Debaixo dos Céus Os Mundos de Manuel Amaro Mendonça

sábado, 27 de janeiro de 2018

Na Pele do Lobo - Parte IV


SÃO CRISTÓVÃO DA CHÃ


Simão e os companheiros estavam a chegar a São Cristóvão da Chã com as últimas luzes do dia. Saíram das árvores e a estrada continuava num declive  mais ou menos suave, até às primeiras casas quase uma légua abaixo. O casario estava agrupado numa linha que deveria ter cerca de oitocentas varas e ramificava-se em vários raios a partir do centro. Aparentava albergar umas boas centenas de habitantes. Fora erguido numa planície, ao lado de um ribeiro que corria cheio e cercado dos campos de cultivo que se alargavam até à floresta. Mas Simão estava remoído de preocupação, por ter deixado os dois irmãos para trás, apesar de não haver outra hipótese. De outra forma não poderiam chegar à aldeia a tempo de falar com alguém e arranjar alojamentos sem terem de andar a bater às portas todas… depois, dois deles haveriam de ir ao encontro dos retardatários.
Irmão. — A mão forte de Filipe apertou o braço do chefe, puxando-o para que parasse.
Que se passa? — Domingos apercebeu-se do tom do cavaleiro e espevitou as orelhas.
Não há ninguém nas ruas, nem nos campos, não há fumo a sair das casas, não se ouve um cão ou uma galinha sequer.
Tendes razão. — Anuiu Simão.
Com mais atenção, aproximaram-se do casario e verificaram que as portas estavam abertas, umas mais e outras menos, mas todas abertas. Algumas tinham sinais de arrombamento. Não se atreveram a entrar em nenhuma antes de chegarem ao centro da aldeia. Havia três corpos, dois masculinos e um feminino, em decomposição, caídos dentro do tanque ao lado da fonte. David aproximou-se para investigar um enorme monte de cinzas a pouca distância e com o seu bordão, fez rolar para fora um crânio completamente negro. Reinava um cheiro pungente a morte, mas continuava a não se encontrar ninguém… nem mesmo um cão. Manchas de sangue, mais ou menos frescas, reconheciam-se nas lajes da praça.
Filipe decidiu-se e avançou para um dos casebres mais pequenos. Empurrou a porta com um pontapé e observou o interior da única divisão em completo desalinho: mesa partida, panelas e roupas espalhadas pelo chão… mas nem viva alma. Avançou para a outra mesmo ao lado e repetiu o procedimento. Os outros juntaram-se-lhe a imitarem o comportamento, até quase se acabarem as casas da praça.
Aqui! — Gritou Domingos.
Todos acorreram. Também aquela porta fora arrombada e na obscuridade descobriram vários corpos, despidos, com aspeto de grande violência. Muitas equimoses e semi-devorados. Era uma casa de alguém mais abastado, porque o chão estava pavimentado, mas havia pegadas, marcadas a sangue por pés descalços, por todo o lado. O odor era indescritível, mas Simão, com a manga do hábito a tapar a boca e o nariz, aproximou-se a examinar os cadáveres.
Não entendo. — Suspirou Domingos com uma careta. — Lobos?
Lobos não arrombam portas. — Sentenciou Filipe com o seu sotaque carregado, ajoelhado a acender  uma vela que apanhara do chão. — Estes infelizes fecharam-se aqui enquanto puderam, depois a porta foi arrombada e tudo acabou.
Estas dentadas não foram feitas por mandíbulas de lobos ou cães… são parecidas com as que faria um humano, mas ligeiramente diferentes. — Esclareceu Simão. — Vêm-se muitas pegadas mas nenhuma de animal.
David benzeu-se devagar, enquanto digeria toda a informação.
Não podemos ficar aqui! — Exclamou Domingos. — Fosse lá o que fosse, pode voltar e se estas pessoas todas não lhes conseguiram fazer frente…
Tendes razão. Temos que regressar rapidamente ao mosteiro e alertar o abade, isto é bem pior do que alguém poderia imaginar. — Simão percorreu com o olhar o espaço, agora um pouco mais visível com a luz trémula.
Ali! —  Avisou Filipe avançado decididamente para um corpo nu, enrolado a um canto, que se movera.
Era pequeno como uma criança e quando o templário lhe tocou no braço, com intenção de o voltar, ele rodou rapidamente para longe da mão e, após os enfrentar, com os quatro membros no chão e um rosto negro de sujidade, rugiu assustadoramente exibindo caninos salientes. Após isso, lançou-se num inesperado salto, com a boca escancarada, na direção do rosto de Filipe. Este, beneficiando de reflexos rápidos e da sua estatura em relação ao atacante, largou a vela e agarrou-o pelo pescoço. Tratava-se de um rapaz, o rosto deformado, mais próximo de um focinho do que uma face humana, pêlo fino, quase invisível, cobria a maior parte do corpo e, enquanto se debatia nas mãos fortes, rosnava e ladrava tentando morder o seu captor.
Estarrecidos até ao mais fundo das suas almas, Domingos e David gritaram e benzeram-se em simultâneo, enquanto rodavam para fugir. Mais controlado, Simão extraiu um crucifixo e um pequeno frasco do hábito e, empunhando um e aspergindo a criatura com o outro, começou a entoar:
Exorcizamus te, omnis immundus spiritus, omnis satanica potestas, …
