Debaixo dos Céus Os Mundos de Manuel Amaro Mendonça
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segunda-feira, 12 de março de 2018

Uma Casa nas Ruas - 3ª parte


AUSÊNCIA FORÇADA



Ninguém reconheceria Xico, naquele homem parado em frente à obra de construção de mais um prédio de apartamentos da cidade: Cabelo curto, calça e blusão de ganga (sem rasgos ou remendos) e sapatos pretos, cansados, mas engraxados. Tudo fornecido pela assistência social da cadeia, claro, pois se ele nada tinha quando o “internaram” há seis meses no presídio, agora pouco melhor estava. Consigo, além da roupa “nova”, apenas tinha cerca de trezentos euros, ganhos a trabalhar na carpintaria da prisão, que era o que restava após as viagens de regresso. Não merecia seis meses por um simples roubo a uma viatura, sucede é que conseguiram provar mais dois assaltos perpetrados por ele, sendo que o primeiro deles, fora durante o período de pena suspensa de uma outra condenação. Nove meses de prisão! Conseguiu sair com dois terços da pena cumprida, por bom comportamento.

A obra que observava, desalentado, erguia-se no local onde vivera vários meses com o seu amigo Manel “Passarão”; a velha ilha, antigo bairro de trabalhadores de uma fábrica já desaparecida. As casas arruinadas, o pequeno casebre onde viviam, o pátio onde tantas vezes comeram e conversaram… tudo se foi. Por onde andará o Passarão?

Começou a caminhar ao longo da rua, a pensar nas suas perspetivas de futuro… não estava preparado para voltar aos vãos de escada ou às ombreiras das portas para dormir. Nas últimas semanas de prisão, já só pensava no pequeno casebre que ele e o passarão limparam e onde viviam como “reis do pátio”, na ilha abandonada, de onde ele correra com alguns companheiros de rua. Não se conseguia imaginar outra vez a arrastar cartões e cobertores por essa cidade fora, a dormir onde calhava.

Olha quem ele é! — Uma inconfundível voz fanhosa fê-lo estremecer e olhar para o lado, a tempo de ver dois homens, um enorme, de careca polida e barba enorme, que lhe chegava ao peito, e o outro enfezado, de nariz adunco e vermelhão. Eram o Vesgo e o inseparável Pinguinhas… e estavam a atravessar a rua na sua direção.

Olá rapazes. Não quero confusões, eh? — Pediu Xico erguendo as mãos abertas à altura dos ombros.

Ah não queres, é? — Vesgo quase encostou o nariz ao dele enquanto lhe dava um soco leve, no estômago. Habituado ao “protocolo”, Pinguinhas colocou-se estrategicamente atrás de Xico e segredou-lhe ao ouvido:

