terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Traição

 


Na penumbra da sala, reinava pesadamente o silêncio, apenas interrompido a espaços pelo crepitar do fogo na lareira. Lá fora o vento rugia, naquela temível manhã de janeiro, disparando gotas de chuva contra a vidraça.

Ele estava afundado no sofá individual ao pé da lareira, com os pés esticados sobre um pequeno banco e o olhar vidrado, perdido sobre o telemóvel que repousava na mesa de apoio. Estava já nos últimos anos dos quarenta, bastante magro e com olheiras profundas no rosto pálido. Os fios de prata no cabelo ondulavam à luz bruxuleante da chama. A sua mão esquerda brincava com o que parecia um pequeno cartão de visita.

Estremeceu com o súbito toque do telemóvel. Aquela melodia, escutada tantas vezes, trouxe-lhe memórias de ocasiões felizes... e outras nem tanto.

No ecrã do equipamento o rosto sorridente de um homem entre os trinta e os quarenta, de cabelos desgrenhados claros. O nome “Ricardo” piscava ao ritmo da música.

Após uns segundos de hesitação, ele soergueu-se, clicou para atender e encostou o telemóvel ao rosto. Do outro lado, uma voz grave e enérgica interpelou:

— Olá bom dia dorminhoca. Tudo bem?

— Bom dia... — A resposta foi rouca e arrastada. Do outro lado fez-se um silêncio, fruto da surpresa. — Desculpa, sei que esperavas a Sandra.

— Pois…, sim. Ela está? — A voz mudara de decidida para cautelosa.

— Não, ela não está. De facto, estava mesmo aqui a pensar se te deveria ou não ligar.

— Ligar-me?!? — Um tom de incredulidade. — Mas nós conhecemo-nos?

— Na verdade não e já agora, chamo-me Fernando e sou o marido da Sandra.

— Ricardo. — A resposta tardou um pouco. — Mas continuo sem perceber...

— Bem sei. — Um sorriso cansado perpassou nos seus lábios, algo divertido. — Queria ter uma pequena conversa contigo, não te importas que te trate por tu, pois não?

— Como disse, não nos conhecemos, mas não, não me importo.

— É verdade, não nos conhecemos, mas temos uma coisa muito importante em comum... a minha mulher Sandra.

A afirmação soou como um tiro e provocou um longo momento de silêncio nervoso

— Como? Não estou a perceber. — Era uma patética tentativa de ganhar tempo. — Que quer dizer com isso? A Sandra sabe que está a falar comigo? Que é que ela lhe disse?

— Não adianta negar. — O sorriso alargou-se. — Eu sei de tudo: os encontros nos motéis, os jantares, os passeios nos jardins... até mesmo a conferência há dois meses em Londres... — Não se ouvia o respirar do outro lado da linha. — … de todas as formas, não te posso censurar. Ela é uma mulher muito bela e inteligentíssima, uma combinação irresistível.

— Mas... quando soubeste? — Rendeu-se, percebendo que não adiantava negar.

— Oh, já sei há muito tempo. Quase que posso dizer desde o início.

— Não posso crer... e não disseste nem fizeste nada? — Ricardo tentou passar ao ataque. — Há quanto tempo achas que aconteceu?

— Deverá fazer dois anos em Março. Estou certo?

O silêncio do interlocutor era o assumir da culpa.

— Inicialmente não me apercebi de nada, claro. Pelo menos, nada que me fizesse suspeitar disto. — Fernando continuou. — De repente, a relação morna de um casal da nossa idade com muitos anos de casamento, tornou-se muito mais ativa sexualmente. Como já não era há muitos anos. — Limpou uma lágrima que correu no rosto. — Ela procurava-me mais frequentemente e não se negava tantas vezes aos meus “avanços”.

A chuva parara, entretanto e o latido de um cão ouviu-se longe, trazido pelo vento que amainava.

— Eu estava feliz, ela estava feliz, como poderia suspeitar? Nem reparava nas frequentes trocas de SMS, no falar mais baixo ao telemóvel em algumas circunstâncias... estava cego. — O suspiro que se seguiu saiu mais audível do que pretendera. — Até que um dia, ela chegara a casa mais tarde que eu. Estava a tirar as coisas da carteira e vi que trazia amarrotado um pano negro... onde consegui divisar pequenas rendas. Mesmo depois da sua atrapalhação em esconder, fiquei sem qualquer dúvida que trazia na carteira as calcinhas que vestira naquela manhã... Porque traria ela as calcinhas amarrotadas na carteira? Porque as tiraria?

— Há milhares de outros motivos para além de... — Ricardo tentou defendê-la.

— Pois há. Por isso não poderia ficar com a dúvida. Ela disfarçou e escondeu... e eu fingi não ter reparado.

— Ela deve ter pensado que não viste... — Pareciam dois amigos a conversar.

— Mas vi. E, louco de dor e confusão, andei atento a todos os seus movimentos, atitudes e horários... que cada vez aprofundavam mais as minhas suspeitas. Até que um dia, à hora do almoço, fui para a rua em frente à escola onde ela trabalhava e esperei. Não tardou que a visse... que vos visse juntos.

