Debaixo dos Céus Os Mundos de Manuel Amaro Mendonça

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Sem Te Olhar Nos Olhos


Com quase setenta anos, João Henrique Antunes era ainda um homem elegante e bem-parecido. Naquele frio fim de tarde de março, hesitava frente à capela mortuária, debaixo do céu cinzento de nuvens ameaçadoras. Algumas das pessoas que entravam, olhavam-no com curiosidade.
Por fim, encheu o peito de ar e subiu os quatro degraus necessários para atravessar o umbral.
Lá dentro estava quente. Viam-se irradiadores nas paredes laterais. No centro da nave estava um caixão coberto de flores, com muitas mais no chão. De um lado e outro do esquife, pessoas sentadas e, aqui e além, pequenos grupos que conversavam em voz baixa. Todos olharam o recém-chegado com variados graus de curiosidade e persistência, mas a maioria regressou ao que estava a fazer.
João, após mirar rapidamente os presentes, despiu o sobretudo azul escuro e colocou-o sobre o braço, dirigindo-se depois à mesa, onde se encontrava o livro de condolências. Por uns segundos, repousou os olhos azuis sobre a foto ao lado do livro. A mesma fotografia que vira no jornal: Eduarda, mais de quarenta anos depois! Embora a dor que ela provocou na altura, estivesse bem gravada na memória. Estava mais velha, claro, mas envelhecera bem, continuava bela. Os olhos castanhos e o rosto moreno, adornado pelo cabelo, agora branco, era a mulher que ele gostaria de ter a seu lado. Ele, que estava viúvo há mais de dez anos.
Assinou o livro com a caligrafia quase ilegível, que lhe era característica e acrescentou “Eterna Saudade”, enquanto pensava quantas vezes, noutros casos, tinha dito estas duas palavras tão sentidas, sem que significassem praticamente nada.
Encarou então as pessoas à volta do ataúde. Reconheceu um ou dois rostos, de amigos dela, mas de quem já nem recordava o nome, mas distinguiu o irmão de Eduarda, que aparentemente não tinha tirado os olhos dele, desde que chegara.
Altivamente, costas bem direitas, dirigiu-se a ele, Pedro, que sempre o culpara de algo que ele suspeitava o que era, mas nunca teve a certeza. Estendeu a mão num cumprimento, a que o outro tardou em responder, fitando-a como se tivesse lepra. Por fim, Pedro ergueu-se, apertou-lhe a mão e abraçou-o, dizendo-lhe ao ouvido: “Que fazes aqui? Não sabes que não és bem-vindo?”
João afastou-se ligeiramente do homem, fitou-o nos olhos, tão parecidos com os da irmã e com um sorriso triste, respondeu-lhe, num meio sussurro: “Os meus sentimentos pela tua perda.”
Depois, virou-lhe simplesmente as costas, para olhar o corpo em repouso no caixão. Parecia mais pequena, embora ela nunca tivesse sido grande. A mulher pequena e turbulenta, que fez as delícias da sua vida, por cerca de três anos. Apesar do seu tamanho, quando o deixou, ficou um enorme espaço vazio, que nunca ninguém conseguiu preencher… e ele bem tinha tentado.
As memórias daquela época, os finais da década de 1980, estavam bem frescas na sua memória. Com vinte e oito anos, estava num período excelente no departamento de marketing da empresa onde trabalhava; ganhava bem, era amigo do patrão e o mundo sorria-lhe, principalmente a parte feminina. Vivia com Eduarda há três anos, que conhecera no casamento do irmão, Pedro, com quem se fizera amigo na faculdade.
Eduarda conseguia encher uma casa, a falar e a rir das suas próprias palavras. Tinha sempre tema de conversa e ele recordava-se de muitas vezes lhe ter pedido para se acalmar e falar menos, que estava cansado de a ouvir. Não imaginava, na altura, como haveria de lhe sentir a falta.
— Não ouviste o que te disse? — Insistiu Pedro, sobre o ombro, em voz baixa.
— Sim, ouvi. — Respondeu João asperamente, no mesmo tom, sem se voltar. — Não tens o direito de decidir isso, como não tinhas o direito de te intrometer.
— Ela era minha irmã! — O outro começou a alterar-se.
— Acalma-te e senta-te, não queiras dar espetáculo. — Tornou João, mais conciliador. — Tua irmã, mas minha mulher, a tua intromissão entre nós, deu no que deu.
— O quê?!? — Pedro ficou lívido. — Queres justificar os teus atos com a minha intromissão? Eu tive de intervir, para a defender das tuas atitudes. Porque foste tu que a afastaste! Eu só colaborei naquilo que ela me pediu: que nunca te dissesse onde ela estava.
— Era minha mulher e eu tinha o direito de saber, de lhe perguntar porque me abandonou, se estava tudo bem entre nós. — João voltou-se para o interlocutor. — Tinha direito a uma segunda oportunidade…
— …ou terceira, ou quarta… — Continuou o outro com um sorriso de escárnio. — Estavas sempre a traí-la! Foi por isso que te abandonou!
Os presentes estavam a ficar nervosos com a conversa dos dois, cada vez mais alterados.
— Senhores, por favor. Respeitem ao menos a mulher, que aqui está deitada. — Um outro homem, dos seus quarenta anos, logo seguido por uma mulher pouco mais nova, aproximaram-se. — Tio, então? — Dirigiu-se a Pedro que, assim admoestado, virou costas e abandonou a capela.
— As minhas desculpas, não devia ter cedido à provocação. — Pediu João. — Eu sou ex-marido da Eduarda e…
— Sim, a minha mãe disse-me, pouco tempo antes de falecer, que poderia aparecer por aqui. — Continuou o homem. — Meu nome é Henrique e sou o filho mais velho, esta é a minha irmã, Idalina.
Olharam-se nos olhos e a João pareceu-lhe ver uma versão de si próprio quando era mais novo. Não lhe faltavam os olhos aquosos azuis e o nome parecia um carimbo de identificação. Já Idalina, tinha os olhos castanhos e pequenos da Eduarda.
— A minha mãe deixou-me uma carta para si. — Também Henrique parecia perturbado com aquela semelhança, enquanto lhe entregava um envelope. — A doença que a levou, foi lenta a consumi-la e ela teve tempo de sobra, para preparar as despedidas. A carta, disse-me, já está escrita há muitos anos, mas nunca teve coragem de a enviar. Não sei o que diz, não abri, mas também não quero saber exatamente quem é você, nem o que fez à minha mãe. Por favor, leia-a lá fora e… agradeço que não volte.
Derrotado, consciente de ter estado a falar com o seu próprio filho, abandonou a capela, sentindo dezenas de olhos nas costas. Lá fora, atravessou o olhar azedo de Pedro, envolto em baforadas nervosas de fumo, mas seguiu em sentido contrário, para evitar retomar uma discussão velha de quarenta anos.
Sentou-se num dos bancos de pedra, oculto das vistas de quem circulasse por ali e abriu o sobrescrito, que revelou uma cola ressequida e soltou pequenos grãos de pó. Lá dentro havia uma folha escrita e uma fotografia de Eduarda, a perder cor e ligeiramente desenquadrada, mas linda como ela era há quarenta e muitos anos. Os olhos aparentavam ter estado a chorar, mas era ela, a mulher que sempre amara. É verdade que a traíra algumas vezes, que ela descobrira uma e outras não, mas ela perdoara sempre e retomavam a relação ainda com mais força que antes.
Foi numa dessas alturas que ela se fora. Tinham discutido por causa de uma colega do emprego, a Lurdes, mas fizeram as pazes. Uma vez mais ele tinha prometido que não teria mais nada com ela. Dois dias depois, Eduarda foi-se embora, sem uma palavra; quando ele regressou do emprego, simplesmente todos os vestígios da presença dela haviam desaparecido.
Nos dias seguintes iria aumentar o desespero, à medida que as colegas de trabalho diziam que não a viram e que já não ia ao emprego há uns dias. Por fim, procurou Pedro, que o recebeu com “quatro pedras na mão” e lhe disse que a irmã estava bem. Bem melhor agora, que estava longe de João. Não queria vê-lo mais e pedia que não a procurasse.
Inicialmente, ainda pensou seguir o irmão, ou mandar segui-lo, para perceber onde ela se acoitava, mas depois, o orgulho foi mais forte e achou que ela haveria de voltar. Mas à medida que o tempo se passava, foi-se deixando abater até que um dia, bebido além da conta, foi fazer uma cena à casa de Pedro e acabaram à pancada. A mulher dele chamou a polícia e João foi proibido de se aproximar dele. O orgulho e a vergonha fizeram com que nunca mais a procurasse.
Ao retirar a carta de dentro do sobrescrito parecia sentir já o peso da acusação sobre ele.
A folha estava amarelada e datava de três anos após o ter deixado. Estava escrita a esferográfica azul, naquela caligrafia tão feminina que ela tinha e rezava assim:

11 de abril de 1991
João, meu amor.
Penso que ainda te posso chamar assim, porque, apesar de tudo, o meu amor por ti é que me levou a tomar a atitude que tomei. O problema principal é que tu não consegues ter apenas uma mulher e eu não consigo deixar de te perdoar… e fico a odiar-me por isso.
Cada vez que me olhas com os teus olhos de anjo, me pedes perdão e dizes que não se volta a repetir, eu sei que é apenas um intervalo. Por trás desse olhar doce, há um coração volúvel, que, por muito amor que me tenha, não se consegue preencher só comigo.
Só agora, sem te olhar nos olhos e quase três anos depois, me sinto com coragem para te dizer o que me vai no coração. Temo, porém, que te sintas encorajado a procurar-me e, uma vez mais, me faças cair na teia dos teus encantos, onde eu sei que sou enganada e não me importo. Não o faças por favor.
Casei com um homem bom e companheiro, que não teve qualquer pejo em cuidar do teu filho, como se dele fosse. Sim, eu estava grávida quando me vim embora e agora estou novamente, desta vez deste homem puro, que não me vai trocar por outra na primeira oportunidade.
Foi-me insuportável, depois de me garantires que não tornavas a sair com a Lurdes, eu descobrir, sem querer, que continuavas a fazê-lo. Só que desta vez, não precisei que me dissessem, vi-o com os meus olhos e tens a prova na tua mão.
Recebe um beijo desta que te ama e continua a tua vida, livre das amarras que te prendiam a mim, preenchendo o teu coração com quantas mulheres conseguires.
Sempre com muito amor, Eduarda.

PS: Depois de muito pensar, decidi não te enviar esta mensagem, não quero correr o risco de que me faças destruir este casamento. Talvez um dia me decida a dar-ta, quando já for tarde demais para me quereres, ou eu a ti.

Sentiu-se atordoado com a catadupa de informação que recebera, ela não o deixara porque tinha outro, ou porque não o amava, mas porque sabia que estava a ser traída novamente. A prova em sua mão?!?
Olhou de novo a fotografia mal-enquadrada da bela Eduarda e percebeu que, em segundo plano, ele próprio e Lurdes, beijavam-se, acoitados no umbral de uma porta.



