Debaixo dos Céus Os Mundos de Manuel Amaro Mendonça

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Uma Casa nas Ruas - 8ª e última parte

KARMA


A inesperada “herança”, de perto de cinco mil euros, que o Vesgo escondera, foi uma verdadeira dádiva de para para os dois amigos. Foram, de “carro de praça”, a Castro Daire comprar roupas, comida e os tão necessários medicamentos para o Zé. Puderam também fazer algumas reparações na casa, sempre acompanhados de perto pelo “passarão” que não os abandonava, vigiando de perto os seus movimentos e assobiando as suas “canções” para os distrair.
Animada com a transformação de Xico, Maria Alice chamava frequentemente a dupla para almoçar e, por vezes, pedia-lhes ajuda para cuidar do gado, vacas e porcos,  que, junto com um pequeno pomar, eram a sua fonte de rendimento.
Estava-se no fim de Outubro. O dia passara dominado por um sol inusitado, enquanto ajudaram no embarque de alguns bovinos para o matadouro. Terminaram a jantar em casa da proprietária e após isso, a ti Joana, a velha matriarca, ficou-se a ressonar mansamente no cadeirão, em frente à televisão, enquanto Zé e Daniel brincavam com os dois gatos da casa. Xico e Maria Alice vieram para a varanda das traseiras da casa, debruçada sobre a propriedade. Depois do dia quente, a noite estava fresca, embora bem iluminada por uma lua de prata, que ofuscava as estrelas do céu de veludo negro, sem nuvens.
—    Foi um bom dia da trabalho! — Afirmou ele, quase que de si para si, olhando para a noite, onde se distinguia, quase no horizonte, o clarão das luzes da vila.
—    Sim. — Ela concordou, encostando-se ao pilar da varanda, ao lado dele. — Se não fosse a vossa ajuda, não conseguiríamos embarcar tudo agora de tarde. Estou-vos muito agradecida. Acho mal que não queiram receber pelo trabalho.
—    Estás maluquinha? — Ele levou o copo de aguardente velha à boca, antes de continuar. — Depois de tudo o que tens feito por nós? Sempre a mandar comida e a convidar-nos?
—    Mas a vossa ajuda tem sido muito importante. Desde que, um dos homens que tinha a cuidar dos animais emigrou, os dois restantes queixam-se de muito trabalho e um deles tem faltado muitas vezes. — Alice inclinou-se sobre a balaustrada.
Xico apreciou longamente o corpo bem proporcionado da amiga, respeitando o silêncio dela, que olhava fixamente as sobras fora da área iluminada pela casa.
—    Estive já para vender os bovinos todos. — Continuou ela. — A morte do meu marido trouxe-me muito trabalho, mas fui aguentando. A emigração levou-me um empregado, mas não tarda leva-me outro. Na aldeia só há velhos e na vila ninguém quer trabalhar aqui. Agora, com a crise, compra-se menos e mais barato, mandar vir gente de longe, torna-se incomportável.
—    Mesmo assim, tens feito um excelente trabalho. — Reconheceu ele, olhando-a no olhos enquanto ela se endireitava. - É uma pena desistir.
—    Eu não quero desistir. Até quero comprar mais. O senhor Duarte tem mais uma dezena de vacas e um touro que quer vender. Quer reformar-se, os filhos estão para fora e não querem saber de nada.
—    Ele quer muito dinheiro?
—    O dinheiro nem é o problema principal. — Alice devolveu-lhe o olhar, com intensidade. — Embora também tenha que ser considerado. O problema é o pessoal, o que me leva… — Baixou os olhos e tornou a voltar-se para a escuridão, enquanto retorcia uma ponta da fralda da camisa, com os dedos finos mas fortes.
—    … que te leva a pedir-nos ajuda. — Concluiu Xico, esgotando o copo de uma golada. — Queres contratar-nos.
—    Mais do que ajuda. — Ela tornou a voltar-se para ele e tirou-lhe o copo da mão, com que ele brincava perigosamente e pousou-o na pedra da balaustrada. — Quero que sejas meu sócio.
O convite apanhou-o de surpresa e o seu rosto não conseguiu esconde-lo.
—    Não te agrada a ideia? — Ela corou, enquanto ele pegava de novo no copo e retomava os malabarismos com o pé entre os dedos. — Entravas com algum dinheiro para a compra da nova manada e passavas a trabalhar em tempo inteiro na quinta. Tu e o Zé, que foi uma agradável surpresa ver tudo o que consegue trabalhar, apesar das limitações.
Os olhos dele, fitava-na, vazios. Olhava-a, mas o seu pensamento estava longe. Brincava com o copo, mas tardava em responder. Irritada, ela tornou a tirar-lho e a pousa-lo novamente.
—    Não tens nada a dizer? — Começava a arrepender-se da proposta, que por alguma razão, parecia não lhe agradar. — Não queres, pronto, deixa! Faz de conta que eu não disse nada!
Desconcertado, ele volveu os olhos para o chão e reatou a “brincadeira” com o copo. O rosto estava corado e parecia ter dificuldade em respirar.
—    Nunca tive nada realmente meu. — Falou por fim, com os olhos húmidos. — A minha pobre mãe ficaria orgulhosa... o que eu a fiz sofrer.
—    Oh, meu pobre querido. — Ela tirou-lhe o copo das mãos e arremessou-o para a escuridão. Depois abraçou-o e beijaram-se demoradamente.
Não muito longe dali, um melro assobiava uma melodia feliz.
O negócio foi de vento em popa e em breve acabaram por se mudarem para a casa de Alice, maior e com melhores condições. Apenas um ano depois de regressar a Pepim, Xico passara de um vagabundo das ruas para um proprietário de sucesso. As pessoas que o olhavam com desprezo, agora pensavam melhor nas suas atitudes e até a mulher do Manuel da mercearia parecia simpática.
A única nuvem negra na sua nova vida, foi o dia em que um BMW preto chegou à aldeia e parou em frente à casa onde ele nasceu. Uma mulher jovem e bonita saiu e dirigiu-se à porta. Xico correu.
—    Menina, posso ajuda-la? — Ele apreciou o corpo bem feito, cabelo comprido negro, blusa vermelha e saia preta, com sapatos de tacão alto.
—    Xico? — O rosto moreno dela olhava-o com curiosidade.
—    Desculpe, eu… não… Luísa? — Arregalou os olhos, de espanto.
—    Sim, é verdade. — Confirmou ela sem sorrir. — Sou mesmo eu, a tua irmã.
—    Estás linda! — Ele estava sem saber como reagir. — Eras uma menina…
—    Sim, era uma menina. — A boca dela torceu-se num esgar de desagrado. — Uma menina que tu deixaste junto com a nossa mãe, sem dinheiro e com a vergonha dos roubos que cometeste.
—    Sim, tens razão. — Ele baixou os olhos. — Agi mal, peço-te que me perdoes.
—    Perdoar, eu? — Os olhos brilhavam de raiva. — Quem tem que te perdoar já não pertence a este mundo. Eu não tenho que te perdoar nada porque nem sei quem és. Telefonaram-me a dizer-me que estavas cá e eu não acreditei no teu desplante, tive que ver com os meus olhos.
—    Não fiques com raiva de mim, Luísa. Eu mudei, já não sou o mesmo canalha que fazia aquelas barbaridades.
—    Eu não sei quem tu és! O meu irmão morreu há muito tempo! Morreu, no dia em que se foi embora, morreu, cada vez que uma vizinha vinha reclamar que foi roubada, morreu, cada vez que nos faltou a comida no prato porque o dinheiro era pouco para tapar as vergonhas que nos deixaste… — Gotas, como pérolas, corriam no rosto belo. — … morreu, em cada lágrima que a nossa mãe verteu por ti, apesar de todo o mal que lhe fizeste. Mesmo assim, conseguiu o suficiente para eu acabar o curso… morreu cedo, porque tu acabaste com ela.
—    Eu agi muito mal, irmã, eu sei. — Ele tinha os olhos rasos de água. — Diz-me o que posso fazer para te compensar.
—    Nunca poderás compensar-me!  — Luísa espetou o indicador na direção dele. — Formei-me enfermeira e casei com um médico, não me falta nada, não preciso de ti para nada… agora. Achavas que aparecias agora, pedias desculpa e um raio divino descia dos céus e perdoaria tudo o que fizeste e comporia toda a dor que aqui deixaste? As coisas não funcionam assim, Deus é grande e ainda hás-de pagar pelo mal que nos fizeste. Já não és meu irmão, porque ele morreu há muito tempo, és apenas um vagabundo que arrombou a MINHA casa.
—    Tua casa? A casa era da mãe, é nossa. — Protestou fracamente.
—    Não sei quem és, para mim és um intruso! Não quero ter nada a ver contigo, na hora em que decidires roubar mais dois ou três vizinhos. Abandonaste-a, não tens mais direito a esta casa, sai ou mando cá a policia expulsar-te!
Voltou-lhe as costas, decidida, mas com as lágrimas a correr no rosto, entrou no carro e arrancou violentamente.
Maria Alice como que se materializou ao lado dele e agarrou-lhe um braço, enquanto sussurrava suavemente:
—    Deixa lá. A minha casa é a tua casa, não precisas dessa. Não te deixes abater, ela está muito magoada e tem a sua razão… perdoa-lhe… pode ser que um dia ela consiga fazê-lo para contigo também.
 Depois da dor inicial, acabou por esquecer e perdoar o facto da irmã o não conseguir.
Com o tempo, a árdua vida de trabalho, aliada ao doce convívio com Alice e o filho, a amizade do Zé e do Manel, começou a produzir efeitos e a apagar gradualmente as memórias dos maus tempos nas ruas do Porto, que pareciam afinal, vividas por uma outra pessoa.
Beneficiando do abandono das terras e da desertificação da aldeia, comprou mais terrenos e escreveu à irmã para que fizesse um preço sobre a casa dos pais. A resposta nunca chegou.
Maria Alice estava grávida, ao fazer dois anos do regresso de Xico. Tinham mais funcionários e ele via-se obrigado a circular entre as propriedades, não se demorando muito em nenhuma. Possuíam já umas boas centenas de cabeças de gado bovino, caprino e suídeo. Estava a revelar-se um bom gestor e multiplicara muitas vezes o património obtido de forma pouco honesta.
Um dia, regressava de supervisionar a tosquia das ovelhas, quando viu o jipe da GNR parado em frente da casa de sua mãe e dirigiu-se para lá. Maria Alice, com a sua barriga de fim de gravidez, gesticulava para dois guardas, enquanto Zé tentava acalma-la, segurando-lhe um braço.
Xico acelerou e parou o seu jipe mesmo ao lado do da força de segurança e saiu de rompante.
—    Que se passa aqui? — Perguntou cheio de autoridade, correndo para o grupo.
—    Não venhas, Xico, foge! — Alice chorava e gritou para ele assim que o viu.
—    Francisco Soares? — Um dos guardas acorreu a cortar-lhe o caminho para a viatura, postando-se frente a ele, com a mão no coldre da pistola. — Está detido como suspeito do homicídio de António Ferreira, também conhecido como Tone Vesgo.