David também ergueu o crucifixo de madeira que trazia ao pescoço e começou a benzer a criatura, mas nada parecia surtir efeito e Filipe estava a começar a ficar cansado. Pequenas chamas mourejavam junto a uma das paredes interiores, no local para onde rolara a vela.
O rito continuou e Domingos ajudou a segurar o exorcizado, com pouca habilidade, pois tinha receio de lhe tocar e estava perturbado com a nudez do jovem.
A transpirar abundantemente, Simão gritava mais alto sobre os rugidos do ser:
—  Imperat tibi Deus altissimus, cui in magna tua superbia te similem haberi adhuc præsumis; qui omnes homines vult salvos fieri et ad agnitionem veritaris venire. Imperat tibi Deus Pater; imperat tibi Deus Filius; imperat tibi Deus Spiritus Sanctus. Imperat tibi majestas Christi, æternum Dei Verbum, caro factum...
Por fim, devido ao cansaço, que não parecia afetar o rapazinho, Filipe aliviou a pressão e foi o suficiente para levar uma forte dentada num dos braços. Louco de dor, o templário gritou e tentou soltar-se, mas a criatura não desferrava e começava a correr o sangue, à medida que ela se esforçava por rasgar a pele. Domingos estava a estorvar mais do que ajudar, pois puxava o pequeno corpo, impedindo Filipe de se movimentar com liberdade.
...sua humilitate contrivit. Imperat tibi fides sanctorum Apostolorum Petri et Pauli, et ceterorum Apostolorum + . Imperat tibi Martyrum sanguis, ac pia Sanctorum et… —  Simão recitava o exorcismo cada vez mais alto, pois sabia que não podia interromper ou teria de começar de novo.
Um pontapé fez Domingos cair e chorar de pavor tapando-se com o capuz. Não aguentando mais, Filipe bateu com a cabeça da criatura, com toda a força, na parede de granito. O estrondo, como que de uma cabaça a rebentar, fez todos ficarem imóveis e incrédulos. Sentia-se um silêncio pesado quando o templário deixou-se cair de joelhos e com lágrimas nos olhos, abriu as mandíbulas sangrentas do cadáver. Uma ferida profunda ficou exposta com um pedaço de pele pendurada, de onde o sangue vertia  abundantemente.
Já as chamas lambiam as paredes interiores, de tabique, quando todos abandonaram a casa, com o braço de Filipe apertado por ligaduras feitas com as túnicas, onde se via, mesmo assim, uma espessa mancha púrpura.
Chegados ao exterior deparam, em choque, com dois recém-chegados, do outro lado da praça, saindo de uma viela. Pareciam-se mais com animais do que com homens, rostos transfigurados, costas curvadas, quase de gatas e pêlo hirsuto ao longo de todo o corpo.
Simão fez o gesto de procurar novamente o crucifixo mas Filipe advertiu-o:
Irmão, já vimos que isso não está a funcionar, a nossa fé não deve ser suficiente para vencer este mal. — Tirou um punhal de dentro do hábito e sorriu perante o olhar escandalizado do outro. — Por vezes temos que dar uma ajuda à salvação. Não temos tempo a perder, correi irmãos, ide avisar o mosteiro do que aqui se passa e acudi a João e Tiago que devem estar a chegar.
Já vi que estas coisas podem ser mortas, sendo assim, já não lhes tenho medo! — Exclamou Domingos erguendo o seu bordão. — Acabamos com as criaturas e O Senhor lá se encarregará de lhes dar a salvação.
Não digais heresias! — Censurou Simão.
Ide-vos! — Ordenou o templário. — Não esperem por nós, se Deus assim o quiser, breve nos juntaremos  novamente.
São apenas dois… — Começou David.
Não! — Insistiu Filipe. — Vêm mais lá. Se frei Domingos ficar comigo, vós tereis mais hipóteses, fujam. Vamos matar uns quantos e depois fugimos também. O importante é avisar o mosteiro o quanto antes. Reforcem as portas todas e armem-se com algo mais que crucifixos e água benta…
Apavorado, mas percebendo como era crítica a situação deles, Simão, com os olhos marejados de água, abraçou Filipe e Domingos; não conseguindo dizer palavra, embargado que estava pela dor.
David, lavado em lágrimas despediu-se dos dois monges e apressou-se a seguir Simão, que tomara a dianteira em passo rápido, mas ainda a tempo de ver mais estranhas criaturas, juntando-se, ainda indecisas sobre como agir com os intrusos.
Já quase corriam pela estrada que subia a serra, quando o barulho chegou até eles. Durante alguns minutos,  latidos, ganidos, gritos e pancadas ouviram-se provenientes da aldeia e depois… silêncio.
Temendo transformar-se numa estátua de sal,, à semelhança da Sara fugida de Sodoma, David não se atrevia a olhar para trás, Simão, porém,  voltou-se antes de se embrenharem nas árvores que escondiam a estrada. Lá longe, altas labaredas consumiam várias casas e na entrada da aldeia, um homem envergando um quase desfeito hábito castanho, fugia cambaleante do meio do casario, perseguido de perto por cerca de dez criaturas. Caiu e foi rapidamente atacado pelos perseguidores. Nos segundos que se seguiram, dezenas de outros amontoaram-se, lutando entre eles e empurrando-se, para se juntarem ao “banquete”.
 Horrorizado, empurrou David e, por fim, acabou por passar-lhe à frente e puxa-lo para se afastarem rapidamente dali.


