Debaixo dos Céus Os Mundos de Manuel Amaro Mendonça
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terça-feira, 28 de junho de 2016

Salvo


** Publicado no blogue "Memórias e Outras Coisas" http://5l-henrique.blogspot.pt/2016/09/salvo-conto-de-manuel-amaro-mendonca.html
** Incluído no livro "Daqueles Além Marão"



Mariano Bento olhou o céu, de agitadas nuvens escuras, enquanto apressava o passo. Calcorreava o caminho que ia de Alijó a Sanfins, naqueles últimos dias do mês de setembro. Pela arreata, levava a sua mula cor de carvão, a Sedosa, com abundante carregamento de tecidos que lhe encomendaram entregar.
Bem que Acindina, sua mulher, lhe disse várias vezes que não saísse hoje, que se avizinhava tempestade, mas ele podia lá deixar que ela lhe desse ordens? Ainda para mais, à frente do Manel do Telheiro e do Quim de Ribatua? Excomungada mulher, que tem sempre que dar uma opinião, mesmo que ninguém lha pedisse. Ele próprio estava para recusar fazer o trabalho naquele dia… agora estava ali, a meio caminho entre um sítio e o outro, com o céu a fazer caretas cada vez mais medonhas, o vento a uivar e o eco longínquo, mas ameaçador, dos trovões. Ele até nem era ganancioso, embora o dinheiro que ganhará com este transporte lhe faça falta.
Se bem se recordava do trajeto, não estava longe, bastaria passar o maciço do monte da Senhora da Piedade, e Sanfins seria logo a seguir.
Do alto do caminho ascendente, olhou com pena os casebres, a poucas centenas de metros do sopé do monte. Pensou se não deveria reconsiderar e abrigar-se por lá à espera que o tempo melhorasse. As rabanadas de vento, obrigaram-no a segurar o chapéu, cujas abas drapejavam perigosamente.
Já embrenhado na mata de sobreiros e castanheiros, que cobria o imponente monte, o céu parecia escurecer ainda mais e, apesar de serem pouco mais que 17:00h, a luz desvanecia-se e parecia que a noite caíra rapidamente. A Sedosa, quiçá mais inteligente que o dono, a espaços fincava as patas na terra dura do caminho e não se queria mover. Só depois de alguns puxões e a ameaça da chibata, erguida alto sobre os olhos, é que se deixava convencer a dar mais umas passadas.
Também Bento se sentia mais preocupado agora, bem no coração do monte, com os altos ramos a esbracejar furiosamente, para o demover do caminho que tomava. Parou a olhar o céu e uma grossa pinga caiu-lhe sobre a testa. Depois outra e outra. Num instante, uma chuva torrencial abatia-se sem contemplações sobre a dupla, que se arrastava miseravelmente sobre o chão enlameado. Ao longe, escutava-se o toque de um sino empurrado pelo vento. “Deve ser a ermida da senhora da Piedade.” Pensou de si para si enquanto dava nova mirada para trás. Nada se via a não ser o caminho ladeado por árvores que desaparecia no escuro. “Estará muito longe, a ermida? Fica no topo do monte, bem sei, mas com certeza terá um telheiro, ou alguma sorte de abrigo.” Hesitou ao notar um carreiro estreito, ascendente, à sua esquerda. Possivelmente um atalho para a ermida. O monte deve estar cheio deles, para os romeiros e os peregrinos que vêm de toda a região. Entrou no carreiro, puxando a mula atrás de si.
A chuva e o vento não davam tréguas e, para ajudar, as nuvens negras que escureciam o céu, eram iluminadas de tempos a tempos por flashes que se repercutiam em longínquos trovões. A Sedosa estava próximo do pânico absoluto, quando eles desembocaram numa clareira sem saída. O carreiro não levava a lado nenhum, embora o fraco tinir do sino parecesse mais perto. A cavalgadura resfolegava e batia os cascos nervosamente.
A chuva que conseguia passar pelos ramos das árvores, batia com força no rosto, as horas passavam-se e, com as nuvens tão cerradas, em breve seria noite escura. Resolveu voltar ao caminho, de onde não deveria ter saído. Teve que puxar várias vezes a arreata para que o teimoso animal, de olhos esbugalhados e narinas dilatadas, o seguisse. Rápido percebeu que não estava no trilho correto e viu-se numa área com várias paredes em socalcos, possivelmente de um vinha abandonada. Mais à frente, havia um pequeno casebre. Seria o local para se abrigar e se calhar passar a noite.
Como naquele sitio a densidade das árvores era menor, ele conseguiu divisar o teto de nuvens revoltas e foi nesse momento que um enorme raio cruzou o céu. Por longos segundos, tudo ficou iluminado com uma luz branca cegante, logo diluída nas trevas. No mesmo minuto um portentoso trovão estrondeou na montanha, ensurdecendo a dupla. Foi demais para a pobre mula que, com um apavorado coice, projetou Bento num tombo rodopiante, pelas velhas paredes cheias de cotos de vinhas mortas, antes de fugir desenfreada.
Não sabe quanto tempo esteve ali caído, mas despertou, cheio de dores no corpo e na cabeça, com um ruído estranho. Já era noite e a chuva parara. Sentou-se, dolorosamente e escutou uma vez mais o som que o despertara, um rosnar ameaçador; um lobo, com os pelos do dorso eriçados, enfrentava-o a poucos metros. Conseguia ainda divisar o brilho dos olhos de mais uns quantos.
Percebeu que a sua hora chegara. Mesmo que conseguisse salvar-se contra um deles, não tinha qualquer hipótese contra a alcateia. Involuntariamente, vendo os restantes quatro predadores abandonando as sombras, uma prece saiu espontânea dos seus lábios trementes:
-    Oh minha Senhora da Piedade, acudi a este pecador nesta hora de aflição, não deixeis que morra aqui nos dentes destas feras.
Ergueu-se cautelosamente, empunhando um bocado de uma videira e procurou colocar-se de forma a dificultar o salto que o mais próximo dos animais preparava.
De repente, a atitude dos lobos pareceu alterar-se e, mesmo o mais próximo, passou de uma posição de ataque para outra de hesitação. Por fim, resolveu virar costas ao seu “jantar” e desatou a fugir, seguido de perto pelo resto da alcateia.
Atónito, Bento não percebia o que estava a acontecer e olhou para trás para descobrir uma jovem e pálida mulher. Os cabelos negros, estavam caídos sobre os ombros, tapados por um longo vestido azul que não deixava ver os pés. Empunhava um varapau com uma mão e uma tocha flamejante na outra. Ele deixou-se cair de joelhos e de rosto em terra. Não podia ser outra, senão a resposta à sua prece!
A mulher segurou-o por um braço e obrigou-o a erguer-se. De perto, era ainda mais bela. Ele tentou balbuciar um aparvalhado agradecimento, mas ela, exibiu um sorriso maravilhoso, que pareceu tornar a noite em dia e pousou um dos seus delicados dedos sobre os seus lábios. Obedientemente, deixou-se guiar até uma gruta formada por um enorme bloco de granito aparentemente suportado por duas contorcidas oliveiras de aspeto centenário. Todas as árvores em redor eram também oliveiras, muito velhas, envoltas em mato e silvas.
A senhora apontou-lhe o fundo da pala e fez um gesto, com as duas mãos debaixo do rosto, indicando que deveria descansar ali. Em seguida, com a tocha que empunhava, acendeu o molho de gravetos à entrada da gruta.
Hesitante, ele obedeceu e contornou a aconchegante fogueira, sentando-se numa fofa capa de folhas secas. Tentou agradecer novamente mas, uma vez mais, aquele sorriso desarmante deixou-o sem fala e ela repetiu o gesto de silêncio completando-o com outro, com a palma da mão voltada para baixo, indicando que esperasse. Depois, voltou-lhe as costas afastando-se silenciosamente ainda com o varapau e a tocha. Ele ficou, imóvel, a ver a luz bruxuleante a desaparecer nas trevas.
O tempo passou-se e ela não voltava. Bento, aquecido pela fogueira, atenuados o medo e as dores da queda, acabou por adormecer na cama de eremita.
Já tinha nascido o sol quando acordou. O céu continuava coberto de nuvens e um nevoeiro denso escapava-se do chão atapetado por séculos de folhas. A fogueira apagara-se e não havia sinal da mulher que o salvara, que não podia ser outra senão a Senhora da Piedade que era venerada na ermida no cume daquela serra.
Ergueu-se, com as pernas trementes, esperando, mas ao mesmo tempo temendo, encontrar a mulher. Percebeu então, aos seus pés, um saco de lona de aspeto bastante usado. Pegou-lhe e abriu-o; tinha um punhado de bolotas de ouro maciço! Ficou estarrecido e pousou o saco onde estava, vendo então que havia um outro em tudo igual, mesmo ao lado. Abriu-o e estava meio de figos, apetitosos figos, que o seu estômago, que não comia nada desde o meio da manhã do dia anterior, reclamou.
Ficou-se sem saber o que fazer, mas, por fim, a fome mandou mais forte. Pegou uma mão cheia de figos, não todos e fechou novamente o saco. Colocou-os no bolso e saiu da gruta a mastigar um deles.
Vagueou em volta mas não viu ninguém, nem vestígios da passagem de quem quer que seja no olival abandonado onde se encontrava. Acabou por achar o caminho de onde se perdera na tarde anterior e tomou a direção que achava ser a de Sanfins. Tinha um aspeto miserável, com o rosto cortado e com sangue seco em vários sítios, nódoas negras e roupas rasgadas. Comeu mais um figo, que pareceu dar-lhe alento e apercebeu-se que estava já a sair da parte mais densa da mata e o caminho iniciava um declive suave no sentido descendente.
Abandonou a proteção das árvores e contemplou o enorme vale que se estendia à sua frente, meio encoberto pelo nevoeiro baixo. Mais ao fundo, no caminho que o levaria à povoação, viu dois homens que traziam pela arreata a sua mula Sedosa.
Quase correu para junto dos homens.
-    Oh, Deus seja louvado! - Exclamou, felicíssimo a afagar o focinho do animal. - Encontraram a minha Sedosa! - Muito obrigado aos senhores!
-    Deus dê um santo dia a vosmecê! - Saudou o homem mais velho com um sorriso. - Porque a noite não deve ter sido nada boa, da forma como está “embuldrigado”!
-    Eu não disse “ca” mula vinha da serra, pai? - Perguntou o mais novo.
-    Oh, sim, espantou-se ontem à tarde, com a trovoada! - Explicou Bento. - “Amandou-me” com um coice aqui do lado, que é de admirar não me ter “arrebentado” as costelas!
-    Ontem, pela noitinha, demos por ela a pastar lá à porta, percebemos que devia haver alguém em trabalhos, mas a serra não é um bom lugar para se andar à noite. - Continuou o mais novo. - Guardamos para ver o que se passava agora pela manhã.
-    Ainda bem que o bom Deus olhou por vosmecê. Andam coisas muito estranhas por esta serra à noite, ninguém gosta de ser apanhado por lá! - Afirmou o mais velho.
-    Pois vosmecês não querem saber que ia sendo comido por lobos?
O homem mais velho benzeu-se enquanto o mais novo arregalou os olhos e perguntou:
-    Atacaram vosmecê? E morderam-no?
-    Não, Deus seja louvado! Pedi ajuda à Senhora da Piedade e não querem saber que uma mulher com um varapau e um archote correu com os lobos?
Os dois estranhos olharam-se com expressões de incredulidade.
-    Juro! Não sou nenhum “aldrúbias”, nem “borrachão”! - Exclamou Bento.
-    E… apareceu a Nossa Senhora? - O mais velho fez uma careta.
-    Pois, quando ela apareceu, também pensei que sim. Era muito bonita, com cabelos compridos e um vestido azul. Mas ela não me deixou ajoelhar e levou-me para uma pala para descansar. Ao fim e ao cabo, “tiranto” aparecer não sei de onde, não fez nenhum milagre, os lobos fugiram foi da tocha que trazia!
-    Levou-o para uma pala, diz? - Perguntou o mais novo com uma expressão de desconfiança.
-    Sim! - Bento foi convicto. - Achou-me no meio de umas vinhas velhas e levou-me para uma pala ao pé de um olival abandonado.
-    A pala da moira! - Exclamaram o velho e o novo em uníssono!
-    Moira? Qual moira?
-    Como era a mulher que viu vosmecê? - Interrogou o velho.
-    Muito branca, cabelos pretos e um vestido comprido azul! Levou-me para uma pala onde tinha um saco de figos.
-    Figos! - Riu-se o mais novo. - Não há figueiras umas boas léguas em redor!
-    Que demónio… - Bento perdeu a paciência e mergulhou a mão no bolso. - Vejam, ainda aqui trago alguns! - Mas a mão estava preta de carvão e o que ele segurava eram apenas algumas pedras pretas que atirou para o chão. - Que m** é esta?!?
Os dois estranhos soltaram uma gargalhada.
-    “Caçoais” de mim?!? Estou a dizer-vos! Foi uma mulher que vive na serra que me ajudou! Ainda há pouco comi um dos figos que estavam na pala!
-    Escute, amigo! - O mais velho parou de rir e explicou. - Não vive ninguém nesse monte! Lá para cima, há umas vinhas e olivais muito “intigos” que dizem que eram dum rei mouro que aí vivia com a filha e que foram mortos pelos cristãos. As ruínas do castelo, nunca ninguém as achou, embora se diga que a ermida foi construída nas suas fundações. O que é certo, é que acontecem coisas muito estranhas nesse monte e é por isso que ninguém gosta de andar por lá, se o puder evitar. Contam-se histórias de gente que achou muito ouro, mas nunca conseguiu sair do monte...
-    Mas eu...
-    … por isso, bom homem, - Continuou o velho. - se está vivo, de saúde e recuperou os seus pertences também, dê Graças a Deus e deixe o que aconteceu entre vosmecê e Ele. Por mim, fico “sastisfeito” que esteja “bô” e que possa seguir a sua vida. Se precisar de alguma coisa, pergunte pelo Quim Moleiro, vivemos mesmo ali à entrada de Sanfins.
E com isto, sem aguardar resposta, deixaram-no com a mula e afastaram-se a conversar um com o outro.
Obrigado… - Bento agradeceu, quase distraidamente, enquanto olhava para o chão, para o local onde atirara as pedras negras, que antes eram figos… e que agora eram bolotas de oiro.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Montês