Manuel Amaro Mendonça




quarta-feira, 15 de julho de 2020

Histórias da Minha Aldeia-Concurso de Escrita Criativa




Há Festa na Aldeia | Oficina de escrita criativa | os resultados

A Associação das Aldeias de Portugal propõe uma estratégia de desenvolvimento descentralizada e em rede, procurando sinergias entre a população rural e urbana, sustentada em formas renovadas de valorização do património, reforçando o tecido económico e a capacidade de organização das comunidades, baseada na cultura e no turismo.

Esses são os pilares que servem de base a todas as iniciativas Há Festa na Aldeia.

Na impossibilidade de um trabalho de proximidade, no terreno, a oficina de escrita criativa surgiu neste âmbito e temos muito orgulho em partilhar convosco os resultados. Do trabalho dos cerca de 15 participantes, resultaram 9 contos individuais. Histórias de memórias viva, algumas antigas e esbatidas, outras saídas da imaginação, essa que não tem limites, mas todas enaltecendo o nosso território rural.

Sem mais, anunciamos os três vencedores.
Fabíola Mourinho, Collete Canteiro e Manuel Amaro, os nossos parabéns!

Os contos serão editados em livro e disponibilizados digitalmente.


Aqui está a publicação do resultado de um trabalho que gostei muito de fazer.

Fomos desafiados a escolher uma das aldeias do site Aldeias de Portugal (https://www.aldeiasdeportugal.pt/) e escrever uma história passada nessa aldeia, incluindo na mesma história, a resposta a vários desafios de escrita.

A aldeia que escolhi foi Freixo de Numão (https://www.aldeiasdeportugal.pt/aldeia/freixo-de-numao/) e a história, tratava de um homem que deixou a terra há cinquenta anos, devido a uma situação complicada. O seu regresso em 2020, é acompanhado de um jornalista, a quem ele vai contando o seu passado. 

Por ter sido uma das três escolhidas pelos organizadores, vai ser agora publicada.
Seguem-se um excerto das simpáticas palavras que me foram enviadas pela parte dos responsáveis do concurso:

"Escrevo, com muito gosto, para anunciar que foi um dos vencedores do nosso concurso de escrita criativa, não só pelo cumprimento exemplar dos desafios propostos mas pela excelência dos conteúdos e o cuidado em manter vivo um património tão importante. Muitos parabéns!"





quarta-feira, 10 de junho de 2020

ENTRE O BRANCO E O PRETO - pré-lançamento




Quase três anos depois de "Daqueles Além Marão", estava mais do que na altura de publicar um novo livro. Eis que chega a vez de uma nova antologia de contos a ser lançada no segundo semestre de 2020.
Este livro é uma compilação de contos escritos desde 2016, alguns deles inéditos e outros que vêm sendo publicados em blogues e/ou desafios literários.
Durante cerca de duzentas páginas, irei abordar diversos temas em dezasseis histórias, com personagens por vezes polémicos, mas acima de tudo, humanos. Nós somos as nossas escolhas, mas a vida e as pessoas que nos rodeiam, limitam o número de escolhas que nos estão acessíveis, o que acaba por nos tornar vítimas das circunstâncias.
Veja abaixo a lista dos contos incluídos e uma pequena abordagem a cada uma das histórias.

Uma Casa nas Ruas
Um sem abrigo é um criminoso? Um oportunista sem coração? Venha conhecer Francisco, um dos muitos habitantes das ruas, que fazemos por não ver e que fazem o que for preciso para ter o que necessitam.

A Última Afronta
Qual é o nível de maus tratos e afrontas que se pode estar disposto a suportar? Por vezes, abandonar um cônjuge problemático, pode não ser o suficiente; problemas antigos podem acompanhar-nos e serem muito maiores do que imaginamos. Suportamos mais facilmente a afronta que nos fazem, do que aquela feita àqueles que amamos.

Criminoso
Vagabundo e oportunista, sempre em busca da próxima vítima, mas um dia é da caça e outro o do caçador...

Inácio
O vício, seja ele qual for, é um sorvedouro de dinheiro e está apenas nas mãos do viciado corrigir-se. Tudo se torna mais difícil, se alguém lhe suporta o vício.

Luís e Isabel
Mesmo o amor incondicional tem os seus limites. Luís amava Isabel, mas mesmo ele, podia ter uma fase de saturação. 

Menina Bonita
Uma viagem por outros tempos, numa abordagem quase autobiográfica da infância.

Passagem de Ano
Será que temos a certeza de todas as nossas decisões? Estaremos realmente dispostos a suportar todas as consequências e fazer sofrer aqueles que amamos?

Prioridades
O trabalho ou um hobby, podem ser viciantes mas... estarás a dar atenção àqueles que precisam de ti?

Tudo por Amor
Será que o amor pode justificar todas as ações? Como uma moderna Jezabel, Ângela, de nome enganador, está disposta a tudo, para atingir os seus fins.

Manhã de Domingo
"Depois de ti mais nada" será que é mesmo assim?

Por Cada Dia de Amor
Um convalescente no hospital faz amizade com outro doente, que lhe conta a história de um escultor do século XIX. Uma história, contada dentro de outra. 

A Vida Que Eu Quiser
Será que viver nas ruas é uma infelicidade ou uma opção? A vida não é igual para todos e cada um escolhe o caminho entre aqueles que lhe estão disponíveis.

A Caminhada
O pequeno passeio ao fim do dia de um octogenário, pode afinal ser algo completamente diferente do que se imagina.

Solidão
A solidão da terceira idade, as suas realidades e as daqueles que com eles convivem. 

Um Dia Como os Outros
Para os seguranças e utentes daquele aeroporto, estava-se a começar o que parecia ser um dia como os outros, ambos estavam enganados.

