Debaixo dos Céus Os Mundos de Manuel Amaro Mendonça

segunda-feira, 26 de março de 2018

Uma Casa nas Ruas - 5ª parte

O Regresso

Com a cabeça encostada ao vidro e os olhos semicerrados, Xico olhava pensativamente a paisagem que corria veloz, no sentido contrario ao do autocarro de passageiros em que viajava. Era a segunda etapa da viagem; a primeira fora o comboio inter-regional do Porto até à estação da Ermida em Resende, agora só sairia em Castro Daire, a sede do concelho a que pertencia. Estava-se no fim do verão, setembro arrastava-se, quente e parecia não querer dar entrada ao outono, que espreitava.
Passaram-se cerca de três meses desde a morte do seu  Manuel “passarão”. Fazia três meses que o amigo, numa fuga descuidada, fora atropelado em plena rotunda da Boavista. Esta morte deixara-o de rastos, a ele, que o tratava a maior parte das vezes com brusquidão ou sobranceria. Mas na realidade, queria-lhe bem e achava graça à sua ingenuidade, fruto do atraso mental que parecia ter… e que agora não tinha mais. Talvez Deus tenha um sítio simpático para as pessoas como ele, se é que existe Céu, que nunca fizeram mal a ninguém, nem tinham negruras no coração… como ele próprio tinha. Ou melhor ainda, se realmente existisse um “Céu dos Pássaros” para onde o deixassem ir correr com as pombas, como adorava fazer e como fora o seu último desejo.
Iria sentir-se para sempre culpado de o ter convencido a sair do abrigo, onde era bem tratado e alimentado, para regressar às ruas, para a fome, o frio… e para a morte. Desencaminhara-o e era o único culpado daquela morte; assim lhe gritou o doutor Tomé, que trabalhava no abrigo e assistira ao atropelamento. Manuel havia falado muitas vezes do amigo Xico, que desaparecera e todos sabiam que, se ele reaparecesse, o “Passarão bateria as asas”. Todos no abrigo gostavam dele e foram eles quem tratou do funeral que levou o infortunado para debaixo da terra.
Mas a culpa daquela morte não era sua, ou pelo menos, não diretamente. Culpados eram o Pinguinhas e o Vesgo, de quem ele fugia. Os dois “bandalhos” que  viviam de roubar aqueles que, tendo roubado outros, não tinham força para defender o saque. Era o caso do Manel Passarão, eles infligiam-lhe um terror incontrolável e foi esse terror que o precipitou para a frente de um carro.
Também Xico lhes tinha medo. Não do Pinguinhas, que era um covarde, enfezado e estúpido, mas do Vesgo, muito forte, inteligente e um sádico da pior espécie. Por várias vezes lhe sentira o peso dos punhos ou as queimadelas dos cigarros no pescoço e nos braços.
Ao fim e ao cabo, já tinham sido avisados para não roubar na zona controlada por eles e, se o fizessem, tinham que dar uma parte (a maior ou a melhor) ao “gigante”. Como teimoso que era, Xico  sempre se recusou a fazê-lo e pagava “com o corpo”. No início ainda reagia, mas resultava numa tareia ainda maior, por isso ultimamente, ou fugia-lhe ou sujeitava-se às porradas. Assim aconteceu depois da morte do Manuel; fugiu do “canto” que partilhava com o falecido, debaixo do viaduto e escondeu-se nos pisos mais fundos de uma das torres do Bairro do Aleixo, há muitos anos condenadas à demolição. Durante três meses ali esteve, acoitado num cubículo, de onde expulsou outro mais fraco que ele, entre paredes gatafunhadas, lixo e escuridão. Só saía o mínimo possível para arranjar alguma coisa de comer e retornava ao “covil”... ou toca, como um autentico rato.
Chegou finalmente a Castro Daire, cerca das quatro da tarde. O sol estava alto e pôde olhar demoradamente as casas daquela vila que já não via há cerca de doze ou treze anos, desde que saíra de Pepim, a pequena aldeia do concelho, onde nascera.
As coisas não estavam assim tão diferentes, do longínquo mês de fevereiro de 2001: uma casa ou outra fechada, ou a precisar de obras, um estabelecimento fechado aqui, um outro novo ali… ninguém sentira a falta do Francisco Soares.
Foi a um dos cafés próximo da paragem da rodoviária e pediu uma sandes e uma cerveja… seria o seu almoço e lanche… se calhar até jantar. Faltava saber como seria recebido em casa. O empregado de mesa e o “mal encarado” ao balcão, eram conhecidos, talvez dos tempos do secundário, que fez de forma errática ali na vila. No entanto, nem um nem outro aparentaram reconhece-lo. Olhou-se no espelho que decorava a coluna a seu lado: cabelo escuro, seboso, barba de vários dias e blusão grande demais e sujo. Era de admirar que não o pusessem na rua.
O empregado pousou o pedido em cima da mesa e cruzou os braços, à espera. Envergonhado do seu aspeto, não quis ser reconhecido e de olhos baixos, rebuscou os bolsos de onde tirou dez euros amarrotados, que entregou. O troco materializou-se em cima da mesa, mas, por detrás do balcão, o “mal encarado” mantinha-se vigilante. Terminada a “refeição” saiu, sem fitar os empregados, para a rua, sentindo-se imediatamente mais aliviado.
Olhou os táxis imobilizados na praça e suspirou enquanto pegava nas notas e moedas que trazia no bolso. Descontados os bilhetes do comboio e da camioneta, restavam-lhe apenas cinquenta e poucos euros, do que conseguira roubar ao Vesgo, no último e traumático encontro que teve com a infame dupla. Encontro esse, que foi a causa da súbita vontade de regressar à sua terra natal.
Encolheu os ombros; o dia estava bom e cinco quilómetros fazem-se num instante, afinal, já fizera dois e tal entre da estação de comboios e a rodoviária e não sabia ainda o que o esperava em Pepim.
Conseguiu ainda reconhecer um ou dois rostos, mais idosos, como os do dono de uma mercearia e o de um dos taxistas, que lia o jornal sentado num degrau ao pé da viatura, mas fazia sempre por não os olhar diretamente.
Quase conseguiu desfrutar da caminhada pelo meio dos campos, após abandonar o arvoredo ladeava a estrada do planalto da vila. O sol começava a descer, quando avistou as primeiras casas da aldeia.
Passou pela rua Central, que outro nome não tinha, cabeça baixa, como que tentando esconder-se debaixo da mochila preta que trazia às costas. Não havia quase ninguém fora das casas, mas conseguiu discernir alguns habitantes, sentados nas varandas a aproveitar o ar que começava a refrescar e que se erguiam curiosos a ver “quem vem lá”.
Conseguiu chegar ao ponto mais alto da rua, o largo do Eirô e iniciar a descida para o local onde nascera, sempre através das recordações de infância, umas boas e outras más. A casa do João do burro aparentava estar vazia há muito tempo. A da ti Maria padeira tinha caído e à medida que avançava, a degradação era maior e havia mais casas arruinadas ou simplesmente abandonadas. Passou a última habitação do aglomerado central e já divisava o telhado e a parede amarela do seu destino. Sentia dor de barriga e tremiam-lhe as pernas, mas continuava a caminhar; como iria recebê-lo a mãe? Depois de tantos anos sem saber de nada, depois de ter roubado o dinheiro do Manel da mercearia e os brincos e a arrecada de ouro da Lucinda da igreja?
Só quando está a poucos metros de distância se apercebe do mau estado em que se encontra a janela que se divisava por cima dos esteios das videiras, em completo abandono. Do aspeto envelhecido da parede de onde já caíram pedaços de reboco. De frente, era ainda pior. As janelas e as portas entaipadas contavam uma história que escapava a todas as suas conjeturas, já não vivia ali ninguém há bastante tempo, a avaliar pelas ervas secas em volta, apenas cortadas à face da estrada, possivelmente pelos serviços autárquicos.
Ficou, estático, de boca aberta a rever cada contorno das portas das lojas, de cada janela apodrecida. Olhou em volta, desorientado. A casa mais próxima, à direita, estava reconstruida, lembrava-se que estava vazia na sua juventude, logo, não devia conhecer ninguém. Do outro lado, só a velha escola primária e mais longe, a caminho da igreja, o ti Luís da Serra e a ti Joana, se calhar ainda lá vive a Maria Alice, que não queria encontrar… pelo menos com o aspeto que tinha. Mesmo em frente à casa subia a rua das Roçadas, ladeada de pequenos casebres agrícolas e depois havia um pequeno tasco… tinha que perguntar a alguém. Que terá acontecido à mãe e à irmã?
Um automóvel passou veloz, ignorando-o, quase no meio da rua.
Após uns minutos de indecisão, tentou empurrar as portas a ver se alguma cedia.
—    Eh lá! — Uma voz de mulher gritou do meio da ramada no terreno em frente à casa. — Que está a fazer?
Sobressaltado, Xico olhou em volta a tentar perceber de onde vinha a voz, até conseguir divisar a mulher oculta pelas folhas, atrás da rede que delimitava a propriedade em frente. Apurou a vista e reconheceu a dona Inácia, que vivia em frente à tasca. Continuava velha, esquelética e enrugada como sempre fora… talvez mais velha.
