Debaixo dos Céus Os Mundos de Manuel Amaro Mendonça

sábado, 27 de março de 2004

Tens razão



Tens razão, aliás como sempre,
Que há para dizer mais?
Depois de tanto tempo sem falar,
Tantas palavras que não foram ditas,
Outras tantas que não foram preciso dizer.
Durante tanto tempo, uma eternidade, me parece,
Foste a minha Estrela da Manhã,
A brilhar na génese do meu dia,
Aqueceste-me e ofuscaste-me
Com o teu calor e a tua luz
Ao ser o meu Sol de meio-dia.
E até pela noite estavas comigo,
Lua cheia distante,
Iluminando os meus passos nocturnos.
E eu estava sempre contigo,
E via-te sempre comigo, cabeça com cabeça,
Olhos nos olhos.
E era só fechar os olhos para sentir,
O calor do teu rosto no meu,
O toque aveludado dos teus lábios nos meus.
Mas como sempre tens razão,
Que há para dizer mais?
Excepto que as minhas manhãs,
São um de um ar sombrio,
Porque as estrelas não estão lá.
As minhas tardes ensolaradas,
Estão sem cor,
Dominadas por um tecto de nuvens
Que ameaça chuva.
E as minhas noites…
As minhas intermináveis noites,
São vazias e sem luz,
Com o veludo negro do céu
Manchado por cúmulos errantes e negros.
E eu sinto-te sempre comigo,
Pensamento com pensamento,
Ora odeias-me, ora sofres comigo.
E eu fecho os olhos,
E parece que te encontro,
Algures entre meus conturbados pensamentos,
Voltando para mim o teu olhar triste…
Mas como sempre tens razão,
Que há para dizer mais?
Excepto que te amo e amarei,
Que ficou marcado a fogo no meu coração
O amor que tenho por ti
E que tu deliciosamente correspondeste.
Que está incrustado em minha Alma,
Cada momento que passamos juntos.
Que cada olhar que me consegues dar
É um sol radioso que rompe as nuvens.
Cada sorriso que me dedicas,
É o brilho e a cor que regressam,
Cheias de Esperança.
Conseguimos enfim arrastar o calor do Verão,
Até ao pino do Inverno.
E agora o vento frio e a chuva,
Imperam nos nossos dias,
Porque os deixamos colocar-se entre nós.
E o Estio é uma lembrança distante,
Que eu quero conservar comigo,
Na esperança de algum dia cumprir o meu destino.
Mas como sempre tens razão,
Que há para dizer mais?
Excepto que bons ou maus momentos,
Voltaria viver cada um dos que vivi contigo.
Voltaria a sofrer quando sofri
E a rir quando ri, a amar quando amamos,
Sempre sabendo como tudo iria terminar,
Vivendo um minuto de cada vez.
Mas como sempre tens razão,
Que há para dizer mais?
Excepto que valeu cada minuto,
E que não quero que termine nunca…
Obrigado por existires.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2004

Sal da Vida

Ao fim e ao cabo tudo se resume
À chama que arde
Ao lume que consome o nosso coração.
Calor intenso que em todo o dia que se perde,
Em toda a hora que se esvai,
Queima e cresta a sensível Alma.
Mas não deixes o desespero dominar,
Não desprezes o Sal da Vida
E abana a Árvore da Tentação.
Prova dos seus frutos, aprecia a sua doçura,
E vive ao sabor da vida,
Remando sempre contra a maré.
Não te deixes cair no desânimo
E deixa a Chama arder bem forte no peito.
Assim terás sempre a certeza,
Enquanto a sentires queimar,
Enquanto a adrenalina correr nas tuas veias,
Será certamente porque estás viva.
Mas não deixes o desespero dominar,
Não desprezes o Sal da Vida
E abana a Árvore da Tentação.
Embaraça o empregado do café,
Escandaliza a vizinha da frente,
Inferniza a vida dos teus colegas.
Sente-te viva e sacode a tua vida,
Bem como a daqueles que te rodeiam.
Não te deixes sufocar e agride-os com teu sorriso,
Atordoa-os com teu gargalhar,
Mostra-lhes que a vida deve ser vivida
E que tu fazes questão de o fazer.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2004

Angústia



Não é possível descrever a angustia,
Do querer e não poder ter.
A dor do rasgar da Alma porque,
Ao fincar o pé não me deixo arrastar.
A consciência é o flagelo que Deus nos deixou,
O coração, o instrumento enganador que bate quando não deve.
E a Alma…
A Alma sofre com a antítese constante dos dois.
Mas não é por isso que tudo passa.
Não é pela consciência nos flagelar,
Que o coração deixa de se partir
E a nossa mente voa perdida.
Também eu vagueio pelas recordações,
Suspirando à mais pequena memória tua.
Sinto o coração saltar,
De cada vez que o telemóvel dá mensagem.
A minha respiração sustém-se,
Cada vez que te vejo ou ouço.
As musicas doem ao ouvir porque,
Cada lamento é de uma alma gémea,
Que sentiu e sabe o que eu sinto.
Resta sonhar durante o tempo que resta,
Esperar que passe o tempo que não passa,
Desejar o que não devo desejar
E pedir a Deus o que não devo ter.