Estás f** pá, vais “mama-las” todas juntas!
Espera lá Vesg… Tone! Tem pena de mim, “meu”, saí ontem da “choldra”! — Xico, intoxicado pelo indescritível hálito, quase tratou o Vesgo pela sua odiada alcunha, o que resultaria certamente numa tareia.
Ah! Então foi aí que te enfiaste, filho de uma p**! Ninguém sabia onde andavas, apanharam-te foi? — O Vesgo soltou uma gargalhada, após o que o mirou de alto abaixo. —  E vens aí todo janota, aposto que tens umas notas contigo. Tu és daqueles que gosta de trabalhar na “choldra” para te pouparem o traseiro.
Os apressados transeuntes que se cruzavam, em ambas as direções da calçada, olhavam para o trio, uns com curiosidade, outros com receio, mas ninguém mostrava vontade de intervir. O comum dos cidadãos não se intromete nos “afazeres” de gente com aspeto de bandido e, a menos que seja muito incomodado, ou humilhado, não se manifesta, por maior que seja a injustiça presenciada. Para ele, as pessoas “mal vestidas”, ou aparentando menos asseio, são praticamente invisíveis, por isso é possível morrer-se num passeio, numa das mais movimentadas artérias da cidade, sem que ninguém dê por isso.
Mostra lá a “guita”! — Exigiu o Vesgo ao mesmo tempo que intrometia a mão, sem cerimónias, por dentro do casaco do outro e extraía a carteira.
Então, Tone. — Xico parecia prestes a chorar. — Custou-me a ganhar isso…
Não te preocupaste com os ganhos do Manco, pois não, seu tinhoso? — Gritou-lhe o Pinguinhas ao ouvido. — Quando roubaste o carro no “pouso” dele, o Manel Preto deu-lhe uma tareia e tirou-lhe o dinheiro todo que ganhou.
Que é isto? — O Vesgo escandalizou-se, erguendo algumas notas de vinte e dez euros. — Cem “paus”? Estás a gozar comigo?
Que queres? — Xico encolheu-se, nervoso. — O gajos pagam cada vez pior!
Deixa-te lá de merdas, pá! — O outro não se deixava enganar. — Tens aí mais escondido! Passas para cá ou tenho que te dar nas ventas?
Com visível sofrimento, Xico tirou uma nota de cinquenta euros, que tinha escondida no cinto e que desapareceu rapidamente a um gesto do Vesgo.
Vês como estás a ficar esperto? — Disse este beliscando com força uma das bochechas da vítima.
Repentinamente, o Pinguinhas passa de um salto ao lado do Vesgo e dá-lhe uma cotovelada antes de se afastar em passo largo. Ambos repararam, do outro lado da rua, a viatura da PSP, parada, de onde dois agentes observavam atentamente.
Safaste-te por agora, “gandulo”. — Ameaçou o Vesgo antes de seguir atrás do amigo, ao mesmo ritmo. — Mas não perdes por esperar. As nossas contas só estão meio saldadas!
Filho da p** — Resmungou Xico, de si para si, enterrando as mãos nos bolsos em fúria e acelerando o passo na direção contrária à dos seus molestadores. — Um dia ides paga-las todas juntas.
Percorreu as ruas dos quarteirões mais próximos, espreitando em todas as reentrâncias e perguntando aos ex companheiros que reconheceu, pelo amigo Passarão; ninguém sabia o que era feito dele. Começava a ficar preocupado.
Sentiu sede, ao passar numa esplanada abrigada por uma arcada, mesmo em frente a uma das faculdades da Universidade do Porto. Várias vezes passara ali, pelo meio das dezenas de estudantes que frequentavam o local, para roubar os pagamentos ou as gorjetas deixadas em cima das mesas. Agora entraria como cliente.
Procurou uma mesa desocupada e sentou-se, começando a procurar algumas notas num dos esconderijos do forro do casaco.
E se eu te pusesse a andar daqui, com dois pontapés nos fundilhos? — Assustado, Xico enfrentou o olhar fulminante do empregado que o mirava com o tabuleiro reluzente debaixo do braço e as mãos na cintura. — Não era bom?
Que é? — Retorquiu, recuperando a calma e a insolência. — Sou um cliente! — Exibiu uma nota de vinte euros. — Tenho dinheiro!
Pois então, o que vai ser? — Quis saber o outro, tirando-lhe a nota da mão com mestria. — Esta é melhor ficar do lado de cá, porque nunca se sabe.
Eh, pá! — Insurgiu-se o ex presidiário. — Vou fazer um pedido e vais ter que me dar o troco!
Mande pois, vossa excelência! — O empregado sorriu do seu próprio desplante.
Quero uma cerveja!
Uma cerveja! E ainda são 11 horas da manhã! Não será melhor comer qualquer coisita? — Estava a tornar-se impertinente, a gozar a oportunidade, enquanto erguia a nota no ar. — Quanto mais gastares daqui, menor será a minha gorjeta.
Gorjeta!?! — Xico não aguentou mais. — Quem te disse que ias ter gorjeta?
Digo-to eu. Quem tem “o guito” na mão? — A nota continuava erguida no ar. — Vais dar-me uma parte do que me tens roubado, quer queiras quer não! Trago alguma coisa de comer? Olha que bebes uma cerveja por vinte euros!
P** que pariu! — Gemeu. — Mas hoje só me saem ladrões?
Eh, lá! Aqui o único gatuno é tu, ouviste, bandalho? Roubaste já aqui muito dinheiro, basta-me chamar o patrão e levas um “enxerto de porradas” que nem te seguras nas pernas! — O homem perdeu o ar de gozo e insistiu ameaçadoramente: — Vais comer alguma coisa ou não?
F**! — Rendeu-se, coçando a cabeça exasperado. — Traz-me um prego em prato!
Sem se dar ao trabalho de responder, o empregado fez uma elegante rotação e caminhou em passos largos para o interior do café.
Xico revolveu os bolsos e os esconderijos e contou, disfarçadamente, o dinheiro que lhe restava… estava quase sem nada! “Cento e cinquenta para o “boi” do Vesgo e agora vinte para este chupista! Estou tramado.” — Lamentou-se.
O prato foi pousado com delicadeza sobre a mesa, logo seguido pela cerveja, o copo e os talheres. O ex presidiário olhou para o empregado, ressentido. Este devolveu-lhe um sorriso trocista, pousou uma nota de cinco euros na mesa e piscou-lhe o olho, sem deixar de sorrir, antes de rodar e afastar-se novamente.
Espera! — Pediu Xico, visivelmente mais satisfeito por reaver uma parte do dinheiro.
Que queres? — O outro mostrou-se enfastiado. — Não penses, com isto, que vamos ficar amigos!
Por acaso viste por aí o meu amigo? Aquele gordo, de cabeça pequenina…
Aquele meio tolinho que costumava ajudar as velhas com as compras?
Esse mesmo! — Sorriu esperançado. — Viste-o?
Já não o vejo há um ou dois meses. Mas ouvi por aí que arranjaram-lhe lugar numa instituição, ali para os lados da Rotunda da Boavista, mas não sei o nome. Vá, come que eu tenho de trabalhar, bom apetite.
— Obrigado! — Atirou, antes de se lançar com vontade à refeição. Afinal ainda havia gente boa neste mundo…
Três dias se passaram desde o seu regresso à liberdade. Com muito custo, não teve alternativa senão retornar à vida nas ruas. Para evitar os conflitos por um vão de escada ou um umbral de uma casa comercial, acabou debaixo de uma ponte na via rápida. Os cobertores que lhe deram na ajuda de rua e os cartões de um frigorífico que achou no lixo, estavam seguros naquele local abrigado dos ventos e dos olhares cobiçosos.
Durante todo o tempo livre (aquele em que não estava a praticar pequenos furtos, a mendigar ou a rebuscar o lixo) aproveitava para “passear” a rotunda da Boavista, na esperança de ver o Passarão… mas sem sucesso. Não queria acreditar como tinha saudades daquele gigante acriançado. Estava desanimado… faltava-lhe a força de antigamente, não queria entrar em conflitos nem em “atividades” que o levassem de novo para a cadeia e começou a lembrar-se da aldeia que deixara para trás há uma eternidade. “A mãe ainda seria viva? Como o receberia? Às pedradas, na certa! Mas se calhar, lá até se conseguiria arranjar um trabalhito… nada que cansasse muito, claro. Se bem que, todo o trabalho por lá é pesadíssimo.”
De repente, ali estava ele! O Passarão, envergando umas sapatilhas gastas e um fato de treino, que nem estava rasgado. Atravessava a rua, com alguns jornais debaixo do braço e Xico deixou-se ficar a observar o amigo, que corria para o jardim do centro da rotunda. Onde ele próprio se encontrava sentado num dos bancos. Manel imobilizou-se a alguns metros e pousou os jornais, cuidadosamente dobrados e cintados, noutro banco. Dirigiu-se depois para uma grupo de pombas, que começara a pousar perto e atirou uma mão cheia de algo, atraindo imediatamente outro bando. Todas se empurravam e bicavam pela sua porção. Em seguida, estendeu ambas as mãos abertas, com as palmas para cima e algumas das aves pousaram nos improvisados poleiros, começando a debicar o alimento que sabiam encontrar-se ali. Não demonstravam qualquer receio daquele personagem.
Ostentando uma expressão feliz, o homem a quem chamavam Passarão, rodava lentamente sobre ele próprio, mantendo as “passageiras” a alimentarem-se nas suas mãos.
Acabado o alimento, foi como se costuma dizer: “merenda comida, companhia desfeita” e as aves levantaram voo, quase em simultâneo em todas as direções. 
Rindo, feliz, começou uma corrida, de braços abertos, numa patética tentativa de voar, em volta das pombas, que levantavam assarapantadas, para pousarem logo de seguida, habituadas que estavam ao comportamento excêntrico do seu benfeitor. Numa das suas evoluções, o homem passou perto do banco onde encontrava encostado o seu observador.
Olá Passarão. — Saudou Xico.
Ele estacou, entre a surpresa e o receio daquele que perturbara “o seu voo”, mirando-o com os seus olhos redondos e brilhantes. Decorridos uns segundos, um lampejo de reconhecimento iluminou-lhe o rosto:
Xico!!!! — Gritou enquanto o apertava num abraço capaz de partir costelas. — Há tanto que não te via!
Eh, calma lá com as saudades! — Exclamou o outro, sem no entanto o sacudir violentamente, como fazia antes, nem perder o sorriso.
Que tens andado a fazer? — Havia lágrimas nos olhos do enorme homem. — Pensei que te tinhas ido embora de vez!
Ora… — Xico hesitou. — Tive um pequeno percalço, mas já lá vai. Agora voltei para as nossas “jantaradas” noturnas, no nosso pátio…
O nosso pátio já não há… — O Passarão fez uma expressão triste. — Estive muito tempo sozinho, tu não vinhas… Depois uma manhã apareceram lá uns gajos com capacetes brancos e disseram que eu tinha que arranjar outro poiso, que aquilo ia tudo abaixo.
Deixa lá, não te apoquentes! — Sossegou-o o amigo. — Vamos arranjar outro sítio.
Não posso. Agora estou a viver no alojamento!
Passarão contou ao companheiro tudo o que acontecera desde que ele se fora. Como vagueou pelas ruas sem arranjar onde dormir e escorraçado dos cantos onde se tentou alojar, ocupados por outros com necessidades semelhantes. Por fim, encontrou um jovem voluntário dum abrigo que lhe arranjou cama, roupa e comida.
Mostrou-lhe, com orgulho indisfarçável, as sapatilhas “novas” e explicou que saía sozinho todos os dias, para comprar os jornais para os “doutores” no escritório.
Então não queres vir comigo? — O amigo perguntou-lhe. — Preferes ficar com os “doutores do escritório”? — Entoou com certo escárnio.
Não vês? — Ele fez uma careta de tristeza. — Lá tratam-me bem, dão-me de comer, tenho uma cama só para mim, tomo banho, mudo de roupa todos os dias…
Claro, por tudo isso, trocas o teu amigo. — Xico mostrou todo o desagrado enquanto levantava a voz. — Não sou teu amigo, eu? Não partilhávamos tudo? Não éramos os reis do nosso pátio? Tínhamos aquela ilha inteira só para nós!
Mas, Xico, já não há pátio! Agora só as entradas das lojas e dos escritórios e já estão ocupadas! O “Zé Rameloso” bateu-me quando me deitei na porta ao lado da dele. O Vesgo e o Pinguinhas roubavam-me tudo e davam-me “cachaçadas”. Foi o doutor Tomé que lhes deu uma corrida e eles nunca mais me chatearam.
Desanimado, o outro mirou-o, num olhar trémulo e brilhante; havia um rio a querer soltar-se dele.
Está bem. — Anuiu numa voz estrangulada, antes de lhe voltar as costas e começar a caminhar. — Vai lá para os teus doutores e para a tua comida e cama quentinhas. Eu volto para o meu vão da ponte. Pela noite, também conseguirei algo de comer na ajuda de rua.
Havia um enorme nó na garganta do Manel, que todos conheciam por Passarão e as lágrimas irromperam livremente sobre as bochechas carnudas e rosadas.
Espera! — Gritou ao amigo, antes de iniciar uma corrida e o agarrar com força. — Espera, eu vou contigo!
Uma vez, mais, contra a sua natureza, Xico não pontapeou o amigo, nem o nem o sacudiu, antes deixou-se apertar, enquanto limpava uma lágrima teimosa.
Tiveram ainda uma pequena discussão sobre a devolução do troco dos jornais aos “doutores”, mas também aí prevaleceu a opinião do Xico.
Acabaram no café mais próximo a beber umas “minis”.


