Debaixo dos Céus Os Mundos de Manuel Amaro Mendonça

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

O Natal de Miriam




— Mãe? O que é o Natal?
A mulher, que preparava alguns legumes, sobre a mesa, olhou para baixo, para a filha, com cerca de sete anos. De seguida olhou para o marido, Josh, que se debatia com uma agulha, a coser uma peça de couro. Este devolveu-lhe a mirada, com uma expressão enfastiada, como que percebendo o que vinha por aí.
— Nunca ouviste essa palavra, Miriam? — A mãe sentou-se num bloco de madeira, junto à lareira que crepitava e iluminava-lhe o rosto em tons de dourado.
Percebendo que aquele era o prenuncio de uma das fantásticas histórias da sua progenitora, a criança aconchegou-se no colo dela.
— Não. Apenas agora, quando a disseste. — Os enormes olhos da criança reluziam, expectantes. — Festejar o Natal? É uma festa, então.
O irmão da criança, pouco mais velho, interrompeu as suas brincadeiras e veio sentar-se junto deles.
— Já vi que hoje, vamos comer tarde… — Resmungou Josh, quase de si para si. — Podias deixar essas crendices para depois, Yara.
— Sim, é uma festa. Uma festa de aniversário. — A mulher ignorou o esposo, enquanto começava. — Há muitos, muitos anos atrás, numa terra, muito, muito longe, chamada Belém, nasceu uma criança. Era, porém, uma criança muito especial.
— Porquê? — Os enormes olhos de Miriam estavam fitos no rosto da mãe.
— O povo dessa criança, estava a sofrer muito, com uns homens chamados romanos. Eles estavam a escravizá-los e havia uma lenda que dizia que ia nascer um rei, que iria expulsar esses homens.
 — Ora! — Romi, o mais velho dos filhos criticou. — Se ia nascer ainda, bem podiam esperar que ele se tornasse rei. Já estariam todos velhos! E os romanos podiam matá-lo logo que nascesse, ou à mãe do rei.
— O problema, — Yara continuou, imperturbável. — era que ninguém sabia quem seria a mãe, nem onde nasceria esse rei. Mas as pessoas esperavam-no e desejavam muito a sua vinda.
— E quem eram os pais desse rei? — A curiosidade insaciável de Miriam não dava tempo para explicar.
— Ninguém sabia, como eu disse, mas foram escolhidas duas pessoas humildes, com poucos haveres, que viviam numa região chamada Nazaré.
— Humildes?!? Poucos haveres?!? — Romi não conseguia acreditar. — Um rei não nasce de pessoas assim! Quem os escolheu?
— Quando a mulher engravidou, veio um anjo, que lhe disse que iria trazer ao mundo um rei. — A mãe continuou pacientemente. — O casal escolhido era Miriam e Joshua.
— Como eu e o papá! — A menina estava felicíssima.
— Que é um anjo? — O rapaz estava interessado noutros temas.
— Anjos, são seres de luz, que habitam noutra dimensão. Sós os vemos, se eles quiserem.
— Yara. — Josh censurou, sem, no entanto, deixar o trabalho. — Vais assustar as crianças.
— Não fazem mal a ninguém. — A mãe sossegou-os. — São mensageiros do Senhor dos Céus e foi Ele, quem escolheu e mandou o anjo avisar Miriam.
— Não foi muito esperto, esse Senhor dos Céus. — Afirmou Romi com desdém. — Se escolhesse alguém rico e poderoso, era muito mais fácil para o rei.
Josh e Yara olharam-se rapidamente e riram-se do comentário.
— Tens razão, meu filho. — Concordou a mãe. — Mas Ele preferiu alguém que não estivesse habituado a uma vida boa e sem dificuldades. Queria alguém que não sentisse falta dos luxos e andasse entre os pobres e doentes a consolá-los e a ver o que precisavam. Este, não seria um rei que comanda exércitos, mas o rei do amor e da compaixão.
— Então! — O rapaz ficou perplexo. — Eles não queriam um rei para lutar contra os romanicos?
— Romanos! — Yara corrigiu, sorrindo. — Sim, queriam, mas o Senhor dos Céus achou que eles precisavam era de amor e compaixão, numa altura em que se morria por qualquer coisa e os homens lutavam por tudo e por nada.
— Iiihh! Eles vão ficar zangados! — Concluiu Romi.
— Sim, ficaram, mas isso é outra história e agora estamos a contar a história do Natal. — A mãe teve de cortar as perguntas para poder continuar. — Um dia, Joshua e Miriam, tiveram de ir à cidade grande, Belém, porque tinham de resolver uns problemas lá e foram muito preocupados, porque a criança estava quase a nascer. Mesmo assim, fizeram a longa viagem entre as duas terras, naquele tempo andava-se quase sempre a pé e quando chegaram lá, já era de noite e não arranjavam um sítio para dormir. Andaram de porta, em porta, mas ninguém os ajudava e acabaram por sair da cidade, onde encontraram um barracão de uns pastores para ficar.
As duas crianças estavam penduradas das palavras da mãe, de olhos vivos e atentos.
— Foi assim que o rei dos homens nasceu. Num monte de palha, dentro de uma barraca de pastores, aquecido pelo bafo dos animais que lá se abrigavam. Chamaram-lhe Yeshua. — Não se ouvia um ruído, enquanto ela continuava a narrativa. — Passado algum tempo, começaram a chegar pastores e alguns agricultores com roupa e comida, que ofereceram ao casal e ao recém-nascido. Por fim, até uns reis, vindos de terras distantes, trouxeram prendas valiosas que lhes ofereceram também.
— Como é que essa gente soube? — Miriam estranhou. — Se eram pobres e ninguém sabia que estavam para ali?
— O Senhor dos Céus mandou um anjo avisar as pessoas em volta. E os reis que vinham de longe, já há vários dias seguiam uma enorme estrela brilhante, que atravessava o céu e pareceu parar exatamente por cima do barracão. Todos souberam que aquela criança iria ser muito importante na história da humanidade. Desde essa altura e por muitos, muitos anos, neste dia, o do nascimento de Yeshua, as pessoas davam prendas umas às outras para lembrar o nascimento desse grande rei. Por isso, hoje também vocês vão receber uma prenda. — Dito isso, ergueu-se e presenteou ambas as crianças com um pequeno prato com duas fatias de pão com mel, sorrindo de satisfação perante a alegria deles. — Até o resmungão do vosso pai tem. — Ela apresentou a mesma iguaria ao homem, que pousou imediatamente o trabalho.
— Onde arranjaste isto? — Quis saber o esposo, por entre gulosas dentadas.
— Parece que finalmente, a colmeia que o nosso vizinho tantos se tem esforçado para recuperar, está a ter resultado. — Também Yara se deliciava com o petisco. — Finalmente as pequeninas abelhas se estão a adaptar à atmosfera e a produzir esta doçura.
— Porque é que agora não se festeja o Natal, mãe? E não se fala do rei Yeshua? — Miriam havia devorado a sua porção e estava pronta para mais perguntas.
— Os homens foram-se esquecendo destas histórias e preocuparam-se com outras coisas. — O rosto da mãe era triste. — Durante algum tempo, diziam até, que Yeshua era o culpado das coisas más que lhes aconteciam e que eram apenas consequências das ações deles. Mas isso não interessa agora, mas sim que devemos lembrar que todos os anos, neste dia, é como se Yeshua nascesse outra vez e os pecados dos homens são perdoados.
Como um raio, Miriam correu porta fora e perscrutou avidamente o céu, em busca da estrela brilhante que assinalaria o local onde nascia Yeshua. A abóboda celeste estava imperturbável, continuava coberta de pequenos pontos brilhantes onde, a espaços, um risco veloz aparecia e desaparecia. Sentindo-se um pouco desiludida, sentou-se na entrada da porta. Quem sabe, a estrela ainda apareça, para lhe indicar o caminho. Talvez estivesse, ainda escondida, por trás de uma das três enormes luas, quase alinhadas, que lhe iluminavam a noite.


quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Pentautores - Cinco Maneiras de Contar Histórias


Num sábado de inverno, fez no dia 19 de novembro, três anos, um grupo de cinco contadores de histórias, reuniu-se na Póvoa de Lanhoso. Os seus elementos, estavam decididos conhecerem-se pessoalmente e conversarem sobre o amor que os unia: a escrita.

Durante um almoço bem disposto, alguém atirou "para o ar" um desafio: "E se escrevêssemos um livro, nós os cinco?" Se bem o pensaram, melhor o fizeram e seis meses depois (não, não foram nove), nascia "Antes Quebrar Que Torcer": quase 250 páginas de interpretações do tema As Invasões Francesas no Norte de Portugal, em 1809.

Passaram-se dois anos e meio, desde esse lançamento inicial e já há nova obra nas bancas: "Além", palavra vaga e aberta às mais diversas interpretações, que deu rédea solta aos nossos autores, durante 265 páginas.

Depois de obra feita e um sentimento de pertença a este grupo cada vez mais coeso, não podíamos deixar de pensar, que se impunha a criação de um símbolo, um emblema, que nos representasse.

Depois de analisar vários formatos e imagens, a escolha caiu sobre este aqui exibido.

Engana-se, quem pensar que se trata de uma imagem avulsa, sem qualquer significado. A fonte escolhida, é semelhante ao tipo da máquina de escrever, para lembrar outros tempos, mais manuais e menos digitais.

Pentautores, porque somos cinco, assim como os dedos da mão: todos diferentes, mas com um interesse comum.

A mão aberta, oferece uma caneta, porque é com a caneta que se escrevem as histórias.

Como disse um dia Virginia Wolf: "Escrever é que é o verdadeiro prazer; ser lido é um prazer superficial".


As obras do grupo Pentautores:

Além - Outubro 2019


Antes Quebrar Que Torcer - Maio 2017

Futuramente teremos outros!



Os Pentautores, em 19 de novembro de 2016.
 Da esquerda para a direita:




segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Nova antologia Sui Generis - Bendita Manjedoura



Mais uma participação em antologias. Desta vez sob o tema do Natal, foi incluído um conto inédito "O Natal de Miriam".

De: SUI GENERIS
Date: sábado, 12/10/2019 à(s) 12:12
Subject: BEN 007 - Manuel Amaro Mendonça - 1 Texto
To: Manuel Amaro Mendonça


Bom dia, Manuel Amaro Mendonça.

Obrigado pela submissão do seu texto com o título
O NATAL DE MIRIAM

à antologia «BENDITA MANJEDOURA!».

Recebemos o seu ficheiro em perfeitas condições.
O envio de qualquer texto para este projecto literário pressupõe conhecimento e aceitação de todos os pontos do Regulamento, que se encontra disponível neste endereço:


Se ainda tiver alguma dúvida, faça o favor de esclarecê-la. Estamos disponíveis para responder a qualquer questão.

Todos os textos recepcionados neste email serão submetidos ao processo de selecção para a antologia «BENDITA MANJEDOURA!» e o resultado da selecção será divulgado (de acordo com o Ponto 5 do Regulamento) no prazo de duas semanas após a data limite para recepção dos trabalhos. Recordamos que este projecto colectivo é uma Antologia Sui Generis, organizada e coordenada por Isidro Sousa, responsável pela Colecção Sui Generis, e o livro será editado com a chancela Euedito.

Daremos notícias durante todo o processo de selecção.

Estaremos em permanente contacto com todos os autores participantes. Poderá acompanhar-nos através das redes sociais, das nossas páginas no Facebook, do blogue Edições Sui Generis e dos grupos «BENDITA MANJEDOURA!», «LETRAS SUI GENERIS» e «ISIDRO SOUSA E AUTORES».

Resta-me enviar-lhe um grande abraço.

E seja bem-vindo a este trabalho colectivo!

Isidro Sousa
BENDITA MANJEDOURA!








quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Além - Novo projeto, para os mesmos autores

Depois de "Antes Quebrar que Torcer", Ana Paula Barbosa, Carlos Arinto, Jorge Santos, Manuel Amaro Mendonça e Suzete Fraga, resolvem juntar novamente os seus trabalhos, numa despretensiosa antologia.

Além é um tema que permite, a cada autor, uma liberdade de pensamento e, como é hábito, as mais diversas variações e interpretações da palavra. Mas ficam aqui algumas palavras de Carlos Arinto, num excerto da introdução à obra:


"Sendo o tema muito abrangente, ou pelo menos, suficientemente abrangente para permitir todas as interpretações, cada um dos autores criou aquilo que lhe parece ser demonstrativo desse espaço imaginado: um espaço onde se pode ir sempre mais além.

