Debaixo dos Céus Os Mundos de Manuel Amaro Mendonça

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Tralhariz - Fonte de inspiração



Tralhariz é uma das mais antigas aldeias da freguesia do Castanheiro do Norte, que pertence ao concelho de Carrazeda de Ansiães, distrito de Bragança.

O nome, pouco comum, segundo o abade de Baçal na sua extensa obra sobre Trás os Montes, deriva de talhariz, e este por calhariz e este por calhandriz, que é um sítio em que abundam calhandras, aves. No entanto já ouvi dizer que estaria especificamente relacionado com o papa-moscas cinzento, ave conhecida por "Tralhão"

A ocupação da zona é muito antiga, pois, nos territórios anexos à aldeia foram encontrados vestígios pré-históricos e castrejos, nomeadamente nos locais chamados da "Pala da Moura" e no "Monte das Chãs". Cerca do ano de 1900, no local da Quinta da Ribeira, ruínas do que teria sido uma vila romana. Normalmente, este conjunto era constituído pela "domus" ou casa senhorial, os edifícios relacionados com a exploração agrícola e um aglomerado de habitações, mais ou menos precárias para os trabalhadores, no entanto, apenas foram encontrados restos de colunas, algumas moedas e vestígios de paredes pintadas e chãos decorados com mosaicos policromáticos, possivelmente por a escavação não ter sido suficientemente exaustiva. As peças que foram levadas pelos arqueólogos, espero que se encontrem nos museus, ou outros lugares públicos, devidamente identificadas, para serem apreciadas pela população da região e do país, mas as ruínas que existiam no local, parecem ter-se perdido para sempre. Alguns historiadores referem que é possível que este núcleo tenha sido destruído durante as invasões bárbaras, no final do império romano, visto haver sinais de incêndio em alguns locais.

A aldeia atual, encontra-se na mesma encosta, mas umas boas centenas de metros acima do local destes achados, na margem esquerda do rio Tua, que vigiando-o sobranceiramente até à sua foz, no rio Douro.

Como todas as aldeias da região do alto-douro, cerca-se de vinhedos e olivais, que são a principal fonte de rendimento da população, em conjunto com a exploração de hortas dispersas.

Tem cerca de dois quilómetros de extensão. A poente, assinala-se um solar brasonado setecentista, construído possivelmente durante uma fase de expansão da aldeia, uma vez que se encontra numa zona mais ou menos periférica, o que só comprova a antiguidade da povoação. Outras casas importantes, embora em melhor ou pior estado de conservação, existem nas zonas mais centrais, como a Casa de São Jorge dividida por várias famílias (conhecida pela Casa do Pátio), ou a casa dos Botelhos, em avançado estado de degradação e descaracterização. O casario estende-se depois em direção a nascente e à sede da freguesia, pelo que era chamado o "caminho do concelho", agora Rua Central e que se subdivide em várias ramificações, os "canelhos", que dão acesso às casas periféricas ou aos terrenos de cultivo. Seguindo essa linha chegamos à igreja da freguesia, do patrono São Brás, no alto do monte que separa Tralhariz do Castanheiro.


Quando comecei as minhas deslocações para esta aldeia, há mais de trinta anos, a paisagem transmontana era-me completamente desconhecida. Conhecia os largos braços da ria de Aveiro, as verdejantes paisagens Gerês ou do Bussaco e as planícies infindáveis do Alentejo. O Douro, era na Ribeira do Porto ou na Foz, pelo que o verde dominante das margens do Alto Douro e as serras a perder de vista, que nos esmagam na nossa pequenez, deixaram-me sem palavras e ainda hoje me emocionam… foi um amor à primeira vista.

As casas humildes de xisto e as opulentas de cantaria, estão firmemente entrelaçadas ao logo da rua central, numa cumplicidade e convivência de séculos, fechadas sobre elas próprias, mas as suas gentes são de coração e braços abertos.
Não é de admirar, portanto, que não consiga evitar de retratar alguns destes aspetos fascinantes nos meus trabalhos e, embora os personagens sejam completamente fictícios, empreguei expressões regionais e modos de falar e agir de pessoas que conheci.

É, no entanto, na paisagem que pretendo focar a minha análise e em "Terras de Xisto" estão patentes estes retratos:
"Nos remotos montes do Norte do país, muito para trás deles, havia uma aldeia. Vista de cima, até não era pequena, com quase dois quilómetros de ponta a ponta. O casario estendia-se ao longo de uma sinuosa rua monte acima ramificando-se em pequenos becos. O ponto mais baixo da rua central era dominado pelo palacete setecentista onde vivia a família mais importante da região e no extremo mais alto pela Igreja tornada rica pelo fervor dos pobres e ostentação dos abastados."

