domingo, 29 de dezembro de 2019

Depois do Paraíso



Olhei, desalentado e incrédulo para o terreno semeado e lavrado há pouco tempo. Todos os sulcos de terra, feitos com tanto esforço, estavam destruídos pelo bando de corvos que, como uma onda de carvão, faziam um festim com as sementes, numa algazarra inacreditável.
Atirei-lhes um pau, com pouca convicção, que caiu no meio das aves. Estas, porém, pouco ou nada se importaram. Mesmo aquela que foi atingida pelo míssil, limitou-se a um pequeno salto e a grasnar-me um insulto qualquer, indignada, antes de mudar de poiso.
Deixei-me ficar a assistir ao banquete.
De facto, sofro de uma falta de sorte impressionante. Os meus pais fartam-se de falar de um tempo em que estavam numa terra muito boa, onde as árvores davam tudo o que precisássemos, sem ter de cultivar…, mas foram expulsos de lá, por uma injustiça, ou um mal-entendido qualquer, do qual eu nunca me importara em saber pormenores. Agora, havia que trabalhar duramente, para arrancar alimentos desta terra paupérrima e ingrata… e dá-los aos canalhas dos corvos. 
— Os corvos fazem uma festa. — A vozinha sibilante fez-me olhar para o maciço de ervas, de onde espreitava a enorme serpente dourada que lá morava.
— Pareces feliz! — Exclamei, amargurado.
— Nem feliz, nem infeliz. — Mas a expressão da serpente parecia contradizê-la. — Simplesmente não é natural, teres de ferir a terra para produzir alimento… no fim, quem se consola são os corvos e os gafanhotos. Assim, encontram tudo o que precisam para encher a barriga, no mesmo sítio. Estão-te agradecidos, os bichinhos.
— Ah, cala-te! — Exigi, revoltado. — Qual é a alternativa?
— Podias voltar para a terra de onde os teus pais foram expulsos. Lá era tudo mais fácil. — A serpente concluiu, erguendo-se sobre o seu corpo, quase à minha altura. — Foi uma injustiça o que lhes fizeram.
— Eles dizem que têm lá guardas terríveis, que nos matam, se nos aproximarmos.
— Então… — Continuou o réptil. — Podias tornar-te pastor, como o teu irmão.
— Se ele já faz isso… — Desprezei o conselho. — Vamos comer só cordeiro? E o pão, as couves, os tomates…?
— Foi só uma sugestão… — Tenho a certeza de que a serpente encolheria os ombros se os tivesse. — Podias convencer o teu irmão a ser ele o lavrador.
— Ele não quer. Está muito contente com o seu trabalho, a passear os bichos pelas pastagens. — Retorqui, amargurado. — E só lhe acontecem coisas boas! Ainda outro dia, apareceu o senhor destas terras, que costuma levar alguns dos nossos produtos e não quis nada do que eu tinha! Mas o cordeirinho do meu irmão, não só gostou, como fez uma fogueira, para que o assassem e comessem ambos!
— Uma injustiça! — Apoiou a minha sibilante companheira.
— É mesmo! — Continuou. — Veio ali, com a sua túnica branca como a neve, lá de onde não falta nada, desprezar o meu trabalho, regado com o suor do rosto.
— Que sabe ele do trabalho duro do campo? — Interrogou uma conhecida voz suave, feminina. 
Voltei-me, para ver a antiga mulher de meu pai, segundo ela dizia, avançar na nossa direção. Ao chegar, chutou um alvo crânio de burro, que rolou até aos meus pés.
— Estavas a ouvir? — Perguntei desconfiado. — Será que a minha má sorte não estará relacionada contigo?
— Ouço mais coisas do que podes imaginar! — Afirmou ela, com um sorriso conhecedor. — Também não suporto injustiças, mas esse teu irmão, é quem está no caminho do teu reconhecimento. Eu não tenho nada a ver com isso. Pedi que não dissesses a ninguém que me conheceste, porque o teu pai não iria gostar.
— Sim o teu irmão podia, ao menos, ajudar-te no teu trabalho, em vez de ficar a tocar flauta, enquanto o rebanho pasta. — Acrescentou a cobra.
— Em tempos, — Disse eu melancolicamente, chutando o crânio descarnado. —, tive este burro, que me ajudava a lavrar e a transportar as cargas, mas depois morreu.
— Se calhar, devias alimentá-lo melhor… — Censurou a mulher com um risinho.
— Ou não lhe bater tanto! — A serpente também me recriminava.
— Era um descarado! — Enfureci-me. — Não queria trabalhar e quando lhe batia, para que o fizesse, ainda me ameaçava, dizendo que iria ser a causa da minha desgraça!
— O Criador saberá o que um simples burro queria dizer! — Estava ali a mulher, a criar o dogma da sabedoria dos jumentos, imagine-se.
