A chegada de Daqueles Além Marão

Publicado em 2017, deveria ter sido lançado por uma editora pela obtenção do primeiro lugar num concurso.

Capa de Terras de Xisto e Outras Histórias

Um livro de contos diversos onde circunstâncias dramáticas obrigam os personagens a contrariar a sua própria natureza.

Capa de Lágrimas no Rio

A pacata aldeia de São Cristóvão do Covelo sofre um terrivel cataclismo que vai revelar forças estranhas.

A Amazon apoia a publicação independente

Todos os meus livros são publicados pela Amazon de forma independente e não exploradora. Estão à venda em todo o mundo.

A família de livros "Debaixo dos Céus" continua a crescer desde 2015

Desde a publicação de "Terras de Xisto" em 2015 até "Entre o Preto e o Branco" em 2020, vão milhares e milhares de palavras escritas.

A capa de Daqueles Além Marão

Os contos aqui incluídos têm todos protagonistas transmontanos. A capa escolhida é feita a partir dos azulejos da estação ferroviária do Pinhão, na linha do Douro.

A chegada de Terras de Xisto e Outras Histórias

Foi emocionante a entrega destes livros, os primeiros publicados em exclusivo com o meu nome.

A chegada de Lágrimas no Rio

As primeiras apresentações que fiz foram desta obra.

A capa de Entre o Preto e o Branco

A primeira capa 100% desenhada por mim, com recurso a uma foto royalty free.

A chegada de Entre o Preto e o Branco

Como das vezes anteriores, quando chegou a primeira remessa já estava toda vendida.

domingo, 28 de fevereiro de 2021

A Promessa



Bruno conduzia a velha motorizada, em velocidade, a caminho de casa, na noite fria de inverno. O impulso que trazia era mais devido à inclinação da estrada do que propriamente pela potência do cansado motor. A ausência de receio nas curvas apertadas, essa, era devido aos copos de tinto que sorvera na tasca do Guedes, por entre as cartas da sueca e as anedotas porcas com amigos e colegas de trabalho. Na saca do almoço, presa na grelha traseira, seguiam duas garrafas de verde tinto, de beber e chorar por mais. Não seria a estrada serrana e as bermas compostas por penhascos de dezenas de metros, que haveriam de atrasar ainda mais o regresso ao covil onde habitava a sua Madalena. A adorada esposa, por estas horas, havia de estar a soprar fogo pelas ventas, com o retardo do marido, em dia de recebimento.

Cumpriram-se naquele dia quarenta e oito anos, que saíra do ventre prenhe de sua mãe, de onde haviam saído os outros sete irmãos em anos anteriores. Começara a trabalhar nas obras de construção civil aos onze. A família não podia manter quem não contribuía para o rendimento mensal, fortemente debilitado pelo consumo desregrado de tabaco e vinho do pater familias, também ele “mestre” trolha. Por isso, “deu com os lombos” a trabalhar nas construções, ao lado do pai, logo que terminou a escola primária. Estava-se nos últimos anos da ditadura não precisava de estudar mais. Não se pense por isso que o trabalho lhe fora facilitado, nunca esqueceu as “lambadas” que levava cada vez que se demorava a entregar o que lhe pediam, ou os dolorosos chutos nos fundilhos, que descarregavam a frustração do progenitor.

Agora, com estes agravos quase diluídos nos anos que se passaram, resolvera passar pela tasca, festejar e beber um copo com os amigos, depois de um dia muito longo. Bem sabia que prometera a Madalena não tornar a gastar na taberna o que lhes fazia tanta falta, mas que sabia ela das necessidades de um homem? "Reduzi aos cigarros e deixei de passar na tasca todos os dias, não deveria haver uma compensação de vez em quando? E afinal, para que servem as promessas, se não for para serem quebradas?" Argumentou para si próprio. "Se ela se puser com muita conversa, ainda vai enfardar uns tabefes."

Ruminava nestes pensamentos desde que saíra do estabelecimento, já noite, mais leve cinquenta euros, de cabeça pesada e ouvidos a zunir. O barulho irritante do motor da motorizada tornava-se quase hipnotizante, mesmo na estrada sinuosa e reluzente do gelo que se começava a formar nos pequenos fios de água que atravessavam o asfalto. O capacete parecia-lhe cada vez mais pesado e as pálpebras pareciam ficar coladas quando as fechava. Foi num ápice que sentiu o motociclo deslizar numa curva gelada e se viu, impotente, a rebolar para berma até se lançar no vazio.

