A chegada de Daqueles Além Marão

Publicado em 2017, deveria ter sido lançado por uma editora pela obtenção do primeiro lugar num concurso.

Capa de Terras de Xisto e Outras Histórias

Um livro de contos diversos onde circunstâncias dramáticas obrigam os personagens a contrariar a sua própria natureza.

Capa de Lágrimas no Rio

A pacata aldeia de São Cristóvão do Covelo sofre um terrivel cataclismo que vai revelar forças estranhas.

A Amazon apoia a publicação independente

Todos os meus livros são publicados pela Amazon de forma independente e não exploradora. Estão à venda em todo o mundo.

A família de livros "Debaixo dos Céus" continua a crescer desde 2015

Desde a publicação de "Terras de Xisto" em 2015 até "Entre o Preto e o Branco" em 2020, vão milhares e milhares de palavras escritas.

A capa de Daqueles Além Marão

Os contos aqui incluídos têm todos protagonistas transmontanos. A capa escolhida é feita a partir dos azulejos da estação ferroviária do Pinhão, na linha do Douro.

A chegada de Terras de Xisto e Outras Histórias

Foi emocionante a entrega destes livros, os primeiros publicados em exclusivo com o meu nome.

A chegada de Lágrimas no Rio

As primeiras apresentações que fiz foram desta obra.

A capa de Entre o Preto e o Branco

A primeira capa 100% desenhada por mim, com recurso a uma foto royalty free.

A chegada de Entre o Preto e o Branco

Como das vezes anteriores, quando chegou a primeira remessa já estava toda vendida.

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

O Clã do Leão da Montanha

 


Há pessoas que são excelentes a executar, mas que não querem liderar, têm medo, não querem tomar decisões. Essas não servem para líderes. Mas fazem coisas que os líderes não fazem.

Belmiro de Azevedo

Empresário e industrial português

(1938-2017)

Uma cabeça espreitou sobre a crista do monte; primeiro apenas um, mas, depois outros se lhe seguiram nervosamente. O vento gelado soprava e pequenos flocos de neve esvoaçavam, colando-se ao rosto e cabelos deles. Havia vários dias que o céu estava coberto de chumbo e a temperatura caíra a pique assinalando o fim daquele verão envergonhado.

Eram um grupo heterogéneo; cerca de vinte homens e mulheres, uns com grossas túnicas de lã e outros cobertos com peles mal curtidas. Todos traziam cabelos compridos que usavam soltos ou amarrados em tranças, alguns dos homens também tinham tranças nas longas barbas. Tinham os rostos e as barbas cobertos de lama branca onde pintaram riscas de carvão. Empunhavam lanças com pontas de pedra lascada e machados do mesmo material.

Assim que subiram aquele monte perceberam que haviam chegado ao seu destino; após a descida que se seguia, a terra lançava-se novamente em abrupta subida para outro monte ainda mais alto que ostentava na sua face a abertura de uma enorme gruta onde tremeluzia a luz de uma fogueira. Haviam partido da aldeia ainda de noite, para chegarem ao raiar do dia.

Baixaram-se, ocultando-se de novo atrás da crista e olharam uns para os outros.

— Chegamos. — Anunciou desnecessariamente com voz grave o homem que ostentava várias tranças no cabelo e na barba cobertos de barro branco. — É ali que eles vivem.

— E agora, como fazemos? — Perguntou um dos mais velhos, com grandes barbas raiadas de pelos brancos. — Atacamos enquanto ainda dormem?

— É o melhor! — Considerou um dos mais novos. — Eles são mais fortes do que nós, qualquer um deles pode com dois de nós… nem sequer sabemos quantos ali estão. Sabes, pai? — Dirigiu-se ao das tranças.

— Não, Asil, não sei. — O homem brincou pensativamente com uma das tranças da barba. — Nunca vimos grupos de caça maiores do que três ou quatro acho que serão poucos mais do que nós, se contarmos as mulheres que possam estar lá.

— Tens de decidir, Erem. — Exigiu o mais velho para o das tranças. — Era o teu filho e meu sobrinho, mas tu é que és o chefe. Foi a ti que escolhemos seguir.

O visado fitou o tio Lemi pensativamente. Quantas vezes vira nele o pai, Birol, tão parecidos que eram. Chegou mesmo a pensar se ele o tinha mesmo seguido ou deixara o irmão a pedido deste para proteger o filho.

Já se havia passado muito tempo desde que abandonaram o clã do Rio Brilhante. Asil era ainda uma criança de colo e Naci crescia na barriga de Zia. Apesar dos desacordos frequentes com o pai, a vida era boa. Não havia fome entre eles; as mulheres enterravam algumas sementes que, junto com as cabras montesas que aprisionavam, as frutas que conseguiam apanhar e a caça abundante, dava para satisfazer a todos. Nos últimos tempos, porém, o seu mundo modificava-se; o chão tremia com frequência e o lago salgado, junto do qual se haviam fixado, alargava-se cada vez mais.

O Xamã dizia que era o Rio Brilhante que enchia o lago, mas ninguém percebia como é que, com tanta água doce, as águas continuavam salgadas.

Gradualmente, os pequenos lameiros que semeavam foram sendo engolidos e a própria aldeia estava novamente ameaçada. A incerteza pairava sobre eles; uns queriam simplesmente continuar a afastar-se um pouco de cada vez, à medida que as margens cresciam, outros queriam ir para nascente, de onde era originário um dos genros de Birol. O chefe, porém, decidiu que rumariam a poente a caminho da gigantesca cascata que um outro clã disse que engordava o “seu” lago; teria de ser a sua vontade a prevalecer.

Foi o filho do chefe, no entanto, o causador da dissensão; queria seguir as estrelas-guias, escalar as montanhas para as terras altas e entrar no território dos homens-macaco. Muitos anos antes dele nascer, estavam ainda cobertas de gelo, mas agora eram grandes extensões verdejantes com manadas de auroques, gazelas e alguns mamutes. Não queria seguir o pai e Birol, que era um grande líder amado por todos, aceitou a decisão do filho com grande tristeza. O clã do Rio Brilhante, cuja dimensão de mais de cem elementos era extremamente invulgar, ficou reduzido a menos de setenta.

Erem e a sua companheira Zia com os seus quatro filhos, dois deles já com mulher e crianças, fizeram-se acompanhar de dois irmãos dele e três dela com respetivas famílias, além do tio Lemi, as suas duas mulheres e toda a descendência, formaram um novo clã com cerca de trinta almas. Do alto de um promontório acenaram o adeus a Birol e aos seus companheiros no fundo do vale, que partiam ao longo da margem do lago salgado, rumo ao sol poente. Aquele promontório tinha a forma de uma cabeça de leão e resolveram assumir esse nome; assim nascia o clã do Leão da Montanha.