sábado, 20 de janeiro de 2018

Na Pele do Lobo - Parte III


VIAGEM INTERMINÁVEL



Na porta do mosteiro, frei Bento e os dois frades ficaram de olhos postos no grupo que se distanciava a bom ritmo, enquanto o abade, uns metros à frente, abençoava os seus enviados e rezava em alta voz pela segurança daqueles que mandava em nome D’Ele.

São Bento de Asnes estava isolado de tudo, a sua construção em granito, erguia-se num vale profundo da serra do Gerês, praticamente rodeado de altos cumes e era a residência de cerca de cinquenta frades. Era abastecido de água pela ribeira gelada que corria alegremente por um percurso sinuoso e acidentado até se despenhar de grande altura, perto da aldeia de São Salvador de Asnes e continuar o seu caminho até ao rio Cávado a muitos quilómetros dali. O aglomerado era composto pela capela e duas alas, em forma de U que abriam para um claustro e logo de seguida para uma extensa área composta por hortas que eram uma das fontes de alimentos do mosteiro. Todo o conjunto estava protegido por um muro de cerca de três metros de altura, derrubado pelo tempo em alguns  sítios.

O planalto era batido pelos ventos que se escoavam  nos espaços entre os cumes dos montes e assobiavam furiosamente no inverno. Àquela altitude, o sol podia ser inclemente durante o dia, alternando para uma noite gélida, no espaço de poucas horas.

Disso mesmo começou a sofrer frei João… as pernas pouco habituadas a grandes caminhadas, o corpo pesado, pouco dado a esforço, aliado ao estranho mal estar que sentia, uniram-se sob o sol castigador, tão logo abandonaram a proteção do bosque que orlava a base do monte que precisavam passar.

O trajeto que teriam de fazer era pouco conhecido por qualquer um dos monges, pois vulgarmente deslocavam-se apenas até São Salvador de Asnes, ou São Pedro de Tourém, para a feira mensal, agora iriam em sentido contrário, passando a face de uma das serras, quase até à fronteira com Castela. Todo o grupo caminhava em silêncio, primeiro porque se sabiam observados pelo abade e depois, apreensivos com a sua missão.

João ficava para trás e cada passo era um martírio. O suor frio que vertera antes, depois de o gelar completamente, agora parecia correr como gotas de metal derretido no seu corpo. Tiago deixou-se apanhar por ele e, certificando-se que os restantes não os ouviam, perguntou:

Que achais de tudo isto, irmão?

Isto, o quê? — Perguntou o outro com esforço. — Esta expedição inusitada, ou a estranha doença que atacou a aldeia?

Tudo! Não só esta maleita parece algo terrível e inexplicável, como este nosso grupo não tem muito de normal.
Uma coisa é correta: é nossa obrigação ajudar os nossos irmãos em dificuldades e fazemos isso mesmo, sempre que nos aparecem às portas.
Sempre que nos aparecem às portas! Vós sabeis bem que o nosso abade não cumpre escrupulosamente  o dever de curar e alimentar, senão aos peregrinos. — Frisou Tiago. — Não há memória de se mandar ninguém “ver o que se passa”. Algo o assustou muito.
É verdade que, para ele, os cuidados com o mosteiro estão em primeiro lugar e acho que é essa, em última análise, a razão desta aventura; ajudar se pudermos, se não, regressar rapidamente. Se esta enfermidade for tão contagiosa como aparenta, o mosteiro está em perigo e temos de o fechar num isolamento completo.
Só isso vos preocupa? — O monge falou ainda mais baixo. — Também não acreditais que seja obra de demónios?
Que o bom Deus o proíba! — Exclamou João benzendo-se ao mesmo tempo que o companheiro. — Acho que o nosso previdente abade não deixou essa hipótese de lado… é essa a razão da presença de Simão entre nós.
Ambos se calaram ao mesmo tempo ao verem o olhar de desaprovação de Filipe, que se deixara atrasar, para ver os retardatários. O seu porte altivo impunha respeito, não era difícil acreditar que era um cavaleiro templário de origem nobre.
Mantiveram a marcha em silêncio, à semelhança dos restantes mas, gradualmente, a distância entre João e o resto da comitiva ia aumentando, ao ponto do pobre Tiago  hesitar entre ficar com o companheiro ou manter o passo pelo grupo. Por fim decidiu-se e João ficou sozinho.
Arfava a cada passo, a água escorria pelas pernas, os próprios pés, apenas tapados pela correia das sandálias, eram uma papa de lama com terra e suor. Os companheiros aguardavam-no num pequeno largo mais acima… não havia uma árvore onde arranjar um pouco de sombra.
Chegado junto deles, Simão questionou-o se não achava melhor voltar, uma vez que parecia doente, mas ele recusou e despejou um pouco da água do seu odre no rosto afogueado, que lhe trouxe algum conforto. Os outros olhavam-no preocupados e ele sossegou-os alegando que era apenas o sol que o estava a atormentar, assim que chegassem às sombras da floresta do outro lado, tudo seria melhor. Procurou uma pedra alta o suficiente para se sentar um pouco, mas Simão deu ordem de marcha e ele não conseguiu descansar.
Novamente a distância entre eles começou a ser cada vez maior, até que desapareceram no alto do caminho, haviam chegado ao topo; a partir daí era só descer.
Quando por sua vez chegou ao ponto mais alto, pode deleitar-se com a paisagem. À sua esquerda, o maciço das serras alinhavam-se numa imensa muralha despida que desaparecia no horizonte e em frente, o tapete de árvores que se estendia a perder de vista. Lá muito longe, conseguia perceber o brilho de prata do rio. A fronteira com Castela. Antes disso, oculta na floresta, a estrada pavimentada, construída pelos antigos, que vinha de Braga e atravessava São Cristóvão da Chã, seguindo depois para a fronteira.
Olhou com preocupação para a mão roxa… as unhas amarelas e salientes, por certo iriam cair com os maus humores que se formavam no membro inchado… já sentia rigidez no cotovelo. Tiago aproximou-se e ele baixou rapidamente a manga do hábito.
 O monge trazia recado de Simão: iam continuar a andar e esperariam de tempos a tempos por ele, mas que estavam a perder tempo precioso. Perguntava-lhe se não seria melhor voltar. Teimosamente recusou, inclusivamente, não parou de andar para ouvir o companheiro. Este acabou por encolher os ombros e levantando as saias do hábito, correu a alcançar os outros.
Foi com alívio que atingiu a orla da floresta e recebeu em cheio a frescura da sombra, adornada aqui e ali com raios de luz oblíquos, carregados de minúsculas estrelas. Acelerou um pouco o passo, mas não havia meio de os apanhar e por fim, mesmo com a sombra, o peso nas pernas e nos braços começa a fazer-se sentir novamente. A transpiração, que entretanto arrefecera no corpo, gelava-o, mas ele não queria parar e continuou, com as sandálias a arrastar no terreno irregular do trilho.
Não sabia há quanto tempo caminhava sem ver ninguém. O carreiro por entre as árvores era uma paisagem ondulante e só se apercebia das pedras quando estava mesmo em cima delas, ou quando tropeçava. O ruído das sandálias a arrastar no chão coberto de folhas, era como se estivesse a flutuar em vez de caminhar.
Por fim, conseguiu perceber, por entre a visão turva, as pedras que limitavam o pavimento da estrada de Braga. Ia ser um consolo encontrar caminho mais direito, mas de repente, um pontapé numa pedra traiçoeira, atirou-o de borco contra o chão, numa nuvem de pó.
Irmão João, irmão, esperai que vos ajudo! — A voz aflita de Tiago chegava-lhe de muito longe.
O companheiro ajudou-o a erguer-se mas ele tinha atingido o limite das suas forças. Ergueu-se mas não se aguentava em pé e o outro tinha que o amparar.
Valha-nos o Senhor, irmão João. Frei Simão disse-me que viesse ter convosco. Se for vossa vontade continuar, eles esperá-lo-ão na aldeia, pois não se pode perder mais tempo, já vão chegar lá ao anoitecer. Ele recomenda que regresse ao mosteiro, de ambas as maneiras eu acompanho-vos.
Estou muito cansado. — Gemeu João, de forma quase inaudível. — Preciso descansar, deixai-me deitar aqui.
Mas, oh, ides deitar aqui no chão? Oh, tendes um ferimento grande na cara. Deixai-me limpar isso. Não comeis nada? Nós já comemos alguma coisa para aguentar a jornada.
Tiago não obteve mais resposta e teve de puxar sozinho pelo corpo adormecido e, com uma ponta do cobertor molhada, limpou o ferimento na bochecha do companheiro. Havia sangue no hábito e nas mãos do ferido. Ergueu-se e olhou em volta… que haveria de fazer? Agora ele ia dormir no mínimo um par de horas e acabavam por ficar de noite na floresta…


