domingo, 1 de fevereiro de 2015

Rute - 5ª e última parte - Desenlace



No exterior chovia copiosamente. A água caía verticalmente sobre os mortais que corriam, em vão, em busca de abrigo no seu percurso para fazer aquelas coisas que acham importantes.
Ele não corria. Leu a morada borratada num papel encharcado e começou a caminhar, lentamente, depois de deitar fora o pano e colocar a arma no bolso da gabardina.
Ninguém atendia na morada que Aníbal lhe dera, mas o Lância Flavia branco estava no parque de estacionamento em frente. Não podiam estar longe.
A chuva parara há uns minutos atrás, mas os trovões ouviam-se cada vez mais perto e as nuvens acima avisavam que não estavam ainda satisfeitas.
Agora, doía-lhe a cabeça fortemente e a visão, através dos óculos cheios de pingas, parecia um túnel comprido e desfocado.
Encaminhou-se para o veículo decidido a esperar e sentou-se num dos pequenos e encharcados muretes de separação dos veículos. Todo ele era água a escorrer. Com as mãos apertou a cabeça tentando aliviar o sofrimento.
Ao fim de algum tempo, ergueu-se do assento incómodo. Doíam-lhe as pernas nas calças encharcadas e a água tinha conseguido penetrar através da gabardina, ensopando-lhe as costas.
Um relâmpago surgiu, seguido de imediato dum trovão e a chuva recomeçou a cair.
O seu coração batia cada vez mais forte com a pressão da expetativa e o nervosismo da situação… E a cabeça... oh, como lhe doía a cabeça! Latejava, fortemente, como se lhe batessem com um malho.
– Lá vêm eles. – Conseguia já divisar do outro lado da rua o casal que saía de uma esquina, escondido debaixo dum guarda-chuva rosa.
Tirou os óculos e tentou limpá-los com um lenço completamente encharcado que deixou cair… Maldita dor de cabeça!.
Baixou-se para apanhar o bocado de tecido e o mundo explodiu num ferro em brasa que lhe perfurou o crânio e revolteava o cérebro com requintes de sadismo. Um mar de vermelho inundou-lhe a visão como uma cortina que desce e apagou-se completamente…
A dor que o ferrava no rosto tornava-se cada vez mais insistente, obrigando-o a voltar à realidade.
Estava deitado sobre a face no asfalto duro, sujo e molhado. Toda a existência era um universo molhado e uma dor de cabeça do tamanho dele… Tudo estava confuso e ligeiramente turvo, oscilante, mas começando a acalmar. Mas a dor…
– O que é que me acertou? – Perguntava-se, enquanto lutava com o braço esquerdo para o retirar debaixo do corpo.
O membro não queria obedecer e parecia completamente adormecido… Uma onda de pânico começava a invadi-lo, estará partido? Mas não havia dor nele, apenas um formigueiro e uma ausência de sensações.
Sentou-se com esforço… A perna também… A esquerda não parecia funcionar… Pouco a pouco, a enormidade do conhecimento começou a avassalá-lo:
– Estou a ter um ataque? Por Deus, não agora!
Com a mão direita apalpou os óculos. Não se partiram. Em seguida o rosto. Não havia dúvidas, o canto da boca, do lado esquerdo, estava descaído e também quase sem sensação, mesmo por baixo do que parecia ser uma enorme área arranhada consequência da queda.
O seu coração batia desalmadamente e também a vista esquerda estava a falhar.
– Se não me acalmo, apago-me de vez. – Gemeu - Não agora, por favor meu Deus, não agora!.
Arrastou-se para perto do carro e encostou-lhe as costas, arfando, mas tentando recuperar uma respiração normal.
Começou a erguer-se, fazendo força contra o veículo. Afinal a perna esquerda não estava completamente inútil, mas o braço…
O casal estava cada vez mais próximo e a mulher fazia já um olhar de estranheza, na sua direção, ao espreitar por baixo do guarda-chuva.
Ele já estava quase completamente recomposto quando eles estacaram à sua frente:
– João? – Ela reconheceu-o com um misto de medo e dúvida na sua voz – Que fazes aqui? Que é que te aconteceu? Estás doente?
O seu acompanhante, alto, barba e cabelo comprido, envergando uma camisola castanha e grossa, de gosto duvidoso, olhava-o com curiosidade.
– Estarás mesmo preocupada comigo? – Grasnou com as palavras a saíram com dificuldade, pronunciadas por uma língua e uma boca agora preguiçosas.
– A tua cara… A tua boca… - Haveria a ilusão de lágrimas em seus olhos? – Que te aconteceu?