A Última Habitante de Vale Santeiro
Noventa anos, sozinha numa aldeia deserta: a receita para a desertificação no interior do nosso envelhecido país. A emigração, as doenças e a idade, levaram todos os habitantes de Vale Santeiro, exceto um... sozinha entre as casas, que fará quando não conseguir cuidar de si própria?

Aqui está um pequeno aperitivo para este novo livro de contos que apresento aos vossos olhos. Espero que gostem.

Boas leituras, leia autores portugueses e não apenas os clássicos. Dê uma oportunidade aos menos conhecidos. 





sexta-feira, 29 de maio de 2020

Candy

 
Terminei o dia de trabalho. Não queria fazer mais nada, estava saturado, farto!
Arrumei as coisas da secretária para uma gaveta, como se varresse o lixo para debaixo do tapete. Empurrei tudo para o recipiente aberto e encerrei-o em seguida com uma sonora pancada. Despedi-me dos meus companheiros de escritório, de forma seca e ausente e procurei ar puro, com avidez, no exterior do edifício.
Estava já escuro, as pessoas passavam apressadas, embrulhadas em casacos, protegendo-se do vento cortante… como detesto o inverno… sair de casa de noite e regressar de noite.
Desde o início da tarde que o estômago me ardia, num mal-estar permanente; estava assim desde que soube que o meu supervisor chegaria amanhã, para uma reunião especial.
"Mas que raios, quererá ele comigo?" Pensei diversas vezes. "Não me lembro de nenhum problema, nem nenhum erro cometido recentemente. Na certa vamos ter nova vaga de despedimentos e eu vou ser o primeiro." O azedume do estômago aflorava-me à boca.
 Passei a paragem do autocarro e decidi ir a pé para casa, "ruminando" na minha pouca sorte; com duas semanas de separado, o que me estava a faltar era mesmo ser despedido. Joana fora intransigente e impulsiva, como era sempre, aliás. Sem dúvida que, esquecer a Francisca no infantário era muito mau, mas as coisas que Joana me disse, mereceram bem as minhas respostas e aliviaram o meu remorso… agora estavam as duas na casa da minha sogra, para gaudio desta última, a velha viúva azeda que nunca gostou de mim. "Mas se ela acha que vou pedir desculpa por ter dito o que merecia ouvir, que pense melhor!" Resmungava para comigo.
Parei numa pequena tasca e pedi cerveja, "Com Favaios!", acrescentei depois. Foi apenas a primeira, depois veio outra e mais outra, parei nem sei quando. Quando chegou a altura de pagar, nem percebi a quantidade de cervejas que havia na conta, mas achei caro… ou tinha bebido muito.
Sentia-me mesmo embriagado. Hesitava ao evitar os obstáculos, a cabeça estava um pouco confusa e havia um zumbido permanente nos ouvidos, a perturbar-me. Fiquei contente por ter vindo a pé, assim tinha tempo para que "os vapores se dissipassem." Agora que pensava naquilo, ultimamente os meus dias acabavam embriagado, ou quase, mas até aí, fora sempre em casa. Era a primeira vez que bebia tanto, sem ser para se deitar de imediato. "Nota mental: não é bom beber fora de casa, a cama está demasiado longe."
À medida que me afastava do centro da cidade, as ruas estavam com menos transeuntes. Por fim, entrei numa alameda, na qual nunca tinha reparado muito bem, porque quando passava de automóvel ia compenetrado na estrada e se vinha de transporte público, estava demasiado apertado para ter vontade de apreciar a paisagem. Mas a verdade é que havia vivendas bastante bonitas, conseguia-se divisar, mesmo com o tempo escuro e invernal, grandes relvados, para lá dos muros baixos, fazendo realçar a grandiosidade dos edifícios. Gostava de um dia conseguir ter dinheiro para uma casa destas, mas agora com a separação... pensão de alimentos… "Pobre Francisca, minha filha querida, ainda não sabes como a tua vida vai mudar." Este pensamento fez-me limpar uma lágrima.
As frondosas árvores, de ambos os lados da rua, quase não deixavam a fraca luminosidade do fim de tarde chegar ao chão, criando um rendilhado de luz e sombra e retirando o pouco calor dos idos de outubro. Um arrepio percorreu-me a espinha, à medida que entrava naquele frio mundo de sombras.
Ia já a meio da travessia, quando me apercebi de algo que se moveu no jardim onde passava e olhando naquela direção, divisei uma criança envergando um casaco grosso castanho e uma botas de água vermelhas, sobre um pijama cor-de-rosa. Aparentava ter uns cinco ou seis anos e não havia nenhum adulto à vista. O murete do jardim não tinha mais do que uns cinquenta centímetros, facilmente transponível e ela andava a remexer nos grupos de arbustos que enfeitavam o relvado bem cuidado. Senti um aperto no coração ao lembrar que poderia ser Francisca, sensivelmente da mesma idade, sozinha e sem vigilância, tão próxima da estrada e à mercê de estranhos.
