No exterior chovia
copiosamente. A água caía verticalmente sobre os mortais que corriam, em vão,
em busca de abrigo no seu percurso para fazer aquelas coisas que acham
importantes.
Ele não corria.
Leu a morada borratada num papel encharcado e começou a caminhar, lentamente,
depois de deitar fora o pano e colocar a arma no bolso da gabardina.
Ninguém atendia na
morada que Aníbal lhe dera, mas o Lância Flavia branco estava no parque de
estacionamento em frente. Não podiam estar longe.
A chuva parara há
uns minutos atrás, mas os trovões ouviam-se cada vez mais perto e as nuvens
acima avisavam que não estavam ainda satisfeitas.
Agora, doía-lhe a
cabeça fortemente e a visão, através dos óculos cheios de pingas, parecia um
túnel comprido e desfocado.
Encaminhou-se para
o veículo decidido a esperar e sentou-se num dos pequenos e encharcados muretes
de separação dos veículos. Todo ele era água a escorrer. Com as mãos apertou a
cabeça tentando aliviar o sofrimento.
Ao fim de algum
tempo, ergueu-se do assento incómodo. Doíam-lhe as pernas nas calças
encharcadas e a água tinha conseguido penetrar através da gabardina,
ensopando-lhe as costas.
Um relâmpago
surgiu, seguido de imediato dum trovão e a chuva recomeçou a cair.
O seu coração
batia cada vez mais forte com a pressão da expetativa e o nervosismo da
situação… E a cabeça... oh, como lhe doía a cabeça! Latejava, fortemente, como
se lhe batessem com um malho.
-
Lá vêm
eles. – Conseguia já divisar do outro lado da rua o casal que saía de uma
esquina, escondido debaixo dum guarda-chuva rosa.
Tirou os óculos e
tentou limpá-los com um lenço completamente encharcado que deixou cair… Maldita
dor de cabeça!.
Baixou-se para
apanhar o bocado de tecido e o mundo explodiu num ferro em brasa que lhe
perfurou o crânio e revolteava o cérebro com requintes de sadismo. Um mar de
vermelho inundou-lhe a visão como uma cortina que desce e apagou-se
completamente…
A dor que o
ferrava no rosto tornava-se cada vez mais insistente, obrigando-o a voltar à
realidade.
Estava deitado
sobre a face no asfalto duro, sujo e molhado. Toda a existência era um universo
molhado e uma dor de cabeça do tamanho dele… Tudo estava confuso e ligeiramente
turvo, oscilante, mas começando a acalmar. Mas a dor…
-
O que é
que me acertou? – Perguntava-se, enquanto lutava com o braço esquerdo para o
retirar debaixo do corpo.
O membro não
queria obedecer e parecia completamente adormecido… Uma onda de pânico começava
a invadi-lo, estará partido? Mas não havia dor nele, apenas um formigueiro e
uma ausência de sensações.
Sentou-se com
esforço… A perna também… A esquerda não parecia funcionar… Pouco a pouco, a
enormidade do conhecimento começou a avassalá-lo:
-
Estou a
ter um ataque? Por Deus, não agora!
Com a mão direita
apalpou os óculos. Não se partiram. Em seguida o rosto. Não havia dúvidas, o
canto da boca, do lado esquerdo, estava descaído e também quase sem sensação,
mesmo por baixo do que parecia ser uma enorme área arranhada consequência da
queda.
O seu coração
batia desalmadamente e também a vista esquerda estava a falhar.
-
Se não
me acalmo, apago-me de vez. – Gemeu - Não agora, por favor meu Deus, não
agora!.
Arrastou-se para
perto do carro e encostou-lhe as costas, arfando, mas tentando recuperar uma
respiração normal.
Começou a
erguer-se, fazendo força contra o veículo. Afinal a perna esquerda não estava
completamente inútil, mas o braço…
O casal estava
cada vez mais próximo e a mulher fazia já um olhar de estranheza, na sua
direção, ao espreitar por baixo do guarda-chuva.
Ele já estava
quase completamente recomposto quando eles estacaram à sua frente:
-
João? –
Ela reconheceu-o com um misto de medo e dúvida na sua voz – Que fazes aqui? Que
é que te aconteceu? Estás doente?
O seu
acompanhante, alto, barba e cabelo comprido, envergando uma camisola castanha e
grossa, de gosto duvidoso, olhava-o com curiosidade.
-
Estarás
mesmo preocupada comigo? – Grasnou com as palavras a saíram com dificuldade,
pronunciadas por uma língua e uma boca agora preguiçosas.
