segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Homenagem a Isidro Sousa (1973-2020)


 "É tão longe voltar atrás."

É assim que começa este vídeo, publicado no final desta página, que organizei com imagens de domínio público obtidas no Facebook do Isidro Sousa e da sua Editora Sui Generis. Quando li esta frase, obtida na sua própria cronologia, achei que caía como uma luva na personalidade dele.
Conheci o Isidro há relativamente pouco tempo, em 2015, quando estava ainda a dar os meus primeiros (e tardios) passos na publicação, mas desde logo criou-se entre nós uma grande empatia. 
Acompanhou e incentivou os meus planos e inclusivamente escreveu o prefácio para o meu segundo livro "Lágrimas no Rio", que tantas vezes elogiou.
Algures no passado, antes de o ter conhecido, ter-se-á perdido no seu caminho no mundo da escrita, ou tomou um atalho "menos bom" durante demasiado tempo e aquilo que ele poderia ter sido, transformou-se num planar lento, em direção à inevitável queda.
Em 2015, estava numa fase de luta para se reerguer e tomar o seu lugar no palco das letras, ajudando e ajudado pelos escritores "desconhecidos" (ou simples amantes das letras que desejavam ardorosamente publicar). Depois de uma passagem curta, mas intempestiva, pelas editoras "Silkskin" e "Papel D'Arroz", geridas pela também já desaparecida Teresa Queiroz, com quem se incompatibilizou, partiu para o caminho da concretização de um sonho antigo; a criação da sua própria editora. Estavam criadas as raízes para a "Sui Generis".


Nos anos seguintes, numa atividade febril, lançou e publicou diversas antologias de autores portugueses e brasileiros, num mercado de autores ávidos por publicar e que já era largamente explorado pelas já atrás referidas editoras. A sua diferença seria um maior cuidado na escolha dos trabalhos, em termos qualitativos, maior qualidade na organização e paginação e capas mais artísticas e imaginativas. Os candidatos a escritores participavam nas antologias em troca da aquisição de um ou dois livros da produção (na maior parte das vezes eram adquiridos mais, força do prazer em oferecer a amigos e família).



Durante algum tempo, tudo pareceu estar a entrar nos eixos. Os projetos sucediam-se com elevado número de participantes e apresentações ao vivo, bastante concorridas e com um "glamour" que só ele sabia atribuir. Na trajetória ascendente, lança a revista "SG Mag", atrás de outras de algum sucesso, como a "Divulga Escritor" e a "Conexão Literatura", onde chegou a participar sob a forma de entrevistas e artigos.  Foram várias as edições, profusa e elegantemente ilustradas, dando a conhecer os autores do "Mundo Sui Generis" e divulgando as suas atividades, até aquelas que não lhe proporcionavam qualquer lucro. A própria revista não cobrava nada pelas participações, ao contrário das congéneres em que se baseara. 

De repente, porém, a sua Némesis destrutiva regressou e o negócio que aparentemente poderia pagar-se a si próprio, começou a decair; grandes demoras na entrada em produção das antologias dadas como terminadas e atrasos sucessivos na entrega dos volumes já pagos pelos participantes. Poderemos aventar que os problemas eram causados pela sua incessante busca da perfeição, com revisões e paginações demasiado demoradas ou que a crise financeira que o mundo vivia fez com que o número de participantes descesse. O que é certo, é que grande parte dos autores começaram a desistir, tirando um "núcleo duro" de amigos (alguns dos quais publicaram obras individuais com a Sui Generis) e outros novos que chegavam a esta oportunidade de publicação. Os lucros com a obra feita esfumaram-se, mal geridos ou não e nos últimos tempos, as suas antologias tão participadas e pagas, eram agora propostas ao público como participações sem obrigatoriedade de aquisição. Até a sua amada "SG Mag" tinha de apelar á colaboração, começando a apresentar a modalidade de participação paga.