Após uns segundos de incredulidade, tomou consciência da sua situação. Estava em cima de uma árvore seca, um velho castanheiro, debruçado sobre um barranco de mais de dez metros. Conseguia divisar a vegetação, no escuro, a acompanhar todo o declive até quase desaparecer de vista no fraguedo que o aguardava no fundo.

— Meu Deus! — Gemeu alto, aflito. A árvore estremeceu, ameaçando soltar-se e ele teve de agarrar-se com mais força.

Olhou o céu gélido, coberto de pequenos pontos luminosos, onde reinava o enorme disco prateado que parecia olhá-lo desdenhosamente, perfeitamente insensível ao seu drama. Olhou a toda a volta, em busca de uma solução para o seu problema, antes de se tornar a focar nas ominosas fragas que representavam, estragos muito dolorosos, se não mesmo a morte. O tronco onde se agarrava estremeceu de novo, avisando-o que tinha de arranjar uma solução urgentemente.

— Meu Deus! — Recomeçou, olhando o céu. — Minha Nossa Senhora de Fátima, pedi por mim a Nosso Senhor que perdoe as minhas faltas.

Como resposta, o castanheiro deu mais um sacão, soltando terra e algumas raízes, ameaçando colapsar a qualquer momento. Com uma lentidão exasperante, todo o tronco começou a inclinar-se para o vazio. Um verdadeiro réptil, Bruno rastejou sobre os ramos, procurando o corpo principal da árvore

— Eu prometo, Meu Deus! — Chorou, arrastando-se ao longo do tronco, tentando chegar às giestas que se eriçavam no declive. — Eu vou cumprir a promessa feita à minha Madalena. — Mais uns centímetros de inclinação, arrancaram a promessa final. — Eu deixo de beber, eu juro, eu prometo! Não volto a levar um copo aos lábios, Meu Deus, deixa-me voltar para a minha doce Madalena!

Ao invés de tombar de uma vez, o castanheiro encostou-se completamente ao declive, permitindo a Bruno agarrar-se com todas as suas forças à vegetação rasteira e iniciar a escalada para a salvação. Um enorme monte de terra saliente assinalava o local onde a raiz se libertara, deixando uma cratera. Na subida, teve de se esquivar das pedras e terra solta que parecia querer acompanhar a arvore na sua caminhada final.

— Obrigado Meu Deus! — As lágrimas, sangue e o muco do nariz, misturados com a terra, transformaram-no numa criatura de terror. Os cotovelos e os joelhos sangravam em manchas no vestuário. — Eu prometo, Meu Deus, eu prometo! — Arrastou-se, exausto, para a berma do asfalto e deitou-se no chão, a chorar desabridamente.

Cerca de um metro à sua frente, a pasta do almoço estava tombada e aberta, a marmita espalhara os restos do arroz misturando-os com o carmim de uma garrafa que se quebrara na queda. A outra, intacta, rebolara na sua direção.

Bruno sentou-se no chão e apanhou a vasilha, mirando-a com a saliva a formar-se na boca. Atrás e abaixo dele, o velho castanheiro devia estar a arrastar um pedaço da encosta, na sua agonia. Tirou a rolha, limpou o gargalo com a manga e deu dois grandes goles.

— Tendes de me perdoar Meu Deus. — Exclamou passando a língua nos lábios húmidos do néctar. — Preciso mesmo de uns goles… além do mais, eu prometi que não tornaria a levar um copo à boca, não uma garrafa.

Soltou uma gargalhada que ecoou no vale, mas foi a última, pois, no seu apego à terra onde nascera, o carvalho provocou uma enorme avalanche e metade da estrada foi arrastada, levando o perjuro para a sepultura, numa torrente de terra e pedras.


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Será que ainda ouves?




Às vezes pergunto-me se ainda me ouves... se ainda nos ouves... lá no lugar distante para onde partiste.

Será que nos vês? Será que sentes o que sentimos? A dor que se ferrou em meu peito e que eu calco e sufoco, para os recônditos mais fundos da minha alma. 

