Debaixo dos Céus Os Mundos de Manuel Amaro Mendonça
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terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Terras de Xisto - 6ª Parte - O fim de uma era

Voltar a parte 5 neste link



O dia seguinte o amanheceu gelado mas seco com o chão coberto de neve suja e calcada.
A aldeia assistiu à saída de um grupo de dois Guardas a cavalo acompanhados de alguns homens do Samões para baterem os montes atrás dos dois assassinos.
Passaram-se horas sem novidades e foi só ao anoitecer que o pequeno grupo regressou com um corpo atravessado na sela e formou frente ao solar.
Corria uma brisa cortante anunciando a aproximação de mais neve.
Quando André Samões chegou ao pátio já se encontrava um grande grupo de pessoas a assistir ao desenrolar do drama.
Um dos Guardas soltou a capa que envolvia o corpo que caiu desamparado no chão empedrado coberto de branco com um baque surdo.
Um gemido de espanto percorreu a assistência ao observar o rosto cinzento e sem vida do Zé Sobreiro.
- Já o apanhamos, senhor Samões. Estava numa gruta e já finado. – Informou o cabo da Guarda.
- Um assassino já está. – Trovejou com a voz trémula de emoção. – Agora só falta a mulher! Quero-a também. Tem que pagar pelos crimes!
Os dois guardas olharam-se interrogativamente.
-Não fiquem aí como parvos! – Tornou, furioso. – Vão! Quero aqui aquela cabra também. Morta ou viva!
Entre resmungos, guardas e lacaios tornaram indolentemente às montadas e principiaram a afastar-se deixando o cadáver estendido no chão.
Quase no mesmo instante surge, na outra ponta do largo, novo guarda montado num cavalo castanho num galope desenfreado.
- Parem! – Ordenou reduzindo a marcha do animal reluzente do esforço.
Num trote mais calmo aproximou-se dos seus dois companheiros enquanto a população, que principiara a afastar-se, tornava à cena dominada pela curiosidade que era maior que o medo da guarda.
- Manda o senhor comandante que tornem sem demora ao quartel. – Informou o recém-chegado.
- Que se passa? – Exigiu saber o Samões – Para onde vão agora que deixam um assassino à solta?
- Ordens do nosso comandante, senhor Samões. Estamos de prevenção, recolher ao quartel e aguardar ordens.
- Mas que aconteceu, homem de Deus? Fala, que houve de tão grave?
O jovem guarda olhou para os companheiros, indeciso se deveria ou não falar. Mas acabou por decidir-se:
- Mataram El-rei D.Carlos.
Um coro de gemidos e gritos de incredulidade ecoaram por entre a pequena multidão que se benzia.
Em passos largos, o fidalgo aproximou-se do guarda:
- Como?!? Não é possível! Mataram-no, ou feriram-no?
- Mataram-no, senhor! Houve um atentado no Terreiro do Paço. Mataram o rei e não se sabe quem mais. Dizem que a rainha estava cheia de sangue e os filhos estavam caídos na caleche como mortos também. Foi uma mortandade.
- Quem é responsável por tal infâmia?
- Fala-se na Carbonária. Os guardas do rei mataram um tal Buiça e mais não sei quantos que estava ligado a eles.
- Bastardos do inferno. Que o diabo os leve a todos.
- Vamo-nos. – O jovem guarda insistiu para os companheiros. – Com sua licença, senhor Samões.
Um burburinho dominava as pessoas que se quedaram na praça vendo os três guardas que se afastavam indolentemente, algo felizes: Morrera um rei, mas pelo menos não iriam passar a noite ao relento atrás de quem não queria ser encontrado.
Estas mortes, no entanto, não anunciavam o fim da tragédia mas sim o seu auge.
Luís morreu no dia seguinte. Parecia ter aguardado pacientemente a chegada do seu executor para o acompanhar no caminho para o inferno.
Louco de dor, André Samões mandou que tocassem fogo na casa de Maria e o processo levou junto duas das casas vizinhas pois as chamas descontroladas não se deixaram dominar com facilidade. Havia mais duas famílias sem-abrigo a juntar ao rol de desgraças que a luta de Luís e José de Sousa causaram.
O Linhaças e o Quim Coxo com a cabeça e uma vista ligadas por uma ligadura suja, cumpriram o odioso trabalho com gosto.
Em vão rebuscaram os escombros ainda fumegantes da habitação na esperança de encontrar o corpo calcinado da jovem que acreditavam estar algures lá dentro.
A fúria consumia o fidalgo que mandou espancar o tio de Maria em plena rua para que lhe dissesse onde se escondia a sobrinha:
- Diz-me onde está essa cabra! – Gritou Samões fora de si para o corpo contorcido de dores e coberto de sangue e hematomas do homem. – Só podes ser tu e a puta da tua mulher quem a esconde.