Cedo conseguiram deixar as tendas e construir casas em pedra ou madeira que cercavam pequenos campos onde cresciam alguns legumes e vagueavam as cabras do rebanho comum. Nasceram mais crianças, embora também tenham morrido algumas e alguns adultos também. Os acidentes na caça e as doenças aconteciam e os recém-nascidos por vezes morriam à nascença ou com poucos dias de vida, mas o saldo era positivo e agora eram quase quarenta indivíduos.

Nos primeiros tempos, Erem ainda fez deslocações esporádicas à Pedra da Cabeça de Leão para olhar as terras baixas de onde viera, na esperança de ver Birol e os seus homens. Mas em vez disso, via como o lago se tornava descomunal, a outra margem perdendo-se de vista e poucos animais se divisavam junto das águas salobras.

Tiveram quase logo alguns recontros violentos com pequenos grupos de homens-macaco e isso raramente acontecia no vale do lago salgado pois normalmente não desciam lá, mas Erem já sabia que este era o território deles. Quem os batizara, fora alguém do clã de Birol dizendo que, cabeludos como eram, pareciam os macacos que viviam nas árvores do outro lado do lago salgado. Eles mantinham-se à distância e fugiam à sua aproximação dos membros do clã, o problema era que, quando a caça escasseava, tornavam-se mais atrevidos, atacavam os caçadores, ou roubavam a carne que secava ao pé das fogueiras.

Normalmente, os confrontos cingiam-se a uma troca de pancadas com as lanças grossas que usavam, ou algumas pedradas para afugentar, mas o último deles fora o pior; os caçadores reagiram e não deixaram que os homens-macaco levassem a caça. Além dos costumeiros braços partidos e cabeças rachadas, também os atacantes levavam alguns feridos com eles, mas Nuri, o filho mais novo de Erem e Zia ficara caído sem vida; uma pancada na cabeça fora-lhe fatal.

 

 
O Enterro

Parte 1 – O Enterro

 

   

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

O Enterro


 

Ouvia-se o choro soluçante fora da casa redonda erguida com pedras e lama, coberta por um telhado de colmo e com a entrada tapada por uma cortina de cor incerta. Lá dentro, uma mulher de cabelo desgrenhado e rosto sujo, vestindo uma túnica grosseira e comprida de pano cru, pranteava desconsoladamente. Estava sentada no chão de terra e com os pés descalços na cova recentemente escavada no centro da única divisão, mesmo ao lado dos restos queimados e apagados da madeira com que diariamente se aqueciam. Os lamentos dela produziam pequenas nuvens de vapor no ar gelado da tarde de inverno.

Do exterior ouviam-se mais gemidos de mulheres misturados com as vozes iradas de homens e essa algazarra irritava-a e fazia-a querer chorar ainda mais alto.

Dois homens vestidos de enormes cabeleiras e barbas hirsutas, envergando túnicas de pele curtida, afastaram a cortina e entraram, algo a medo e depositaram braçados de três ou quatro seixos do rio, cada um maior que o tamanho de dois punhos, ao lado da fogueira apagada. Assim que saíram, outros dois se lhe seguiram e assim continuou até se formar uma pilha que dava pela altura dos joelhos.

Fez-se um silêncio repentino do lado de fora e só o choro da mulher, agora murmurando uma ladainha incompreensível se fazia ouvir.

Um coro de uma cantilena chorosa começou no exterior, destacando-se as vozes agudas femininas e sons guturais masculinos.

Outros dois homens entraram, os seus cerdosos cabelos e barbas estavam cobertos de cinzas e transportavam, pendurado pelos braços e pernas, o corpo franzino e inanimado de um jovem onde ainda mal despontara a barba. O corpo pálido, magro e ossudo, envergava apenas uns pequenos trapos de pano cru por bragas.

— Cala-te mulher! — Censurou asperamente o recém-chegado mais velho. — Já chega!

— Eu é que sei se chega! — Ripostou de imediato a mulher, o rosto sujo de cinza borratado pelas lágrimas era uma máscara de terror. — Era o meu filho e choro-o como e quanto quiser! — Tirou os pés da cova e sem se levantar, virou as costas aos dois homens.

O corpo foi depositado cuidadosamente em posição fetal no buraco, sem esquecer o cuidado de lhe colocar uma das mãos sob a cabeça, como se estivesse adormecido. Tinha sido cuidadosamente lavado e várias nódoas negras destacavam-se na pele quase transparente. A seu lado, ao alcance da mão, colocaram-se respeitosamente uma lança de madeira e um machado cuja lâmina era composta de uma pedra chata cuidadosamente afiada. Próximo da cabeça, depositaram uma lebre morta, um recipiente de barro com azeitonas e outro com nozes. Junto da cinta pousaram uma cabaça com água.

O homem mais velho empurrou a mulher para o lado com um safanão e um empurrão para se poderem chegar ao monte de godos brancos. Os seixos foram usados primeiro para preencher todos os espaços livres à volta do corpo e depois para o cobrir e, assim que já nada era visível, começaram a cobrir a sepultura deitando a terra com os pés e as mãos.

Lá fora a cantoria transformara-se numa algazarra de machos que gritavam e se instigavam como se numa luta estivessem, enquanto corriam e cabriolavam em volta do casebre enquanto em fundo as fêmeas carpiam alto.

Assim que os dois homens terminaram a cobertura, quase em simultâneo, a cantoria terminou repentinamente. O mais novo saiu da casa passando exatamente por cima da sepultura acabada de tapar e logo um outro entrou e passou pelo mesmo sítio, tornando a sair e assim sucessivamente até todos os elementos masculinos passarem, pelo local e só o homem mais velho e a mulher ali restarem em pé junto da campa.

Agarraram os restos apagados da fogueira e colocaram-nos sobre a sepultura recente, para que mais logo se acendesse o fogo que aqueceria a todos, agora aconchegado pelo elemento da família que partira.

O homem gritou com a mulher que continuava a chorar e deu-lhe uma lambada que a atirou ao chão. Ela ergueu-se de um salto e gritou com ele batendo-lhe por sua vez. Trocaram uma sequência de socos e tabefes entre eles, sendo evidente que que a força masculina iria prevalecer.

A cortina da entrada abriu-se bruscamente e entraram dois homens armados com lanças.

