Debaixo dos Céus Os Mundos de Manuel Amaro Mendonça

sábado, 27 de outubro de 2018

Passatempo Revista BANG

Foi no passado dia 1 de outubro, que fui surpreendido com a notícia de que tinha ganho o passatempo para a escolha do conto a ser publicado no número 25 da revista BANG, editada pela "Saída de Emergência


Selecionado entre mais de 140 participações, o meu conto "Para um Bem Maior", foi publicado na revista abaixo, que foi distribuída durante o festival BANG, que decorreu no dia 27 de outubro no  fantástico pavilhão Carlos Lopes, no Parque Eduardo Sétimo, em Lisboa. O conto original, disponibilizado na ligação acima, é ligeiramente maior do que o publicado na revista, pois havia um número limite de palavras para poder participar.


Revista BANG número 25


Quem quiser a revista em papel, esta é distribuída gratuitamente na FNAC, se não, podem ler todas as publicadas aqui.










quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Tralhariz - Fonte de inspiração



Tralhariz é uma das mais antigas aldeias da freguesia do Castanheiro do Norte, que pertence ao concelho de Carrazeda de Ansiães, distrito de Bragança.

O nome, pouco comum, segundo o abade de Baçal na sua extensa obra sobre Trás os Montes, deriva de talhariz, e este por calhariz e este por calhandriz, que é um sítio em que abundam calhandras, aves. No entanto já ouvi dizer que estaria especificamente relacionado com o papa-moscas cinzento, ave conhecida por "Tralhão"

A ocupação da zona é muito antiga, pois, nos territórios anexos à aldeia foram encontrados vestígios pré-históricos e castrejos, nomeadamente nos locais chamados da "Pala da Moura" e no "Monte das Chãs". Cerca do ano de 1900, no local da Quinta da Ribeira, ruínas do que teria sido uma vila romana. Normalmente, este conjunto era constituído pela "domus" ou casa senhorial, os edifícios relacionados com a exploração agrícola e um aglomerado de habitações, mais ou menos precárias para os trabalhadores, no entanto, apenas foram encontrados restos de colunas, algumas moedas e vestígios de paredes pintadas e chãos decorados com mosaicos policromáticos, possivelmente por a escavação não ter sido suficientemente exaustiva. As peças que foram levadas pelos arqueólogos, espero que se encontrem nos museus, ou outros lugares públicos, devidamente identificadas, para serem apreciadas pela população da região e do país, mas as ruínas que existiam no local, parecem ter-se perdido para sempre. Alguns historiadores referem que é possível que este núcleo tenha sido destruído durante as invasões bárbaras, no final do império romano, visto haver sinais de incêndio em alguns locais.

A aldeia atual, encontra-se na mesma encosta, mas umas boas centenas de metros acima do local destes achados, na margem esquerda do rio Tua, que vigiando-o sobranceiramente até à sua foz, no rio Douro.

Como todas as aldeias da região do alto-douro, cerca-se de vinhedos e olivais, que são a principal fonte de rendimento da população, em conjunto com a exploração de hortas dispersas.

Tem cerca de dois quilómetros de extensão. A poente, assinala-se um solar brasonado setecentista, construído possivelmente durante uma fase de expansão da aldeia, uma vez que se encontra numa zona mais ou menos periférica, o que só comprova a antiguidade da povoação. Outras casas importantes, embora em melhor ou pior estado de conservação, existem nas zonas mais centrais, como a Casa de São Jorge dividida por várias famílias (conhecida pela Casa do Pátio), ou a casa dos Botelhos, em avançado estado de degradação e descaracterização. O casario estende-se depois em direção a nascente e à sede da freguesia, pelo que era chamado o "caminho do concelho", agora Rua Central e que se subdivide em várias ramificações, os "canelhos", que dão acesso às casas periféricas ou aos terrenos de cultivo. Seguindo essa linha chegamos à igreja da freguesia, do patrono São Brás, no alto do monte que separa Tralhariz do Castanheiro.


Quando comecei as minhas deslocações para esta aldeia, há mais de trinta anos, a paisagem transmontana era-me completamente desconhecida. Conhecia os largos braços da ria de Aveiro, as verdejantes paisagens Gerês ou do Bussaco e as planícies infindáveis do Alentejo. O Douro, era na Ribeira do Porto ou na Foz, pelo que o verde dominante das margens do Alto Douro e as serras a perder de vista, que nos esmagam na nossa pequenez, deixaram-me sem palavras e ainda hoje me emocionam… foi um amor à primeira vista.