*** Fim da 3ª parte ***




2-Pouca Sorte
4-O Céu dos Pássaros

segunda-feira, 5 de março de 2018

Uma Casa nas Ruas - 2ª parte


POUCA SORTE



As entradas escancaradas, alinhadas com as aberturas que em tempos tiveram vidros, pareciam rostos tristes condenados à demolição, tão logo um “alto senhor” na Câmara Municipal “lavrasse a sentença”. Mas para já era a casa dele, o refugio do frio que lhe mordia os ossos e da chuva que lhe ensopava a alma.

Xico nem sempre vivera assim. Em tempos, teve um emprego numa empresa de segurança, logo depois de sair da tropa, mas a sua atração pelas coisas que não lhe pertenciam, levou-o à perdição. Foi despedido, apanhou uns meses de cadeia e, o pouco que tinha conseguido juntar, evaporou-se num ápice. Nem pensar em procurar pela mãe, de quem já não sabia há anos, na longínqua aldeia beirã. Na certa chamar-lhe-ia quantos nomes se lembrasse e ainda lhe atiraria com o que tivesse à mão. As tendências para “amigo do alheio” herdara-as do pai, falecido quando ainda era criança e não da mãe, que era pobre, mas honesta. Agora vivia por aqui e por ali, deitando a mão ao que podia e a verdade, é que se habituara rápido a não ter que dar satisfações a ninguém e a não ter horários para fazer o que quisesse. A chatice, eram a fome e o frio que o mordiam demasiadas vezes…

Abancou-se na única casa que não tinha silvados e aparentava ser ocupada por alguém. Lá dentro havia uma miserável desculpa para cama, na forma de um amontoado de cobertores em cima de um colchão velho e várias pilhas de tralha encostadas às paredes. Depositou as suas coisas a um canto, depois de arrastar um enorme saco de plástico cheio de latas de refrigerantes vazias.

Preparava-se para sair novamente quando ouviu o latido nervoso de um cão. Logo de seguida, entrou pela arruinada porta de acesso ao pátio, um homem enorme “arrastando”, na ponta de uma corda, um vira-lata que se debatia. Era o Manel Passarão e mais um dos seus eternos cães renitentes, que insistia em adotar, mesmo contra a vontade do canídeo. O apelido de Passarão era obra do Xico, porque o homem passava a vida a dar de comer às pombas e a correr à volta do pátio a bater “as asas”. À medida que o tempo foi passando, tornou-se mais calmo e a sua fixação voltou-se para os cães vadios que apanhava e tornava seus. Era um “gigante” acriançado, de quem todos abusavam, até se juntar a Xico. Este nunca fez nada muito importante para o defender, mas a sua presença parecia bastar e gradualmente, de forma mais ou menos violenta, foi expulsando todos os outros “inquilinos” da ilha abandonada.

