Debaixo dos Céus Os Mundos de Manuel Amaro Mendonça
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sábado, 17 de janeiro de 2015

Terras de Xisto - 3ª Parte - Expulsão

Regressar a 2ª parte neste link


O Quim Coxo era outro dos elementos da sua vida. Desde criança que a perseguia e dizia que havia de casar com ela, claro que nunca se atrevia a dizê-lo quando o filho do patrão andava por perto.
A chegada de Zé transtornou-o imenso pois sentia-o um rival contra quem não queria perder e, na maior parte das situações em que Luís e Zé se envolveram em luta, o Quim Coxo estava por perto incentivando o patrão.
Chegara mesmo a pedir ao Senhor Samões para casar com ela mas o velho não o quis ouvir o que o tornou ainda mais rancoroso.
Estava agora aqui a forma ideal de se vingar deles todos.
Tarde na noite Maria espreitou por uma das muitas frinchas da porta. O vigia, embora não tivesse arredado pé, dormia com a cabeça caída sobre o peito embrulhado num cobertor.
Saiu pé ante pé, cosendo-se com a parede, envolvida nas sombras, vestida com a sua melhor roupa e coberta com um xale sobre a cabeça.
Contornando a última casa no lado esquerdo da rua, entrou por uma pequena abertura na parede que a ladeava acedendo ao terreno onde a maior parte das pessoas despejavam os dejetos ou satisfaziam as necessidades fisiológicas. No meio do horrível cheiro, parou e olhou para trás a certificar-se que ninguém a seguia antes de avançar através do carreiro de terra que terminava abruptamente num declive íngreme com cerca de 20 metros que levava a outro dos caminhos de acesso à aldeia.
Começava já a descer com alguma dificuldade quando o resfolegar de um cavalo muito perto a sobressaltou. Tentou divisar no escuro a origem do ruído e apercebeu-se do homem deitado atrás de uma enorme pedra, convenientemente escondido de quem quer que subisse o caminho em direção ao povoado, ao lado do cavalo.
Recuou rapidamente dando graças às almas por não ter trazido a candeia e assim ter conseguido passar despercebida.
Sem hipótese de passar por ali sem que a vissem, decidiu recolher-se a casa novamente e, numa prece rápida, pediu a Deus que o seu marido se mantenha longe dos caminhos e não se atreva a vir por aí em busca dela. Sim, busca-la, porque sabia do fundo do seu coração que ele era incapaz de se ir embora sem vir por ela.
Ao chegar à porta reparou que o Quim já estava a pé e preparava-se para ir procura-la.
Por uns segundos, os seus olhares cruzaram-se. O dela, carregado de desprezo e o dele de ódio e desejo. Uma vez mais a porta bateu com estrondo quando entrou.
Deitou-se quase vestida. Não tirou a roupa interior que a mantinha quente e deitou-se assim sob as mantas tentando dormir… sozinha pela primeira vez em três anos… mas precisa descansar um pouco numa noite que, por estar tanta coisa a acontecer, parecia não ter fim.
Acabou por adormecer de cansaço entretida entre o pensar e o rezar.
Acordou, esgotada, como se tivesse apenas acabado de fechar os olhos, com o barulho típico das madrugadas da aldeia. A voz das pessoas a caminho dos terrenos para trabalhar acompanhados pelas dezenas de tamancos de madeira batendo na calçada.
Ergueu-se cambaleante e abriu as portadas de uma das janelas. Escondeu os olhos da luz e encaminhou-se para o jarro e a bacia de esmalte onde lavou o rosto na água gelada.
Sentou-se na cama desalinhada e deixou cair a cabeça entre as mãos sentindo-se derrotada.
Mas foi desânimo de pouca dura. Buscou energias à sua alma transmontana e trocou rapidamente para a roupa de trabalho, pegou a celha que estava na cozinha e saiu para a rua para trabalhar como se nada se tivesse passado.
Havia uma névoa fina espalhada pelas ruas e o ar frio cortava a pele do rosto e das mãos.
O Coxo já não estava na escadaria frente à casa mas os morrões dos cigarros que fumara estavam lá, no chão, provando a sua presença até bem tarde.
