontecimento que envergonha Portugal e os portugueses: A invasão da academia de Alcochete e agressão dos jogadores e do treinador do Sporting. Pelos vistos, para o ex-presidente, "o crime é uma coisa do dia-a-dia e temos mais é que nos habituar"... puseram-no na rua... eles, do Sporting, a polícia foi busca-lo depois, para juntar a uns vinte e tal energúmenos que congeminaram e executaram a façanha.




Uma vez mais e à semelhança de 2017, o fogo devorou mais uma parte do nosso país (felizmente com menos vítimas) e aquele que  nasceu em Monchique e alastrou para Silves e Portimão foi, não apenas o maior da Europa, como registamos também mais área ardida que qualquer outro país.
Em vão se procuram culpados para os acontecimentos e se "atiram pedras" aos SIRESP, à proteção civil e aos "amadores" dos bombeiros. Acho que o que falta mesmo no meio disto tudo é alguém que governe realmente toda esta manta de retalhos que, à semelhança de muitas outras coisas neste belo país, funciona muito bem por iniciativa local, que até é mais barato. O problema é quando se começa a entrar nas "quintas" geridas por outros e a fricção é demasiada. Na voz da Liga dos Bombeiros Portugueses, o financiamento do estado é ridículo, tendo em conta que eles (bombeiros), realizam 98% da atividade de proteção cívil. Eventualmente até terão alguma razão... Parece haver alguma preocupação da parte do governo em mudar as coisas e olhar para os bombeiros como uma força de socorro sempre necessária e não como alguém que se chama quando a "mata está a arder"... a aposta nas unidades profissionais é uma boa medida... pelo menos até que comece a haver desinvestimento, ou as célebres cativações.
Como nota triste, assinale-se que, neste momento, nos últimos dias do ano de 2018, ainda há pessoas sem casa, vítimas dos incêndios do ano passado, à mistura com os escândalos da subversão no uso dos dinheiros atribuídos pelo estado e beneméritos.




Os acidentes rodoviários continuam a ser uma das principais causas de morte e 2018 já se tornou o ano com maior número de mortes de sempre, foram mais de 100.000 acidentes. Seja pelo excesso de velocidade, seja pela má qualidade das estradas ou dos condutores, é uma loucura a quantidade de vidas que se perdem neste flagelo. Todos os anos se falam das "operação" isto e "operação" daquilo, mas a presença policial não é realmente visível, pelo menos pelas autoestradas que normalmente frequento. As multas, lá vão aparecendo, eu sei que não sou dos mais respeitadores em termos de velocidade, mas a "forte presença policial" na maior parte das vezes, cinge-se às "emboscadas" aos automobilistas, com radares escondidos nos locais onde sabem que acontecem as distrações.

O anos de 2018 tem sido forte em greves, com mais ou menos impacto. Os transportes, são principalmente os "cliente" do costume, mas também os professores, que exigem aquilo que lhes foi prometido... quem não pode, não promete, lá diz o ditado, lembram-se das 35 horas? Alguém se esqueceu que, se há gente a trabalhar menos horas e queremos manter, ou melhorar, o serviço, é preciso meter mais pessoal, ou pagar horas extra. O problema é quando os funcionários fazem greve ao trabalho extraordinário. Outro caso é o dos estivadores, o direito à greve que lhes assiste, causa problemas a quase toda a (pouca) industria exportadora portuguesa, uma vez mais, um problema difícil de perceber: pessoas a trabalhar anos a fio, com contratos de um dia?!? Não me venham dizer que os sucessivos governos não sabem disto. Se um funcionário é contratado todos os dias, durante vários anos, quer dizer que não é um eventual e não pode ser tratado como tal. Onde estão os defensores dos direitos dos trabalhadores na assembleia da republica? Parece-me que estas reivindicações só vêm para a "ordem do dia" quando interessa. Ao fim e ao cabo, a nossa extrema esquerda está finalmente domesticada e passaram os tempos das épicas indignações da Catarina Martins, que agora está muito mais seleta. Será que cheira a "cadeira" no poder? O único que continua fiel a si próprio é o camarada Jerónimo de Sousa. Sabe bem que "o dia do favor é a véspera da ingratidão" e se alinhou nesta, carinhosamente chamada geringonça, é porque "a direita tem que ser derrotada a qualquer custo", mesmo sacrificando a própria credibilidade e eleitorado.