Assim, que notou o visitante, Manel fez um movimento, como se fosse fugir do pátio, mas então reconheceu o seu hóspede:
És tu, Xico?
Não, é o Papa! — Respondeu o visado, sem um sorriso.
Que foi que te fiz? Porque estás a falar comigo assim? — O homem, com a barba crescida de vários dias, fez beicinho e deixou cair os braços ao longo do corpo.
Deixa-te de “xonices”, “Passarão”! Já sabes que não quero cá pieguices, não achas que és demasiado grande para isso?
Julguei que eras meu amigo…
Se não fosse teu amigo, já te tinha espetado daqui para fora com um chuto nesse teu traseiro descomunal!
Amuado, Manel arrastou o cão, que lutava com a corda, até  um ferro preso na parede, onde o amarrou.
Estiveram aqui o Vesgo e o Pinguinhas à tua procura! — Anunciou enquanto se debatia para fazer um nó na corda que fazia as vezes de trela. — Bateram-me por tua causa!
Porque achas que tive que desaparecer estes dias todos?
O Vesgo disse que, se te apanhasse a roubar carros naquela rua outra vez, te desancava.
Ele que se vá encher de pulgas! Um carro com o vidro aberto, que é que ele queria?!? Está chateado é por não ter visto primeiro! Quantos carros não “gamou” já e deitou as culpas aos outros. Recebe as moedas por arrumar os carros numa rua e vai roubar os carros noutra. É um bom filho da ….
Queriam que lhes dissesse onde andavas.
Ainda bem, que não sabias, vês? — Sorriu satisfeito.
Manel não respondeu e sentou-se no chão, olhando-o, ressentido.
Tens alguma coisa para comer? — Xico mudou a conversa.
Tenho umas latas de sardinhas e uns pães, que me deu a velha que ajudei a levar as compras. — O homem ergueu-se de um salto, esquecido o agravo. — E uns iogurtes que me deram na ajuda de rua!
Vai lá buscar, estou com uma “larica” que “nem é bom”! Vai lá, enquanto eu faço uma fogueira, a ver se espantamos o frio.
O “Passarão” desapareceu a correr no interior do casebre e regressou uns minutos depois, com um saco de papel, e uma tábua por bandeja, que pousou na pedra que muitas vezes lhes serviu de mesa. Depois correu novamente e reapareceu com duas garrafas verdes, que exibiu, triunfante:
Xico! Topa-me lá esta maravilha!
Gaita, homem! Que é isso? — Espantou-se o visado.
O Ferreira, do supermercado, sabes? Ajudei-o a arrumar umas paletes e caíram umas caixas de vinho. Só se aproveitaram quatro garrafas. Ele disse-me que não dissesse nada, ficou com duas e deu-me outras duas.
Ora vejam só! — Xico não queria acreditar na sorte do companheiro. — Parece que não te tens dado nada mal, não senhor!
O frugal almoço, doado pela velha, desapareceu num ápice. Comeram os iogurtes da assistência e duas metades de Bolas de Berlim roubadas na esplanada. Depois deixaram-se ficar ali, a fumar os cigarros roubados ao Barbas e a acabar as garrafas do supermercado.
O discurso de Xico tornava-se mais inflamado, a cada golo da garrafa que estava quase no fim. Contou ao companheiro, num grau crescente de fúria, tudo o que se passara nas últimas duas semanas; os problemas com os outros sem abrigo, para ter onde dormir e as “injustiças” da dona Amélia da limpeza. Finalmente, falou da raiva que sentiu por saber que o Barbas vai acabar por morrer naquele buraco nojento e ficar vários dias a apodrecer, até que alguém dê por ele.
Porque é que o mundo é assim? Uns com tudo e outros sem nada! — Escorreu a última gota e mirou a garrafa ainda meia do companheiro, que já se ria por tudo e por nada. — Dá cá essa porcaria, nem para beber serves! — Exigiu, tirando-lha das mãos abruptamente.
Porque é que és assim? — O outro riu-se, apesar da brutalidade. — Se tivesses pedido, eu dava-ta! Também, acho que se beber mais, deito tudo cá para fora.
Porque é que TU, és assim?!? Pergunto eu! — Xico ergueu-se e atirou a garrafa vazia, numa rasante da cabeça do companheiro, estilhaçando-se ruidosamente no chão empedrado.
Manel caiu, da pedra onde estava sentado, ao esquivar-se do míssil e ficou de costas no chão a rir-se, para uma maior fúria do outro.
Não passas de um idiota! És um burro, um pateta alegre e todos te dão umas porcarias e tu ficas feliz… sempre! — Xico estava cada vez mais furioso, os vapores do álcool a embotar-lhe o juízo. — Eu, para conseguir alguma coisa, tenho que trabalhar no duro… ou roubar!
Percebendo finalmente a fúria e frustração que dominava o amigo, Manel parou de rir, aproximou-se e consolou-o, pousando-lhe a mão no ombro:
Não importa! O que me derem a mim, também dará para ti. Não somos amigos?
Deixa-te de m… pá! — Ele sacudiu-lhe o braço com violência. — Não quero a tua piedade! Queres partilhar as coisas, é?!? Esse casaco apertadíssimo que tens vestido, dá-mo! Dá-mo já!
O outro olhou tristemente para o casaco antes de comentar:
Eu gosto deste casaco, foi um doutor do banco que mo deu!
Raios partam! Vês o que te digo? — Estilhaçou a segunda garrafa, ainda com algum vinho, no chão. — Dá-mo já! Passa para cá essa porcaria.
Como ele demorasse a reagir, Xico partiu para a violência e com alguns socos nos braços, obrigou o companheiro a tirar e entregar-lhe o casaco.
Com lágrimas nos olhos, o “Passarão” assistiu ao ar de triunfo do outro, que atirou o seu próprio casaco para o chão, em cima da mancha púrpura de vinho, enquanto envergava a nova aquisição.
Então? Que achas? Fica-me bem, não fica? Pareço um artista de cinema! - Troçava Xico, radiante do seu feito. — Não pareço já o “teu doutor”?
Sem lhe responder e com lágrimas a correr no rosto bonacheirão, Manel fez o gesto de apanhar o outro casaco abandonado no chão.
Eh lá! Que é lá isso? — Xico apanhou-o antes do companheiro. — Isto é meu!
Mas… tu tiraste-me o… — O rosto dele, onde as lágrimas deixavam linhas verticais sulcadas na sujidade, era uma máscara de incredulidade.
A vida é injusta, colega! Vai catar para aí outro, arranja um papalvo qualquer que te dê! Não te dão tudo? — E com esta pergunta, arremessou o velho casaco para a fogueira.
Cedendo ao peso da injustiça, Manel irrompeu num pranto soluçante e correu para o interior do casebre que lhe servia de lar.
Xico, embalado no efeito do álcool e na excitação da enormidade do que havia feito, saiu para a rua, vagueando sem destino. Levou ainda muito tempo, para que o peso do remorso se fizesse sentir e começasse a pensar que o companheiro não merecia tal tratamento.
Começava a anoitecer e ele, a caminhar por uma rua secundária, olhava atentamente para o interior dos estabelecimentos e para os carros estacionados. Por fim, a sua busca foi recompensada; um casaco abandonado no assento traseiro de um automóvel… fechado. Olhou em volta, para se certificar que não havia ninguém por perto e tirou de uma bota um pequeno martelo plástico com  ponta de metal, que “palmara” num autocarro há algum tempo. Partiu o vidro traseiro e desatou a correr com a presa debaixo do braço.
Já longe, remexeu nos bolsos do saque, achou um molho de chaves e uma carteira, que aliviou de umas quantas notas, antes de a atirar para o balde do lixo. “Está feito, —  Pensou. — está aqui um casaco catita para o “Passarão” e dinheiro para o jantar… bem, ele não precisa de jantar, está bem gordo…
Saiu do beco e entrou numa pequena tasca em frente.
Que andas aqui a fazer, Xico? — O homem careca e baixo, mas entroncado, materializou-se ao pé dele, assim que se sentou numa das poucas mesas vagas. — Não vens armar confusão, pois não? Tens dinheiro, ou ponho-te já lá fora?
Eh, senhor Fernando! Que antipatia! — Fingiu-se ofendido e escarneceu de imediato. — Claro que tenho dinheiro, senão, não entraria neste estabelecimento de luxo.
Bem, vais mesmo para a rua! — Concluiu o outro arregaçando as mangas e pegando-o por um braço.
Não, espere! Estava a brincar! Tenho dinheiro, veja. — Exibiu as notas. — Só venho comer uma “sandocha” de presunto e beber um “tintito”.
Já apanhaste algum desprevenido não foi? — Fernando sabia bem quem ele era e não resistiu a comentar, antes de dar meia volta para ir aviar o pedido. Alguns dos clientes olharam o recém chegado com sobranceria.
Duas bem aviadas sandes de presunto e quatro copos de maduro tinto depois, já todos os vestígios de remorsos estavam diluídos. Recostou-se na cadeira de madeira, o mais cómodo que conseguiu, para ver as notícias que passavam no telejornal. Foi então confrontado com os resultados do concurso do Euromilhões. A tremer, assistiu à exibição de cada um dos “seus” números; lá estavam o 13 da sexta em que se encontravam, o 3 e o 5 da sua data de nascimento, o 31 e o 32 da sua idade… estava rico!!!! Febrilmente, começou a vasculhar os bolsos em busca do talão que furtou ao Barbas, cada vez mais ansioso. Até que, de repente, recordou-se! Estava no bolso do casaco que atirou para a fogueira!
— Demónios dos infernos!!!! — Gritou, assustando toda a gente na atarracada taberna. — P… de sorte a minha! Sacanas malditos, deram-me a sorte quando sabiam que não podia ser minha!!!! Só podem estar a gozar comigo!
Continuou as imprecações atirando com tudo o que estava em cima da mesa para o chão e derrubando as cadeiras vazias à sua volta.
— Já sabia que ias acabar por dar problemas, meu animal! — Gritou-lhe Fernando, agarrando-o pelos colarinhos. — Andor daqui para fora imediatamente e se tornas a cá por “as patas”, dou-te uma tareia que nunca mais te levantas!
O pequeno, mas robusto homem, arrastou literalmente Xico para a porta de onde o chutou para a rua.
— Espera, não! — Protestou o vagabundo sem qualquer resultado. — Não percebe? Foi sem querer! Desculpe! — Caiu pesadamente sobre as mãos e sentou-se, desanimado, vendo o tasqueiro regressar ao “covil”. — E o dinheiro que estava na mesa? E o meu casaco?
A resposta foi dada por dois casacos que saíram a voar pela porta, contra a cara do infeliz que agora se levantava.
Queres o dinheiro, filho da p…? — Gritou-lhe o taberneiro de dentro do estabelecimento. — Vens cá amanhã, quando te passar a borracheira, depois vemos quanto sobra da porcaria toda que partiste aqui!
Não posso acreditar! — Gemeu Xico, quase a chorar, enquanto vestia o seu casaco e dobrava o que levaria para o “Passarão”. — Que filha da p… de sexta feira 13. Tive a fortuna na mão e deitei-a ao lume… tive algum dinheiro e o cabrão do taberneiro ficou com ele… maldita sexta feira 13…
Está ali, senhor guarda! — Ouviu uma voz atrás dele. — Foi aquele que me partiu o vidro do carro, ainda tem o meu casaco debaixo do braço!