Caminhou apressadamente com a celha debaixo do braço. Estava atrasada para se juntar às lavadeiras que cuidavam das roupas da casa grande e a governanta não gostava nada disso.
Conseguiu alcançar as três companheiras ao chegar aos portões da casa:
- Maria! – Exclamou a mais jovem com um ar assustado – Ai valha-me Deus, mulher, como foi que aconteceu aquela desgraça?
Tentando manter a calma para e não recomeçar a chorar disse simplesmente:
- Nem eu sei rapariga. Ainda não sei do meu Zé e o Quim Coxo não me largou a porta a noite toda.
- Eu vi. – Apoiou a outra de ar mais maduro e rosto escurecido pelo sol ornado por sobrancelhas hirsutas – Também o Manel da Horta e o Linhaças andaram canelho acima, canelho abaixo toda a santa noite. Se o teu marido abeirasse, por certo o apanhavam.
- Ontem queria ir ter contigo, sabes? – Tornou a mais nova – Mas o meu marido… fartou-se de gritar comigo. Estava a ver que me batia. Disse-me que quem se juntasse a ti ia ficar marcada.
- Tolice! – Exclamou a mais velha.
- Tolice? – Contrapôs com ar presunçoso a que até aí não falara – Pois fiquem vocemessês com a certeza que isto não vai ficar assim e se não apanharem o Zé, quem vai pagar é essa daí e quem com ela fizer sociedade.
As outras duas calaram-se e Maria olhou-a com espanto. Nenhuma parara de caminhar enquanto atravessavam o umbral do portão do acesso às traseiras da propriedade e aos tanques onde lavavam a roupa.
Tão logo se encontram do outro lado, uma voz masculina chama:
- Maria! Ò Maria, pára-te aí que te quero falar.
Era o João do Nabal, o capataz do solar. Assim que o viram, as outras três mulheres aceleraram o passo e desapareceram rapidamente de cena. Com ele vinha um dos enormes mastins que ajudavam na guarda da propriedade e que saiu correndo prontamente em busca dos afagos de Maria que o acarinhava, a ele e a um irmão desde cachorrinhos.
A jovem ficou sozinha à espera do homem alto, senhor dos seus quarenta anos, de costas direitas e uma cabeça onde brilham os cabelos brancos sobre um tronco de barril. Ela deu-lhe um sorriso triste enquanto afagava distraidamente a enorme cabeça do cão. João era uma boa alma embora gritasse com os empregados como se os quisesse comer, ela tinha boas recordações quando era pequena e ia às cavalitas dele para tratar dos cavalos.
Trazia o rosto sério e os olhos tristes quando chegou ao pé dela e perguntou sem mais:
- Tiveste novas do Zé?
- Não senhor. Não o vejo desde ontem quando foi para a festa. Como está o menino Luís?
Ele olhou em volta para se certificar que ninguém se apercebia da conversa de ambos:
- Não está nada bem. Não dá acordo dele e não solta um ai a picadela nem pancada. O doutor Ferreira, da vila, passou a noite com ele, mas parece que mandaram chamar outro do Porto porque não se recomenda que o mexam.
- O Bom Deus nos acuda. – Gemeu Maria.
- Estou aqui porque o senhor Samões me mandou ao teu encontro. - A jovem olhou-o nos olhos, angustiada. – Mandou-me dizer-te que te não quer mais ao serviço da casa. Que te vás embora e não abeires mais ou manda pôr-te na rua.
- Ai Senhor dos Aflitos, que vai ser da minha vida? – Uma torrente de lágrimas irrompeu dos seus olhos enquanto enclavinhava as mãos numa súplica para o comovido capataz – Que hei-de fazer, senhor João?
Como se não a ouvisse, ele continuou:
- E quer também que deixes a horta que te deu o ano passado. Podes ir hoje apanhar tudo o que puderes e não voltes lá ou manda chicotear-te. - O homenzarrão olhou para o chão para que lhe não visse as lágrimas que teimavam em querer sair e rematou. - Vai-te embora, rapariga. Não tens família ali para Soutelo?
- Não posso. Não sem o meu Zé. Tenho que esperar por ele.
- Não faças isso. Vai enquanto é tempo, se o menino morrer, o velho Samões vai querer vingar-se e não apanhando o Zé…
- Tenho que esperar por ele. – Teimou erguendo o nariz num desafio – Se me for embora ele não saberá onde ir ter comigo.
