segunda-feira, 13 de abril de 2015

Corrécio 4ª e última parte - Achado macabro



Tinham almoçado há cerca de duas horas e ele regressava da segunda  caminhada da tarde, arrastando-se atrás do Catita quando se percebe do alvoroço junto dos vindimadores e de um grupo deles que desaparece a correr pelo carreiro abaixo que vai em direção ao rio.
-         Que aconteceu ti Luisa? - Perguntou a uma mulher que olhava para lá com as mãos na cabeça.
-         Ai, valha-me Deus, Zé. - Veio agora aqui um dos “canalhitos” do Quim Ferreiro dizer que aconteceu uma desgraça lá no rio quando tomavam banho. O filho do Tião escorregou do alto das fragas e caiu à agua. Andam à pergunta dele que não aparece.
Zé amarrou o Catita e correu atrás dos outros.
Junto à margem do rio, metiam respeito as escarpas rochosas que se erguiam de ambos os lados a umas boas dezenas de metros de altura.
Em ambas as margens, grandes fragas ovais circundavam as águas que formavam um lago naquele local antes de se precipitarem de novo  velozmente em direção à foz.
Devido à profundidade, as crianças das duas aldeias usavam frequentemente aquela bacia para tomarem banho nos dias quentes.
Estava já uma multidão à volta do lago. Havia homens em cima das fragas enquanto outros mergulhavam tentando chegar à criança afogada.
No areal algumas mulheres e crianças choravam ruidosamente enquanto, com os pés dentro de água, a tremer, um dos irmãos do desaparecido gritava e chorava o nome dele.
Apesar de ter chovido fortemente há poucos dias atrás, o caudal do rio baixara de dia para dia permitindo a que alguns homens atravessassem a vau para a outra margem.
-         Já o achei! - Gritou um dos homens que mergulhavam. - Está preso nas pedras, no fundo.
-         Arranjem uma corda, ou um gancho. - Gritou outro.
Num instante, vindo não se sabe de onde, já uma corda com um gancho em ferro passa de mão em mão até chegar ao mergulhador que   se atira novamente ao fundo.
Passados uns segundos ele volta e faz sinal para puxarem.
Vários homens fazem força na corda que acaba por ceder e logram puxar o corpo da infeliz criança do fundo do rio.
Logo aparece à superfície um corpo, de bruços e a gritaria e os choros recomeçam após alguns minutos sem respirar à espera do desenrolar da tragédia.
Quando o “mergulhador” se chega ao corpo o o volta, porém, um coro de gritos e exclamações de espanto invade toda a audiência; o corpo que tiravam do rio, não era de uma criança. Era um homem feito, de cabelo claro e barba fina e bem tratada, com o rosto cinzento e os olhos abertos numa terrível máscara de espanto.
-         É o Manel Seminarista! - Gritou alguém.
-         Valha-me Nossa Senhora dos Aflitos! - Gritou uma mulher é o meu sobrinho! Manel, Manel!
Gerou-se o caos com uns a correr para o cadáver outros a correr monte acima para levar a novidade às aldeias.
-         Mas. - O capataz dos Mello chegou ao pé do morto agora deitado numa fraga. - Diziam que fugiu com a menina Paula... Vejam, tem o saco das moedas ainda preso na cintura.
José já tinha visto o suficiente e afastou-se começando a caminhar vagarosamente em direção à aldeia.
Junto ao rio, a confusão continuava:
-         E o rapazito? Temos que achar o rapazito. Esse daí já não precisa de ajuda. - Disse outro homem atirando-se de novo à água.
Vários outros mergulhadores voltaram a fazer-se à água e a revolver os fundos lodosos da lagoa em busca da criança.
Francisco e alguns outros aproveitaram a deixa para revistar o corpo. Nos bolsos encontraram, todos borratados, os bilhetes de comboio e nas costelas havia um ferimento e um pedaço de metal espetado... teria tido um acidente? E que seria então de Paula? Terá fugido? Mas deixou o cavalo também...
As horas passavam-se e os homens começavam a ter dificuldades em manter o ritmo de mergulhos e já faltava esquadrinhar pouco do fundo do lago.
-         Rapazes! Eh, rapazes! - Um outro homem chamava a jusante do rio, mesmo junto da curva. - Vinde cá, depressa.
As pessoas que por ali andavam estavam completamente desconcertadas com o desenrolar dos acontecimentos mas foram vários os que acudiram ao chamado.
No local onde uma velha árvore caíra sobre o rio, estava o corpo sem vida do miúdo. Nos mesmos ramos, mais à frente, estava encravado o cadáver da jovem Paula, vestida à homem e embrulhada num tecido branco. Os olhos verdes, sem vida pareciam implorar ao céu enquanto a cabeça repousava sobre uma imensa aura feita pelo seu cabelo dourado.
Francisco, estarrecido, não estava certo do que fazer mas deu ordens aos homens que trouxessem os cadáveres todos para o mesmo sítio e preparassem umas padiolas para os levar para a aldeia e dar conhecimento ao seu patrão.
Entretanto apareceu um homem com uma turquês, logo seguido por um grupo de curiosos.
Voltaram o corpo do Seminarista e, com a ferramenta, extraíram a peça de metal encravada nas costelas; todos viram perfeitamente que era a lâmina trabalhada de uma faca partida pelo punho.
-         É a faca do Corrécio! - Gritou o Quim da Ribeira.
Entretanto José estava já a chegar à aldeia. Deixara o Catita lá em baixo, mas agora já nada mais interessava.
Pela sua cabeça passavam as imagens de tudo o que acontecera no dia anterior:
Depois de bater em Maria dos Anjos saiu, furioso, decidido a fazer uma espera ao Sardinheiro e dar-lhe as pancadas suficientes para que ele não se tornasse a meter na sua vida. Como a casa dele ficava no extremo da povoação, acoitou-se num casebre abandonado e foi bebendo enquanto esperava.