*** Fim da 2ª parte ***

1-Oportunista
3-Ausência Forçada

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Uma Casa nas Ruas - 1ª parte


OPORTUNISTA


Xico acordou com o barulho dos tapetes a ser sacudidos. Não se mexeu. Deixou-se ficar encolhido, a ouvir a dona Amélia, a mulher da limpeza, a dar os bons dias à colega do prédio ao lado. Não tardava, viria meter-se com ele. Não se interessou e afundou-se ainda mais nos cobertores, escondendo a cabeça entre os cartões que o protegiam do frio daquela manhã de março.
Senhor Xico! Ò senhor Xico, acorde! — A estridente voz feminina estava agora junto dele.
Que foi? — Fingiu-se desentendido, sem sair da proteção dos cobertores.
Não lhe pedi já que saísse daqui antes das 8:30h? Não tarda nada, começa a chegar o pessoal e os clientes e dá mau aspeto estar aí a dormir. Vamos, levante-se! Oh, valha-me Deus, que cheiro! - Ela fez uma expressão de repulsa, assim que o olfato denunciou a “habilidade”. — Voltou a urinar ao pé da porta! Assim não pode ser, vou fazer queixa ao patrão e não volta a dormir aqui!
Ele colocou a cabeça para fora dos cartões. O cabelo negro, despenteado e sujo, formava uma juba em volta do rosto pálido, de barba desgrenhada, que olhou a mulher com cara de poucos amigos.
Não fui eu! — Desculpou-se. — Não vi quem foi, deve ter sido enquanto estava a dormir. Na certa foi o cão do Zé.
A urina de cão não cheira assim tão mal! — Amélia, cinquentona maternal, não se deixava enganar com facilidade. — Vocês são uns porcos! Vêm dormir para aqui e ainda deixam tudo sujo e malcheiroso. Já há umas semanas que o tenho deixado dormir aí, mas você não liga, quando lhe digo que tem que se levantar antes de eu chegar. Assim não pode ser!
Eh pá! Largue-me da mão! — Ele ergueu-se contrariado e começou a dobrar os cartões e os cobertores por entre resmungos.
Agora não tenho tempo de limpar o átrio todo, antes deles chegarem, está a ver o que me arranja? — Ela continuava. — Já na semana passada, uma das senhoras do escritório, escorregou e por um pouco não caiu,  por o chão ainda estar molhado quando eles chegaram. Não se admite, parece que faz pouco das pessoas! 
Já disse que me deixe! — Xico aproximou-se ameaçadoramente da mulher, com o fardo dos  parcos pertences debaixo do braço. — Não disse já o que tinha a dizer? Cale-se, raios a partam!
Amélia deu um passo atrás entre o surpreendida e o enojada, com o hálito do homem, que quase encostou os narizes de ambos.
Ora vejam só! — Ela recuperou rapidamente, assim que ele lhe virou as costas. — Não tem onde cair morto, aqui a dormir pelos umbrais das portas e ainda é malcriado! Não volto a trazer-lhe mais nada para comer.
Pró diabo que a carregue... — Xico resmungou de si para si, enquanto saía, da arcada de acesso aos escritórios, para a rua movimentada. — … os iogurtes estavam fora do prazo e o pão era da véspera!
E não volte a aparecer aqui! Se o vir por aqui outra vez, chamo a polícia! — Ela continuava a gritar do interior. — Ouviu, seu mal agradecido? A polícia!
Aborrecido, caminhou pelo passeio, a espreitar as montras e parou em frente ao quiosque, a ler os cabeçalhos dos jornais. A data chamou-lhe a atenção; sexta-feira 13 de março. “Tá-se mesmo a ver, começou bem!” resmungou para consigo enquanto pegava num dos diários.
Ó Xico! — Chamou o homem atrás do balcão. —  Já te disse que se queres ler o jornal, tens que o comprar!
Eh pá! Está bem! Estava só a ver “as gordas”!  — Desculpou-se largando o jornal.
Virou as costas e atravessou a rua, preguiçosa e despudoradamente, enquanto ignorava os condutores a reduzir velocidade e buzinar protestos.
Espreitou para a entrada da loja abandonada, onde dormia o “Barbas”. Conseguia ver o rasto de papeis e plásticos abandonados que conduziam ao “covil”, na escuridão.
Ó Barbas! - Chamou Xico. - Estás aí?
Um grunhido fraco foi a resposta. Avançou, receoso, para a penumbra.
O Barbas jazia num emaranhado de cobertores, arfante e tremendo de frio. Cabelo e barba completamente brancos, rosto talhado em madeira, assente num corpo esquelético, ninguém sabia que idade tinha… nem ele. O ancião ergueu uma mão, que mais parecia uma garra, pedindo ajuda em gemidos arfados.
Xico baixou-se ao lado dele e pousou-lhe a mão na testa:
Eh, pá, que estás a “arder”!
Chama… chama o médico! — Conseguiu finalmente articular o velho.
Espera, que já volto!
Correu de volta ao quiosque e dirigiu-se ao homem do balcão:
Senhor João! Chame uma ambulância para o Barbas, acho que ele está muito mal!
Raios partam! — Resmungou o homem, pegando no telefone. — Agora passa a vida nisto! Depois eu que me amanhe com os gajos da assistência social a vir aqui dar-me novidades e fazer-me perguntas! Julgam que o velho é meu pai, ou o caraças!
Depois mande-os lá dentro, eu vou só buscar as minhas coisas e vou à minha vida.
Tu é que devias ficar com ele e dar as informações!
Sim, sim, — Ripostou Xico jocosamente. — Deus lhe agradecerá, se não for neste mundo, ao menos no outro.
Vai à m…! — João irritou-se.
Que mau feitio! — O outro riu-se, voltando-lhe as costas.
Atravessou de novo a rua e voltou ao recanto infeto onde o “colega” jazia. Agora parecia dormir, estaria morto? Tornou a pousar-lhe a mão na testa e obteve novo gemido fraco.
Olhou em volta, pelos objetos espalhados em redor do moribundo. Os pertences de uma vida, que mais não eram do que montes de roupas, cartões, garrafas de plástico e velhos eletrodomésticos com variados graus de destruição. Pegou no casaco e começou a revirar-lhe os bolsos; um maço de cigarros com dois cigarros inteiros, uma nota de cinco euros e quatro botões de plástico de tamanhos variados. Deitou os botões ao chão e guardou a nota e os cigarros. Apalpou-lhe o rolo que fazia de travesseiro, de onde tirou um saco de pano com umas dúzias de moedas e remexeu-lhe nos bolsos das calças onde achou um pequeno papel. Procurando a luz que se escoava da porta, acabou por identificar que se tratava de uma aposta do Euromilhões; 3, 5, 13, 16, 31, 32 e as estrelas 3 e 5. “A coisa promete” - Comentou para consigo. - “Nasci a 3 de maio e tenho aqui a data duas vezes; hoje é dia 13 e este ano passo de 31 para 32 anos. Este talão tem tudo para ser premiado.” Guardou-o no bolso do casaco, pegou nas sua próprias tralhas e saiu do covil, depois de deitar um último olhar ao velho, que respirava de forma entrecortada.
Caminhou pela rua que era a sua casa e, chegado ao “prédio dos cafés”, como lhe chamava, pousou as tralhas junto a uma das colunas da extensa colunata que albergava diversas esplanadas. Sempre com atenção aos empregados, passou pelo meio das mesas, surrupiando um palito de torrada ou um pastel trincado que alguém deixara abandonado. Sempre que o empregado reparava nele, desviava o seu caminho e dirigia-se rapidamente para fora da área da esplanada, antes que o expulsassem.
Na última das esplanadas, o empregado acabava de entrar no café e ele pôde explorar as mesas com mais cuidado. Numa delas, estavam quatro moedas de euro, que desapareceram imediatamente nos bolsos do vagabundo. Uma mulher,  sentada na mesa em frente, deitou-lhe um olhar desaprovador e ele, aproximando-se, fez um sinal ameaçador de silêncio, antes de se ir embora apressado.   
Já de novo com os seus pertences, chegou a um portão de madeira, semi derrubado, que empurrou. Entrou no que restava de uma antiga “ilha”, com um pátio enorme, totalmente rodeado por casas que agora não eram mais do que portas e janelas escancaradas por onde espreitavam silvados. Era a “casa” que partilhava com o Manel Passarão, desde que este fugira do Hospital Magalhães Lemos.