** Fim da 3ª parte **


sábado, 13 de janeiro de 2018

Na Pele do Lobo - Parte II


A MISSÃO


Quando tocaram as laudes, foi Félix quem o veio acordar, pois estava esgotado pelo esforço de limpar e pelas poucas horas de sono que teve. O vizinho ainda inquiriu timidamente o que se passava com ele, que além do cansaço, estava corado e os lábios inchados e mais vermelhos que o costume. João respondeu de forma um tanto seca, mas com um pálido sorriso, que tivera um pequeno desarranjo das entranhas, mas que já estava tudo a ir ao normal, não precisava de se preocupar e escusava de falar no caso dele a quem quer que fosse. O monge olhou-o com uma careta de preocupação, mas assentiu.
Apressaram-se no caminho até se juntarem aos restantes monges e aos cânticos que entoavam, no caminho para a capela.
Terminadas as laudes, os monges encaminharam-se em silêncio até ao refeitório para o desjejum enquanto ouviam um sermão de um dos anciãos, ou uma das leituras dos evangelhos. Já estavam sentados à mesa no refeitório quando todos olharam desconfiados, ao ver o próprio abade a subir ao púlpito. Havia algo de muito importante a dizer!
O velho abade Mateus puxou o capucho. Aquele perfil de águia, na cabeça de feições talhadas em couro antigo, focou os encovados e cansados olhos azuis na audiência. As sobrancelhas hirsutas, cinzentas e o pouco cabelo, da mesma cor, totalmente despenteado, emprestavam-lhe o ar de um Matusalém acabado de acordar de um sonho de séculos. As canecas e o pão encontrava-se já nas mesas, mas ninguém se atrevia a servir-se.
Irmãos! — Começou, na forte voz, incompatível com tal criatura. — Dirijo-me a vós com duas comunicações: para aqueles que ainda não sabem, e falo assim, porque este mosteiro, benza-o Deus, por vezes parece mais um ninho de lavadeiras a levar e a trazer novidades, do que uma das Casas do Senhor onde se deviam de limitar a dar as Graças a Ele. Mas dizia eu, para os que ainda não sabem, que passou ontem por este mosteiro uma família de São Cristóvão da Chã, a algumas léguas daqui. Vinham desesperados, pediram água e alimentos e não se quiseram hospedar, porque era sua intenção afastarem-se depressa desta região. Segundo eles, uma peste terrível atacou as gentes daquela aldeia e estão quase todos com febrões, deliram e vagueiam pelas ruas durante a noite. A nossa missão, além de ser a de portadores e divulgadores da palavra de Deus, é também a de acudir aos aflitos e enfermos e levar-lhe a Sua compaixão. Vamos enviar um grupo de irmãos para ajudar estes nossos vizinhos e ao mesmo tempo perceber que doença é esta e que precauções teremos de tomar para evitar que se propague.
O idoso abade tornou a percorrer a audiência com o seu olhar aquilino. Ninguém dizia uma palavra, pelo que o orador continuou.
A segunda comunicação tem a ver com algo muito mais mundano. Quando regressava ao meu alojamento, esta madrugada, vi um trilho de pegadas enlameadas que atravessava o corredor norte, desde o exterior, até perto das latrinas. — Fez uma paragem, pousou as mãos sobre a balaustrada do púlpito e suspirou audivelmente. — É UMA PORCARIA! UMA OBSCENIDADE! — Gritou, de repente, fazendo metade dos monges saltar nos bancos. — Não basta fide et labore (fé e trabalho)! Sujar a casa onde se pratica a obra do Senhor? E não limpar? Quero saber quem fez aquele serviço! Espero que a alma pecadora que assim procedeu, não falhe na lavagem dos seus pecados e conte ao seu confessor. Depois, iremos saber porque é que não limpou a imundice que fez, vamos saber o que é que andava a fazer fora dos alojamentos à noite e… qual a penitência a que se irá submeter.
Olhares preocupados cruzaram-se enquanto procuravam uma expressão de culpa em algum dos presentes. João, olhos fixos no chão, transpirava e deu uma joelhada no frei Félix que o olhava, incrédulo.
Dando por concluída a sua intervenção, o austero abade desceu do púlpito e passou pelo meio das mesas, sem se deter e abandonou o refeitório, não sem antes executar uma ligeira genuflexão para o enorme crucifixo na parede. Gradualmente os sons dos pratos de madeira e caçarolas de metal começaram a fazer-se ouvir, embora sem grande restolho e sem uma única palavra.
Assim decorreu a refeição, que acabou rapidamente, até que frei Bento, o segundo na hierarquia, se ergueu seu lugar e começou a caminhar para a porta entoando um novo cântico. Quase imediato, os restantes monges ergueram-se e levaram os utensílios para uma mesa no topo da divisão, enquanto o acompanhavam na oração cantada e alinhando depois, em fila, junto dele. Assim que todos terminaram a tarefa, os responsáveis das cozinhas iniciaram o transporte das louças para as lavagens e frei Bento abandonou o refeitório, logo seguido pela fila de monges, sempre a entoar Graças ao Senhor. Era chegava a hora de se dirigirem aos claustros onde eram distribuídas as tarefas do dia.
Mesmo à saída, encontrava-se o irmão Simão, que, tocando simplesmente no ombro de alguns dos monges, indicava-lhes que formassem fila atrás dele. João sentiu-se gelar, quando Simão lhe tocou no ombro. Olhou-o nos olhos, numa expressão de espanto, ao que aquele devolveu um acenar afirmativo e apontou a as costas dele com o queixo. O atemorizado frade, obedeceu, tal como os outros sem deixar o cântico, mas ainda olhou para trás, para deitar um olhar desolado a Félix, que encolheu os ombros, seguindo o seu caminho.
Assim que Simão achou que a sua comitiva estava completa, iniciou a marcha em sentido contrário ao claustro, na direção das latrinas. João quase chorava, enquanto refletia: “Algum dos irmãos me denunciou… teria sido Félix? Não, ele não faria isso. Deve ter sido algum daqueles com quem me cruzei.  O irmão Anastásio, por exemplo, é mau e gosta de fazer sofrer os outros. Quando é preciso “ajudar” com o flagelo, aí está ele disponível… ai o chicote… só lhe sentira as vergastadas uma vez e gostaria de não as sentir mais… ou o cilício! Aquele terrível cinto farpado, com as lascas cravadas na pele… como doía… cada passada que se dava, era como a lança que perfurou o Lado do Salvador. Da ultima, vez levara mais de duas semanas a curar os ferimentos… Senhor, tende piedade de mim, poupai-me do sofrimento, só pequei por medo!”