Completamente embriagado acabou por adormecer e não deu pela passagem do seu inimigo e nem este se apercebeu que esteve quase para terminar mal a sua noite.
Ainda não tinha nascido o sol quando José acordou com o barulho de cascos de cavalo nas pedras.
Espreitou e viu um homem franzino montado num cavalo, também ele pequeno, que avançava pelo caminho que levava às vinhas das ribeiras e à aldeia vizinha.
Percebeu logo que deveria ser Paula e seguiu o cavaleiro a corta mato, estando umas vezes mais à frente e outras mais atrás.
Por fim, aproveitando uma curva larga do caminho, adiantou-se e chegou primeiro à clareira onde Manuel Seminarista já esperava, algo distanciado do seu cavalo.
Nas sombras difusas, José colocou-se entre ele e a montada e falou-lhe:
-         Como conseguiste?
Manuel assustou-se e tentou divisar no escuro quem lhe falava. Mudou de posição e conseguiu ver o rosto do interlocutor:
-         Zé.... - Reconheceu-o – A Paula tinha-me dito que podias causar problemas.
-         Como conseguiste pilha-la, sacana? - Ele insistiu – Como a fizeste cair nas tuas lérias padreco fingido?
-         Eu não sou padre... nem vou ser. - Manuel desculpou-se olhando para o chão.
-         Falso, maldito. A roubar as mulheres dos outros...
-         Não digas isso, se pudesses eras tu quem a levava, não eras? Também tu a roubavas ao bruto do Henrique Mello.
-         Henrique?!? - José soltou um riso nervoso – Ela não é desse espantalho, ela é minha! Sempre foi.
-         Zé, tem calma. Isso já passou, ela mesma me disse que não há nada entre vocês. Apenas houve um namorico de crianças.
-         Ela é minha! - Gritou Corrécio fora de si. - E tu vais já embora daqui. Pega esse bilhete que tens e apanha o comboio e desaparece. Falso padre, bandalho.
-         Isso não vai ser possível. - Manuel estava decidido. - Ela deve estar a chegar. Vai tu embora, não tornes as coisas mais difíceis do que são.
-         Já te disse que quem vai embora és tu. Desaparece!
-         Estás louco? Porque hás-de assustar a mulher que ambos amamos? Ela quer ir comigo, deixa-a, resigna-te, se queres mesmo a felicidade dela.
-         A felicidade dela há-de ser comigo! - E dito isto atirou-se ao Seminarista com uma tempestade de socos que o jovem só conseguiu defender-se de alguns.
Depressa estavam os dois envolvidos numa luta silenciosa, a rolar no chão, tentando cada um ter a supremacia sobre o outro.
Por fim, José, mais forte e com mais prática de luta, deixou Manuel atordoado no chão e levantou-se, assestando-lhe dois violentos pontapés:
-         Vais embora ou não vais? - Sussurrou Zé ao ouvido da sua vítima.
-         Sim, vou, eu vou. - O outro gemeu enquanto se erguia agarrado às costelas. - Mas antes acabo contigo!
E dito isto atira-se novamente sobre o Corrécio. Estão ambos perigosamente perto do penhasco que desce em linha reta para as fragas no rio. Uma faca brilha no escuro e os gemidos de Manuel denunciam as duas facadas que recebeu por entre as costelas. José fez questão de remexer a faca na ferida e deixar o corpo do outro pendurado na estocada.
Estão assim os dois abraçados quando Paula sai das sombras e se apercebe do que se passa:
-         Zé, Manuel! Que fazem? Parem já com isso!
Surpreendido, Corrécio empurra o corpo do seu oponente para longe de si sem mostrar a faca que estava cravada.
Manuel cai de joelhos e rebola do penhasco para o vazio, sem um gemido, ouvindo-se a pancada surda nas pedras e logo a seguir na água.
Paula soltou um grito terrível ao assistir a toda a cena.
-         Espera, meu amor, tem calma. - Zé tentava acalma-la mas ela, de cada vez que ficava sem fôlego, inspirava e recomeçava a gritar. - Não grites, espera, fujamos nós, espera.
Ela continuava a emitir gritos desesperados, completamente rígida pelo horror e o pânico. Corrécio tenta desesperadamente cala-la tapando-lhe inutilmente a boca e balbuciando palavras desconexas. Por fim conseguiu cala-la apertando-lhe o pescoço. Apertou, apertou e apertou até que ela se imobilizou.
Esgotado, Zé deixou-a cair e sentou-se ao lado dela no chão:
-         Vês? Porque não te calaste? Eu não te queria fazer mal.
Ao fim de um bocado ficou finalmente consciente que ela não se mexeria mais. Andou em círculos sem saber o que havia de fazer e aproximou-se da borda do penhasco. Não se conseguia ver nada mas ouvia-se o rugir do rio ainda forte pelas chuvadas de há uns dias atrás.
Junto da égua de Paula estava uma pequena trouxa com a roupa feminina que estava combinado trazer. Abriu-a, tirou a saia branca  comprida e embrulhou o corpo franzino da jovem. Colocou alguns pedaços de xisto da casa arruinada ali perto e rolou o embrulho pela borda do penhasco.
De novo a pancada surda nas fragas antes da pancada final na água.
Pegou os dois cavalos pela arreata e desceu todo o caminho até à estação dos comboios onde os amarrou nas argola existente para o efeito.
Os montes a nascente pintavam-se já de vermelho quando Zé, sem fôlego, completamente esgotado pela caminhada de quilómetros sempre a subir, entra em casa cambaleante.
Fora exatamente assim que tudo se passara ontem, esta madrugada... e parecia que tinha sido há um milhão de anos.
José abriu a porta de casa e lá estava Maria dos Anjos a preparar a ceia, boa esposa e submissa.
-         Já cá estás? - Ela admirou-se. - Já acabou a vindima nas ribeiras?
Sem lhe responder, de olhos fixos no infinito, ele pega numa cabaça com vinho, bebe três longos goles e senta-se à mesa.
Após um longo silêncio, com a mulher a olha-lo, assustada, ele olha-a e com lágrimas nos olhos pergunta-lhe:
-         Que vai ser de ti e dos nossos filhos, mulher?