— Que estás a fazer pai? — Perguntou o mais alto deles. — Vais ficar aí a gritar e a carpir como as mulheres?

— Se não vieres, não és mais filho do meu irmão! — Vociferou o outro.

Foi a vez da fêmea empurrar o macho, agarrar com força uma lança que estava encostada à parede e colocar-se sobre as cinzas e lenhos acabados de colocar.

— Se ele não tem coragem de ir vingar o filho, tenho eu! — Exclamou a mulher altivamente. — Tanto posso empunhar a lança para matar um porco bravo, como para matar o assassino do meu filho!

Do lado de fora, obviamente escutaram-se as palavras de desafio e um coro de gritos guerreiros responderam ao apelo.

— Temos de ir atrás daqueles homens-macaco, invadir as grutas e acabar com todos! — Sentenciou o outro homem. — Como são mais fortes que nós, não conseguimos disputar-lhes a caça e roubam-nos aquilo que caçamos. Mas chega! Verão que não temos medo deles e não tornarão a fazer mal a um dos nossos!

 

 
Na Madrugada dos Tempos

Na Madrugada dos Tempos – Introdução

Clã do Leão da Montanha

Parte 2 – O Clã do Leão da Montanha

   

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Na Madrugada dos Tempos

Na Madrugada dos tempos é contada uma história passada na alvorada da civilização sem preocupações de rigor histórico.
Através da história do Clã do Leão das Montanhas, conta-se um pouco do que seria a vida no Neolítico (de 10.000 a.c a 3.000 a.c.) e aborda-se o que poderá ter sido a convivência dos humanos modernos com os Neandertal que estavam em franco declínio. Mas, para interesse do enredo, incluíram-se os efeitos do degelo da última glaciação e o renascimento do mar mediterrâneo que esteve quase seco durante um grande período, embora há cerca de 6 milhões de anos.
Assim sendo, venha comigo nesta viagem de há dez mil anos e viva a epopeia de Erem e Zia num mundo inclemente e selvagem ao qual só sobrevive o mais hábil e forte.
 
O Enterro

Parte 1 – O Enterro

Clã do Leão da Montanha

Parte 2 – O Clã do Leão da Montanha

   
 

terça-feira, 28 de junho de 2022

Erros Meus, Má Fortuna

 


Fernando arrastou os sapatos de couro gasto e quase sem brilho, pelo passeio de cimento. Tinha o cabelo castanho cheio de brancas que lhe chegava aos ombros, mas estava lavado… pelo menos hoje. A pele do rosto, queimada do sol e vincada milhares de vezes, estava para além dos cinquenta e oito anos que dizia ter, mas hoje estava mais clara e reluzente. A alva barba estava penteada e limpa e até as mãos de dedos curtos e gordos, estavam lavadas e com as unhas escuras cortadas.

Hoje estava destinado a ser um dia especial. Foi por isso que foi ao abrigo tomar banho, arranjou um fato cinza-claro (que era obviamente para alguém maior que ele) e convenceu a Eduarda, a bonita, mas cansada voluntária do abrigo, a penteá-lo e fazer-lhe a manicura possível.

Agora estava ali, a chegar à paragem de autocarro onde se sentou pesadamente e cruzou a perna, à espera. Sentia-se orgulhoso, não bebia desde o jantar de ontem e bem olhara para a garrafa de tinto ainda meia que deixara com os seus pertences.

Soltou um suspiro soluçado, enquanto pensava nos cartões, cobertores e restantes tralhas a que ele chamava “as suas coisas” que deixara à guarda do Tone “Figo”. Não sabia o apelido dele, todos o chamavam assim porque para ele, tudo o que comia, dizia que “chamou-lhe um figo!” Era bom rapaz, se se pode chamar isso a alguém com cinquenta e muitos anos, mas faltava-lhe a coragem para se defender a si e ao que é seu. Sabia bem que se um dos outros sem-abrigo fosse lá roubar as coisas que ficaram ao seu cuidado, ele nada faria para o impedir. De qualquer maneira, Fernando dissera-lhe que se não voltasse naquela noite poderia ficar com tudo, mesmo com o maravilhoso relógio despertador a pilhas que tanto estimava.

Roeu nervosamente a unha do indicador direito e continuou com o sabugo até que lhe doeu. Gemeu e olhou os dedos maltratados com as unhas negras. Aquele lixo, se insistisse na lavagem, levaria anos a sair… assim como levou anos a amontoar-se.

Estava nervoso, claro que sim. Acordara na última madrugada decidido a dar uma volta na sua vida. Quase não dormira a sonhar como o iria fazer e se bem pensou, rápido o fez; foi quase o primeiro a comparecer na fila do duche do abrigo e depois correu ao vestiário para arranjar as roupas novas. Agora ali estava… pronto para ir à casa da filha de onde saíra há… demasiado tempo.

Pensou no rosto de Maria Inês, sua filha, mas não conseguia lembrar-se dela com vinte e muitos anos, quando ele saiu de casa, apenas via a Inês de quinze anos sempre abraçada a ele, aos beijos. “Como as pessoas podem mudar assim?” — Pensou para si. — “Era um amor profundo e terno, que parecia não morrer nunca. Ela tomava sempre o meu partido nas minhas discussões com a mãe dela.”

A sua expressão alterou-se para preocupação. Como reagiria a filha assim que o visse, agora, dez anos passados? Que pensaria ela do homem que saiu pela porta fora, zangado com ela e com o mundo e que nunca mais voltou nem deu notícias? Primeiro, acreditou que seria uma noite ou duas e dormiu no chão entre os cartões e o lixo. Alcoolizado, os cheiros não o incomodavam, nem dava pelo tempo passar e uma manhã, aquele amanhecer precisamente, levara dez anos a chegar.

Também ela estava zangada com ele… e com razão. Fora ela, aliás, quem começara a discussão; encontrara-o de novo a dormir no chão do quarto, embriagado, com as roupas fétidas e sujas de vómito e urina.

Agora que pensava bem, as discussões eram frequentes. Bernardo, o genro, tentava pôr “água na fervura”, apelava à calma dela e à minha compreensão de que não podia agir assim. Desde que nascera a criança deles, Inês estava insuportável, gritava à menor contrariedade… ou seria ele que se embriagava com demasiada frequência?

Desde a morte de Alzira, sua mulher, Inês nunca mais planeou casar e ter a sua própria casa. Fazia questão de ficar junto do pai para cuidar dele. Fernando, por seu lado, perdida a mulher que fazia parte da sua vida há mais de vinte e cinco anos, sentia-se desolado e desamparado. A filha tratava da sua própria vida, a trabalhar e a acabar os estudos e depois a namorar… não conseguiu perceber quando tudo começou. Ele bebia em casa o que havia e depois ia para fora a procurar mais. Começou por beber para esquecer, depois já não se lembrava porque bebia.