— Olá. — A menina apercebera-se da minha presença. — Viste a Candy? É uma gatinha pequenina, toda branca, com uma mancha negra na testa.
— Olá. — Respondi. — Não, não vi, mas uma menina tão pequena não devia estar cá fora sozinha, pois não?
— O papá está a trabalhar, a falar ao telefone e não viu que a Candy fugiu. — O sorriso dela era desarmante. — Eu não o incomodei, a mamã está sempre a dizer para eu não aborrecer o papá quando ele está a trabalhar.
— Já sei como se chama a tua gatinha e tu, como é o teu nome? — Sorri-lhe de volta.
— Chamo-me Lúcia e tu?
— Meu nome é Pedro. Já fugiu há muito, a bichinha? 
— Foi há poucochinho. A porta da cozinha estava aberta e ela fugiu. Foi quando o papá veio deitar o lixo, o telefone tocou e esqueceu-se de fechar.
Como a criança retomou a busca, decidi-me a ajudá-la, afinal não tinha nada melhor para fazer e não havia ninguém à espera em casa. Afadiguei-me a sacudir arbustos e a espreitar os ramos das árvores, na tentativa de divisar a criatura.
— Sabes? — Comecei. — Tenho uma filha mais ou menos da tua idade.
— A sério? — Ela parou para me olhar. — Como se chama? Porque não a trouxeste para nos ajudar a procurar?
— Chama-se Francisca e não a trouxe porque não sabia que ia encontrar uma menina bonita como tu a precisar de ajuda. — Respondi, sem conseguir suster um sorriso.
— A mamã diz que Deus põe as pessoas certas no nosso caminho, quando precisamos delas. — Ela fez uma cara séria enquanto acenava com a cabeça afirmativamente.
— Então achas que Deus me enviou para te ajudar a encontrar a Candy? — Ergui as sobrancelhas interrogativamente. — Ou foste tu que foste enviada para me ajudar de alguma forma?
— Oh, isso já não sei, é muito complicado para mim. — Ela fez uma careta divertida. — O que anda a fazer a tua Francisca?
A pergunta acertou-me de chofre e por uns segundos fiquei "engasgado" sem conseguir responder.
— Ela… Está com a mãe. — Acabei por dizer.
— Com a mãe? Não estão em tua casa? — A argúcia da criança surpreendeu-me.
— Bem, não. A mãe achou que precisava de ter "umas férias" e foi para casa da avó da Francisca. — Ajoelhei frente a ela para ficarmos cara-a-cara.
— Isso não é bom! — Lúcia arregalou os olhos numa expressão mista de espanto e seriedade. — A Francisca deve estar muito triste por não te ver, eu ficava de certeza, se estivesse longe do meu papá. Devias ir buscá-la, já, já para o pé de ti, dar-lhe muitos beijinhos e pedir desculpa por teres deixado que a levassem embora. — Quase não conseguia suster as lágrimas perante a reprimenda da criança, mas ela não se deteve. — O meu papá passa muito tempo ao telefone e a mamã ralha muito com ele, mas eu não gosto que eles discutam. Por vezes, ele está a falar com os clientes, mas tem sempre um sorriso e uma festinha para me dar.
Virei o rosto para o lado, para ocultar uma gota teimosa, que se escapava pelo canto do olho. Revia ali a minha história, pela voz de uma criança.
— A vida não é assim fácil, minha querida. — Fiz-lhe uma festa no rosto suave e infantil que fitava atentamente o meu, triste e envelhecido. — Muitas vezes deixamos que o nosso emprego se coloque acima do que é realmente importante e ao fim e ao cabo, o trabalho só nos traz desilusões.
— Vai correr tudo bem, vais ver! — Ela fez um sorriso radioso. — Fala com a mamã da Francisca, se estiverem todos juntos, tudo o resto vai correr bem! — No mesmo segundo, retomou a sua busca, indiferente à comoção que me causara. 
Eu continuei de joelhos no relvado, pensativo. 
— Acho que ela não está aqui. Terá fugido para o outro lado da rua? — A criança perguntou em voz alta.
— Não. — Respondi alarmado, enquanto limpava as lágrimas à manga do casaco. — Não deves atravessar a rua sem a mamã ou o papá. Eu vou tocar a campainha e digo que é preciso ir procurar do outro lado.
— Espera. — Ela começou a correr, através de uma sebe lateral, para as traseiras da casa. — O papá está a trabalhar, não o incomodes, eu vou ver se a Candy já voltou, se não, digo ao papá que vou procurar na casa da vizinha.
Passaram-se longos minutos sem qualquer atividade. As luzes no interior da casa continuavam com a mesma tonalidade, sem aspeto de serem ligadas outras ou apagadas aquelas. Debati-me um pouco com a intenção de tocar à campainha ou espreitar as traseiras da vivenda, mas acabei por concluir que a gata já deveria estar em casa e que a criança se esquecera de mim, entretida a brincar com a amiga.
  Retomei o regresso a casa, com os vapores do álcool quase completamente dissipados. Peguei no telemóvel, marquei um número, por demais gravado na minha cabeça e aguardei, enquanto me torturava mentalmente: "Nem sequer vai atender".
— Estou? — A voz de Joana ecoou, triste, no meu ouvido.