- Alguém lhe dará o recado. O teu tio por exemplo. Não digas a mais ninguém para onde vais.
- Só saio daqui com ele.
- Vai embora pelo amor de Deus! – Ele perdeu a paciência – Não vês que vai ser a tua perdição e a dele? Os empregados andam a bater os montes e se o apanham… ele tem muitos inimigos entre eles, bem o sabes.
Ela deixou cair a cabeça, desanimada. As lágrimas corriam copiosas pingando pelo nariz num choro silencioso.
João passou-lhe a mão calejada pelo cabelo cor de carvão num gesto carinhoso, velho de anos e disse quase num sussurro antes de se afastar na direção da casa senhorial:
- Não fiques, rapariga. Vai-te daqui, porque enquanto não fores o Zé não sairá das redondezas e vão acabar por dar com ele.
De cabeça baixa, sozinha na entrada do portão, sentia que havia milhares de olhos postos nela de todos os pontos visíveis da propriedade. Deu meia volta e afastou-se em passos curtos chorando mansamente encaminhando-se para casa.


quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Terras de Xisto - 2ª Parte - Decisões difíceis

Regressar a 1ª parte neste link


A Maria e o Zé, como a maior parte da aldeia, dependiam dos Samões pela casa e pelo trabalho porque, sendo este último o dono de praticamente todas as terras em redor, era o maior empregador da região. No entanto, a sua relação com o fidalgo era um pouco mais complexa, a sua mãe, Emilia,  trabalhara muitos anos como criada da casa e dizia-se à boca pequena que a jovem Maria era filha dele que estava viúvo há alguns anos.
A suspeita nunca foi desmentida mas também nunca confirmada. A morte de Emilia, deu ao patrão a oportunidade de tirar a inconveniente criança da casa senhorial e entrega-la aos tios que eram os feitores da propriedade em volta da casa.
Os problemas com ela não acabaram aí. À medida que crescia, tornava-se bonita e sensual. Herdara da mãe as formas e finura de rosto, atraindo a atenção de aldeãos, criados e… do filho único do fidalgo.
Passaram-se alguns anos com o senhor a tentar casar Maria com este ou aquele empregado, um ou outro aldeão, que acabavam por ser afugentados às escondidas por Luís Samões. Este, ignorante ou indiferente às suspeitas de fraternidade não arredava mão de tentar possuir a bela jovem.
Até que um dia, numa madrugada de Setembro, chegou um grupo de romeiros para ajudar à vindima e entre eles vinha um jovem alto e forte de cabelos claros, compridos e rebeldes, bem ao jeito do seu dono. Chegava à aldeia José de Sousa, conhecido pelo Zé Sobreiro devido ao respeitável cajado de que nunca se apartava
A paixão entre os dois despertou carinhos e ódios nuns e outros, mas para o Senhor Samões era a sorte grande que lhe saía. Abençoou o casamento e ofereceu-lhes uma casa na aldeia. Tirava a inconveniente definitivamente da sua casa e afastava o filho para outra mulheres… julgava ele.
Luís nunca aceitou ser preterido por qualquer homem e muito menos por um camponês. Infernizou a vida dos dois e diversas vezes provocou duelos com os varapaus, onde não permitia que os seus criados interviessem... e que invariavelmente perdia. Acabava em casa a curar as mazelas e sendo invectivado pelo pai por andar envolvido em rixas com um vulgar camponês.
Não foram poucas a vezes que André Samões ameaçou o Zé e a Maria de expulsão da aldeia por causa dessas situações.
Nas circunstâncias actuais, ao tratar Maria por Maria Sobreiro, o apelido do marido, o fidalgo fazia o último e definitivo corte de relações com a jovem dissipando qualquer resíduo de suspeita de filiação que ainda pudesse existir.
O burburinho recomeçou entre os presentes contando uns aos outros o que se tinha passado e aquilo que tinham visto. Apontavam-na, mas ninguém se atrevia a aproximar-se dela mesmo depois do fidalgo se ter afastado.
A partir daquele momento ela deixara de ser a possível filha do Senhor Samões para se tornar a mulher daquele que quase matara o seu filho.