Epílogo


É ali, calmamente sentado à mesa em sua casa, numa calma e serenidade que nunca teve, que o Regedor, acompanhado dos voluntários do Concelho vai dar-lhe voz de prisão.
Levaram-no, com as mãos amarradas, até uma carroça, seguido de perto pelo pranto da mulher da mãe e dos filhos.
João e Mariana choravam à porta da taberna não se sabe se pela infelicidade da filha se pela desgraça do genro.
A aldeia em peso, uns escondidos, outros à vista, observaram o triste cortejo como quem segue um funeral.
Apenas os dois jurados inimigos, o Sardinheiro e o Quim, voltaram as costas com um “bem feito!” para se irem emborrachar na taberna.

A partir daí tudo foi muito rápido. Preso e julgado no tribunal da vila, foi sentenciado à morte.
Ainda esperou perto de um mês para que chegasse a carta do rei com a recusa para o pedido de clemência feito em seu nome.

Foi numa manhã fria e chuvosa de Dezembro que o tiraram da cela escura e húmida e o levaram numa carroça pelas ruas da vila até ao largo onde estava erguida a forca.

Assim se acabou o Zé Corrécio, como o seu sonho num amor impossível; pendurado sem esperança numa corda. 




FIM



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1 comentários:

Fernando Morgado disse...

Excelente conto, quer pela história fantástica que reporta um tempo e um modo comum a uma época, quer pela plasticidade dos personagens e enredos e pela beleza cromática que expõe ao leitor, quer ainda pelo documentário que fica.
Este conto leva-nos para as origens de certas alcunhas e para as razões da toponímia antiga, rica pela memória que guarda dos nossos antepassados, pessoas e localidades.
Penso que este conto pode crescer e melhorar, numa reedição que ocorra ao Manuel Amaro Mendonça.
Lê-se com cativação e agrado, ficando, como já disse, a vontade de ler mais, desatando alguns nós em que prende o leitor.
Parabéns, Manuel Amaro.