****** FIM ******




 

7 - Criar Raízes
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sexta-feira, 13 de abril de 2018

Uma Casa nas Ruas - 7ª parte


CRIAR RAÍZES


Xico aproximou-se olhou demoradamente o amigo, antes de lhe dar um abraço. As mãos e o rosto foram bastante maltratados pelas chamas e uma parte do cabelo e da sobrancelha de um dos lados havia desaparecido.
Sentaram-se no tanque de pedra onde a sua mãe tantas vezes lavou e conversaram animadamente sobre as patifarias de infância e juventude, até chegarem às recordações mais recentes e traumáticas, longe um do outro. A história do Zé ferreiro, chamado assim porque trabalhava na serralharia com o pai, era terrível: depois da morte dele, mudou-se com a mulher para junto da mãe, sobre a pequena oficina onde trabalhou desde pequeno e que era o seu ganha pão. A vida corria-lhe bem, até que uma noite, um curto circuito pegou fogo à instalação elétrica antiga e todo o edifício foi consumido pelas chamas. Os vizinhos retiraram a família toda do incêndio, mas para a mãe, a mulher e a filha era tarde demais. Adormecidos, uns sufocaram pelo fumo e outros sucumbiram às queimaduras. Depois de uma longa estadia no hospital, regressou para as ruínas da casa. O dinheiro do seguro, feito pelos valores mínimos, mal cobriu os tratamentos e permite-lhe uma reforma miserável. Não pode trabalhar porque esquece-se do que está a fazer e por vezes fica completamente confundido, além de ter perdido três dedos da mão esquerda. Foi Maria da Luz, a mãe de Xico, quem lhe matou a fome muitas vezes e chegou mesmo a dormir ali, na velha loja onde Xico dormira. Quando ela adoeceu, Zé tomou conta dela, como pode, até que ela própria adoeceu e foi para o hospital onde morreu.
Ficaram os dois calados a olhar o chão, pensando coisas diferentes.
O melro voltou, pousou a poucos metros dos dois amigos e assobiou uma das árias típicas da espécie, terminando com o que parecia uma pequena gargalhada.
Já andas aí outra vez? — Exclamou Xico, contrariado.
Esse passarão já anda para aí há uns dias. — Informou o amigo.
Passarão? — Olhou a ave, com intensidade, antes de soltar um sorriso. — Não pode ser.
O pássaro saltou num voo rodopiante em volta dele enquanto soltava o seu típico gargalhar até pousar num dos esteios da vinha, onde via tudo o que se passava.
Parece que o bicho gosta de ti! — Riu José.
Xico ergueu-se, mirou e remirou a ave, que lhe devolveu um olhar curioso, ora com um olho, ora com o outro. Novamente a gargalhada trocista.
Não pode ser! — Reafirmou Xico, afastando a ideia com um gesto. — Não podes ser o passarão!
Como que percebendo, o pássaro lançou-se no ares, assobiando numa alegria própria e depois de mais uma volta aos dois amigos, afastou-se num voo rápido.
Que estás a pensar? — Zé estava curioso.
Achei engraçado… teres chamado passarão ao bicho.
Então não é? Não achas que é demasiado gordo para um melro?
Sim… gordo e bem disposto… — Um sorriso misto de tristeza e saudades formou-se-lhe nos lábios.
Estava assim formada a equipa que ajudaria Xico a começar do zero, após uma longa fase, mal pensada e desperdiçada da vida. Não mais o Zé ferreiro o deixou, passando a partilhar a casa com o amigo e ajudando em todas as tarefas de recuperação, do terreno e da casa. O melro era visita constante, ao ponto de já se aproximar deles e comer as migalhas, que lhe deixavam ao alcance da mão, deixando-se até tocar por uns segundos, antes de se afastar rapidamente. Nem Maria Alice deixou que o seu contacto se limitasse à cedência de umas quantas sementes e convidou a dupla para jantar algumas vezes, na casa que partilhava com a mãe, que estava senil e o filho Daniel, com cerca de dez anos.
Xico estava a começar a ambientar-se e a sua velha vida parecia já quase esquecida, embora por vezes, nas fases críticas de Zé, em que o amigo parecia uma autómato que mal sabia quem era, dava consigo a perguntar-se que tipo de magnetismo teria ele para atrair os desmiolados.
Frequentemente reuniam-se na mercearia do Manuel e a noite estendia-se longa… e alcoolizada, apesar das discussões e interrupções frequentes da mulher deste. Inevitavelmente, acabou-se o dinheiro e a magra pensão do Zé teve que dar para ambos; “Nem eu admitia de outra forma”, exclamou este, face à fraca oposição de Xico.
 Uma noite, acabados de comer a sopa que a Maria Alice deixara ao almoço, Zé estava um pouco atordoado e com dores, fruto da falta dos medicamentos para os quais começava a não haver dinheiro. Emborcando o resto do vinho que havia na garrafa, Xico assegurou-lhe que amanhã pediria uns euros emprestados ao Manuel e iria a castro Daire buscar os medicamentos. Podia pagar com algumas entregas de mercearia, só precisava de o convencer a fazê-lo sem que a mulher soubesse.
Agoniado, Zé levantou-se da mesa e cambaleou na direção do quarto mas, imediatamente antes de abandonar a cozinha, desequilibrou-se e caiu pesadamente, agarrado a um dos vários casacos pendurados. A madeira apodrecida do cabide cedeu e ele terminou enrolado numa bola de tecido, imóvel.
Raios partam! — Exclamou Xico ao erguer-se para ajudar o amigo caído. — Que se passa aí? Queres estragar-me a casa? Depois de tanto trabalho a recupera-la?
Ele próprio cambaleou, mas a causa era outra, em vez de falta de medicamentos, havia “medicamento” a mais. Mesmo assim, ajudou Zé a erguer-se do meio da roupa que estava amontoada no cabide. Na mão, ele trazia o casaco branco, imundo, com que chegara à aldeia.
Que faz isto aqui? — Perguntou Xico surpreendido. — Não te disse para o deitares ao lixo, que me traz más recordações?
Eu deitei. — O outro respondeu, meio atordoado. — Mas o “estupor” do passarão não deixava de o comer.
Pois, se calhar também lhe trazia más recordações! — Riu alto.
Mas que tem o casaco afinal? — Sentado no chão, Zé preparou-se para ouvir a história.
Xico sentou-se ao pé dele e falou-lhe do Passarão, do Vesgo, do Pinguinhas, do Manel Preto, do Manco, enfim, de todos aqueles que partilharam a sua vida na rua, nos últimos anos. As tareias que apanhou do Vesgo, por roubar e não lhe dar parte, do medo que tinha do Manel Preto, chefe dos “mafiosos”, que, dizia-se, já matara dois homens. Contou-lhe e riram, das patifarias e das “patuscadas” que fez com o seu amigo, de como o tratou mal, que não merecia e as vezes que o defendeu dos outros vagabundos como eles. Tinham ambos os olhos húmidos, quando relatou os últimos momentos do Manel Passarão, caído no asfalto da rua, com o olhar vítreo nas pombas que esvoaçavam nas alturas.
Evitou alguns pormenores mais sórdidos, mas relatou o tempo que viveu, como um covarde, enfiado num cubículo de um prédio condenado, de onde expulsou outro “rato” mais fraco que ele. O frio que entrava por baixo da porta, meio partida e o cheiro a urina e excrementos que infestava aquele espaço recôndito onde foi reunindo a sua “fortuna” de cartões e cobertores. O medo que sentia, quando ia comer a sopa que traziam os voluntários da ajuda de rua, de que alguém o visse e avisasse o infame Vesgo. Só o fazia quando a fome era mesmo muita. Gradualmente, revivia todo o episódio na sua memória.