A Maria Sobreira, a protagonista, era filha de um fidalgo que habitava uma casa senhorial afastada da aldeia e a irmã deste, numa outra de cantaria, no centro da povoação. Tratavam-se da Casa de Tralhariz e da Casa do Pátio respetivamente.

A escadaria de pedra do solar, onde caiu André Samões, existe, caminhei nela muitas vezes, não leva às cozinhas, mas sim à entrada principal e a alguns anexos de armazenamento.

Por último, o próprio solar é transformado numa pousada, tal como a "Casa de Tralhariz" é um aproveitamento turístico também.


Em "Lágrimas no Rio", a existência do túmulo de família no chão da igreja, não é exclusivo de Tralhariz, mas o certo é que na igreja da freguesia, apesar de removidos todos os vestígios dos antigos enterramentos, ainda existe uma campa com inscrição visível na capela-mor e pertença de um dos antigos proprietários do solar.

A igreja situa-se num ponto elevado e curiosamente acede-se por dois caminhos que entroncam num só: o "Caminho de Cima" e o "Caminho do Povo". Também em Tralhariz há a Rua Central que atravessa a aldeia em direção à igreja e à sede da freguesia e que é entroncado pela Avenida do Pinheiro Manso, mais recente e que representa o acesso norte do solar. O terceiro caminho referido nesta obra, é imaginado a partir de outra aldeia da mesma freguesia, Foz-Tua, localizada nas margens do rio Douro e a poucos quilómetros de Tralhariz. Da junção das duas localidades imaginei "São Cristóvão do Covelo", anichada à sombra do monte: "Sempre fora o “Caminho de Cima”, que nascia no lado norte do solar dos Montenegro, percorria a parte superior da aldeia, a meia encosta do monte do Covelo até entroncar com o “Caminho do Povo”. Este, passava em frente ao lado sul do solar, atravessava a povoação e encontrava, mais à frente, o “Caminho de Baixo”, que passava entre o rio Douro e as casas e conduzia à estrada principal"

No extremo poente da aldeia, temos uma vista maravilhosa do vale do Tua, ao mesmo tempo que somos assoberbados pela grandiosidade do espaço em redor e, à semelhança de Avelino Montenegro, também eu passei muito tempo, tisnado pelo sol ou mordido pelo frio, a observar a paisagem que não cansa e a ouvir a voz da natureza:  "O nevoeiro deixara um ar húmido e frio, mas límpido. Conseguiam-se enxergar quilómetros, a partir daquele temível promontório, debaixo das nuvens negras e ameaçadoras. O vento, era a voz de Deus, que sussurrava pelo vale com o restolho dos pinheiros e sobreiros das encostas.

De chapéu bem enterrado na cabeça e cachecol a proteger o nariz e a boca, deixou-se ficar por ali, olhar perdido nos montes longínquos. O imponente Marão, no limite do horizonte, exibia as cristas cobertas de neve."


Se em "Lágrimas no Rio", abordei o tema da apanha da azeitona, no conto "Corrécio", a colheita é a das uvas, a vindima que dá vida à região do Douro. A aldeia transmontana espelha bem o velho ditado do povo "Nove meses de inverno e três de inferno" que eu pessoalmente pude comprovar nestes anos e que é referido nesta história: "O sol estonava as pedras da calçada e as paredes das casas causando ondulações de calor transmitindo uma sensação de irrealidade. A rua deserta, que levava ao centro da aldeia e à sua casa, era um forno que o cozia lentamente sem que ele notasse."

"Corrécio" envolve uma vez mais ricos e pobres que, embora incapazes de viver uns sem os outros, travam relações tensas e de reações inesperadas. A vida dos trabalhadores divide-se entre o trabalho no campo quase de sol a sol, a casa onde dormem e ceiam e a taberna, igual a tantas outras por esse trás os montes fora: "O interior era escuro e apenas umas poucas velas davam alguma luz às paredes enegrecidas por décadas do fumo da lareira que acendiam nos dias frios. Três mesas com os respetivos bancos corridos preenchiam o espaço em conjunto com o balcão sebento de milhares de mãos que pousavam moedas e levantavam géneros." No conto "Tudo em Jogo", também a taberna é descrita: "Naquele fim de tarde, a pequena e escura taberna estava enevoada de fumo de tabaco e as vozes tonitruantes de homens enchiam o espaço. 
Por entre as mesas toscas de madeira, ladeadas de bancos corridos, o chão de lajes grosseiras estava manchado e sujo de anos de vinho entornado. Os candeeiros a petróleo, nas paredes de madeira enegrecida, travavam uma luta desigual com as trevas e o fumo que dominavam o estabelecimento. Uma enorme lareira crepitava e emprestava mais um pouco de luz bruxuleante ao ambiente."