Aquilo que sempre admirei nele, era o seu honesto esforço em liquidar os compromissos assumidos, entregando antologias já pagas há muito tempo e não aceitando mais retribuição por isso, apesar da muita falta que lhe fazia. Passaram-se assim os últimos tempos, após uma mudança brusca de Lisboa para o Porto, em busca de serenidade e espaço para poder continuar a trabalhar, porém, estas duas comodidades não lhe traziam outra de que era tão necessitado: o dinheiro. Nas últimas vezes que estive com ele, ou "falei" pelo Messenger do Facebook, era notório o cansaço e o esforço que estava ser feito e a sensação do trabalho inglório, na tentativa de repor a sua imagem. O terrível momento que vivemos, atemorizados por um inimigo invisível que ataca e mata sem se perceber muito bem de onde aparece, afetando com violência os mais frágeis, obrigando à separação física entre as pessoas e o fim das reuniões que lhe iam dando algum alento, deve ter sido para além do suportável. A notícia do seu desaparecimento, embora atordoante, não foi uma completa surpresa.

A enorme quantidade de expressões de dor e tristeza pelo acontecimento são às centenas onde se recorda o ser humano excecional que era, que cultivava amizades com grande facilidade e que nos cativava facilmente com os lampejos de genialidade e da energia criativa que o moviam.


Ele era assim, criava facilmente pontes com as pessoas e era muito fácil de começar imediatamente a considera-lo um amigo. Talvez por isso me acudisse imediatamente à ideia a música "Bridge Over Trouble Waters" de Simon & Garfunkel, porque era exatamente o que ele era; uma ponte sobre águas revoltas. Gostasse-se dele ou não, por preconceito, incompatibilidade de carácter, ou simples antipatia, ele foi, no espaço de tempo de um cometa a rasgar o céu, uma luz brilhante no firmamento dos escritores iniciantes.

Passado o choque e digerida a dor da perda de um bom amigo, senti que não podia deixar de escrever umas palavras por ele e fazer esta singela homenagem que espero perdure e ajudem a manter a memória do Isidro Sui Generis.
  
Biografia publicada na revista Divulga Escritor em 2015
Isidro Sousa nasceu em 1973, numa aldeia remota das Terras do Demo, e vive em Lisboa. Editou a revista Korpus (1996-2008), dirigiu o jornal Púbico (2008-2012) e produz anualmente o guia turístico Lisbon Gay Guide. Entre 2014-2015, participou em dezenas de obras colectivas (Portugal e Brasil) e foi distinguido com o 2º Prémio no 5º Concurso Literário da Papel D’Arroz. Organizou: «1ª Antologia de Literatura Homoerótica Portuguesa» (com o patrocínio da Câmara Municipal de Lisboa), «A Bíblia dos Pecadores» (lançamento em Fevereiro), «Boas Festas» (Silkskin Editora) e «O Beijo do Vampiro». Dirige a Colecção Sui Generis e tem a decorrer duas novas antologias: «Vendaval de Emoções» e «Ninguém Leva a Mal». Editará brevemente «De Lírios», compilação de textos publicados em várias colectâneas, «O Pranto do Cisne» (contos homoeróticos) e «Juno e Java», o seu primeiro romance.


Veja a seguir
Isidro Sousa: É Tão Longe Voltar Atrás



  

1 comentários:

o nò nas tranças disse...

Bonjour , mon ami, Manuel Mendonça,
Somente hoje vi esta homenagem merecida ao amigo Isidro e fiquei sem palavras para lhe dizer o meu'' Merci'', do fundo do meu coraçao apesar de me ter feito chorar de emoçao com as suas palavras.Foi um resumo tão pertinente e justo cheio de compaixão pela ''vida que lhe foi madrasta''ao nosso amigo...
Fez-me recordar a ultima vez que estive com ele num café, antes desta pandemia, estava ou parecia-me ''mais feliz'' de ter mudado de Campanha para mais perto do centro do Porto...
Como nao tinha acesso ao seu blogue, foi um mero acaso hoje, no dia de aniversario da nossa querida amiga Suzette, que ''lá fui parar'' e isto, para mim 'e um sinal que lá no Reino de Deus aonde o nosso amigo ISIDRO se encontra, a sua alma está em paz e agradecido por tão bela homenagem.
Bem haja.Felicitations.
P.S. Nao me esqueci que lhe encomendei outro seu excelente livro ''Lagrimas no Rio''..uM ABRAÇO..Olimpia Gravouil