Uma lágrima correu veloz pelas rugas do rosto. Ele tinha noção que Alzira conseguia ser insuportável, mas era a mulher que ele escolheu e que o escolhera. Discutiam e zangavam-se, mas, após uns “amuos” começavam a falar normalmente e acabavam de fazer as pazes à noite, na cama. Depois partiu deste mundo e levou a alma dele com ela.

Inês cuidou dele, sim, pobre menina, o melhor que pôde. Aturou-lhe a depressão, o mau-humor e as bebedeiras. Depois conheceu Bernardo e a sua vigilância sobre ele aligeirou… a dependência do álcool e as suas consequências, cada vez mais difíceis de esconder, atiraram-no para o desemprego. — Ele franziu o sobrolho. — Quando nasceu a sua neta, Inês chamou-lhe Alzira, como se mais alguém pudesse digno de ser portador de tal nome.

Era obrigado a compreender que ele transformava a vida deles num inferno… baixou a cabeça e repousou-a entre as mãos com os cotovelos nos joelhos… ao longe o relógio da igreja soltou dez badaladas. Pensou que o autocarro se demorava.

— Bom dia, amigo. — Uma voz masculina bem-disposta interrompeu-lhe os pensamentos e ele levantou o rosto para ver um homem montado numa bicicleta, parado a seu lado. — Está à espera do autocarro aqui? Não vê que a paragem está desativada há mais de um ano? A carreira que passava aqui foi mudada para a outra rua paralela a esta.

Com esta explicação, o homem retomou a sua marcha pedalando e afastou-se rapidamente, sem mesmo escutar o “obrigado” quase inaudível.

Fernando ergueu-se e constatou o aviso quase apagado colado na placa indicativa da carreira. Pousou o olhar no chão, pensativo, como que a decidir o que fazer. “Então a carreira não me quer levar, é?” — Pensou de si para si. — “Se calhar também eles estão melhor sem mim…”

Sacudiu o pó das calças e começou a caminhar na direção de onde viera, rematando em voz alta:

— Vou ver se o Figo guardou as minhas coisas em condições, afinal, a garrafa do tinto ainda estava meia. Espero bem que não lhe tenha dado a sede.

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Viagens, Parabéns Lucinda Maria

 


Foi no passado dia 4 de junho que foi apresentado na Biblioteca Municipal de Oliveira do Hospital o novo livro de Lucinda Maria, "Viagens através da Imaginação".

Patrocinado pela Câmara Municipal, não podiam faltar a esta sessão o presidente, José Francisco Rolo, a vereadora da Cultura, Maria da Graça Silva e o presidente da Assembleia Municipal José Carlos Mendes.https://www.cm-oliveiradohospital.pt/index.php/municipio/item/2166-novo-livro-de-lucinda-maria-e-apresentado-no-sabado


Uma vez mais se nota o gosto pela cultura e o carinho e interesse pela produção artística dos seus munícipes nas Câmaras do interior do país. No litoral, talvez pelo facto de existir mais "oferta" cultural e mais artistas, há um desinteresse pelos "santos da casa" e prefere-se dar atenção às figuras nacionais em detrimento das locais. Claro que é muito mais fácil, sucesso garantido, divulgar a presença de um best-seller nacional, das editoras consagradas, ou alguém que aparece na TV frequentemente, do que patrocinar escritores ou outros artistas com pouca visibilidade. O pelouro da cultura tem a sua própria agenda e, na maior parte das vezes, desconhece completamente o que se produz no concelho.


Este novo livro da Lucinda Maria (sétimo publicado) apresenta-nos uma forte carga autobiográfica com alguns contos obviamente ligados à infância da autora e outros que espelham sem qualquer dúvida o amor incondicional à terra que a viu nascer.

Conheci a Lucinda Maria há pouco tempo, embora o seu nome tenha constado com o meu em algumas publicações de antologias organizadas pelo nosso saudoso amigo comum, o editor e escritor Isidro Sousa (1973-2020).

Foi principalmente fruto do desaparecimento deste nosso amigo que se criou uma proximidade maior entre nós, com a minha iniciativa de editar um dos trabalhos não concluídos desse editor. A antologia "Filhos de Um Deus Menor" foi um dos projetos dele que me empolgou e que tive pena nunca ter visto a luz do dia. Por esse motivo, resolvi por mãos à obra e contactar os autores já selecionados para essa obra para que colaborassem .nesta nova antologia. Para meu desencanto, muito poucos responderam mas, entre os que o fizeram, estava esta nova amiga.



Depois dos vários contactos e trocas de opiniões que tivemos acerca desta obra, foi fácil ver nela uma valiosa colaboradora para a nova antologia dos Pentautores, que estava em projeto na altura. Não tive muito trabalho para convencer os meus companheiros, alguns dos quais já conheciam a escrita da Lucinda e assim nasceu "Deusas, Fadas e Bruxas" com a convidada Lucinda Maria, que, como é apanágio de todos os nossos convidados, além do conto, contribui com o prefácio da obra. A nossa amiga provou tratar-se de uma boa aposta e ficamos todos muito satisfeitos com o resultado final.


Daqui até ao acordo que fizemos para a publicação do seu livro "Viagens", foi apenas um passo.

Eu já tinha colaborado de diversas formas com outros escritores para a publicação das suas edições de autor e, gradualmente, fui dando relevo à minha chancela pessoal "Produções Debaixo dos Céus". Aqui estava eu novamente a criar bases, quem sabe, para uma nova editora.


Com uma capa pintada pela própria autora, vão se revelando as várias facetas desta artista que junta a pintura à sensibilidade da poesia e à capacidade narrativa.

No passado dia 4, foi então o lançamento público desta obra e foi também o dia em que pude conhecer pessoalmente esta excecional mulher e escritora. Eu e o meu amigo e escritor Fernando Ventura Morgado, acompanhados das respetivas esposas, fizemos questão de cobrir a considerável distância que separa as nossas cidades para a felicitar e dar um abraço de amizade e incentivo a esta nossa amiga.


Não foi difícil ver as qualidades humanas da Lucinda Maria, que de resto já tinha adivinhado durante todos os nossos contactos prévios, mas foi aqui que se comprovou a sua amizade, generosidade e humildade, materializada numa sala completamente cheia de pessoas que a vieram ver e ouvir.


