A chegada de Daqueles Além Marão

Publicado em 2017, deveria ter sido lançado por uma editora pela obtenção do primeiro lugar num concurso.

Capa de Terras de Xisto e Outras Histórias

Um livro de contos diversos onde circunstâncias dramáticas obrigam os personagens a contrariar a sua própria natureza.

Capa de Lágrimas no Rio

A pacata aldeia de São Cristóvão do Covelo sofre um terrivel cataclismo que vai revelar forças estranhas.

A Amazon apoia a publicação independente

Todos os meus livros são publicados pela Amazon de forma independente e não exploradora. Estão à venda em todo o mundo.

A família de livros "Debaixo dos Céus" continua a crescer desde 2015

Desde a publicação de "Terras de Xisto" em 2015 até "Entre o Preto e o Branco" em 2020, vão milhares e milhares de palavras escritas.

A capa de Daqueles Além Marão

Os contos aqui incluídos têm todos protagonistas transmontanos. A capa escolhida é feita a partir dos azulejos da estação ferroviária do Pinhão, na linha do Douro.

A chegada de Terras de Xisto e Outras Histórias

Foi emocionante a entrega destes livros, os primeiros publicados em exclusivo com o meu nome.

A chegada de Lágrimas no Rio

As primeiras apresentações que fiz foram desta obra.

A capa de Entre o Preto e o Branco

A primeira capa 100% desenhada por mim, com recurso a uma foto royalty free.

A chegada de Entre o Preto e o Branco

Como das vezes anteriores, quando chegou a primeira remessa já estava toda vendida.

terça-feira, 3 de maio de 2022

Mais uma vez em destaque na Inkspired





 

Pela segunda vez este ano, um dos meus contos tem posição de destaque semanal no sítio da Inkspired. O conto "Premonição" conseguiu atrair a atenção dos administradores do sítio e cá está o meu trabalho em destaque.







sexta-feira, 29 de abril de 2022

Premonição



 O vento assobiava e atirava as folhas mortas pelos ares. Manchas vermelhas e castanhas riscavam os céus de chumbo proclamando a morte do verão. Ecos de guerra troavam ao longe em fulgurantes clarões no horizonte enquanto uma voz angelical entoava um cântico triste, perdido na distância.

A pouca distância, o descomunal templo gótico de fachadas graníticas estranhamente erguido sobre alicerces de tijolos barrentos que ameaçavam desmoronar.

Desorientado, caminhei para a igreja e olhei os meus pés descalços com cortes e feridas de muito caminhar. Calquei cada um dos degraus de pedra onde deixei ensanguentadas impressões, indicando o caminho a quem viesse a seguir.

As imensas portas estavam abertas de par em par e eu cruzei a galilé para ver o ar entre as colunatas dominado pelas folhas e pelo pó esvoaçantes que maculavam o espaço sagrado. Dos vitrais, muitos metros acima, desciam focos de brilhantes poeiras que acabavam repousando em estranhas formas sobre o soalho gasto e arrombado.

Caminhei sobre as tábuas onde sabia terem caminhado milhares de fiéis antes de mim, onde marcharam garbosos cavaleiros e reis. As capelas laterais, quer do lado da Epístola quer do lado do Evangelho estavam vazias e nuas, como se os seus ocupantes se tivessem mudado para outras paragens menos agrestes ou simplesmente estivessem cansados a sua eterna vigília. A igreja vazia e só oprimia o meu coração e fazia-me sentir a solidão e a ausência da fé. Temia que, naquele dia de eclipse, se eclipsasse também tudo aquilo em que acreditava.

Chegado ao transepto, vi os púlpitos abandonados e decadentes, cobertos de trepadeiras que desciam descontroladas para o chão, esquecidos dos tempos em que se pregava a palavra do Senhor.

No presbitério a situação não era melhor. O espaço estava cheio de informes pedaços de pedra e alvenaria produto da derrocada da orgulhosa cúpula que em tempos a cobrira. Via-se o céu de chumbo pelo enorme buraco do teto e o disco solar, que conseguia romper entre as nuvens, estava mordido na quase totalidade pela sombra da Terra, anunciando dias negros.

Também o altar estava vazio de imagens e decorações apenas a imagem do Crucificado pendia da parede como uma ameaça sobre quem se atrevesse a aproximar. À esquerda havia um trono dourado vazio. A Férula estava encostada num dos braços e a Mitra com as Ínfulas abandonada no assento. Aguardavam o dono, ou estavam esquecidas, naqueles tempos sem Deus, com a igreja em ruínas, as guerras à porta e o próprio sol ferido de morte?