Estas considerações eram feitas em simultâneo com o cântico que entoavam na sua marcha, seguindo frei Simão, cuja voz era quase inaudível, fruto de uma forte pneumonia que apanhara há uns anos, após uma penitência autoinfligida nas águas da ribeira de Pitões. Simão era um acérrimo defensor das penitências e não se negava a elas, todo o seu corpo tinha marcas de flagelos e cilícios… algumas onde nem o próprio diabo se lembraria.
Chegaram à porta lateral da capela e entraram para o centro da nave onde as suas vozes ecoavam agradavelmente. Aguardava-os o abade Mateus, de joelhos no chão granítico, em frente ao altar. Ergueu-se assim que eles se aproximaram e os seus olhos coruscantes avaliou-os, um a um. Depois, com um sorriso beatífico, fez sinal para se silenciarem e indicou os bancos de madeira. Assim que todos se sentaram, benzeu-se na direção do altar antes de Lhe voltar as costas e enfrentar os olhares curiosos dos monges. 
Irmãos. —  Começou sem mais delongas. — Todos me ouviram contar o que se passou ontem. Os camponeses em fuga estavam apavorados e aquilo que me descreveram deixou-me muito apreensivo. Disseram que desapareciam aldeãos da noite para o dia e que outros ficavam com febres muito altas, alguns morriam… mas o pior de tudo, é que eles suspeitavam da mão do “inominável” nesta doença. Não vou conspurcar este lugar sagrado com o nome daquele que o Senhor expulsou dos céus, mas o homem contou que alguns latiam ou uivavam como lobos.
Todos se benzeram praticamente em simultâneo.
Nenhum dos recém chegados formulou uma palavra, quer por respeito à hierarquia, quer pelo pavor que lhes estava a ser infligido, mas os seus olhos faziam muitas perguntas ao abade, que continuou o seu raciocínio.
É preciso ir saber o que se passa em São Cristóvão. Temo que uma doença muito grave esteja a grassar por lá e, se for o que eu penso, que o bom Deus nos proteja e nos ajude a tomar as melhores decisões.
Todos os frades se olharam, como se de repente se tivessem apercebido finalmente da presença uns dos outros.
Mas, reverendíssimo, porque requereis a nossa presença? — Perguntou o irmão Filipe, um homem com mais de um metro e oitenta, com um forte sotaque gaulês. Dizia-se à boca pequena, que era um cavaleiro templário, escondido do rei da França no mosteiro.
Irmãos. — Continuou o abade. — Discuti por muitas horas com frei Simão e frei Bento sobre o que se haveria de fazer e acabamos por acordar em enviar um pequeno grupo à aldeia. Os vossos nomes foram os escolhidos.
Todo o grupo se tornou a olhar, desta feita avaliando-se. Simão mantinha-se em pé ao lado do abade, de olhos baixos e com as mãos cruzadas sobre o estômago e ocultas nas amplas mangas do hábito. Entretanto chegou frei Bento que pediu autorização para se reunir a eles. Eram agora três, em pé, frente aos cinco atónitos monges que começavam a ter dificuldades em sustentar o olhar uns dos outros, sempre a ver qual deles deveria fazer as perguntas.
Nós somos servos do Senhor! É a nossa obrigação acudir aos necessitados e se há uma doença a grassar entre os nosso vizinhos, é nosso dever empregar a nossa ars curandi (artes curativas) para os ajudar. — Fortalecido com a chegada de Bento, Mateus engrandecia o discurso. — Os irmãos João e David, têm os conhecimentos das plantas medicinais, Tiago, com os seus conhecimentos enciclopédicos ajudará a perceber que maleitas sofrem os aldeãos. Filipe e Domingos, são os mais fortes, ad cautelam (por precaução)… por último irá o irmão Simão, também ad cautelam; os seus conhecimentos podem ser úteis, visto que não temos explicação para o estranho comportamento que nos descreveram. E agora não percamos mais tempo, irmãos, tempus fugit (o tempo voa). Têm de partir de imediato, para chegarem ainda com dia.
A um gesto do abade, todos o seguiram, cabisbaixos, apreensivos, digerindo lentamente a tarefa que lhes fora destinada. A fechar a comitiva iam frei Bento e frei Simão. Caminharam pelo claustro, em direção à porta que conduziria ao exterior. Pelo caminho, três outros frades entregaram a cada, um odre com água, um cobertor grosso e um bornal com alguma comida… estava tudo bem organizado e fora guardado um silêncio perfeito, pois ninguém havia comentado nada.
João sentia a transpiração gelada a correr pelas costas, ensopando o tecido do hábito.
Chegados aos portões que conduziam ao exterior, que foram diligentemente abertos pelos monges que trouxeram os mantimentos, o abade cumprimentou e disse algumas poucas palavras a cada um dos elementos da expedição até chegar a frei João, a quem deitou um olhar preocupado, enquanto perguntava:
Estais bem, irmão? Tendes o rosto afogueado e os olhos húmidos…
Sim, obrigado por perguntar, reverendíssimo, estou apenas a recuperar de uma pequena sezão, causada pela última penitência na ribeira. — As mentiras avolumavam-se a uma velocidade estonteante e João corou ainda mais ao dizer esta.
Valha-me o Senhor! — O rosto talhado em madeira de Mateus contorceu-se numa expressão de compaixão. — Não sabia que estáveis doente, temos que arranjar outro irmão…
Não, por favor. Eu estou bem, Deus vela por mim e a caminhada há-de fazer-me melhor.
Que Deus te abençoe, meu filho. — Era óbvio o alívio do abade. — Mas prometei-me que, quando regressardes, ireis cuidar dessa maleita com mais atenção.
Sim, reverendíssimo, a vossa bênção. — João estava, apesar de tudo, aliviado por abandonar o mosteiro e  curvou a cabeça para ser abençoado.