—    Sou o Xico, dona Inácia! — Gritou-lhe de volta. — O filho da ti Maria da Luz!
—    Ora quem havia de dizer! — A velha surpreendeu-se. — Tardaram-te as saudades, rapaz!
—    Que é da minha mãe? E da minha irmã?
—    A tua irmã foi-se embora para Lisboa há uns bons anos…
—    E a minha mãe?
—    A tua mãe… — A velha hesitou um pouco. — Mudou-se lá para baixo, para o cemitério. Levou-a uma pneumonia há quatro ou cinco anos.
Ele ficou como que petrificado. A mãe, pequena e magra, mas firme e dura como uma rocha, tinha morrido. Aquela mulher capaz de um beijo e de um tabefe quase de seguida, capaz de tirar o pão da boca para o dar a um filho ou a um amigo e ao mesmo tempo, enfrentar o mais mal encarado, armada apenas com um pau de vassoura. Fora-se  para sempre.
Até já estava preparado para o chorrilho de insultos com que pensava que seria recebido, sentia-se ágil para fugir dos pratos que lhe arremessaria… mas ela não poderia mais dar-lhe os maus tratos devidos à ingratidão que ele sempre demonstrara e os justos castigos pelos crimes que cometia. A luz daquela mulher de aço, que nem os maus tratos do marido e as canalhices cometidas por filho e marido alternadamente conseguiram derrubar, apagara-se para sempre.
Nem agradeceu à dona Inácia, que acabou por desaparecer entre a ramada e voltar aos seus afazeres, enquanto ele, de olhos no chão, deixou que duas gotas pingassem no asfalto cinzento pelos anos. Sentindo-se demasiado pequeno para aquele mundo, olhou em volta para rua, que conhecia desde que se lembrava de ser gente, que antes parecera pequena, mas agora parecia interminável. O céu pintava-se de vermelho quando resolveu pegar na mochila às costas e continuar a rua.
Passou em frente à escola primária, agora reluzente, caiada de novo. Quando era miúdo, tinha alguns buracos e  a tinta a descascar, mas estava repleta de crianças, agora se calhar já nem funcionava, mas estava nova. Mais à frente, o caminho de terra onde dera uma tareia ao João Luís,  depois, o pomar do ti João, onde o Zé Gordo e o mesmo João Luís lha devolveram e não fosse aparecer o pai da Maria Alice, poderia ter sido bem pior. E a Maria Alice… a casa dela estava a seguir, a última, antes da junta de freguesia, os beijos que deram naquelas traseiras da casa, beijos e não só. Mas agora não queria que o reconhecessem; baixou a cabeça e estugou o passo.
Chegou finalmente ao cemitério. Olhou de soslaio a igreja onde fez a comunhão… como o pai estava bêbado nesse dia! Ele e a mãe gritaram um com o outro toda a manhã e mesmo a caminho da procissão. Quando chegaram àquele mesmo local, perdeu a paciência e gritou-lhes que se calassem. O pai deu-lhe um estalo com tanta força que quase o fez cair; a mãe ficou rubra e dessa vez não gritou, mas ameaçou alto o suficiente, entre dentes:
—    Se voltas a bater no MEU filho, juro que te mato! Quando estiveres a dormir, sangro-te como a um porco, seu canalha!
A comunhão foi com as lágrimas nos olhos e uma mancha roxa na cara. As únicas duas fotografias que havia da procissão, Xico deu-lhes sumiço, logo que as apanhou à mão.
A mãe não cumpriu a promessa, claro, o pai viveu com eles mais uns meses mas, uma manhã saiu para trabalhar e não tornou. Deixou a mulher grávida, nenhum deles sabia ainda, mas oito meses depois nascia Luísa.
Empurrou a enorme porta de ferro do cemitério, que cedeu com um gemido. Estava aberta, não há perigo dos vivos quererem entrar, nem dos mortos quererem sair.
Não foi difícil encontrar a campa num local tão pequeno. Ali estava a mãe, uns anos mais nova do que se lembrava, mas era ela, sem dúvida. A lápide simples, branca  com letras pretas, anunciava: “Maria da Luz Martinho Soares N:10-11-1963 F:25-2-2008” apenas isso, mais nada. Uma vida inteira resumida a um nome e duas datas gravados numa laje de mármore.
Pousou a mochila no chão, entre duas pedras tumulares e sentou-se acariciando com os olhos cada pormenor daquele rosto agora desaparecido. Pela segunda vez naquele dia, as lágrimas correram no rosto sujo, decorado com a barba por fazer, enquanto o remorso se unia à dor da perda e assaltavam aquele coração empedernido pelas muralhas do egoísmo, que começava a ceder aos poucos.
Recordou momentos que não lembrava há muito. O rosto dela próximo do seu, a ensinar-lhe as primeiras letras, a brincarem no empedrado da cozinha com pequenas figuras toscas de madeira, esculpidas pelo pai. Ela sorria. Ele não se lembrava de a ver sorrir.
Numa oração sem palavras, pediu perdão pelas vezes que a fez sofrer, pela dor que lhe causou, pelas vergonhas que a fez passar… pelas palavras que lhe disse e ela não merecia. Pousou a cabeça nos joelhos e chorou. Chorou pela mãe, pelo pai, pela família que não se conseguiu amar. Chorou por si próprio e pela sua vida desperdiçada.
Quando achou suficiente, ergueu-se e limpou as lágrimas à manga sebosa. Levantou a mochila para o ombro e abandonou os que descansavam para sempre, sem tornar a olhar para trás; aqueles que se foram, não precisam de nada mais de nós, não lhes serve de nada a pena, ou arrependimento, ou mesmo o amor. Muito menos amor, esse, deveria ter-lhes sido dado enquanto caminharam neste mundo.
Retornou a casa, assegurando-se que não era visto ao passar frente à da Maria Alice. O sol desaparecera completamente e o vermelho do céu dera lugar a um cinzento que gradualmente se tornava preto. As luzes da rua estavam já acesas quando chegou à habitação e uma vez mais experimentou as portas até que conseguiu entrar nas traseiras, na “loja” onde há muito tempo não dormia o burro que pertencera ao seu avô. O estômago rugia de fome, mas não queria ver mais ninguém hoje. Com o isqueiro, viu que o pequeno aposento estava transformado numa arrecadação com tralhas de todo o tipo, mas o melhor, era o velho colchão envolto em plástico encostado à parede.
Fez uma pequena fogueira, cercada por pedras, mais para iluminar do que para se aquecer e ali comeu umas sardinhas de lata, acompanhadas de umas bolachas de água e sal e uns golos de água. Era o farnel que lhe ocupava a mochila. Amanhã iria à mercearia comprar mais qualquer coisa, veríamos para o que dava o dinheiro.
Passou uma noite agitada. Os seus “amigos” Pinguinhas e o Vesgo, saíram das sombras para o atormentarem e ele reviveu o pesadelo que foi o último encontro com a dupla.
****
 Quando saía do fétido cubículo, de que se apoderara no bairro do Aleixo e encarou com o Pinguinhas, que parecia mesmo andar à procura de alguém. Assim, que se encararam, passado o espanto inicial, Xico reagiu primeiro e saltou ao pescoço do facínora, que apertou com vontade, enquanto interrogava de dentes cerrados:
—    Que fazes aqui, monte de m**?
—    Ai! Deixa-me! — O outro gemeu apavorado. — Não ando a fazer nada, ia só a passar.
—    Cabrão mentiroso! — O aperto do pescoço foi “enfeitado” com dois sonoros estalos no cachaço. — Que andas aqui a fazer?
—    Nada! Já te disse que ia a passar! — O Pinguinhas começou a chorar. — Só vou visitar uma irmã da minha mãe que vive aqui!
—    Cala-te, filho da p**! Tu não tens mãe, foste escarrado por um lixeiro! — Xico ergueu uma lâmina brilhante ao nível dos olhos da sua vítima. — Diz-me o que andas a fazer ou vazo-te as tripas aqui mesmo!
—    Por favor, Xico! Eu não fiz nada! Viste que era sempre o Vesgo quem te fazia mal!  — Ele soluçava,  desesperado.
—    Quem te mandou aqui! Diz-me, desgraçado! — Perdida a paciência, atirou-o ao chão e pontapeou-o sem dó, por várias vezes. Depois debruçou-se e encostou-lhe a navalha ao pescoço. — Vou cortar-te essa cabeça horrível e pendura-la lá fora.
—    Espera! Não! Espera, não faças isso! — As mãos esbracejavam tentando afastar o agressor, enquanto gritava esganiçadamente. — Foi o Manel Preto! Foi ele que disse ao Vesgo para te virmos buscar! Disse assim: “O ‘panascas' do Xico está escondido no Aleixo. Vão lá buscar o dinheiro que ele me deve pelo ‘trabalho' da ribeira, ou tragam-me o couro dele para esfolar.”
Xico estacou por uns segundos, ainda com a arma a ameaçar o Pinguinhas e depois, num movimento rápido, fez-lhe um corte na palma da mão. Depois presenteou-o com mais dois pontapés.
—    Desaparece-me daqui, monte de m**, antes que te esfole! — Expulsou-o, virando-lhe as costas.
Tão logo ouviu o facínora “correr como se não houvesse amanhã”, lançou-se ele próprio para dentro do cubículo de onde saíra, para pegar nos seus parcos pertences. Se o Vesgo andava por ali, a sua saúde, se não a vida, estava a correr um grande risco.
Com os braços cheios de roupas e cartões, preparava-se para abandonar o edifício quando viu o enorme corpanzil do Vesgo a dirigir-se para ele. Depois do pânico inicial, percebeu que não fora visto e desatou numa corrida pelas escadas acima.






