A chegada de Daqueles Além Marão

Publicado em 2017, deveria ter sido lançado por uma editora pela obtenção do primeiro lugar num concurso.

Capa de Terras de Xisto e Outras Histórias

Um livro de contos diversos onde circunstâncias dramáticas obrigam os personagens a contrariar a sua própria natureza.

Capa de Lágrimas no Rio

A pacata aldeia de São Cristóvão do Covelo sofre um terrivel cataclismo que vai revelar forças estranhas.

A Amazon apoia a publicação independente

Todos os meus livros são publicados pela Amazon de forma independente e não exploradora. Estão à venda em todo o mundo.

A família de livros "Debaixo dos Céus" continua a crescer desde 2015

Desde a publicação de "Terras de Xisto" em 2015 até "Entre o Preto e o Branco" em 2020, vão milhares e milhares de palavras escritas.

A capa de Daqueles Além Marão

Os contos aqui incluídos têm todos protagonistas transmontanos. A capa escolhida é feita a partir dos azulejos da estação ferroviária do Pinhão, na linha do Douro.

A chegada de Terras de Xisto e Outras Histórias

Foi emocionante a entrega destes livros, os primeiros publicados em exclusivo com o meu nome.

A chegada de Lágrimas no Rio

As primeiras apresentações que fiz foram desta obra.

A capa de Entre o Preto e o Branco

A primeira capa 100% desenhada por mim, com recurso a uma foto royalty free.

A chegada de Entre o Preto e o Branco

Como das vezes anteriores, quando chegou a primeira remessa já estava toda vendida.

segunda-feira, 29 de março de 2021

Os Anjos Têm Olhos Azuis (Republicação 2016)