De resto, em todas as histórias tentei falar um pouco sobre a vida dura no campo, que pode ser visualizada nos fantásticos painéis de azulejos existentes nas estações ferroviárias do Pinhão e Pocinho, na linha do Douro e que utilizei como capa do livro "Daqueles Além Marão".


E é assim que a minha imaginação vai sendo alimentada com estas paisagens e estas gentes maravilhosas que povoam esta região tão bela, mas que consegue ser tão agreste. Brevemente sairão mais histórias onde as paisagens transmontanas estarão representadas.


Para encerrar, coloco aqui as palavras de agradecimento que utilizei em "Lágrimas no Rio" e que acho que são bem aplicadas neste contexto:
"No alto de um cabeço coroado de granito e espraiando o olhar pela imensidão de montes e vales a perder de vista, é difícil não nos sentirmos esmagados pelo poder da Criação. As fragas ciclópicas, os olivais alcantilados e inacessíveis, as vinhas esculpidas pela tenacidade do Homem, são estes os adornos dos vales do Tua e do Douro e são a minha fonte de inspiração.
O meu agradecimento, vai para o Grande Arquiteto, que estava certamente inspirado, no dia em que criou uma das mais belas regiões do mundo."




Bibliografia

Baçal, F. M.-A. (2000). Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança. Bragança: Camara Municipal de Bragança.
Morais, C. (2014). Por Terras de Ansiães. Carrazeda de Ansiães: Camara Municipal de Carrazeda de Ansiães.
O Archeologo Português. (1900). Estação Romana da Ribeira (Tralhariz). Lisboa: Museu Ethnologico Português.
Queiroz, A. M. (2007). A Casa de Tralhariz e a Capela do Bom Jesus. Edições Universitárias Lusófonas.


quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Palavras por Amor



Recordo um amor antigo, que viveu de sonhos
Por algum tempo.
Que vem até mim, em sonhos disperso.
Sabes de quem falo? Tu, cujos olhos me lêem?
Sabes a saudade que tenho, dos cálidos beijos
E ternos abraços?
Mirrados frutos deste amor que foi ficando,
Encerrado nas folhas que escrevo,
Encarcerado no livro que fecho,
Fechado nas lágrimas que verti,
Em forma de cadeado.
Secas, como as pétalas da rosa,
Conservada de uma saudosa primavera,
Assim ficam estas palavras,
Outrora viçosas.
Recordo o brilho dos olhos, o calor dos lábios
E o carinho do abraço,
Que não mais voltam.
Fica este testemunho, em letras luzidias,
Negro sobre o alvo marfim, 
Aconchegado em capa cinzenta.
Repousa amor, sonho inacabado,
Prematuramente desperto.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Pensei que eras eterno





No meu egoísmo, pensei que eras eterno.
Eterno, como as rochas que enfrentam o mar, dia após dia e não cedem terreno, apesar de não vencerem. Eterno, como as grandes montanhas que, escavadas por rios e mineiros, erguem-se imponentes desafiando as neves e os ventos.

Afinal, eras apenas como um grande castelo, erguido à força de braços e resistindo por décadas e décadas… até que os seus muros, construídos para resistir à força bruta dos bárbaros invasores, começa a derruir, pedra após pedra, cedendo aos elementos e ao tempo. Por fim, já pouco mais eras que uma pequena cerca, apoiada em fortes, mas soterrados, alicerces. Mas era aí que eu recorria, conhecedor da força das tuas bases, a aprender o conhecimento da tua estrutura e desejando um dia vir a ser metade do homem que eras, ter pelo menos metade da tua força.

Mas no meu egoísmo, cuidei que estarias sempre ali para mim. Para me falares na tua voz calma e ponderada, embora poderosa. Darias um excelente orador, se a tua educação de gente humilde, de quem viveu na escravidão dos ricos, não te fizesse tão discreto e receoso de protagonismo. Os anos ensinaram-te as virtudes da invisibilidade e evitar a atenção da inveja e do mal. Quando erguemos uma torre acima da cabeça dos demais, haverá sempre alguém para tentar derrubar, apenas poque não é capaz de a igualar, quanto mais fazer  melhor.