O além, não está aqui, mas além. E onde é esse além? Onde o quisermos situar, mas como somos nós que estamos “aqui” temos de nos esforçar por colocar em palavras o que pode existir além.
(...)
As histórias apresentadas são reais, elas existem, e, mesmo depois de apagadas da rede informática que as suporta, depois de ignoradas pelos leitores ou destruídas pelas chamas das catástrofes…continuarão a existir. Se existem, são reais, mesmo que duvidemos da sua existência, enquanto acontecimentos a que um reduzido número de testemunhas dá autenticidade factual. Afinal, a ilusão e o sonho, bem como a invenção e a imaginação, depois de libertos, são imparáveis e voam mais além."

Brevemente, estará disponível no sítio da Amazon, em todo o mundo.


quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Na Margem do Lago




Tabor avançou até ao tabuado do cais, pela terra amarela e poeirenta, que tudo invadia. Os pés, descalços e sujos, estavam calejados e nem se desviavam das pequenas e aguçadas pedras, que infestavam o chão. Debaixo do inclemente sol laranja, que dominava o céu sem nuvens, sentou-se no toco de madeira, que estava no fim do cais, de propósito para o efeito. À sua frente, a mesma terra amarela e poeirenta, estendia-se até às escarpas desoladas, quase no limite do horizonte, ocupando o lugar onde, ainda há alguns anos, estavam as águas cristalinas que matavam a sede e a fome, a muitas dezenas de famílias. O tablado do cais, erguia-se, como uma ponte inacabada, sobre a terra árida, mesmo ao lado dos esqueletos abandonados de barcos de pesca.
Era pouco mais do que uma criança, quando os pais se mudaram para a margem daquele lago. Sabia que fugiam da guerra, mas pouco mais. Ficaram a viver numa casa de adobe e telhado de junco, construída com as suas próprias mãos, numa comunidade piscatória.
Já devia ter uns dez anos, quando mudaram outra vez. Recordava-se de falarem, com preocupação, da descida alarmante do nível do lago, que diziam ser causada pela guerra, que secara ou desviara quase todos os rios. Como provas dessa guerra, só se recordava de ter visto, algumas vezes, ruidosas máquinas voadoras, cor de areia, ostentando um retângulo vermelho com uma lua branca. Sobrevoavam o lago e faziam todos procurar abrigo, apavorados. Nunca lhes fizeram mal, limitavam-se a rasgar o céu, com estrondo e até elas, com o tempo, deixaram de aparecer.
Foi necessário, nessa altura, construir novo cais, umas boas centenas de metros mais à frente e arrastar os barcos de volta às águas. Depois disso, cada verão que passava, parecia mais quente que o anterior e mais um ou dois metros de areia ficavam expostos… e o inverno, furioso de trovoadas secas e ventos ciclónicos, não o retornavam ao nível anterior. As árvores iam-se ficando para trás e apenas uma ou outra, se aventurava a crescer mais próximo da água, no solo arenoso e quase estéril. Ainda “perseguiram” o lago mais três vezes, antes dos pais morrerem, primeiro um e depois outro, com pouco tempo de diferença. A falta da água, suportaram-na, mas não conseguiram viver um sem o outro.
Ayla foi um ar de primavera que surgiu na sua vida. Sensivelmente da mesma idade, de amigos de infância tornaram-se um só e, por algum tempo, ambos conseguiram esquecer a vida amarga e dura, com a fome sempre à espreita.
De tempos em tempos, apareciam grupos de três ou quatro pessoas, mortos de fome e sede, provenientes do Norte, que contavam histórias terríveis de grandes cidades incendiadas, muitos mortos de fome e de doença. Poucos se quedavam; também ali não havia muito que os satisfizesse e por isso, rumavam ao Sul… exceto os demasiado doentes, que ficavam enterrados num qualquer sítio, próximo de onde tinha sido sepultado o último cadáver. O cemitério organizado, ficava já demasiado longe, para que valesse a pena a extenuante caminhada sob o sol inclemente.
O lento encolher do lago, obrigava a construção de um novo cais, de quatro em quatro anos. Começaram a construí-lo cada vez mais longo, para que se mantivesse mais tempo na água, mas isso obrigava a ir buscar mais madeira, cada vez mais longe, aos esquálidos bosques a sul, pelo que acabaram por reciclar os tabuados anteriores. Alguns aldeãos eram contra, reclamavam que o lago voltaria a encher e os demolidos cais, teriam de ser reerguidos.
Mas até os vizinhos iam reduzindo. Os lavradores tinham cada vez mais dificuldade em produzir as suas colheitas no solo seco e o que nascia, era débil e mirrado, os pescadores apanhavam cada vez menos peixe e mais pequeno. Por vezes, enormes cardumes de peixes mortos inundavam as praias e ele estavam semanas sem pescar. O vento norte, carregado de areia, visitava-nos frequentemente durante o inverno e fustigava as folhas tenras das plantas destruindo as colheitas. A caça foi desaparecendo também, procurando água noutras paragens. Poucos eram já os aldeãos, que continuavam a reconstruir a casa a cada dez anos, perseguindo a fugidia água, onde os peixes eram cada vez mais pequenos. Todos os meses havia uma família que ia embora, ou o último elemento de outra, que falecia.
Brincou com o buraco nas calças, que lhe deixava o joelho quase exposto, enquanto lágrimas pingavam sobre o tecido empoeirado. Mesmo quando nasceu Raíssa, ele não acedeu a procurarem novas paragens. Primeiro porque a mãe estava frágil, depois, porque a criança era frágil… era melhor ficarem, ali tinham o sustento ainda certo e os pescadores eram cada vez menos. Fizeram uma festa na aldeia, quase não nasciam crianças e aquela, era uma promessa de que tudo poderia voltar a ser como antes.
Raíssa acabou por morrer. Tinha pouco mais de um ano… sempre fora débil e não aguentou a dieta de peixe e os poucos legumes desidratados, que se conseguiam arranjar. A pequena tumba, ficara lá para trás, ao pé da última casa que ocuparam antes desta.
Mesmo assim, ele não se decidiu a abandonar aquele local desolado e mantiveram-se lá, cada vez mais sozinhos. Ela não o culpava pela morte da filha, mas olhava-o com ressentimento. Não lhe respondeu, da última vez que lhe disse que tinham de mudar novamente, como já estavam a fazer os últimos quatro vizinhos que restavam. Dois deles partiram, mas de vez, para Sul e só três novas casas de adobe foram erguidas nas novas margens do lago, que tinha nessa altura já pouco mais de um quilometro de largo.
Foi com dificuldade que conseguiu convencer os vizinhos a construir o novo cais, mas fizeram-no. Uma vez mais, desmontaram o anterior e acartaram-no, tábua por tábua, até o montarem no novo local … há quantos anos isso fora…
Tabor não se lembrava já quando partira o último vizinho. Quando fora que ele pegara nos parcos haveres, na mulher e nos dois filhos quase adultos e partira ao longo do leito seco do rio, que em tempos alimentara o lago. Todos se foram e nenhum voltou… apenas ele, teimoso, insistira com a mulher, Ayla, que o lago haveria de voltar, quando a natureza fizesse as pazes com os homens.
Quando precisava de alguma coisa que não possuía, caminhava mais de meio dia, até à aldeia mais próxima e regressava, já noite muito escura, guiado pela fogueira que Ayla acendia na aridez da planura e ali ficava, até que ele regressasse.
Há cerca de um mês, fizera a extenuante caminhada até à aldeia… encontrara-a vazia. Chorara, no regresso, ao ver a pobre velha, em pé, ao lado da fogueira, suportada pela esperança do seu regresso. Teve a certeza que, se não voltasse, ela ficaria ali a esperá-lo, até que a luz dos seus dias se apagasse.
Agora, como nunca antes, sentia-se velho e vencido. A natureza não iria, nunca, perdoar aos Homens e Deus, era mais que certo, ou morrera, ou abandonara-nos para sempre.
Nas noites geladas, sentava-se em frente a Ayla, com a esquálida fogueira pelo meio, olhando aquele rosto vincado pelas rugas, que em tempos fora jovem e belo e perguntava-se se conseguiria suportar o dia em que ela partiria, ou como seria para ela, se ele se fosse primeiro.
Eram esses os seus pensamentos ali, no cais de um lago seco, sentado no toco de madeira a olhar o sol laranja que, do alto seu trono, zombava da desgraça dos orgulhosos humanos. As lágrimas corriam-lhe pelo rosto, deixando sulcos lamacentos. O vento picava-o com areia, enquanto assobiava fortemente e foi empurrado por ele, que tomou a decisão e levantou-se do toco, que era o seu local de espera.
No outro dia de manhã, Tabor e Ayla, com os seus parcos haveres, numa padiola que arrastavam pelo chão, deixaram a casa de adobe, junto ao cais.
 Partiram, em direção a Sul, sem saber se seriam os últimos humanos da Terra.


quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Participação na revista digital SAMIZDAT





Iniciou-se hoje a minha participação na revista digital SAMIZDAT, o objetivo é contribuir com um texto mensal para este excelente grupo de autores.

Vai ser para mim uma honra, publicar os meus humildes trabalhos, ao lado dos diversos escritores lusófonos que aqui participam.

As razões para este nome, estão devidamente explicadas na sua página de apresentação "Por que SAMIZDAT?" e só me fazem sentir solidário e irmão nos sentimentos e objetivos. Não é sem significado que, os meus três livros publicados, foram-no sem recurso aos serviços de qualquer editora, para além dos de impressão.

"A indústria cultural - e o mercado literário faz parte dela - também realiza um processo de exclusão, baseado no que se julga não ter valor mercadológico. Inexplicavelmente, estabeleceu-se que contos, poemas, autores desconhecidos não podem ser comercializados, que não vale a pena investir neles, pois os gastos seriam maiores do que o lucro.
A indústria deseja o produto pronto e com consumidores. Não basta qualidade, não basta competência; se houver quem compre, mesmo o lixo possui prioridades na hora de ser absorvido pelo mercado.
E a autopublicação, como em qualquer regime excludente, torna-se a via para produtores culturais atingirem o público."

A industria cultural, nomeadamente a literária, não quer arriscar e pretende que o seu negócio se faça às custas do autor... ele deve financiar a impressão e venda do seu trabalho e por isso são pedidas grandes somas para a impressão de um X número de exemplares, uma parte dos quais será entregue ao próprio. Os outros, espera-se que se vendam e se tal acontecer, será só lucro, porque foi tudo pago "à cabeça" pelo esperançoso candidato a escritor. Com muito talento ou pouco, vítima da falta de uma divulgação capaz, o "seu negócio" está falido à nascença, vítima de um investimento que não tem hipóteses de rentabilizar. Longe vão os tempos em que não se publicava isto ou aquilo por falta de qualidade literária, ou porque se afastava da "política editorial da editora"; agora, basta ter dinheiro (ou querer gasta-lo) e publica-se qualquer coisa.

Mas já me estou a afastar do tema desta publicação, que apenas pretende anunciar a minha primeira "postagem" nesta revista, onde pretendo publicar todos os dias 29.

Para os que gostam de ler e para os que identificam com aquilo que é ser escravo da imaginação, aqui vai:

Prioridades




quarta-feira, 27 de março de 2019

Antologia "Sol de Inverno" conto selecionado






De: SUI GENERIS
Enviado: 27 de março de 2019 11:06
Para:
Manuel Amaro
Assunto: SOL 002 - Manuel Amaro Mendonça - Selecção


Bom dia,

Manuel Amaro Mendonça  


Comunicamos que o texto de sua autoria com o título


MANHÃ DE DOMINGO  


que submeteu ao processo de selecção para integrar a antologia «SOL DE INVERNO» foi seleccionado.

Agradecemos a sua participação nesta (nova) obra colectiva da Colecção Sui Generis, cuja relação de autores seleccionados – cerca de sessenta – será divulgada, a qualquer momento, nas nossas páginas e grupos da rede social Facebook e nos nossos blogues.

Esta informação não é definitiva, por enquanto. É a selecção inicial, estando ainda sujeita a confirmação.