Atemorizadas, as pessoas não se atreviam a sair à rua. Espreitavam a medo à janela atraídos pelos gritos de socorro do velho e sendo rapidamente despachados para dentro por ameaças dos esbirros do senhor da aldeia.
Como a vítima se limitava a gemer que não sabia de nada, foi agraciado com um forte pontapé nas costelas antes do fidalgo se afastar com uma ameaça:
- Cura-te depressa. Se a bruxa da tua sobrinha não aparecer até à próxima semana, virei cá dar-te outra malha. E assim será todas as semanas até que a tenha nas minhas mãos para lhe dar o corretivo que merece antes de a entregar à Guarda.
Afastou-se a passos largos seguido pelos dois meliantes que lhe guardavam as costas.
Os homens de Samões ainda bateram os montes vizinhos por alguns dias indo até às aldeias vizinhas em busca de informações da fugitiva, mas tudo foi inútil. Maria tinha-se esfumado no ar.
A semana passava-se lenta mas inexoravelmente enquanto a vida na aldeia ameaçava voltar a um normal mas tenso movimento. André Samões fechou-se em casa e saía poucas vezes a não ser para insultar este ou aquele empregado que por infelicidade passava mais próximo das suas fúrias.
Na distante Lisboa coroaram D. Manuel II, filho do infeliz D. Carlos I, que tentava a todo o custo unir o reino órfão debaixo da sua coroa.
Faltava um dia para fazer uma semana sobre a tareia dada a Joaquim e o Linhaças fez questão de ir lembrar o pobre velho e escarnecer da chorosa mulher que lhe pedia pelos Santos todos que tivesse piedade do marido que ainda estava de cama muito mal.
Naquela noite nevou forte. O chão estava coberto com um espesso manto branco e o ar gelado queimava a pele. Parecia congelar até o vapor de água que se soltava da respiração.
No solar, André Samões, entontecido pela embriaguez a que não dava tempo de curar, levantou-se da cama apenas com a longa camisa de noite vestida e o chapéu de dormir na cabeça. Patinhou com os pés descalços no soalho gelado encaminhando-se para as escadas que davam para a cozinha.
Desceu o primeiro degrau da grande escadaria e parou tentando manter o equilíbrio.
Por entre o zumbido que vivia há alguns dias na sua cabeça, escutou, nas suas costas, o patinhar suave do pastor alemão que dormia dentro de casa e que vinha observar o que se passa.
Voltou-se e, qual não é seu espanto, vê o vulto humano calmamente ao lado do cão.
- Que diabo... – A expressão morreu-lhe na boca ao reconhecer a jovem Maria que lhe deitava um olhar de ódio. Uma mão segurava o animal pela trela e a outra empunhava um cajado. – Que estás aqui a fazer sua bruxa? Como entraste? – Repensando a situação, viu que estava em má situação e gritou. - Quim!
O grito morreu-lhe na boca com a bordoada que a jovem lhe acertou na cabeça. O estampido da pancada fez perceber que já estava morto quando rolou desamparado pela escada em cambalhotas grotescas.
O corpo do velho fidalgo quedou-se no fundo encostado à parede dobrado num ângulo impossível para um corpo com vida.
A jovem baixou-se junto do pastor alemão, seu velho amigo, fez-lhe uma festa e beijou-o sobre a fronte antes de se afastar a passos largos para sair por onde entrara.
Quando a Guarda investigou o que se passara, concluiu que o homem, embriagado, perdera o equilíbrio ao descer as escadas e morrera na queda. Não havia sinais de arrombamento e o cão que dormia dentro de casa daria o alarme na eventualidade de haver um intruso. Até porque foi encontrado calmamente sentado ao lado do corpo do dono.
A única suspeita que pôs alguns a pensar foi o relato da filha de uma das criadas internas, com 5 anos, que afirmou ter visto um fantasma todo negro acompanhado de um lobo a vaguear pela casa. Mas as autoridades não fizeram caso da criança.
O ar aqueceu. Maio trouxe as cerejas e os dias de Agosto os calores do inferno que abrasaram a aldeia. Setembro trouxe as vindimas e as idas e vindas das populações que corriam as aldeias a trabalhar nesta ou naquela colheita.
A D. Genoveva, como irmã do falecido, tomou o controlo das propriedades e despediu os dois facínoras que colaboraram em todo o drama.
O Quim Coxo morreu pouco depois. Regressava da sua horta, bêbado e caiu do cavalo batendo com a cabeça numa pedra. Não faltou quem anunciasse a visão de uma mulher de negro a vaguear nos montes.
O Linhaças foi-se da aldeia e nunca mais lhe puseram a vista em cima.
Com o tempo, criava-se a ideia da criatura solitária que vagueava de monte em monte à procura do marido falecido.