— Olá querida, como tens andado? Como está a nossa menina? Sinto muito a vossa falta, sabes? — Inquiri, com as lágrimas novamente a assomar aos olhos.
Percorri o resto do escuro caminho a falar com ela, a minha esposa, mulher que eu escolhi e mãe da minha filha, que eu nunca deveria ter deixado que se afastassem de mim. Choramos ambos ao telefone, pedimos desculpa, lamentamos o que estávamos a fazer a nós e à doce Francisca. Naquela mesma noite peguei no carro e fui buscá-las para a casa de onde nunca deveriam ter saído e foi um dos episódios mais felizes de toda a minha vida.
Também o dia seguinte tinha boas novidades: a temida reunião, era para me aumentar e dar novas responsabilidades, uma progressão na carreira… a pequena Lúcia tinha razão, assim que estivéssemos juntos, tudo ficaria bem.
No fim do expediente, regressei pelo mesmo caminho do dia anterior e entrei na sombria alameda. Nem parecia a mesma do outro fim de tarde, muito mais luminosa, com alguns automóveis estacionados e pessoas a circular nos passeios.
Consegui chegar à casa de Lúcia, que identifiquei facilmente pelo alpendre e as sebes baixas que separavam o relvado do passeio. Uma senhora rondando os quarenta anos, aparava a sebe com uma tesoura de poda.
— Boa tarde — Saudei a mulher, que me olhou com curiosidade antes de responder à saudação. — A senhora deve ser a mãe da Lúcia, suponho.
— Sim. — Confirmou ela demonstrando suspeição. — Quem quer saber?
— Desculpe-me o abuso, meu nome é Pedro e conheci a sua filha, criança maravilhosa. — A mulher franziu o sobrolho. — Ela disse-me coisas fantásticas e eu queria agradecer, pois tudo o que me disse foi realidade. É verdade, quase me esquecia, a Candy apareceu?
— Candy?!? — Ela corou e, com os olhos húmidos, gritou-me. — Quem é você? Que quer daqui? Desapareça!
— Como?!? — Estupefacto com a expulsão e sem saber como reagir, obedeci, afastando-me. — Está bem, desculpe, mas não entendo o motivo para se ter ofendido.
Olhei por cima do ombro algumas vezes, enquanto me afastava, ela estava parada, a vigiar os meus passos.
— Espere! — Gritou-me. — Volte, por favor. Desculpe-me, quero fazer-lhe uma pergunta.
Regressei, mas mantive-me a uma distância segura, enquanto ela, sem largar a enorme tesoura de poda, me avaliou com o olhar.
— Quando conheceu a minha filha? — Interrogou.
— Ontem à noite, quando regressava a casa do emprego. — Respondi prontamente.
— Era a minha filha, a Lúcia? — A mulher não acreditava.
— Não sei se era sua filha, estava neste jardim, disse que esse era o nome dela e, quando foi embora, foi por aquela passagem na sebe para as traseiras dessa casa. — Assegurei.
Contei tudo o que se tinha passado, a nossa conversa enquanto procurávamos a gatinha Candy, que nunca cheguei a ver e descrevi a forma como a menina estava vestida.
A mulher, que desde o reinício da nossa conversa mantinha uma mão sobre a boca, moveu-a para os olhos e explodiu num pranto.
Cada vez mais atrapalhado, não sabia como reagir e aproximei e afastei várias vezes a mão, indeciso se a deveria ou não tentar acalmar. Não foi preciso, no entanto, pois ela conseguiu dominar-se sozinha.
— A minha filha Lúcia, morreu há três anos, aqui mesmo em frente à porta, vestida da forma como me descreveu. Foi atropelada, quando saiu de casa, sem que o meu marido se apercebesse, atrás da gatinha que lhe déramos no aniversário. — A mulher pareceu ter envelhecido vários anos, com o choro e o soluçar que lhe afrontavam o peito. — Não sei quem você é, se está a falar verdade, se é um mentiroso ou um pervertido, que vem com intenções escusas, mas acredito que a minha menina ainda anda por aí, perto de mim. O cheiro dela nunca desapareceu do quarto e por vezes acho que a ouço cantarolar, ou rir no jardim.
— Lamento, minha senhora, não sabia… não percebo… — Tentei desculpar-me, completamente confundido.
— De qualquer modo, — Ela não se deixou interromper. — gosto da ideia de ela ter sido um anjo, que Deus me emprestou por algum tempo e agora anda por aí a fazer o bem. Se está a falar verdade, fico feliz, se está a mentir, não quero saber. De ambas as formas, peço-lhe que se vá embora, respeite a minha dor e não volte mais. — Com isto virou-me as costas e saiu do relvado pela mesma passagem utilizada por Lúcia no dia anterior.
Ainda hoje, muitos anos depois, não sei exatamente o que se passou naquele fim de tarde, quem era aquela criança que encontrei, à procura de uma gatinha que não cheguei a ver. Mas cada vez que penso nisso e, abraçado a Joana, vejo a minha Francisca crescer feliz e saudável, não posso deixar de acreditar que Lúcia era mesmo um anjo que Deus trouxe ao meu caminho, para me levar a fazer o que era correto.