Tivemos a oportunidade de ouvir falar da autora por quem a conhece e escutar alguns poemas de sua autoria, relativos a marcos importantes do concelho, declamados por alguns dos seus amigos.
 


Resta-me acrescentar que foi um dia maravilhoso e bem passado e a Lucinda Maria está de parabéns, não só por este novo livro, mas pelo seu excelente grupo de amigos e leitores e por ser o ser humano que é.

Bem hajas Lucinda Maria e muito sucesso.





 


 

domingo, 29 de maio de 2022

A Despedida


 

O dia estava límpido e temperado. Daqueles dias claros, depois da chuva, em que se conseguem divisar quilómetros, nas poucas áreas das cidades em que se consegue discernir o horizonte.

O local, o campo do repouso final, com os retângulos de mármore ou granito cuidadosamente alinhados em grande extensão para um lado e para o outro.

Uma tumba específica, recente, de granito comum, sem grandes ornamentos, mas completamente nova. Na cabeceira, apenas a fotografia de um homem na casa dos quarenta, moreno de cabelo curto e barba aparada. Como epitáfio apenas o nome e as datas de nascimento e morte, sem saudades, dores ou sofrimentos. Apenas assinalado o local onde depositaram a concha vazia que havia sido aquele homem.

A mulher aproximou-se. Era morena, cabelo castanho forte, pelos ombros e de estatura pequena, de aspeto nervoso. Envergava uma t-shirt branca sem estampagens e umas calças de ganga clara que terminavam em sapatilhas brancas, salpicadas de lama. A roupa folgada pouco conseguia disfarçar os peitos fartos e as ancas bem torneadas, mas pela ausência de maquilhagem e de cuidado em salientar as formas, via-se que não tentava causar impacto nos demais… ou já não se preocupava.

Ela ajoelhou-se sobre a pedra tumular e limpou com os dedos as gotas de água e pó que estavam sobre o esmalte colorido que exibia o rosto sorridente.

— Não podia deixar de vir despedir-me. — Começou ela sem rodeios e esboçando um sorriso triste. — Se calhar não volto aqui. De certeza que não, tão cedo.

Brincou com os dedos sujos de limpar a fotografia, espalhando o pó cinzento e molhado pelos restantes.

— Não vou dizer que não terei saudades. — Recomeçou. — Que não vou sentir falta de ouvir a tua voz logo pela manhã, ou sentir o calor do teu abraço antes do pequeno-almoço. Acho que até sentirei falta das sonoras palmadas com que agraciavas as minhas nádegas que tanto dizias gostar.

Sentada e de olhos fechados, empurrou as mãos entre as pernas numa memória voluptuosa que lhe causou um arrepio.

— Eras tão carinhoso no início. — Observou, perscrutando cada pormenor do rosto na minúscula fotografia. — Nem consigo precisar quando foi que as coisas começaram a mudar. Quando foi a primeira sapatada com força excessiva, o primeiro beliscão a deixar marca ou mesmo o primeiro torção dos mamilos a fazer-me gritar de dor. Acho que foi uma coisa gradual, a que eu fui correspondendo com gritos mais ou menos excitados e joelhadas e dentadas que te pareciam excitar ainda mais.

Ela apertou ainda mais as pernas e soltou um suspiro profundo.

— Sim o sexo era ótimo. — Ela sorriu com a recordação, enquanto deixava correr uma lágrima pelos olhos semicerrados. — Não só quando passávamos horas abraçados a devorarmo-nos mutuamente, mas também depois, quando as coisas começaram a ficar mais brutas e depois violentas. Quando acabávamos os dois esgotados, transpirados, maçados e pisados. — Limpou as lágrimas. — Não percebi quando as coisas passaram de sexo excitado e apaixonado para espancamentos e quase violações. Quando deixei de ter força para te combater e as nossas lutas desiguais acabavam comigo subjugada e forçada onde quisesses, o tempo que precisasses.

Tirou um pacote de lenços de papel do bolso e limpou as lágrimas, assoando-se em seguida.

— Mas não foi isso que me quebrou. — Ela continuou a calma retrospetiva. — Nem mesmo quando a violência começou a extravasar a cama e a visitar-me quando chegavas a casa meio embriagado. Quando te excitavas em dar-me dolorosos socos nos braços ou nas costas, como represália do pontapé nas canelas com que eu respondia ao puxão de cabelos e ferradela canina nos ombros com que me cumprimentavas.

Emitiu um suspiro entrecortado e coçou o cabelo com força, quase como se o tentasse arrancar.

— O que me doeu — Continuou ela. — foi saber que tudo aquilo que agora havia entre nós, que eu achava ser amor descontrolado, não passava de sexo bruto e sem respeito. Fiquei devastada quando soube daquela cabra com quem te consolavas antes de vir para casa… encher-me de porradas.

Limpou a foto da campa com o lenço de papel.

— Eras um cabrão bonito. — Concedeu a mulher. — E sabias fazer bom sexo, mas a partir daquela altura, tudo aquilo que para mim era amor e que suportava por isso, transformou-se em violência sem respeito e numa humilhação. Isso tinha de acabar.

Ela exibiu um sorriso e olhou a fotografia com amor.

— Se pudesse ressuscitar-te, fá-lo-ia. Faria amor contigo novamente e enlouquecer-nos-íamos com pancadas e dentadas. Na cama, no chão, no balcão da cozinha... como antes, não importavam as nódoas negras nem as dolorosas marcas de dentes… seria tudo como antes…, mas… antes que voltasses para a aquela cabra, envenenava-te outra vez.

Ergueu-se, sorriu com bonomia e colocou um beijo nos dedos que depositou demoradamente no rosto do homem que amava. Em seguida voltou costas à campa e aproximou-se do casal de polícias que a aguardavam pacientemente a alguns metros de distância. Estendeu os braços e deixou que a algemassem.

terça-feira, 3 de maio de 2022

Mais uma vez em destaque na Inkspired





 

Pela segunda vez este ano, um dos meus contos tem posição de destaque semanal no sítio da Inkspired. O conto "Premonição" conseguiu atrair a atenção dos administradores do sítio e cá está o meu trabalho em destaque.







sexta-feira, 29 de abril de 2022

Premonição



 O vento assobiava e atirava as folhas mortas pelos ares. Manchas vermelhas e castanhas riscavam os céus de chumbo proclamando a morte do verão. Ecos de guerra troavam ao longe em fulgurantes clarões no horizonte enquanto uma voz angelical entoava um cântico triste, perdido na distância.