A D. Genoveva acabou por falecer também, quase dez anos depois. Esteve no funeral um carro de praça do Porto com alguém da família mas ninguém saiu dele e só a velha criada da senhora falou com o passageiro.
Passado pouco tempo ela própria foi para o Porto para a casa de uns familiares e também não mais se ouviu falar dela.
A propriedade passou para as mãos dos familiares do Porto mas nunca nenhum cá apareceu, era tudo tratado por advogados e mandatários
….
De regresso aos nossos dias, os dois homens conversavam em frente ao imponente solar que acabara de sofrer remodelações.
O mais baixo e gordo, de cabelos curtos e ar risonho e bonacheirão, concluía a história da propriedade de André Samões ao forasteiro aparentando uns trinta anos que sorria prazenteiro:
- Diz-se que a pobre Maria, chamam-lhe a Maria Negra, ainda vagueia por esses montes sem encontrar o marido, morto pelos Guardas e os esbirros do fidalgo. E o solar e as terras estiveram nas mãos da família até agora que o senhor apareceu.
- As terras ainda estão nas mãos da família senhor Botelho. – A voz grave do desconhecido estava decorada com o sorriso que não lhe abandonava o rosto. – O solar foi arranjado porque vai tornar-se uma das Pousadas de Portugal.
- Sabe o meu nome? – O homem mais baixo ficou surpreendido. – Trabalha para a família?
- Então não hei-de saber o nome do presidente da Junta de Freguesia da aldeia onde tenho as minhas propriedades? É verdade, eu sou da família.
Botelho ficou felicíssimo com tal revelação:
- Verdade? Então sempre é verdade que havia um ramo afastado da família Samões no Porto? Dizia-se que era apenas um escritório de advogados que geria tudo.
- Dizem-se muitos disparates meu caro senhor. Na realidade, não sou um ramo afastado, sou bisneto de André Samões. – O estranho arranjou os óculos escuros para apreciar o trabalhador que, suspenso com cordas do telhado, limpava com afinco o brasão de pedra que decorava a testa do solar.
- Bisneto? – O presidente não queria acreditar. – Mas o velho Samões só teve um filho, Luís, que foi assassinado pelo Zé Sobreiro, marido da Maria.
- Correção, meu senhor. – O sorriso do jovem desaparecera do rosto quando se voltou para o interlocutor. – Luís Samões morreu numa luta provocada por ele próprio e que não conseguiu ganhar. José de Sousa matou-o numa situação infeliz e involuntária.
- Mas como pode ser bisneto. Como se chama?
- Meu nome é Bernardo Sobreiro. Sou neto de Maria, viúva de José de Sousa, conhecido por Zé Sobreiro. Nome que a minha avó adotou.
Perante o ar do mais completo pasmo do homem, Bernardo continuou:
- D. Genoveva, minha tia-bisavó, não deixou apenas dinheiro à minha avó Maria, deixou-lhe também um papel que ela, como não sabia ler, só algum tempo mais tarde soube do que se tratava: Era uma cópia do registo de nascimento de uma Maria filha ilegítima de Emília e de André Samões assinada pelo próprio pai.
- E… A sua avó… - Balbuciou o homem
- A minha avó faleceu o ano passado, velhinha mas bem tratada com muito amor pelos seus três netos. Era uma comerciante abastada e estimada no Porto. – Continuou -  Como pode ver, a Maria Negra não reside senão na mentalidade do povo ignorante. Agora se me dá licença, tenho que ir falar com o empreiteiro. Tive muito gosto em conhece-lo pessoalmente e espero vê-lo mais vezes.
Botelho quedou-se mais uns segundos em frente ao imponente solar cheio de vida e operários, observando o jovem herdeiro que caminhava a passos largos para uma herança forjada no sangue dos seus ascendentes.




Fim

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Terras de Xisto - 5ª Parte - Confronto

Regressar a 4ª parte neste link



O som de uma pancada acordou-a e fê-la saltar na cama, sobressaltada.
Sentou-se e pôs-se à escuta.
Lá fora o vento uivava e ouviam-se as gotas de chuva misturadas com a neve que caíam no telhado. Pela janela da sala conseguia ver que era já noite e avizinhava-se tempestade.
Nova pancada, desta feita conseguiu ver que era na porta da varanda que dava para a rua das traseiras.
Sem acender o candeeiro aproximou-se e espreitou pelo vidro da porta, se o quisessem partir, já o teriam feito. No chão da varanda estavam duas pedras do tamanho de um punho e, enquanto olhava, uma outra surgiu em voo resultando em nova pancada.
- Quem é o endemoinhado… - Exclamou abrindo a porta de rompante.