*** Fim da 5ª parte ***


4-O Céu dos Pássaros
6-Começar do zero

segunda-feira, 19 de março de 2018

Uma Casa nas Ruas - 4ª parte


O CÉU DOS PÁSSAROS



Os dias seguintes foram alegres. Durante o dia, pediam umas moedas aqui e ali, roubavam nos cafés as gorjetas e os pagamentos esquecidos e à noite, contavam histórias da prisão ou do abrigo, para espantar o frio. Xico não perdeu o hábito de assaltar os automóveis com objetos à vista e ainda conseguiram algum dinheiro extra, mas sempre de atalaia, não fossem o Vesgo ou o Pinguinhas estarem por perto.

O Passarão não queria andar pela Boavista, com medo de encontrar um dos seus conhecidos do abrigo, que ele abandonara de forma tão ingrata, por isso vagueavam mais pela Foz, ou pela zona da Alfândega, roubando turistas incautos.
Um fim de tarde, nas arcadas da Ribeira, tiveram de se esgueirar pelas ruelas estreitas, para fugirem às vistas do Manco, que “guardava” os carros no parque da Alfândega. Se aquele estava ali, o Manel Preto, ou mesmo o Vesgo, não andariam longe.
Passaram pelas esplanadas interiores e de repente, nas costas de uma cadeira, sem ninguém à vista, ali estava um belo casaco de couro, acompanhado de um avantajado estojo de máquina fotográfica em cima da mesa. Sem um som, Xico olhou em volta, pegou o casaco e entregou o estojo ao Passarão, exibindo um dedo atravessado sobre os lábios, antes do gesto para correr.
Au secours! Des voleurs! — Uma voz masculina ecoou entre as paredes.
Correram como loucos, mas, um homem enorme, de cabelos compridos e óculos de sol, ao estilo do John Lennon, estava quase a apanhar o afogueado Passarão. Este, vendo-se em perigo, atirou com o estojo à cara do turista, que abateu-se desamparado, numa confusão de peças da câmara fotográfica, despedaçada com a queda.
Só pararam a correria, completamente sem fôlego, nas arcadas de Miragaia, onde normalizaram a respiração e avaliaram a “presa”. O casaco era de couro genuíno, mas demasiado grande para Xico, o que foi uma felicidade para o Passarão. Havia porém outra surpresa, a carteira; para além dos cartões de crédito, que seriam vendidos facilmente, tinha quase seiscentos euros em notas. Saíra-lhes a sorte grande!
Disfarçaram cuidadosamente o casaco e caminharam, sem levantar suspeitas, até à mercearia onde habitualmente faziam algumas compras. Vinho, salpicão, pão, batatas fritas, queijo… seria um jantar digno de reis! Xico nem protestou quando o amigo quis incluir um frasco de Nutela, alguns biscoitos e chocolates no rol.
Recolheram ao vão da ponte que habitavam e dedicaram-se a consumir os deliciosos acepipes, que estavam riscados da dieta habitual há demasiado tempo, bem regados com o vinho caro, mas não necessariamente bom. Foi um longo e bem disposto jantar, onde riram da aflição que passaram e da cara do infeliz turista quando a máquina fotográfica lhe bateu e se estatelou no chão.
Os estômagos já estavam saciados e o vinho já lá fermentava, quando Xico resmungou que a câmara fotográfica deveria valer muitos euros e que ali ficou estatelada em mil pedaços. Censurou o amigo, numa voz arrastada, que se ele não fosse tão gordo, correria mais que o palerma do “franciú”.
Enquanto estavam nestas cogitações, ouviram um baque seco ao passar de um automóvel. Na via rápida, logo abaixo deles, uma pomba rebolou pelo asfalto.
Coitadinha! — O Passarão apanhou a ave, que se mexia com dificuldades, com as asas numa posição impossível.
Deixa-a. — Advertiu Xico torcendo o nariz. — Essa já está a meio caminho para o outro lado. Além do mais, ainda podes apanhar alguma doença com isso.
Mas a pobrezinha está ferida…
Está mais morta que viva! Põe-na para aí num canto e  deixa-a morrer sossegada.
Achas que ela vai para o céu, como nós?
Como nós?!? — A gargalhada cínica de Xico ecoou no vão da ponte. — Quem te disse que nós vamos para o céu?
Não vamos? — Os olhos enormes do Passarão abriram-se ainda mais de espanto, fitando o amigo. — Mas o padre Mateus, quando me ensinava a catequese, dizia que íamos todos para o céu.
Devia ser um bom tretas esse teu padre! — Os efeitos da digestão e os vapores do álcool começavam a “pesar” e a deixá-lo sonolento. — Quando o cabrão do anjo da morte nos vier buscar, há-de deixar-nos numa encruzilhada qualquer e a gente que se “desmerde”. De certeza que o céu é como um belo condomínio fechado: quando o porteiro, o São Pedro, vir essas tuas roupas “de marca”, manda-te logo pedir noutra freguesia! Nós somos filhos de um deus menor, meu irmão. O nosso deus não é o mesmo dos bancários ou políticos; nem é o mesmo deus dos “bófias”! Nascemos para enganar e ser enganados a vida toda… depois de morrer, se alguma coisa houver, não há-de muito diferente disto. Os melhores lugares estarão ocupados pelos que chegaram primeiro e esses reservarão os outros para os seus amigos… não haverá sítio para nós.
Traído nas suas convicções mais profundas, Manuel fixou o olhar, sem ver, no trânsito que corria veloz na estrada. Aquilo era algo com que não estava a contar. Aceitava a fome, o frio e os maus tratos; até o facto de não ter uma casa onde dormir, porque sabia que um dia iria para o céu, onde não lhe faltaria nada. As lágrimas sulcavam-lhe o rosto quando perguntou:
Então e esta pomba também não vai para esse céu?
Achas? Pensas que eles querem lá esses ratos com asas a cagar nas estátuas e nas asas dos anjos? Ela deve de ir para algum céu dos pássaros, ou outra merda qualquer. Um sítio onde possam voar à vontade, comer o que encontrarem e cagar onde lhes apetecer… agora deixa-me, que quero dormir.
Xico enrolou-se e puxou o cobertor para cima. Manuel aconchegou a pomba no seu próprio cobertor e afagou-a ternamente. A cabeça da ave tombava e demorava a ganhar forças para se erguer novamente. A única coisa que se movia sempre rápido, era o piscar dos pequenos e assustados olhos que o fitavam. Por fim, a cabeça não se ergueu mais e os olhos pararam de piscar. O bom gigante chorou mansamente, com a testa encostada no chão e a mão pousada sobre o cadáver, como que tentando impedir que o anjo da morte viesse reclamar a pequena alma.