A pouca distância, o descomunal templo gótico de fachadas graníticas estranhamente erguido sobre alicerces de tijolos barrentos que ameaçavam desmoronar.

Desorientado, caminhei para a igreja e olhei os meus pés descalços com cortes e feridas de muito caminhar. Calquei cada um dos degraus de pedra onde deixei ensanguentadas impressões, indicando o caminho a quem viesse a seguir.

As imensas portas estavam abertas de par em par e eu cruzei a galilé para ver o ar entre as colunatas dominado pelas folhas e pelo pó esvoaçantes que maculavam o espaço sagrado. Dos vitrais, muitos metros acima, desciam focos de brilhantes poeiras que acabavam repousando em estranhas formas sobre o soalho gasto e arrombado.

Caminhei sobre as tábuas onde sabia terem caminhado milhares de fiéis antes de mim, onde marcharam garbosos cavaleiros e reis. As capelas laterais, quer do lado da Epístola quer do lado do Evangelho estavam vazias e nuas, como se os seus ocupantes se tivessem mudado para outras paragens menos agrestes ou simplesmente estivessem cansados a sua eterna vigília. A igreja vazia e só oprimia o meu coração e fazia-me sentir a solidão e a ausência da fé. Temia que, naquele dia de eclipse, se eclipsasse também tudo aquilo em que acreditava.

Chegado ao transepto, vi os púlpitos abandonados e decadentes, cobertos de trepadeiras que desciam descontroladas para o chão, esquecidos dos tempos em que se pregava a palavra do Senhor.

No presbitério a situação não era melhor. O espaço estava cheio de informes pedaços de pedra e alvenaria produto da derrocada da orgulhosa cúpula que em tempos a cobrira. Via-se o céu de chumbo pelo enorme buraco do teto e o disco solar, que conseguia romper entre as nuvens, estava mordido na quase totalidade pela sombra da Terra, anunciando dias negros.

Também o altar estava vazio de imagens e decorações apenas a imagem do Crucificado pendia da parede como uma ameaça sobre quem se atrevesse a aproximar. À esquerda havia um trono dourado vazio. A Férula estava encostada num dos braços e a Mitra com as Ínfulas abandonada no assento. Aguardavam o dono, ou estavam esquecidas, naqueles tempos sem Deus, com a igreja em ruínas, as guerras à porta e o próprio sol ferido de morte?

Apercebi-me só então que, acima das minhas canelas feridas, tinha a bainha da batina rasgada e a sobrepeliz suja e esgaçada. Também a mozeta escarlate estava rasgada e desalinhada e o solidéu desaparecera da minha cabeça. Confuso, ajoelhei frente ao altar e rezei entre lágrimas, temendo que fosse aquele o fim dos tempos há tanto anunciado. No chão a meu lado jazia um bordão com uma tira de tecido branco amarrada onde estavam escritas as palavras: “Peregrinus requiescit”[1]. Rezei com ainda mais fervor sabendo que aqueles tempos, aqueles em que o Trono estava vazio, eram os mais perigosos. As portas dos infernos podiam abrir-se sem que o Sucessor de Pedro cá estivesse para as encerrar com as chaves que o Pescador lhe confiara.

Pedi iluminação ao Senhor e implorei a Maria que intercedesse por nós junto do Omnipotente.

Quando tornei a abrir os olhos havia diante de mim um esbelto e reluzente anjo envergando uma túnica de um branco imaculado que me mostrava um livro de couro envelhecido, e uma tira de seda vermelha que marcava uma página onde se lia a seguinte frase:

“Depois do peregrino eslavo, virá o bávaro que sonhou a paz entre a guerra do mundo, mas o seu reino será curto.”

Uma fita de seda azul marcava outra página que folheei e li:

“Depois do bávaro, virá do novo mundo a humildade e o amor do povo.”

Maravilhado com tais profecias, tentei virar outra folha e o anjo segurou-me a mão, dizendo que não podia saber mais, mas a sua voz era como muitas trombetas que me encheram de terror.

Acordei, assustado e confuso, sentado no meu lugar no conclave. Conseguira adormecer durante o discurso de um dos meus irmãos cardeais, um dos que estava mais próximo, apercebendo-se da minha falta, sorriu-me.

Estava triste, mas depois deste sonho, sentia-me cheio de confiança. Depois do medo da desorientação e da dor, com o desaparecimento do já saudoso João Paulo II, a sua falta seria colmada em breve com um novo sumo-pontífice. Olhei os resultados da primeira votação: Ratzinger… sim, tudo se encaixava, aquele que tentara negociar a paz na primeira guerra. Seria ele o próximo.

Não acabaria aí, porém, apesar de todas as profecias de desgraças e apocalipses; depois dele teremos outro Papa e depois… só o próprio Deus o sabe.


[1] Latim - O peregrino descansa

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Publicação de “A Caixa do Mal”



Já se encontra à venda o meu novo livro intitulado “A Caixa do Mal” com o subtítulo “Um Amor Novo, Uma Maldição Antiga.

 Trata-se do segundo volume da série “A Maldição dos Montenegro”, iniciada em 2016 com “Lágrimas no Rio”. No primeiro volume, toda a ação passava-se na aldeia fictícia de São Cristóvão do Covelo em 1830, mas este segundo volume desloca-se geográfica e temporalmente para a cidade do Porto em 1827.

É aqui que vamos conhecer Fernando Sarmento, um seminarista a estudar na cidade e que, fruto de algumas traquinices, acaba por se apaixonar por Carlota, a filha de um destacado comerciante.

Este romance tinha tudo para ser feliz, não fosse o caso de Sarmento ter ficado na posse de um dos objetos malditos que deram à costa em Lisboa no fatídico dia 1 de novembro de 1755.

Venha conhecer o Porto de há 100 anos, percorra as ruas e frequente os cafés com os personagens deste livro, sentindo os ventos de guerra que se anunciam, enquanto se extremam posições entre Liberais e Absolutistas.

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terça-feira, 1 de março de 2022

Inquietação


 

Eu estava sentada na sala, quando o vi pela primeira vez e não consegui evitar um estremeção, pois ele já tinha morrido há mais de cinco anos. Fora apenas uma presença difusa, que passou no corredor em passos largos na direção da cozinha, mas reconheci-o imediatamente.

Espantada, olhei para a minha mãe, Ana, que estava compenetrada na cena seguinte da novela com o som excessivamente alto. Depois olhei para Sofia, minha irmã, com os enormes auscultadores almofadados nos ouvidos e a atenção centrada no telemóvel.