O ar gelado bateu-lhe com força no rosto com a neve molhada enquanto espreitava para a rua e tentava distinguir quem era o homem que se ocultava na escuridão.
- Maria! – Uma voz por demais familiar chamou num sussurro.
- Zé! – Quase gritou – Que fazes aí, homem de Deus, que se te pilham, matam-te. – Tapou a boca rapidamente e olhou para trás como se o Coxo estivesse ali na sua casa.
- Atira-me a chave da loja. – Pediu ele notando-se um sorriso na voz – Depressa que me gelo.
Correu à cozinha, espreitou pela frincha da porta. O “carcereiro” não estava lá, possivelmente procurara um sítio mais abrigado da tempestade. Pegou a chave e atirou-a da varanda.
Atenta, ouviu abrir suavemente a porta da cave e tornar a fechar. Arrastou o mais silenciosamente que pôde a mesa do meio da cozinha e afastou o tapete expondo uma porta que abriu imediatamente.
Do buraco escuro emergiu um vulto rapidamente identificado pelo rosto sujo mas sorridente do Zé Sobreiro e ambos se atiraram nos braços um do outro num abraço fremente de amor e alívio.
De repente a jovem empurra-o e começa a dar-lhe murros no peito e a invectiva-lo:
- Estúpido. Bandoleiro. Que fizeste tu, alma perdida? Como foste capaz de nos levar à perdição desta forma?
O homem, do alto dos seus quase um metro e noventa, abraçou novamente Maria, prendendo-lhe os braços e fazendo-a parecer uma criança nas mãos de um gigante enquanto suplicava:
- Perdoa-me meu amor, mas aquele fideputa fez-me perder a cabeça. Provocou-me, insultou-te e desafiou-me para a luta.
Desanimada, deixou-se prender naquele enorme mas suave amplexo:
- O que foste fazer… Valham-nos todos os Santos…
- Como é que ele está? – Quis saber sem a soltar
- Que o salve o Diabo, porque se Deus o salvar, é por nós e não por ele. – Sentenciou a jovem
- Mas morre? – Afastou-a para olha-la nos olhos com um ar de preocupação.
- Que sei eu? – As lágrimas afloravam novamente aos grandes olhos castanhos – Dizem que o médico não sai do pé dele e que está como morto. Parece que até chamaram um médico do Porto.
- Aquele infeliz… - Abateu-se de olhos no chão. – Sabia que não podia comigo, porque cismava sempre de se bater? Pedi-lhe que me deixasse e acabei por lhe virar as costas. – O tom de voz elevava-se à medida que as recordações acudiam, vivas, à memória. – O bastardo descarregou-me uma varada nas costas e, quando dei por mim, lutávamos os dois furiosamente à bordoada.
Maria benzeu-se rapidamente enquanto ele continuava a narrativa:
- Foi enquanto o Diabo esfrega um olho que o bandalho estava estirado no chão a sangrar da boca e do nariz. Fiquei-me aparvalhado, como se tudo aquilo fosse um sonho, até que o tio Joaquim me agarrou no braço e disse “Vai-te rapaz. Vai-te depressa que te matam.”. Corri como um louco montes fora e só parei na Pala da Ovelha por cima da estrada que vem da Vila.
- Santo Nome de Deus! – Exclamou a jovem. – Os lacaios do Samões correram os montes todos esta noite.
- E eu não os vi? Não acendi fogo nem nada, gelei-me ali aninhado nas pedras noite toda sem um pio.
- Ninguém entrou na Pala?
- O estranho foi isso. O João do Nabal entrou. Não levava archote, olhou a toda a volta e saiu. Ouvi-o dizer aos outros que lá não estava ninguém.
- Acho que desconfiou que lá estavas, é bom homem o João.
- Também achei. Achas que poderá ajudar-nos?
- Não sei. É bom homem mas não desafia o patrão. É melhor não fiar.
- E agora? O que fazemos? – O desalento dele era reforçado pelo cansaço visível nos olhos encovados do rosto tisnado pelo sol.
- Temos que fugir, e depressa. Falei com o João do Nabal e com a D. Genoveva. Todos me dizem que temos que fugir. Queriam que fosse mesmo sem ti, acham que a desgraça maior ainda está para acontecer.
- E vamos para onde?
- Primeiro vamos pelas ruínas da casa da Ribeira. A D. Genoveva, que os anos lhe sejam leves, deixou lá algumas moedas para podermos começar a vida, depois emos de ir a qualquer lado.
- Tenho família em Amarante… - Disse pensativamente.
- Podemos ir, mas não já. Se o Luís morrer, a Guarda há-de estar lá à nossa espera. Nem em Soutelo, nos meus parentes vamos passar. Vamos directos a vau pelo rio em direcção a Alijó e dali ao Porto, como me disse o meu tio. A cidade é grande e não darão por nós tão fácil.