Que é feito dos nossos murmúrios, das nossas preces? Será que os ouves? Quando rezo ao Criador ou peço à Sua Santa Mãe que interceda por nós... consegues escutar as minhas palavras? Logo as minhas, que fui o  teu filho mais ausente.

Penso que ainda ouço a tua voz, por vezes. O teu conversar calmo e sereno, a tua paixão, quando falavas das coisas que gostavas.

Às vezes, tenho de olhar para as fotografias para recordar o teu rosto e vejo que não estava esquecido. Estava lá, onde sempre esteve, entre as coisas bonitas e boas da minha vida, no sótão desarrumado e poeirento das minhas memórias. Entre as coisas que guardo com carinho. 

A imagem que vejo, porém, não é daquele involucro quebrado e triste, mas do homem que sempre foste, lutador e vencedor, ainda que a duras penas. Foste sempre o meu herói. Mesmo naquela idade estupida em que achamos que sabemos tudo, lembras-te que muitas vezes procurei o teu conselho... ainda que não vezes suficientes.

Mesmo quando eu estava longe, sabia onde estavas e isso era um conforto para mim, no meu egoísmo. 

É verdade que não falamos as vezes que merecias, nem as que eu gostaria, muito menos as que deveria. Mas os nossos olhos falavam muito e a minha ligação contigo sempre foi muito de poucas palavras, porque o amor não se fala nem se escreve, sente-se. E eu sinto.

Sinto a tua falta, tenho saudades de ti e da tua voz, mas não o quero dizer.

Também no dia em que te foste eu estava ausente. Tive uma noite agitada e confusa, onde tu e a tua situação não saiam dos meus sonhos, até à hora em que, naquela manha de verão, me telefonaram a dar as piores notícias. Sei, por isso, que tive lugar nos teus últimos pensamentos, que não duvido foram de amor para a tua mulher e teus filhos.

Gostava porém de te ter ouvido uma última vez, a mentir-me, a dizer que ia ficar tudo bem. 

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Acordar

 


Rosa mexeu-se debaixo dos cobertores. Manteve a cabeça coberta pois não queria sair para o ar, que sabia estar frio. Ainda estava meio a dormir e deixou-se estar a ouvir os barulhos da casa: conseguia escutar os sons na cozinha: portas dos armários a fechar e talheres e pratos em movimento. A sua mãe deveria estar a preparar o pequeno almoço, bem quentinho, que ela devoraria num ápice. Depois sairia a correr para ir ter com a sua melhor amiga, despachando um veloz “Até logo, mãe!”,  para as brincadeiras e correrias, mesmo quando tinha de ir à fonte buscar a água, nos tempos em que não havia canos que a entregassem em casa. Mas essas eram memórias antigas; o tempo em que vivia com a mãe, o pai, o avô e a avó numa modesta casinha. Já todos partiram, envoltos nas brumas da memória, há muito, muito tempo…

Relutante, espreitou por entre a roupa, enfrentando a luz que inundava o quarto; aquela não era já a pobre habitação dos seus pais, mas a casa que ela e o marido construíram com grande esforço. Agora, que os filhos já tinham seguido cada um o seu próprio rumo, parecia maior que nunca. Recolheu-se de novo para debaixo das mantas e esticou a mão para o outro lado da cama, vazio e frio. “Poderia ser ele quem estava na cozinha.”, pensou, tendo a noção de ainda não ter despertado completamente, “E daqui a pouco vem aí, ver se já acordei.” No sono semiacordado viu-se vestida de noiva, cercada da família de ambos, saindo da igreja num dia de sol… tantos que eles eram… e quase todos já deixaram este mundo. Olhou a sua mão pálida e enrugada e teve a noção de que também ele, companheiro de uma vida inteira, se fora. Como todos os outros, não passava agora uns quantos fios que as Parcas fiaram e urdiram quando desenharam o seu destino, entrelaçado no dele.

A imagem do seu próprio rosto liso e pele macia, de longos cabelos negros ainda estava fresca na sua memória, quando a porta do quarto se abriu suavemente deixando espreitar uma sorridente senhora na casa dos cinquenta anos.

— Bom dia dona Rosa. — Saudou melodiosa a recém-chegada. — Então, não queremos acordar hoje? Já cá estou há um pedaço, mas estava a dormir tão bem, que não a quis acordar. Sente-se melhorzinha hoje? Vamos fazer a higiene e tomar o pequeno almoço?