Era o fim de uma tarde quente de agosto, quando Benedito chegou a Santiago. Estava coberto de pó, com as roupas remendadas, as socas de madeira penduradas num varapau que trazia ao ombro e os pés descalços. Ninguém tinha dúvidas que umas boas léguas endureciam aquelas solas calejadas que pousava ritmicamente na calçada. O seu tamanho, uma cabeça acima da média, chamava a atenção e as pessoas que se cruzavam com ele não conseguiam deixar de deitar um segundo olhar, assim que o tinham pelas costas. Pelo seu rosto de tez morena e de barba rala, via-se que era ainda um jovem na casa do vinte e poucos anos.
Foi olhando com curiosidade os edifícios de vários tamanhos que ladeavam a rua que ligava Viana do Castelo ao Porto. Na passagem pelo terreiro arborizado de uma feira, onde dezenas de tendas e barracos e carroças, mais ou menos alinhados, aguardavam o dia seguinte, viu que alguns comerciantes afadigavam-se ainda a terminar a montagem dos estabelecimentos.
–    Santas tardes! - Saudou Benedito a um vendedor de tecidos que bufava ao puxar as cordas que prendiam a lona que cobria a carroça.
O homem parou de puxar para olhar o recém chegado, medinodo-o de alto abaixo.
–    Sim? - Perguntou desconfiado. - Que queres, rapaz?
–    Vosmecê precisa de ajuda com a tenda… em troca de umas poucas moedas…
–    Não, não, não! Some-te! Não quero ninguém aqui a rondar! Vai pedir para outro lado! - O homem voltou-lhe as costas.
–    Mas eu não ando a pedir. - Benedito insistiu, ofendido. - Só quero que me dê dinheiro em troca de trabalho.
–    Já te disse que não te quero aqui, “labrosca, chispa”! - O comerciante, bastante encorpado, largou a corda e pegou num varapau ao mesmo tempo que se voltava para ele.
Benedito olhou o homem de alto a baixo, mas não empunhou o seu próprio varapau, embora lhe passasse pela cabeça dar uma ensinadela ao mal educado. Acabou por encolher os ombros e virar-lhe as costas. Decididamente, não tinha sorte com os comerciantes; ou eram estúpidos e malcriados, como este, ou simples ladrões, como outros que bem conhecia…
O estômago roncou de fome e ele tirou uma moeda do bolso, a sua única moeda. Vinte reis, um mísero vintém, toda a sua fortuna! Mirou-a de ambos os lados; não chegava para nada, pouco mais que um litro de vinho, mas para comer que era bom,,. Devolveu-a ao bolso e abandonou o terreiro da feira onde a mistura de cheiros a pão, sardinhas e bacalhau assados começava a ser dolorosa.
Caminhou pela rua, uma enorme reta que se estendia por cerca de meia légua antes de desaparecer numa curva suave. As casas iam sendo menos imponentes à medida que se afastava do largo e as pessoas começavam a ser cada vez menos, apressadas, com a aproximação da hora da ceia. Um pachorrento carro puxado por bois, transportava quatro barulhentos rapazolas que conversavam e riam alto. Mais à frente, outro carro, mais pequeno e puxado por um burro esquálido, transportava cântaros. Um homem, de boina basca e fartas barbas, entregava um dos cântaros numa casa.
–    Compre-me uma sardinha, vizinho! - A voz feminina, trémula, mas estridente, fê-lo estremecer. Uma velha, num corredor estreito entre as casas à sua direita, abanava duas sardinhas pousadas nas brasas. - Só tenho estas duas… - Desculpou-se ela.
Ele olhou a velha, tão maltrapilha como ele e conseguiu divisar ao fundo do corredor as tábuas de um barraco. O cheiro das sardinhas impôs-se através do estômago que roncava.
–    Quanto custa? - Perguntou olhando a velha nos olhos.
–    Dézreis! - Ela salivou ao mesmo tempo que respondeu. - As duas!
–    Vosmecê parece-me que tem fome também… - Ele sorriu.
–    Oh, se tenho meu senhor, mas estou a juntar o dinheiro que posso para pagar ao médico que venha “pori” ver o meu marido. Está doente vai p’ra mais de um mês e não há meio de poder ir trabalhar… já gastamos o pouco que tínhamos aforrado. - O rosto sujo transformou-se numa máscara de dor e as lágrimas vieram-lhe aos olhos. - Desculpe, senhor, desculpe, leve as sardinhitas, leve. Dê-me lá “désreizitos”.
Pôs a mão ao bolso e olhou, desconsolado, para a moeda de vinte reis. A velha observava-o, com os cabelos prateados e despenteados a saírem do lenço da cabeça. Olhou a velha novamente e perguntou:
–    Tem “praí” uma côdea?
Ela, percebendo pela moeda acobreada que precisava de compensar o valor, revolveu os bolsos do avental sujo e tirou um naco de pão de milho, que exibiu.
–    Tire lá as sardinhas antes que fiquem torresmos e parta esse pão em dois. Ponha uma sardinha em cada. - Comandou ele.
A velha obedeceu em gestos rápidos e, num instante, tinha as duas sardinhas em fatias de pão e estendia a mão vazia, à espera da paga.
Benedito tornou a olhar a moeda com desalento, mas lá a pousou na mão suja da mulher, recebendo em troca os pequenos peixes.
–    Não. - Disse ele. - Dê-me só uma. A outra come-a vosmecê, se calhar precisa mais que eu!
–    Oh, não, meu senhor, não tenho trocado para lhe dar. - A velha recusou com um olhar implorante.
–    Não quero troco! - Explicou o jovem. - Se Deus quiser, lá hei-de arranjar mais umas moedas em qualquer banda. Coma e que lhe saiba bem!
–    Meu senhor! - A mulher não queria acreditar no que ouvia. - Que o bom Deus o cubra de bênçãos! - Ela agarrou a mão dele e tentou beija-la, embora ele a tenha tirado prontamente.
–    Coma, boa senhora, se vosmecê ficar doente também, então ninguém vos pode valer. Coma!
Não se fazendo mais rogada, a mulher “atacou” aquele pequeno consolo para o estômago e, com a boca cheia, prometeu:
–    Não tenho nada, meu senhor, mas o nada que tenho é de vosmecê! Se não encontrar onde dormir, venha aqui! Meu nome é Emerenciana e há-de arranjar-se pelo menos uma enxerga, uma manta e um lugar à lareira, já que a comida não há. Diga-me a sua graça, para saber quem é o meu benfeitor.
–    Obrigado, senhora. Meu nome é Benedito.
Sem mais, ele afastou-se do local, debicando a pequena sardinha, com a ponta dos dedos, para que tardasse a acabar.
Aproximava-se de uma taberna, facilmente reconhecível pelo ramo de loureiro pendurado na porta. Ouviam-se vozes alteradas vindas do interior e, no preciso momento que vai a passar em frente à porta, saiu um vulto “desgovernado”. Chocaram violentamente e rolaram no chão, desamparados. Ato contínuo, saíram da taberna outros dois homens, furiosos, que se atiraram ao que o derrubara. Algumas pessoas assomaram às janelas e portas para apreciarem o “espetáculo”. O próprio taberneiro, um homem gordíssimo, de enormes mãos sapudas,  ficou à porta a assistir, sorrindo e trincando calmamente um palito.
Benedito ergueu-se e olhou incrédulo para toda a assistência. Ninguém “mexia uma palha” para ajudar o desgraçado debaixo de socos e pontapés.
–    EH! - Gritou o jovem, batendo com o varapau numa  lage do chão. - Parem com isso!
Os agressores pararam para o olhar, embora um deles não largasse o pescoço da vítima que continuava no chão. O próprio agredido ficou surpreso.
–    Que queres tu, ò “fraldiqueiro”? - Interrogou o que parecia mais velho, de punhos cerrados. - Não te metas nisto, se não queres que te “moa o canastro”!
–    Pois, coragem não vos falta, dois a bater num… - Benedito desafiou.
–    Querem lá ver o “canalho”… - Com isto, o homem avançou para o rapaz que, num gesto gracioso, rodou o varapau sobre a barriga de uma das pernas do agressor, fazendo-o cair de costas com a cabeça no chão.
–    No lugar de vosmecê, deixava-me ficar “quêdo”! - O jovem avisou, quando o homem se levantou a esfregar a cabeça. - A próxima não vai para as pernas!
O outro agressor bateu com a cabeça da vitima no chão e pôs-se ao lado do companheiro. Benedito agarrou o varapau por uma ponta e pousou a outra extremidade no chão, entre ele e os outros dois, em guarda. O homem mais velho tirou uma faca da cintura e fê-la reluzir ameaçadoramente.
–    Tens a certeza que te queres meter nisto, rapazola? Isto não é da tua conta. - Falou o mais novo exibindo também uma faca.
O agredido, percebendo que a única hipótese era alinhar com o inesperado paladino, correu para junto do jovem e colocou-se a seu lado, empunhando uma pedra. Benedito sorriu-lhe e piscou um olho. O homem, aparentando uns trinta anos, sangrava do nariz e da boca.
Os agressores começaram a afastar-se um do outro, para atacarem simultaneamente dos dois lados, no entanto, o jovem não lhes deu tempo e, no momento seguinte, uma varada estoirou na mão da faca do homem mais velho e outra de imediato na cara do mais novo. Nova varada entre as pernas do primeiro e uma outra nas costas do segundo. Ambos ficaram de joelhos.
–    E agora? - Benedito acenava a ponta do varapau próximo do rosto arroxeado do mais novo. - Alombas com o teu “compincha” e ides “impeçar” a vida para outro lado? Ou tenho que “amandar” mais “barduadas”?
Sem uma palavra, sem sequer levantar os olhos, o mais jovem ajudou o companheiro a erguer-se e começaram a afastar-se. O mais velho tentou ainda apanhar a faca do chão, mas o bordão polido bateu, num aviso, ao lado da arma. O homem deitou um olhar venenoso a Benedito antes de acrescentar para a sua vítima:
–    Isto não fica assim, Tino! “Emos de falar” outra vez, não perdes por esperar!
Os dois meliantes afastam-se, a amparar-se mutuamente, mas toda a audiência se manteve. Era muita a curiosidade por este forasteiro que se desenvencilhara daqueles dois com tanta facilidade.
–    Meu grande amigo! - O chamado Tino estendeu a mão num cumprimento. - Foi o bom Deus que pôs vosmecê no meu caminho! Meu nome é Faustino e, a partir desta hora, um seu criado para sempre!
–    Não podia deixar dois “manhuços” baterem num “home”! - O jovem riu-se, mostrando os dentes grandes, mas certos, enquanto permitia que a sua mão fosse apertada e sacudida com energia. - Chamo-me Benedito.
–    Um homem honrado e corajoso, ao contrário deste bando de badamecos! - Faustino abarcou, num gesto amplo a audiência, expectante. - Ainda há gente boa neste mundo sem Deus!
Vários insultos, em voz mais ou menos alta, acompanharam o bater de portas e janelas da assistência que se cansara de repente do espetáculo.
–    É por isso que depois “comes nas ventas”! - Sentenciou a voz forte e arranhada de bagaço do taberneiro.
–    Também tu, João! - Faustino acusou, voltando-se para o taberneiro. - Não fizeste nada para me ajudar, bandalho!
–    Olha lá…! - Admoestou o visado. - Não sei o que fizeste àqueles dois… coisa boa não foi! De resto, o que me interessa é que não “esborracem” as mobílias cá dentro. - E com esta declaração regressou ao estabelecimento.