No meu egoísmo, achava que serias sempre o meu porto de abrigo, aquele a quem falava dos meus eventos e dos meus projetos, que escutava e debatia, como sabias debater a maior parte dos assuntos. Eram os frutos da bagagem dos anos e da tua fome de saber, que te levou a devorar tomos e tomos, que guardavas ciosa e orgulhosamente.

Com um golpe no egoísmo, vi-te partir e deixar um enorme vazio, que nunca poderá ser preenchido; antes evitado e escondido, nos recantos da minha memória. Espaço que vou tapando com montes de outros tantos eventos, bons e maus, que compõem a minha vida.

O sol nasce e as serras distantes tingem-se de tons alaranjados. O céu, de um azul puro, tem apenas algumas nuvens dispersas, na promessa de mais um belo dia de agosto. De mais um dia sem ti.


terça-feira, 26 de junho de 2018

Para Um Bem Maior



** Conto agraciado com o primeiro prémio no "Passatempo Mini conto Fantástico FNAC"

“Bastião” estava desesperado.
A vida não lhe corria nada bem e o pouco que ganhara, de “carrejão” durante vindima, fora-se em cartas e copos na taberna do Barnabé. Não queria “ouvir” a Maria a “chagar-lhe” a paciência por causa do dinheiro uma vez mais.
Olhou para as calças remendadas e puídas, que terminavam quatro dedos acima dos socos de madeira. Precisava de comprar umas calças, ou muito em breve ficaria com as ceroulas à mostra.
Já há muito que congeminava um plano, para dar a volta à sua situação financeira, mas não se atrevia a executá-lo: a capela do São Salvador, no alto da pequena colina sobranceira à aldeia, tinha sempre uma boa maquia na caixa de esmolas. Ainda por cima, com a festa do Santo na próxima semana. Já se viam muitos crentes a levar as velas e as moeditas que podiam dispensar, para pedir uma bênção, ou ajudar os pobres… quem mais pobre do que ele? Ficavam os cobres melhor para si, do que com o “papa-hóstias” do padre Figueira, que só sabia beber tinto e “larpar” os salpicões a que deitasse a mão.
De resto, quem é que alguma vez tinha recebido algum tostão dos que lá se punham para os pobres? Ele é que não! Pelo menos até hoje… Sorriu de si para si enquanto deitava nova olhada pela rua de terra batida que atravessava a aldeia, onde não se via vivalma.
Era noite e as nuvens de trovoada acumulavam-se sobre o vale desde o fim da tarde, o ribombar distante anunciava a possibilidade de uma forte chuvada para breve e todos na povoação se recolheram cedo para a ceia e para dormir, que amanhã seria um novo dia de duro trabalho.
Disfarçadamente, caminhou pela rua escura, sem acender candeia ou luminária, não fosse verem-no por lá. Fracos fios de luz escoavam-se pelas generosas frestas das portas das casas e aqui ou ali, ouviam-se as vozes dos adultos que se não haviam ainda deitado.
Passou em frente à pequena igreja e benzeu-se rapidamente, feliz por perceber que, nem o “Manel maluquinho”, que andava sempre pela praça, estava à vista naquele dia. Não apareceria de repente com a sua voz distorcida e gutural a pedir “Tostãozinho, pelas almas!”
Apressou o passo e lançou-se no caminho processional que subia ao santuário, oculto pela sombra das árvores, esperando não sujar os socos nalgum “presente” deixado por cavalo ou vaca.
Chegado ao alto do monte, a visão era ainda mais impressionante: os céus refulgiam com o luar que brilhava em volta das nuvens negras que pairavam sobre o vale. A espaços, vibravam clarões, brevemente respondidos por um retumbar longínquo.
A pequena capela estava obviamente fechada e Bastião abanou a porta com força, fazendo-a estremecer, mas não ceder. Resmungou baixinho… não tinha pensado bem naquilo, devia ter trazido um ferro…
Deu a volta ao edifício, espreitando pelos buracos de introdução das esmolas; a luz bruxuleante das velas, no interior, prometia-lhe um pouco de luz sem levantar suspeitas… pelo menos assim que entrasse. Tornou à entrada e avaliou a enorme fechadura de ferro, comida pelos anos…
Ergueu o pé e desfechou uma “patada” bem no meio da porta, sendo recompensado com a sua abertura de par em par, sem mais resistência. Felicíssimo saltou para o interior e fechou-se rapidamente.
O exíguo espaço que pouco mais daria do que para umas dez pessoas em pé, estava iluminado por uns quantos cotos de velas, ardendo nos suportes dedicados às promessas. A luz tremia ainda, perturbada pelo rompante da invasão, dando ao local um aspeto ainda mais fantasmagórico.