Com esforço, Rosa sentou-se na cama e esfregou os olhos que fitou na imagem do espelho da comoda, mesmo em frente à cama: uma octogenária, de rosto enrugado e alvos cabelos revoltos, estava sentada numa cama em desalinho e devolvia-lhe o olhar.

— Vem almoçar à cozinha? — A cuidadora insistiu.

— Sim, vamos. — Respondeu com as lágrimas a correr no rosto. — Mas tape-me esses espelhos, que eu não quero ver essa velha!


segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Porto Cor-de-Roxo de Fernando Morgado

 


Encontra-se à venda desde o dia 7 de janeiro, o novo livro de Fernando Morgado, escritor e poeta portuense, que já nos habituou à divulgação do seu trabalho nas páginas do Facebook. A capa, de minha autoria, com imagens fornecidas pelo próprio, é um trabalho do qual me orgulho particularmente.



Fernando Morgado

Depois da sua participação como convidado na antologia "Heranças" do grupo Pentautores (Ana Paula Barbosa, Carlos Arinto, Jorge Santos, Manuel Amaro Mendonça e Suzete Fraga), sentiu que era a altura de ter uma obra apenas sua. O momento certo para publicar o seu amor pelo Porto, a sua história e as sua gentes, sem esquecer o sotaque que nos faz tão característicos e do qual se orgulha particularmente.

Ao longo de cerca de 260 páginas, o autor conta-nos histórias de amor e histórias tristes, que muitas vezes são uma e a mesma coisa, enquanto desfia o linho e tece um tapete em texturas de amor e dor.

Com prefácio de Suzete Fraga, a autora de "Almas Feridas",  este é um livro que vale a pena ler, para aqueles que amam o Porto e também para os que aprenderão a amá-lo.

Não deixe de ler "Porto Cor-de-Roxo"



Esta obra pode ser adquirida em qualquer sitio da Amazon na internet,  através do e-mail do autor ou poderá mesmo contacta-lo diretamente pelo Facebook.


sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Entre o Preto e o Branco no Minho Digital

 

Mais uma divulgação dos meus trabalhos. No semanário Minho Digital, editado pelo jornalista Manso Preto, foi publicada a entrevista que dei à revista Divulga Escritor sobre o lançamento do meu livro "Entre o Preto e o Branco" lançado em 2020, em plena pandemia.

 





quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Saudades do Mar


Está este 2020 de má memória nas vascas dos últimos dias. 

Desde fevereiro que o mundo é reinado pela Peste, o primeiro dos cavaleiros do apocalipse, segui-lo-ão os outros três malditos? Quase posso escutar o seu tropel distante...

Cansado de recolhimento, fui ver o mar. Apesar de viver a poucos quilómetros, há uns meses que não ia à praia. 

As estátuas lá estavam, representando uma tragédia distante, num desespero sempiterno, imóveis em gestos impotentes e bocas hiantes em gritos mudos de quem gritou e chorou há tantos anos atrás.

O céu de chumbo repousa sobre o mar calmo e sereno com as ondas suaves que o perturbam de quando em quando. As nuvens que parecem repousar nas águas reluzentes da luz que parece prometer um sol distante. Lembrei-me das palavras Do Livro: 

 "E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus movia-se sobre a face das águas.Gênesis 1:2

Neste cenário primevo, as gaivotas voam baixo, ou dão risadas, em grupos amontoados nas areias planas, junto à rebentação, sem respeitar o distanciamento social.

O calçadão está deserto e apenas um corredor, quase no limite das forças, passa por mim, ignorando-me no castigar do seu próprio corpo. No areal, uma mão cheia de surfistas prepara-se para cavalgar as ondas envergonhadas, talvez já arrependidos de terem saído da cama para um mar tão calmo.

Cheguei por fim à gigantesca "Anémona", que vigia o Castelo do Queijo, mais além.

Cheguei ao fim do meu passeio, às 8 da manhã, sozinho na praia vazia, com 5° de temperatura e a promessa de chuva. Acho que já chega para matar a saudade do mar.


terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Traição

 


Na penumbra da sala, reinava pesadamente o silêncio, apenas interrompido a espaços pelo crepitar do fogo na lareira. Lá fora o vento rugia, naquela temível manhã de janeiro, disparando gotas de chuva contra a vidraça.