–    Este pedaço de asno… - Faustino desabafou, incrédulo, para Benedito. - Que posso fazer pelo meu amigo? Posso pagar um copo da zurrapa que o João chama vinho? É o mínimo que posso fazer!
–    Obrigado, mas não há nada a pagar! - O jovem fez um sorriso desconsolado ao ver, a pequena sardinha e o pão esborrachados no chão. - Pena foi a minha ceia…
–    Oh meu bom amigo! - Faustino seguiu o olhar do seu salvador e exibiu um largo sorriso com os dentes ensanguentados. - Ninguém poderá dizer que eu não reconheço os amigos! Venha comigo, vamos aqui merendar alguma coisa. Por favor, é um gosto que me faz!
Embora hesitante, o jovem deixou-se empurrar para o interior da taberna pelo outro, que antes de entrar recolheu as duas facas abandonadas no chão.
O estabelecimento, se assim se podia chamar, não passava de uma divisão de paredes escuras, sem janelas, com duas mesas de bancos corridos e um balcão sebento atrás do qual se escudava a figura enorme do João taberneiro. A única luz, era proveniente das portas, uma de cada lado e quatro velas num candelabro metálico de cor indefinida. O cheiro a vinho e fritos enchia todo o ambiente.
–    João! - Ordenou Faustino com importância. - “Traze daí” meia dúzia daquelas coisas a que chamas iscas de bacalhau sem vergonha nenhuma. E bota cá um caneco do teu tinto “augado”. Este meu amigo tem que ter uma ceia de digna de um rei.
–    Está-me cá a parecer que as pancadas fizeram-te mal à mioleira. Não te chegaram as que “comeste” já e tás a pedir que te ponha lá fora com um chuto nos fundilhos? - Rosnou o taberneiro antes de gritar para a porta das traseiras. - Piedade! “Traze-me” cá um prato de iscas!
Com isto, o enorme homem tirou uma caneca de madeira debaixo do balcão e desapareceu pela porta das traseiras. Pelo mesmo sitio, surgiu uma jovem de cabelos compridos escuros transportando um prato de iscas.
–    Vou “verter águas”. - Anunciou Faustino levantando-se e dirigindo-se também para as traseiras. - Vá comendo! Força!.
A rapariga aproximou-se da mesa e pousou dois canecos de barro e um prato de madeira com seis “patelas” de massa frita.
–    Você foi muito valente! - A jovem voltou os olhos castanhos e brilhantes para o sorridente Benedito, enquanto a sua voz melodiosa formulava o aviso. - Aqueles homens são gente rija… e perigosos. Trabalham na casa dos leões, tenha cuidado com eles.
–    Piedade! - Gritou o taberneiro regressado ao estabelecimento. - Chispa daqui! Já te disse que não te quero de volta dos clientes!
Tão depressa como apareceu, assim desapareceu a rapariga sem dar tempo a qualquer resposta. João bateu com força, com a caneca de barro vermelho, no tampo da mesa, fazendo saltar vários respingos de vinho enquanto fitava o jovem com ar zangado.
–    Eh João, deixa o rapaz! - Pediu Faustino ao reocupar o seu lugar à mesa. - Não vês que ele é novo aqui?
–    Pois é novo, é! - O homem continuava a fita-lo ameaçadoramente. - Com varapau ou não, eu que o veja a rondar a minha filha, que lhe parto as pernas.
–    Eu não fiz nada! Não sei porque está “praí assim inraivado”. - Exclamou Benedito, sem se deixar intimidar.
João voltou-lhes as costas e afastou-se, bufando, para trás do balcão.
–    Cuidado com o João “chebola” no que toca à filha. - Segredou Faustino. - A mulher fugiu-lhe há uns anos e deixou-o com ela. Já deu aí umas tareias por causa de se meterem com a cachopa.
–    Que estais aí a “cuscar”? - Tornou o vozeirão. - Comam e bebam, paguem e chispem daqui!
–    Queres uma das facas daqueles paspalhos? - Ignorando o taberneiro, Faustino pôs as facas em cima da mesa, enquanto pegava numa das iscas e a mordia com vontade.
–    Não. Acho que não. - Benedito recusou, depois de pegar numa delas e a pousar outra vez. - Não gosto de facas. Já não é a primeira vez que vêm para mim com elas e acabam sempre com a cabeça partida. Por maiores que sejam! - Com esta afirmação, espreitou para o balcão sobre a cabeça do companheiro. João continuava a olha-los ameaçadoramente.
–    E tu, João? Quanto me dás pelas facas? - Faustino voltou-se para trás.
–    Eu bem digo que as pancadas te fizeram mal. Achas que te ficava com essa bosta? Não quero problemas com aqueles dois! Tu não és boa rês, mas aqueles, não sei se não serão pior. Aí o teu amigo “montês” que se cuide. - Respondeu o visado.
–    Montês? - Resmungou Benedito com a boca cheia da terceira isca.
–    Sim, montês! Ou julgas que não conheço o falar dos do lado de lá dos montes? - João mostrou os dentes amarelos num riso que mais parecia um esgar. - Ou vais dizer que não és “praí” de Vila Real ou assim?
–    Ou assim! - Confirmou ironicamente depois de engolir de um trago um caneco de vinho e antes de atacar nova isca.
–    És montanhês? Ena! - Exclamou Faustino olhando o rapaz e fitando depois o prato quase vazio. - Credo, em cruz, homem, que estás cá com uma “larica”…
Piedade entrou com uma vassoura de palha e começou a varrer o chão em volta do pai e alargando-se para fora do balcão lenta e disfarçadamente.
–    Já saí da terra há quase um ano. - Benedito explicou depois de novo copo. - Tenho andado a trabalhar aqui e além para ganhar uns cobres. Quero ir para o Porto!
–    Oras. - Faustino fez uma expressão de desprezo. - Que queres lá ir tu “cheirar”?
–    Vou arranjar um trabalho para ganhar algum e ver se tenho uma vida com menos maus tratos e mais dinheiro! - A última isca desapareceu do prato, e do mundo, em três trincadelas.
–    Vais para o Porto arranjar menos maus tratos e mais dinheiro? - João soltou uma gargalhada. - Mais depressa vais parar a uma valeta morto de fome ou por uma facada de outro ainda mais miserável que tu!
–    Morto de fome já eu ando! - Lambeu os dedos e bebeu outro copo. - “Inda” juntei uns “guitos” durante a viagem, mas ali em Penafiel, trabalhei umas semanas para um correeiro em troca de uns cobres e um desconto numas botas. O “moncoso”, filho de uma p** “rodelheira”, assim que se viu servido, recebeu o dinheiro das botas e expulsou-me de lá debaixo de pau. Dele e dos filhos.
–    Eu não disse?!? - O taberneiro riu-se.
–    E não vingaste a afronta? - Faustino mostrou-se zangado.
–    Como podia? Fui fazer queixa ao regedor e ele disse-me que fosse embora, que os estranhos não eram bem-vindos por ali. Se continuasse, punha-me nos calabouços!
–    Filho de uma égua! - João continuava a rir-se apesar de revoltado. - Os cabrões dos regedores são todos iguais! Deixa-te ficar por cá rapaz. Amanhã é feira grande aí, no Souto. Arranjas trabalho por lá de certeza!
–    Já estive lá. Falei com um tendeiro e ele foi uma boa besta!
–    Os tendeiros? Claro que são umas bestas… e os taberneiros, então? - Faustino soltou uma risada.
–    Bem, rapaz, ouve o meu conselho! - Disse João, ignorando a provocação. - Não dou muitos, por isso até devias pagar por ele; amanhã é a “feira dos moços” e estão por aí os capatazes e os patrões das quintas daqui da região atrás de moços para trabalhar. Podes arranjar-te por aí! Se fores bom trabalhador, podes ter futuro e escapar de ser um pedinte a vida toda, ou um “bardamerda” como esse que tens aí ao pé.
–    É isso que queres fazer da vida? - Perguntou Faustino. - Cavar, vindimar e chafurdar na m** das vacas? Vem comigo que eu vou fazer-te uma proposta.
Piedade, que já tinha dado duas voltas a varrer o mesmo espaço, estava agora por trás de Faustino e, de olhos esbugalhados, acenou negativamente de forma rápida e o mais disfarçada que conseguiu. Benedito olhou curiosamente para ela e depois para o seu companheiro.
–    E agora, deixem aí cinquenta reis e ponham-se a andar! - João ordenou. - Vou ver se como alguma coisa também eu. Piedade! Já “pra” dentro!
–    Meio tostão?!? Queres ganha-lo todo num dia,  judeu? Arre… - Gemeu Faustino erguendo-se e pondo as moedas na mesa.
–    Arre tu, sua alimária! Chispem daqui, antes que vos encha o lombo de pauladas!
Benedito foi o primeiro a sair. Faustino e João trocavam imprecações bem dispostas dentro da taberna. Ele ouviu que o chamavam de uma pequena grade rente ao chão. Reconheceu o rosto de Piedade.
–    Que me queres rapariga? - Perguntou ele olhando de soslaio para a porta. - Queres arranjar-me algum “refustedo” com o teu pai?
–    Não! - Sussurrou ela da pequena janela da cave da casa. - É só para te avisar, não confies nesse Faustino! Ele é um bandido!
–    Bandido?
–    Sim, é assaltante! Tem um bando! Tenho que ir! Se o meu pai me “pilha” aqui… - E com isto desapareceu no escuro.
O jovem ergueu-se no preciso momento em que o companheiro passava a porta e ele pôs-se a olhar o céu, distraidamente. A luz do dia principiava a esmorecer, mas  o céu vermelho dizia-lhe que amanhã teriam outro dia de muito calor.
–    Meu caro amigo Benedito. - Faustino pôs-lhe uma mão nas costas. - Agora vamos conversar sobre o seu futuro.
Embora desconfiado, o jovem deixou-se guiar pela rua enquanto o companheiro expunha os perigos da cidade, as dificuldades em arranjar trabalho e a vida dura e sem futuro que era a de “moço de lavoura”.
Abandonaram a rua principal por uma pequena viela que terminava num muro derrubado. Sem hesitar, Faustino saltou sobre as pedras e desembocou numa área livre de casas. Caminhou pelo trilho calcado na erva alta que conduzia a um grupo de edifícios em ruínas. Fez-lhe sinal que o seguisse.
Entraram no que restava de um palheiro. O telhado ainda segurava a maior parte da chuva, se a houvesse e o chão estava atapetado por palha amarela e bem seca. Ao fundo havia grande quantidade de fardos ainda intactos.
–    Acho que não tens onde dormir esta noite, pois não? - Perguntou Faustino, abrindo os braços para lhe mostrar toda a envolvente. - Queres melhor estalagem? E de graça?
–    É aqui que vives?
–    Por agora, sim. Quando me “carregar”, mudo de poiso. - Exibiu a dentadura onde se notavam algumas cáries.
–    Então… se não trabalhas… onde arranjas o dinheiro? - Benedito fez a pergunta fulcral.
–    Primeiro vou apresentar-te os meus amigos. - A estas palavras, dois homens saíram detrás dos fardos de palha. Um, tão alto como  Benedito, embora mais gordo e outro um pouco mais baixo e magro, de cabelos loiros e barbicha fina. - Aquela bisarma que ali está, é o Zé Racha-fragas, é um às no varapau, como tu, e o outro, é o Manel Setepilas. - Com este epíteto soltou uma gargalhada. - Se tens irmã, mulher ou mãe por perto, cuida-te! Aqui o Manel não lhe escapa uma!