Apercebi-me só então que, acima das minhas canelas feridas, tinha a bainha da batina rasgada e a sobrepeliz suja e esgaçada. Também a mozeta escarlate estava rasgada e desalinhada e o solidéu desaparecera da minha cabeça. Confuso, ajoelhei frente ao altar e rezei entre lágrimas, temendo que fosse aquele o fim dos tempos há tanto anunciado. No chão a meu lado jazia um bordão com uma tira de tecido branco amarrada onde estavam escritas as palavras: “Peregrinus requiescit”[1]. Rezei com ainda mais fervor sabendo que aqueles tempos, aqueles em que o Trono estava vazio, eram os mais perigosos. As portas dos infernos podiam abrir-se sem que o Sucessor de Pedro cá estivesse para as encerrar com as chaves que o Pescador lhe confiara.

Pedi iluminação ao Senhor e implorei a Maria que intercedesse por nós junto do Omnipotente.

Quando tornei a abrir os olhos havia diante de mim um esbelto e reluzente anjo envergando uma túnica de um branco imaculado que me mostrava um livro de couro envelhecido, e uma tira de seda vermelha que marcava uma página onde se lia a seguinte frase:

“Depois do peregrino eslavo, virá o bávaro que sonhou a paz entre a guerra do mundo, mas o seu reino será curto.”

Uma fita de seda azul marcava outra página que folheei e li:

“Depois do bávaro, virá do novo mundo a humildade e o amor do povo.”

Maravilhado com tais profecias, tentei virar outra folha e o anjo segurou-me a mão, dizendo que não podia saber mais, mas a sua voz era como muitas trombetas que me encheram de terror.

Acordei, assustado e confuso, sentado no meu lugar no conclave. Conseguira adormecer durante o discurso de um dos meus irmãos cardeais, um dos que estava mais próximo, apercebendo-se da minha falta, sorriu-me.

Estava triste, mas depois deste sonho, sentia-me cheio de confiança. Depois do medo da desorientação e da dor, com o desaparecimento do já saudoso João Paulo II, a sua falta seria colmada em breve com um novo sumo-pontífice. Olhei os resultados da primeira votação: Ratzinger… sim, tudo se encaixava, aquele que tentara negociar a paz na primeira guerra. Seria ele o próximo.

Não acabaria aí, porém, apesar de todas as profecias de desgraças e apocalipses; depois dele teremos outro Papa e depois… só o próprio Deus o sabe.


[1] Latim - O peregrino descansa

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Publicação de “A Caixa do Mal”



Já se encontra à venda o meu novo livro intitulado “A Caixa do Mal” com o subtítulo “Um Amor Novo, Uma Maldição Antiga.

 Trata-se do segundo volume da série “A Maldição dos Montenegro”, iniciada em 2016 com “Lágrimas no Rio”. No primeiro volume, toda a ação passava-se na aldeia fictícia de São Cristóvão do Covelo em 1830, mas este segundo volume desloca-se geográfica e temporalmente para a cidade do Porto em 1827.

É aqui que vamos conhecer Fernando Sarmento, um seminarista a estudar na cidade e que, fruto de algumas traquinices, acaba por se apaixonar por Carlota, a filha de um destacado comerciante.

Este romance tinha tudo para ser feliz, não fosse o caso de Sarmento ter ficado na posse de um dos objetos malditos que deram à costa em Lisboa no fatídico dia 1 de novembro de 1755.

Venha conhecer o Porto de há 100 anos, percorra as ruas e frequente os cafés com os personagens deste livro, sentindo os ventos de guerra que se anunciam, enquanto se extremam posições entre Liberais e Absolutistas.

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Encomende ao autor Encomende na Amazon

terça-feira, 1 de março de 2022

Inquietação


 

Eu estava sentada na sala, quando o vi pela primeira vez e não consegui evitar um estremeção, pois ele já tinha morrido há mais de cinco anos. Fora apenas uma presença difusa, que passou no corredor em passos largos na direção da cozinha, mas reconheci-o imediatamente.

Espantada, olhei para a minha mãe, Ana, que estava compenetrada na cena seguinte da novela com o som excessivamente alto. Depois olhei para Sofia, minha irmã, com os enormes auscultadores almofadados nos ouvidos e a atenção centrada no telemóvel.