Os "coletes amarelos"foram outra novidade, neste ano que termina. Os levantamentos que aconteceram em vários pontos da França, quase podiam ser chamados de motins, uma vez que terminavam em vandalismo e confrontos com a polícia. Por toda a razão que se possa ter, não creio que a destruição da propriedade privada e as cenas de guerra com a polícia resolvam verdadeiramente os problemas, mas há imensos contestatários que acham ser essa a única forma de serem ouvidos. Quando tentaram "importar" a moda para Portugal, deu no que deu. Que se pode esperar de um povo onde há uma abstenção superior a 60% nos atos eleitorais? Não apareceu quase ninguém: uns com receio das eventuais repressões policiais, outros não se queriam associar aos possíveis desacatos ou prevaricadores, mas a grande maioria, por não estarem mesmo para se incomodar. Se não partiram tudo, como aconteceu na Grécia, quando começou o "brutal aumento de impostos", porque é que o iriam fazer agora, quando o primeiro ministro diz que está tudo bem?

Não vou nem comentar as "desgraças" que vêm acontecendo na justiça com eventuais desaparecimentos de processos que deveriam estar resolvidos há muito e justamente agora que foram efectuadas mudanças nas estruturas judiciais, relacionadas com eles. Palpita-me que vêm para aí um conjunto de absolvições por "falta de provas" ou nulidades por "erros de processo". Ainda bem que eu não percebo nada de justiça e muito menos de política.



CRONOLOGIA PESSOAL DE 2018


Mas relativamente à minha paixão pelas letras, que é realmente o fundamento desta minha, já longa, publicação, o ano não foi tão produtivo como poderia ser...

Logo no início de janeiro, iniciei a publicação de um conto, no blogue Correio do Porto, sob a forma de fascículos semanais. Intitulava-se "Na Pele do Lobo" e a história tratava um acontecimento imaginário, ocorrido num convento perdido na serra do Gerês, em plena idade média. Durante cinco semanas, a trama foi sendo desenrolada e prendendo a atenção dos leitores. Foi uma pequena experiência no capítulo da literatura fantástica, que penso ter sido bem sucedida. Poderá rever todos os capítulos, clicando na imagem do conto.


 Na Pele do Lobo no Correio do Porto


Fascículos "Na Pele do Lobo" neste blogue



No final de fevereiro, foi a vez de "Uma Casa Nas Ruas", este publicado no blogue "Memórias e Outras Coisas... Bragança". Aqui o tema era contemporâneo e contavam-se as aventuras e desventuras de um sem-abrigo da cidade do Porto. Foram oito capítulos publicados semanalmente. Podem rever toda a história clicando na imagem do conto, logo abaixo.



Capítulos "Uma Casa nas Ruas" neste blogue

Em março, o semanário "Minho Digital", no âmbito de uma parceria com a revista "Divulga Escritor", com a qual colaboro de vez em quando, publicou a apresentação do meu livro "Daqueles Além Marão"



Nova parceria "Divulga Escritor"

Em junho, saiu o número quatro da revista "SG Magazine" do meu amigo Isidro Sousa que, como de costume, publicou um dos meus contos.

SG Magazine número 4

Em setembro escrevi o texto "Tralhariz - Uma fonte de inspiração" onde falei da minha terra adotiva e da forma como ela tem influenciado os meus escritos. O texto foi apreciado e, como tal, foi publicado no número cinco da SG Magazine, no blogue "Memórias e Outras Coisas" e no número 37 da revista "Divulga Escritor"

 (Setembro) SG Magazine número 5


(Setembro) Tralhariz-Fonte de Inspiração
(Novembro) Divulga Escritor nº 37

Em outubro, faleceu Teresa Maria Queiroz, poeta e diretora de um conjunto de pequenas editoras. Não sendo de temperamento fácil e por isso ter criado alguns desaguisados com alguns autores, não podemos no entanto deixar de a lembrar como uma das pessoas que permitiu que escritores/autores desconhecidos se tornassem visíveis. Responsável pela publicação de perto de duas dezenas de colectâneas de prosa e poesia, assim como várias edições de concursos de escrita, deixou um espaço enorme na panorâmica do submundo das letras lusófonas. Até sempre, Teresa.