Sem uma palavra, Simão empreendeu o caminho pelo trilho que se dirigia à floresta próxima, quase subjugada pelo cume da montanha atrás. Na sua peugada seguiam Filipe, Domingos, Tiago e David. João fechava o pequeno cortejo.




** Fim da 2ª parte **







Parte I - Sonâmbulo
Parte I - Sonâmbulo
Parte III - Viagem Interminável

sábado, 6 de janeiro de 2018

Na Pele do Lobo no Correio do Porto

NA PELE DO LOBO

Começou no dia 6 de Janeiro de 2018, a publicação de um dos meus contos, completamente inédito, no site do "Correio do Porto", com o qual colaboro frequentemente. O Correio do Porto é uma revista digital independente do Porto (PT) e sobre o Porto (distrito). Conta histórias de vida (pessoas e coisas) de um mundo à parte (físico e noticioso). Divulga notícias do outro mundo quando falarem do Porto. O Correio do Porto foi concebido para utilizadores com muitas horas de leitura (livros, revistas, jornais, banda desenhada, cartoons, postais, selos, cartazes, folhetos, catálogos, etc). É a geração do papel a navegar no mar digital. 


Esta história foi dividida em 5 episódios, publicados a cada sábado até ao dia 3 de Fevereiro, data da publicação do último fascículo.


A história passa-se num imaginário mosteiro medieval, isolado nas montanhas, que se vê a  enfrentar uma perigosa doença.


Apesar de toda a trama ser imaginada, assim como o próprio mosteiro, São Bento de Asnes, o ambiente foi imaginado com base no mosteiro de Pitões das Junias, na serra do Gerês.


Não deixe de ler esta empolgante e tenebrosa história. 


Para ler os episódios através da publicação no Correio do Porto, clique na imagem abaixo e acederá a uma página com as ligações para os capítulos.



Mas pode ler também aqui no meu blogue, clicando em cada uma das imagens abaixo.