A selecção final (definitiva) de autores que integram este projecto literário será divulgada em momento oportuno, após ter-se dado cumprimento aos Pontos 7 e 8 do Regulamento subscrito, que se encontra publicado neste endereço:


Continuaremos a dar notícias sobre «Sol de Inverno» durante todo o processo de selecção, produção e edição da obra. Tornaremos a comunicar brevemente, com informações (mais) concretas sobre o andamento desta Antologia.

Outras informações sobre os diversos projectos Sui Generis podem ser acompanhadas através das nossas páginas e grupos do Facebook e do blogue Edições Sui Generis.

Grato pela sua atenção.

Saudações literárias

Isidro Sousa
SOL DE INVERNO
Organização


--
Cumprimentos
ISIDRO SOUSA


quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

A Última Habitante de Vale Santeiro




Faustina acordou com um estremeção. O quarto onde se encontrava estava na penumbra; ainda a noite ia alta. Quase não se conseguia mexer, com a enormidade de mantas que tinha em cima de si, mas, cada vez que acordava, sentia o frio que lhe mordia o corpo. Teve sede e, com dificuldade arrastou os 92 anos que lhe pesavam nos ossos e desceu da cama alta, para as alpercatas que a esperavam no chão de soalho.

Era uma mulher magra e engelhada, envergando a camisa de dormir puída, mas grossa, sobre umas calças de pijama azuis, já coçadas. A cabeleira alva caía-lhe sobre as costas, confundindo-se com a camisa. Embrulhou os ombros com uma das mantas, que levantou com esforço.

Tateou a parede junto à cabeceira da cama de ferro para pegar o pau que lhe servia de bengala. Não acendeu a vela no criado-mudo e serviu-se da escassa luminosidade que chegava da cozinha, para ver o caminho. Arrastou-se, mais do que caminhou, pela porta estreita, contrariando as fortes tonturas que a atormentavam.

A espaçosa divisão tinha mais luz que o quarto; escoava-se pelas aberturas das enormes telhas de ardósia que se divisavam acima do travejamento despido do teto e pelas generosas frestas da porta da habitação. Uma robusta mesa de madeira maciça e alguns bancos, ocupavam um dos lados, onde sobressaía um imponente escano, vestígios dos tempos em que aquela era uma casa cheia. No lar[1], brilhavam algumas brasas envergonhadas, vascas da fogueira do dia anterior. O vento assobiava pelas frestas e a velha cortina que tapava a única janela, oscilava com a corrente de ar.

Apertando a manta em volta do pescoço e sempre tremendo de frio, Faustina contraiu o rosto enrugado ao beber a água gelada do púcaro de alumínio. Uma coluna de vapor soltou-se do seu hálito.

Hesitante, caminhou até à porta e abriu a metade superior, sendo brindada com vários flocos de neve que esvoaçaram para dentro.
As escadas e a rua da aldeia, eram um tapete branco. As casas em frente estavam decoradas com alvos mantos, nas estruturas destelhadas e derruídas e as janelas eram negros olhos que a fitavam, inertes. O silêncio absoluto só era perturbado pelo tilintar dos vários espanta-espíritos, pendurados na borda do telhado e pelo vento e o sussurrar permanente dos pinhais em volta. Para além das casas, distorcido pelos farrapos de algodão esvoaçante, o imponente Marão velava sobre o casario e a paisagem, numa vigília que começara no princípio dos tempos.

Tremendo descontroladamente, a comprimir as gengivas, quase desdentadas, para que não batam, cerrou a porta e apressou-se a regressar à cama.

Uma cabrita baliu na loja[2], sentindo o caminhar da proprietária.

Encolheu-se de novo debaixo da montanha de roupas e apertou, o mais que pode, os joelhos esquálidos contra o peito, enquanto se agitava em tremores. Sentia o bafo fervente nas mãos, contrastando com o frio que sentia. Estava doente!

Tossiu convulsivamente. Não se recordava a última vez que esteve doente, mas já começara a suspeitar com o frio que sentia e as tonturas que a assombravam há vários dias. Se pensasse bem, também já vinha a notar fraqueza e falta de apetite há mais de uma semana e nestes últimos três dias, piorara a olhos vistos. Tossiu novamente, terminando com vómitos e os olhos cheios de lágrimas… vomitar o quê, se há dois dias que estava só a água?

Se calhar devia ter aceite a oferta do jovem caçador, que ali passara antes do nevão, para a levar à vila, ao médico. Sorriu de si para si, enquanto se encolhia mais para baixo dos lençóis gelados. Os caçadores eram uma boa companhia, apareciam, conversavam um pouco, dividiam a merenda com ela ou comiam um pouco do pouco que ela por lá tinha e havia sempre uma garrafita de vinho, um bocado de presunto, ou salpicão para dividir com eles, trazidos pelo bom senhor Fonseca. O carteiro, agora reformado, nunca deixou de a visitar, mesmo depois de já não ter obrigação de trazer cartas, porque ao fim e ao cabo, já nem carteiro lá ia. Era uma excelente pessoa e trazia-lhe os bens essenciais, pagos com os dinheiritos que fazia a vender uns ovos, frangos e um ou outro cabrito aos caçadores ou caminheiros que por ali passavam.

Contentava-se com pouco, não precisava de muito dinheiro. Mesmo o vinho durava-lhe muito tempo, não bebia todos os dias e a carne, comia pouca, eram mais os legumezitos que conseguia arrancar da horta nas traseiras, mais ou menos abrigada dos frios da serra. Estes dias, porém, não conseguira sequer levar as cabritas, nem dar de comer às galinhas. "Pobrezinhas, devem estar a estranhar não me verem." Uma lágrima correu do canto do olho.

Também a GNR a visitava, de tempos em tempos e trazia as coisas que ela pedia, na ronda seguinte. Normalmente o cabo Gonçalves, de poucas falas, mas bom rapaz e a guarda Salomé, uma menina muito querida, que a tratava por avó Tina, vinham bater-lhe à porta e perguntar se estava tudo bem. Eram as únicas quebras de rotina naquele mundo perdido na serra e esquecido por Deus… e pelo Diabo.

O rosto iluminou-se-lhe com a recordação da aldeia cheia de gente, na sua infância e juventude. Parecia que ainda se estava a ver, cântaro na mão, com o vestido aos quadrados, que já fora da sua irmã, a correr descalça pelo empedrado da rua, até à fonte. Ali, pegava-se invariavelmente com a Micas do porqueiro e com a Ana da Chã, mas tinha sempre a ajuda da irmã, a Joaquina e da vizinha Luísa, contra aquelas duas invejosas.