*** Fim da 1ª parte ***



Sinopse e Apresentação
Parte 2 - Pouca Sorte

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Uma Casa nas Ruas - Publicado no blogue "Memórias e Outras Coisas"



A vida nas ruas não é fácil e Xico sabe isso melhor que ninguém. Dormindo entre, umbrais de porta, vãos de ponte ou casas abandonadas, ele existe, sem abrigo, nas ruas do Porto. Tem amigos e inimigos, frequentemente aproveita-se de uns e vive inevitavelmente a fugir dos outros.
Por vezes covarde, muitas vezes marginal, quantas vezes amigo, ele vai ter de decidir se quer manter-se nas ruas ou procurar o seu destino noutro lado... quem sabe até, na sua própria origem.
Não deixe de ler mais este conto que irá ser publicado em vários capítulos, um por semana, a começar na próxima segunda feira dia 26 de Fevereiro de 2018  no blogue "Memórias... e Outras Coisas, Bragança" dando continuidade a uma agradável parceria. Pode acompanhar os episódios neste meu blogue clicando nas imagens correspondentes a cada um dos episódios:
1-Oportunista
2-Pouca Sorte
3-Ausencia Forçada
4-O Céu dos Pássaros
5-O Regresso
6-Começar do zero
7-Criar Raízes 
8-Karma

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Na Pele do Lobo - Parte V - Final


EM FUGA



A noite tomara definitivamente conta do mundo e os dois monges avançavam com dificuldade pela estrada milenar, que ameaçava ser invadida pela floresta em alguns sítios onde começava a esboroar-se. A única luz que tinham, eram uns pequenos raios de luar que iluminavam fracamente através das copas das árvores. 
Que achais que se passou ali, irmão? — A voz de David, tremula de emoção e esforço, fez-se ouvir quase num sussurro.
Creio que o abade já suspeitava do que se estava a passar, mas não esperava que fosse tão grave. Ele bem referiu que era uma coincidência “do maldito” o facto da aldeia ser dedicada a São Cristóvão. — Também o outro denunciava esforço ao falar.
São Cristóvão?!? Que tem isso a ver com homens que se devoram?
Não só que se devoram, mas que se transformam… dizem escritos muito antigos que São Cristóvão era um ser com cabeça de cão.
Bendito seja Deus! — O monge benzeu-se. — Como se pode crer em tal coisa?
Antes de conhecer Nosso Senhor Jesus Cristo, São Cristóvão não só tinha cabeça de cão, como comia carne humana; era um Cynocephalus. Quando se converteu recebeu a forma humana como recompensa.
Agora me lembro! — Os olhos de David brilhavam e pareciam saltar das órbitas, no escuro. — Sim, agora me lembro de ler sobre os Cynocephalus, mas nunca associei a este santo…
Como o abade pensava, esta peste é contagiosa e espalha-se como fogo na palha, temos que nos precaver e alertar todas as terras em volta. Assim que se comerem uns aos outros, passará, mas teremos que impedir que alastre. — Lágrimas correram do olhos de Simão. — A minha fé não foi suficiente para exorcizar aquele mau espírito e não temos tempo para o fazer a qualquer deles, antes que nos devore.
O resto do caminho foi num silêncio pesado, só interrompido pelo arfar dos dois monges, mas começavam a temer falhar o carreiro onde deviam abandonar a calçada e tomar a direção do mosteiro. Por fim, divisaram o que parecia um saco, mas depois acabaram por perceber que era um corpo deitado na estrada. Logo ao lado iniciava-se o trilho que deviam seguir.

*** *** ***
Irmão João! Irmão, que tendes? Aqui deitado no meio da estrada sujeito a ser pisoteado por algum cavalo! — A voz de frei Simão chegava de longe e arrancava-o lentamente do torpor em que se encontrava. — Estais ferido? Isto é sangue? — Ele tentou ver no escuro o liquido viscoso com que empapara as mãos ao ajudar o companheiro.
Onde está o irmão Tiago? — Quis saber David olhando em volta e embrenhando-se no mato que ladeava o trilho.
Não sei. — João arrastava uma voz distorcida e estranha, enquanto se tentava erguer. — Ele deixou-me descansar um pouco. — Ato contínuo, vomitou copiosamente no espaço entre eles. 
Simão largou-o e deu um passo atrás entre o surpreendido e o enjoado. Olhou as mãos sujas à luz da lua e os restos expulsos pelo monge. Grossas gotas de transpiração correram-lhe na fronte quando olhou o João, de novo de joelhos e depois para além dele, numa expressão de puro pânico.
Foge, irmão!!!! — Gritou Simão a plenos pulmões, repentinamente, fazendo gelar o sangue nas veias de João e David.
Tão depressa gritou como se lançou numa corrida na direção do convento, deixando os dois companheiros para trás. David, saiu do meio do matagal e deitou a correr atrás dele, mas tropeçou de imediato em algo volumoso que rebolou entre os seus pés. Conseguiu distinguir no escuro um corpo envergando as vestes de monge. O rosto quase tinha desaparecido, restando os ossos expostos da face com o sorriso eterno da morte. Gritou histérico e relançou-se na corrida atrás do outro.
João, completamente trôpego, correu desajeitadamente atrás dos dois, que lhe ganhavam distância rapidamente. Em pânico, sem parar, tentou olhar para trás para perceber  o que os perseguia e caiu desamparado no meio das silvas que ladeavam o trilho.
Ergueu-se novamente e reiniciou a corrida, se é que se podia chamar corrida às grotescas passadas que dava. Sentia-se tonto e enjoado, a vista fugia-lhe e acabou por apagar-se.