Não tiveram tempo de planear mais. Com um estrondo, a porta da cozinha abriu-se de par em par para permitir a passagem do Quim Coxo e do Linhaças.
- Não te disse que vi o excomungado a entrar aqui? – Perguntou ufano o ultimo.
Zé ergueu o cajado e puxou Maria para trás de si:
- Vinde, filhos da puta, mostrem lá se têm tomates que chegue para me apanharem.
À luz tremeluzente do candeeiro, os dois facínoras olharam-se com um ar de riso:
- Olha, olha. – Gozou o Coxo – Já a formiga tem catarro.
- Tenho aqui uma coisa para ti. – O Linhaças puxou voluptuosamente do cinto um revolver que apontou. – Gostas?
Maria apertou-se contra o Zé que, preocupado, avaliava a situação.
- Julgas que eu sou o patrãozinho armado em heroi? – A boca com poucos dentes soltava perdigotos. – Mas se calhar já não estarás vivo quando lá chegares.
- Depois virei tratar dessa rameira que aí tens. – Ameaçou o Coxo.
Os dois olharam-se novamente e tornaram a rir desabridamente.
Aproveitando a distracção, Zé empurrou Maria para o interior da casa e descarregou pesadamente o bordão na mão armada do Linhaças que uivou de dor:
- Ai filho da puta que me partiste a mão!
Nova bordoada pelos ares e foi a vez de quebrar ossos do Coxo que chocou com força contra a antepara da porta da cozinha.
Como um relâmpago, tornou para o Linhaças que gemia e chorava agarrado á mão partida e apontou-lhe o bordão à cabeça:
- Queres ficar estendido de uma vez, filho de um cabrão? – A voz do Zé estava alterada pelo esforço e pelo ódio. – Não me custa nada matar mais um.
Um estampido ecoou nos ouvidos de todos.
O facínora e o Zé continuavam a olhar-se de olhos arregalados até que este ultimo tomba de joelhos e em seguida de borco largando o bordão que rolou para dentro da sala.
Sem o enorme jovem na frente, o Linhaças pode ver o Coxo deitado no chão empunhando o revólver fumegante que se perdera na refrega.
Um com a mão e outro com o braço partidos, colocaram-se junto ao corpo desacordado.
- Será que o patrão precisa mesmo falar contigo? – O Coxo empunhava a arma apontada à cabeça do ferido. – Ou vamos ter que alombar com um porco morto até ao solar?
Só o zurrar do riso do Linhaças se fazia ouvir no interior da casa.
- Não ouves? – O Coxo gritava – Dá-me uma boa razão para não te mandar para os infernos já.
O outro saltava de excitação enquanto esfregava a mão ferida e gritava:
- Mata-o. Mata esse filho da puta, ou dá-me a pistola que o mato eu. - De repente, um esguicho de sangue salpicou-o e olhou incrédulo o seu companheiro que se abatia pesadamente com uma expressão de espanto no rosto ensanguentado.
Restava Maria em pé empunhando uma sachola sangrenta.
Após uns segundos de hesitação, o Linhaças deu meia volta e desapareceu correndo pela porta da rua, escorregando na neve e chocando com as pessoas que principiavam a amontoar-se à entrada.
A jovem atirou a enxada para o chão, apanhou o bordão e ajudou o Zé a erguer-se:
- Vem meu amor. Vamos embora daqui.
Embora atordoado e a perder sangue abundantemente, abandonaram a casa deixando um rasto vermelho na neve por entre a pequena multidão que abria alas à sua passagem.



domingo, 18 de janeiro de 2015

Terras de Xisto - 4ª Parte - A visita da Guarda

Regressar a 3ª parte neste link



No caminho, estacou à porta da D. Genoveva. Uma casa altaneira toda em granito ostentando um decrépito brasão em pedra deitado ao abandono sujo por limos e pelas pombas que abundavam por ali.
D. Genoveva era a irmã mais velha de André Samões, era viúva de um juiz e muito respeitada na terra. Desde pequena que Maria corria a todo o momento para casa da viúva onde todos gostavam dela. Era acarinhada pela senhora, todos os criados e até o senhor doutor juiz, do alto do seu ar austero, lhe fazia uma festa na cabeça. Quando casou com o Zé Sobreiro, a velha senhora deu-lhes uma bolsa com uma boa soma em dinheiro e lençóis em quantidade tal que os não gastariam na sua vida. Gostava muito do Zé. Apreciava o ar sério e a atenção às conversas. A opinião que sempre tinha para dar sobre todos os assuntos mas, principalmente, da sua frontalidade e honestidade fruto da rudeza da vida.