— Sim, encontrávamo-nos ao almoço muitas vezes.

— Para saber a extensão “do problema”, contratei uma pessoa para a seguir durante uma semana e dar-me um relatório; com isso fiquei a saber mais do que queria: o relatório era extenso o suficiente para incluir fotos, horários, os motéis e restaurantes que frequentavam e a altura aproximada em que começaram a ser vistos juntos. Um bom trabalho em suma.

— Nunca nos apercebemos de nada...

— Como eu disse, um bom trabalho. Mas o que me deixava louco era a sua naturalidade, a facilidade e o prazer com que fazíamos amor, a sua vontade e carinho. Parecia que continuava apaixonada por mim...

— E continuava. Ela disse-mo várias vezes. Sempre que lhe pedia para te deixar e vir viver comigo. Nunca o quis, dizia que te amava demais para poder viver sem ti e que o que existia entre nós era uma paixão que ela esperava que passasse um dia.

Foi a vez de Fernando ficar em silêncio por uns minutos. Ambos os homens calados a escutar a respiração do outro através do éter.

— Por fim acabei por me conformar. — Fernando retomou a narrativa. — Aceitei que ela seria discreta o suficiente para não me envergonhar e aceitei que deveria apreciar cada minuto da sua atenção, cada beijo e cada carícia, como dádivas que poderia perder a qualquer momento.

— Foi precisa muita coragem para uma decisão dessas.

— Não, não foi. Muita covardia isso sim, medo de ficar sem ela, sem a mulher que amo. Medo que se fosse e não tornasse mais. A vida sem ela seria insuportável. Mas nos últimos tempos é assim que tem sido mesmo com ela, insuportável.

— Daí esta chamada. — Ricardo sentenciou. — Concluíste que não consegues viver assim e vens pedir-me que me afaste.

— Serias capaz?

— Se isso for o melhor para ela... sim. — Suspirou audivelmente. — Também vou sofrer imenso. Deixei a minha mulher há uns meses, achando que facilitaria a decisão da Sandra, mas ainda não lhe disse que o tinha feito.

— Temes pressioná-la?

— Sim, ela é adorável, mas sob pressão é imprevisível. — Sentiu-se o sorriso na voz.

— Consigo perceber que também a amas, não se trata apenas de um caso.

— Não, não é. Desde o início, desde o primeiro riso, as primeiras palavras, fiquei completamente preso a ela. Julgava que depois de uma certa idade já não era possível uma paixão com tal intensidade.

— E aqui estamos nós os dois... apaixonados pela mesma mulher.

— Não tenho coragem de continuar a fazer-te o mal que temos andado a fazer. Até aqui achava que não sabias...

— Que era um corno feliz...?

— Não, nunca pensamos, pensei, em ti nesses termos. Eras apenas o outro que a impedia de vir para mim de vez.

— Agora não interessa mais, não vale a pena estarmos a discutir sobre isto.

— Que se passa? Zangaram-se? — Ricardo não conseguiu disfarçar a esperança.

As lágrimas corriam agora livremente pelo rosto de Fernando.

— Não, caro amigo, a Sandra teve um acidente de automóvel na noite passada, quando regressava de tua casa. Faleceu de madrugada no hospital... O funeral é às 9h de amanhã e o corpo encontra-se na capela do hospital. Se quiseres podes aparecer... todas as pessoas que a amavam são bem-vindas.



* Revisão de um conto de 2014 publicado no livro Terras de Xisto e Outras Histórias

4 comentários:

Ricardo disse...

Bonita pequena história!

Suzete Fraga disse...

Sem palavras!
Absolutamente fantástico e imprevisível. Mais um belíssimo conto com o brasão Mendonça bem patente. Parabéns!!!

Augusto Andrade disse...

Apaixonante, como o tema do conto, o AMOR. Não o AMOR sexual, também presente, mas o verdadeiro, o que se sente, magoa, faz sofrer e que se ausente, nos faz morrer. Obrigado!

Fernando Morgado disse...

O amor nunca será um exercício de matemática nem um código de bons costumes e normalidades. Nem sei sequer se as freirinhas, quando são adúlteras com Deus, o fazem de missal ou bíblia aberta para oração. Quando muito, umas velas acesas pata alumiar, aquecer e criar ambiente.

O amor-corpo é um jogo perigoso, mesmo quando entre um casal comum, e é um tema com múltiplas formas de viver e de contar. Tudo acontece na cabeça de cada um, até o adultério é um estado mental. Os corpos são matéria; despem-se, lavam-se e vestem-se sem antes nem depois. O que não se muda facilmente é o pensamento, a obsessão, a incapacidade para domar o corpo.

Uma bela crónica de amor, escrita na voz própria do seu autor, e finalizada não com qualquer sentido de moral, mas num desastre previsível, mesmo que ela não tivesse morrido.

Parabéns, Manuel Amaro. (que nunca o corpo te desobedeça)