***

Depois do sucesso do furto na Ribeira, a dupla permitiu-se uns dias de menor atividade e, ao mesmo tempo, mudança de ares; não fossem ser reconhecidos pelas margens do Douro.
Vagueavam pelo jardim central da Rotunda da Boavista, com Xico sempre atento às “oportunidades”. O companheiro, brincando com as pombas, mantinha um dos olhos nos caminhos em volta, não fosse aparecer um dos “doutores” para exigir-lhe o dinheiro que  deram para o jornais, que nunca chegaram ao destino.
Manel! — Xico alertou o amigo, colocando-lhe uma mão a impedir o avanço. — Olha ali!
A poucas dezenas de metros, um homem magro de raça negra, cabelo grisalho e barba rala da mesma cor,  atravessava a rua, a partir do centro da rotunda.
É o Manel Preto! — O Passarão reconheceu, assustado.
Que anda esse filho da p** a fazer aqui? Ele quase não sai da Ribeira! — Exclamou Xico olhando rapidamente em em volta. — Não gosto nada disto. Vamos embora!
Puxou o braço do companheiro e aceleraram o passo na direção contrária à do bandido. Contornaram as estruturas das diversões, ali montadas e quase bateram de frente com um magricela de nariz afilado e dentes proeminentes.
Ora vejam só! — Exclamou o recém chegado, com voz fanhosa. — Tone! Ó Tone! Estão aqui!
Cala-te, Pinguinhas do c**! — Exigiu Xico, agarrando o outro pelos colarinhos. — Parto-te os cornos, se o chamas! Foge Manel!
O visado ficou sem saber que direção tomar, enquanto as lágrimas brotavam dos olhos.
De repente, já o Vesgo chegava junto dos três e despachou dois sonoros “cachaços” no pobre Passarão, que chorava agora como uma criança.
Sabes o que me disseram na Ribeira, seu monte de merda? — Perguntou o Vesgo agarrando o cabelo de Xico e abanando-lhe a cabeça violentamente, fazendo-o largar o outro facínora. — Que palmaste seiscentos “paus” a um “franciú”.
Ai! — Gemia a vítima. — É mentira, quem te disse isso?
Terá sido um passarinho, senhor Passarão? — Agora era o Pinguinhas que saltava para chegar e bater no pescoço vermelho do infeliz.
Estás a fazer-me de parvo? — Gritou o bandido, salivando a enorme barba, trocando ainda mais os olhos e sacudindo-o com ainda mais violência. — O casaco do burro do teu amigo de onde veio? É que foste roubar na nossa área, sem autorização e nem sequer deste uma parte ao Manel Preto. Ele já te vai “fazer a folha”! — Tirou um telemóvel do bolso e começou a marcar um número.
Foge, Manel! — Xico atirou o telemóvel ao chão e tentou soltar-se do aperto férreo que lhe segurava o cabelo.
Envolveram-se numa luta, mas Xico, mais franzino, não era adversário para o seu encorpado oponente, que o socou no rosto várias vezes, com violência.
O Passarão, vendo o amigo quase sem sentidos, usou a força que não sabia que tinha e, com um simples empurrão, fez o Pinguinhas voar para o meio da relva e terminar numa grotesca cambalhota invertida. Em dois saltos, estava junto ao surpreendido Vesgo, que foi agraciado com um potente soco, semelhante a um martelo, mesmo no meio dos olhos. O bandido abateu-se como um castelo de cartas.
Recuperando a sua personalidade dócil, o bom gigante ajudou o amigo a erguer-se. Este último, assim que recuperou das pancadas e do espanto, puxou pelo braço do companheiro enquanto gritava um “Vamos depressa!” Correram como loucos enquanto os inimigos se levantavam, atordoados.
Terminado o jardim, havia a rua, com imenso tráfego para atravessar. O Vesgo, vertendo sangue do nariz, estava quase a apanha-los, bufando insultos. Atrás dele corria o Pinguinhas, também de rosto ensanguentado.
Num pânico cego, o Passarão libertou-se da mão de Xico e atirou-se numa desnorteada travessia da estrada. 
Chiar de travagens e estrondos de chapa e vidros contaram o resto da história; Xico assistiu, em choque, ao curto voo do infortunado companheiro, que terminou num baque surdo, como um saco. Caiu de rosto para cima e cabeça ressaltou com força no chão. Bandos de pombas levantaram a um só impulso por todo o jardim.
Gritos de terror e expressões de espanto ouviram-se de vários pontos do jardim e da rua, várias pessoas acorreram à vítima imóvel no chão, mas Xico chegou primeiro. O Vesgo e o Pinguinhas, não querendo ser alvo de atenções indesejadas, desapareceram rapidamente.
Puxou um pouco a cabeça do amigo e pousou-a no nos joelhos. Os olhos estavam raiados de sangue, que também corria fracamente do nariz e da boca. Todo o corpo do gigante tremia, como que acometido de súbita febre.
Que fizeste tu, meu idiota? Porque não esperaste? — Lágrimas corriam no rosto coberto de equimoses de Xico. — Vê o que fizeste!
Xico... — Gemeu fracamente o amigo. — ...achas que vou para o céu?
Não digas isso! Vais mas é para o hospital e eles remendam-te todo, ficas bom num instante!
Eu não quero ir para o céu, Xico! — Também o gigante chorava enquanto tossia espuma rosada. — Não vou para o céu do padre Mateus. — Novo acesso de tosse. — Vou fugir para o céu dos pássaros… achas que me mandam embora de lá...?
As tremuras pararam de repente.
Não meu amigo. — Xico abraçou carinhosamente a cabeça do companheiro, enquanto chorava sem pudor. — Eles não te fariam uma desfeita dessas!
Os dois amigos quedaram-se rodeados por um largo círculo de pessoas, por sua vez cercados pelos automóveis parados nas mais estranhas posições. Por cima das suas cabeças, bandos de pombas esvoaçavam alegremente, umas em volta das outras, como que dando as boas vindas a um amigo há muito esperado.


*** Fim da 4ª parte ***





3-Ausencia Forçada
5-O Regresso

sexta-feira, 16 de março de 2018

Daqueles Além Marão em destaque no Minho Digital



Nova parceria Divulga Escritor


É com muito orgulho que assisto ao lançamento da rubrica "Recanto da Lusofonia" da jornalista Shirley Cavalcante, editora da revista "Divulga Escritor", no semanário "Minho Digital".



"O semanário ”MINHO DIGITAL” é um Órgão de Comunicação Social que visa tratar a informação regional com rigor, objectividade e isenção, no respeito pelos Princípios Deontológicos e a Ética Profissional."

Foi uma bela surpresa que tive hoje, ao ser confrontado com a entrevista que dei sobre o lançamento do meu último livro, "Daqueles além Marão", publicada no "Minho Digital", no âmbito desta nova parceria.


A minha colaboração com a "Divulga Escritor" não tem sido tão frequente quanto eu gostaria que fosse, mas mesmo assim tem sido recompensadora e esta surpresa que me fizeram hoje, só prova o altruísmo que rege a revista e a sua editora.