Na parede fundeira, uma espécie de altar e a cruz com O Crucificado em agonia, que era usada com muita devoção nas procissões, ocupavam quase todo o espaço. Dos lados, prateleiras com imagens de santos de vários tamanhos, velavam. Entre elas, uma imagem de São Pedro, olhava-o acusadoramente, empunhando a chave com uma mão e apontando o céu com a outra.
Ajoelhou-se frente ao altar e pediu perdão por aquilo que estava prestes a fazer:
"Senhor Jesus perdoe-me pelos meus pecados e pelos maus tratos que dou à minha mulher, que é uma santa… às vezes… outras vezes, torna-se o diabo em forma de gente e eu tenha de lhe “arriar” para a “pôr nos eixos”. Prometo que não volto a beber… tanto e que só vou jogar… uma vez por semana… ou duas."
 Usou os seus melhores argumentos, para justificar que o facto de se ir apoderar das esmolas, mais não era do que encaminhá-las para quem realmente precisa e para um bem maior, que não o engrandecimento da já enorme “pança” do padre Figueira, "Que o Senhor Jesus bem sabia como ele era." 
Assim que achou suficiente, agradeceu diversas vezes, benzeu-se e beijou os pés da sacra imagem, após o dedicou a atenção ao aloquete da caixa das esmolas. As letras ingenuamente escritas "Esmola para as Almas", tremeluziam como que recordando o sacrilégio que ia cometer. 
Estacou com um ruído que lhe pareceu ouvir… gotas de chuva começavam a cantar no telhado. Recomeçou a avaliação e tentou abrir o fecho com a faca cheia de bocas, sem sucesso.
Agarrou nas imagens dos santos e pousou-as cuidadosamente no chão, em seguida, apoderou-se da prateleira onde elas estavam e bateu com ela sobre o aloquete. À segunda pancada partiu-se a tábua, mas o fecho também cedeu e uma torrente de moedas negras, algumas muito maltratadas, choveu aos pés do salteador. Rapidamente iniciou a recolha para o saco de lona que trouxera. Eram basicamente moedas de dez e vinte reis, mas demorou-se uns segundos a mirar uma ou outra de cinquenta reis e os olhos brilharam, quando achou dois tostões, duas de cem reis e mais três meias patacas, de cento e sessenta reis cada.
Encolheu-se. Pareceu-lhe ouvir alguém lá fora e ficou em silêncio. Uma moeda retardatária tilintou em cima das outras. Empunhou a faca e espreitou para a escuridão no exterior… a chuva caía copiosa, o vento soprava e relâmpagos longínquos rasgavam o céu. Não era possível ver a mais de três ou quatro metros de distância. Regressou e apressou-se a recolher o saque.
Deitou um último olhar aos santos; São Pedro continuava a olhá-lo acusadoramente, ameaçando-o com a justiça divina. Voltou a imagem para a parede e pôs o saco às costas. Benzeu-se para o enorme crucifixo. Uma forte rabanada de vento escancarou as portas e todas as velas se apagaram. O rosto de Cristo parecia refulgir com a luz dos relâmpagos.
"Perdão, meu Deus", gemeu estarrecido, antes de sair para a intempérie.
Mal deu dez passos, quando deparou com uma aparição, coberta da cabeça aos pés, que lhe barrava o caminho e estendia as mãos.
Soltou um grito estrangulado e caiu para trás, petrificado, tilintando centenas de moedas pelo chão empedrado. O seu rosto numa máscara de terror, focou o céu iluminado pela trovoada, enquanto a assombração se debruçava sobre ele. Com os olhos esbugalhados, inspirou atabalhoadamente três vezes e depois, parou para sempre…
A sinistra e andrajosa aparição, coberta com uma grosseira lona, inclinou-se para o corpo sem vida e exclamou:
"Tostãozinho pelas Almas"


quinta-feira, 7 de junho de 2018

SG Magazine, uma revista Sui Generis

SGMag - Maio 2018

E ele aqui está. O número quatro da SG Magazine. O belo rosto da jovem e talentosa autora Sandra Boveto, alvo de uma extensa entrevista logo nas primeiras páginas, é um excelente convite a abrir e ler mais este número.

Ao longo das 256 páginas que o compõem, o editor Isidro Sousa, aborda os eventos da "família Sui Generis", como vários lançamentos de livros e reportagens de algumas das apresentações. A sua qualidade de trabalho não pára de me surpreender e o seu trabalho é notado, pois também ele já foi capa da revista "Divulga Escritor" da minha amiga Shirley Cavalcante.