As casas humildes de xisto e as opulentas de cantaria, estão firmemente entrelaçadas ao logo da rua central, numa cumplicidade e convivência de séculos, fechadas sobre elas próprias, mas as suas gentes são de coração e braços abertos.
Não é de admirar, portanto, que não consiga evitar de retratar alguns destes aspetos fascinantes nos meus trabalhos e, embora os personagens sejam completamente fictícios, empreguei expressões regionais e modos de falar e agir de pessoas que conheci.

É, no entanto, na paisagem que pretendo focar a minha análise e em "Terras de Xisto" estão patentes estes retratos:
"Nos remotos montes do Norte do país, muito para trás deles, havia uma aldeia. Vista de cima, até não era pequena, com quase dois quilómetros de ponta a ponta. O casario estendia-se ao longo de uma sinuosa rua monte acima ramificando-se em pequenos becos. O ponto mais baixo da rua central era dominado pelo palacete setecentista onde vivia a família mais importante da região e no extremo mais alto pela Igreja tornada rica pelo fervor dos pobres e ostentação dos abastados."

A Maria Sobreira, a protagonista, era filha de um fidalgo que habitava uma casa senhorial afastada da aldeia e a irmã deste, numa outra de cantaria, no centro da povoação. Tratavam-se da Casa de Tralhariz e da Casa do Pátio respetivamente.

A escadaria de pedra do solar, onde caiu André Samões, existe, caminhei nela muitas vezes, não leva às cozinhas, mas sim à entrada principal e a alguns anexos de armazenamento.

Por último, o próprio solar é transformado numa pousada, tal como a "Casa de Tralhariz" é um aproveitamento turístico também.


Em "Lágrimas no Rio", a existência do túmulo de família no chão da igreja, não é exclusivo de Tralhariz, mas o certo é que na igreja da freguesia, apesar de removidos todos os vestígios dos antigos enterramentos, ainda existe uma campa com inscrição visível na capela-mor e pertença de um dos antigos proprietários do solar.

A igreja situa-se num ponto elevado e curiosamente acede-se por dois caminhos que entroncam num só: o "Caminho de Cima" e o "Caminho do Povo". Também em Tralhariz há a Rua Central que atravessa a aldeia em direção à igreja e à sede da freguesia e que é entroncado pela Avenida do Pinheiro Manso, mais recente e que representa o acesso norte do solar. O terceiro caminho referido nesta obra, é imaginado a partir de outra aldeia da mesma freguesia, Foz-Tua, localizada nas margens do rio Douro e a poucos quilómetros de Tralhariz. Da junção das duas localidades imaginei "São Cristóvão do Covelo", anichada à sombra do monte: "Sempre fora o “Caminho de Cima”, que nascia no lado norte do solar dos Montenegro, percorria a parte superior da aldeia, a meia encosta do monte do Covelo até entroncar com o “Caminho do Povo”. Este, passava em frente ao lado sul do solar, atravessava a povoação e encontrava, mais à frente, o “Caminho de Baixo”, que passava entre o rio Douro e as casas e conduzia à estrada principal"

No extremo poente da aldeia, temos uma vista maravilhosa do vale do Tua, ao mesmo tempo que somos assoberbados pela grandiosidade do espaço em redor e, à semelhança de Avelino Montenegro, também eu passei muito tempo, tisnado pelo sol ou mordido pelo frio, a observar a paisagem que não cansa e a ouvir a voz da natureza:  "O nevoeiro deixara um ar húmido e frio, mas límpido. Conseguiam-se enxergar quilómetros, a partir daquele temível promontório, debaixo das nuvens negras e ameaçadoras. O vento, era a voz de Deus, que sussurrava pelo vale com o restolho dos pinheiros e sobreiros das encostas.

De chapéu bem enterrado na cabeça e cachecol a proteger o nariz e a boca, deixou-se ficar por ali, olhar perdido nos montes longínquos. O imponente Marão, no limite do horizonte, exibia as cristas cobertas de neve."