Também em outubro, tive a grata surpresa de ser informado que o meu conto "Para um Bem Maior", foi escolhido, entre mais de 140 participantes, para ser publicado na revista Bang, da Editora Saída de Emergência.
No final do mês de outubro, mais propriamente no dia 27, decorreu o festival BANG no Pavilhão Carlos Lopes em Lisboa, sessão em que foi distribuída a revista que contém o meu conto sorteado. Lá fui assistir às diversas apresentações e conhecer um bocadinho mais desta revista e do fantástico pavilhão, instalado no Parque Eduardo Sétimo.


Sem mais assuntos a partilhar com vocês, despeço-me, esperando não ter sido demasiado maçador.

Resta-me desejar a todos um bom ano de 2019, cheio de alegria e felicidade e, claro, boas leituras.




sábado, 27 de outubro de 2018

Passatempo Revista BANG

Foi no passado dia 1 de outubro, que fui surpreendido com a notícia de que tinha ganho o passatempo para a escolha do conto a ser publicado no número 25 da revista BANG, editada pela "Saída de Emergência


Selecionado entre mais de 140 participações, o meu conto "Para um Bem Maior", foi publicado na revista abaixo, que foi distribuída durante o festival BANG, que decorreu no dia 27 de outubro no  fantástico pavilhão Carlos Lopes, no Parque Eduardo Sétimo, em Lisboa. O conto original, disponibilizado na ligação acima, é ligeiramente maior do que o publicado na revista, pois havia um número limite de palavras para poder participar.


Revista BANG número 25


Quem quiser a revista em papel, esta é distribuída gratuitamente na FNAC, se não, podem ler todas as publicadas aqui.










quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Tralhariz - Fonte de inspiração



Tralhariz é uma das mais antigas aldeias da freguesia do Castanheiro do Norte, que pertence ao concelho de Carrazeda de Ansiães, distrito de Bragança.

O nome, pouco comum, segundo o abade de Baçal na sua extensa obra sobre Trás os Montes, deriva de talhariz, e este por calhariz e este por calhandriz, que é um sítio em que abundam calhandras, aves. No entanto já ouvi dizer que estaria especificamente relacionado com o papa-moscas cinzento, ave conhecida por "Tralhão"

A ocupação da zona é muito antiga, pois, nos territórios anexos à aldeia foram encontrados vestígios pré-históricos e castrejos, nomeadamente nos locais chamados da "Pala da Moura" e no "Monte das Chãs". Cerca do ano de 1900, no local da Quinta da Ribeira, ruínas do que teria sido uma vila romana. Normalmente, este conjunto era constituído pela "domus" ou casa senhorial, os edifícios relacionados com a exploração agrícola e um aglomerado de habitações, mais ou menos precárias para os trabalhadores, no entanto, apenas foram encontrados restos de colunas, algumas moedas e vestígios de paredes pintadas e chãos decorados com mosaicos policromáticos, possivelmente por a escavação não ter sido suficientemente exaustiva. As peças que foram levadas pelos arqueólogos, espero que se encontrem nos museus, ou outros lugares públicos, devidamente identificadas, para serem apreciadas pela população da região e do país, mas as ruínas que existiam no local, parecem ter-se perdido para sempre. Alguns historiadores referem que é possível que este núcleo tenha sido destruído durante as invasões bárbaras, no final do império romano, visto haver sinais de incêndio em alguns locais.

A aldeia atual, encontra-se na mesma encosta, mas umas boas centenas de metros acima do local destes achados, na margem esquerda do rio Tua, que vigiando-o sobranceiramente até à sua foz, no rio Douro.