Após hesitar um pouco, bateu com o pesado batente na vetusta porta de madeira. Arranjou o cabelo, compôs o vestido, limpou as lágrimas à manga do casaco e atirou os ombros para trás mesmo a tempo da porta se abrir por mão da Maria do Reis, a governanta da casa, quase tão velha como a própria patroa.
O rosto enrugado espreitou pela frincha da porta, desde as costas curvadas, de baixo para cima até se quedar no rosto da jovem. Após um franzir de sobrolho, o rosto iluminou-se num sorriso que logo se transformou numa expressão de tristeza:
- Mariazinha, minha filha, que fez o teu Zé, valha-o Deus…
O lábio inferior da mais nova tremeu e as lágrimas quase brotaram novamente da fonte que eram os seu olhos, mas contendo-se, pediu:
- Ti Maria, preciso falar com a D. Genoveva.
A pequena velha abriu a porta de par em par e encerrou-a logo que ela entrou enquanto a fitava entristecida:
- O Quim Coxo acabou de sair daqui com um recado do senhor André. A senhora está muito aborrecida.
- Que lhe disse o excomungado?
- Já sabia que havias de passar aqui e por isso mandou o mafarrico com ameaças. Mas a senhora te contará.
Atravessaram um corredor e chegaram a uma sala, aconchegada pelo calor de uma lareira que crepitava frente a um cadeirão que se encontrava de costas para a porta. A luz da janela descia sobre ele criando uma clareira de luz que a suspensão do pó dava uma aura de santidade. Na parede da esquerda, uma prateleira erguia-se até ao tecto apinhada de livros. Tudo como se lembrava antes. Quantas tardes ali se passaram a folhear os livros cheios de letras que mal percebia e que a D. Genoveva cheia de paciência lhe foi ensinando. Ao lado do cadeirão uma pequena mesa continha vários livros e uma mão magra e ossuda mudava-os de posição. 
- Minha senhora. – Chamou a velha – Está aqui a Maria da Emília para lhe falar.
O recordar assim o nome da mãe trouxe-lhe mais um montão de lembranças. A velha senhora pegava-lhe no colo e chamava-lhe Emiliazinha pois dizia que era um retrato pequenino da mãe e ainda mais bonita que ela.
Uma cabeça repleta de cabelos de prata espreitou pela lateral do cadeirão antes de se erguer agilmente revelando uma mulher alta, rosto enrugado mas corpo esguio envolto numa camiseta aos folhos preta e uma saia de balão da mesma cor ao gosto das famílias abastadas da época. Era uma mulher dura para tempos duros e gozava de boa saúde os seus setenta anos de vida e vinte de viuvez.
A velha senhora enclavinhou as mãos ao peito enquanto caminhava na direção delas com uma expressão mista de tristeza e ternura no rosto pálido ainda belo decorado com uns enormes olhos azuis cheios de vivacidade:
- Minha Mariazinha, pobre querida, que tropelia te arranjou aquele rapaz.
Abraçaram-se com força e as mãos de pergaminho afagaram-lhe a cabeça enquanto ela se entregava livremente às lágrimas:
- Não sei o que faça da vida, minha senhora, parece que me caiu o céu em cima da cabeça.
A empregada chorava silenciosamente tapando a boca com o lenço das mãos.
- Tens que te ir daqui minha filha. Corres perigo. O André mandou cá aquele canalha do Coxo para me avisar que te não ajude.
- Não posso ir. Não quero ir sem o meu Zé. – A recusa surgia entre os soluços no rosto encostado ao peito da idosa.
- Não podes esperar. Se o Luís morre, não sei o que fará, mas estou certa que não será nada de bom.
Maria empertigou-se de repente e, de rosto corado e coberto de lágrimas afirmou na voz mais firme que conseguiu:
- Ele e os dele podem tentar o Diabo comigo, mas, ou me matam, ou hei-de eu levar o Diabo até ele.
Genoveva estremeceu com a determinação que se via no rosto dela:
- Vais precisar muito dessa força, querida menina… Dela toda, pois acho que ainda tens muito que sofrer antes que termine este drama.
- Eu sei, senhora, eu sei. – Assim como surgiu aquela força demolidora, da mesma forma desapareceu e a cabeça dela tombou envergonhada sobre o peito.
A idosa pegou uma bolsa de couro que se encontrava na mesa ao lado do cadeirão:
- Já tinha isto preparado para ti. Não to dou já porque acho que quando fugires, e vais ter que fugir, não estarás com este dinheiro contigo nem conseguirás ir por ele a casa. A Maria irá deixa-lo no forno das ruínas da casa da ribeira. Não é muito, apenas o bastante para poderes começar a vida noutro lado longe daqui. Quando te fores, corres para lá pegas a bolsa e desapareces o mais depressa possível, sozinha ou acompanhada. – Agarrou o pequeno rosto entre as mãos e encostou a cabeça olhando-a nos olhos – Promete-me.