*** *** ***

Sonhava com lobos e via focinhos de presas ensanguentadas, garras que rasgavam carne... e tristeza, tanta tristeza...
O senhor seja louvado, irmão João! — A voz de Félix chegava-lhe difusa, mas transmitia-lhe conforto e calma. Chorou mansamente enquanto sentia dores excruciantes em todo o corpo. — Que fazeis aqui? Onde estão os outros? Valha-nos Deus, está todo ferido e ensanguentado! Acudam aqui, irmãos. Oh valha-nos o Salvador, como ele está!
Sentiu-se erguido no ar e transportado. Assim embalado,  incapaz de responder, entregou-se ao torpor e perdeu o conhecimento novamente.

*** *** ***

Havia paz… não sentia o tecido grosseiro do hábito junto ao corpo. A respiração estava calma, mas não se conseguia mover nem abrir os olhos, como se o seu corpo não lhe obedecesse. De novo lhe chegavam as vozes quase indistintas que sussurravam. Ele escutava como se fosse apenas um ouvinte a quem não interessava a conversa.
De certeza que não havia mais ninguém? Até onde foram?
Quase até à estrada romana, reverendíssimo abade.
Nada, nada? — Mateus insistiu.
Não senhor, há vestígios de sangue em vários sítios, mas supomos que sejam do irmão João. Não sabemos como se feriu desta maneira e não sei como consegue estar vivo, depois de perder tanto sangue. Já reparou bem no rosto dele, cheio de hematomas? Está tão deformado que quase não o reconhecia.
Mas e os outros que foram convosco, irmão Félix?
Como eu e o irmão Marcos trouxemos João numa padiola, os outros seguiram em frente.
O que quer que atacou o irmão João, deve ter atacado também os outros. Valha-me Deus e anda pela floresta às soltas! — O abade gemeu. — Ele deve ser o único sobrevivente. Depressa, tendes que ir em busca dos nossos irmãos, que regressem rápido, os outros devem estar mortos! Ide-vos, via! Faltam poucas horas para anoitecer, levai todos os que puderdes e armai-vos, nem que seja com as facas das cozinhas!
Tudo sossegou novamente e João retomou o seu sono.

*** *** ***

Acordou. Abriu os olhos e comprovou que estava na sua cela. Já era noite, estaria completamente escuro, não fosse uma pequena vela pousada na mesa que usava para ler.
Soergueu-se e rosnou com dores no corpo, mas mesmo assim sentia-se cheio de energia. Esfregou os olhos e achou a pele muito sedosa. Olhou as mãos escuras e enclavinhadas. Ergueu-se cambaleante.
Do pequeno postigo que dava para o pátio chegavam-lhe as vozes dos irmãos:
Encontramos Simão, Tiago e David!!! Estão todos em bocados meio devorados!
Onde está João? Tiago tinha o capuz dele na mão!
Doía-lhe a boca, parecia que os dentes não cabiam lá. Aproximou-se da bacia de cobre, ao pé da vela, para lavar o rosto e estacou ao olhar as mãos castanhas cobertas de pelo sedoso e olhou para a água que ondulava no recipiente; era a cabeça de um lobo que o olhava no reflexo.