Parte I - Sonâmbulo
Parte I - Sonâmbulo
Parte II - A Missão
Parte III - Viagem Interminável

Parte IV - São Cristóvão da Chã


Na Pele do Lobo - Parte I



SONÂMBULO


Frei João acordou sobressaltado, com os olhos arregalados na escuridão. O suor frio escorria-lhe da testa e gelava-lhe as costas, correndo em grossas gotas ao longo da coluna.
Estava deitado no chão, de bruços e isso era tudo o que conseguia perceber. Atabalhoadamente, tateou em volta para descobrir onde estava. O silêncio era absoluto no interior do mosteiro de São Bento de Asnes, aliás como sempre. A única coisa que perturbara o sossego, fora o mesmo barulho que o despertara para a consciência que se encontrava no chão.
Ergueu-se sobre os joelhos, com dificuldade e encontrou os cobertores do catre, logo à frente. Estava na sua cela, portanto… pelo menos parecia.
Bateram timidamente na porta.
Irmão João? — Uma vozinha atemorizada e abafada fez-se ouvir. — Está tudo bem? Ouvi um grande barulho.
Uma trémula luminária trouxe alguma claridade ao cubículo, à medida que a grossa porta de madeira era empurrada para dar entrada a um homem baixo e gordo, de olhar assustado, empunhando um toco de vela.
O Senhor seja louvado, irmão Felix! — Congratulou-se frei João, ainda de joelhos, com a luz que a chegada do companheiro lhe trouxe. — Não sei o que aconteceu, acho que caí da cama. Estava para aqui deitado no chão.
O próprio João, era um pouco gordo, mas de uma estatura mais elevada que o seu vizinho, de quem aceitou o braço para acabar de se erguer.
A exígua cela era apenas composta pelo catre, um banco que fazia as vezes de mesa de cabeceira, um balde para as necessidades e uma mesa onde pouco mais do que um livro cabia. Na parede da cabeceira da cama, um Cristo numa agonia atroz, dominava todo o espaço, lembrando o sofrimento d’Ele. Dois tocos de vela. Apagados, jaziam no chão, logo ao lado do banco que caíra sobre o balde e espalhara o fétido conteúdo no chão. Um cheiro a fezes e urina empestava o ar.
Valha-me a misericórdia divina. — Lamentou-se João, assim que o olhar descaiu sobre os dejetos. — Olha que porcaria aqui está! Trouxe o balde para cá porque me sentia adoentado, temia não conseguir chegar às latrinas e vejam lá...
Credo em Cruz, irmão! — Benzeu-se o outro. — Estais com um grave problema, para que vos saiam tais miasmas das entranhas! Devíeis falar com o frei David.
Envergonhado, João aceitou ajuda para acender as velas, mas recusou-a para limpar e despediu o companheiro alegando que ele o faria sem dificuldades. Félix acabou por acatar a decisão do vizinho, mas, antes de regressar à sua cela, lembrou  que faltavam menos de duas horas para as laudes matutinas (primeiras orações da manhã).
De novo sozinho, depois de uns segundos de reflexão, abandonou a cela para ir buscar o necessário para a limpeza. Deixou uma vela acesa e levou outra consigo.
Sentia-se algo confuso, o ambiente parecia-lhe irreal e o ar espesso, que respirava com dificuldade. A transpiração gelava-o e provocava-lhe arrepios, mas sentia os lábios e as mãos anormalmente quentes… devia estar a incubar uma febre, o que não era nada bom. Da última vez que estivera doente, o frei David por pouco não o matou com as suas mezinhas. Benzeu-se com a recordação.
Nos corredores nus e silenciosos (e felizmente sem viv’alma) reinava uma penumbra pesada, quase escuridão, onde ecoavam os passos secos das suas sandálias. As portas das celas encontravam-se invariavelmente fechadas, o inverno estava frio e todo o mosteiro dormia ainda.
Ao passar num dos acessos ao claustro, a luz difusa do luar mostrava uma parte do chão, onde se viam, claramente, pegadas marcadas a lama no granito do chão mais ou menos imaculado. Surpreendido, aproximou a vela para verificar a direção das pegadas. “Quem teria feito isto?” — Perguntou-se, incrédulo. — “O abade Mateus não permitiria que se deitassem com o chão naquele estado!”
As “patinhadas” seguiam na direção contrária de onde ele provinha e resolveu segui-las, para ver quem fora o descuidado que fizera tal serviço. Os seus olhos arregalaram-se de espanto e pavor: as suas sandálias estavam cheias de lama e estava a deixar um segundo trilho de pegadas por onde passara. Aquilo não podia ser! Não se lembrava de calçar as sandálias, logo, já as tinha e de certeza que não estava a dormir com elas! Benzeu-se nervosamente, não tinha ideia de ter saído, nem sequer de se ter levantado, que se passava com ele?
Correu e foi buscar a vassoura, um balde de madeira e uns trapos, começando por limpar as sandálias e depois o chão, corredor fora, mas apenas desde o local onde se encontrava até à sua cela, não havia tempo para mais. Não queria ser surpreendido por nenhum dos irmãos, para que não lhe fizessem perguntas para as quais não tinha respostas.
À chegada à cela, conseguiu ver que Félix o observava do umbral do próprio compartimento. Fez-lhe um gesto de silêncio e ele recolheu-se sem uma palavra.
Limpou afincadamente o chão e encheu o balde com trapos sujos e malcheirosos que se apressou a fazer desaparecer pelos buracos das latrinas. Em seguida lavou-o  e repo-lo no seu lugar. Apenas se cruzou com dois dos irmãos que se levantavam mais cedo.
A higiene do corpo não era uma prioridade para os beneditinos; mudavam de túnicas interiores e hábitos com frequência, mas os banhos rotineiros, exceto para os doentes, eram desaconselhados. No entanto, no que tocava ao asseio de todo o mosteiro, o abade Mateus era implacável com quem prevaricasse: normalmente mandava-os fechar em celas com o flagelo (pequeno chicote de com pontas metálicas) para que se açoitassem como penitência, se o não fizessem, ou empregassem pouca convicção, iria alguém à cela para o fazer ao penitente. O próprio João já sentira na pele as mordeduras que chegavam ao osso e, se pudesse, não passaria por aquilo novamente.
Deitou-se e cobriu-se com o cobertor sem lençois, pois eram um luxo a que os monges não se podiam dar. Estava completamente esgotado e começou a pensar na sua situação que estava a ficar muito complicada. Olhou a mão esquerda, completamente roxa, onde um semicírculo de dentes humanos estava profundamente marcado entre o polegar e o indicador. Havia sangue seco em algumas das marcas… o frio que sentia e a cabeça a andar à volta, devia estar relacionado com aquilo… apanhara alguma moléstia naquela dentada, no seu estranho encontro do dia anterior.