sexta-feira, 8 de maio de 2020

A minha primeira "distinção literária"

Rua da Mainça e a escola Dr. Francisco Godinho de Faria em São Mamede de Infesta (possivelmente década de 1980)

Há uns dias, a remexer em livros antigos, (coisas do confinamento) deparei com a minha primeira "distinção literária", o que me trouxe à memória um conjunto de recordações da infância em São Mamede de Infesta, onde nasci e me criei.
Assim que terminei os quatro anos da Escola Primária,  ingressei no 1º ano do Ensino Preparatório, numa escola acabada de construir, no lugar da Mainça. Corria o ano de 1975 e a Revolução dos Cravos, que alterou a forma de viver e pensar dos portugueses, tinha acontecido há apenas um ano.
A Escola Preparatória Dr. Francisco Godinho de Faria, estava destinada a ser apenas do ciclo preparatório (1º e 2º anos), mas acabou por, mais tarde, incluir todo o ensino até ao 9º de escolaridade do Ensino Unificado, ou 5º do secundário. Era um conjunto de edifícios pré-fabricados instalados nos socalcos do terreno, numa encosta que descia das traseiras das casas da Avenida da Pedra Verde, a zona “chique” da freguesia.
Avenida da Pedra Verde na atualidade

Demorava cerca de meia hora a pé para chegar à escola, desde a minha casa na rua Henrique Bravo, próximo da rua das Laranjeiras. O dinheiro não era muito e se pudéssemos poupar o bilhete do autocarro, era muito bom… A revolução de Abril tinha trazido liberdade, mas pouca prosperidade e, se antes o meu pai não tinha benefícios sociais porque era patrão, agora, além de continuar a não os ter, era odiado, porque a febre comunista ditava que todos os patrões eram maus… mesmo aqueles que, por vezes, não conseguiam trazer o ordenado inteiro, para ter com que pagar o dos funcionários. Para nós, crianças, isso era pouco significativo, a caminhada para a escola era uma forma de conversar e brincar com os companheiros que se nos iam reunindo no trajecto.
Foi nessa escola que tive a honra de conhecer grandes professores de História, como a Nídia Maria e a mais famosa de todas, Maria Manuela Moreira de Sá, que mais tarde daria o seu nome à escola, que foi a sucessora dessa onde eu estudava na altura.
Destinada a ser de carácter temporário, desde a sua inauguração em 1974, até aos últimos meses de 1991, foram dezassete anos de crianças formadas num ambiente único que ainda hoje me deixa muitas saudades. Os seus pavilhões prefabricados, aqui e ali, nos diversos socalcos do terreno, os taludes que serviam de escorrega e que nos sujavam as roupas, as escadas de cimento, percorridas em velocidade pela criançada. A toda a volta, os muros feitos de placas de betão e, por recreio, o enorme campo de jogos, que mais não era do que um terreiro, sem balizas sequer e que tinha, aqui e ali, grandes goelas provocadas pela chuva, que os miúdos aproveitavam como trincheiras para "jogar às pedradas" uns com os outros. A biblioteca onde, mais do que livros de estudo, muitos episódios do Luky Luke, do Asterix e do Tintin preencheram os meus tempos livres.

Infelizmente, não tenho nenhum registo fotográfico daquela época.
Estas fotografias são simplesmente ilustrativas e retiradas de um grupo do Facebook de antigos alunos da escola.
No "meu tempo" as fotos eram a preto e branco e havia poucas máquinas fotográficas.
 
A escola foi demolida algures na década de noventa do século passado e tenho pena de não ter guardado um tempo para tirar umas fotografias a um pedaço da minha vida que desapareceu para sempre. A rua da Mainça, tem agora um aspeto diferente e urbano, não há multidões de crianças alegres e ruidosas a percorrê-la, mas é ainda vigiada pela capela de São Félix (à esquerda), que a atrás referida doutora Manuela Moreira de Sá, em conjunto com os seus alunos, nos quais eu estava incluído, foi responsável pela recuperação.

A rua da Mainça, antes e depois.

Mas não é para lembrar esses anos maravilhosos, que criei esta publicação, mas sim para falar do meu eterno gosto pela escrita. Desde que me lembro, que gosto de escrever e perdi durante a vida, muitas páginas de histórias, fruto da minha imaginação e poemas escritos às "mulheres da minha vida". Houve até um caso em que, em conjunto com uma amiga, fizemos uma história, que eram cartas imaginadas, que escrevíamos um ao outro... que delícia deviam ser agora, se as tivesse conservado.
 Foi porém um outro acontecimento, que marcou a minha vida para sempre:
Um certo dia, a "stora" Teresa, de português, teve a ideia de fazer um pequeno concurso de escrita onde ofereceria um livro ao vencedor. Acabaram por ser, não um, mas três, os concursos, dada a alegria com que a pequenada abraçou a tarefa. Para minha desilusão, não fiquei em primeiro em nenhum deles. Nos três concursos, fiquei sempre em segundo ou terceiro, apesar de o primeiro lugar ter sido sempre ocupado por colegas diferentes. A professora achou que eu deveria ter direito a uma distinção também e no dia seguinte, presenteou-me com este livro, que aqui podem ver digitalizado.
Uma prenda com quarenta e três anos, de que muito me orgulho e guardo com muito carinho.