Em choque, a jovem quedou-se tremendo olhando a poça de sangue no chão e nem se apercebeu do olhar de satisfação que um dos lacaios do fidalgo lhe deitou.
A visão foi-lhe ocultada por um tronco maciço encimado por um rosto mal barbeado, decorado com um enorme bigode e um cabelo negro raiado de fios brancos e despenteado:
- Vamos embora daqui rapariga. – Pediu com a doçura possível da sua voz tonitruante.
 - Tio Manel… - Maria pareceu despertar e olhou-o, de baixo para cima, com uma súplica no olhar – Que é do meu Zé?
- Se ainda resta um pingo de juízo naquela cabeça oca, muito longe daqui. – Continuou o homem – Vamos embora, filha. Vamos sair deste lugar.
Como que em transe, ela deixou-se guiar por entre as pessoas que, relutantemente, iam abrindo a passagem.
Afastam-se a passos curtos do ajuntamento que os olha uns com tristeza e outros com desprezo.
Entretanto uma mulher aproxima-se de ambos e ajuda a amparar a jovem que se lhe dirige:
- Tia Joaquina, perdi o meu Zé, não foi? Nunca mais o vejo, pois não, minha tia? Fugiu e não volta mais.
A mulher tinha lágrimas nos olhos e não a encarou quando lhe respondeu sem parar de andar:
- Hás-de encontrá-lo minha querida. Deus é bom e vais encontra-lo. Mas é importante que te vás daqui o mais rápido possível, o Senhor Samões está desvairado e Nossa Senhora nos valha se que aquele bandido do Luís morrer.
- Ir embora? – Maria estacou – Ir embora para onde? Ir-me por esse mundo afora?
- Tem que ser minha filha – O tio tentou convencê-la – não podes ficar aqui, o Luís estava muito mal quando o levaram. Não sei se passará o resto da noite sem que o leve o Diabo, - Joaquina benzeu-se rapidamente - sim, porque Deus já lhe deve ter destinado o anfitrião.
- Mas eu não posso ir! Para onde iria? E o Zé quando regressar? Não saberá de mim.
- Duvido que ele abeire por aqui tão cedo. – A tia sentenciou – Pelo menos se souber que tu já cá não estás. Neste momento és um perigo para ele e para ti.
- Arranjas umas roupitas, uma bucha e uma cabaça com água e vamos embora. Ainda hoje te levo no cavalo a casa dos meus compadres na aldeia vizinha que te acolherão o resto da noite de bom grado. Ao nascer do dia deves pôr-te ao caminho. Temos família em Soutelo, corre para lá e que te guardem mais uns dias para que possas ir mais longe. Vai para o Porto, é grande o suficiente para que não encontrem com facilidade.
Retomaram a marcha enquanto Maria reflecte nas palavras dos tios. Quase ao chegar a casa sentenciou:
- Eu não posso ir embora. Não sem o meu Zé que há-de vir por mim.
- Oh, Valha-me Deus, querida filha. – Joaquina chorava já sem o esconder – Não podes ficar que vais causar desgraça ainda maior.
As pessoas começavam a regressar às suas casas e olhavam com curiosidade o trio que debatia em voz baixo o que deveria fazer.
- Já te disse – o tio insistiu – não fosse ele ser ágil e distribuir umas bordoadas à direita e á esquerda e os criados do Senhor André tinham-no morto ali mesmo, quando o menino Luís caiu com a pancada na cabeça. Que Deus me perdoe, parecia o barulho de um tiro. Se ficares, e ele vier buscar-te, hão-de estar aí de emboscada para o matar e quem estiver com ele. Vem comigo – implorou – eu levo-te.
- Não posso, não quero. – Com uma expressão carregada de decisão, olhou-os a ambos a ambos nos olhos – Só saio daqui com o meu Zé. Com o meu marido.
Os passos nas ruas novamente desertas fizeram-nos olhar para o outro lado da rua.