**** 

Tinha o cabelo e a barba enormes e enriçados, que até os habitantes do bairro lhe tinham medo, quando saiu do seu cubículo e “tropeçou” com o Pinguinhas. Deu-lhe uma tareia e expulsou-o dali, após o fazer dizer o que andava a fazer por lá: o Manel Preto queria “tirar-lhe o couro”. Quando se preparava ele próprio para fugir, viu o caminho cortado pelo enorme Vesgo, envergando um casaco branco sujo, que vinha na sua direção. Correu pelas escadas, antes de ser visto, mas foi a voz do Pinguinhas que o denunciou: “Está ali! Vai a subir!”
Os seus pés voaram pelos degraus e subiu, nem ele sabe quantos pisos. Não podia continuar assim, tinha que o despistar e correu pelo corredor de portas fechadas, completamente deserto. As paredes cobertas de grotescos grafittis, parecia zombar da sua aflição.
Sei que estás aí, passarinho! — A temível voz do Vesgo ecoou no corredor. — Vens cá ou vou-te buscar?
Vou avisar o Manel! — O odioso Pinguinhas exclamou alto o suficiente para que fosse ouvido.
Desesperado, Xico escondeu-se num apartamento que estava aberto, com vários sacos de lixo a impedir a porta de fechar. Lá dentro, pouco restava das paredes das divisórias e as janelas, sem caixilharia, eram entradas perfeitas para o vento que soprava, dominador, enchendo o ar de poeira.
Escondeu-se no cubículo que parecia o que restava de uma dispensa e apertou-se nas sombras. Na sua mão estava um velho tubo galvanizado, ferrugento: Não iria apanhar sem dar também.
Passarinho! — A voz estava agora na entrada do apartamento.
Ouviu e contou os passos com dificuldade, acima do barulho que fazia o seu coração galopante, quase a sair pela boca. O barulho do colchão, que vira no chão, a ser arrastado, possivelmente para ver se estava por baixo.
Os passos aproximaram-se até à entrada do esconderijo e Xico ergueu o cano e desfechou uma pancada com toda a força. Com o nervosismo, esqueceu-se da padieira da porta e foi lá que bateu, assustando-se e assustando o seu perseguidor com o estrondo.
Perdida a “arma” e a surpresa, tentou fugir por entre a nuvem de pó que levantou, mas uma mão de ferro do Vesgo esmagou-lhe braço esquerdo, enquanto a outra lhe acertava violentamente na nuca.
Estatelou-se no chão como uma boneca de trapos, mas o seu pesadelo não queria ficar por ali, por isso agarrou-o pelo cabelo e deu-lhe um tabefe com tanta força que a face em chamas e o potente zumbido nos ouvidos se uniram numa dor única.
Não vou perder tempo a falar contigo. — O Vesgo agarrou Xico pelo cabelo e pelos colarinhos e fê-lo cambalear através da porta para o corredor. — O Manel vai “dar-te umas poucas”. — Soltou uma forte gargalhada. — Pode ser que até me deixe cortar-te os “tintins”.
Por favor, Tone. — Implorou entre empurrões, a limpar o sangue que lhe escorria da boca. — Deixa-me fugir, diz que não me apanhaste. Eu compenso-te, o meu próximo “trabalho” vai todo para ti!
És mesmo burro! Desconfio que, depois de hoje, vais ter menos uma mão, para poder meter no bolso alheio. — Este diálogo, enquanto atravessavam o corredor, era acompanhado por olhos que espreitavam pelas frinchas das portas.
Por favor…
Cala-te, monte de m**! — Empurrou-o com violência contra a balaustrada das escadas. — Desce! E tens sorte de não te obrigar a levar-me às costas!
Xico agarrou-se com força ao corrimão e o outro debruçou-se sobre ele, batendo-lhe nas mãos e na cara, para o fazer largar. Repentinamente, a vítima passou ao ataque e usou a parte de trás da cabeça para desfechar uma violente cabeçada sobre a boca e o nariz do seu agressor, que deu um passo atrás.
Ah, seu filho da p**! — Exclamou o gigante ao ver o liquido púrpura que gotejava profusamente nas mãos. — Nem Manel, nem meio Manel, vais morrer agora mesmo! — Lívido de raiva, ergueu as enormes manápulas ensanguentadas, armadas para estraçalhar e avançou para ele.
O pânico não deixava Xico pensar que, naquele momento, tudo o que fizesse, para além de fugir, só seria pior e chutou o Vesgo com força entre as pernas, empurrando-o depois contra o corrimão oposto, assim que ele se curvou com as dores.
O homem enorme abateu-se como um castelo de cartas e rolou pelo cimento do lanço de escadas, em cambalhotas descontroladas, até ao patamar. Tão depressa caiu de chapa na placa de cimento como se levantou de um salto e numa máscara de fúria, da cor de ferro em brasa, ergueu um ameaçador punho fechado, enquanto gritava:
Vais morrer!!!!!
Foram apenas as suas últimas palavras. Caiu de borco sobre os degraus, olhos esbugalhados e boca a escorrer saliva e sangue. 
  A chorar de pavor, Xico procurou avidamente por uma arma, acabando por se decidir por um pedaço de cimento, do tamanho da mão. Com o improvisado armamento em riste, desceu as escadas o mais apertado à parede contrária que conseguiu. 
O Vesgo continuava imóvel, pelo que se aproximou, cautelosamente e desferiu-lhe um pontapé num braço. Não reagiu. Mais forte que o medo, era a existência como ladrão e aproveitou de imediato para lhe tentar tirar a carteira, reparando então no casaco do morto e mirando o seu, rasgado e sujo. Revistou-lhe os bolsos das calças e despojou-o do casaco, certificando-se da presença da carteira, que parecia recheada.
Estava quase para se ir embora, mas não o fez sem apanhar a pedra que levava para se defender e bater com ela várias vezes na cabeça daquele maldito que tantas vezes o agredira e roubara.
Depois, enrolou o seu próprio casaco debaixo do braço e fugiu.

****

Zé, sentado no chão em frente ao amigo, olhava-o incrédulo, enquanto levantava o casaco sujo e rasgado.
Mataste-o? Não estás a brincar? — Perguntou. — O dono deste casaco?
Não o matei, já estava morto. A queda tinha acabado com ele, ou teve um ataque, sei lá. — Xico já não estava seguro de ter feito bem em contar aquilo, mas sentia-se muito mais aliviado. — Já não respirava quando lhe bati. — Ergueu-se e foi à mesa onde pegou a garrafa do vinho e esgotou-a diretamente pelo gargalo, antes de concluir. — De resto, era um bom filho da p**, merecia tudo o que lhe pudesse acontecer.
Já reparaste que a parte da frente é mais grossa e dura do que o resto do casaco? — Zé estava a revirar a peça de vestuário, como que a decidir se a lava a ou não.
Sim, já tinha visto. Aquele cabrão deve ter posto aí uma proteção, não fosse alguém atirar-lhe um tiro ou espetar-lhe uma facada, tão bom ele era.
Não é isso. — O outro insistia em revirar o tecido, até que por fim, encolhendo os ombros, rasgou ruidosamente o forro e sacudiu-o. — Parece que tem aqui qualquer coisa… — No chão caiu, com um baque seco, um saco plástico transparente, cuidadosamente embalado e fechado, contendo vários maços de notas de cem euros.

*** Fim da 7ª parte ***

6-Começar do zero
8-Karma

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Uma Casa nas Ruas - 6ª parte