Se em "Lágrimas no Rio", abordei o tema da apanha da azeitona, no conto "Corrécio", a colheita é a das uvas, a vindima que dá vida à região do Douro. A aldeia transmontana espelha bem o velho ditado do povo "Nove meses de inverno e três de inferno" que eu pessoalmente pude comprovar nestes anos e que é referido nesta história: "O sol estonava as pedras da calçada e as paredes das casas causando ondulações de calor transmitindo uma sensação de irrealidade. A rua deserta, que levava ao centro da aldeia e à sua casa, era um forno que o cozia lentamente sem que ele notasse."

"Corrécio" envolve uma vez mais ricos e pobres que, embora incapazes de viver uns sem os outros, travam relações tensas e de reações inesperadas. A vida dos trabalhadores divide-se entre o trabalho no campo quase de sol a sol, a casa onde dormem e ceiam e a taberna, igual a tantas outras por esse trás os montes fora: "O interior era escuro e apenas umas poucas velas davam alguma luz às paredes enegrecidas por décadas do fumo da lareira que acendiam nos dias frios. Três mesas com os respetivos bancos corridos preenchiam o espaço em conjunto com o balcão sebento de milhares de mãos que pousavam moedas e levantavam géneros." No conto "Tudo em Jogo", também a taberna é descrita: "Naquele fim de tarde, a pequena e escura taberna estava enevoada de fumo de tabaco e as vozes tonitruantes de homens enchiam o espaço. 
Por entre as mesas toscas de madeira, ladeadas de bancos corridos, o chão de lajes grosseiras estava manchado e sujo de anos de vinho entornado. Os candeeiros a petróleo, nas paredes de madeira enegrecida, travavam uma luta desigual com as trevas e o fumo que dominavam o estabelecimento. Uma enorme lareira crepitava e emprestava mais um pouco de luz bruxuleante ao ambiente."

De resto, em todas as histórias tentei falar um pouco sobre a vida dura no campo, que pode ser visualizada nos fantásticos painéis de azulejos existentes nas estações ferroviárias do Pinhão e Pocinho, na linha do Douro e que utilizei como capa do livro "Daqueles Além Marão".


E é assim que a minha imaginação vai sendo alimentada com estas paisagens e estas gentes maravilhosas que povoam esta região tão bela, mas que consegue ser tão agreste. Brevemente sairão mais histórias onde as paisagens transmontanas estarão representadas.


Para encerrar, coloco aqui as palavras de agradecimento que utilizei em "Lágrimas no Rio" e que acho que são bem aplicadas neste contexto:
"No alto de um cabeço coroado de granito e espraiando o olhar pela imensidão de montes e vales a perder de vista, é difícil não nos sentirmos esmagados pelo poder da Criação. As fragas ciclópicas, os olivais alcantilados e inacessíveis, as vinhas esculpidas pela tenacidade do Homem, são estes os adornos dos vales do Tua e do Douro e são a minha fonte de inspiração.
O meu agradecimento, vai para o Grande Arquiteto, que estava certamente inspirado, no dia em que criou uma das mais belas regiões do mundo."




Bibliografia

Baçal, F. M.-A. (2000). Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança. Bragança: Camara Municipal de Bragança.
Morais, C. (2014). Por Terras de Ansiães. Carrazeda de Ansiães: Camara Municipal de Carrazeda de Ansiães.
O Archeologo Português. (1900). Estação Romana da Ribeira (Tralhariz). Lisboa: Museu Ethnologico Português.
Queiroz, A. M. (2007). A Casa de Tralhariz e a Capela do Bom Jesus. Edições Universitárias Lusófonas.


quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Palavras por Amor



Recordo um amor antigo, que viveu de sonhos
Por algum tempo.
Que vem até mim, em sonhos disperso.
Sabes de quem falo? Tu, cujos olhos me lêem?
Sabes a saudade que tenho, dos cálidos beijos
E ternos abraços?
Mirrados frutos deste amor que foi ficando,
Encerrado nas folhas que escrevo,
Encarcerado no livro que fecho,
Fechado nas lágrimas que verti,
Em forma de cadeado.
Secas, como as pétalas da rosa,
Conservada de uma saudosa primavera,
Assim ficam estas palavras,
Outrora viçosas.
Recordo o brilho dos olhos, o calor dos lábios
E o carinho do abraço,
Que não mais voltam.
Fica este testemunho, em letras luzidias,
Negro sobre o alvo marfim, 
Aconchegado em capa cinzenta.
Repousa amor, sonho inacabado,
Prematuramente desperto.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Pensei que eras eterno





No meu egoísmo, pensei que eras eterno.
Eterno, como as rochas que enfrentam o mar, dia após dia e não cedem terreno, apesar de não vencerem. Eterno, como as grandes montanhas que, escavadas por rios e mineiros, erguem-se imponentes desafiando as neves e os ventos.