A jovem soltou um suspiro intervalado com soluços e tornou numa voz nasalada como que uma criança apanha em falta:
- Só irei sozinha se o meu Zé estiver morto. E mesmo assim, melhor que esteja eu também.
Os intensos olhos azuis pareceram perder o brilho enquanto descia as mãos do rosto ao longo dos braços de Maria:
- Não te deixes abater pobre criança. Tens tanta vida pela frente.
- Vinha-lhe pedir para me aceitar ao seu serviço, temos tão pouco dinheiro, acaba, não tarda e não sei quanto tempo terei que esperar pelo meu homem…
- Ai valha-te Santa Luzia que te ilumine o caminho, mulher! Não sejas teimosa, corres um perigo muito grande. – A velha criada interveio.
- Estou velha demais para enfrentar aquele monstro abertamente. Dinheiro já tu tens e bastar-te-á ir busca-lo. È a única forma com que me atrevo a desafiá-lo.
Maria olhou o enorme quadro por cima da lareira com o falecido juiz Joaquim Pimentel, marido de Genoveva. Porte altivo, cartola e bengala, olhando de cima de um monte para a extensão de terras que lhe pertenciam. Sempre a fascinara aquele quadro que a fazia olhar para aquele homem como se fosse um rei.
- Se ele ainda fosse vivo, talvez a senhora me pudesse ajudar…
- Quem o pode saber agora. – Genoveva olhava agora para o quadro também – Olha que não era tão boa rês como possas pensar. Tinha muitas coisas más e só Deus sabe que partido tomaria, se o teu ou do mafarrico do meu irmão.
- Vou embora então. – Os olhos vermelhos e tristes enfrentaram a idosa – Não sei mais a quem recorrer mas, como lhe disse, não irei sem o meu marido. Acho que estou grávida e ele ainda não sabe. – A criada sufocou um soluço com o lenço e recomeçou a chorar - Mas penso que devo ao meu filho um pouco mais do que a minha mãe me deixou porque não quero que cresça sem saber o que é ter um pai. Assim que conseguir falar com ele ou tiver forma de lhe entregar um recado com toda a certeza, ir-me-ei. Antes não. Obrigado pelo carinho, amor e apoio que sempre me deu e continua a dar agora, nunca me esquecerei de si minha senhora.
Pegou ambas as mãos da idosa que agora chorava também e levou-as aos lábios antes de se afastar em passos para a porta com a criada a correr atrás dela.
- Não te esqueças! – Genoveva gritou ainda em voz trémula sem abandonar a sala – No forno da casa da ribeira, não te vás sem o levar… Pela alma da minha querida amiga Emília, tua mãe, a quem eu queria mais que uma irmã.
Saiu para a rua após beijar apressadamente a velha criada que chorava inconsolável.
O ar estava mais denso e, desaparecida a névoa, um vento cortante fazia-se sentir debaixo do céu escuro que anunciava neve.
Limpava ainda as lágrimas à manga do casaco quando chegou à porta e, pelo canto do olho, apercebeu-se do mau agoiro que significava o Quim do outro lado da rua embrulhado numa manta e que, com um ar jocoso lhe gritou antes de soltar uma gargalhada:
- Foste ver a tiazinha? Não pode fazer nada pois não?
Uma vez mais bateu-lhe a porta com força quando entrou.
Sentou-se na cama, no seu quarto nas traseiras da casa, pensando no que deveria fazer… Deveria fugir como todos recomendavam? Devia esperar pelo Zé para fugirem juntos? De que seria capaz o André Samões? Será que é mesmo pai e não se atreverá a fazer-lhe mal ou estará aqui a oportunidade de se livrar de uma filha incómoda?
Repentinamente apercebeu-se do silêncio.
Todo o barulho normal da aldeia, os risos das crianças, as vozes das pessoas, os passos na rua. De repente tudo desapareceu ouvindo-se apenas o vento que vinha do vale a assobiar nas janelas.
O sapatear ritmado de cavalos ferrados ouvia-se próximo até estacar junto da porta.
- Ela está lá dentro! – Ouviu-se a voz odiosa e acusadora do Coxo.
- Ò da casa! – Uma outra voz tonitruante chamou do exterior. – Está aí alguém?
No exterior, a voz não insistiu mas Maria abriu a meia porta superior e espreitou.
Dois Guardas montados em imponentes cavalos esperavam frente à porta com o Coxo mais atrás.
O vento estava mais forte e pequenos fiapos de neve esvoaçavam aqui e ali empurrados à deriva.
- Que me querem? – Interrogou o óbvio tentando dar uma firmeza que não sentia à voz.