COMEÇAR DO ZERO


Acordou sobressaltado. Tinha caído do colchão. Ainda bem que não era uma cama. Já dormia no chão embrulhado em cartões há tantos anos, que uma coisa tão macia como um colchão de molas cansado, era demasiado luxuoso.
Era dia, a luz escoava-se pelos intervalos das tábuas da porta apodrecida e ele conseguiu apreciar melhor o seu improvisado quarto de dormir. Uma velha charrua, vários apetrechos de lavoura, uma pipa arruinada, as paredes de um antigo lagar. Ainda estava tudo mais ou menos como se lembrava, mas havia ali mais tralhas do que antes. Aquilo fora o local onde o seu avô abrigava o burro nos últimos tempos, mas também fora lagar e adega, quando os três ou quatro hectares do terreno das traseiras ainda lhes pertencia. A pequena quinta, fora vendida quase na totalidade pelo pai, apesar de ser herança da Maria da Luz e não sua. Por isso lhe chamavam o João “da Quinta”, desde que casara com a proprietária. O pai dela, já velho, achou que a deixava bem, entregue a um dos trabalhadores da propriedade, mas estava enganado. Enquanto houve coisas para vender e a mulher se não opôs, tudo desapareceu. De todos os terrenos que possuíam na aldeia, inclusive a pequena quinta por trás da casa, restou apenas a própria habitação e um pouco de quintal. Quando ela se recusou a pactuar com ele, começaram os problemas. Xico soube tudo o que se passara muito mais tarde, já adulto, mas não foi por isso que fez a vida de sua mãe mais fácil.
Saiu do compartimento armado com um arame grosso, pestanejou com o sol forte e dirigiu-se às escadas que acompanhavam a fachada lateral até à entrada principal. Um enorme melro esvoaçou, grasnando de indignação, do desprezado canteiro ao lado da porta. Depois de um pequeno estudo, “trabalhou” a fechadura, que não era das mais complexas e soltou uma exclamação de triunfo quando conseguiu abri-la.
Entrou no compartimento que fazia as vezes de cozinha e receção. Raios de luz caíam obliquamente através das frestas das portadas. As lembranças daquela área espaçosa. Sentado no chão a brincar, enquanto a mãe cantarolava, a acompanhar as canções do radio e costurava. Lá fora a chuva caía abundantemente e do quarto, ouvia-se o roncar embriagado do pai. Noutra altura, os pais batiam-se, estalada um, murro outro, até ela lhe bater com uma frigideira que estava ao lume. Ele ficou com queimaduras na cara e nas mãos, ela também, mas acabou ali a “guerra” e ela ajudou-o a pôr um pouco de banha para reduzir a dor. No outro dia o pai foi-se embora.
Com o estômago a rugir, rebuscou os armários e a dispensa, encontrou umas latas de atum, outras de feijão, dois pacotes de leite inchados, prestes a rebentar e um resto de cereais bafientos num saco de plástico.
Abriu uma das latas de feijão e comeu, com uma colher tirada da gaveta, que simplesmente limpou nas calças imundas. O prazo de validade da conserva passara há cerca de dois anos, mas ele não se preocupou.
A garrafa do gás, junto do fogão, ainda tinha algum combustível e a água e a luz não tinham sido cortadas. A irmã devia pensar voltar… mas se calhar ainda não tivera coragem.
Com um bocado de sabão e uma faca de cozinha barbeou-se o melhor que pôde, terminando com poucos cortes e finalizou com um banho quente.
Sentindo-se novo, foi ao seu quarto. A cama estava apenas com uma coberta, cinzenta pelo pó, mas na arca aos pés do leito, estavam muitas das suas antigas roupas. A mãe sabia que ele haveria de voltar. Não imaginava é que nessa altura tudo lhe estaria largo… e ela não estaria cá para ver.
Olhou-se ao espelho e achou que tivera saudades daquele Xico… estava na hora de o trazer de volta. Estava em casa, na sua casa.
Saiu, senhor de si, com um casaco de cabedal preto, coçado. Do alto da laranjeira rodeada de erva, o melro grasnou a sua revolta por ver o seu lugar profanado, mas ele não lhe ligou e foi à mercearia, contando o dinheiro que tinha consigo. Pelo caminho encontrou algumas mulheres idosas que reconheceu, mas elas olharam-no com curiosidade, sem perceber de quem se tratava.
Afastou as fitas e entrou na taberna/mercearia do Resende. O cheiro a vinho, alho e carnes fumadas era o mesmo de que se lembrava, mas as velhas mesas de madeira e bancos corridos foram substituídas por quatro mesas das mais baratas e respetivas cadeiras. O grande balcão de madeira de onde se servia tanto o copo de tinto, como um quilo de arroz, transformara-se agora num simples balcão com decorações em plástico e tampo em inox. Rematava um expositor refrigerado, onde estavam expostas algumas peças de carne. A luz fluorescente iluminava todo o espaço, mostrando as paredes pintadas a verde há pouco e um mata-moscas de luz azul crepitava a espaços, sempre que uma “atrevida” ia espreitar mais perto. Por trás do balcão, um homem gordo e quase calvo, de olhos pequenos e bochechas caídas, olhava-o desconfiado.
És tu, Manel? — Perguntou Xico, surpreso.
Xico? — O gordo franziu ainda mais o sobrolho, enquanto saía de trás do balcão. — Vejam lá o que o “vento do Diabo” haveria de trazer!
Então? — Sentiu-se ofendido. — É assim que recebes os amigos?
Amigos é? — Respondeu o merceeiro, sardónico. — Os amigos não roubam os amigos, já te esqueceste das coisas que fizeste por cá? Roubaste o dinheiro da caixa ao meu pai!
Eh pá, Manel, eram outros tempos, desculpa. — O recém chegado recriminou-se. — Coisas de canalha, sabes que eu andava sempre metido em trabalhos.
Tu andavas? A tua mãe é que levava sempre por tabela. Primeiro era o teu pai e depois tu!
Pois, era, pobre mulher não merecia o que a fiz passar. — Ele baixou os olhos, contristado.
Sabes que o meu pai só não apresentou queixa de ti na policia por causa dela? E o que teve de aturar da minha mãe! — Havia uma entoação de desprezo na voz do ex-amigo. — Mas ele tinha pena dela, que ficou a trabalhar a dobrar para pagar o ouro que roubaste à Lucinda da Igreja… — Como o outro, de olhos postos no chão, já não respondia, ele continuou. — E agora que vens cá “cheirar”? Vens apanhar mais umas notas “distraídas” agora que a velha morreu, só podes “chular” os outros.
Eu… — A frase iniciou-se com um falsete. — … quero comprar umas coisas. Estou a pensar ficar aqui por uns tempos.
Bem, já vi que temos todos que manter as portas bem fechadas…
Acho que já chega dessa conversa. — Xico endureceu o tom. — Já te disse que esses tempos passaram, fiz muitas asneiras eu sei, mas não posso fazer nada para que o que fiz nunca tivesse acontecido. Posso devolver o dinheiro do teu pai, uma merdice de cento e poucos euros, não agora, mas em breve. Assim que arranjar um trabalhito por aí.
Achas que o problema é o dinheiro? Então não aprendeste nada. — Manuel pôs as mãos na cinta e depois abriu os braços a abarcar o espaço comercial. — Olha para isto! Achas que o dinheiro que roubaste fez assim tanta falta? Foi a vergonha por que fizeste passar a tua mãe, o abuso da confiança do meu pai e o desprezo pela nossa amizade! Parece-te pouco?
Eu sei, percebo. — Começava a sentir-se a mais abjeta das criaturas. — Mas como te disse não posso desfazer o que está feito, apenas garantir-te que não volta a acontecer. Eu mudei, passei por muito nestes últimos tempos.