Um homem mancava para as escadas da casa em frente à de Maria. Era o Quim Coxo, um dos lacaios mais velhacos do Senhor Samões, exibia uma pistola no cinto e um sorriso de escarninho enquanto se sentava nos degraus e dizia alto o suficiente para ser ouvido:
- Mandaram chamar o médico, que deve estar por aí a chegar, mas diz o Endireita que o patrãozinho não escapa. – Conseguia-se distinguir a boca rodeada pela barba mal feita onde se notavam a falta de vários dentes. – Mas o teu chulo se calhar ainda viverá menos. Vou ficar aqui à espera dele.
A jovem cerrou os punhos e preparava-se para responder quando o tio a admoestou num sussurro:
- Calma rapariga, tem calma. Já houve tragédia a mais para uma noite só. Não lhe ligues, já conheces o animal. E agora está visto que hoje não podemos ir levar-te…
- Eu não vou! – Ela insistiu
- … Mas vamos ver se te conseguimos tirar daqui o quanto antes – continuou ele como se não a ouvisse.
- Nós vamos embora agora – Diz a tia – esse meliante vai passar aí a noite mas não se atreve a meter contigo porque ia ter que se haver com o patrão. Vai descansar um bocadinho e amanhã tentamos falar outra vez para combinar o que fazemos. Descansa e reza que Deus se apiede do Luís e não o mande por hora para o inferno.
- Sim, queridos tios, vamos todos tentar descansar um pouco para ver amanhã que hei-de fazer da vida… E rezar por esse excomungado Luís Samões… Nunca tal me passaria pela cabeça.
Beijaram-se em despedida e afastaram-se, eles para a sua casa e ela para o interior da dela. Não sem antes deitar um olhar venenoso ao meliante sentado nas escadas defronte e bater ruidosamente com a porta.

Veja a 3ª parte neste link

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Terras de Xisto - 1ª parte - A festa fatal



C
orriam os primeiros anos do século XX.
Na longínqua Lisboa, reinava despreocupado o bom rei D. Carlos e o mundo parecia ordenado e em paz;
O rei, reinava, o governo legislava, os regedores mandavam, os proprietários enriqueciam e os pobres trabalhavam…
Engordavam os primeiros, enriqueciam os segundos e morriam de fome os últimos.
Tempos duros aqueles, com o pão de cada dia arrancado à força de braço nos terrenos de xisto. Longínquas as terras, agora tornadas próximas por auto-estradas lavradas nas montanhas e máquinas possantes que devoram quilómetros.
Nos remotos montes do Norte do país, muito para trás dos montes, havia uma aldeia igual a tantas outras.
Vista de cima, até não era pequena, com quase dois quilómetros de ponta a ponta. O casario estendia-se ao longo de uma sinuosa rua monte acima ramificando-se em pequenos becos. O ponto mais baixo da rua central era dominado pelo palacete setecentista onde vivia a família mais importante da região e no extremo mais alto pela Igreja tornada rica pelo fervor dos pobres e ostentação dos ricos.
O extremo da aldeia, próximo do palacete, estava sossegado e as luzes das casas apagadas há algum tempo. Já passava das 23:00 horas e amanhã avizinhava-se um novo dia de árduo trabalho.
O céu excepcionalmente sem nuvens daquela noite de Inverno era dominado pela lua cheia cujos raios prateados iluminavam a paisagem.
Passadas apressadas de tamancos de madeira perturbaram a paz da noite ecoando rua fora.
Na casa verde junto da fonte, as pancadas violentas na porta acordaram a jovem mulher que ainda há pouco adormecera.
- Ò ti Maria – Uma voz esganiçada de jovem gritava num dueto com as pancadas na porta – Ti Maria, abra a porta!
A jovem ergueu-se gritando um “Quem é?” mal-humorado enquanto desamarrotava a camisa de noite e se cobria com uma pequena manta. Usava cabelos negros compridos que lhe chegavam ao meio das costas, tinha um nariz fino e afilado e olhos azuis.
As pancadas e os chamamentos repetiam-se como se a não ouvissem: - Ò ti Maria!
- Mafarricos te levem rapaz! Já lá vou! – Gritou novamente enquanto atravessava a cozinha e se dirigia para a entrada.
- Acuda à porta depressa. – Os gritos insistiam.
Abriu a porta com brusquidão surpreendendo o ofegante adolescente escanzelado de cabelos negros revoltos que a olhava entre o surpreendido e o assustado.