– Não te preocupaste até agora comigo. – novamente o grasnar –Que te interessa isso agora? Só te quero fazer uma pergunta que me atormenta há muito tempo: Porque é que te aproximaste de mim? Para que vieste estragar a minha vida? Foi só dinheiro? Trocaste simplesmente sexo por notas?
– Olha lá, ó tiozinho, - o homem interveio - não achas que te estás a esticar? Que estás para aí a dizer? Que a minha irmã anda na rua?
João, com as lágrimas disfarçadas pela chuva que caía copiosamente, nem ouviu a interrupção. O braço esquerdo completamente inútil, descido ao longo do corpo e a mão direita no bolso da gabardina transformavam-no numa marioneta torcida:
– Eu amei-te. Dei-te a minha vida, aquilo para que vivi. E tu pegaste no dinheiro, arruinaste a minha honra e foste ter com esta miserável desculpa para homem. Não me podias explicar o que se passava? Eu tentaria entender e talvez até aceitar…
Estas últimas palavras foram sacudidas por um forte empurrão que o atirou ao chão diante da apatia e olhar vazio dela.
– Já te disse para teres tento na língua, velhadas. – A ameaça acompanhava o indivíduo junto com o hálito a cerveja, enquanto o agarrava pelos colarinhos e o trazia de volta à vertical de encontro ao carro.
O estrondo surpreendeu-os a todos.
Ela deixou cair o guarda-chuva. João continuava estático subjugado pelo irmão dela que estava tombado sobre ele com os olhos arregalados de incredulidade.
Finalmente, começou a deslizar e caiu numa pose impossível, dobrando o corpo para trás de rosto para a chuva e olhar vítreo.
Um fio vermelho corria do peito e abandonava o corpo, misturando-se com a água na imensa poça que era o parque.
João  olhou para o buraco fumegante que havia agora na sua gabardina, na zona do bolso direito e empunhou a arma, observando-a de todos os ângulos como se nunca a tivesse visto. 
O grito de Rute ecoou, naquele fim de tarde, no parque deserto, enquanto se atirava ao chão para  abraçar o cadáver:
– Mataste-o imbecil! Mataste um homem que vale por vinte como tu. – O olhar dela soltava chispas enquanto apertava contra o peito o corpo sem vida. – Achas que foste alguma coisa para mim? Foste o mais completo anormal que tive em toda a minha vida, “comi-te” porque precisava do dinheiro e da capa que me proporcionavas para as minhas atividades. De outra forma nunca me aproximaria de ti, atrasado, mongoloide!
– Mas eu amava-te. – As palavras dele soaram mais como um pensamento do que como a sentença de morte que eram. Foram seguidas de dois estampidos da arma que agora estava inequivocamente empunhada na direção da mulher que se encontrava de joelhos.
Os longos cabelos encharcados, agora raiados de encarnado, espalharam-se aos pés dele.
– Oh maldita dor de cabeça!. – O revólver estrondeou no chão e ele afastou-se, arrastando a perna penosamente.
Do outro lado da rua, as janelas abriam-se acudindo ao som dos disparos, enquanto silhuetas nervosas gesticulavam e apontavam.
Sentou-se pesadamente no chão penalizado pelos membros sem ação, mas tentando manter a dignidade e as costas direitas.:
– Insinuante! Entrou na minha vida insinuando-se, fugiu dela insinuando-se… Agora sim, pode vir a polícia, as minhas contas estão saldadas e o crédito está igual ao débito.
Deitou-se no chão encharcado e enrolou-se em posição fetal, debaixo da chuva que continuava a cair copiosamente.
– Se ao menos esta dor de cabeça passasse…
De rosto pousado no chão, divisou ao longe os reflexos azuis emoldurados pelo som estridente das sirenes que acorriam para o local. A água respingava ao nível dos olhos, viu os curiosos que se aproximavam da cena, os veículos da polícia que chegavam, os prédios em volta… 
“Nada disto pode ser verdade”, pensou, “É tudo um enorme pesadelo e em breve tudo voltará ao normal”.
Fechou lentamente os olhos e o seu coração, esgotado e partido, parou de trabalhar.



FIM



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Rute - Apresentação







1 comentários:

Everson disse...

è um bom enredo... drama, misterio, incesto, drogas... Espero nao encontrar nunca uma Rute pela frente.

E agora? Precisamos mais contos... quando sai o proximo????

Um abraço e continue com seu bom trabalho!