quarta-feira, 12 de novembro de 2003

Até que chegues

O vento gelado queima o meu rosto
E os olhos choram com o frio,
Ao olhar a imensidão do mar.
O troar continuo das ondas,
Batendo eternamente nas rochas,
Lembra a inevitabilidade da dor
Associada à força dos sentimentos.
Tambem ela bate continuamente em nós,
Furiosamente, macerando, quebrantando,
Destruindo a força de vontade.
As gaivotas gritam estridentemente
Procurando algures entre as águas,
Um pouco de alimento fisico.
Tambem eu busco neste horizonte imenso
Um pouco de alimento, espiritual.
De olhos estendidos ao céu,
Pensamentos perdidos no anjo que és.
Ao longe um navio demanda o cais,
Cidadela iluminada, consciente do destino,
Enquanto eu erro à deriva na vida.
Sonhos esfarrapados como as nuvens no céu,
Olhos semicerrados, cegos aos erros,
Pensamentos dispersos sem rumo definido.
E aqui ficaria horas desfiadas em dias,
Semanas em linha desdobradas em meses,
Não fosse tu chegares…

quinta-feira, 2 de outubro de 2003

Criação

O mundo era jovem e as estrelas crianças reluzentes,
E nós, os Primeiros daquela raça.
Éramos luz e promessa de vitória,
A Esperança tornada vida.
Os rios eram cristalinos cheirando a alfazema,
Cantando histórias das suas viagens.
Os animais, nossos companheiros,
Acompanhavam-nos e falavam-nos com alegria.
Naquele tempo, o mundo era virgem,
E nós os futuros donos.
Naquele tempo em que o mundo era jovem,
Éramos apenas crianças,
Vigiadas ternamente pelo Bom Pastor,
Que olhava carinhosamente a sua Criação.
Mas não seriamos crianças para sempre
E o brilho do Conhecimento
Refulgiu nos nossos olhos ingénuos,
Abrindo-os e enchendo-os de Sabedoria,
De Bondade e de Maldade.
E de repente sabiamos quem eramos,
Quem poderíamos ser...
E queríamos mais.
O Bom Pastor cobriu a face e chorou,
Ao dar-nos o Conhecimento pretendia tornar-nos melhores...
Mas também Ele comete erros.
E o mundo agora é velho e as estrelas baças e mortiças.
Os rios sem vida
Onde as águas que não são mais cristalinas,
Já não chilreiam mais histórias.
Os animais temem-nos e não nos falam,
Chocados com a nossa mudança.

Desde então que a esperança temo-la nós,
Em cada um dos nossos filhos,
Que seja melhor do que somos,
Que faça mais do que fizemos,
Que tenha mais felicidade que a que temos.

sábado, 9 de agosto de 2003

Calor

Calor.
A mente ferve, o corpo incendeia.
Os pensamentos são difusos,
A imaginação não se refreia,
Os nossos seres estão confusos.
Calor.
A cabeça não funciona,
O corpo verte àgua, sua.
Todo o meu ser se emociona,
Ao sonhar com a boca tua.
Calor.
A noite é imensa, eterna,
As horas não querem passar,
Sonho com a caricia terna
Que teima em não chegar.
Calor.
Esta noite é infernal,
O corpo em àgua se esvai
Só a tua presença não faria mal
Enquanto a consciência se vai.
Calor.
Por fim o sono benvindo,
Onde sonho que estás aqui
Mas quando o sonho é findo
Me apercebo do que perdi.

quarta-feira, 6 de agosto de 2003

Sonho


Dormia calmamente quando senti o toque fresco da tua mão no meu rosto em contraste com o calor que fazia no quarto.
Abri os olhos e vi-te de pé em frente a mim sorrindo como só tu sabes sorrir. Teu cabelo solto criava uma aura em contraluz com a luminosidade que se escoava pela janela atrás de ti.
Tocaste com o indicador nos meus lábios para me impor silêncio. Fechei os olhos por segundos e quando os abri novamente já lá não estavas.
As cortinas da porta do terraço esvoaçavam languidamente ao sabor da brisa noturna.
Ergui-me e caminhei para a porta. A frescura da noite chegou ao meu corpo despido lentamente, sub-repticiamente, envolvente.
E ali estavas de novo, em pé no meio do terraço, qual Eva renascida trazendo contigo o Pecado Original.
Sentaste-te e deitaste-te graciosamente enquanto eu me aproximava, o corpo tenso, ereto em homenagem à tua beleza.
Ajoelhei junto ao Altar do teu corpo, Sacerdote de uma qualquer religião esquecida adoradora de Vénus. Extasiado devido a tão radiosa aparição.
O veludo negro do céu e os diamantes que o ponteavam eram as únicas testemunhas de tão irreal acontecimento, de tão imortal encontro.
Os Deuses, algures no Olimpo, congeminaram esta nossa união que tem tanto de sagrado como de herético. Divertem-se durante vidas inteiras aproximando-nos e afastando-nos a seu bel-prazer mas esta noite deram-nos tréguas.
Os meus lábios tocaram os teus e repousei o meu corpo suavemente sobre ti. Envolvemo-nos num abraço sem tempo, uma união única de corpos e mentes de sintonia total como só acontece uma vez em cada milhão de anos.
Vibramos silenciosamente, rodando, penetrando, sugando loucamente por uma eternidade. Explorei cada ponto da tua geografia, vagueei pelas tuas colinas, acariciei cada contorno das tuas planícies, deixei-me perder no teu mato aveludado e doce, convidativo e húmido.
O tempo deixou de existir e o cenário noturno esbateu-se lentamente até toda a realidade se projetar numa explosão de cores e sentidos desordenados terminada numa lassidão cheia de amor e carinho.
Quando abri os olhos, os primeiros laivos de luz do sol estavam a romper sobre os telhados das casas e eu estava deitado no terraço frio e sozinho.
Foi um sonho?
Eu acho que não.