quarta-feira, 29 de abril de 2020

A Vida Que Eu Quero


Cabelo comprido, desgrenhado e barba de vários dias, com passos inseguros, o homem arrastou-se pelo meio da esplanada. Aparentava uns sessenta anos e envergava um blusão bege sovado e umas calças de ganga, que já tinham conhecido melhores dias, terminando numas sapatilhas de pano, sujas e rasgadas. Para dar um pouco de dignidade, trazia debaixo do braço um jornal, dobrado, como se o fosse ler.
O empregado do café reconheceu-o e deixou-o passar pela sua frente, após o qual exibiu uma careta mista de tristeza e desprezo, acenando negativamente com a cabeça.
O vagabundo dirigiu-se ao funcionário que se encontrava na caixa, atrás do balcão, que exibiu uma expressão contristada, assim que se apercebeu da sua presença.
— Bom dia senhor António. — Entaramelou o recém-chegado, em ar de gozo, demonstrando uma clara embriaguez. — Ainda tens os jornais de ontem?
— Boa tarde, senhor Fernando. — Corrigiu-o o outro, que aparentava uns trinta anos, baixo, de cabelo curto. No rosto simpático, os olhos pequenos, fitavam o interlocutor com preocupação, respondendo ao cumprimento com a formalidade, que não era obviamente usual.
— Ou isso. — O outro não se preocupou, rematando rapidamente. — Para mim, bom dia ou boa tarde, o que interessa é que seja bom e bom, é poder ter qualquer coisita com que forrar o estômago.
— Não comeste nada ainda? São quase cinco da tarde… — Novamente a expressão de preocupação. — Mas para beber havia…
— Oras! Era o restito de uma garrafosa que me deram ontem, que ajudei a descarregar um camião. — Riu-se o Fernando, levando a mão às costas. — Hoje estou aqui que não posso das cruzes.
— Não te pagaram? — António surpreendeu-se.
— Pagaram pois! — O outro escandalizou-se. — Não te disse que me deram uma garrafa de tinto? Isso e duas latas de atum, a larica é que era muita e dei cabo de tudo à noite.
— Valha-te Deus! — Havia lágrimas nos olhos do mais jovem.
— Que queres que faça? — Justificou-se o mais velho. — O pessoal agora põe o papel todo no papelão, ninguém dá nada para recolher, tenho de correr quilómetros à cata. O sovina do farrapeiro anda a chular-me e cada vez paga menos, além de que acho que a balança está aldrabada.
— Vem. Anda a comer alguma coisa. — António abriu o balcão, para que o outro entrasse para a cozinha.
Enquanto o vagabundo se sentava à mesa, onde normalmente se preparavam as refeições, o outro deu instruções à cozinheira para que preparasse um prego em prato “bem abonado” e trouxesse uma bebida qualquer sem álcool. Depois sentou-se frente ao convidado, ignorando os resmungos da mulher.
 — Mas arranjas os jornais ou não? — Insistiu Fernando, apesar de estar já pronto para comer. — É que se não, tenho de ir à minha vida, procurar noutro lado.
— Sim, tenho ali muitos jornais, acalma-te. — Sossegou-o o mais novo. — Então agora andas ao papel, é?
— Tem de ser! Um gajo tem quem de ganhar a vida, não é? — Afirmou Fernando, convicto.
— É assim que ganhas a vida? Dá para comer?
— Assim, assim. — O velho encolheu os ombros. — É mais para o tabaquito e uns copos, aqui e ali. Comer, normalmente é à noite, quando vem o pessoal da ajuda de rua; uma sopita quente, uma carnita e uns iogurtes. Dá para o gasto. Dantes, andava a pedir, ou a arrumar carros, mas andava sempre com chatices, havia gajos que assaltavam ou riscavam os carros que eu devia estar a guardar e se eu chiava, ainda lerpava por cima. O lixo é mais seguro, embora não possas mostrar que tens guito, nem trazer muito papel junto, ou vem por aí algum cabrão e leva-to.
A cozinheira pousou o prato fumegante na frente do homem, que atacou o manjar com unhas e dentes, enquanto ela se deixou ficar em pé, junto dos dois.
— Ontem, como me emborrachei, — disse com a boca cheia, — esqueci-me da sopa e prontos, lerpei.
— E onde dormes? — Intrometeu-se a cozinheira.
— Por aí! — A refeição desaparecia sofregamente, mas ele não deixava de responder ao interrogatório. — Antes dormia numa casa abandonada, mas deitaram-na abaixo. Fico normalmente na antiga mercearia do Silveira, que está vazia há muitos anos.
— Porque não fazes o que eu te disse já tantas vezes? — Os olhos de António reluziam e sentiam-se os dentes cerrados com força por trás dos lábios finos.
— Nããã! — Recusou o outro. — Que vou fazer agora, da maneira que estou? Já viste o meu aspeto?
— O aspeto pode ser composto.
— Tenho vergonha, não percebes? — Com o prato vazio, o vagabundo impacientava-se. — Que vou fazer agora para casa, para uma família a que não pertenço? Velho, desdentado… derrotado! Vai buscar os meus jornais, que tenho mais o que fazer!
Com as lágrimas nos olhos, António afastou-se, a saber dos jornais.
— A minha vida é esta! Estavam cheios de mim no trabalho, mandaram-me embora, velho de mais para me empregar, novo demais para a reforma, que querias que fizesse? — Reafirmou Fernando, perante a expressão de desaprovação da cozinheira. — Ir para casa viver de subsídios, ou ouvir piadas de que sem o filho não sou nada? Há quatro anos que vivo nas ruas e safo-me bem! Quero lá eu saber de casas cheias de regras e mulheres mandonas! Sempre fui senhor de mim e ganhei o meu sustento! Em mim, mando eu!
— Pelo menos enquanto te derem de comer e não precisares que cuidem de ti! — Exclamou com desprezo a mulher, empurrando-lhe um saco plástico, com duas sandes, para debaixo do braço.
Sem recusar a oferta, o velho saiu da cozinha para a entrada do café, onde recebeu o embrulho com jornais amarrotados.
— Obrigado pela comida! — Atirou Fernando, afastando-se a cambalear.
A cozinheira materializou-se ao lado de António e abraçou-o com carinho, ao ver as grossas lágrimas que lhe corriam pelo rosto. Ele, estático, com a visão do sem-abrigo a afastar-se, moveu os lábios, num sussurro: “Até à próxima, pai.”



terça-feira, 14 de abril de 2020

Heranças - Novo trabalho dos Pentautores


Porque aqueles que amam a escrita nunca estão parados, aqui está mais um novo trabalho dos Pentautores.
Desta vez, Ana Paula Barbosa, Carlos Arinto, Jorge Santos, Manuel Amaro Mendonça e Suzete Fraga, convidaram para reforço desta edição, um outro autor cujos escritos têm despertado o interesse e a admiração de muitos leitores: Fernando Morgado.

Passo a transcrever um excerto das palavras de Fernando Morgado, publicadas no prefácio desta obra:


"Não há presente sem passado e o futuro não acontecerá sem estes dois estádios de vida. Dito isto com a erudição que nem La Palice inventaria, volto à praça da vida para confirmar esta certeza: é a memória que nos liga aos outros e a nós mesmos, é a memória que nos justifica em tantos momentos, é a memória dos sonhos e dos desafios que nos faz continuar."

É realmente este o mote incluído neste novo livro: as heranças que recebemos, dos antepassados, das pessoas com quem convivemos, ou simplesmente da própria vida. Boas ou más, dolorosas ou divertidas, materiais ou genéticas, são essas pequenas peças que fazem de nós a pessoa que somos.

Venha conhecer as heranças dos Pentautores e ver como elas moldaram histórias e personagens.


Grupo Pentautores