Não sei porque me surpreendi, o mais provável era que não vissem nada e ainda duvidassem de mim, como aconteceu logo após a morte dele, o avô Frederico. Nessa altura, vi-o a vaguear pela casa durante vários meses após o seu falecimento. A mãe ficava furiosa comigo por eu dizer que o via, chamou-me mentirosa e proibiu-me de voltar a falar do assunto, Sofia deitava-me olhares de desaprovação e mesmo o pai olhava-me com um misto de pena e desagrado. Agora que penso nisso, ele era o meu herói, que me perdoava as traquinices todas e até as incentivava por vezes. Eu era a sua bonequinha de porcelana por quem tinha um carinho especial, se calhar por isso era a mim que se revelava. Mas quem acreditaria numa criança de dez anos?

Cinco anos se passaram e como, entretanto, deixei de ver o avô, acabei por esquecer e pensei que o que quer que fosse que provocara aquelas visões, desaparecera da mesma forma como aparecera. Este inesperado regresso, mostrava-me que a minha “habilidade” não se tinha perdido, antes estivera adormecida. Havia uma dúvida, porém, que me perturbava; porque é que era apenas o meu avô quem me aparecia, se também a minha avó e mais recentemente o meu pai, já faziam parte daqueles que atravessaram o portão da existência terrena?

Naquele primeiro dia ergui-me e caminhei até ao corredor onde espreitei nos dois sentidos, sem que detetasse nada ou ninguém. Desvalorizei, achando que tinha sido uma ilusão de ótica.

Apesar dos meus quinze anos, considerava-me uma mulherzinha e nunca houve escuridão ou fantasmas, “homem do saco”, ou bruxa que me assustasse verdadeiramente. Quando era mais pequena, a minha mãe ficava louca da vida quando me ameaçava com um qualquer desses personagens fantásticos e eu reagia fazendo dezenas de perguntas sobre eles. Queria saber quem eram, de onde vieram, qual era exatamente o seu aspeto, enfim, tudo menos temer a sua eventual aparição para me obrigar a comer a sopa toda, ou simplesmente ficar quieta quando queria brincar.

A “minha” estranha visão sucedia-se nos dias seguintes; quando estávamos na cozinha, à mesa, ou após o jantar, na sala a ver a televisão, lá passava o personagem numa fosforescência azulada. Digo o personagem, porque sei que aquele não era já o meu avô, mas apenas um eco da sua presença neste mundo. Segui-o por algumas vezes e concluí que era uma eterna repetição de um movimento que, por algum motivo, ficara gravado no espaço daquele corredor. Ele atravessava-o em passos rápidos e por fim transpunha a porta que abria para as escadas da cave. Ainda espreitei pela passagem e verifiquei que parecia ajoelhar-se nas escadas, antes de se dissolver no ar.

Como se tratava de uma eterna repetição, tentei ao máximo ignorá-la e deitar mais atenção ao que se passava em casa, onde o ambiente não era dos melhores; o meu pai falecera há dois meses e, desde que a fábrica onde trabalhava a minha mãe dispensara a maior parte dos trabalhadores, ele era a única fonte de rendimento da família. Estávamos na penúria, portanto, com as contas da luz, da água e da mensalidade do carro, comprado há poucos anos, sempre a aparecerem, e eu e a minha irmã ainda na escola.

A mãe andava completamente esgotada a lavar escadas dos prédios e eu e Sofia fazíamos o que podíamos para ter o jantar feito quando ela regressava… embora por vezes não soubéssemos bem o que fazer com o tão pouco que havia. Havia dias em que ela chorava frente ao prato das batatas cozidas com couves e o atum de uma lata dividida por três.

Eu queria contar-lhe o que via, mas sabia que isso iria perturbá-la ainda mais e acabava por não dizer nada, nem a Sofia, que me iria recriminar e chamar-me louca e estúpida por inventar estas coisas.

Nem sempre vivemos com dificuldades. Quando o avô era vivo, tínhamos alguns terrenos que era cultivados por rendeiros, que agora não queriam a terra nem dada. Acabaram por ser vendidos e mal deu para pagar as dívidas que se acumulavam após a longa doença do meu pai. Em breve teríamos de vender a casa onde vivíamos, construída pelo meu avô há quase cem anos… esta mesma casa que ele parecia reticente em abandonar.