Shirley Cavalcante

As iniciativas em prol da cultura, mais particularmente da escrita, são sempre bem vindas e esta minha amiga, tem sido incansável nesse percurso. Desde os primeiros números da sua revista que os autores participantes, a qualidade da revista e a variedade de artigos não param de aumentar. Esta ligação que a Shirley criou entre os autores lusófonos, continua a ser reforçada e os textos escritos na poderosa língua de Camões, bem como os seus autores, podem ser lidos e conhecidos livremente em todos os continentes... não estarei muito enganado se disser que nunca houve nada tão abrangente neste campo.

Imparável, o projecto "Divulga Escritor" cria mais um pilar na fabulosa ponte lusófona, com esta colaboração na "Minho Digital", que é apresentada assim:

"O MINHO DIGITAL abraçou a Causa da Cultura da Lusofonia. Semana a semana, no RECANTO DA LUSOFONIA, aqui traremos aos leitores os contributos dos escritores mais conceituados."

E é exactamente isso que a Shirley está a fazer nos últimos anos, ao longo dos já 32 números da revista "Divulga Escritor", que representam cerca de seis anos de árduo trabalho. De resto e para encerrar, deixo que ela se descreva, nas próprias palavras no perfil de Facebook:

"Eu sou uma águia voando, inovando, conquistando seguidores, se tornando referencia, benchmarking e que no momento certo, renova-se, para começar novos voos.
Para Deus sou filha, dedicada iluminada, que brilha, mas não ofusca, só reflete, dando oportunidade de conforto através do amor que tenho dentro de mim, sem tamanho, sem limites, sem fronteiras.... assim sou eu de passagem por este mundo."

E que bela passagem, que ainda está no início!

Senhores e senhoras amantes da palavra escrita, uma forte ovação, de pé!






segunda-feira, 12 de março de 2018

Uma Casa nas Ruas - 3ª parte


AUSÊNCIA FORÇADA



Ninguém reconheceria Xico, naquele homem parado em frente à obra de construção de mais um prédio de apartamentos da cidade: Cabelo curto, calça e blusão de ganga (sem rasgos ou remendos) e sapatos pretos, cansados, mas engraxados. Tudo fornecido pela assistência social da cadeia, claro, pois se ele nada tinha quando o “internaram” há seis meses no presídio, agora pouco melhor estava. Consigo, além da roupa “nova”, apenas tinha cerca de trezentos euros, ganhos a trabalhar na carpintaria da prisão, que era o que restava após as viagens de regresso. Não merecia seis meses por um simples roubo a uma viatura, sucede é que conseguiram provar mais dois assaltos perpetrados por ele, sendo que o primeiro deles, fora durante o período de pena suspensa de uma outra condenação. Nove meses de prisão! Conseguiu sair com dois terços da pena cumprida, por bom comportamento.

A obra que observava, desalentado, erguia-se no local onde vivera vários meses com o seu amigo Manel “Passarão”; a velha ilha, antigo bairro de trabalhadores de uma fábrica já desaparecida. As casas arruinadas, o pequeno casebre onde viviam, o pátio onde tantas vezes comeram e conversaram… tudo se foi. Por onde andará o Passarão?

Começou a caminhar ao longo da rua, a pensar nas suas perspetivas de futuro… não estava preparado para voltar aos vãos de escada ou às ombreiras das portas para dormir. Nas últimas semanas de prisão, já só pensava no pequeno casebre que ele e o passarão limparam e onde viviam como “reis do pátio”, na ilha abandonada, de onde ele correra com alguns companheiros de rua. Não se conseguia imaginar outra vez a arrastar cartões e cobertores por essa cidade fora, a dormir onde calhava.

Olha quem ele é! — Uma inconfundível voz fanhosa fê-lo estremecer e olhar para o lado, a tempo de ver dois homens, um enorme, de careca polida e barba enorme, que lhe chegava ao peito, e o outro enfezado, de nariz adunco e vermelhão. Eram o Vesgo e o inseparável Pinguinhas… e estavam a atravessar a rua na sua direção.

Olá rapazes. Não quero confusões, eh? — Pediu Xico erguendo as mãos abertas à altura dos ombros.

Ah não queres, é? — Vesgo quase encostou o nariz ao dele enquanto lhe dava um soco leve, no estômago. Habituado ao “protocolo”, Pinguinhas colocou-se estrategicamente atrás de Xico e segredou-lhe ao ouvido:

Estás f** pá, vais “mama-las” todas juntas!
Espera lá Vesg… Tone! Tem pena de mim, “meu”, saí ontem da “choldra”! — Xico, intoxicado pelo indescritível hálito, quase tratou o Vesgo pela sua odiada alcunha, o que resultaria certamente numa tareia.
Ah! Então foi aí que te enfiaste, filho de uma p**! Ninguém sabia onde andavas, apanharam-te foi? — O Vesgo soltou uma gargalhada, após o que o mirou de alto abaixo. —  E vens aí todo janota, aposto que tens umas notas contigo. Tu és daqueles que gosta de trabalhar na “choldra” para te pouparem o traseiro.
Os apressados transeuntes que se cruzavam, em ambas as direções da calçada, olhavam para o trio, uns com curiosidade, outros com receio, mas ninguém mostrava vontade de intervir. O comum dos cidadãos não se intromete nos “afazeres” de gente com aspeto de bandido e, a menos que seja muito incomodado, ou humilhado, não se manifesta, por maior que seja a injustiça presenciada. Para ele, as pessoas “mal vestidas”, ou aparentando menos asseio, são praticamente invisíveis, por isso é possível morrer-se num passeio, numa das mais movimentadas artérias da cidade, sem que ninguém dê por isso.
Mostra lá a “guita”! — Exigiu o Vesgo ao mesmo tempo que intrometia a mão, sem cerimónias, por dentro do casaco do outro e extraía a carteira.
Então, Tone. — Xico parecia prestes a chorar. — Custou-me a ganhar isso…
Não te preocupaste com os ganhos do Manco, pois não, seu tinhoso? — Gritou-lhe o Pinguinhas ao ouvido. — Quando roubaste o carro no “pouso” dele, o Manel Preto deu-lhe uma tareia e tirou-lhe o dinheiro todo que ganhou.
Que é isto? — O Vesgo escandalizou-se, erguendo algumas notas de vinte e dez euros. — Cem “paus”? Estás a gozar comigo?
Que queres? — Xico encolheu-se, nervoso. — O gajos pagam cada vez pior!
Deixa-te lá de merdas, pá! — O outro não se deixava enganar. — Tens aí mais escondido! Passas para cá ou tenho que te dar nas ventas?
Com visível sofrimento, Xico tirou uma nota de cinquenta euros, que tinha escondida no cinto e que desapareceu rapidamente a um gesto do Vesgo.
Vês como estás a ficar esperto? — Disse este beliscando com força uma das bochechas da vítima.
Repentinamente, o Pinguinhas passa de um salto ao lado do Vesgo e dá-lhe uma cotovelada antes de se afastar em passo largo. Ambos repararam, do outro lado da rua, a viatura da PSP, parada, de onde dois agentes observavam atentamente.
Safaste-te por agora, “gandulo”. — Ameaçou o Vesgo antes de seguir atrás do amigo, ao mesmo ritmo. — Mas não perdes por esperar. As nossas contas só estão meio saldadas!
Filho da p** — Resmungou Xico, de si para si, enterrando as mãos nos bolsos em fúria e acelerando o passo na direção contrária à dos seus molestadores. — Um dia ides paga-las todas juntas.
Percorreu as ruas dos quarteirões mais próximos, espreitando em todas as reentrâncias e perguntando aos ex companheiros que reconheceu, pelo amigo Passarão; ninguém sabia o que era feito dele. Começava a ficar preocupado.
Sentiu sede, ao passar numa esplanada abrigada por uma arcada, mesmo em frente a uma das faculdades da Universidade do Porto. Várias vezes passara ali, pelo meio das dezenas de estudantes que frequentavam o local, para roubar os pagamentos ou as gorjetas deixadas em cima das mesas. Agora entraria como cliente.
Procurou uma mesa desocupada e sentou-se, começando a procurar algumas notas num dos esconderijos do forro do casaco.
E se eu te pusesse a andar daqui, com dois pontapés nos fundilhos? — Assustado, Xico enfrentou o olhar fulminante do empregado que o mirava com o tabuleiro reluzente debaixo do braço e as mãos na cintura. — Não era bom?
Que é? — Retorquiu, recuperando a calma e a insolência. — Sou um cliente! — Exibiu uma nota de vinte euros. — Tenho dinheiro!
Pois então, o que vai ser? — Quis saber o outro, tirando-lhe a nota da mão com mestria. — Esta é melhor ficar do lado de cá, porque nunca se sabe.
Eh, pá! — Insurgiu-se o ex presidiário. — Vou fazer um pedido e vais ter que me dar o troco!
Mande pois, vossa excelência! — O empregado sorriu do seu próprio desplante.
Quero uma cerveja!
Uma cerveja! E ainda são 11 horas da manhã! Não será melhor comer qualquer coisita? — Estava a tornar-se impertinente, a gozar a oportunidade, enquanto erguia a nota no ar. — Quanto mais gastares daqui, menor será a minha gorjeta.
Gorjeta!?! — Xico não aguentou mais. — Quem te disse que ias ter gorjeta?
Digo-to eu. Quem tem “o guito” na mão? — A nota continuava erguida no ar. — Vais dar-me uma parte do que me tens roubado, quer queiras quer não! Trago alguma coisa de comer? Olha que bebes uma cerveja por vinte euros!
P** que pariu! — Gemeu. — Mas hoje só me saem ladrões?
Eh, lá! Aqui o único gatuno é tu, ouviste, bandalho? Roubaste já aqui muito dinheiro, basta-me chamar o patrão e levas um “enxerto de porradas” que nem te seguras nas pernas! — O homem perdeu o ar de gozo e insistiu ameaçadoramente: — Vais comer alguma coisa ou não?
F**! — Rendeu-se, coçando a cabeça exasperado. — Traz-me um prego em prato!
Sem se dar ao trabalho de responder, o empregado fez uma elegante rotação e caminhou em passos largos para o interior do café.
Xico revolveu os bolsos e os esconderijos e contou, disfarçadamente, o dinheiro que lhe restava… estava quase sem nada! “Cento e cinquenta para o “boi” do Vesgo e agora vinte para este chupista! Estou tramado.” — Lamentou-se.
O prato foi pousado com delicadeza sobre a mesa, logo seguido pela cerveja, o copo e os talheres. O ex presidiário olhou para o empregado, ressentido. Este devolveu-lhe um sorriso trocista, pousou uma nota de cinco euros na mesa e piscou-lhe o olho, sem deixar de sorrir, antes de rodar e afastar-se novamente.
Espera! — Pediu Xico, visivelmente mais satisfeito por reaver uma parte do dinheiro.
Que queres? — O outro mostrou-se enfastiado. — Não penses, com isto, que vamos ficar amigos!
Por acaso viste por aí o meu amigo? Aquele gordo, de cabeça pequenina…
Aquele meio tolinho que costumava ajudar as velhas com as compras?
Esse mesmo! — Sorriu esperançado. — Viste-o?
Já não o vejo há um ou dois meses. Mas ouvi por aí que arranjaram-lhe lugar numa instituição, ali para os lados da Rotunda da Boavista, mas não sei o nome. Vá, come que eu tenho de trabalhar, bom apetite.
— Obrigado! — Atirou, antes de se lançar com vontade à refeição. Afinal ainda havia gente boa neste mundo…
Três dias se passaram desde o seu regresso à liberdade. Com muito custo, não teve alternativa senão retornar à vida nas ruas. Para evitar os conflitos por um vão de escada ou um umbral de uma casa comercial, acabou debaixo de uma ponte na via rápida. Os cobertores que lhe deram na ajuda de rua e os cartões de um frigorífico que achou no lixo, estavam seguros naquele local abrigado dos ventos e dos olhares cobiçosos.
Durante todo o tempo livre (aquele em que não estava a praticar pequenos furtos, a mendigar ou a rebuscar o lixo) aproveitava para “passear” a rotunda da Boavista, na esperança de ver o Passarão… mas sem sucesso. Não queria acreditar como tinha saudades daquele gigante acriançado. Estava desanimado… faltava-lhe a força de antigamente, não queria entrar em conflitos nem em “atividades” que o levassem de novo para a cadeia e começou a lembrar-se da aldeia que deixara para trás há uma eternidade. “A mãe ainda seria viva? Como o receberia? Às pedradas, na certa! Mas se calhar, lá até se conseguiria arranjar um trabalhito… nada que cansasse muito, claro. Se bem que, todo o trabalho por lá é pesadíssimo.”
De repente, ali estava ele! O Passarão, envergando umas sapatilhas gastas e um fato de treino, que nem estava rasgado. Atravessava a rua, com alguns jornais debaixo do braço e Xico deixou-se ficar a observar o amigo, que corria para o jardim do centro da rotunda. Onde ele próprio se encontrava sentado num dos bancos. Manel imobilizou-se a alguns metros e pousou os jornais, cuidadosamente dobrados e cintados, noutro banco. Dirigiu-se depois para uma grupo de pombas, que começara a pousar perto e atirou uma mão cheia de algo, atraindo imediatamente outro bando. Todas se empurravam e bicavam pela sua porção. Em seguida, estendeu ambas as mãos abertas, com as palmas para cima e algumas das aves pousaram nos improvisados poleiros, começando a debicar o alimento que sabiam encontrar-se ali. Não demonstravam qualquer receio daquele personagem.
Ostentando uma expressão feliz, o homem a quem chamavam Passarão, rodava lentamente sobre ele próprio, mantendo as “passageiras” a alimentarem-se nas suas mãos.
Acabado o alimento, foi como se costuma dizer: “merenda comida, companhia desfeita” e as aves levantaram voo, quase em simultâneo em todas as direções. 
Rindo, feliz, começou uma corrida, de braços abertos, numa patética tentativa de voar, em volta das pombas, que levantavam assarapantadas, para pousarem logo de seguida, habituadas que estavam ao comportamento excêntrico do seu benfeitor. Numa das suas evoluções, o homem passou perto do banco onde encontrava encostado o seu observador.
Olá Passarão. — Saudou Xico.
Ele estacou, entre a surpresa e o receio daquele que perturbara “o seu voo”, mirando-o com os seus olhos redondos e brilhantes. Decorridos uns segundos, um lampejo de reconhecimento iluminou-lhe o rosto:
Xico!!!! — Gritou enquanto o apertava num abraço capaz de partir costelas. — Há tanto que não te via!
Eh, calma lá com as saudades! — Exclamou o outro, sem no entanto o sacudir violentamente, como fazia antes, nem perder o sorriso.
Que tens andado a fazer? — Havia lágrimas nos olhos do enorme homem. — Pensei que te tinhas ido embora de vez!
Ora… — Xico hesitou. — Tive um pequeno percalço, mas já lá vai. Agora voltei para as nossas “jantaradas” noturnas, no nosso pátio…
O nosso pátio já não há… — O Passarão fez uma expressão triste. — Estive muito tempo sozinho, tu não vinhas… Depois uma manhã apareceram lá uns gajos com capacetes brancos e disseram que eu tinha que arranjar outro poiso, que aquilo ia tudo abaixo.
Deixa lá, não te apoquentes! — Sossegou-o o amigo. — Vamos arranjar outro sítio.
Não posso. Agora estou a viver no alojamento!
Passarão contou ao companheiro tudo o que acontecera desde que ele se fora. Como vagueou pelas ruas sem arranjar onde dormir e escorraçado dos cantos onde se tentou alojar, ocupados por outros com necessidades semelhantes. Por fim, encontrou um jovem voluntário dum abrigo que lhe arranjou cama, roupa e comida.
Mostrou-lhe, com orgulho indisfarçável, as sapatilhas “novas” e explicou que saía sozinho todos os dias, para comprar os jornais para os “doutores” no escritório.
Então não queres vir comigo? — O amigo perguntou-lhe. — Preferes ficar com os “doutores do escritório”? — Entoou com certo escárnio.
Não vês? — Ele fez uma careta de tristeza. — Lá tratam-me bem, dão-me de comer, tenho uma cama só para mim, tomo banho, mudo de roupa todos os dias…
Claro, por tudo isso, trocas o teu amigo. — Xico mostrou todo o desagrado enquanto levantava a voz. — Não sou teu amigo, eu? Não partilhávamos tudo? Não éramos os reis do nosso pátio? Tínhamos aquela ilha inteira só para nós!
Mas, Xico, já não há pátio! Agora só as entradas das lojas e dos escritórios e já estão ocupadas! O “Zé Rameloso” bateu-me quando me deitei na porta ao lado da dele. O Vesgo e o Pinguinhas roubavam-me tudo e davam-me “cachaçadas”. Foi o doutor Tomé que lhes deu uma corrida e eles nunca mais me chatearam.
Desanimado, o outro mirou-o, num olhar trémulo e brilhante; havia um rio a querer soltar-se dele.
Está bem. — Anuiu numa voz estrangulada, antes de lhe voltar as costas e começar a caminhar. — Vai lá para os teus doutores e para a tua comida e cama quentinhas. Eu volto para o meu vão da ponte. Pela noite, também conseguirei algo de comer na ajuda de rua.
Havia um enorme nó na garganta do Manel, que todos conheciam por Passarão e as lágrimas irromperam livremente sobre as bochechas carnudas e rosadas.
Espera! — Gritou ao amigo, antes de iniciar uma corrida e o agarrar com força. — Espera, eu vou contigo!
Uma vez, mais, contra a sua natureza, Xico não pontapeou o amigo, nem o nem o sacudiu, antes deixou-se apertar, enquanto limpava uma lágrima teimosa.
Tiveram ainda uma pequena discussão sobre a devolução do troco dos jornais aos “doutores”, mas também aí prevaleceu a opinião do Xico.
Acabaram no café mais próximo a beber umas “minis”.