Isso, só o tempo o dirá. Mas digo-te uma coisa: vou atender-te e vender o que precisas, mas só porque ainda guardo um pouco da nossa amizade, senão tinhas que ir buscar as merdas a Castro Daire, porque aqui, não há mais sítio nenhum onde comprar nada.
Xico tentou apertar-lhe a mão, mas o gordo voltou-lhe as costas e regressou para trás do balcão, de onde o olhou com o ar de “merceeiro que aguarda os pedidos do cliente.
Na verdade, aquele homem balofo, que acabara de lhe dar tal lição de moral, não era o mesmo Manel, companheiro de infância e de patifarias, da sua juventude. Esse, foi ressurgindo nos minutos seguintes enquanto aviava os pedidos e ia respondendo às perguntas do amigo.
Em pouco tempo já estavam os dois sentados a uma das mesas a tomar café e a rir das patifarias da juventude.
Ali soube que quase todos os da sua idade haviam saído da aldeia, uns mudaram-se para a sede do concelho, outros para as cidades do litoral, outros ainda para França ou Inglaterra. Praticamente só restavam dois, ele, o Manel da mercearia e o Zé ferreiro, que não estava bom da cabeça. Contou-lhe como o Zé, que também herdara o negócio do pai, por isso não emigrara, perdeu tudo num incêndio que lhe levou, não só os bens, como a mãe, a mulher e uma filha. Ele próprio ficara muito queimado e esteve muito tempo no hospital. Quando regressou, ficou a viver na casa semi arruinada, que nunca restaurou e ia fazendo uns trabalhos de ferreiro, se havia… ou lhe apetecia.
De repente assomou, à porta por trás do balcão, um rosto feminino que Xico reconheceu. Era Natália, a “apaixonada” de Manuel, pelos vistos sempre ficaram juntos.
Manel! — O rosto gorducho estava zangado. — Não te pedi já que viesses ver aquela torneira da maquina de lavar? Agora rebentou o tubo e está a inundar a lavandaria! Anda, depressa, deixa-te de conversa!
Ela não o reconheceu, ou se o fez, ignorou-o ou não tinha vontade de falar com ele… nem ele com ela. De resto, sempre fora uma emproada, que se achava mais importante e rica do que realmente era. Não foi muito longe, se se deixou ficar por cá e casar com o merceeiro da terra.
O visado fez um sorriso triste para o amigo e murmurou um “Tenho que ir”, em conjunto com o encolher de ombros, antes de abandonar o estabelecimento, ao homem que era um ladrão confesso.
Xico pegou no saco com as compras que pagara e regressou a casa.
Passou o resto da manhã a limpar o quarto onde pretendia dormir e a cozinha, livrando-os do pó e tornando a casa menos assombrada. Depois de almoço, decidiu regressar às traseiras da casa e ao quintal abandonado. O melro estava agora em cima da ramada de videiras esqueléticas e fugiu, fazendo-lhe um voo rasante, frente aos olhos, enquanto grasnava zangado com o intruso. “Pássaro estúpido.”, sentenciou.
Encontrou uma sachola, uma pá e vários outros utensílios que, embora com alguma ferrugem, serviriam para o efeito que pretendia. Parou, apoiado no cabo da sachola a olhar para o extenso quintal coberto de ervas e silvas. Suspirou, quase desanimado, mas aquele quintal, devidamente arranjado, daria umas boas sacas de batatas; teria mais alimento e ainda ganharia mais uns euros.
 Arregaçou as mangas e deu a primeira sacholada na terra, depois outra e ainda outra. Estava a dar inicio a uma nova vida.
O melro plantara-se num sebe em frente ao trabalhador e emitia assobios, por vezes parecia até cantar uma música de uma publicidade conhecida. De todas as formas não o incomodava, antes o distraía, enquanto revolvia diligentemente a terra onde iria plantar as batatas. 
De repente o pássaro preto calou-se e Xico, de cabeça baixa, não se apercebeu da presença do intruso antes de ver as botas de trabalho, femininas e seguir as pernas para cima, passando pelas coxas e ancas bem delineadas até ao tronco forte, envolto por uma camisola de algodão bem recheada com peitos generosos. Todo o conjunto era encimado por um rosto moreno, envolto em cabelo aos cachos e decorado com uns olhos escuros e vivos, um nariz pequeno e afilado e uma boca pequena moldada num sorriso trocista. Estava mais velha, o rosto queimado do sol e as rugas nos cantos dos olhos, mas Maria Alice continuava uma bela mulher, que ele nunca percebera o que vira nele.
Não queria acreditar quando me disseram que tinhas voltado. — Ela atirou-lhe secamente, com as mãos na cinta, numa óbvia pose de desafio. — Serias capaz de te “abancares” por aqui sem ao menos me ir visitar?
Agora nunca o saberemos, não é? — Ele sorriu, com a transpiração a escorrer no rosto sujo de terra.
Nunca pensei voltar a ver-te a trabalhar… no duro pelo menos.
Também gosto muito de te ver. — Retorquiu, irónico. — Estás muito bem, a vida no campo faz-te mais jovem.
Bem, — Ela desviou o olhar enquanto o provocava. — o trabalhador veio, o mentiroso pelos vistos também. Quantas dessas personalidades, que trazes dentro de ti, vieram contigo? Está aí o ladrão também?
Não achas que estás a ser um bocadinho dura comigo?
Dura? Ainda não viste da missa a metade! Não foste tu que foste deixada como um trapo velho que usaste para te limpares. Depois de tantas promessas e tantas ideias, o que é que fizeste? Foste para a tropa, sem te despedires, roubaste meio mundo por aqui e nunca mais ninguém ouviu falar de ti.
Ele não respondeu e recomeçou a cavar a terra.
Sabes porque é que estou aqui a falar contigo, em vez de trazer a caçadeira do meu pai e deixar-te aí estendido? — Insistiu ela. — Porque, apesar de ser uma labregazita ingénua, o respeito e o medo dos meus pais eram superiores à vontade que tinha de me entregar a ti.
Não te deste muito mal. Breve casaste com o filho do barbeiro, segundo eu sei. — Atacou ele sem interromper o trabalho.
E que querias que fizesse nesta terra de m**? Depois de andarmos para aí a lambuzar-nos, tu foste embora e eu ficava aqui como a “gaja que o outro não quis”? Era isso? Cair nas bocas do mundo e ficar aí solteirona? Querias isso? Alguma vez me mandaste dizer uma palavra que fosse?
Sem conseguir articular palavra, ele dedicou-se com mais afinco a cada uma das cavadelas.
Que raios estás a tentar fazer aí, de qualquer forma? — Alice mostrou-se intrigada.
Vou plantar batatas! — Afirmou ufano.
Palerma… — Ela censurou com um sorriso trocista. — As batatas são em Março, agora só couves e cebolas. — Virou-lhe as costas e começou a afastar-se. — Quando acabares a escava passa lá em casa, arranjo-te umas sementes.
E o teu marido? Não se vai importar? — Inquiriu Xico.
O meu marido morreu há três anos! — Respondeu ela já na estrada.
Ninguém naquela aldeia estava contente com o seu regresso, exceto talvez a Maria Alice. Ele nunca se esqueceu dela e sempre se sentiu intimidado junto dela. Ficou a vê-la afastar-se, uma mulher bem feita, inteligente e viúva… o melro soltou o que pareceu uma gargalhada.
Que foi, pássaro estúpido? — Atirou-lhe um torrão que o fez esvoaçar para longe.
Xico? — A voz masculina, por trás dele, surpreendeu-o. Voltou-se para deparar com um homem quase careca e com o rosto deformado numa queimadura extensa. — Sou o Zé… o ferreiro…
Zé! — Exclamou com legitima felicidade, após o espanto inicial causado pelos estragos no rosto do amigo. — Ainda há pouco falamos de ti!
— Eu sei, foi o Manel quem me avisou que estavas cá e mandou isto. — Ergueu duas garrafas de cerveja. — Quer que brindemos à nossa infância, mas disse que continua zangado contigo.