-
A tua
cara… A tua boca… - Haveria a ilusão de lágrimas em seus olhos? – Que te
aconteceu?
-
Não te
preocupaste até agora comigo. – novamente o grasnar –Que te interessa isso
agora? Só te quero fazer uma pergunta que me atormenta há muito tempo: Porque é
que te aproximaste de mim? Para que vieste estragar a minha vida? Foi só
dinheiro? Trocaste simplesmente sexo por notas?
-
Olha lá,
ó tiozinho, - o homem interveio - não achas que te estás a esticar? Que estás
para aí a dizer? Que a minha irmã anda na rua?
João, com as
lágrimas disfarçadas pela chuva que caía copiosamente, nem ouviu a interrupção.
O braço esquerdo completamente inútil, descido ao longo do corpo e a mão
direita no bolso da gabardina transformavam-no numa marioneta torcida:
-
Eu
amei-te. Dei-te a minha vida, aquilo para que vivi. E tu pegaste no dinheiro, arruinaste
a minha honra e foste ter com esta miserável desculpa para homem. Não me podias
explicar o que se passava? Eu tentaria entender e talvez até aceitar…
Estas últimas
palavras foram sacudidas por um forte empurrão que o atirou ao chão diante da
apatia e olhar vazio dela.
-
Já te
disse para teres tento na língua, velhadas. – A ameaça acompanhava o indivíduo
junto com o hálito a cerveja, enquanto o agarrava pelos colarinhos e o trazia
de volta à vertical de encontro ao carro.
O estrondo
surpreendeu-os a todos.
Ela deixou cair o
guarda-chuva. João continuava estático subjugado pelo irmão dela que estava
tombado sobre ele com os olhos arregalados de incredulidade.
Finalmente,
começou a deslizar e caiu numa pose impossível, dobrando o corpo para trás de
rosto para a chuva e olhar vítreo.
Um fio vermelho
corria do peito e abandonava o corpo, misturando-se com a água na imensa poça
que era o parque.
João olhou para o buraco fumegante que havia agora
na sua gabardina, na zona do bolso direito e empunhou a arma, observando-a de
todos os ângulos como se nunca a tivesse visto.
-
Mataste-o
imbecil! Mataste um homem que vale por vinte como tu. – O olhar dela soltava
chispas enquanto apertava contra o peito o corpo sem vida. – Achas que foste
alguma coisa para mim? Foste o mais completo anormal que tive em toda a minha
vida, “comi-te” porque precisava do dinheiro e da capa que me proporcionavas
para as minhas atividades. De outra forma nunca me aproximaria de ti, atrasado,
mongoloide!
-
Mas eu
amava-te. – As palavras dele soaram mais como um pensamento do que como a
sentença de morte que eram. Foram seguidas de dois estampidos da arma que agora
estava inequivocamente empunhada na direção da mulher que se encontrava de
joelhos.
Os longos cabelos encharcados, agora raiados
de encarnado, espalharam-se aos pés dele.
-
Oh
maldita dor de cabeça!. – O revólver estrondeou no chão e ele afastou-se,
arrastando a perna penosamente.
Do outro lado da rua, as janelas abriam-se
acudindo ao som dos disparos, enquanto silhuetas nervosas gesticulavam e
apontavam.
Sentou-se pesadamente no chão penalizado
pelos membros sem ação, mas tentando manter a dignidade e as costas direitas.:
-
Insinuante!
Entrou na minha vida insinuando-se, fugiu dela insinuando-se… Agora sim, pode
vir a polícia, as minhas contas estão saldadas e o crédito está igual ao
débito.
Deitou-se no chão encharcado e enrolou-se em
posição fetal, debaixo da chuva que continuava a cair copiosamente.:
-
Se ao
menos esta dor de cabeça passasse…
De rosto pousado no chão, divisou ao longe os
reflexos azuis emoldurados pelo som estridente das sirenes que acorriam para o
local. A água respingava ao nível dos olhos, viu os curiosos que se aproximavam
da cena, os veículos da polícia que chegavam, os prédios em volta…
“Nada disto pode ser verdade”, pensou, “É
tudo um enorme pesadelo e em breve tudo voltará ao normal”.
Fechou lentamente os olhos e o seu coração,
esgotado e partido, parou de trabalhar.
FIM





1 comentários:
è um bom enredo... drama, misterio, incesto, drogas... Espero nao encontrar nunca uma Rute pela frente.
E agora? Precisamos mais contos... quando sai o proximo????
Um abraço e continue com seu bom trabalho!
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