"A querida Luísa… era tão bonita e tão carinhosa. Tive tanta pena quando se casou e foi embora para Angola com o marido. Será que ainda é viva?"

Quando chegava a casa, a mãe gritava com ela porque vinha suja e molhada e o pai, se não estivesse embriagado, defendia-a sempre. Era uma casa cheia, esta mesma casa onde vivia. O pai e a mãe dormiam no quarto, ela e a Joaquina, junto da mesa, mais próximo do lar e os quatro rapazes do outro lado da cozinha. A maior parte das vezes, porém, eles preferiam dormir no palheiro onde ficava o burro, que era mais quente.

E as festas que se faziam naquele povo… havia sempre o "ti" João com o harmónio, o Celestino ferreiro, com a gaita de foles e o "Zé tolinho" com o tambor; faziam uma algazarra tal, que ecoava nos montes, invocando as povoações em redor. O Tino ferreiro era uma estrela, não só ali, como pelos povos em redor. Ficava-se hipnotizado a ouvir as músicas que tocava, algumas de sua autoria. Mas era um maroto: habituado a apertar os foles, estava sempre de mão lampeira para apertar peito macio ou rabo rijo. Uma vez, também ela lhe sentiu o aperto numa festa e só não lhe acertou uma valente "tapona", porque o facínora, treinado que estava nestas andanças, afastou-se rapidamente, com um sorriso traquina. Ao fim e ao cabo, a sensação de ofensa durava pouco, face àquele rosto bem-talhado e sorriso desarmante. Mas com a gaita de foles era um Deus na terra e com os companheiros, punha a dançar o maior pé-de-chumbo. Dançavam-se as modas com alegria e em tais rodopios, que por vezes até caíam no chão empedrado do largo da fonte.

Foi naquela mesma fonte, no meio da aldeia, que percebeu o olhar do António Joaquim, filho do sapateiro de São Miguel das Chãs. Ela sempre se portou com ele como uma potra selvagem, com "coices" e empurrões, cada vez que ele se aproximava, mas como ele não desistia, casaram num tórrido dia do estio do ano de 1946.

A igreja, nome pomposo para a pequena capela no centro do povoado, onde se acotovelaram os vizinhos, nos tempos das famílias de muitos filhos, não passava agora de umas paredes ao alto, despojadas há muito dos objetos de culto. Estava bonita, no dia do seu casamento, todo o templo, caiado de novo, tinha os altares decorados com belas flores silvestres e muitos verdes, colaboração de todas as mulheres da aldeia. Até o chão tinha um belo tapete florido, decorado com motivos geométricos ricamente elaborados. Cheia de vergonha, a cabeça coberta com um lenço branco e o rosto corado, estava simples, mas radiosa. Apesar dos pais não lhe poderem comprar um vestido de tule branca, envergava uma alva camisa, finamente bordada, costurada pela "ti" Rosário, que entrava numa saia cinza claro, comprida, que quase tapava os pequenos sapatos pretos, bem engraxados. A seu lado, um sorridente António Joaquim, de chapéu preto de aba direita, fartos bigodes e fato cinza claro, empinava-se nas botas de couro luzidio e dava-lhe o braço, de forma protetora… como eram jovens, mesmo a mais pobre das indumentárias, era trajo de príncipes. E foi assim que se sentiram durante a cerimónia e no circuito que tiveram de fazer, nos dois povoados, de braço dado, para que todos reconhecessem o novo casal.

Faustina foi viver para as Chãs com os sogros, mas ao fim de três anos os irmãos tinham emigrado para o Brasil, um após outro e o tifo levara-lhe o pai e a irmã. Regressou a Vale Santeiro com o marido e dois filhos, mas um deles morreu naquele mesmo ano, com febres muito altas, o outro também as apanhou e durou apenas mais cento e poucos dias. No mesmo ano de 1951, nasceram os gémeos e batizaram-nos António Luís e António José, exigência do marido.

As colheitas da castanha e da azeitona eram sempre motivo de festa; a aldeia enchia-se de romeiros, que vinham de longe trabalhar à jeira nos soutos ou nos olivais. Eram uma boa desculpa para o endiabrado trio musical se juntar às "orquestras" que acompanhavam aquelas hordas e festejar o fim das colheitas com bailes que iam pela noite dentro, assim o permitissem o frio, a chuva, ou mesmo a neve. Para muitos, aquela mão cheia de castanhas assadas e o púcaro de vinho, eram a única maneira de bastar a fome que lhes atormentava as costelas o resto do ano.

A fome e uma profunda crise, ainda efeitos do terrível conflito mundial que acabara há apenas cinco anos, grassava pela totalidade do país, mas por aqueles lados, sempre se arranjava uma hortaliça, uma batata ou uma côdea de pão. O marido, porque estava insatisfeito com o pouco que ganhava de sapateiro, deixou-se levar pela febre da emigração. O sonho do Brasil levou-o para longe dela, com promessas de a mandar buscar… durante a viagem de barco, levou-o o diabo… só o soube dois meses depois.

A vida nunca lhe sorria verdadeiramente, antes parecia rir de escárnio.

Faustina e a mãe trabalharam juntas nos terrenos que o pai comprara com os dinheiros ganhos no volfrâmio, até a matriarca não poder mais. Era até curioso que o pai tivesse ganho a vida a vender minério para alimentar a guerra na Europa em 1943 e avô tivesse perdido a vida nas trincheiras da Flandres em 1917.

A mãe foi-se já velhinha e sem poder levantar-se da cama. Ainda assistiu à partida dos netos gémeos para França, nos anos setenta, fugidos à guerra colonial… a doença da emigração levava mais dois.

O primeiro ano custou-lhe imenso. Com quarenta e cinco anos, a casa vazia, o trabalho todo para ela. Faltavam-lhe as brincadeiras dos rapazes, até mesmo as vezes que lhes ralhava porque iam para a taberna até tarde. Noutras ocasiões, irritava-se porque riam e falavam alto, na cozinha, a gastar petróleo no candeeiro e sem a deixar dormir. De manhã, acordava-os ainda mais cedo, para os castigar, mas aquelas almas lá se levantavam. Resmungavam, mas obedeciam.