Afinal, eras apenas como um grande castelo, erguido à força de braços e resistindo por décadas e décadas… até que os seus muros, construídos para resistir à força bruta dos bárbaros invasores, começa a derruir, pedra após pedra, cedendo aos elementos e ao tempo. Por fim, já pouco mais eras que uma pequena cerca, apoiada em fortes, mas soterrados, alicerces. Mas era aí que eu recorria, conhecedor da força das tuas bases, a aprender o conhecimento da tua estrutura e desejando um dia vir a ser metade do homem que eras, ter pelo menos metade da tua força.

Mas no meu egoísmo, cuidei que estarias sempre ali para mim. Para me falares na tua voz calma e ponderada, embora poderosa. Darias um excelente orador, se a tua educação de gente humilde, de quem viveu na escravidão dos ricos, não te fizesse tão discreto e receoso de protagonismo. Os anos ensinaram-te as virtudes da invisibilidade e evitar a atenção da inveja e do mal. Quando erguemos uma torre acima da cabeça dos demais, haverá sempre alguém para tentar derrubar, apenas poque não é capaz de a igualar, quanto mais fazer  melhor.

No meu egoísmo, achava que serias sempre o meu porto de abrigo, aquele a quem falava dos meus eventos e dos meus projetos, que escutava e debatia, como sabias debater a maior parte dos assuntos. Eram os frutos da bagagem dos anos e da tua fome de saber, que te levou a devorar tomos e tomos, que guardavas ciosa e orgulhosamente.

Com um golpe no egoísmo, vi-te partir e deixar um enorme vazio, que nunca poderá ser preenchido; antes evitado e escondido, nos recantos da minha memória. Espaço que vou tapando com montes de outros tantos eventos, bons e maus, que compõem a minha vida.

O sol nasce e as serras distantes tingem-se de tons alaranjados. O céu, de um azul puro, tem apenas algumas nuvens dispersas, na promessa de mais um belo dia de agosto. De mais um dia sem ti.