*** Fim da 6ª parte ***

5-O Regresso
7-Criar Raízes

segunda-feira, 26 de março de 2018

Uma Casa nas Ruas - 5ª parte

O Regresso

Com a cabeça encostada ao vidro e os olhos semicerrados, Xico olhava pensativamente a paisagem que corria veloz, no sentido contrario ao do autocarro de passageiros em que viajava. Era a segunda etapa da viagem; a primeira fora o comboio inter-regional do Porto até à estação da Ermida em Resende, agora só sairia em Castro Daire, a sede do concelho a que pertencia. Estava-se no fim do verão, setembro arrastava-se, quente e parecia não querer dar entrada ao outono, que espreitava.
Passaram-se cerca de três meses desde a morte do seu  Manuel “passarão”. Fazia três meses que o amigo, numa fuga descuidada, fora atropelado em plena rotunda da Boavista. Esta morte deixara-o de rastos, a ele, que o tratava a maior parte das vezes com brusquidão ou sobranceria. Mas na realidade, queria-lhe bem e achava graça à sua ingenuidade, fruto do atraso mental que parecia ter… e que agora não tinha mais. Talvez Deus tenha um sítio simpático para as pessoas como ele, se é que existe Céu, que nunca fizeram mal a ninguém, nem tinham negruras no coração… como ele próprio tinha. Ou melhor ainda, se realmente existisse um “Céu dos Pássaros” para onde o deixassem ir correr com as pombas, como adorava fazer e como fora o seu último desejo.
Iria sentir-se para sempre culpado de o ter convencido a sair do abrigo, onde era bem tratado e alimentado, para regressar às ruas, para a fome, o frio… e para a morte. Desencaminhara-o e era o único culpado daquela morte; assim lhe gritou o doutor Tomé, que trabalhava no abrigo e assistira ao atropelamento. Manuel havia falado muitas vezes do amigo Xico, que desaparecera e todos sabiam que, se ele reaparecesse, o “Passarão bateria as asas”. Todos no abrigo gostavam dele e foram eles quem tratou do funeral que levou o infortunado para debaixo da terra.
Mas a culpa daquela morte não era sua, ou pelo menos, não diretamente. Culpados eram o Pinguinhas e o Vesgo, de quem ele fugia. Os dois “bandalhos” que  viviam de roubar aqueles que, tendo roubado outros, não tinham força para defender o saque. Era o caso do Manel Passarão, eles infligiam-lhe um terror incontrolável e foi esse terror que o precipitou para a frente de um carro.
Também Xico lhes tinha medo. Não do Pinguinhas, que era um covarde, enfezado e estúpido, mas do Vesgo, muito forte, inteligente e um sádico da pior espécie. Por várias vezes lhe sentira o peso dos punhos ou as queimadelas dos cigarros no pescoço e nos braços.
Ao fim e ao cabo, já tinham sido avisados para não roubar na zona controlada por eles e, se o fizessem, tinham que dar uma parte (a maior ou a melhor) ao “gigante”. Como teimoso que era, Xico  sempre se recusou a fazê-lo e pagava “com o corpo”. No início ainda reagia, mas resultava numa tareia ainda maior, por isso ultimamente, ou fugia-lhe ou sujeitava-se às porradas. Assim aconteceu depois da morte do Manuel; fugiu do “canto” que partilhava com o falecido, debaixo do viaduto e escondeu-se nos pisos mais fundos de uma das torres do Bairro do Aleixo, há muitos anos condenadas à demolição. Durante três meses ali esteve, acoitado num cubículo, de onde expulsou outro mais fraco que ele, entre paredes gatafunhadas, lixo e escuridão. Só saía o mínimo possível para arranjar alguma coisa de comer e retornava ao “covil”... ou toca, como um autentico rato.
Chegou finalmente a Castro Daire, cerca das quatro da tarde. O sol estava alto e pôde olhar demoradamente as casas daquela vila que já não via há cerca de doze ou treze anos, desde que saíra de Pepim, a pequena aldeia do concelho, onde nascera.
As coisas não estavam assim tão diferentes, do longínquo mês de fevereiro de 2001: uma casa ou outra fechada, ou a precisar de obras, um estabelecimento fechado aqui, um outro novo ali… ninguém sentira a falta do Francisco Soares.
Foi a um dos cafés próximo da paragem da rodoviária e pediu uma sandes e uma cerveja… seria o seu almoço e lanche… se calhar até jantar. Faltava saber como seria recebido em casa. O empregado de mesa e o “mal encarado” ao balcão, eram conhecidos, talvez dos tempos do secundário, que fez de forma errática ali na vila. No entanto, nem um nem outro aparentaram reconhece-lo. Olhou-se no espelho que decorava a coluna a seu lado: cabelo escuro, seboso, barba de vários dias e blusão grande demais e sujo. Era de admirar que não o pusessem na rua.
O empregado pousou o pedido em cima da mesa e cruzou os braços, à espera. Envergonhado do seu aspeto, não quis ser reconhecido e de olhos baixos, rebuscou os bolsos de onde tirou dez euros amarrotados, que entregou. O troco materializou-se em cima da mesa, mas, por detrás do balcão, o “mal encarado” mantinha-se vigilante. Terminada a “refeição” saiu, sem fitar os empregados, para a rua, sentindo-se imediatamente mais aliviado.
Olhou os táxis imobilizados na praça e suspirou enquanto pegava nas notas e moedas que trazia no bolso. Descontados os bilhetes do comboio e da camioneta, restavam-lhe apenas cinquenta e poucos euros, do que conseguira roubar ao Vesgo, no último e traumático encontro que teve com a infame dupla. Encontro esse, que foi a causa da súbita vontade de regressar à sua terra natal.
Encolheu os ombros; o dia estava bom e cinco quilómetros fazem-se num instante, afinal, já fizera dois e tal entre da estação de comboios e a rodoviária e não sabia ainda o que o esperava em Pepim.
Conseguiu ainda reconhecer um ou dois rostos, mais idosos, como os do dono de uma mercearia e o de um dos taxistas, que lia o jornal sentado num degrau ao pé da viatura, mas fazia sempre por não os olhar diretamente.
Quase conseguiu desfrutar da caminhada pelo meio dos campos, após abandonar o arvoredo ladeava a estrada do planalto da vila. O sol começava a descer, quando avistou as primeiras casas da aldeia.
Passou pela rua Central, que outro nome não tinha, cabeça baixa, como que tentando esconder-se debaixo da mochila preta que trazia às costas. Não havia quase ninguém fora das casas, mas conseguiu discernir alguns habitantes, sentados nas varandas a aproveitar o ar que começava a refrescar e que se erguiam curiosos a ver “quem vem lá”.
Conseguiu chegar ao ponto mais alto da rua, o largo do Eirô e iniciar a descida para o local onde nascera, sempre através das recordações de infância, umas boas e outras más. A casa do João do burro aparentava estar vazia há muito tempo. A da ti Maria padeira tinha caído e à medida que avançava, a degradação era maior e havia mais casas arruinadas ou simplesmente abandonadas. Passou a última habitação do aglomerado central e já divisava o telhado e a parede amarela do seu destino. Sentia dor de barriga e tremiam-lhe as pernas, mas continuava a caminhar; como iria recebê-lo a mãe? Depois de tantos anos sem saber de nada, depois de ter roubado o dinheiro do Manel da mercearia e os brincos e a arrecada de ouro da Lucinda da igreja?
Só quando está a poucos metros de distância se apercebe do mau estado em que se encontra a janela que se divisava por cima dos esteios das videiras, em completo abandono. Do aspeto envelhecido da parede de onde já caíram pedaços de reboco. De frente, era ainda pior. As janelas e as portas entaipadas contavam uma história que escapava a todas as suas conjeturas, já não vivia ali ninguém há bastante tempo, a avaliar pelas ervas secas em volta, apenas cortadas à face da estrada, possivelmente pelos serviços autárquicos.
Ficou, estático, de boca aberta a rever cada contorno das portas das lojas, de cada janela apodrecida. Olhou em volta, desorientado. A casa mais próxima, à direita, estava reconstruida, lembrava-se que estava vazia na sua juventude, logo, não devia conhecer ninguém. Do outro lado, só a velha escola primária e mais longe, a caminho da igreja, o ti Luís da Serra e a ti Joana, se calhar ainda lá vive a Maria Alice, que não queria encontrar… pelo menos com o aspeto que tinha. Mesmo em frente à casa subia a rua das Roçadas, ladeada de pequenos casebres agrícolas e depois havia um pequeno tasco… tinha que perguntar a alguém. Que terá acontecido à mãe e à irmã?
Um automóvel passou veloz, ignorando-o, quase no meio da rua.
Após uns minutos de indecisão, tentou empurrar as portas a ver se alguma cedia.
—    Eh lá! — Uma voz de mulher gritou do meio da ramada no terreno em frente à casa. — Que está a fazer?
Sobressaltado, Xico olhou em volta a tentar perceber de onde vinha a voz, até conseguir divisar a mulher oculta pelas folhas, atrás da rede que delimitava a propriedade em frente. Apurou a vista e reconheceu a dona Inácia, que vivia em frente à tasca. Continuava velha, esquelética e enrugada como sempre fora… talvez mais velha.