Como todas as aldeias da região do alto-douro, cerca-se de vinhedos e olivais, que são a principal fonte de rendimento da população, em conjunto com a exploração de hortas dispersas.

Tem cerca de dois quilómetros de extensão. A poente, assinala-se um solar brasonado setecentista, construído possivelmente durante uma fase de expansão da aldeia, uma vez que se encontra numa zona mais ou menos periférica, o que só comprova a antiguidade da povoação. Outras casas importantes, embora em melhor ou pior estado de conservação, existem nas zonas mais centrais, como a Casa de São Jorge dividida por várias famílias (conhecida pela Casa do Pátio), ou a casa dos Botelhos, em avançado estado de degradação e descaracterização. O casario estende-se depois em direção a nascente e à sede da freguesia, pelo que era chamado o "caminho do concelho", agora Rua Central e que se subdivide em várias ramificações, os "canelhos", que dão acesso às casas periféricas ou aos terrenos de cultivo. Seguindo essa linha chegamos à igreja da freguesia, do patrono São Brás, no alto do monte que separa Tralhariz do Castanheiro.


Quando comecei as minhas deslocações para esta aldeia, há mais de trinta anos, a paisagem transmontana era-me completamente desconhecida. Conhecia os largos braços da ria de Aveiro, as verdejantes paisagens Gerês ou do Bussaco e as planícies infindáveis do Alentejo. O Douro, era na Ribeira do Porto ou na Foz, pelo que o verde dominante das margens do Alto Douro e as serras a perder de vista, que nos esmagam na nossa pequenez, deixaram-me sem palavras e ainda hoje me emocionam… foi um amor à primeira vista.

As casas humildes de xisto e as opulentas de cantaria, estão firmemente entrelaçadas ao logo da rua central, numa cumplicidade e convivência de séculos, fechadas sobre elas próprias, mas as suas gentes são de coração e braços abertos.
Não é de admirar, portanto, que não consiga evitar de retratar alguns destes aspetos fascinantes nos meus trabalhos e, embora os personagens sejam completamente fictícios, empreguei expressões regionais e modos de falar e agir de pessoas que conheci.

É, no entanto, na paisagem que pretendo focar a minha análise e em "Terras de Xisto" estão patentes estes retratos:
"Nos remotos montes do Norte do país, muito para trás deles, havia uma aldeia. Vista de cima, até não era pequena, com quase dois quilómetros de ponta a ponta. O casario estendia-se ao longo de uma sinuosa rua monte acima ramificando-se em pequenos becos. O ponto mais baixo da rua central era dominado pelo palacete setecentista onde vivia a família mais importante da região e no extremo mais alto pela Igreja tornada rica pelo fervor dos pobres e ostentação dos abastados."

A Maria Sobreira, a protagonista, era filha de um fidalgo que habitava uma casa senhorial afastada da aldeia e a irmã deste, numa outra de cantaria, no centro da povoação. Tratavam-se da Casa de Tralhariz e da Casa do Pátio respetivamente.

A escadaria de pedra do solar, onde caiu André Samões, existe, caminhei nela muitas vezes, não leva às cozinhas, mas sim à entrada principal e a alguns anexos de armazenamento.

Por último, o próprio solar é transformado numa pousada, tal como a "Casa de Tralhariz" é um aproveitamento turístico também.


Em "Lágrimas no Rio", a existência do túmulo de família no chão da igreja, não é exclusivo de Tralhariz, mas o certo é que na igreja da freguesia, apesar de removidos todos os vestígios dos antigos enterramentos, ainda existe uma campa com inscrição visível na capela-mor e pertença de um dos antigos proprietários do solar.