** FIM **


Parte IV - São Cristóvão da Chã



sábado, 27 de janeiro de 2018

Na Pele do Lobo - Parte IV


SÃO CRISTÓVÃO DA CHÃ


Simão e os companheiros estavam a chegar a São Cristóvão da Chã com as últimas luzes do dia. Saíram das árvores e a estrada continuava num declive  mais ou menos suave, até às primeiras casas quase uma légua abaixo. O casario estava agrupado numa linha que deveria ter cerca de oitocentas varas e ramificava-se em vários raios a partir do centro. Aparentava albergar umas boas centenas de habitantes. Fora erguido numa planície, ao lado de um ribeiro que corria cheio e cercado dos campos de cultivo que se alargavam até à floresta. Mas Simão estava remoído de preocupação, por ter deixado os dois irmãos para trás, apesar de não haver outra hipótese. De outra forma não poderiam chegar à aldeia a tempo de falar com alguém e arranjar alojamentos sem terem de andar a bater às portas todas… depois, dois deles haveriam de ir ao encontro dos retardatários.
Irmão. — A mão forte de Filipe apertou o braço do chefe, puxando-o para que parasse.
Que se passa? — Domingos apercebeu-se do tom do cavaleiro e espevitou as orelhas.
Não há ninguém nas ruas, nem nos campos, não há fumo a sair das casas, não se ouve um cão ou uma galinha sequer.
Tendes razão. — Anuiu Simão.
Com mais atenção, aproximaram-se do casario e verificaram que as portas estavam abertas, umas mais e outras menos, mas todas abertas. Algumas tinham sinais de arrombamento. Não se atreveram a entrar em nenhuma antes de chegarem ao centro da aldeia. Havia três corpos, dois masculinos e um feminino, em decomposição, caídos dentro do tanque ao lado da fonte. David aproximou-se para investigar um enorme monte de cinzas a pouca distância e com o seu bordão, fez rolar para fora um crânio completamente negro. Reinava um cheiro pungente a morte, mas continuava a não se encontrar ninguém… nem mesmo um cão. Manchas de sangue, mais ou menos frescas, reconheciam-se nas lajes da praça.
Filipe decidiu-se e avançou para um dos casebres mais pequenos. Empurrou a porta com um pontapé e observou o interior da única divisão em completo desalinho: mesa partida, panelas e roupas espalhadas pelo chão… mas nem viva alma. Avançou para a outra mesmo ao lado e repetiu o procedimento. Os outros juntaram-se-lhe a imitarem o comportamento, até quase se acabarem as casas da praça.
Aqui! — Gritou Domingos.
Todos acorreram. Também aquela porta fora arrombada e na obscuridade descobriram vários corpos, despidos, com aspeto de grande violência. Muitas equimoses e semi-devorados. Era uma casa de alguém mais abastado, porque o chão estava pavimentado, mas havia pegadas, marcadas a sangue por pés descalços, por todo o lado. O odor era indescritível, mas Simão, com a manga do hábito a tapar a boca e o nariz, aproximou-se a examinar os cadáveres.
Não entendo. — Suspirou Domingos com uma careta. — Lobos?
Lobos não arrombam portas. — Sentenciou Filipe com o seu sotaque carregado, ajoelhado a acender  uma vela que apanhara do chão. — Estes infelizes fecharam-se aqui enquanto puderam, depois a porta foi arrombada e tudo acabou.
Estas dentadas não foram feitas por mandíbulas de lobos ou cães… são parecidas com as que faria um humano, mas ligeiramente diferentes. — Esclareceu Simão. — Vêm-se muitas pegadas mas nenhuma de animal.
David benzeu-se devagar, enquanto digeria toda a informação.
Não podemos ficar aqui! — Exclamou Domingos. — Fosse lá o que fosse, pode voltar e se estas pessoas todas não lhes conseguiram fazer frente…
Tendes razão. Temos que regressar rapidamente ao mosteiro e alertar o abade, isto é bem pior do que alguém poderia imaginar. — Simão percorreu com o olhar o espaço, agora um pouco mais visível com a luz trémula.
Ali! —  Avisou Filipe avançado decididamente para um corpo nu, enrolado a um canto, que se movera.
Era pequeno como uma criança e quando o templário lhe tocou no braço, com intenção de o voltar, ele rodou rapidamente para longe da mão e, após os enfrentar, com os quatro membros no chão e um rosto negro de sujidade, rugiu assustadoramente exibindo caninos salientes. Após isso, lançou-se num inesperado salto, com a boca escancarada, na direção do rosto de Filipe. Este, beneficiando de reflexos rápidos e da sua estatura em relação ao atacante, largou a vela e agarrou-o pelo pescoço. Tratava-se de um rapaz, o rosto deformado, mais próximo de um focinho do que uma face humana, pêlo fino, quase invisível, cobria a maior parte do corpo e, enquanto se debatia nas mãos fortes, rosnava e ladrava tentando morder o seu captor.
Estarrecidos até ao mais fundo das suas almas, Domingos e David gritaram e benzeram-se em simultâneo, enquanto rodavam para fugir. Mais controlado, Simão extraiu um crucifixo e um pequeno frasco do hábito e, empunhando um e aspergindo a criatura com o outro, começou a entoar:
Exorcizamus te, omnis immundus spiritus, omnis satanica potestas, …
David também ergueu o crucifixo de madeira que trazia ao pescoço e começou a benzer a criatura, mas nada parecia surtir efeito e Filipe estava a começar a ficar cansado. Pequenas chamas mourejavam junto a uma das paredes interiores, no local para onde rolara a vela.
O rito continuou e Domingos ajudou a segurar o exorcizado, com pouca habilidade, pois tinha receio de lhe tocar e estava perturbado com a nudez do jovem.
A transpirar abundantemente, Simão gritava mais alto sobre os rugidos do ser:
—  Imperat tibi Deus altissimus, cui in magna tua superbia te similem haberi adhuc præsumis; qui omnes homines vult salvos fieri et ad agnitionem veritaris venire. Imperat tibi Deus Pater; imperat tibi Deus Filius; imperat tibi Deus Spiritus Sanctus. Imperat tibi majestas Christi, æternum Dei Verbum, caro factum...
Por fim, devido ao cansaço, que não parecia afetar o rapazinho, Filipe aliviou a pressão e foi o suficiente para levar uma forte dentada num dos braços. Louco de dor, o templário gritou e tentou soltar-se, mas a criatura não desferrava e começava a correr o sangue, à medida que ela se esforçava por rasgar a pele. Domingos estava a estorvar mais do que ajudar, pois puxava o pequeno corpo, impedindo Filipe de se movimentar com liberdade.
...sua humilitate contrivit. Imperat tibi fides sanctorum Apostolorum Petri et Pauli, et ceterorum Apostolorum + . Imperat tibi Martyrum sanguis, ac pia Sanctorum et… —  Simão recitava o exorcismo cada vez mais alto, pois sabia que não podia interromper ou teria de começar de novo.
Um pontapé fez Domingos cair e chorar de pavor tapando-se com o capuz. Não aguentando mais, Filipe bateu com a cabeça da criatura, com toda a força, na parede de granito. O estrondo, como que de uma cabaça a rebentar, fez todos ficarem imóveis e incrédulos. Sentia-se um silêncio pesado quando o templário deixou-se cair de joelhos e com lágrimas nos olhos, abriu as mandíbulas sangrentas do cadáver. Uma ferida profunda ficou exposta com um pedaço de pele pendurada, de onde o sangue vertia  abundantemente.
Já as chamas lambiam as paredes interiores, de tabique, quando todos abandonaram a casa, com o braço de Filipe apertado por ligaduras feitas com as túnicas, onde se via, mesmo assim, uma espessa mancha púrpura.
Chegados ao exterior deparam, em choque, com dois recém-chegados, do outro lado da praça, saindo de uma viela. Pareciam-se mais com animais do que com homens, rostos transfigurados, costas curvadas, quase de gatas e pêlo hirsuto ao longo de todo o corpo.
Simão fez o gesto de procurar novamente o crucifixo mas Filipe advertiu-o:
Irmão, já vimos que isso não está a funcionar, a nossa fé não deve ser suficiente para vencer este mal. — Tirou um punhal de dentro do hábito e sorriu perante o olhar escandalizado do outro. — Por vezes temos que dar uma ajuda à salvação. Não temos tempo a perder, correi irmãos, ide avisar o mosteiro do que aqui se passa e acudi a João e Tiago que devem estar a chegar.
Já vi que estas coisas podem ser mortas, sendo assim, já não lhes tenho medo! — Exclamou Domingos erguendo o seu bordão. — Acabamos com as criaturas e O Senhor lá se encarregará de lhes dar a salvação.
Não digais heresias! — Censurou Simão.
Ide-vos! — Ordenou o templário. — Não esperem por nós, se Deus assim o quiser, breve nos juntaremos  novamente.
São apenas dois… — Começou David.
Não! — Insistiu Filipe. — Vêm mais lá. Se frei Domingos ficar comigo, vós tereis mais hipóteses, fujam. Vamos matar uns quantos e depois fugimos também. O importante é avisar o mosteiro o quanto antes. Reforcem as portas todas e armem-se com algo mais que crucifixos e água benta…
Apavorado, mas percebendo como era crítica a situação deles, Simão, com os olhos marejados de água, abraçou Filipe e Domingos; não conseguindo dizer palavra, embargado que estava pela dor.
David, lavado em lágrimas despediu-se dos dois monges e apressou-se a seguir Simão, que tomara a dianteira em passo rápido, mas ainda a tempo de ver mais estranhas criaturas, juntando-se, ainda indecisas sobre como agir com os intrusos.
Já quase corriam pela estrada que subia a serra, quando o barulho chegou até eles. Durante alguns minutos,  latidos, ganidos, gritos e pancadas ouviram-se provenientes da aldeia e depois… silêncio.
Temendo transformar-se numa estátua de sal,, à semelhança da Sara fugida de Sodoma, David não se atrevia a olhar para trás, Simão, porém,  voltou-se antes de se embrenharem nas árvores que escondiam a estrada. Lá longe, altas labaredas consumiam várias casas e na entrada da aldeia, um homem envergando um quase desfeito hábito castanho, fugia cambaleante do meio do casario, perseguido de perto por cerca de dez criaturas. Caiu e foi rapidamente atacado pelos perseguidores. Nos segundos que se seguiram, dezenas de outros amontoaram-se, lutando entre eles e empurrando-se, para se juntarem ao “banquete”.
 Horrorizado, empurrou David e, por fim, acabou por passar-lhe à frente e puxa-lo para se afastarem rapidamente dali.