*** *** ***

Na manhã de ontem, invariavelmente, andava a tirar as ervas daninhas e a compor os regos da horta, enquanto ia apanhando para uma cesta alguns tomates maduros. São poucos os monges que têm tarefas específicas, a regra de São Bento manda que todos façam e ajudem em tudo, mas, por uma questão prática, é bom que haja alguns “especialistas” que vão estar mais atentos às necessidades das suas funções, para que as não encararem como uma tarefa rotativa onde pode deixar os problemas para serem solucionados pelo que vier a seguir. A regra mandava também que os mosteiros fossem o mais autosuficientes possível e isso fazia com que houvessem oficinas, enfermarias, serviços de limpeza, pastorícia, cada destes serviços com um ou mais especialistas responsáveis.  Ele cuidava das hortas, todos quantos viessem ajudar nas tarefas, estavam sujeitos à sua autoridade… sentia orgulho nisso e o orgulho é um pecado. Terá de falar nele ao confessor e acatar a penitência que ele lhe indicar.
Estava então afastado dos companheiros, próximo de uma secção da muralha que ruíra há uns anos atrás e ninguém mandara reparar. Escolhia os melhores tomates, entre as filas de tomateiros “de estaca” que se erguiam a quase dois metros de altura, quando se apercebeu de alguém, ou algo, que se esgueirou do meio dos tomateiros para os feijoeiros. O restolho das folhas denunciava o intruso.
Desconfiado que se tratava de um dos rapazolas da aldeia vizinha, a roubar uns legumes, avançou, decidido a dar-lhe uma reprimenda… ou um chuto nos fundilhos. Assim que afastou a folhagem bruscamente, ficou estático de estupefação: um rosto feminino, belo, mas sujo, emoldurado por uma cabeleira negra, desgrenhada e cheia de folhas, fitava-o com olhos pequenos e assustados.
Estava a contar com um petiz traquina, que largaria a fugir assim que o visse, não uma visão daquelas.
Alarmada, a intrusa soergueu-se, permitindo a visão de praticamente todo o seu corpo nu. Os pequenos seios pendentes, com os mamilos eretos  e o triângulo hirsuto do ventre, funcionaram como um soco no frade.
O Senhor seja louvado! — Exclamou João, antes de se  benzer, tapar os olhos e corrigir rapidamente: — Que o bom Jesus nos proteja das tentações dos demónios!
Tornou a espreitar por entre os dedos; a rapariga continuava ali, atrás dela erguia-se o muro que a impedia de fugir e à frente estava o volumoso monge. Estava bastante suja, devia andar perdida há muito tempo, ou não tinha o juízo todo e fora abandonada pelos familiares. De todo em todo, era bonita e bem feita.
Minha filha! — Frei João recuperou, abrindo os braços e avançando. — Que se passou contigo? Vem a mim que te ajudo. Deixa que este servo do Senhor cuide de ti.
O rosnar típico de um animal selvagem fê-lo hesitar.
Não tenhas medo, que não te faço mal! — Insistiu o frade, quase tocando-lhe com uma das mãos.
Inesperadamente, rosnando como um cão, a rapariga projetou-se de um salto e cravou os dentes com toda a força na mão que ele tinha mais próxima. Ferrou-lhe uma dentada entre o polegar e o indicador e começou a puxar e a abanar a cabeça. O pobre frade gritava desesperadamente enquanto tentava libertar-se da dolorosa mordida e foi apenas quando deixou de puxar e começou a bater, sem qualquer pudor, na cabeça da rapariga, que esta largou a sua presa. Fez estalar os dentes próximo do rosto aterrorizado do homem e depois saltou literalmente por cima dele e desapareceu pela parte derrubada da muralha, para fora do mosteiro.
Quando os restantes irmãos acorreram, alarmados pelos gritos de João, este reconsiderava no que tinha visto. Como poderia explicar que vira uma mulher nua no meio da horta? E que explicação daria para o facto de a ter tentado agarrar? Na melhor das hipóteses, pensariam que estava a enlouquecer e a ter visões, na pior, que tinha tido pensamentos impuros com um demónio dos infernos e… o abade Mateus dar-lhe-ia uma penitência duríssima, tipo mergulhar nas águas geladas da ribeira todos os dias, durante uma semana… e jejum… não aguentaria mais jejum.
Às perguntas assustadas dos monges, respondeu que se assustara com um grande cão, que tomara por um lobo, mas que fugira alarmado com os seus gritos… atrás das costas, manteve a mão ferida, que latejava. Assim que todos regressaram aos seus trabalhos, ele ainda foi espreitar por cima do muro. Se fechasse os olhos, conseguia ainda rever aquele corpo firme e pecaminoso.

*** *** ***

Sempre fora cumpridor das suas obrigações… pelo menos das mais importantes, mas agora, no espaço de dois dias, estava a omitir várias coisas, a mentir, pois é praticamente o mesmo, para fugir ao castigo, quer dizer, penitência. Cada hora que passava, a trama adensava-se mais e surgiam umas mentiras para ocultar outras.


** Fim da 1ª parte **
** A seguir, em 13 de Janeiro: "A Missão" **

Introdução
Parte II - A Missão