Ele estava afundado no sofá individual ao pé da lareira, com os pés esticados sobre um pequeno banco e o olhar vidrado, perdido sobre o telemóvel que repousava na mesa de apoio. Estava já nos últimos anos dos quarenta, bastante magro e com olheiras profundas no rosto pálido. Os fios de prata no cabelo ondulavam à luz bruxuleante da chama. A sua mão esquerda brincava com o que parecia um pequeno cartão de visita.

Estremeceu com o súbito toque do telemóvel. Aquela melodia, escutada tantas vezes, trouxe-lhe memórias de ocasiões felizes... e outras nem tanto.

No ecrã do equipamento o rosto sorridente de um homem entre os trinta e os quarenta, de cabelos desgrenhados claros. O nome “Ricardo” piscava ao ritmo da música.

Após uns segundos de hesitação, ele soergueu-se, clicou para atender e encostou o telemóvel ao rosto. Do outro lado, uma voz grave e enérgica interpelou:

— Olá bom dia dorminhoca. Tudo bem?

— Bom dia... — A resposta foi rouca e arrastada. Do outro lado fez-se um silêncio, fruto da surpresa. — Desculpa, sei que esperavas a Sandra.

— Pois…, sim. Ela está? — A voz mudara de decidida para cautelosa.

— Não, ela não está. De facto, estava mesmo aqui a pensar se te deveria ou não ligar.

— Ligar-me?!? — Um tom de incredulidade. — Mas nós conhecemo-nos?

— Na verdade não e já agora, chamo-me Fernando e sou o marido da Sandra.

— Ricardo. — A resposta tardou um pouco. — Mas continuo sem perceber...

— Bem sei. — Um sorriso cansado perpassou nos seus lábios, algo divertido. — Queria ter uma pequena conversa contigo, não te importas que te trate por tu, pois não?

— Como disse, não nos conhecemos, mas não, não me importo.

— É verdade, não nos conhecemos, mas temos uma coisa muito importante em comum... a minha mulher Sandra.

A afirmação soou como um tiro e provocou um longo momento de silêncio nervoso

— Como? Não estou a perceber. — Era uma patética tentativa de ganhar tempo. — Que quer dizer com isso? A Sandra sabe que está a falar comigo? Que é que ela lhe disse?

— Não adianta negar. — O sorriso alargou-se. — Eu sei de tudo: os encontros nos motéis, os jantares, os passeios nos jardins... até mesmo a conferência há dois meses em Londres... — Não se ouvia o respirar do outro lado da linha. — … de todas as formas, não te posso censurar. Ela é uma mulher muito bela e inteligentíssima, uma combinação irresistível.

— Mas... quando soubeste? — Rendeu-se, percebendo que não adiantava negar.

— Oh, já sei há muito tempo. Quase que posso dizer desde o início.

— Não posso crer... e não disseste nem fizeste nada? — Ricardo tentou passar ao ataque. — Há quanto tempo achas que aconteceu?

— Deverá fazer dois anos em Março. Estou certo?

O silêncio do interlocutor era o assumir da culpa.

— Inicialmente não me apercebi de nada, claro. Pelo menos, nada que me fizesse suspeitar disto. — Fernando continuou. — De repente, a relação morna de um casal da nossa idade com muitos anos de casamento, tornou-se muito mais ativa sexualmente. Como já não era há muitos anos. — Limpou uma lágrima que correu no rosto. — Ela procurava-me mais frequentemente e não se negava tantas vezes aos meus “avanços”.

A chuva parara, entretanto e o latido de um cão ouviu-se longe, trazido pelo vento que amainava.

— Eu estava feliz, ela estava feliz, como poderia suspeitar? Nem reparava nas frequentes trocas de SMS, no falar mais baixo ao telemóvel em algumas circunstâncias... estava cego. — O suspiro que se seguiu saiu mais audível do que pretendera. — Até que um dia, ela chegara a casa mais tarde que eu. Estava a tirar as coisas da carteira e vi que trazia amarrotado um pano negro... onde consegui divisar pequenas rendas. Mesmo depois da sua atrapalhação em esconder, fiquei sem qualquer dúvida que trazia na carteira as calcinhas que vestira naquela manhã... Porque traria ela as calcinhas amarrotadas na carteira? Porque as tiraria?