—    Sou o Xico, dona Inácia! — Gritou-lhe de volta. — O filho da ti Maria da Luz!
—    Ora quem havia de dizer! — A velha surpreendeu-se. — Tardaram-te as saudades, rapaz!
—    Que é da minha mãe? E da minha irmã?
—    A tua irmã foi-se embora para Lisboa há uns bons anos…
—    E a minha mãe?
—    A tua mãe… — A velha hesitou um pouco. — Mudou-se lá para baixo, para o cemitério. Levou-a uma pneumonia há quatro ou cinco anos.
Ele ficou como que petrificado. A mãe, pequena e magra, mas firme e dura como uma rocha, tinha morrido. Aquela mulher capaz de um beijo e de um tabefe quase de seguida, capaz de tirar o pão da boca para o dar a um filho ou a um amigo e ao mesmo tempo, enfrentar o mais mal encarado, armada apenas com um pau de vassoura. Fora-se  para sempre.
Até já estava preparado para o chorrilho de insultos com que pensava que seria recebido, sentia-se ágil para fugir dos pratos que lhe arremessaria… mas ela não poderia mais dar-lhe os maus tratos devidos à ingratidão que ele sempre demonstrara e os justos castigos pelos crimes que cometia. A luz daquela mulher de aço, que nem os maus tratos do marido e as canalhices cometidas por filho e marido alternadamente conseguiram derrubar, apagara-se para sempre.
Nem agradeceu à dona Inácia, que acabou por desaparecer entre a ramada e voltar aos seus afazeres, enquanto ele, de olhos no chão, deixou que duas gotas pingassem no asfalto cinzento pelos anos. Sentindo-se demasiado pequeno para aquele mundo, olhou em volta para rua, que conhecia desde que se lembrava de ser gente, que antes parecera pequena, mas agora parecia interminável. O céu pintava-se de vermelho quando resolveu pegar na mochila às costas e continuar a rua.
Passou em frente à escola primária, agora reluzente, caiada de novo. Quando era miúdo, tinha alguns buracos e  a tinta a descascar, mas estava repleta de crianças, agora se calhar já nem funcionava, mas estava nova. Mais à frente, o caminho de terra onde dera uma tareia ao João Luís,  depois, o pomar do ti João, onde o Zé Gordo e o mesmo João Luís lha devolveram e não fosse aparecer o pai da Maria Alice, poderia ter sido bem pior. E a Maria Alice… a casa dela estava a seguir, a última, antes da junta de freguesia, os beijos que deram naquelas traseiras da casa, beijos e não só. Mas agora não queria que o reconhecessem; baixou a cabeça e estugou o passo.
Chegou finalmente ao cemitério. Olhou de soslaio a igreja onde fez a comunhão… como o pai estava bêbado nesse dia! Ele e a mãe gritaram um com o outro toda a manhã e mesmo a caminho da procissão. Quando chegaram àquele mesmo local, perdeu a paciência e gritou-lhes que se calassem. O pai deu-lhe um estalo com tanta força que quase o fez cair; a mãe ficou rubra e dessa vez não gritou, mas ameaçou alto o suficiente, entre dentes:
—    Se voltas a bater no MEU filho, juro que te mato! Quando estiveres a dormir, sangro-te como a um porco, seu canalha!
A comunhão foi com as lágrimas nos olhos e uma mancha roxa na cara. As únicas duas fotografias que havia da procissão, Xico deu-lhes sumiço, logo que as apanhou à mão.
A mãe não cumpriu a promessa, claro, o pai viveu com eles mais uns meses mas, uma manhã saiu para trabalhar e não tornou. Deixou a mulher grávida, nenhum deles sabia ainda, mas oito meses depois nascia Luísa.
Empurrou a enorme porta de ferro do cemitério, que cedeu com um gemido. Estava aberta, não há perigo dos vivos quererem entrar, nem dos mortos quererem sair.
Não foi difícil encontrar a campa num local tão pequeno. Ali estava a mãe, uns anos mais nova do que se lembrava, mas era ela, sem dúvida. A lápide simples, branca  com letras pretas, anunciava: “Maria da Luz Martinho Soares N:10-11-1963 F:25-2-2008” apenas isso, mais nada. Uma vida inteira resumida a um nome e duas datas gravados numa laje de mármore.
Pousou a mochila no chão, entre duas pedras tumulares e sentou-se acariciando com os olhos cada pormenor daquele rosto agora desaparecido. Pela segunda vez naquele dia, as lágrimas correram no rosto sujo, decorado com a barba por fazer, enquanto o remorso se unia à dor da perda e assaltavam aquele coração empedernido pelas muralhas do egoísmo, que começava a ceder aos poucos.
Recordou momentos que não lembrava há muito. O rosto dela próximo do seu, a ensinar-lhe as primeiras letras, a brincarem no empedrado da cozinha com pequenas figuras toscas de madeira, esculpidas pelo pai. Ela sorria. Ele não se lembrava de a ver sorrir.
Numa oração sem palavras, pediu perdão pelas vezes que a fez sofrer, pela dor que lhe causou, pelas vergonhas que a fez passar… pelas palavras que lhe disse e ela não merecia. Pousou a cabeça nos joelhos e chorou. Chorou pela mãe, pelo pai, pela família que não se conseguiu amar. Chorou por si próprio e pela sua vida desperdiçada.
Quando achou suficiente, ergueu-se e limpou as lágrimas à manga sebosa. Levantou a mochila para o ombro e abandonou os que descansavam para sempre, sem tornar a olhar para trás; aqueles que se foram, não precisam de nada mais de nós, não lhes serve de nada a pena, ou arrependimento, ou mesmo o amor. Muito menos amor, esse, deveria ter-lhes sido dado enquanto caminharam neste mundo.
Retornou a casa, assegurando-se que não era visto ao passar frente à da Maria Alice. O sol desaparecera completamente e o vermelho do céu dera lugar a um cinzento que gradualmente se tornava preto. As luzes da rua estavam já acesas quando chegou à habitação e uma vez mais experimentou as portas até que conseguiu entrar nas traseiras, na “loja” onde há muito tempo não dormia o burro que pertencera ao seu avô. O estômago rugia de fome, mas não queria ver mais ninguém hoje. Com o isqueiro, viu que o pequeno aposento estava transformado numa arrecadação com tralhas de todo o tipo, mas o melhor, era o velho colchão envolto em plástico encostado à parede.
Fez uma pequena fogueira, cercada por pedras, mais para iluminar do que para se aquecer e ali comeu umas sardinhas de lata, acompanhadas de umas bolachas de água e sal e uns golos de água. Era o farnel que lhe ocupava a mochila. Amanhã iria à mercearia comprar mais qualquer coisa, veríamos para o que dava o dinheiro.
Passou uma noite agitada. Os seus “amigos” Pinguinhas e o Vesgo, saíram das sombras para o atormentarem e ele reviveu o pesadelo que foi o último encontro com a dupla.
****
 Quando saía do fétido cubículo, de que se apoderara no bairro do Aleixo e encarou com o Pinguinhas, que parecia mesmo andar à procura de alguém. Assim, que se encararam, passado o espanto inicial, Xico reagiu primeiro e saltou ao pescoço do facínora, que apertou com vontade, enquanto interrogava de dentes cerrados:
—    Que fazes aqui, monte de m**?
—    Ai! Deixa-me! — O outro gemeu apavorado. — Não ando a fazer nada, ia só a passar.
—    Cabrão mentiroso! — O aperto do pescoço foi “enfeitado” com dois sonoros estalos no cachaço. — Que andas aqui a fazer?
—    Nada! Já te disse que ia a passar! — O Pinguinhas começou a chorar. — Só vou visitar uma irmã da minha mãe que vive aqui!
—    Cala-te, filho da p**! Tu não tens mãe, foste escarrado por um lixeiro! — Xico ergueu uma lâmina brilhante ao nível dos olhos da sua vítima. — Diz-me o que andas a fazer ou vazo-te as tripas aqui mesmo!
—    Por favor, Xico! Eu não fiz nada! Viste que era sempre o Vesgo quem te fazia mal!  — Ele soluçava,  desesperado.
—    Quem te mandou aqui! Diz-me, desgraçado! — Perdida a paciência, atirou-o ao chão e pontapeou-o sem dó, por várias vezes. Depois debruçou-se e encostou-lhe a navalha ao pescoço. — Vou cortar-te essa cabeça horrível e pendura-la lá fora.
—    Espera! Não! Espera, não faças isso! — As mãos esbracejavam tentando afastar o agressor, enquanto gritava esganiçadamente. — Foi o Manel Preto! Foi ele que disse ao Vesgo para te virmos buscar! Disse assim: “O ‘panascas' do Xico está escondido no Aleixo. Vão lá buscar o dinheiro que ele me deve pelo ‘trabalho' da ribeira, ou tragam-me o couro dele para esfolar.”
Xico estacou por uns segundos, ainda com a arma a ameaçar o Pinguinhas e depois, num movimento rápido, fez-lhe um corte na palma da mão. Depois presenteou-o com mais dois pontapés.
—    Desaparece-me daqui, monte de m**, antes que te esfole! — Expulsou-o, virando-lhe as costas.
Tão logo ouviu o facínora “correr como se não houvesse amanhã”, lançou-se ele próprio para dentro do cubículo de onde saíra, para pegar nos seus parcos pertences. Se o Vesgo andava por ali, a sua saúde, se não a vida, estava a correr um grande risco.
Com os braços cheios de roupas e cartões, preparava-se para abandonar o edifício quando viu o enorme corpanzil do Vesgo a dirigir-se para ele. Depois do pânico inicial, percebeu que não fora visto e desatou numa corrida pelas escadas acima.