*** Fim da 3ª parte ***




2-Pouca Sorte
4-O Céu dos Pássaros

segunda-feira, 5 de março de 2018

Uma Casa nas Ruas - 2ª parte


POUCA SORTE



As entradas escancaradas, alinhadas com as aberturas que em tempos tiveram vidros, pareciam rostos tristes condenados à demolição, tão logo um “alto senhor” na Câmara Municipal “lavrasse a sentença”. Mas para já era a casa dele, o refugio do frio que lhe mordia os ossos e da chuva que lhe ensopava a alma.

Xico nem sempre vivera assim. Em tempos, teve um emprego numa empresa de segurança, logo depois de sair da tropa, mas a sua atração pelas coisas que não lhe pertenciam, levou-o à perdição. Foi despedido, apanhou uns meses de cadeia e, o pouco que tinha conseguido juntar, evaporou-se num ápice. Nem pensar em procurar pela mãe, de quem já não sabia há anos, na longínqua aldeia beirã. Na certa chamar-lhe-ia quantos nomes se lembrasse e ainda lhe atiraria com o que tivesse à mão. As tendências para “amigo do alheio” herdara-as do pai, falecido quando ainda era criança e não da mãe, que era pobre, mas honesta. Agora vivia por aqui e por ali, deitando a mão ao que podia e a verdade, é que se habituara rápido a não ter que dar satisfações a ninguém e a não ter horários para fazer o que quisesse. A chatice, eram a fome e o frio que o mordiam demasiadas vezes…

Abancou-se na única casa que não tinha silvados e aparentava ser ocupada por alguém. Lá dentro havia uma miserável desculpa para cama, na forma de um amontoado de cobertores em cima de um colchão velho e várias pilhas de tralha encostadas às paredes. Depositou as suas coisas a um canto, depois de arrastar um enorme saco de plástico cheio de latas de refrigerantes vazias.

Preparava-se para sair novamente quando ouviu o latido nervoso de um cão. Logo de seguida, entrou pela arruinada porta de acesso ao pátio, um homem enorme “arrastando”, na ponta de uma corda, um vira-lata que se debatia. Era o Manel Passarão e mais um dos seus eternos cães renitentes, que insistia em adotar, mesmo contra a vontade do canídeo. O apelido de Passarão era obra do Xico, porque o homem passava a vida a dar de comer às pombas e a correr à volta do pátio a bater “as asas”. À medida que o tempo foi passando, tornou-se mais calmo e a sua fixação voltou-se para os cães vadios que apanhava e tornava seus. Era um “gigante” acriançado, de quem todos abusavam, até se juntar a Xico. Este nunca fez nada muito importante para o defender, mas a sua presença parecia bastar e gradualmente, de forma mais ou menos violenta, foi expulsando todos os outros “inquilinos” da ilha abandonada.