Com o tempo, as memórias deles já não passavam de palavras escritas em missivas curtas, lidas num tom monocórdico pelo senhor Fonseca carteiro. Estavam bem, casaram e tinham filhos, netos que ela só conheceu com cerca de dez anos. Por volta dos anos oitenta… vieram passar umas férias, mas não se demoraram, o objetivo eram as praias do Algarve. Traziam mulheres francesas e os filhos não diziam palavra de português. Não gostaram de ver o Fernando, o irmão do António Joaquim a viver com ela, ainda para mais sem casar. "Que queriam eles?" Pensou franzindo o sobrolho, mas mantendo os olhos cerrados. "Tantos anos sem quererem saber, nunca lhes respondi, senão às primeiras cartas. Nunca aquelas almas vieram saber se estava bem, ou precisava de alguma coisa." Já quando se foram para França "a salto[3]", foi ela quem pagou ao "passador" e deu-lhes as poucas economias que tinha. Ficou em grandes dificuldades, mas mesmo assim, achavam-se no direito de dizer que tinham vergonha pelo falatório que havia na aldeia, por causa dela e do tio deles. Trocaram palavras amargas, para uma despedida. Ela estava contente por vê-los escapar à guerra, que já vitimara dois jovens da aldeia, mas lamentava ver os filhos ir para longe, além da falta que lhe iriam fazer aqueles dois pares de fortes braços.

Era à porta da taberna do "ti" Acácio, que Faustina encontrava Fernando, ao fim do dia, após o trabalho. Ela fazia de propósito para ir à água na hora em que o sabia por lá… e ele fazia questão de sair à porta, assim que a via assomar à boca da rua, com o cântaro debaixo do braço. As mulheres e as raparigas riam maliciosamente ou sussurravam umas com as outras quando passavam, mas eles ignoravam-nas, ou nem se apercebiam da sua passagem. Ela era já viúva e não via, ou não queria ver, mal nenhum em falar com o cunhado. Ele, "quase" viúvo, tinha ali a oportunidade de ter junto de si um rosto bonito e alegre.

Mesmo Fernando só lhe fez companhia por cerca de quinze anos. Juntara-se com ela, apenas quando ele enviuvou também. Embora conversassem muito desde a partida do irmão, sempre tentou respeitar Maria do Carmo, a mulher dele, que estava de cama há anos, não a abandonando nem pondo outra mulher no lugar que lhe pertencia. Maria do Carmo foi outra infeliz; desejava ardentemente ter filhos e por três vezes sofreu partos pavorosos, que deram em crianças deformadas e, felizmente, mortas. O último foi de tal forma difícil, que tiveram de mandar vir o médico da vila. Salvou-lhe a vida, mas não conseguiu salvar-lhe o juízo.

Fernando e Faustina acabaram por se consolar um ao outro. Encontravam-se às escondidas, às vezes na calada da noite, no palheiro dela, ou noutro lugar qualquer mais recatado, mas inevitavelmente acabaram por ser vistos… e falados. A viuvez dele, a partida dos filhos dela e a velhice da mãe, foram a combinação perfeita para se juntarem definitivamente em casa dela. Foi um suporte essencial, quando a mãe dela partiu deste mundo. Viveram bons tempos, ele foi uma companhia serena e carinhosa, até o coração lhe ter “pregado uma partida” aos sessenta e um anos. E Faustina tornou a ficar só.

Não quis mais homem nenhum. Não que houvesse algum por aqueles lados, pelo menos viúvo, mas não queria mais partilhar a sua vida com alguém que a abandonasse novamente.
Os filhos retornaram por volta de 1990. Ou que alguém lhes chamasse a atenção, ou que os remorsos os mordessem, apareceram de surpresa, apenas os dois, para “saberem como ela estava e se precisava de alguma coisa”. António Luís, sempre mais falador, manteve uma conversa variada, contando a forma como viviam em França e que o irmão, agora divorciado, vivia temporariamente com eles. Mas António José notava-se comprometido, como se estivesse ali contra a vontade. Por fim, a conversa acabou por cair na aldeia, cada vez mais deserta e no facto de ela estar sozinha há tantos anos. “O melhor mesmo” dizia Luís “era vender as territas e a casa e ir para o lar da vila, onde não lhe faltaria nada.” Até trazia já os impressos para assinar e tudo. Tinha pressa para ir ter com o resto da família, que o aguardava no Algarve. Claro que acabaram aos gritos em casa e expulsos pela matriarca… Nunca mais voltaram. Ela sabia que não deveria ter atirado a pedra, que partiu o vidro da porta do carro do filho, mas depois de atirada, já não havia nada a fazer. “Eles que fossem lá para as porcas das francesas e se enchessem do bom e do melhor que havia naquela terra para onde os mandou, com todos os tostões ganhos com o suor do seu rosto. Não precisava deles, nem de ninguém.” Gritava a miúde com quem lhe puxava tal conversa.

Os vizinhos foram desaparecendo, um após outro. Com mais ou menos dificuldades, acompanhou alguns até à última morada e despediu-se de outros, que foram para o lar de idosos ou para o hospital e já não regressaram.

Por fim, o padre já não vinha dizer a missa à aldeia e tinham de ir às Chãs, que pouca mais gente tinha. Depois, já nem lá. O sacerdote só aparecia para os funerais e o coveiro tinham de o mandar vir da vila. O templo estava fechado, mas não deixaram que levassem as imagens, quando o padre as mandou buscar; pertenciam ao povo e não à igreja! Faustina ainda conheceu, já muito velho, o neto do santeiro que esculpiu a Senhora da Piedade, que era tão bonita.

Mantiveram o culto como podiam. A “ti” Sabina, a única que sabia ler, recitava trechos da bíblia e partes do missal todos os dias à noite, enquanto os diabetes não a cegaram, depois já só rezavam o terço. Eram as cerimónias que tinham para alimentar a fé, que não parecia esmorecer. Uma vez por mês, lavavam o chão de soalho e tiravam as teias de aranha dos santos, mas as pinturas e reparações eram demasiada exigência para as fracas posses físicas e monetárias da população. As paredes brancas estavam sujas e descascadas. Já tinha a aldeia só para si e não deixava de ir rezar o terço, por hábito, no salão sombrio e solitário que fechava cuidadosamente ao fim do dia. Uma noite, o telhado ruiu com estrondo e ela só o soube pela manhã, pois teve medo de sair à rua para ver o que tinha acontecido… chorou e teve pena de não estar lá dentro, a rezar, na hora em que aconteceu.