No princípio tudo estava escuro. Pequenos pontos de luz, quase como estrelas, viam-se ao longe. Estaria a ver o céu? Estaria deitado num prado relvado numa noite estrelada de verão? Algumas “estrelas” moviam-se lentamente e outras com mais velocidade… mas moviam-se sem dúvida. Estrelas cadentes? Tantas? O universo estava definitivamente vivo!
O negrume intimidador parecia até convidativo, sentia vontade de se juntar àquela dança de estrelas, de ser uma delas a vogar na imensidão. Sentia isso, mas não percebia o que sentia mais, havia uma leveza, uma ausência de algo… O seu corpo; percebia que mandava comandos aos dedos e depois aos braços e às pernas, mas não sabia se eram executados. Na escuridão absoluta, mexia os braços e as pernas e não tocava em nada. Não, não estava deitado no prado verdejante, antes flutuava naquela matéria escura, longe das estrelas. Flutuava? Caía! Uma sensação de terror percorreu o corpo que não sentia e arrepiou os pelos do pescoço que não sabia se estavam lá.
Agora estava… no fundo do mar? A sua visão ondulava, como que debaixo de água e havia pequenas fitas verdes, que partiam do chão coberto de seixos e areia dourada, agitavam-se, tentando libertar-se e fugir para a superfície. Vendo-as de perto, parecia distinguir rostos que apareciam e desapareciam em expressões de angustia ou simplesmente desespero. Por entre as fitas, passavam por vezes corpos escuros, como golfinhos luzidios e sorridentes, flutuando, nadando?
“Isabel?” O pensamento pareceu ganhar forma e solidez e como as sombras escuras, nadou para longe. Mas o que quer que fosse que o fez pensar naquele nome, não se fora embora e o rosto dela acudiu-lhe à memória, dolorosamente.
Uma das sombras escuras pareceu imobilizar-se à distância e observa-lo, por entre as ondulantes fitas verdes. Depois, nadou decididamente na sua direção enquanto se metamorfoseava numa mulher, de cabelos escuros e esvoaçantes. O corpo coberto por um diáfano vestido branco, ocultava-lhe os pés, que agora caminhavam. Toda ela era em tons de cinzento, sobressaindo da tonalidade azulada das águas e do verde das fitas entre eles.
“Luís.” A voz quente ecoou-lhe na privacidade dos seus pensamentos. “Vieste!”
“Como poderia não vir?” Ele achava que tinha lágrimas nos olhos, se eles existissem.
“Não devias!” A voz que o acariciava, repreendia-o. “Fiz-te muito mal, deixei-te...”
“Disse-te que o meu amor estava para além de tudo. Não podia deixar de vir.”
Ela “flutuou” em volta dele fazendo-o rodar sobre si próprio e reluzir fracamente, como um holograma. Encostou o nariz ao dele, focando os expressivos e brilhantes olhos azuis, a única parte que parecia manter-se colorida nela.
“Os teus olhos… tão azuis!” Ele suspirou mentalmente.
“Já eram azuis, assim continuam.” Ela afirmou pragmática.
“Todos os anjos têm olhos azuis?” Era mais um pensamento do que propriamente uma pergunta.
“Porque achas que sou um anjo?” Havia divertimento na interrogação.
“És bela como um anjo, flutuas… tens olhos azuis...”
“A beleza, é a dos teus olhos. Aqui somos todos iguais: simples sombras acinzentadas, vagueando numa tristeza morna. Libertos da prisão do corpo, mas presos numa decisão precipitada. São os teus olhos que me veem com amor e constroem aquilo que não se vê… como podiam os olhos serem azuis, num mundo onde o cinzento reina?”
“Mas há os teus olhos, azuis, as fitas verdes que se querem libertar do chão de areias douradas. A própria água é um azulado cristalino!” Ele contrapôs.
O rosto dela mascarou-se de uma tristeza momentânea, antes de brilhar novamente com esperança. Ergueu lentamente uma mão que usou para acariciar com suavidade o rosto de Luís, que se tornou sólido para receber o afago. E ele sentiu aquele toque suave e meigo, embora sem calor, mas igual a tantos outros, há tantos milhares de anos atrás.
“És um anjo sim!” Concluiu ele, de olhos fechados, com um sorriso beatífico. “Agora estou feliz.”
“Também estou feliz por te ver.” Os lábios finos dela arredondavam-se num sorriso subtil, mas os olhos tremiam numa tristeza profunda. “Fiz-te muito mal e gostava de te poder compensar… não sei se alguma vez conseguirei… Fiquei feliz por te ver, mas não pode ser assim!”
“Que dizes?” Todo o corpo dele começava a adquirir uma solidez igual à dela e os dois seres, cinzentos, flutuavam um em frente ao outro, de mãos dadas.
“Não pode ser assim.” Ela repetiu, afastando o azul dos olhos para se perderem no horizonte. “Ainda não é hora! Não podemos ficar juntos.”
“Porquê? O que se passa?” Havia alarme nos pensamentos fazendo tremeluzir as águas, pressentindo o desequilíbrio.
“Não é hora, simplesmente.” Ela soltou as mãos dele e afastou-se uns centímetros. “Tens de ir!”
“Não quero!” Ele insistiu, o corpo cintilando entre desvanecer-se e agrupar-se num corpo quase sólido.
O rosto dela endureceu por uns segundos mas rapidamente voltou a máscara do amor e os seus lábios estreitaram-se num beijo. No segundo seguinte, empurrou-o com violência e imprimiu forte o pensamento: “Vai!”
Foi de um salto só que ele caiu da banheira, de joelhos sobre o tapete da casa de banho, completamente encharcado e nu.
Chorando de dor e saudade, vomitou golfadas de água e comprimidos mal digeridos.



quarta-feira, 17 de março de 2021

Histórias da Chuva e do Vento -- De novo os Pentautores

 


Mesmo em plena pandemia, a imaginação dos Pentautores não pára!

A convidada escolhida por Ana Paula BarbosaCarlos ArintoJorge SantosManuel Amaro Mendonça e Suzete Fraga desta vez foi Ana Maria Monteiro, membro do grupo "Tertúlia A Velha Escrita" que se reúne semanalmente.

Durante mais de duzentas páginas, os Pentautores e a sua convidada contaram algumas novas histórias.


Nas palavras da nossa convidada:

"Qualquer história poderá sempre ser da chuva, do vento, do que quisermos, pois nós próprios somos um acaso que se constrói ao sabor dos elementos que sujeitamos e nos sujeitam. Somos vento, chuva, tempestade, acalmia, onda, rio, nascente, leito, foz. Dificilmente as imagens animadas, que ganham corpo dentro de nós enquanto lemos, serão apagadas algum dia. Esse é o poder da palavra escrita — fica impressa, por vezes marcada a fogo dentro do leitor."


Não perca, por isso, mais esta fantástica antologia e venha ouvir as histórias da Chuva e do Vento.