–    Quem é a visita? - Quis saber a voz forte do Zé.
–    É o meu novo amigo; Benedito, o Montês! - Apresentou Faustino.
–    Montês? -  Manel riu-se. - Como as cabras?
–    Não, como os montanheses! - Faustino apertou o braço a Benedito ao ver a expressão de desagrado dele. - Este homem salvou-me de uma boa “malha” hoje. Haviam de o ver a usar o varapau! Pôs o João Maltês e o Chico Viana em respeito e mandou-os embora com o rabo entre as pernas. O Chico ficou com uma boa “roxa” nas ventas e o Maltês… bem. a Rita vai sentir-lhe a falta hoje. - Soltou uma sonora gargalhada. - E tudo, porque vocês, suas bestas, não vieram à tasca do “Chebola”.
–    Fizeram-te uma espera? - Quis saber Zé. - Eu disse-te que temos que apertar o gasganete àqueles dois. Ou tratar-lhes da saúde de uma vez por todas!
–    Bem! - Atalhou Faustino. - Já não interessa! Veremos o caso deles noutro dia. Agora, eu trouxe o nosso novo amigo para dormir aqui, que não tem onde ficar esta noite.
Os outros dois olharam-se, duvidosos.
A noite estava quente. Faustino veio, para longe da palha, fumar um cigarro à porta do palheiro. O roncar ritmado dos companheiros acompanhou-o. Benedito estava cá fora, deitado numas pedras, a olhar a lua pálida que iluminava como dia. Aproximou-se do jovem enquanto enrolava o tabaco na mortalha. Ofereceu-lho, mas ele recusou. Colocou-o na boca e acendeu-o tirando uma longa e fumacenta passa.
–    A pensar na vida? - Sorriu-lhe numa baforada.
–    Sim! A pensar no que fiz dela. Deixei os meus pais e os meus irmãos, porque estava cansado de trabalhar como um galego. O meu pai só queria trabalho, ou a resposta era o coiro do cinto. Trabalhávamos de sol a sol na serração, ou perdidos nos montes a pastar as cabras, a mungi-las, a ir de porta em porta a vender o leite.
–    Vida dura…
–    Sim, é certo, mas nunca passei fome na vida… até ao dia em que saí de casa. Desde então, trabalho na mesma como um galego e ainda me roubam o pouco que ganho. Até os ciganos têm melhor vida…
–    Era por isso que estava a pensar em falar contigo…
–    … a tal proposta. - Benedito sentou-se de frente para ele.
Faustino ocupou um dos lados da pedra mas não enfrentou o olhar do companheiro. Ficou a olhar a lua a expelir fumo lentamente.
–    Sim, a proposta. Já reparaste que, apesar do desprezo que tenho pelo trabalho, tenho dinheiro? Algum, pelo menos?
–    Mas todas as pessoas honradas têm de trabalhar. - Benedito soou ácido.
–    Não é desprezo pelo trabalho, também eu já fui assalariado, é pelas pessoas para quem se trabalha. Pelos malditos que sugam o nosso suor! Tratam-nos como escravos e o pouco que pagam, acham sempre que é demais. Mas os comerciantes, esses são os piores! Sanguessugas que vão chupar todos os tostões e vinténs que conseguires ganhar. No fim, dão-te um chuto nos fundilhos e chamam-te miserável.
–    Por isso – Abreviou Benedito. - não trabalhas. Mas “quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vem”. Como ganhas a vida então?
–    Fazendo aquilo que nos fazem a nós, sempre que podem. Vamos atrás dos tendeiros que circulam entre as feiras e “aliviamo-los” um pouco da sua carga.
Ficaram ambos calados. Um morcego voava repetidamente à volta do telhado do palheiro, o grilar de dezenas de grilos ecoava na noite sublinhando o silêncio dos dois.
–    És um salteador! - Concluiu o jovem.
–    Sim, pelo menos durante algum tempo… até ganhar o suficiente para ter uma vida melhor.
–    Vives num palheiro em ruínas.
–    Será apenas mais algum tempo. Já tenho uma boa maquia guardada, em breve posso deixar-me desta vida e arranjar mulher e casa!
–    A tua proposta é essa? Uma vida de salteador?
–    Pensa assim; agora não tens um vintém… ofereço-te maneira de amanhã à noite teres quinhentos, quem sabe, mil reis!
–    Mil reis! - Benedito escandalizou-se. - Quem tem esse dinheiro?
–    Para teres esse dinheiro, só terias que nos acompanhar amanhã, depois da feira. Ficarás  sem fala com os sacos de moedas de cobre e prata que alguns tendeiros trazem com eles.
Benedito tornou a ficar em silêncio a perguntar à lua, se era esse o seu destino. Se o seu futuro estava embuçado numa esquina sombria à espera de um almocreve incauto. Ergueu-se e olhou uma vez mais para Faustino, de cima para baixo.
–    É uma decisão muito complicada para se tomar assim. Graças a ti, tenho o estômago forrado como já não tinha há uns dias. Estou-te muito agradecido, mas não tenho a certeza de ser essa a vida que quero. Ainda que por pouco tempo. Além do trabalho e das porradas, os meus pais ensinaram-me uma honradez muito diferente dessa que aí me falas. Vou descansar um pouco enquanto penso.
–    Também eu estou agradecido pelo que fizeste por mim. Apesar de só nos conhecermos hoje, já consigo perceber que és um homem leal, capaz de dar a vida por um amigo. Por isso te falei desta maneira tão sincera e estou disposto a dividir contigo os frutos que colhermos. Vai dormir, sim, vamos ambos dormir!
Faustino ofereceu-lhe um sorriso triste, antes que ele se voltasse e desaparecesse no escuro do palheiro.
No outro dia de manhã, o sol estava alto quando Benedito se levantou da sua cama de palhas e veio ao exterior lavar a cara num pipo destapado onde caía a água das chuvas. Faustino estava sentado na mesma pedra onde estivera ontem. Poderia dizer-se que passara toda a noite ali.
–    Santa manhã! - Benedito cumprimentou o pensativo companheiro.
–    Bom dia. - Respondeu o outro de forma arrastada.
–    Onde estão os outros?
–    Na feira! Foram logo que nasceu o sol. Antes do dia findar, já o Racha-fragas bebeu umas canecas, partiu outras tantas… algumas na cabeça dos que não se conseguiram esquivar. E o Manel Setepilas também já fez jus ao seu nome com a filha de algum feirante e se calhar com a mulher também. - Fez um sorriso pensativo. - E tu? Vais à feira, também?
–    Sim, vou...
–    … e vais voltar?
–    Não, acho que não. - Benedito olhou Faustino nos olhos. - Agradeço a tua oferta, sinto-me honrado com a tua confiança!
–    Enfim. Se mudares de ideias, sabes onde me encontras. Pega para ti! - Estendeu a mão com três moedas de cem reis. - Não vais à feira sem dinheiro!
–    Porque me dás isso? Não fiz nada por ti, a ajuda, já a pagaste na taberna, foste meu amigo e deixaste-me dormir aqui, em segurança.
–    É por isso mesmo! Por amizade. Sinto que nos conhecemos há muitos anos. E tenho muito prazer em ajudar um amigo, por isso, se te faz feliz, considera-o um empréstimo. Para ganhares esses três tostões numa quinta, precisas “praí” de três dias. Se um dia estiveres a viver bem, podes tornar-me o dinheiro.
Benedito hesitou ainda um pouco, mas acabou por estender a mão e aceitar as três moedas de prata.
Regressou à rua principal e dirigiu-se ao largo onde estivera no dia anterior. Centenas de pessoas caminhavam em ambos os sentidos, roupas novas, ou pouco remendadas, sapatos novos ou socos polidos, via-se bem que era dia de feira! Qualquer um ali, mesmo o mais maltrapilho, estava mais bem vestido que ele. Até as lavadeiras, descalças e com as enormes trouxas de roupa à cabeça, vestiam limpo. Mas agora, com trezentos reis, talvez conseguisse comprar uma roupita melhor.
Caminhou decidido, evitando os dejetos dos bois e dos cavalos que pejavam o chão. Era normal, com o tráfego de cavalos e carros de bois que havia por ali… percebia que já estava bem próximo de uma grande cidade. 
Ao passar na viela da Emerenciana, viu um homem extremamente magro, apoiado num pau, a subir com dificuldade o pequeno degrau da entrada. Observou-o enquanto ele tossia fracamente, sem forças. Engoliu em seco e aproximou-se do homem quando ele recuperava o fôlego.
–    Santa manhã. - Saudou.
–    Santa manhã para vosmecê também. - O velho respondeu apoiando-se na parede.
–    Por acaso vosmecê não será o “home” da senhora Emerenciana?
–    Sim, sou eu. E que lhe quer? Ela está para a feira, a ver se vende uns “ovitos”.
–    Não preciso de falar com ela. - O jovem meteu a mão ao bolso e exibiu um dos tostões de prata. - É para entregar à sua senhora, diga-lhe por favor que os negócios correram bem ao Benedito.
–    Este dinheiro é para ela?!? - A mão do homem tremia ao receber a moeda. - Cem reis?!?
–    Sim senhor! E diga-lhe que a sardinha estava muito boa! Obrigado e as melhoras!
Rejuvenescido, o jovem caminhou a passos largos para a feira, debaixo do olhar incrédulo do velho. Este não conseguia perceber que negócio aquele maltrapilho podia ter com a sua mulher, que rendesse tal dinheiro. Por seu lado, Benedito gostava de poder ajudar mais aquela gente… mas a sua “riqueza” temporária não o permitia.
Passeou pela feira, apreciou as loiças, às centenas, expostas em humildes prateleiras de madeira, ou simplesmente pousadas no chão sobre palha. Viu as frutas, as hortaliças, os peixes, as carnes salgadas ou fumadas, tanta variedade, tanta fartura, o dinheiro que a maior parte das pessoas podia dispor é que era pouco. Escondeu-se, assim que viu Emerenciana com um cesto de ovos debaixo do braço, a sua modéstia não lhe permitia ir vangloriar-se do seu feito.
Chegou às tendas das roupas e estava a apreciar um fato preto, com chapéu braguês de feltro, quando ouviu ralhar uma voz conhecida:
–    Foge-me da frente, excomungado! - Gritava a voz de bagaço nasalada. - “Alevanta-me” aí as cordas das selas do chão, antes que te “arrebente” de porradas! Vitório, seu canastrão!
Como podia esquecer a voz do bandido que o roubou em Penafiel? Olhou para a tenda cercada de peças de couro, que iam desde simples cordões para as botas, até elaboradas selas de montar. Botas, botins e sapatos, coletes e casacos… quantas daquelas peças lhe passaram pelas mãos… até aquelas botas pagas e não entregues. Escondeu-se quando viu um dos filhos, o gordo Vitório, a erguer um  barrote onde estavam expostas várias selas. Eram eles, não restavam dúvidas! Acariciou o varapau pensativamente, assim sem contarem, aviava umas varadas em cada um e fugia dali… mas com certeza alguém haveria de o agarrar… ou correr mais do que ele, descalço. Acabaria por “dar com o lombo no calabouço”.
Abandonou a feira a passos largos e regressou ao palheiro arruinado. Faustino sorriu assim que se apercebeu da chegada do amigo.
–    Já de volta? Já gastaste tudo?
–  Vou aceitar a tua proposta! - Anunciou solenemente. - Mas eu é que escolho os cabrões que vão ser roubados hoje!