A igreja situa-se num ponto elevado e curiosamente acede-se por dois caminhos que entroncam num só: o "Caminho de Cima" e o "Caminho do Povo". Também em Tralhariz há a Rua Central que atravessa a aldeia em direção à igreja e à sede da freguesia e que é entroncado pela Avenida do Pinheiro Manso, mais recente e que representa o acesso norte do solar. O terceiro caminho referido nesta obra, é imaginado a partir de outra aldeia da mesma freguesia, Foz-Tua, localizada nas margens do rio Douro e a poucos quilómetros de Tralhariz. Da junção das duas localidades imaginei "São Cristóvão do Covelo", anichada à sombra do monte: "Sempre fora o “Caminho de Cima”, que nascia no lado norte do solar dos Montenegro, percorria a parte superior da aldeia, a meia encosta do monte do Covelo até entroncar com o “Caminho do Povo”. Este, passava em frente ao lado sul do solar, atravessava a povoação e encontrava, mais à frente, o “Caminho de Baixo”, que passava entre o rio Douro e as casas e conduzia à estrada principal"

No extremo poente da aldeia, temos uma vista maravilhosa do vale do Tua, ao mesmo tempo que somos assoberbados pela grandiosidade do espaço em redor e, à semelhança de Avelino Montenegro, também eu passei muito tempo, tisnado pelo sol ou mordido pelo frio, a observar a paisagem que não cansa e a ouvir a voz da natureza:  "O nevoeiro deixara um ar húmido e frio, mas límpido. Conseguiam-se enxergar quilómetros, a partir daquele temível promontório, debaixo das nuvens negras e ameaçadoras. O vento, era a voz de Deus, que sussurrava pelo vale com o restolho dos pinheiros e sobreiros das encostas.

De chapéu bem enterrado na cabeça e cachecol a proteger o nariz e a boca, deixou-se ficar por ali, olhar perdido nos montes longínquos. O imponente Marão, no limite do horizonte, exibia as cristas cobertas de neve."


Se em "Lágrimas no Rio", abordei o tema da apanha da azeitona, no conto "Corrécio", a colheita é a das uvas, a vindima que dá vida à região do Douro. A aldeia transmontana espelha bem o velho ditado do povo "Nove meses de inverno e três de inferno" que eu pessoalmente pude comprovar nestes anos e que é referido nesta história: "O sol estonava as pedras da calçada e as paredes das casas causando ondulações de calor transmitindo uma sensação de irrealidade. A rua deserta, que levava ao centro da aldeia e à sua casa, era um forno que o cozia lentamente sem que ele notasse."

"Corrécio" envolve uma vez mais ricos e pobres que, embora incapazes de viver uns sem os outros, travam relações tensas e de reações inesperadas. A vida dos trabalhadores divide-se entre o trabalho no campo quase de sol a sol, a casa onde dormem e ceiam e a taberna, igual a tantas outras por esse trás os montes fora: "O interior era escuro e apenas umas poucas velas davam alguma luz às paredes enegrecidas por décadas do fumo da lareira que acendiam nos dias frios. Três mesas com os respetivos bancos corridos preenchiam o espaço em conjunto com o balcão sebento de milhares de mãos que pousavam moedas e levantavam géneros." No conto "Tudo em Jogo", também a taberna é descrita: "Naquele fim de tarde, a pequena e escura taberna estava enevoada de fumo de tabaco e as vozes tonitruantes de homens enchiam o espaço. 
Por entre as mesas toscas de madeira, ladeadas de bancos corridos, o chão de lajes grosseiras estava manchado e sujo de anos de vinho entornado. Os candeeiros a petróleo, nas paredes de madeira enegrecida, travavam uma luta desigual com as trevas e o fumo que dominavam o estabelecimento. Uma enorme lareira crepitava e emprestava mais um pouco de luz bruxuleante ao ambiente."

De resto, em todas as histórias tentei falar um pouco sobre a vida dura no campo, que pode ser visualizada nos fantásticos painéis de azulejos existentes nas estações ferroviárias do Pinhão e Pocinho, na linha do Douro e que utilizei como capa do livro "Daqueles Além Marão".


E é assim que a minha imaginação vai sendo alimentada com estas paisagens e estas gentes maravilhosas que povoam esta região tão bela, mas que consegue ser tão agreste. Brevemente sairão mais histórias onde as paisagens transmontanas estarão representadas.