— Há milhares de outros motivos para além de... — Ricardo tentou defendê-la.

— Pois há. Por isso não poderia ficar com a dúvida. Ela disfarçou e escondeu... e eu fingi não ter reparado.

— Ela deve ter pensado que não viste... — Pareciam dois amigos a conversar.

— Mas vi. E, louco de dor e confusão, andei atento a todos os seus movimentos, atitudes e horários... que cada vez aprofundavam mais as minhas suspeitas. Até que um dia, à hora do almoço, fui para a rua em frente à escola onde ela trabalhava e esperei. Não tardou que a visse... que vos visse juntos.

— Sim, encontrávamo-nos ao almoço muitas vezes.

— Para saber a extensão “do problema”, contratei uma pessoa para a seguir durante uma semana e dar-me um relatório; com isso fiquei a saber mais do que queria: o relatório era extenso o suficiente para incluir fotos, horários, os motéis e restaurantes que frequentavam e a altura aproximada em que começaram a ser vistos juntos. Um bom trabalho em suma.

— Nunca nos apercebemos de nada...

— Como eu disse, um bom trabalho. Mas o que me deixava louco era a sua naturalidade, a facilidade e o prazer com que fazíamos amor, a sua vontade e carinho. Parecia que continuava apaixonada por mim...

— E continuava. Ela disse-mo várias vezes. Sempre que lhe pedia para te deixar e vir viver comigo. Nunca o quis, dizia que te amava demais para poder viver sem ti e que o que existia entre nós era uma paixão que ela esperava que passasse um dia.

Foi a vez de Fernando ficar em silêncio por uns minutos. Ambos os homens calados a escutar a respiração do outro através do éter.

— Por fim acabei por me conformar. — Fernando retomou a narrativa. — Aceitei que ela seria discreta o suficiente para não me envergonhar e aceitei que deveria apreciar cada minuto da sua atenção, cada beijo e cada carícia, como dádivas que poderia perder a qualquer momento.

— Foi precisa muita coragem para uma decisão dessas.

— Não, não foi. Muita covardia isso sim, medo de ficar sem ela, sem a mulher que amo. Medo que se fosse e não tornasse mais. A vida sem ela seria insuportável. Mas nos últimos tempos é assim que tem sido mesmo com ela, insuportável.

— Daí esta chamada. — Ricardo sentenciou. — Concluíste que não consegues viver assim e vens pedir-me que me afaste.

— Serias capaz?

— Se isso for o melhor para ela... sim. — Suspirou audivelmente. — Também vou sofrer imenso. Deixei a minha mulher há uns meses, achando que facilitaria a decisão da Sandra, mas ainda não lhe disse que o tinha feito.

— Temes pressioná-la?

— Sim, ela é adorável, mas sob pressão é imprevisível. — Sentiu-se o sorriso na voz.

— Consigo perceber que também a amas, não se trata apenas de um caso.

— Não, não é. Desde o início, desde o primeiro riso, as primeiras palavras, fiquei completamente preso a ela. Julgava que depois de uma certa idade já não era possível uma paixão com tal intensidade.

— E aqui estamos nós os dois... apaixonados pela mesma mulher.

— Não tenho coragem de continuar a fazer-te o mal que temos andado a fazer. Até aqui achava que não sabias...

— Que era um corno feliz...?

— Não, nunca pensamos, pensei, em ti nesses termos. Eras apenas o outro que a impedia de vir para mim de vez.

— Agora não interessa mais, não vale a pena estarmos a discutir sobre isto.

— Que se passa? Zangaram-se? — Ricardo não conseguiu disfarçar a esperança.

As lágrimas corriam agora livremente pelo rosto de Fernando.

— Não, caro amigo, a Sandra teve um acidente de automóvel na noite passada, quando regressava de tua casa. Faleceu de madrugada no hospital... O funeral é às 9h de amanhã e o corpo encontra-se na capela do hospital. Se quiseres podes aparecer... todas as pessoas que a amavam são bem-vindas.



* Revisão de um conto de 2014 publicado no livro Terras de Xisto e Outras Histórias