terça-feira, 17 de maio de 2016

Sorte Grande



Xico acordou com o barulho dos tapetes a ser sacudidos. Não se mexeu. Deixou-se ficar encolhido, a ouvir a dona Amélia, a mulher da limpeza, a dar os bons dias à colega do prédio ao lado. Não tardava, viria meter-se com ele. Não se interessou e afundou-se ainda mais nos cobertores, escondendo a cabeça entre os cartões que o protegiam do frio daquela manhã de março.
-    Senhor Xico! Ò senhor Xico, acorde! - A estridente voz feminina estava agora junto dele.
-    Que foi? - Fingiu-se desentendido, sem sair da proteção dos cobertores.
-   Não lhe pedi já que saísse daqui antes das 8:30h? Não tarda nada começa a chegar o pessoal e os clientes e dá mau aspeto estar aí a dormir. Vamos, levante-se! Oh, valha-me Deus, que cheiro! - Ela fez uma expressão de repulsa, assim que o olfato denunciou a “habilidade”. -  Voltou a urinar ao pé da porta! Assim não pode ser, vou fazer queixa ao patrão e não vai voltar a dormir aqui!
Ele colocou a cabeça para fora dos cartões. O cabelo negro, despenteado e sujo, formava uma juba em volta do rosto pálido, de barba desgrenhada, que olhou a mulher com cara de poucos amigos.
-    Não fui eu! - Desculpou-se. - Não vi quem foi, deve ter sido enquanto estava a dormir. Na certa foi o cão do Zé.
-    A urina de cão não cheira assim tão mal! - Amélia, cinquentona maternal, não se deixava enganar com facilidade. - Vocês são uns porcos! Vêm dormir para aqui e ainda deixam tudo sujo e malcheiroso. Já há umas semanas que o tenho deixado dormir aí, mas você não liga, quando lhe digo que tem que se levantar antes de eu chegar. Assim não pode ser!
-    Eh pá! Largue-me da mão! - Ele ergueu-se contrariado e começou a dobrar os cartões e os cobertores por entre resmungos.
-    Agora não tenho tempo de limpar o átrio todo, antes deles chegarem, está a ver o que me arranja? - Ela continuava. - Já na semana passada, uma das senhoras do escritório, escorregou e por um pouco não caiu, por o chão ainda estar molhado quando eles chegaram. Não se admite, parece que faz pouco das pessoas!
-    Já disse que me deixe! - Xico aproximou-se ameaçadoramente da mulher, com o fardo dos parcos pertences debaixo do braço. - Não disse já o que tinha a dizer? Cale-se, raios a partam!
Amélia deu um passo atrás entre o surpreendida e o enojada, com o hálito do homem, que quase encostou os narizes de ambos.
-    Ora vejam só! - Ela recuperou rapidamente, assim que ele lhe virou as costas. - Não tem onde cair morto, aqui a dormir pelos umbrais das portas e ainda é malcriado! Não volto a trazer-lhe mais nada para comer.
-    Pró diabo que a carregue... - Xico resmungou de si para si, enquanto saía, da arcada de acesso aos escritórios, para a rua movimentada. - … os iogurtes estavam fora do prazo e o pão era da véspera.
-    E não volte a aparecer aqui! Se o vir por aqui outra vez, chamo a polícia! - Ela continuava a gritar do interior. - Ouviu? A polícia!
Aborrecido, caminhou pelo passeio, a espreitar as montras e parou em frente ao quiosque, a ler os cabeçalhos dos jornais. A data chamou-lhe a atenção; sexta-feira 13 de março. “Tá-se mesmo a ver, começou bem!” resmungou para consigo enquanto pegava num dos diários.
-    Ò Xico! - Chamou o homem atrás do balcão. - Já te disse que se queres ler o jornal, tens que o comprar!
-    Eh pá! Está bem! Estava só a ver “as gordas”! - Desculpou-se largando o jornal.
Virou as costas e atravessou a rua, preguiçosa e despudoradamente, enquanto ignorava os condutores a reduzir velocidade e buzinar protestos.
Espreitou para a entrada da loja abandonada, onde dormia o “Barbas”. Conseguia ver o rasto de papeis e plásticos abandonados que conduziam ao “covil”, na escuridão.
-    Ò Barbas! - Chamou Xico. - Estás aí?
Um grunhido fraco foi a resposta. Avançou, receoso, para a penumbra.
O Barbas jazia num emaranhado de cobertores, arfante e tremendo de frio. Cabelo e barba completamente brancos, rosto talhado em madeira, assente num corpo esquelético, ninguém sabia que idade tinha… nem ele. O ancião ergueu uma mão, que mais parecia uma garra, pedindo ajuda em gemidos arfados.
Xico baixou-se ao lado dele e pousou-lhe a mão na testa:
-    Eh, pá, que estás a “arder”!
-    Chama… chama o médico! - Conseguiu finalmente articular o velho.
-    Espera, já volto!
Correu de volta ao quiosque e dirigiu-se ao homem do balcão:
-    Senhor João! Chame uma ambulância para o Barbas, acho que ele está muito mal!
-    Raios partam! - Resmungou o homem, pegando no telefone. - Agora passa a vida nisto! Depois eu que me amanhe com os gajos da assistência social a vir aqui dar-me novidades e fazer-me perguntas! Julgam que o velho é meu pai, ou o caraças!
-    Depois mande-os lá dentro, eu vou só buscar as minhas coisas e vou à minha vida.
-    Tu é que devias ficar com ele e dar as informações!
-    Sim, sim, - Ripostou Xico jocosamente. - Deus lhe agradecerá, se não for neste mundo, ao menos no outro.
-    Vai à m…! - João irritou-se.
Atravessou de novo a rua e voltou ao recanto infeto onde o “colega” jazia. Agora parecia dormir, estaria morto? Tornou a pousar-lhe a mão na testa e um gemido fraco respondeu-lhe.
Olhou em volta, pelos objetos espalhados em redor do moribundo. Os pertences de uma vida, que mais não eram do que montes de roupas, cartões, garrafas de plástico e velhos eletrodomésticos com variados graus de destruição. Pegou no casaco e começou a revirar-lhe os bolsos; um maço de cigarros com dois cigarros inteiros, uma nota de cinco euros e quatro botões de plástico de tamanhos variados. Deitou os botões ao chão e guardou a nota e os cigarros. Apalpou-lhe o rolo que fazia de travesseiro, de onde tirou um saco de pano com umas dúzias de moedas e remexeu-lhe nos bolsos das calças onde achou um pequeno papel. Procurando a luz, acabou por identificar que se tratava de uma aposta do Euromilhões; 3, 5, 13, 16, 31, 32 e as estrelas 3 e 5. “A coisa promete” - Comentou para consigo. - “Nasci a 3 de maio e tenho aqui a data duas vezes; hoje é dia 13 e este ano passo de 31 para 32 anos. Este talão tem tudo para ser premiado.” Guardou-o no bolso do casaco, pegou nas sua próprias tralhas e saiu do covil, depois de deitar um último olhar ao velho, que respirava de forma entrecortada.
Caminhou pela rua que era a sua casa e, chegado ao “prédio dos cafés”, como lhe chamava, pousou as tralhas junto a uma das colunas da extensa colunata que albergava diversas esplanadas. Sempre com atenção aos empregados, passou pelo meio das mesas, surrupiando um palito de torrada ou um pastel trincado que alguém deixara abandonado. Sempre que o empregado reparava nele, desviava o seu caminho e dirigia-se rapidamente para fora da área da esplanada, antes que o expulsassem.
Na última das esplanadas, o empregado acabava de entrar no café e ele pôde explorar as mesas com mais cuidado. Numa delas, estavam quatro moedas de euro, que desapareceram imediatamente nos bolsos do vagabundo. Uma mulher, sentada na mesa em frente, deitou-lhe um olhar desaprovador e ele, aproximando-se, fez um sinal ameaçador de silêncio, antes de se ir embora apressado.  
Já de novo com os seus pertences, chegou a um portão de madeira, semi derrubado, que empurrou. Entrou no que restava de uma antiga “ilha”, com um pátio enorme, totalmente rodeado por casas que agora não eram mais do que portas e janelas escancaradas por onde espreitavam silvados. Era a “casa” que partilhava com o Manel Passarão, desde que este fugira do Hospital Magalhães Lemos.
Xico nem sempre vivera assim. Em tempos tivera um emprego, logo depois de sair da tropa, numa empresa de segurança. Foi a sua atração pelas coisas que não lhe pertenciam, que causou a sua perdição. Foi despedido, apanhou uns meses de cadeia e, o pouco que tinha conseguido juntar, evaporou-se num ápice. Nem pensar em procurar pela mãe, na longínqua aldeia beirã, de quem já não sabia há anos. Na certa trata-lo-ia mal e ainda lhe atiraria com o que tivesse à mão. As tendências para “amigo do alheio” herdara-as do pai, falecido quando ainda era criança, e não da mãe, que era pobre, mas honesta. Agora vivia por aqui e por ali, deitando a mão ao que podia e, a verdade, é que se habituara rápido a não ter que dar satisfações a ninguém e a não ter horários para fazer fosse o que fosse. A chatice, eram a fome e o frio que o mordiam demasiadas vezes…
Abancou-se na única casa que não tinha silvados e mostrava aspeto de ser ocupada por alguém. Havia uma miserável desculpa para cama, na forma de um amontoado de cobertores por cima de um colchão velho e várias pilhas de tralha encostadas às paredes. Depositou as suas coisas a um canto, depois de arrastar um enorme saco de plástico cheio de latas de refrigerantes vazias.
Preparava-se para sair novamente quando ouviu o latido nervoso de um cão. Logo de seguida, entrou pela porta arruinada que dava acesso ao pátio, um homem enorme “arrastando”, na ponta de uma corda, um cão que se debatia. Era o Manel Passarão e mais um dos seus eternos cães renitentes, que ele insistia em levar para todo o lado, mesmo contra a vontade do canídeo. O apelido de Passarão era obra do Xico, porque o homem passava a vida a dar de comer às pombas e a correr à volta do pátio a bater “as asas”. À medida que o tempo foi passando, tornou-se mais calmo e a sua fixação voltou-se para os cães vadios que apanhava e tornava seus. Era um “gigante” acriançado, de quem todos abusavam, até se juntar a Xico. Este nunca fez nada muito importante para o defender, mas a sua presença parecia bastar, principalmente depois de, de forma gradual e mais ou menos violenta, ter expulsado todos os outros “inquilinos” da ilha abandonada.
Assim, que notou o visitante, Manel fez um movimento, como se fosse a sair novamente do pátio, mas então reconheceu-o:
-    És tu, Xico?
-    Não, é o Papa! - Respondeu o visado, sem um sorriso.