Para encerrar, coloco aqui as palavras de agradecimento que utilizei em "Lágrimas no Rio" e que acho que são bem aplicadas neste contexto:
"No alto de um cabeço coroado de granito e espraiando o olhar pela imensidão de montes e vales a perder de vista, é difícil não nos sentirmos esmagados pelo poder da Criação. As fragas ciclópicas, os olivais alcantilados e inacessíveis, as vinhas esculpidas pela tenacidade do Homem, são estes os adornos dos vales do Tua e do Douro e são a minha fonte de inspiração.
O meu agradecimento, vai para o Grande Arquiteto, que estava certamente inspirado, no dia em que criou uma das mais belas regiões do mundo."




Bibliografia

Baçal, F. M.-A. (2000). Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança. Bragança: Camara Municipal de Bragança.
Morais, C. (2014). Por Terras de Ansiães. Carrazeda de Ansiães: Camara Municipal de Carrazeda de Ansiães.
O Archeologo Português. (1900). Estação Romana da Ribeira (Tralhariz). Lisboa: Museu Ethnologico Português.
Queiroz, A. M. (2007). A Casa de Tralhariz e a Capela do Bom Jesus. Edições Universitárias Lusófonas.


quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Palavras por Amor



Recordo um amor antigo, que viveu de sonhos
Por algum tempo.
Que vem até mim, em sonhos disperso.
Sabes de quem falo? Tu, cujos olhos me lêem?
Sabes a saudade que tenho, dos cálidos beijos
E ternos abraços?
Mirrados frutos deste amor que foi ficando,
Encerrado nas folhas que escrevo,
Encarcerado no livro que fecho,
Fechado nas lágrimas que verti,
Em forma de cadeado.
Secas, como as pétalas da rosa,
Conservada de uma saudosa primavera,
Assim ficam estas palavras,
Outrora viçosas.
Recordo o brilho dos olhos, o calor dos lábios
E o carinho do abraço,
Que não mais voltam.
Fica este testemunho, em letras luzidias,
Negro sobre o alvo marfim, 
Aconchegado em capa cinzenta.
Repousa amor, sonho inacabado,
Prematuramente desperto.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Pensei que eras eterno





No meu egoísmo, pensei que eras eterno.
Eterno, como as rochas que enfrentam o mar, dia após dia e não cedem terreno, apesar de não vencerem. Eterno, como as grandes montanhas que, escavadas por rios e mineiros, erguem-se imponentes desafiando as neves e os ventos.

Afinal, eras apenas como um grande castelo, erguido à força de braços e resistindo por décadas e décadas… até que os seus muros, construídos para resistir à força bruta dos bárbaros invasores, começa a derruir, pedra após pedra, cedendo aos elementos e ao tempo. Por fim, já pouco mais eras que uma pequena cerca, apoiada em fortes, mas soterrados, alicerces. Mas era aí que eu recorria, conhecedor da força das tuas bases, a aprender o conhecimento da tua estrutura e desejando um dia vir a ser metade do homem que eras, ter pelo menos metade da tua força.

Mas no meu egoísmo, cuidei que estarias sempre ali para mim. Para me falares na tua voz calma e ponderada, embora poderosa. Darias um excelente orador, se a tua educação de gente humilde, de quem viveu na escravidão dos ricos, não te fizesse tão discreto e receoso de protagonismo. Os anos ensinaram-te as virtudes da invisibilidade e evitar a atenção da inveja e do mal. Quando erguemos uma torre acima da cabeça dos demais, haverá sempre alguém para tentar derrubar, apenas poque não é capaz de a igualar, quanto mais fazer  melhor.

No meu egoísmo, achava que serias sempre o meu porto de abrigo, aquele a quem falava dos meus eventos e dos meus projetos, que escutava e debatia, como sabias debater a maior parte dos assuntos. Eram os frutos da bagagem dos anos e da tua fome de saber, que te levou a devorar tomos e tomos, que guardavas ciosa e orgulhosamente.