Fazia já mais de um mês que a “minha aparição” percorria o corredor, despercebida pelos meus familiares e começando também a ser ignorada por mim, apesar da insistência com que se repetia. Eu estava sentada a jantar e a mãe estava chorosa como de costume, mas invulgarmente faladora. Contava histórias da juventude com o pai, de quando vieram viver com o avô e como foram felizes. Gradualmente o tema foi descaindo para a pobreza da situação atual, o desemprego dela, a doença e morte do pai… teriam de entregar o carro ao banco e vender a casa. Sofia, entre lágrimas disse que deixaria a escola para trabalhar, seriam duas e assim duplicariam o rendimento, eu também me ofereci.

A mãe, entre lágrimas de gratidão, não queria abdicar da educação das filhas e disse-nos que poderíamos ajudá-la, se quiséssemos, ao fim de semana, os dias restantes eram da escola e do estudo. Retomou a narrativa do tempo em que o avô era vivo e viviam muito melhor; havia bastante dinheiro dos rendeiros, assim como das outras terras que ele foi vendendo, mas, como nunca confiara nos bancos e a sua morte fora súbita, ninguém sabia onde estava.

Aquela parte da história fez-me perceber que a insistente visita que o meu avô fazia àquela casa, particularmente a mim, a sua eterna menina, devia ter um significado; perante a incredulidade da minha mãe e irmã metralhei tudo o que vira nos últimos dias e na repetição da fantasmagórica caminhada que se dirigia sempre ao mesmo sítio.

Corremos ao acesso à cave e ao local em que me recordava de o ver ajoelhado e comprovamos que a face de um dos degraus não estava pregada e havia um prego dobrado que servia de puxador.

Removida a tábua, deparamos com um saco de plástico cheio com imensos rolos de notas presos com elásticos, alguns já queimados pelo tempo.

Estava ali o alicerce que nos permitiria reestruturar a nossa vida!

Desde o dia daquele fabuloso achado, entregue que estava o seu legado, nunca mais a fantasmagórica aparição percorreu o corredor da casa… e confesso que tenho pena, pois era uma forma de matar as saudades que ainda sinto dele.

Apesar de ter partido sem ter tido hipótese de se despedir, o meu avô, com o amor que tínhamos um pelo outro, conseguira deixar uma mensagem para nos salvar na hora em que mais precisávamos.

domingo, 30 de janeiro de 2022

O conto "A Cripta" foi destacado no sítio Inkspired

 



Aderi à Inkspired em 2019. Achei interessante ter um outro local onde divulgar os meus trabalhos de forma gratuita e onde podem ser lidos e avaliados de uma forma mais independente.

Segundo as suas próprias palavras, a Inkspired e os seus objetivos são:

Nós estamos empenhados em quebrar com o modelo de publicação tradicional e a forma como o conteúdo é escrito

Somos uma equipe multicultural de escritores, designers e leitores apaixonados, com a missão de fazer toda publicação independente mais fácil, mais inteligente, mais flexível e justa; e para oferecer a melhor experiência de leitura em qualquer dispositivo para todos os leitores.
O Inkspired é uma companhia que nasceu no Equador e hoje em dia tem seu time de negócios e produção no Equador e em Luxemburgo. Nós trabalhamos juntos todos os dias com um time multidisciplinar espalhado ao redor do mundo, nos EUA, Reino Unido, Canadá, Brasil, Alemanha e Espanha.
No Inkspired, nós almejamos qualidade em vez de quantidade.

Li alguns dos trabalhos aqui publicados e achei que o meu contributo podia ser importante e desde então já recebi alguns comentários, uns mais relevantes que outros, mas todos importantes para o meu crescimento como escritor.
Todas as semanas este sítio escolhe um conjunte de publicações daquela semana e coloca-as em destaque para que todos dentro da comunidade tenham conhecimento da história que lhes chamou a atenção.
No dia 30 de janeiro, aí estava um dos meus contos em destaque, imaginam o meu orgulho, não é? Este conto já não é novo e já não é a primeira vez que chama a atenção.

Quem quiser ler, ou reler este conto neste mesmo blogue pode fazê-lo aqui: A Cripta em Debaixo dos Céus

Quem preferir ler no sítio da Inkspired pode fazê-lo aqui: A Cripta em Inkspired

















sábado, 29 de janeiro de 2022

Evidência



 Fausto e Cecília ainda recuperavam do grande choque que fora a morte súbita do seu amigo, colega de trabalho e mentor Francisco Azevedo. Estavam a elaborar uma sequência de entrevistas de recrutamento, que fora uma das últimas atividades programadas que o amigo deixara.