Número especial dedicado a Portugal - 2016

Voltando às apresentações literárias, destaco aqui a da obra "Nos Novelos da Memória", da minha amiga Teresa Morais, onde tive o enorme prazer de estar, junto com vários outros amigos e amantes da palavra escrita, como Fernando Morgado, Suzete FragaNatália Vale, Natércia Isabel Morais e Raquel Garcez Pacheco, numa sala bem cheia, como ela merece. 




Existe espaço também para as "short stories", os contos, que parecem estar na moda. Imensos contos de vários autores desta "família" e também imensos textos poéticos.

Mesmo num mundo onde cada vez mais se lê menos, não conseguimos deixar de debitar os nossos sentimentos e contar as nossas  histórias para o papel.

Leia! Estes autores não se prendem com o lucro e a sofreguidão de vender livros, o prazer deles é o de escrever para que os leitores leiam. O seu prazer é saber que leram aquilo que foi escrito, se gostam, já é outra questão.

O Isidro não se esqueceu de mim e, para meu grande orgulho e satisfação, junto com tantos autores talentosos, publicou o meu conto, "Natal em Família". É aqui que se distingue o trabalho de um profissional de um simples copista que se limita a "copiar e colar" os textos para um livro ou uma revista; toda a história está ilustrada com imagens perfeitamente enquadradas.

No fim, ainda recordou alguns dos meus trabalhos em antologias, bem como os livros exclusivos já publicados.

Natal em família


Não se pode deixar passar o excelente artigo da autora Sara Timóteo, sobre o fantástico Stephen King, apesar de extenso, vale a pena ler e saber um pouco mais sobre ele.

Foi um prazer imenso ver que o mundo da lusofonia está ativo e saudável e esta família Sui Generis não desiste e está presente.

Bem hajam






quarta-feira, 30 de maio de 2018

Hoje escrevi um poema



Hoje escrevi um poema
Mas guardei-o para mim
Já é meu costume, pensar
E esconder as coisas assim

Hoje escrevi um poema
Que ficou assim, assim
Eu não sei escrever poemas
Embora às vezes pense que sim.

Hoje escrevi um poema
Mas escrevi-o para mim.
Gastei a tinta e o papel
Mas vou guarda-lo mesmo assim.

Hoje escrevi um poema
Com o rosto carmesim
Pelas ingenuas palavras
Que escrevi aqui assim.

Hoje escrevi um poema
Um poema, pois sim
Escrevi palavras tolas
Escrevi-as para mim.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Uma Casa nas Ruas - 8ª e última parte