Com um golpe no egoísmo, vi-te partir e deixar um enorme vazio, que nunca poderá ser preenchido; antes evitado e escondido, nos recantos da minha memória. Espaço que vou tapando com montes de outros tantos eventos, bons e maus, que compõem a minha vida.

O sol nasce e as serras distantes tingem-se de tons alaranjados. O céu, de um azul puro, tem apenas algumas nuvens dispersas, na promessa de mais um belo dia de agosto. De mais um dia sem ti.


terça-feira, 26 de junho de 2018

Para Um Bem Maior



** Conto agraciado com o primeiro prémio no "Passatempo Mini conto Fantástico FNAC"

“Bastião” estava desesperado.
A vida não lhe corria nada bem e o pouco que ganhara, de “carrejão” durante vindima, fora-se em cartas e copos na taberna do Barnabé. Não queria “ouvir” a Maria a “chagar-lhe” a paciência por causa do dinheiro uma vez mais.
Olhou para as calças remendadas e puídas, que terminavam quatro dedos acima dos socos de madeira. Precisava de comprar umas calças, ou muito em breve ficaria com as ceroulas à mostra.
Já há muito que congeminava um plano, para dar a volta à sua situação financeira, mas não se atrevia a executá-lo: a capela do São Salvador, no alto da pequena colina sobranceira à aldeia, tinha sempre uma boa maquia na caixa de esmolas. Ainda por cima, com a festa do Santo na próxima semana. Já se viam muitos crentes a levar as velas e as moeditas que podiam dispensar, para pedir uma bênção, ou ajudar os pobres… quem mais pobre do que ele? Ficavam os cobres melhor para si, do que com o “papa-hóstias” do padre Figueira, que só sabia beber tinto e “larpar” os salpicões a que deitasse a mão.
De resto, quem é que alguma vez tinha recebido algum tostão dos que lá se punham para os pobres? Ele é que não! Pelo menos até hoje… Sorriu de si para si enquanto deitava nova olhada pela rua de terra batida que atravessava a aldeia, onde não se via vivalma.
Era noite e as nuvens de trovoada acumulavam-se sobre o vale desde o fim da tarde, o ribombar distante anunciava a possibilidade de uma forte chuvada para breve e todos na povoação se recolheram cedo para a ceia e para dormir, que amanhã seria um novo dia de duro trabalho.
Disfarçadamente, caminhou pela rua escura, sem acender candeia ou luminária, não fosse verem-no por lá. Fracos fios de luz escoavam-se pelas generosas frestas das portas das casas e aqui ou ali, ouviam-se as vozes dos adultos que se não haviam ainda deitado.
Passou em frente à pequena igreja e benzeu-se rapidamente, feliz por perceber que, nem o “Manel maluquinho”, que andava sempre pela praça, estava à vista naquele dia. Não apareceria de repente com a sua voz distorcida e gutural a pedir “Tostãozinho, pelas almas!”
Apressou o passo e lançou-se no caminho processional que subia ao santuário, oculto pela sombra das árvores, esperando não sujar os socos nalgum “presente” deixado por cavalo ou vaca.
Chegado ao alto do monte, a visão era ainda mais impressionante: os céus refulgiam com o luar que brilhava em volta das nuvens negras que pairavam sobre o vale. A espaços, vibravam clarões, brevemente respondidos por um retumbar longínquo.
A pequena capela estava obviamente fechada e Bastião abanou a porta com força, fazendo-a estremecer, mas não ceder. Resmungou baixinho… não tinha pensado bem naquilo, devia ter trazido um ferro…
Deu a volta ao edifício, espreitando pelos buracos de introdução das esmolas; a luz bruxuleante das velas, no interior, prometia-lhe um pouco de luz sem levantar suspeitas… pelo menos assim que entrasse. Tornou à entrada e avaliou a enorme fechadura de ferro, comida pelos anos…
Ergueu o pé e desfechou uma “patada” bem no meio da porta, sendo recompensado com a sua abertura de par em par, sem mais resistência. Felicíssimo saltou para o interior e fechou-se rapidamente.