Não sei porque me surpreendi, o mais provável era que não vissem nada e ainda duvidassem de mim, como aconteceu logo após a morte dele, o avô Frederico. Nessa altura, vi-o a vaguear pela casa durante vários meses após o seu falecimento. A mãe ficava furiosa comigo por eu dizer que o via, chamou-me mentirosa e proibiu-me de voltar a falar do assunto, Sofia deitava-me olhares de desaprovação e mesmo o pai olhava-me com um misto de pena e desagrado. Agora que penso nisso, ele era o meu herói, que me perdoava as traquinices todas e até as incentivava por vezes. Eu era a sua bonequinha de porcelana por quem tinha um carinho especial, se calhar por isso era a mim que se revelava. Mas quem acreditaria numa criança de dez anos?

Cinco anos se passaram e como, entretanto, deixei de ver o avô, acabei por esquecer e pensei que o que quer que fosse que provocara aquelas visões, desaparecera da mesma forma como aparecera. Este inesperado regresso, mostrava-me que a minha “habilidade” não se tinha perdido, antes estivera adormecida. Havia uma dúvida, porém, que me perturbava; porque é que era apenas o meu avô quem me aparecia, se também a minha avó e mais recentemente o meu pai, já faziam parte daqueles que atravessaram o portão da existência terrena?

Naquele primeiro dia ergui-me e caminhei até ao corredor onde espreitei nos dois sentidos, sem que detetasse nada ou ninguém. Desvalorizei, achando que tinha sido uma ilusão de ótica.

Apesar dos meus quinze anos, considerava-me uma mulherzinha e nunca houve escuridão ou fantasmas, “homem do saco”, ou bruxa que me assustasse verdadeiramente. Quando era mais pequena, a minha mãe ficava louca da vida quando me ameaçava com um qualquer desses personagens fantásticos e eu reagia fazendo dezenas de perguntas sobre eles. Queria saber quem eram, de onde vieram, qual era exatamente o seu aspeto, enfim, tudo menos temer a sua eventual aparição para me obrigar a comer a sopa toda, ou simplesmente ficar quieta quando queria brincar.

A “minha” estranha visão sucedia-se nos dias seguintes; quando estávamos na cozinha, à mesa, ou após o jantar, na sala a ver a televisão, lá passava o personagem numa fosforescência azulada. Digo o personagem, porque sei que aquele não era já o meu avô, mas apenas um eco da sua presença neste mundo. Segui-o por algumas vezes e concluí que era uma eterna repetição de um movimento que, por algum motivo, ficara gravado no espaço daquele corredor. Ele atravessava-o em passos rápidos e por fim transpunha a porta que abria para as escadas da cave. Ainda espreitei pela passagem e verifiquei que parecia ajoelhar-se nas escadas, antes de se dissolver no ar.

Como se tratava de uma eterna repetição, tentei ao máximo ignorá-la e deitar mais atenção ao que se passava em casa, onde o ambiente não era dos melhores; o meu pai falecera há dois meses e, desde que a fábrica onde trabalhava a minha mãe dispensara a maior parte dos trabalhadores, ele era a única fonte de rendimento da família. Estávamos na penúria, portanto, com as contas da luz, da água e da mensalidade do carro, comprado há poucos anos, sempre a aparecerem, e eu e a minha irmã ainda na escola.

A mãe andava completamente esgotada a lavar escadas dos prédios e eu e Sofia fazíamos o que podíamos para ter o jantar feito quando ela regressava… embora por vezes não soubéssemos bem o que fazer com o tão pouco que havia. Havia dias em que ela chorava frente ao prato das batatas cozidas com couves e o atum de uma lata dividida por três.

Eu queria contar-lhe o que via, mas sabia que isso iria perturbá-la ainda mais e acabava por não dizer nada, nem a Sofia, que me iria recriminar e chamar-me louca e estúpida por inventar estas coisas.

Nem sempre vivemos com dificuldades. Quando o avô era vivo, tínhamos alguns terrenos que era cultivados por rendeiros, que agora não queriam a terra nem dada. Acabaram por ser vendidos e mal deu para pagar as dívidas que se acumulavam após a longa doença do meu pai. Em breve teríamos de vender a casa onde vivíamos, construída pelo meu avô há quase cem anos… esta mesma casa que ele parecia reticente em abandonar.

Fazia já mais de um mês que a “minha aparição” percorria o corredor, despercebida pelos meus familiares e começando também a ser ignorada por mim, apesar da insistência com que se repetia. Eu estava sentada a jantar e a mãe estava chorosa como de costume, mas invulgarmente faladora. Contava histórias da juventude com o pai, de quando vieram viver com o avô e como foram felizes. Gradualmente o tema foi descaindo para a pobreza da situação atual, o desemprego dela, a doença e morte do pai… teriam de entregar o carro ao banco e vender a casa. Sofia, entre lágrimas disse que deixaria a escola para trabalhar, seriam duas e assim duplicariam o rendimento, eu também me ofereci.

A mãe, entre lágrimas de gratidão, não queria abdicar da educação das filhas e disse-nos que poderíamos ajudá-la, se quiséssemos, ao fim de semana, os dias restantes eram da escola e do estudo. Retomou a narrativa do tempo em que o avô era vivo e viviam muito melhor; havia bastante dinheiro dos rendeiros, assim como das outras terras que ele foi vendendo, mas, como nunca confiara nos bancos e a sua morte fora súbita, ninguém sabia onde estava.

Aquela parte da história fez-me perceber que a insistente visita que o meu avô fazia àquela casa, particularmente a mim, a sua eterna menina, devia ter um significado; perante a incredulidade da minha mãe e irmã metralhei tudo o que vira nos últimos dias e na repetição da fantasmagórica caminhada que se dirigia sempre ao mesmo sítio.

Corremos ao acesso à cave e ao local em que me recordava de o ver ajoelhado e comprovamos que a face de um dos degraus não estava pregada e havia um prego dobrado que servia de puxador.

Removida a tábua, deparamos com um saco de plástico cheio com imensos rolos de notas presos com elásticos, alguns já queimados pelo tempo.

Estava ali o alicerce que nos permitiria reestruturar a nossa vida!

Desde o dia daquele fabuloso achado, entregue que estava o seu legado, nunca mais a fantasmagórica aparição percorreu o corredor da casa… e confesso que tenho pena, pois era uma forma de matar as saudades que ainda sinto dele.