Assim, que notou o visitante, Manel fez um movimento, como se fosse fugir do pátio, mas então reconheceu o seu hóspede:
És tu, Xico?
Não, é o Papa! — Respondeu o visado, sem um sorriso.
Que foi que te fiz? Porque estás a falar comigo assim? — O homem, com a barba crescida de vários dias, fez beicinho e deixou cair os braços ao longo do corpo.
Deixa-te de “xonices”, “Passarão”! Já sabes que não quero cá pieguices, não achas que és demasiado grande para isso?
Julguei que eras meu amigo…
Se não fosse teu amigo, já te tinha espetado daqui para fora com um chuto nesse teu traseiro descomunal!
Amuado, Manel arrastou o cão, que lutava com a corda, até  um ferro preso na parede, onde o amarrou.
Estiveram aqui o Vesgo e o Pinguinhas à tua procura! — Anunciou enquanto se debatia para fazer um nó na corda que fazia as vezes de trela. — Bateram-me por tua causa!
Porque achas que tive que desaparecer estes dias todos?
O Vesgo disse que, se te apanhasse a roubar carros naquela rua outra vez, te desancava.
Ele que se vá encher de pulgas! Um carro com o vidro aberto, que é que ele queria?!? Está chateado é por não ter visto primeiro! Quantos carros não “gamou” já e deitou as culpas aos outros. Recebe as moedas por arrumar os carros numa rua e vai roubar os carros noutra. É um bom filho da ….
Queriam que lhes dissesse onde andavas.
Ainda bem, que não sabias, vês? — Sorriu satisfeito.
Manel não respondeu e sentou-se no chão, olhando-o, ressentido.
Tens alguma coisa para comer? — Xico mudou a conversa.
Tenho umas latas de sardinhas e uns pães, que me deu a velha que ajudei a levar as compras. — O homem ergueu-se de um salto, esquecido o agravo. — E uns iogurtes que me deram na ajuda de rua!
Vai lá buscar, estou com uma “larica” que “nem é bom”! Vai lá, enquanto eu faço uma fogueira, a ver se espantamos o frio.
O “Passarão” desapareceu a correr no interior do casebre e regressou uns minutos depois, com um saco de papel, e uma tábua por bandeja, que pousou na pedra que muitas vezes lhes serviu de mesa. Depois correu novamente e reapareceu com duas garrafas verdes, que exibiu, triunfante:
Xico! Topa-me lá esta maravilha!
Gaita, homem! Que é isso? — Espantou-se o visado.
O Ferreira, do supermercado, sabes? Ajudei-o a arrumar umas paletes e caíram umas caixas de vinho. Só se aproveitaram quatro garrafas. Ele disse-me que não dissesse nada, ficou com duas e deu-me outras duas.
Ora vejam só! — Xico não queria acreditar na sorte do companheiro. — Parece que não te tens dado nada mal, não senhor!
O frugal almoço, doado pela velha, desapareceu num ápice. Comeram os iogurtes da assistência e duas metades de Bolas de Berlim roubadas na esplanada. Depois deixaram-se ficar ali, a fumar os cigarros roubados ao Barbas e a acabar as garrafas do supermercado.
O discurso de Xico tornava-se mais inflamado, a cada golo da garrafa que estava quase no fim. Contou ao companheiro, num grau crescente de fúria, tudo o que se passara nas últimas duas semanas; os problemas com os outros sem abrigo, para ter onde dormir e as “injustiças” da dona Amélia da limpeza. Finalmente, falou da raiva que sentiu por saber que o Barbas vai acabar por morrer naquele buraco nojento e ficar vários dias a apodrecer, até que alguém dê por ele.
Porque é que o mundo é assim? Uns com tudo e outros sem nada! — Escorreu a última gota e mirou a garrafa ainda meia do companheiro, que já se ria por tudo e por nada. — Dá cá essa porcaria, nem para beber serves! — Exigiu, tirando-lha das mãos abruptamente.
Porque é que és assim? — O outro riu-se, apesar da brutalidade. — Se tivesses pedido, eu dava-ta! Também, acho que se beber mais, deito tudo cá para fora.
Porque é que TU, és assim?!? Pergunto eu! — Xico ergueu-se e atirou a garrafa vazia, numa rasante da cabeça do companheiro, estilhaçando-se ruidosamente no chão empedrado.
Manel caiu, da pedra onde estava sentado, ao esquivar-se do míssil e ficou de costas no chão a rir-se, para uma maior fúria do outro.
Não passas de um idiota! És um burro, um pateta alegre e todos te dão umas porcarias e tu ficas feliz… sempre! — Xico estava cada vez mais furioso, os vapores do álcool a embotar-lhe o juízo. — Eu, para conseguir alguma coisa, tenho que trabalhar no duro… ou roubar!
Percebendo finalmente a fúria e frustração que dominava o amigo, Manel parou de rir, aproximou-se e consolou-o, pousando-lhe a mão no ombro:
Não importa! O que me derem a mim, também dará para ti. Não somos amigos?
Deixa-te de m… pá! — Ele sacudiu-lhe o braço com violência. — Não quero a tua piedade! Queres partilhar as coisas, é?!? Esse casaco apertadíssimo que tens vestido, dá-mo! Dá-mo já!
O outro olhou tristemente para o casaco antes de comentar:
Eu gosto deste casaco, foi um doutor do banco que mo deu!
Raios partam! Vês o que te digo? — Estilhaçou a segunda garrafa, ainda com algum vinho, no chão. — Dá-mo já! Passa para cá essa porcaria.
Como ele demorasse a reagir, Xico partiu para a violência e com alguns socos nos braços, obrigou o companheiro a tirar e entregar-lhe o casaco.
Com lágrimas nos olhos, o “Passarão” assistiu ao ar de triunfo do outro, que atirou o seu próprio casaco para o chão, em cima da mancha púrpura de vinho, enquanto envergava a nova aquisição.
Então? Que achas? Fica-me bem, não fica? Pareço um artista de cinema! - Troçava Xico, radiante do seu feito. — Não pareço já o “teu doutor”?
Sem lhe responder e com lágrimas a correr no rosto bonacheirão, Manel fez o gesto de apanhar o outro casaco abandonado no chão.
Eh lá! Que é lá isso? — Xico apanhou-o antes do companheiro. — Isto é meu!
Mas… tu tiraste-me o… — O rosto dele, onde as lágrimas deixavam linhas verticais sulcadas na sujidade, era uma máscara de incredulidade.
A vida é injusta, colega! Vai catar para aí outro, arranja um papalvo qualquer que te dê! Não te dão tudo? — E com esta pergunta, arremessou o velho casaco para a fogueira.
Cedendo ao peso da injustiça, Manel irrompeu num pranto soluçante e correu para o interior do casebre que lhe servia de lar.
Xico, embalado no efeito do álcool e na excitação da enormidade do que havia feito, saiu para a rua, vagueando sem destino. Levou ainda muito tempo, para que o peso do remorso se fizesse sentir e começasse a pensar que o companheiro não merecia tal tratamento.
Começava a anoitecer e ele, a caminhar por uma rua secundária, olhava atentamente para o interior dos estabelecimentos e para os carros estacionados. Por fim, a sua busca foi recompensada; um casaco abandonado no assento traseiro de um automóvel… fechado. Olhou em volta, para se certificar que não havia ninguém por perto e tirou de uma bota um pequeno martelo plástico com  ponta de metal, que “palmara” num autocarro há algum tempo. Partiu o vidro traseiro e desatou a correr com a presa debaixo do braço.
Já longe, remexeu nos bolsos do saque, achou um molho de chaves e uma carteira, que aliviou de umas quantas notas, antes de a atirar para o balde do lixo. “Está feito, —  Pensou. — está aqui um casaco catita para o “Passarão” e dinheiro para o jantar… bem, ele não precisa de jantar, está bem gordo…
Saiu do beco e entrou numa pequena tasca em frente.
Que andas aqui a fazer, Xico? — O homem careca e baixo, mas entroncado, materializou-se ao pé dele, assim que se sentou numa das poucas mesas vagas. — Não vens armar confusão, pois não? Tens dinheiro, ou ponho-te já lá fora?
Eh, senhor Fernando! Que antipatia! — Fingiu-se ofendido e escarneceu de imediato. — Claro que tenho dinheiro, senão, não entraria neste estabelecimento de luxo.
Bem, vais mesmo para a rua! — Concluiu o outro arregaçando as mangas e pegando-o por um braço.
Não, espere! Estava a brincar! Tenho dinheiro, veja. — Exibiu as notas. — Só venho comer uma “sandocha” de presunto e beber um “tintito”.
Já apanhaste algum desprevenido não foi? — Fernando sabia bem quem ele era e não resistiu a comentar, antes de dar meia volta para ir aviar o pedido. Alguns dos clientes olharam o recém chegado com sobranceria.
Duas bem aviadas sandes de presunto e quatro copos de maduro tinto depois, já todos os vestígios de remorsos estavam diluídos. Recostou-se na cadeira de madeira, o mais cómodo que conseguiu, para ver as notícias que passavam no telejornal. Foi então confrontado com os resultados do concurso do Euromilhões. A tremer, assistiu à exibição de cada um dos “seus” números; lá estavam o 13 da sexta em que se encontravam, o 3 e o 5 da sua data de nascimento, o 31 e o 32 da sua idade… estava rico!!!! Febrilmente, começou a vasculhar os bolsos em busca do talão que furtou ao Barbas, cada vez mais ansioso. Até que, de repente, recordou-se! Estava no bolso do casaco que atirou para a fogueira!
— Demónios dos infernos!!!! — Gritou, assustando toda a gente na atarracada taberna. — P… de sorte a minha! Sacanas malditos, deram-me a sorte quando sabiam que não podia ser minha!!!! Só podem estar a gozar comigo!
Continuou as imprecações atirando com tudo o que estava em cima da mesa para o chão e derrubando as cadeiras vazias à sua volta.
— Já sabia que ias acabar por dar problemas, meu animal! — Gritou-lhe Fernando, agarrando-o pelos colarinhos. — Andor daqui para fora imediatamente e se tornas a cá por “as patas”, dou-te uma tareia que nunca mais te levantas!
O pequeno, mas robusto homem, arrastou literalmente Xico para a porta de onde o chutou para a rua.
— Espera, não! — Protestou o vagabundo sem qualquer resultado. — Não percebe? Foi sem querer! Desculpe! — Caiu pesadamente sobre as mãos e sentou-se, desanimado, vendo o tasqueiro regressar ao “covil”. — E o dinheiro que estava na mesa? E o meu casaco?
A resposta foi dada por dois casacos que saíram a voar pela porta, contra a cara do infeliz que agora se levantava.
Queres o dinheiro, filho da p…? — Gritou-lhe o taberneiro de dentro do estabelecimento. — Vens cá amanhã, quando te passar a borracheira, depois vemos quanto sobra da porcaria toda que partiste aqui!
Não posso acreditar! — Gemeu Xico, quase a chorar, enquanto vestia o seu casaco e dobrava o que levaria para o “Passarão”. — Que filha da p… de sexta feira 13. Tive a fortuna na mão e deitei-a ao lume… tive algum dinheiro e o cabrão do taberneiro ficou com ele… maldita sexta feira 13…
Está ali, senhor guarda! — Ouviu uma voz atrás dele. — Foi aquele que me partiu o vidro do carro, ainda tem o meu casaco debaixo do braço!


*** Fim da 2ª parte ***

1-Oportunista
3-Ausência Forçada