O exíguo espaço que pouco mais daria do que para umas dez pessoas em pé, estava iluminado por uns quantos cotos de velas, ardendo nos suportes dedicados às promessas. A luz tremia ainda, perturbada pelo rompante da invasão, dando ao local um aspeto ainda mais fantasmagórico.
Na parede fundeira, uma espécie de altar e a cruz com O Crucificado em agonia, que era usada com muita devoção nas procissões, ocupavam quase todo o espaço. Dos lados, prateleiras com imagens de santos de vários tamanhos, velavam. Entre elas, uma imagem de São Pedro, olhava-o acusadoramente, empunhando a chave com uma mão e apontando o céu com a outra.
Ajoelhou-se frente ao altar e pediu perdão por aquilo que estava prestes a fazer:
"Senhor Jesus perdoe-me pelos meus pecados e pelos maus tratos que dou à minha mulher, que é uma santa… às vezes… outras vezes, torna-se o diabo em forma de gente e eu tenha de lhe “arriar” para a “pôr nos eixos”. Prometo que não volto a beber… tanto e que só vou jogar… uma vez por semana… ou duas."
 Usou os seus melhores argumentos, para justificar que o facto de se ir apoderar das esmolas, mais não era do que encaminhá-las para quem realmente precisa e para um bem maior, que não o engrandecimento da já enorme “pança” do padre Figueira, "Que o Senhor Jesus bem sabia como ele era." 
Assim que achou suficiente, agradeceu diversas vezes, benzeu-se e beijou os pés da sacra imagem, após o dedicou a atenção ao aloquete da caixa das esmolas. As letras ingenuamente escritas "Esmola para as Almas", tremeluziam como que recordando o sacrilégio que ia cometer. 
Estacou com um ruído que lhe pareceu ouvir… gotas de chuva começavam a cantar no telhado. Recomeçou a avaliação e tentou abrir o fecho com a faca cheia de bocas, sem sucesso.
Agarrou nas imagens dos santos e pousou-as cuidadosamente no chão, em seguida, apoderou-se da prateleira onde elas estavam e bateu com ela sobre o aloquete. À segunda pancada partiu-se a tábua, mas o fecho também cedeu e uma torrente de moedas negras, algumas muito maltratadas, choveu aos pés do salteador. Rapidamente iniciou a recolha para o saco de lona que trouxera. Eram basicamente moedas de dez e vinte reis, mas demorou-se uns segundos a mirar uma ou outra de cinquenta reis e os olhos brilharam, quando achou dois tostões, duas de cem reis e mais três meias patacas, de cento e sessenta reis cada.
Encolheu-se. Pareceu-lhe ouvir alguém lá fora e ficou em silêncio. Uma moeda retardatária tilintou em cima das outras. Empunhou a faca e espreitou para a escuridão no exterior… a chuva caía copiosa, o vento soprava e relâmpagos longínquos rasgavam o céu. Não era possível ver a mais de três ou quatro metros de distância. Regressou e apressou-se a recolher o saque.
Deitou um último olhar aos santos; São Pedro continuava a olhá-lo acusadoramente, ameaçando-o com a justiça divina. Voltou a imagem para a parede e pôs o saco às costas. Benzeu-se para o enorme crucifixo. Uma forte rabanada de vento escancarou as portas e todas as velas se apagaram. O rosto de Cristo parecia refulgir com a luz dos relâmpagos.
"Perdão, meu Deus", gemeu estarrecido, antes de sair para a intempérie.
Mal deu dez passos, quando deparou com uma aparição, coberta da cabeça aos pés, que lhe barrava o caminho e estendia as mãos.
Soltou um grito estrangulado e caiu para trás, petrificado, tilintando centenas de moedas pelo chão empedrado. O seu rosto numa máscara de terror, focou o céu iluminado pela trovoada, enquanto a assombração se debruçava sobre ele. Com os olhos esbugalhados, inspirou atabalhoadamente três vezes e depois, parou para sempre…
A sinistra e andrajosa aparição, coberta com uma grosseira lona, inclinou-se para o corpo sem vida e exclamou:
"Tostãozinho pelas Almas"