KARMA


A inesperada “herança”, de perto de cinco mil euros, que o Vesgo escondera, foi uma verdadeira dádiva de para para os dois amigos. Foram, de “carro de praça”, a Castro Daire comprar roupas, comida e os tão necessários medicamentos para o Zé. Puderam também fazer algumas reparações na casa, sempre acompanhados de perto pelo “passarão” que não os abandonava, vigiando de perto os seus movimentos e assobiando as suas “canções” para os distrair.
Animada com a transformação de Xico, Maria Alice chamava frequentemente a dupla para almoçar e, por vezes, pedia-lhes ajuda para cuidar do gado, vacas e porcos,  que, junto com um pequeno pomar, eram a sua fonte de rendimento.
Estava-se no fim de Outubro. O dia passara dominado por um sol inusitado, enquanto ajudaram no embarque de alguns bovinos para o matadouro. Terminaram a jantar em casa da proprietária e após isso, a ti Joana, a velha matriarca, ficou-se a ressonar mansamente no cadeirão, em frente à televisão, enquanto Zé e Daniel brincavam com os dois gatos da casa. Xico e Maria Alice vieram para a varanda das traseiras da casa, debruçada sobre a propriedade. Depois do dia quente, a noite estava fresca, embora bem iluminada por uma lua de prata, que ofuscava as estrelas do céu de veludo negro, sem nuvens.
—    Foi um bom dia da trabalho! — Afirmou ele, quase que de si para si, olhando para a noite, onde se distinguia, quase no horizonte, o clarão das luzes da vila.
—    Sim. — Ela concordou, encostando-se ao pilar da varanda, ao lado dele. — Se não fosse a vossa ajuda, não conseguiríamos embarcar tudo agora de tarde. Estou-vos muito agradecida. Acho mal que não queiram receber pelo trabalho.
—    Estás maluquinha? — Ele levou o copo de aguardente velha à boca, antes de continuar. — Depois de tudo o que tens feito por nós? Sempre a mandar comida e a convidar-nos?
—    Mas a vossa ajuda tem sido muito importante. Desde que, um dos homens que tinha a cuidar dos animais emigrou, os dois restantes queixam-se de muito trabalho e um deles tem faltado muitas vezes. — Alice inclinou-se sobre a balaustrada.
Xico apreciou longamente o corpo bem proporcionado da amiga, respeitando o silêncio dela, que olhava fixamente as sobras fora da área iluminada pela casa.
—    Estive já para vender os bovinos todos. — Continuou ela. — A morte do meu marido trouxe-me muito trabalho, mas fui aguentando. A emigração levou-me um empregado, mas não tarda leva-me outro. Na aldeia só há velhos e na vila ninguém quer trabalhar aqui. Agora, com a crise, compra-se menos e mais barato, mandar vir gente de longe, torna-se incomportável.
—    Mesmo assim, tens feito um excelente trabalho. — Reconheceu ele, olhando-a no olhos enquanto ela se endireitava. - É uma pena desistir.
—    Eu não quero desistir. Até quero comprar mais. O senhor Duarte tem mais uma dezena de vacas e um touro que quer vender. Quer reformar-se, os filhos estão para fora e não querem saber de nada.
—    Ele quer muito dinheiro?
—    O dinheiro nem é o problema principal. — Alice devolveu-lhe o olhar, com intensidade. — Embora também tenha que ser considerado. O problema é o pessoal, o que me leva… — Baixou os olhos e tornou a voltar-se para a escuridão, enquanto retorcia uma ponta da fralda da camisa, com os dedos finos mas fortes.
—    … que te leva a pedir-nos ajuda. — Concluiu Xico, esgotando o copo de uma golada. — Queres contratar-nos.
—    Mais do que ajuda. — Ela tornou a voltar-se para ele e tirou-lhe o copo da mão, com que ele brincava perigosamente e pousou-o na pedra da balaustrada. — Quero que sejas meu sócio.
O convite apanhou-o de surpresa e o seu rosto não conseguiu esconde-lo.
—    Não te agrada a ideia? — Ela corou, enquanto ele pegava de novo no copo e retomava os malabarismos com o pé entre os dedos. — Entravas com algum dinheiro para a compra da nova manada e passavas a trabalhar em tempo inteiro na quinta. Tu e o Zé, que foi uma agradável surpresa ver tudo o que consegue trabalhar, apesar das limitações.
Os olhos dele, fitava-na, vazios. Olhava-a, mas o seu pensamento estava longe. Brincava com o copo, mas tardava em responder. Irritada, ela tornou a tirar-lho e a pousa-lo novamente.
—    Não tens nada a dizer? — Começava a arrepender-se da proposta, que por alguma razão, parecia não lhe agradar. — Não queres, pronto, deixa! Faz de conta que eu não disse nada!
Desconcertado, ele volveu os olhos para o chão e reatou a “brincadeira” com o copo. O rosto estava corado e parecia ter dificuldade em respirar.
—    Nunca tive nada realmente meu. — Falou por fim, com os olhos húmidos. — A minha pobre mãe ficaria orgulhosa... o que eu a fiz sofrer.
—    Oh, meu pobre querido. — Ela tirou-lhe o copo das mãos e arremessou-o para a escuridão. Depois abraçou-o e beijaram-se demoradamente.
Não muito longe dali, um melro assobiava uma melodia feliz.
O negócio foi de vento em popa e em breve acabaram por se mudarem para a casa de Alice, maior e com melhores condições. Apenas um ano depois de regressar a Pepim, Xico passara de um vagabundo das ruas para um proprietário de sucesso. As pessoas que o olhavam com desprezo, agora pensavam melhor nas suas atitudes e até a mulher do Manuel da mercearia parecia simpática.