- Que foi? Que queres rapaz, que acordas as almas deste mundo e do outro? – Maria, senhora dos seus vinte e poucos anos, enfrentou o jovem.
- Venha depressa. – Ofegou – Venha depressa, foi o Ti Zé…
Estas últimas palavras disse-as já em corrida de regresso para onde viera, tamanqueando rua fora e insistindo – Venha depressa.
- Espera, rapaz! – Gritou ela – Rapaz! Tiago! Espera! Que aconteceu com o meu Zé? Fala!
Era inútil. Já não a ouvia, batendo os tamancos de volta para donde viera.
Correu para o interior da casa gemendo – Mafarrico… que terá acontecido? Aquele endemoninhado já se meteu em sarilhos outra vez.
Vestiu uma saia, cobriu-se com um xale e saiu correndo atrás do rapaz.
Agora eram os tamancos dela que ecoavam na rua ritmados com a respiração ofegante em crescendo com a sua aflição:
- Não há ninguém na rua… que terá acontecido… está toda a gente para lá…
O seu marido, Zé, não perdia uma festa... nem os problemas. Era normal, como era grande e forte, haver sempre alguém com um copito a mais que resolvia medir as forças com ele. A maior das vezes saia vitorioso, arranhado, pisado, mas vitorioso.
Maria sentia-se cada vez mais inquieta e, ao chegar à taberna, onde começavam os archotes iluminados, ouvia já o burburinho que havia para lá da esquina.
O frio mordia-a nas pernas mal protegidas e queimava-lhe as mãos e o rosto deixando-a corada. O seu respirar ofegante transformava-se em nuvens de vapor que saiam da boca.
Reduziu a velocidade instantaneamente assim que encontrou o ajuntamento.
Todos se começaram a calar e a abrir alas à sua chegada, rostos apreensivos, preocupados, ou mesmo zangados.
- Que aconteceu? – Perguntava à direita e à esquerda sem que lhe respondessem – Que houve, vizinha? – Perguntava à mais próxima que a olhava tristemente com as lágrimas nos olhos. – Diga-me por amor de Deus o que aconteceu Ti Eduardo. – Perguntou, sem parar os passos cada vez mais curtos, ao homem dos olhos grandes que desviou o olhar para o chão.
Acabou chegando ao centro do ajuntamento… uma obscena poça de sangue negro como a noite estendia-se no meio do círculo.
Uma nascente de lágrimas brotou dos olhos de Maria ao deparar com tão terrível vestígio e colocando as mãos enclavinhadas ao peito, chorou desesperadamente:
- Ai, valha-me Deus, o meu Zé! Ai, meu Senhor Misericordioso, valei-me.
- Cala-te mulher! – A ordem com uma voz forte carregada de desprezo veio do outro lado da poça. – Cala-te que choras por quem o não merece. - Por entre os soluços, olhou surpreendida o fidalgo que a olhava com porte altivo com o pingalim na mão esquerda batendo no cano da bota – Maldita és que trouxeste a desgraça a minha casa.
Com as mãos no peito, ela olhava incrédula em todas as direcções à procura de uma alma caridosa que lhe explicasse o que se passava e porque era ela a causa da fúria do Senhor Samões, o homem mais importante da aldeia.
- Esse sangue que aí vês, pertence ao meu filho que acabaram de levar daqui entre a vida e a morte vítima do maldito assassino que é o teu marido. – Apontou o pingalim ao peito dela, como se tratasse de uma espada e ameaçou – Cautela, Maria Sobreiro, hoje mesmo o Zé Sobreiro há-de ser caçado como um cão e trazido de rastos aos meus pés para responder pelo crime que cometeu. Se te atravessares no meu caminho ou dos meus homens hás-de levar tamanha tareia que nunca mais poderás andar pelo teu pé. Palavra de André Samões. Que sejas maldita tu e o perro canalha com quem te casaste com a minha bênção, amaldiçoada a hora. A ele, hei-de esfola-lo de chibatada como a um miserável que é e tu, se me voltas a aparecer à frente, mato-te com as minhas próprias mãos.
Terminou a ameaça com uma chibatada na diagonal muito perto do rosto da tão apavorada como espantada jovem e fez meia volta empurrando da sua frente os mais lentos à medida que se afastava em passos rápidos e decididos.