-    Que foi que te fiz? Porque estás a falar comigo assim? - O homem, com a barba crescida de vários dias, fez beicinho.
-    Deixa-te de “xonices”, “Passarão”! Já sabes que não quero cá pieguices, não achas que és demasiado grande para isso?
-    Julguei que eras meu amigo...
-    Se não fosse teu amigo, já te tinha espetado um chuto nesse teu traseiro descomunal, para te pôr daqui para fora!
Amuado, Manel arrastou o cão, que lutava com a corda, até  um ferro onde o amarrou.
-    Estiveram aqui o Vesgo e o Pinguinhas à tua procura! - Anunciou sem se levantar, enquanto se debatia para fazer um nó.  - Bateram-me por tua causa!
-    Porque achas que tive que desaparecer estes dias todos?
-    O Vesgo disse que, se te apanhasse a roubar carros naquela rua outra vez, te desancava.
-    Ele que se vá encher de pulgas! Um carro com o vidro aberto, que é que ele queria?!? Está chateado é por não ter visto primeiro! Quantos carros não “gamou” já e deitou as culpas aos outros. Recebe as moedas por arrumar os carros numa rua e vai roubar os carros noutra. É um bom filho da ….
-    Queriam que lhes dissesse onde andavas.
-    Ainda bem, que não sabias, vês?
Manel não respondeu e sentou-se no chão, olhando-o, sentido.
-    Tens alguma coisa para comer? - Xico mudou a conversa.
-    Tenho umas latas de sardinhas e uns pães, que me deu a velha que ajudei a levar as compras. - O homem ergueu-se de um salto, feliz de novo. - E uns iogurtes que me deram na ajuda de rua!
-    Vai lá buscar, estou com uma “larica” que “nem é bom”! Vai lá, enquanto eu faço uma fogueira, a ver se espantamos o frio.
O “Passarão” desapareceu a correr no interior do casebre e regressou uns minutos depois, com um saco de papel, com uma tábua por bandeja, que pousou na pedra que muitas vezes lhes serviu de mesa. Depois correu novamente e reapareceu com duas garrafas verdes, que exibiu, triunfante:
-    Xico! Topa-me lá esta maravilha!
-    Gaita, homem! Que é isso? - Espantou-se o visado.
-    O Ferreira, do supermercado, sabes? Ajudei-o a arrumar umas paletes e caíram umas caixas de vinho. Só se aproveitaram quatro garrafas. Ele disse-me que não dissesse nada, ficou com duas e deu-me outras duas.
-    Ora vejam só! - Xico não queria acreditar. - Parece que não te tens dado nada mal, não senhor!
O frugal almoço da velha, desapareceu num ápice. Comeram os iogurtes da assistência e duas metades de Bolas de Berlim roubadas na esplanada. Depois deixaram-se ficar ali, a fumar os cigarros roubados ao Barbas e a acabar as garrafas do supermercado.
O discurso de Xico tornava-se mais inflamado a cada golo da garrafa que estava quase no fim. Contou ao companheiro, cada vez mais zangado, tudo o que se passara nas últimas duas semanas; os problemas com os outros sem abrigo, para ter onde dormir, as “injustiças” da dona Amélia da limpeza e da pena que sentiu do Barbas… que vai acabar por morrer naquele buraco nojento e ficar vários dias a apodrecer até que alguém dê por ele.
-    Porque é que o mundo é assim? Uns com tudo e outros sem nada! - Escorreu a última gota e mirou a garrafa do companheiro, que já se ria por tudo e por nada e que estava ainda meia. - Dá cá essa porcaria, nem para beber serves! - Exigiu, tirando-lha das mãos abruptamente.
-    Porque é que és assim? - O outro riu-se apesar da brutalidade. - Se me tivesses pedido eu dava-ta! Também, acho que se beber mais, deito tudo cá para fora.
-    Porque é que TU, és assim?!? Pergunto eu! - Xico ergueu-se e atirou a garrafa vazia, que passou próximo da cabeça do companheiro e estilhaçou-se ruidosamente no chão empedrado.
Manel caiu, da pedra onde estava sentado, ao esquivar-se do míssil e ficou de costas no chão a rir-se, para fúria do outro.
-    Não passas de um idiota! És um burro, um pateta alegre e todos te dão umas porcarias e tu ficas feliz… sempre! - Xico estava cada vez mais furioso, com os vapores do álcool a embotar-lhe o juízo. - Eu, para conseguir alguma coisa, tenho que trabalhar no duro… ou roubar!
Percebendo finalmente a fúria e frustração que dominava o amigo e, parando de rir, aproximou-se e consolou-o, pousando-lhe a mão no ombro:
-    Não importa! O que me derem a mim, também dará para ti. Não somos amigos?
-    Deixa-te de m… pá! - Ele sacudiu-lhe o braço com violência. - Não quero a tua piedade! Queres partilhar as coisas, é?!? Esse casaco que tens vestido e está-te apertadíssimo, dá-mo!
O outro olhou tristemente para o casaco antes de comentar:
-    Eu gosto deste casaco, foi um doutor do banco que mo deu!
-    Raios partam! Vês o que te digo? - Estilhaçou a segunda garrafa, ainda com algum vinho, no chão. - Dá-mo já! Passa para cá essa porcaria.
Como ele demorasse a reagir, Xico partiu para a violência e com alguns socos nos braços obrigou o companheiro a tirar e entregar-lhe o casaco.
Com lágrimas nos olhos, o “Passarão” assistiu ao ar de triunfo do outro, que atirou o seu próprio casaco para o chão enquanto vestia a nova aquisição.
-    Então? Que achas? Fica-me bem, não fica? Pareço um artista de cinema! - Xico estava radiante do seu feito.
Sem lhe responder e com lágrimas a correr no rosto bonacheirão, Manel fez o gesto de apanhar o casaco abandonado no chão.
-    Eh lá! Que é lá isso? - Xico apanhou-o antes do companheiro. - Este casaco é meu!
-    Mas… tu ficaste com o meu… - O rosto dele, onde as lágrimas deixavam duas linhas verticais sulcadas na sujidade, era uma máscara de incredulidade.
-    A vida é injusta, colega! Vai catar para aí outro, arranja um papalvo qualquer que te dê! Não te dão tudo? - E com esta pergunta, atirou o velho casaco para a fogueira.
Cedendo ao peso da injustiça, Manel irrompeu num pranto soluçante e correu para o interior do casebre que lhe servia de lar.
Xico, carregado com o efeito do álcool e a excitação da enormidade do que havia feito, saiu para a rua, vagueando sem destino. Levou ainda muito tempo, para que o peso do remorso se fizesse sentir e começasse a pensar que o companheiro não merecia o que lhe fez.
Começava a anoitecer e ele por uma rua secundária, olhava atentamente para o interior dos estabelecimentos e para os carros estacionados. Por fim, a sua busca foi recompensada; um casaco abandonado no assento traseiro de um automóvel… fechado. Olhou em volta para se certificar que não estava ninguém por perto e tirou de uma bota um pequeno martelo plástico com uma ponta de metal, que “palmara” num autocarro há muitos anos atrás. Partiu o vidro traseiro e desatou a correr com o casaco debaixo do braço.
Já longe, remexeu os bolsos, achou um molho de chaves e uma carteira, que atirou para o cesto dos papeis, depois de a aliviar de umas quantas notas que continha. “Está feito, - Pensou. - está aqui um casaco catita para o “Passarão” e dinheiro para o jantar… bem, ele não precisa de jantar, está bem gordo…
Saiu do beco e entrou numa pequena tasca em frente.
-    Que andas aqui a fazer, Xico? - O homem careca e baixo, mas entroncado, materializou-se ao pé dele, assim que se sentou numa das poucas mesas vagas. - Não vens armar confusão, pois não? Tens dinheiro, ou ponho-te já lá fora?
-    Eh, senhor Fernando! Que antipatia! - O outro fingiu-se ofendido. Claro que tenho dinheiro, senão, não entraria neste estabelecimento de luxo.
-    Bem, vais para a rua! - O outro concluiu, arregaçando as mangas.
-    Não, espere! Estava a brincar! Tenho dinheiro, veja. - Exibiu as notas. - Só venho comer uma “sandocha” de presunto e beber um “tintito”.
-    Já apanhaste algum desprevenido não foi? - Fernando sabia quem era aquele que estava ali sentado e não resistiu a comentar antes de dar meia volta para ir aviar o pedido. Alguns dos clientes olharam o recém chegado com sobranceria.
Duas bem aviadas sandes de presunto e quatro copos de maduro tinto depois, já todos os vestígios de remorsos estavam diluídos. Recostou-se, o mais cómodo que conseguiu, na cadeira de madeira, a ver as notícias que passavam no telejornal. Foi então confrontado com os resultados do concurso do Euromilhões. A tremer, assistiu à exibição de cada um dos “seus” números; lá estavam o 13 da sexta em que se encontravam, o 3 e o 5 da sua data de nascimento, o 31 e o 32 da sua idade… estava rico!!!! Febrilmente, começou a vasculhar os bolsos em busca do talão que furtou ao Barbas, cada vez mais ansioso. Até que, de repente, recordou-se! Estava no bolso do casaco que atirou para a fogueira!
-    Demónios dos infernos!!!! - Gritou, assustando toda a gente na atarracada taberna. - P… de sorte a minha! Sacanas malditos, deram-me a sorte quando sabiam que não podia ser minha!!!! Ah, malditos! Só podem estar a gozar comigo!
Continuou as imprecações atirando com tudo o que estava em cima da mesa para o chão e derrubando as cadeiras vazias à sua volta.
-    Já sabia que ias acabar por dar problemas, meu animal! - Gritou-lhe Fernando agarrando-o pelos colarinhos. - Põe-te lá fora imediatamente e se tornas a por “as patas” aqui, dou-te uma tareia que nunca mais te levantas!
O pequeno, mas robusto homem, arrastou literalmente Xico para a porta onde o chutou para a rua.
-    Espera, não! - Protestou o vagabundo sem qualquer resultado. - Não percebe? Foi sem querer! Desculpe! E o meu dinheiro que estava na mesa? E o meu casaco?
A resposta foi dada por dois casacos que saíram a voar pela porta contra a cara do infeliz que acabava de se levantar.
-    Queres o dinheiro, filho da p…? - Gritou-lhe o taberneiro de dentro do estabelecimento. - Vens cá amanhã, quando te passar a borracheira, depois vemos quanto sobra da porcaria toda que partiste aqui!
-    Não posso acreditar! - Gemeu Xico quase a chorar, enquanto vestia o seu casaco e dobrava o que levaria para o “Passarão”. - Que filha da p… de sexta feira 13. Tive a fortuna na mão e deitei-a ao lume… tive algum dinheiro e o cabrão do taberneiro ficou com ele… maldita sexta feira 13…
-    Está ali, senhor guarda! - Ouviu a voz atrás dele. - Ainda tem o meu casaco debaixo do braço!