- És a mulher de José de Sousa, conhecido por Zé Sobreiro? – O mais forte e aparentemente mais velho, dos dois falou com os lábios escondidos por um bigode farfalhudo e com um olhar vivo que procurou imediatamente o dela.
- Sim, sou. Mas ele não está.
- Pois não deve estar, não. – Riu o outro Guarda enquanto desmontava. – Bem bruto seria se estivesse aqui à espera que viesses à pergunta dele.
- Mas temos que verificar a casa. – Recomeçou o outro de cima do cavalo. – Vem aqui para o meu lado rapariga. Que aí o quarenta e três vê se o meliante lá está ou não.
Obedientemente aproximou-se da montada e postou-se de frente para a porta enquanto o Guarda mais novo, de sabre em punho, entrava na casa.
- Ele num ‘tá aí sôr Guarda. – A voz do Quim sentenciou por trás dos dois – Tenho-lhe a porta debaixo d’olho desde ontem e cá não abeirou.
O Guarda permitiu-se um olhar por cima do ombro antes de avisar:
- Sai-me de trás da montada para que te veja.
Obedeceu à ordem com um ar jocoso enquanto repetia:
- O fideputa num está aí, o senhor Samões mandou-me guardar a porta e aqui estou desde ontem.
- És empregado do André Samões? – Inquiriu o Guarda com ar desconfiado e medindo-o de alto abaixo.
- Sim senhor. – Confirmou com uma mesura – O mais dedicado deles, posso assegurar a vossa senhoria.
Maria exibiu uma expressão de asco e afastou-se dele.
- Eh lá cachopa. – Advertiu o cavaleiro – Quietinha aí.
Ela obedeceu com relutância.
Da casa ouvia-se remexer e barulho de panelas a cair.
- Que anda ele a cirandar lá dentro? – Maria impacientava-se. – Dois quartos e uma cozinha demoram tanto tempo a espiolhar?
- Caluda rapariga. – Tornou a advertir. – Ele faz o que precisar de ser feito.
No mesmo instante a porta abre-se e o segundo Guarda sai empunhando uma chouriça inteira que trincava com um ar de satisfação:
- Casa de pobres, eh? Um tinto de estalo e uns enchidos de chorar por mais…
- E o mafarrico? – Inquiriu o outro?
- Num o vi por lá nem rasto dele. – Afirmou enquanto montava. – Por esta altura nem os diabos lhe deitam a mão.
Voltando-se para Maria o mais velho admoestou:
- Nós vamos voltar e ele há-de dar com os costados na jaula. Se estiveres com ele ou o ajudares vais lá parar também. Olha por ti que nós voltamos.
- E vê lá se tens mais um copito e um chouricito prá gente. Não te importas que tenha comido este, pois não? Já estava ali à mão e tudo. – O mais novo riu.
- Não, não tem mal. – Afirmou ela com arrogância. – Já estamos habituados a ser roubados e aqueles chouriços eram mesmo para os porcos.
Maria esquivou-se por um triz ao pontapé que ele lhe atirou enquanto procurava desembainhar a espada.
- Eh lá! Pára lá com isso ò Fonseca. – Gritou o Guarda mais velho rindo-se e segurando-lhe o braço. – Mereceste a resposta. Vamo-nos daqui.
Embora relutante, o outro obedeceu dando a volta à montada e deitando um olhar de ódio à jovem que lhe virou as costas dirigindo-se para casa.
Os primeiros flocos mais pesados começavam a chegar ao chão contra a força do vento que não dava tréguas.
Os dois cavaleiros afastam-se pela rua deserta indolentemente observados por alguns moradores que se atrevem a pôr a cabeça de fora após a sua passagem.
O Quim interceptou-a antes de entrar em casa. Agarrou-lhe o braço, aproximou o rosto do dela e segredou:
- Deixa-o enquanto é tempo. Vem comigo e eu farei de conta que o não vejo. O menino Luís é um bastardo que bem mereceu o que lhe aconteceu.
Num gesto brusco para soltar o braço do aperto, Maria acertou-lhe com a ponta dos dedos de raspão no rosto:
- Vade retro, sorte maldita! Antes ir prá cama com uma ninhada de lacraus.
 Feito isto correu para casa e bateu com a porta deixando o pretendente sozinho na rua sob a observação da vizinhança que, passado o perigo, assomava às janelas sem receio.
- Hás-de pagá-las, cabra maldita. Tu e o cabrão que te montou. És uma cabra estéril mas eu hei-de montar-te até me fartar. – Gritou o desprezado furioso antes de se afastar mancando para o seu posto de vigia.
Os vizinhos começam a fechar as janelas e a recolher-se pois está frio e o espectáculo terminou.
Dentro de casa, atirou-se para cima da cama a chorar a sua desdita e assim esteve tempos infindos até se deixar adormecer pelo cansaço da dor e da noite por dormir.