Apesar de ter partido sem ter tido hipótese de se despedir, o meu avô, com o amor que tínhamos um pelo outro, conseguira deixar uma mensagem para nos salvar na hora em que mais precisávamos.

domingo, 30 de janeiro de 2022

O conto "A Cripta" foi destacado no sítio Inkspired

 



Aderi à Inkspired em 2019. Achei interessante ter um outro local onde divulgar os meus trabalhos de forma gratuita e onde podem ser lidos e avaliados de uma forma mais independente.

Segundo as suas próprias palavras, a Inkspired e os seus objetivos são:

Nós estamos empenhados em quebrar com o modelo de publicação tradicional e a forma como o conteúdo é escrito

Somos uma equipe multicultural de escritores, designers e leitores apaixonados, com a missão de fazer toda publicação independente mais fácil, mais inteligente, mais flexível e justa; e para oferecer a melhor experiência de leitura em qualquer dispositivo para todos os leitores.
O Inkspired é uma companhia que nasceu no Equador e hoje em dia tem seu time de negócios e produção no Equador e em Luxemburgo. Nós trabalhamos juntos todos os dias com um time multidisciplinar espalhado ao redor do mundo, nos EUA, Reino Unido, Canadá, Brasil, Alemanha e Espanha.
No Inkspired, nós almejamos qualidade em vez de quantidade.

Li alguns dos trabalhos aqui publicados e achei que o meu contributo podia ser importante e desde então já recebi alguns comentários, uns mais relevantes que outros, mas todos importantes para o meu crescimento como escritor.
Todas as semanas este sítio escolhe um conjunte de publicações daquela semana e coloca-as em destaque para que todos dentro da comunidade tenham conhecimento da história que lhes chamou a atenção.
No dia 30 de janeiro, aí estava um dos meus contos em destaque, imaginam o meu orgulho, não é? Este conto já não é novo e já não é a primeira vez que chama a atenção.

Quem quiser ler, ou reler este conto neste mesmo blogue pode fazê-lo aqui: A Cripta em Debaixo dos Céus

Quem preferir ler no sítio da Inkspired pode fazê-lo aqui: A Cripta em Inkspired

















sábado, 29 de janeiro de 2022

Evidência



 Fausto e Cecília ainda recuperavam do grande choque que fora a morte súbita do seu amigo, colega de trabalho e mentor Francisco Azevedo. Estavam a elaborar uma sequência de entrevistas de recrutamento, que fora uma das últimas atividades programadas que o amigo deixara.

Há cerca de dez anos que ambos haviam sido recrutados pelo amigo comum para integrarem um enorme e secreto projeto científico financiado pelo estado. A empatia que existiu entre eles desde o primeiro momento, logo desde a entrevista de recrutamento, criou laços inquebráveis e que tornavam agora a ausência ainda mais difícil.

O projeto tinha como objetivo, nada mais nada menos, que a possibilidade de viajar no tempo. Francisco já chefiava uma equipa de cerca de sete cientistas quando contratou os dois. Era impossível desanimar com os retrocessos, porque as conquistas, por ínfimas que fossem, eram festejadas e elogiadas como se se tivesse descoberto o segredo da vida eterna. Assegurava aos companheiros que tinha absoluta certeza de que havia por aí muitas provas vivas das viagens no tempo, só que nós não as reconhecíamos. Muitas vezes, feliz com ele próprio e como ele só, dizia em altas vozes: “Nasci em Montalegre, a terra mais bonita do país, formei-me no Porto, a cidade mais bonita de Portugal e trabalho naquilo que gosto, rodeado dos melhores cientistas do mundo!” Quem poderia resistir a dar tudo por aquele homem?

Ele tinha a certeza de que o objetivo era possível e prometia-lhes que estaria lá com eles para ver o resultado, mas era óbvia para todos a degradação de saúde rápida que o afligia, apesar de ter apenas cinquenta e oito anos. Ausentava-se vários dias para exames médicos e tratamentos no IPO de onde regressava mais macilento e cansado.

Na noite anterior à sua partida, resolveram relaxar um pouco e foram os três para um bar onde Francisco os fez prometer que nunca desistiriam do projeto, acontecesse o que acontecesse. Ele tinha a certeza de que os dois amigos eram cruciais para atingirem o objetivo, que estava muito próximo. Conseguira novo financiamento e iam admitir mais três cientistas para a investigação. Naquela altura, ninguém imaginava que iriam perder aquele homem extraordinário tão depressa e ninguém queria acreditar quando souberam que a empregada doméstica o encontrara sem vida no escritório de sua casa na manhã seguinte.

Organizado e previdente como era, Francisco deixara todo um conjunto de determinações e planos que lhes permitiu facilmente continuar a investigação. Indicou Cecília como investigadora sénior, logo seguida de Fausto, para tomarem o rumo e gerirem o projeto após a sua morte. Não podia evitar, porém, que o desânimo se instalasse e o ritmo de trabalho decrescesse, falho do ânimo e orientação do falecido.

E foi assim que chegaram ao momento atual, os dois cientistas a executar uma das últimas atividades completamente organizada pelo saudoso amigo: as entrevistas para a contratação dos novos investigadores entre os recém-formados das universidades. As candidaturas a entrevistar já estavam escolhidas e tudo. Francisco fizera-os prometer que seriam eles nesta atividade, acontecesse o que acontecesse e que a não confiariam a ninguém.

Fausto estava aborrecido, depois de entrevistarem mais de uma dezena de jovens que variaram entre o petulante e o inseguro, mas todos, claro, sem experiência no campo pretendido. Foi Cecília quem demonstrou mais paciência e confortou o colega, fazendo-o aguentar até ao fim, alegando que tinham uma promessa a cumprir. Até poderiam não escolher nenhum dos candidatos e abrir novo concurso, se necessário, não havia indicações de quem deveriam escolher, nem se deveria ser alguém daquele concurso especificamente.

Chegaram finalmente ao último candidato, não havia mais pastas com processos, mas sabiam que havia mais um jovem na sala de espera. Nesse momento entrou uma das secretárias da empresa que acompanhava o processo e entregou-lhes um envelope A4, fechado, onde estava escrito o nome deles. A funcionária explicou, antes de sair novamente, que foram dadas instruções para que só lhes fosse dada essa pasta quando fosse a última entrevista.

Abriram o envelope, que continha uma capa de processo igual às dos outros entrevistados, mas, ao abri-la, ambos ficaram um pouco confundidos ao ver uma foto do falecido amigo, muito jovem à cabeça do processo.

Simultaneamente, a porta do gabinete abriu-se e um autêntico clone do cientista desaparecido, embora mais novo uns bons anos, apresentou-se:

— Chamo-me Francisco Azevedo, tenho vinte e sete anos, natural de Montalegre e sou formado em Física pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.