terça-feira, 1 de março de 2016

Menina Bonita

 

Nasci há cerca de meio século! Dito assim, parece horrivelmente antigo, mas a verdade é que nasci no século passado, na década de sessenta.

Era um mundo diferente, aquele para o qual abri os olhos, no longínquo ano de 1965. Governava António de Oliveira Salazar, num país, que há quatro anos via a sua juventude esvair-se para o “ultramar”, na chamada guerra colonial.

Quase não recordo os primeiros anos, claro, tirando uma ou outra história que, à força de ouvir contar tantas vezes pelos familiares, já não sabemos se se trata realmente de uma memória nossa.

As primeiras recordações que sei serem minhas, e que consigo datar, serão por volta dos cinco, seis anos, pouco tempo antes de começar a escola primária. A minha baliza temporal é a bandeira a meia haste que me recordo da minha mãe ter dito ser por causa da morte do Salazar que foi em 1970. Eram tempos muito diferentes, lembro-me da da leiteira que empurrava um carrinho e passava porta a porta a vender o leite a granel, da padeira com a enorme canastra à cabeça que distribuía o pão. O cheiro dos cigarros “Definitivos” que o meu bisavô fumava, o sabor do toucinho salgado e das azeitonas da mercearia da esquina.  A moeda brilhante e o “Simolzinho” que o avô dava na pequena tasca, por onde passava ao fim do dia, ao regressar do emprego.

Em casa, o meu mundo, além da habitação propriamente dita, era o quintal partilhado com uma vizinha, onde havia couves, feijão verde e uma figueira que dava figos vermelhos muito doces. A vizinha tinha galinhas e coelhos. Nesse quintal, havia também o barraco, como chamávamos à pequena construção onde a minha mãe “tangia” a máquina de tricotar, com o rádio a transmitir o folhetim “Simplesmente Maria”. Era um mundo inteiro cercado pela porta para a estrada por um lado e pelos muros que separavam de outro terreno... desconhecido.

Não consigo saber quando nem porquê me comecei a interessar pelo outro lado do muro... talvez a curiosidade pelo desconhecido, talvez por ouvir vozes do outro lado ou possivelmente por escutar risos de criança.

Imagino que, quando saltei o muro a primeira vez, me deva ter sentido como o Flash Gordon pela primeira vez em Mongo, ou como os primeiros exploradores portugueses nas costas de África. Não ponho dúvidas que devo ter explorado todos os recantos daquele mundo novo que eram áreas extensas, muitas vezes maiores que o meu quintal, com casebres abandonados, árvores de fruto e duas casas habitadas, uma à esquerda e outra à direita da minha; Na da direita, rapidamente aprendi que não devia aportar o meu navio explorador naquelas paragens; Era a morada de um terrível e feroz animal! Só soube mais tarde que se chamava Dragão. Por mim, fiquei aterrado quando me vi frente àquela enorme e temível criatura, que saltava e espumava dentro de uma imensa jaula, ladrando a sua indignação pela minha ousadia e mostrando os enormes dentes com que ameaçava destroçar-me. De certeza que devo ter tido a minha quota parte de pesadelos com aquela horrível fera. Na da direita, encontrei um tesouro... a menina bonita, da minha idade, com compridos cabelos negros, aos cachos e uns vivos olhos castanhos que me olhavam com curiosidade e admiração.