*** Fim da 5ª parte ***


4-O Céu dos Pássaros
6-Começar do zero

segunda-feira, 19 de março de 2018

Uma Casa nas Ruas - 4ª parte


O CÉU DOS PÁSSAROS



Os dias seguintes foram alegres. Durante o dia, pediam umas moedas aqui e ali, roubavam nos cafés as gorjetas e os pagamentos esquecidos e à noite, contavam histórias da prisão ou do abrigo, para espantar o frio. Xico não perdeu o hábito de assaltar os automóveis com objetos à vista e ainda conseguiram algum dinheiro extra, mas sempre de atalaia, não fossem o Vesgo ou o Pinguinhas estarem por perto.

O Passarão não queria andar pela Boavista, com medo de encontrar um dos seus conhecidos do abrigo, que ele abandonara de forma tão ingrata, por isso vagueavam mais pela Foz, ou pela zona da Alfândega, roubando turistas incautos.
Um fim de tarde, nas arcadas da Ribeira, tiveram de se esgueirar pelas ruelas estreitas, para fugirem às vistas do Manco, que “guardava” os carros no parque da Alfândega. Se aquele estava ali, o Manel Preto, ou mesmo o Vesgo, não andariam longe.
Passaram pelas esplanadas interiores e de repente, nas costas de uma cadeira, sem ninguém à vista, ali estava um belo casaco de couro, acompanhado de um avantajado estojo de máquina fotográfica em cima da mesa. Sem um som, Xico olhou em volta, pegou o casaco e entregou o estojo ao Passarão, exibindo um dedo atravessado sobre os lábios, antes do gesto para correr.
Au secours! Des voleurs! — Uma voz masculina ecoou entre as paredes.
Correram como loucos, mas, um homem enorme, de cabelos compridos e óculos de sol, ao estilo do John Lennon, estava quase a apanhar o afogueado Passarão. Este, vendo-se em perigo, atirou com o estojo à cara do turista, que abateu-se desamparado, numa confusão de peças da câmara fotográfica, despedaçada com a queda.
Só pararam a correria, completamente sem fôlego, nas arcadas de Miragaia, onde normalizaram a respiração e avaliaram a “presa”. O casaco era de couro genuíno, mas demasiado grande para Xico, o que foi uma felicidade para o Passarão. Havia porém outra surpresa, a carteira; para além dos cartões de crédito, que seriam vendidos facilmente, tinha quase seiscentos euros em notas. Saíra-lhes a sorte grande!
Disfarçaram cuidadosamente o casaco e caminharam, sem levantar suspeitas, até à mercearia onde habitualmente faziam algumas compras. Vinho, salpicão, pão, batatas fritas, queijo… seria um jantar digno de reis! Xico nem protestou quando o amigo quis incluir um frasco de Nutela, alguns biscoitos e chocolates no rol.
Recolheram ao vão da ponte que habitavam e dedicaram-se a consumir os deliciosos acepipes, que estavam riscados da dieta habitual há demasiado tempo, bem regados com o vinho caro, mas não necessariamente bom. Foi um longo e bem disposto jantar, onde riram da aflição que passaram e da cara do infeliz turista quando a máquina fotográfica lhe bateu e se estatelou no chão.
Os estômagos já estavam saciados e o vinho já lá fermentava, quando Xico resmungou que a câmara fotográfica deveria valer muitos euros e que ali ficou estatelada em mil pedaços. Censurou o amigo, numa voz arrastada, que se ele não fosse tão gordo, correria mais que o palerma do “franciú”.
Enquanto estavam nestas cogitações, ouviram um baque seco ao passar de um automóvel. Na via rápida, logo abaixo deles, uma pomba rebolou pelo asfalto.
Coitadinha! — O Passarão apanhou a ave, que se mexia com dificuldades, com as asas numa posição impossível.
Deixa-a. — Advertiu Xico torcendo o nariz. — Essa já está a meio caminho para o outro lado. Além do mais, ainda podes apanhar alguma doença com isso.
Mas a pobrezinha está ferida…
Está mais morta que viva! Põe-na para aí num canto e  deixa-a morrer sossegada.
Achas que ela vai para o céu, como nós?
Como nós?!? — A gargalhada cínica de Xico ecoou no vão da ponte. — Quem te disse que nós vamos para o céu?
Não vamos? — Os olhos enormes do Passarão abriram-se ainda mais de espanto, fitando o amigo. — Mas o padre Mateus, quando me ensinava a catequese, dizia que íamos todos para o céu.
Devia ser um bom tretas esse teu padre! — Os efeitos da digestão e os vapores do álcool começavam a “pesar” e a deixá-lo sonolento. — Quando o cabrão do anjo da morte nos vier buscar, há-de deixar-nos numa encruzilhada qualquer e a gente que se “desmerde”. De certeza que o céu é como um belo condomínio fechado: quando o porteiro, o São Pedro, vir essas tuas roupas “de marca”, manda-te logo pedir noutra freguesia! Nós somos filhos de um deus menor, meu irmão. O nosso deus não é o mesmo dos bancários ou políticos; nem é o mesmo deus dos “bófias”! Nascemos para enganar e ser enganados a vida toda… depois de morrer, se alguma coisa houver, não há-de muito diferente disto. Os melhores lugares estarão ocupados pelos que chegaram primeiro e esses reservarão os outros para os seus amigos… não haverá sítio para nós.
Traído nas suas convicções mais profundas, Manuel fixou o olhar, sem ver, no trânsito que corria veloz na estrada. Aquilo era algo com que não estava a contar. Aceitava a fome, o frio e os maus tratos; até o facto de não ter uma casa onde dormir, porque sabia que um dia iria para o céu, onde não lhe faltaria nada. As lágrimas sulcavam-lhe o rosto quando perguntou:
Então e esta pomba também não vai para esse céu?
Achas? Pensas que eles querem lá esses ratos com asas a cagar nas estátuas e nas asas dos anjos? Ela deve de ir para algum céu dos pássaros, ou outra merda qualquer. Um sítio onde possam voar à vontade, comer o que encontrarem e cagar onde lhes apetecer… agora deixa-me, que quero dormir.
Xico enrolou-se e puxou o cobertor para cima. Manuel aconchegou a pomba no seu próprio cobertor e afagou-a ternamente. A cabeça da ave tombava e demorava a ganhar forças para se erguer novamente. A única coisa que se movia sempre rápido, era o piscar dos pequenos e assustados olhos que o fitavam. Por fim, a cabeça não se ergueu mais e os olhos pararam de piscar. O bom gigante chorou mansamente, com a testa encostada no chão e a mão pousada sobre o cadáver, como que tentando impedir que o anjo da morte viesse reclamar a pequena alma.

***

Depois do sucesso do furto na Ribeira, a dupla permitiu-se uns dias de menor atividade e, ao mesmo tempo, mudança de ares; não fossem ser reconhecidos pelas margens do Douro.
Vagueavam pelo jardim central da Rotunda da Boavista, com Xico sempre atento às “oportunidades”. O companheiro, brincando com as pombas, mantinha um dos olhos nos caminhos em volta, não fosse aparecer um dos “doutores” para exigir-lhe o dinheiro que  deram para o jornais, que nunca chegaram ao destino.
Manel! — Xico alertou o amigo, colocando-lhe uma mão a impedir o avanço. — Olha ali!
A poucas dezenas de metros, um homem magro de raça negra, cabelo grisalho e barba rala da mesma cor,  atravessava a rua, a partir do centro da rotunda.
É o Manel Preto! — O Passarão reconheceu, assustado.
Que anda esse filho da p** a fazer aqui? Ele quase não sai da Ribeira! — Exclamou Xico olhando rapidamente em em volta. — Não gosto nada disto. Vamos embora!
Puxou o braço do companheiro e aceleraram o passo na direção contrária à do bandido. Contornaram as estruturas das diversões, ali montadas e quase bateram de frente com um magricela de nariz afilado e dentes proeminentes.
Ora vejam só! — Exclamou o recém chegado, com voz fanhosa. — Tone! Ó Tone! Estão aqui!
Cala-te, Pinguinhas do c**! — Exigiu Xico, agarrando o outro pelos colarinhos. — Parto-te os cornos, se o chamas! Foge Manel!
O visado ficou sem saber que direção tomar, enquanto as lágrimas brotavam dos olhos.
De repente, já o Vesgo chegava junto dos três e despachou dois sonoros “cachaços” no pobre Passarão, que chorava agora como uma criança.
Sabes o que me disseram na Ribeira, seu monte de merda? — Perguntou o Vesgo agarrando o cabelo de Xico e abanando-lhe a cabeça violentamente, fazendo-o largar o outro facínora. — Que palmaste seiscentos “paus” a um “franciú”.
Ai! — Gemia a vítima. — É mentira, quem te disse isso?
Terá sido um passarinho, senhor Passarão? — Agora era o Pinguinhas que saltava para chegar e bater no pescoço vermelho do infeliz.
Estás a fazer-me de parvo? — Gritou o bandido, salivando a enorme barba, trocando ainda mais os olhos e sacudindo-o com ainda mais violência. — O casaco do burro do teu amigo de onde veio? É que foste roubar na nossa área, sem autorização e nem sequer deste uma parte ao Manel Preto. Ele já te vai “fazer a folha”! — Tirou um telemóvel do bolso e começou a marcar um número.
Foge, Manel! — Xico atirou o telemóvel ao chão e tentou soltar-se do aperto férreo que lhe segurava o cabelo.
Envolveram-se numa luta, mas Xico, mais franzino, não era adversário para o seu encorpado oponente, que o socou no rosto várias vezes, com violência.
O Passarão, vendo o amigo quase sem sentidos, usou a força que não sabia que tinha e, com um simples empurrão, fez o Pinguinhas voar para o meio da relva e terminar numa grotesca cambalhota invertida. Em dois saltos, estava junto ao surpreendido Vesgo, que foi agraciado com um potente soco, semelhante a um martelo, mesmo no meio dos olhos. O bandido abateu-se como um castelo de cartas.
Recuperando a sua personalidade dócil, o bom gigante ajudou o amigo a erguer-se. Este último, assim que recuperou das pancadas e do espanto, puxou pelo braço do companheiro enquanto gritava um “Vamos depressa!” Correram como loucos enquanto os inimigos se levantavam, atordoados.
Terminado o jardim, havia a rua, com imenso tráfego para atravessar. O Vesgo, vertendo sangue do nariz, estava quase a apanha-los, bufando insultos. Atrás dele corria o Pinguinhas, também de rosto ensanguentado.
Num pânico cego, o Passarão libertou-se da mão de Xico e atirou-se numa desnorteada travessia da estrada. 
Chiar de travagens e estrondos de chapa e vidros contaram o resto da história; Xico assistiu, em choque, ao curto voo do infortunado companheiro, que terminou num baque surdo, como um saco. Caiu de rosto para cima e cabeça ressaltou com força no chão. Bandos de pombas levantaram a um só impulso por todo o jardim.
Gritos de terror e expressões de espanto ouviram-se de vários pontos do jardim e da rua, várias pessoas acorreram à vítima imóvel no chão, mas Xico chegou primeiro. O Vesgo e o Pinguinhas, não querendo ser alvo de atenções indesejadas, desapareceram rapidamente.
Puxou um pouco a cabeça do amigo e pousou-a no nos joelhos. Os olhos estavam raiados de sangue, que também corria fracamente do nariz e da boca. Todo o corpo do gigante tremia, como que acometido de súbita febre.
Que fizeste tu, meu idiota? Porque não esperaste? — Lágrimas corriam no rosto coberto de equimoses de Xico. — Vê o que fizeste!
Xico... — Gemeu fracamente o amigo. — ...achas que vou para o céu?
Não digas isso! Vais mas é para o hospital e eles remendam-te todo, ficas bom num instante!
Eu não quero ir para o céu, Xico! — Também o gigante chorava enquanto tossia espuma rosada. — Não vou para o céu do padre Mateus. — Novo acesso de tosse. — Vou fugir para o céu dos pássaros… achas que me mandam embora de lá...?
As tremuras pararam de repente.
Não meu amigo. — Xico abraçou carinhosamente a cabeça do companheiro, enquanto chorava sem pudor. — Eles não te fariam uma desfeita dessas!
Os dois amigos quedaram-se rodeados por um largo círculo de pessoas, por sua vez cercados pelos automóveis parados nas mais estranhas posições. Por cima das suas cabeças, bandos de pombas esvoaçavam alegremente, umas em volta das outras, como que dando as boas vindas a um amigo há muito esperado.


*** Fim da 4ª parte ***





3-Ausencia Forçada
5-O Regresso