— Era o que mais me faltava! — Exasperei-me. — Aqui a discutir a filosofia dos asnos com uma cobra e uma desconhecida.
— Não é filosofia! — Contrapôs o réptil. — Trata-se mesmo de tratar bem, quem nos ajuda! E eu não sou uma cobra, sou uma serpente!
— E eu não sou uma desconhecida! — Insurgiu-se a mulher. — Sabes o meu nome, chamo-me Lilith e, quase podemos dizer que sou tua tia! Afinal, também vivi com o teu pai.
— Chega de conversa! — Enervei-me. — Desapareçam e deixem-me só com a minha desgraça!
Ressentidos, mas obedientes, desapareceram assim que lhes virei as costas. Ao mesmo tempo, o número de corvos parecia reduzir; estava-se a acabar o suprimento de sementes.
— Irmão! — Ouvi a voz nas minhas costas.
— Só me faltava este! — Resmunguei baixinho.
— Vi um bando de corvos a vir nesta direção e desconfiei logo do que se passava! — A voz acriançada, que tanto me irritava, continuou. — Não posso acreditar, lá se foi a sementeira.
— Muito te preocupa! — Enfrentei-o. — Vai lá, limpar o traseiro às tuas ovelhinhas!
— Porque falas assim comigo? — Lá estava aquele ar de incompreendido, exatamente igual ao meu pai, que tanto me irritava. — Estou aqui em solidariedade contigo…
— Solidariedade?!? — Sentia-me cada vez mais furioso. — Sabes onde podes meter a tua solidariedade? Precisava é que me ajudasses a lavrar os campos!
— Tinhas um burrito a ajudar-te. — Passou ele da defesa, ao ataque, num instante. — Maltrataste-o e deste-lhe fome. Agora morreu e os outros, nem abeiram por aqui. Inclusivamente, são cada vez mais os animais que deixaram de nos falar, por causa dos teus atos.
— Também tu?!? — Enfureci-me. — Que querias? Que andasse com ele às costas como fazes com os cordeiros?!? Ele era preguiçoso e não queria puxar o arado. Era melhor se o meu trabalho fosse como o teu, de papo para o ar, à espera que as ovelhas cresçam!
— De papo para o ar?!? — Foi a vez dele se revoltar, enquanto que os corvos, sentindo os nossos gritos e a nossa raiva, crocitavam ainda mais alto e esvoaçavam mais furiosamente. —Também tu não gostas de trabalhar e escolheste a agricultura porque, do trabalho que o pai faz, só vias o descanso nos dias de chuva. Eras cego às jornas de sol a sol, a escavar e a lavrar as terras. Por isso te revoltas, só queres a parte boa dos ofícios. O pai, está triste com o teu desempenho e o Senhor também está desagradado. Começam a questionar se serás um bom herdeiro, ou se terão de repensar o assunto.
— Ah, traidor, que andas a armar-me uma cilada! — Exclamei, cheio de raiva, percebendo a extensão da trama e atirando-me ao pescoço dele.
Rolamos no chão, dando socos e puxando cabelos, insultando-nos mutuamente. As palavras doíam quase tanto como as pancadas. Até que me apercebi do crânio do burro, junto a mim. Parti-lho, com toda a força, na cabeça, pois estava queimado pelo sol. Aproveitando a confusão momentânea, agarrei na queixada e espetei-o no peito e no pescoço, enquanto a minha raiva não se esgotou.
Levantei-me a chorar de frustração e fitei, estarrecido, o corpo ensanguentado do meu irmão. Olhos esbugalhados, numa acusação muda. Estava morto!
Entrei em pânico e abanei-o, sem sucesso, enquanto me interrogava, desesperado. “Que iria fazer? Como fora capaz de tal crime? Que iriam dizer o pai e a mãe?”
Olhei em volta, para ver se havia alguém por perto e arrastei o corpo para as ervas mais altas. Escavei como um doido, até conseguir cobri-lo com grandes tufos de verdura. Os corvos haviam desaparecido como que por magia, porém, o vento acusava num sussurro: “Assassino, assassino”.
Larguei numa corrida, em busca de refúgio e proteção. Não diria a ninguém o que se passou, apenas que não via o meu irmão desde ontem. Armado com este alibi, atravessei a mata, sem reparar na mulher e na serpente, que assistiram a toda a cena, com ar de satisfação.
Ao sair da floresta, quase choquei com o dono das terras, na sua túnica alva, de cabelos e as barbas brancas a oscilar ao vento que soprava cada vez mais forte. Estaquei, aterrorizado, sem conseguir soltar palavra.
— Caim. — Trovejou ele. — Onde está o teu irmão, Abel?

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