Tornámo-nos, claro, companheiros inseparáveis e juntos vivemos aventuras maravilhosas a desvendar aquele mundo sem fim que era o terreno nas traseiras da minha casa.

De que falaríamos nós e quais seriam as brincadeiras, naqueles tempos longínquos, em que o mundo rodava devagar e vivíamos vidas inteiras, até que uma das nossas mães nos chamasse para comer. Cantávamos a canção da Tonicha que nos maravilhara os olhos e os ouvidos no festival da canção... ainda hoje, os versos da “Menina do Alto da Serra” me parecem que foram feitos para ti, a minha menina bonita de cabelos aos cachos:

“Menina de saia aos folhos,
Quem na vê fica lavado.
Água da sede dos olhos,
Pão que não foi amassado.
Menina do riso aos molhos,
Minha seiva de pinheiro.
Menina de saia aos folhos,
Alfazema sem canteiro”

Quando comecei a frequentar a 1ª classe, numa escola a poucas centenas de metros de casa, comecei a ver-te menos vezes, mas todos os minutos eram para saltar o muro e reencontrar a minha menina bonita de olhos brilhantes.

As minhas idas à mercearia para recados incluíam o livro onde era anotada a despesa para ser paga no fim do mês. Era o tempo em que os detergentes para roupa traziam, por  brindes, brinquedos para as crianças, que os rebuçados, vinham embrulhados em papeis que eram cromos para colecionar. O Helmer desesperava a tentar apanhar o Pernalonga, o Pápaléguas fazia gato sapato do coiote e o Picapau endoidecia todos os restantes.

Quando passei para a 3ª classe houve um grande acontecimento, a nova escola primária, acabada de construir há uns anos, foi inaugurada com pompa e circunstância. Nunca tinha visto tantos e tão bons carros, consegui ver até o professor Marcelo Caetano e eu e mais umas dezenas de crianças não perdemos a oportunidade de correr ruidosamente atrás da viatura oficial.

Os quadros afixados, um de cada lado do crucifixo que dominava a parede sobre o quadro negro, agora tinham outro significado. Uns meses depois, tiraram-nos... dizem que por causa da liberdade, na altura não percebi muito bem. Por outro lado foi fantástico terem vindo demolir o muro que separava o recreio das meninas e dos meninos. Agora podíamos fazer tropelias numa área muito maior.

De repente, gritava-se “Viva a liberdade!”, todos andavam com cravos vermelhos ao peito e a “Gaivota voava com asas de vento e coração de mar”.

“Uma gaivota voava, voava,
Asas de vento,
Coração de mar.
Como ela, somos livres,
Somos livres de voar.

“Tomaram conta da quinta dos carros!”, disse-me um colega e eu fui ver; Os portões estavam escancarados e as paredes cobertas de letras pintadas em vermelho, os jardins da entrada estavam cheios de caixas, móveis, lixo... uma pena.

Também eu e tu, menina morena, do cabelo aos cachos, brincamos aos soldados libertadores, que expulsaram os homens maus que não deixavam que fossemos livres... o que quer que isso quisesse dizer.

Agora éramos mais... e tu tinhas duas primas que começaram a vir brincar connosco e eu tinha o meu irmão mais novo e o meu primo. Os seis, éramos um exército difícil de dominar. Foi nesses dias maravilhosos que revivemos os episódios da novela “Gabriela”, tu a bela Gerusa e eu o apaixonado Rômulo. Meses mais tarde, estávamos na base lunar, que seria construída num futuro longínquo,  em 1999. Tu a enigmática doutora Helena e eu o sisudo comandante Koenig.

Era a chegada dos retornados e por todo o lado havia pessoas, umas tão brancas como nós, outras nem tanto, que falavam um português diferente e olhavam-nos com sobranceria... enfim, quando cá chegaram, eu já cá estava, não precisei deles até àquele momento, não iria ser agora que iria precisar. Uma vez, fui a uma mercearia acabada de comprar por um desses retornados e, coisa que nunca tinha visto, andavam atrás de mim a ver se roubava alguma coisa!!! Do alto dos meus onze, quase doze anos, nunca disse nada a ninguém, mas a ofensa bastou-me e nunca mais lá pus os pés.

No ano seguinte, o espaço 1999 tinha que dividir o seu espaço com a escrava Isaura e eu fui o malvado Leôncio que tudo fazia para te prender a ti a doce e inocente Isaura.

Nessa época de descobertas, foi fácil perceber que o feminino e o masculino se atraem em todas as espécies e a aproximação entre mim e a tua prima estava a provocar efeitos em nós. Foi fácil roubar um beijo trapalhão. Quando nos surpreendeste, éramos demasiado jovens para perceber a tua indignação, e eu, como um idiota, achei que estavas apenas preocupada com a tua prima...

Aquele foi o último ano que brincamos juntos. Com a entrada para o ensino secundário, o tempo era pouco e as novas amizades, criaram laços que nos puxavam em direções diferentes.

O “mundo” continuava em revolução. Ramalho Eanes foi eleito presidente da republica e Mário Soares o primeiro ministro... as coisas estavam más para a política, foi a primeira vez que ouvi falar em FMI. No Vaticano, assumia o papado João Paulo II.

Continuei a ver-te, mesmo assim, a espaços até ao dia que fizeste a tua festa de quinze anos, ali mesmo, num dos edifícios abandonados, daquele mundo perdido que outrora desvendaste comigo. Era ainda a época dos bailes de garagem. Durante uns dias, enquanto preparávamos o espaço, contatei de novo contigo. Os teus olhos brilhantes, o teu cabelo negro, ondulado, traziam recordações e nostalgia. Lembramos as nossas brincadeiras e os teus olhos pareceram brilhar ainda mais.No tão esperado dia da tua festa, havia muita gente que eu não conhecia. Os teus amigos novos, chegados contigo de um mundo onde eu não existia. Fomos dançar e senti em ti, na tua flexibilidade e leveza, um grau de evolução muito superior ao meu, mais mulher, mais adulta. Mas foi quando te vi dançar com os teus novos companheiros, com o teu novo amigo, que eu percebi que, a menina bonita dos cabelos negros e olhos brilhantes, já não era minha.



À "minha" eterna Zézinha 
1964-2018

sábado, 16 de janeiro de 2016

Passagem de Ano


A passagem de ano é como um salto para passar uma porta, através de uma cortina fechada. Sentimos o medo do desconhecido que está para lá dela, que se acoita no escuro.
Assim estava a minha vida naquele momento, num salto para o desconhecido. E se estava tudo claro, ainda há pouco tempo atrás, agora tudo parecia nublado e cinzento.
Soaram as últimas badaladas e aquelas pessoas desconhecidas, na enorme praça no centro do Porto, gritaram, riram, comeram passas e beberam espumante barato.
Riram, porque acreditavam que, entrando naquela nova e desconhecida etapa a rir, assim seria o resto do período, até que este novo ano se consumasse.
Mas eu, foi com lágrimas nos olhos que te abracei e beijei, a ti, que tantas vezes amei e desejei e por quem dei este salto no escuro que estava a viver naquele momento.
A minha mente traidora, agora que tinha aquilo que tantas vezes desejara, torturava-me com imagens que eu não queria ver; ali, no meio daquelas pessoas que festejavam com alegria fingida, que espantavam os medos com uma coragem que não sentiam, a ideia de Noémia e Sílvia sozinhas em casa, na passagem de ano mais triste das suas vidas, não me saía da cabeça.
E tu beijaste-me e riste-te, como todos os outros e bebeste um e dois copos de espumante, feliz, ou fingindo que sim... ou achando que sim...
E eu, dono de uma angustia do tamanho do mundo, sentia o enorme nó na garganta que me impedia de beber e não deixava responder ao “Amo-te” gritado/sussurrado, ao ouvido, que me ofereceste. Antes fechei os olhos e virei o rosto ao céu, tentando aliviar a garganta e sossegar a respiração cada vez mais opressiva.
Fitei-te e passei-te a mão pelo cabelo com carinho, num gesto velho de anos, dos tempos em que não eras minha e eu não era teu... e tu limpaste a lágrima traidora que corria dos meus olhos congestionados, que miraste através da luz bruxuleante do fogo de artifício.
Articulaste um “Estás bem? Enquanto me seguravas ambas as faces para que os nossos olhos estivessem no mesmo comprimento de onda.
Não, não estou bem, pensei enquanto a tua irmã me abraçava e beijava, não, não estou bem, quando o teu cunhado me apertava a mão. Não, não estou bem, neste desconhecido, no outro lado da cortina escura. Não, não estou bem, aqui, nesta vida que tanto desejei e sem a qual pensei que não poder viver.
Agora sou eu que tomo o teu adorado rosto entre as mãos e beijo-te com um beijo forte e quente, deixando finalmente correr livremente as lágrimas.
É um novo ano que nasce com o coração cheio de amor, mas sem alegria e afogado em remorso.
Ofereci-te um sorriso triste, tentando dar uma coragem que não sentia, ao teu olhar preocupado. A esses teus olhos fascinantes e luzidios, gravados a fogo na minha alma.
Fechei os meus e inspirei fundo enquanto sentia o teu abraço e o fogo de artifício troava incessantemente. Tornei a abri-los para aquele mundo novo, que não reconhecia, ali, do outro lado da cortina e beijei-te docemente a testa, enquanto me soltava suavemente do teu amplexo.
Olhaste-me com uma pergunta, mas com medo da minha resposta e eu, com o meu patético sorriso triste, quase abafado pelas explosões, disse-te:
- Desculpa-me, meu amor, mas não consigo!
Sem mais, voltei-me e caminhei em passos largos, por entre a multidão, enquanto o fogo de artifício se silenciava e era substituído pela ovação das pessoas agradecidas.
E eu deixei-te ali, no meio do desconhecido, por trás da cortina, que eu achava que ambos queríamos, mas que eu não conseguia suportar.
Corri, corri como um louco, de volta para os braços da minha mulher e da minha filha. Corri, sufocando a angústia que sentia, porque elas estavam sozinhas, sem mim, do lado de cá da cortina, onde eu disse que estaria sempre. Corri, sufocando o medo, que não me conseguissem perdoar.