terça-feira, 26 de junho de 2018

Para Um Bem Maior



** Conto agraciado com o primeiro prémio no "Passatempo Mini conto Fantástico FNAC"

“Bastião” estava desesperado.
A vida não lhe corria nada bem e o pouco que ganhara, de “carrejão” durante vindima, fora-se em cartas e copos na taberna do Barnabé. Não queria “ouvir” a Maria a “chagar-lhe” a paciência por causa do dinheiro uma vez mais.
Olhou para as calças remendadas e puídas, que terminavam quatro dedos acima dos socos de madeira. Precisava de comprar umas calças, ou muito em breve ficaria com as ceroulas à mostra.
Já há muito que congeminava um plano, para dar a volta à sua situação financeira, mas não se atrevia a executá-lo: a capela do São Salvador, no alto da pequena colina sobranceira à aldeia, tinha sempre uma boa maquia na caixa de esmolas. Ainda por cima, com a festa do Santo na próxima semana. Já se viam muitos crentes a levar as velas e as moeditas que podiam dispensar, para pedir uma bênção, ou ajudar os pobres… quem mais pobre do que ele? Ficavam os cobres melhor para si, do que com o “papa-hóstias” do padre Figueira, que só sabia beber tinto e “larpar” os salpicões a que deitasse a mão.
De resto, quem é que alguma vez tinha recebido algum tostão dos que lá se punham para os pobres? Ele é que não! Pelo menos até hoje… Sorriu de si para si enquanto deitava nova olhada pela rua de terra batida que atravessava a aldeia, onde não se via vivalma.
Era noite e as nuvens de trovoada acumulavam-se sobre o vale desde o fim da tarde, o ribombar distante anunciava a possibilidade de uma forte chuvada para breve e todos na povoação se recolheram cedo para a ceia e para dormir, que amanhã seria um novo dia de duro trabalho.
Disfarçadamente, caminhou pela rua escura, sem acender candeia ou luminária, não fosse verem-no por lá. Fracos fios de luz escoavam-se pelas generosas frestas das portas das casas e aqui ou ali, ouviam-se as vozes dos adultos que se não haviam ainda deitado.
Passou em frente à pequena igreja e benzeu-se rapidamente, feliz por perceber que, nem o “Manel maluquinho”, que andava sempre pela praça, estava à vista naquele dia. Não apareceria de repente com a sua voz distorcida e gutural a pedir “Tostãozinho, pelas almas!”
Apressou o passo e lançou-se no caminho processional que subia ao santuário, oculto pela sombra das árvores, esperando não sujar os socos nalgum “presente” deixado por cavalo ou vaca.
Chegado ao alto do monte, a visão era ainda mais impressionante: os céus refulgiam com o luar que brilhava em volta das nuvens negras que pairavam sobre o vale. A espaços, vibravam clarões, brevemente respondidos por um retumbar longínquo.
A pequena capela estava obviamente fechada e Bastião abanou a porta com força, fazendo-a estremecer, mas não ceder. Resmungou baixinho… não tinha pensado bem naquilo, devia ter trazido um ferro…
Deu a volta ao edifício, espreitando pelos buracos de introdução das esmolas; a luz bruxuleante das velas, no interior, prometia-lhe um pouco de luz sem levantar suspeitas… pelo menos assim que entrasse. Tornou à entrada e avaliou a enorme fechadura de ferro, comida pelos anos…
Ergueu o pé e desfechou uma “patada” bem no meio da porta, sendo recompensado com a sua abertura de par em par, sem mais resistência. Felicíssimo saltou para o interior e fechou-se rapidamente.
O exíguo espaço que pouco mais daria do que para umas dez pessoas em pé, estava iluminado por uns quantos cotos de velas, ardendo nos suportes dedicados às promessas. A luz tremia ainda, perturbada pelo rompante da invasão, dando ao local um aspeto ainda mais fantasmagórico.
Na parede fundeira, uma espécie de altar e a cruz com O Crucificado em agonia, que era usada com muita devoção nas procissões, ocupavam quase todo o espaço. Dos lados, prateleiras com imagens de santos de vários tamanhos, velavam. Entre elas, uma imagem de São Pedro, olhava-o acusadoramente, empunhando a chave com uma mão e apontando o céu com a outra.
Ajoelhou-se frente ao altar e pediu perdão por aquilo que estava prestes a fazer:
"Senhor Jesus perdoe-me pelos meus pecados e pelos maus tratos que dou à minha mulher, que é uma santa… às vezes… outras vezes, torna-se o diabo em forma de gente e eu tenha de lhe “arriar” para a “pôr nos eixos”. Prometo que não volto a beber… tanto e que só vou jogar… uma vez por semana… ou duas."
 Usou os seus melhores argumentos, para justificar que o facto de se ir apoderar das esmolas, mais não era do que encaminhá-las para quem realmente precisa e para um bem maior, que não o engrandecimento da já enorme “pança” do padre Figueira, "Que o Senhor Jesus bem sabia como ele era." 
Assim que achou suficiente, agradeceu diversas vezes, benzeu-se e beijou os pés da sacra imagem, após o dedicou a atenção ao aloquete da caixa das esmolas. As letras ingenuamente escritas "Esmola para as Almas", tremeluziam como que recordando o sacrilégio que ia cometer. 
Estacou com um ruído que lhe pareceu ouvir… gotas de chuva começavam a cantar no telhado. Recomeçou a avaliação e tentou abrir o fecho com a faca cheia de bocas, sem sucesso.
Agarrou nas imagens dos santos e pousou-as cuidadosamente no chão, em seguida, apoderou-se da prateleira onde elas estavam e bateu com ela sobre o aloquete. À segunda pancada partiu-se a tábua, mas o fecho também cedeu e uma torrente de moedas negras, algumas muito maltratadas, choveu aos pés do salteador. Rapidamente iniciou a recolha para o saco de lona que trouxera. Eram basicamente moedas de dez e vinte reis, mas demorou-se uns segundos a mirar uma ou outra de cinquenta reis e os olhos brilharam, quando achou dois tostões, duas de cem reis e mais três meias patacas, de cento e sessenta reis cada.
Encolheu-se. Pareceu-lhe ouvir alguém lá fora e ficou em silêncio. Uma moeda retardatária tilintou em cima das outras. Empunhou a faca e espreitou para a escuridão no exterior… a chuva caía copiosa, o vento soprava e relâmpagos longínquos rasgavam o céu. Não era possível ver a mais de três ou quatro metros de distância. Regressou e apressou-se a recolher o saque.
Deitou um último olhar aos santos; São Pedro continuava a olhá-lo acusadoramente, ameaçando-o com a justiça divina. Voltou a imagem para a parede e pôs o saco às costas. Benzeu-se para o enorme crucifixo. Uma forte rabanada de vento escancarou as portas e todas as velas se apagaram. O rosto de Cristo parecia refulgir com a luz dos relâmpagos.
"Perdão, meu Deus", gemeu estarrecido, antes de sair para a intempérie.
Mal deu dez passos, quando deparou com uma aparição, coberta da cabeça aos pés, que lhe barrava o caminho e estendia as mãos.
Soltou um grito estrangulado e caiu para trás, petrificado, tilintando centenas de moedas pelo chão empedrado. O seu rosto numa máscara de terror, focou o céu iluminado pela trovoada, enquanto a assombração se debruçava sobre ele. Com os olhos esbugalhados, inspirou atabalhoadamente três vezes e depois, parou para sempre…
A sinistra e andrajosa aparição, coberta com uma grosseira lona, inclinou-se para o corpo sem vida e exclamou:
"Tostãozinho pelas Almas"