Há quanto tempo estava sozinha? Dez? Quinze anos? Já quando faleceu o Fernando, Vale Santeiro só tinha oito habitantes… havia menos pessoas do que cães e mesmo esses foram desaparecendo.

Lembrava-se perfeitamente quando a filha da Maria do Céu veio para a levar para Lisboa, para junto dela, só restavam elas as duas…. Insistiu tanto com Faustina para que fosse para a vila, para o lar de terceira idade… “Foi a única vez que gritei com ela, pobrezinha, que já estava tão fraquinha." Suspirou. "Ainda me escreveu umas vezes, depois deixou de escrever. Mais tarde, a filha mandou dizer que ela tinha morrido. Eramos as últimas pessoas de Vale Santeiro… e agora só resto eu." Lágrimas molharam o travesseiro.

Não sabia se tinha estado a sonhar se acordada, a sensação era de estar a dormir há décadas. Os lábios estavam secos e gretados. Doíam-lhe. Afastou as mantas e arrancou o corpo à cama, puxado a gemidos.

Cambaleou até ao balde onde fazia as necessidades e destapou-o, sendo agredida de imediato pelo cheiro intenso. Desceu as calças com dificuldade e quando se baixava, sentiu uma violenta náusea, acompanhada de um formigueiro nas mãos e nos pés.
Acordou com as pernas e os braços rígidos de frio. Estava deitada no chão, os membros entorpecidos quase não lhe obedeciam e um zumbido ensurdecedor inundava-lhe o cérebro. Gatinhou, gemendo e chorando de dores até à cama, que era uma estrutura de ferro demasiado alta para ser alcançada, mas a esperança da tonelada de mantas e o colchão de palha eram forte apelo.

Não sabia se estava a dormir, se acordada, estava de novo debaixo das mantas. Ouvia ao longe, trazido pelo sopro do vento, as melodias tristes que tocava o Tino ferreiro, ecoando nas encostas agrestes da serra. Vozes falavam de longe num tom baixo. Parecia-lhe a voz do senhor Fonseca carteiro, que conversava com alguém: "…tive que ir até às Chãs, que aqui não há rede…". Tentou organizar as ideias e forçar-se a perceber o que estava a acontecer, enquanto ele continuava: "… coitadinhas, já não comiam nem bebiam há uns dias. Pus-lhes ração e água…"

 Avó Faustina, como está a senhora? — Agora era a voz de Salomé, a GNR que a visitava frequentemente, que lhe chegava de muito longe. — Está tão quente! Tem febre? Que magra que está, não se tem alimentado bem!

 Não sei o que se passa. — Respondeu numa voz sumida, sem abrir os olhos, por entre os arrepios de frio. Não sabia ainda se falava com um sonho. — Tenho tido muito frio e passo o tempo debaixo das mantas. Nem fome tenho. Não sei há quanto tempo não saio com as cabras… tem havido muita neve.

 Não acendeu o lume… — A guarda censurou com meiguice.

 Ainda acendi um destes dias, mas a lenha está a acabar e não me sinto com forças para ir buscar mais. Debaixo das mantas não está tanto frio. — A velhota respondeu, tirando os olhos e espreitando debaixo do monte de cobertas, apercebendo-se pela primeira vez da luz azulada que piscava, iluminando todo o compartimento a espaços. — Será que me podia trazer um braçadito de galhos? E dar umas “coivitas” às galinhas? As pobrezinhas bem chamam…

 A senhora precisa de ajuda e vamos levá-la para um sítio quentinho, com uma cama fofinha, onde terá mais gente para conversar. — Salomé continuou carinhosamente, quase a falar-lhe em segredo. — Não precisa de sair com as cabras, nem de andar “atrás das galinhas” nem da lenha. Vai ter sempre alguém para cuidar da senhora, está bem? Vai passar o Natal com muitos amigos novos.

Só aí Faustina se apercebeu do outro guarda e três jovens de bata branca e até do senhor Fonseca carteiro, que aguardavam atrás, iluminados pela silenciosa e faiscante luz azulada.

— Ora, vejam tanta gente. — Gemeu na voz fraca. — E eu não tenho quase nada. Deve haver para aí um "cibito[4]" de presunto e pão. Talvez um tantinho de vinho…

Salomé sorriu-lhe e beijou-lhe a mão descarnada antes de dar passagem aos jovens de bata branca, que, com palavras carinhosas, mudaram-na da cama com todo o cuidado, para a maca que trouxeram. Em seguida, levaram-na pelo quarto e depois a cozinha, que foram a existência dela por tantos anos.

Cá fora, o mundo era cinzento e as nuvens pesadas continuavam a navegar o céu, deixando escapar, aqui e além, uma nesga da promessa do sol forte, que se escondia mais acima.
Ao ser colocada na ambulância, sabia que não veria mais as cabrinhas, nem as galinhas, que eram a sua companhia de todos os dias. Não tornaria a ver os cumes do Marão tão de perto, nem voltaria a sentir o ar fresco da madrugada a bater-lhe no rosto, antes dos calores das tardes de verão.

Não mais veria as ruas desertas de Vale Santeiro, nem poderia reviver a sua vida, em cada uma daquelas esquinas arruinadas, ou lembrar bons momentos debaixo de muitos telhados que já não existem, dos amigos que já se foram há muito.

Fechou os olhos e, forçando um sorriso, enclavinhou as mãos sobre o peito, como que guardando em si aquelas recordações.
E deixou-se levar.



[1] Lareira, conforme é utilizado em grande parte da região transmontana.
[2] Grande parte das casas transmontanas possui um piso inferior à habitação que era usado para arrumações, criar os porcos e outros animais. Era útil para os poderem alimentar sem sair da casa e ao mesmo tempo geravam calor.
[3] As saídas do país eram fortemente controladas durante o regime salazarista e principalmente durante a guerra colonial. A forma de passar as fronteiras, para os civis e principalmente os jovens em idade militar, era clandestinamente, com ajuda de "passadores" envolvidos em autênticas redes de tráfico humano.
[4] De cibo, pequena quantidade de alimento.