A única nuvem negra na sua nova vida, foi o dia em que um BMW preto chegou à aldeia e parou em frente à casa onde ele nasceu. Uma mulher jovem e bonita saiu e dirigiu-se à porta. Xico correu.
—    Menina, posso ajuda-la? — Ele apreciou o corpo bem feito, cabelo comprido negro, blusa vermelha e saia preta, com sapatos de tacão alto.
—    Xico? — O rosto moreno dela olhava-o com curiosidade.
—    Desculpe, eu… não… Luísa? — Arregalou os olhos, de espanto.
—    Sim, é verdade. — Confirmou ela sem sorrir. — Sou mesmo eu, a tua irmã.
—    Estás linda! — Ele estava sem saber como reagir. — Eras uma menina…
—    Sim, era uma menina. — A boca dela torceu-se num esgar de desagrado. — Uma menina que tu deixaste junto com a nossa mãe, sem dinheiro e com a vergonha dos roubos que cometeste.
—    Sim, tens razão. — Ele baixou os olhos. — Agi mal, peço-te que me perdoes.
—    Perdoar, eu? — Os olhos brilhavam de raiva. — Quem tem que te perdoar já não pertence a este mundo. Eu não tenho que te perdoar nada porque nem sei quem és. Telefonaram-me a dizer-me que estavas cá e eu não acreditei no teu desplante, tive que ver com os meus olhos.
—    Não fiques com raiva de mim, Luísa. Eu mudei, já não sou o mesmo canalha que fazia aquelas barbaridades.
—    Eu não sei quem tu és! O meu irmão morreu há muito tempo! Morreu, no dia em que se foi embora, morreu, cada vez que uma vizinha vinha reclamar que foi roubada, morreu, cada vez que nos faltou a comida no prato porque o dinheiro era pouco para tapar as vergonhas que nos deixaste… — Gotas, como pérolas, corriam no rosto belo. — … morreu, em cada lágrima que a nossa mãe verteu por ti, apesar de todo o mal que lhe fizeste. Mesmo assim, conseguiu o suficiente para eu acabar o curso… morreu cedo, porque tu acabaste com ela.
—    Eu agi muito mal, irmã, eu sei. — Ele tinha os olhos rasos de água. — Diz-me o que posso fazer para te compensar.
—    Nunca poderás compensar-me!  — Luísa espetou o indicador na direção dele. — Formei-me enfermeira e casei com um médico, não me falta nada, não preciso de ti para nada… agora. Achavas que aparecias agora, pedias desculpa e um raio divino descia dos céus e perdoaria tudo o que fizeste e comporia toda a dor que aqui deixaste? As coisas não funcionam assim, Deus é grande e ainda hás-de pagar pelo mal que nos fizeste. Já não és meu irmão, porque ele morreu há muito tempo, és apenas um vagabundo que arrombou a MINHA casa.
—    Tua casa? A casa era da mãe, é nossa. — Protestou fracamente.
—    Não sei quem és, para mim és um intruso! Não quero ter nada a ver contigo, na hora em que decidires roubar mais dois ou três vizinhos. Abandonaste-a, não tens mais direito a esta casa, sai ou mando cá a policia expulsar-te!
Voltou-lhe as costas, decidida, mas com as lágrimas a correr no rosto, entrou no carro e arrancou violentamente.
Maria Alice como que se materializou ao lado dele e agarrou-lhe um braço, enquanto sussurrava suavemente:
—    Deixa lá. A minha casa é a tua casa, não precisas dessa. Não te deixes abater, ela está muito magoada e tem a sua razão… perdoa-lhe… pode ser que um dia ela consiga fazê-lo para contigo também.
 Depois da dor inicial, acabou por esquecer e perdoar o facto da irmã o não conseguir.
Com o tempo, a árdua vida de trabalho, aliada ao doce convívio com Alice e o filho, a amizade do Zé e do Manel, começou a produzir efeitos e a apagar gradualmente as memórias dos maus tempos nas ruas do Porto, que pareciam afinal, vividas por uma outra pessoa.
Beneficiando do abandono das terras e da desertificação da aldeia, comprou mais terrenos e escreveu à irmã para que fizesse um preço sobre a casa dos pais. A resposta nunca chegou.
Maria Alice estava grávida, ao fazer dois anos do regresso de Xico. Tinham mais funcionários e ele via-se obrigado a circular entre as propriedades, não se demorando muito em nenhuma. Possuíam já umas boas centenas de cabeças de gado bovino, caprino e suídeo. Estava a revelar-se um bom gestor e multiplicara muitas vezes o património obtido de forma pouco honesta.
Um dia, regressava de supervisionar a tosquia das ovelhas, quando viu o jipe da GNR parado em frente da casa de sua mãe e dirigiu-se para lá. Maria Alice, com a sua barriga de fim de gravidez, gesticulava para dois guardas, enquanto Zé tentava acalma-la, segurando-lhe um braço.
Xico acelerou e parou o seu jipe mesmo ao lado do da força de segurança e saiu de rompante.
—    Que se passa aqui? — Perguntou cheio de autoridade, correndo para o grupo.
—    Não venhas, Xico, foge! — Alice chorava e gritou para ele assim que o viu.
—    Francisco Soares? — Um dos guardas acorreu a cortar-lhe o caminho para a viatura, postando-se frente a ele, com a mão no coldre da pistola. — Está detido como suspeito do homicídio de António Ferreira, também conhecido como Tone Vesgo.




****** FIM ******




 

7 - Criar Raízes
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