quinta-feira, 7 de junho de 2018

SG Magazine, uma revista Sui Generis

SGMag - Maio 2018

E ele aqui está. O número quatro da SG Magazine. O belo rosto da jovem e talentosa autora Sandra Boveto, alvo de uma extensa entrevista logo nas primeiras páginas, é um excelente convite a abrir e ler mais este número.

Ao longo das 256 páginas que o compõem, o editor Isidro Sousa, aborda os eventos da "família Sui Generis", como vários lançamentos de livros e reportagens de algumas das apresentações. A sua qualidade de trabalho não pára de me surpreender e o seu trabalho é notado, pois também ele já foi capa da revista "Divulga Escritor" da minha amiga Shirley Cavalcante.

Número especial dedicado a Portugal - 2016

Voltando às apresentações literárias, destaco aqui a da obra "Nos Novelos da Memória", da minha amiga Teresa Morais, onde tive o enorme prazer de estar, junto com vários outros amigos e amantes da palavra escrita, como Fernando Morgado, Suzete FragaNatália Vale, Natércia Isabel Morais e Raquel Garcez Pacheco, numa sala bem cheia, como ela merece. 




Existe espaço também para as "short stories", os contos, que parecem estar na moda. Imensos contos de vários autores desta "família" e também imensos textos poéticos.

Mesmo num mundo onde cada vez mais se lê menos, não conseguimos deixar de debitar os nossos sentimentos e contar as nossas  histórias para o papel.

Leia! Estes autores não se prendem com o lucro e a sofreguidão de vender livros, o prazer deles é o de escrever para que os leitores leiam. O seu prazer é saber que leram aquilo que foi escrito, se gostam, já é outra questão.

O Isidro não se esqueceu de mim e, para meu grande orgulho e satisfação, junto com tantos autores talentosos, publicou o meu conto, "Natal em Família". É aqui que se distingue o trabalho de um profissional de um simples copista que se limita a "copiar e colar" os textos para um livro ou uma revista; toda a história está ilustrada com imagens perfeitamente enquadradas.

No fim, ainda recordou alguns dos meus trabalhos em antologias, bem como os livros exclusivos já publicados.

Natal em família


Não se pode deixar passar o excelente artigo da autora Sara Timóteo, sobre o fantástico Stephen King, apesar de extenso, vale a pena ler e saber um pouco mais sobre ele.

Foi um prazer imenso ver que o mundo da lusofonia está ativo e saudável e esta família Sui Generis não desiste e está presente.

Bem hajam






quarta-feira, 30 de maio de 2018

Hoje escrevi um poema



Hoje escrevi um poema
Mas guardei-o para mim
Já é meu costume, pensar
E esconder as coisas assim

Hoje escrevi um poema
Que ficou assim, assim
Eu não sei escrever poemas
Embora às vezes pense que sim.

Hoje escrevi um poema
Mas escrevi-o para mim.
Gastei a tinta e o papel
Mas vou guarda-lo mesmo assim.

Hoje escrevi um poema
Com o rosto carmesim
Pelas ingenuas palavras
Que escrevi aqui assim.

Hoje escrevi um poema
Um poema, pois sim
Escrevi palavras tolas
Escrevi-as para mim.