Há cerca de dez anos que ambos haviam sido recrutados pelo amigo comum para integrarem um enorme e secreto projeto científico financiado pelo estado. A empatia que existiu entre eles desde o primeiro momento, logo desde a entrevista de recrutamento, criou laços inquebráveis e que tornavam agora a ausência ainda mais difícil.

O projeto tinha como objetivo, nada mais nada menos, que a possibilidade de viajar no tempo. Francisco já chefiava uma equipa de cerca de sete cientistas quando contratou os dois. Era impossível desanimar com os retrocessos, porque as conquistas, por ínfimas que fossem, eram festejadas e elogiadas como se se tivesse descoberto o segredo da vida eterna. Assegurava aos companheiros que tinha absoluta certeza de que havia por aí muitas provas vivas das viagens no tempo, só que nós não as reconhecíamos. Muitas vezes, feliz com ele próprio e como ele só, dizia em altas vozes: “Nasci em Montalegre, a terra mais bonita do país, formei-me no Porto, a cidade mais bonita de Portugal e trabalho naquilo que gosto, rodeado dos melhores cientistas do mundo!” Quem poderia resistir a dar tudo por aquele homem?

Ele tinha a certeza de que o objetivo era possível e prometia-lhes que estaria lá com eles para ver o resultado, mas era óbvia para todos a degradação de saúde rápida que o afligia, apesar de ter apenas cinquenta e oito anos. Ausentava-se vários dias para exames médicos e tratamentos no IPO de onde regressava mais macilento e cansado.

Na noite anterior à sua partida, resolveram relaxar um pouco e foram os três para um bar onde Francisco os fez prometer que nunca desistiriam do projeto, acontecesse o que acontecesse. Ele tinha a certeza de que os dois amigos eram cruciais para atingirem o objetivo, que estava muito próximo. Conseguira novo financiamento e iam admitir mais três cientistas para a investigação. Naquela altura, ninguém imaginava que iriam perder aquele homem extraordinário tão depressa e ninguém queria acreditar quando souberam que a empregada doméstica o encontrara sem vida no escritório de sua casa na manhã seguinte.

Organizado e previdente como era, Francisco deixara todo um conjunto de determinações e planos que lhes permitiu facilmente continuar a investigação. Indicou Cecília como investigadora sénior, logo seguida de Fausto, para tomarem o rumo e gerirem o projeto após a sua morte. Não podia evitar, porém, que o desânimo se instalasse e o ritmo de trabalho decrescesse, falho do ânimo e orientação do falecido.

E foi assim que chegaram ao momento atual, os dois cientistas a executar uma das últimas atividades completamente organizada pelo saudoso amigo: as entrevistas para a contratação dos novos investigadores entre os recém-formados das universidades. As candidaturas a entrevistar já estavam escolhidas e tudo. Francisco fizera-os prometer que seriam eles nesta atividade, acontecesse o que acontecesse e que a não confiariam a ninguém.

Fausto estava aborrecido, depois de entrevistarem mais de uma dezena de jovens que variaram entre o petulante e o inseguro, mas todos, claro, sem experiência no campo pretendido. Foi Cecília quem demonstrou mais paciência e confortou o colega, fazendo-o aguentar até ao fim, alegando que tinham uma promessa a cumprir. Até poderiam não escolher nenhum dos candidatos e abrir novo concurso, se necessário, não havia indicações de quem deveriam escolher, nem se deveria ser alguém daquele concurso especificamente.

Chegaram finalmente ao último candidato, não havia mais pastas com processos, mas sabiam que havia mais um jovem na sala de espera. Nesse momento entrou uma das secretárias da empresa que acompanhava o processo e entregou-lhes um envelope A4, fechado, onde estava escrito o nome deles. A funcionária explicou, antes de sair novamente, que foram dadas instruções para que só lhes fosse dada essa pasta quando fosse a última entrevista.

Abriram o envelope, que continha uma capa de processo igual às dos outros entrevistados, mas, ao abri-la, ambos ficaram um pouco confundidos ao ver uma foto do falecido amigo, muito jovem à cabeça do processo.

Simultaneamente, a porta do gabinete abriu-se e um autêntico clone do cientista desaparecido, embora mais novo uns bons anos, apresentou-se:

— Chamo-me Francisco Azevedo, tenho vinte e sete anos, natural de Montalegre e sou formado em Física pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.