Debaixo dos Céus Os Mundos de Manuel Amaro Mendonça

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Por Cada Dia de Amor


Foi furioso e revoltado que, naquela tarde de inverno, fria e chuvosa, dei entrada no hospital para outra e se calhar novamente inútil, operação aos olhos.
Estava farto de hospitais e médicos, farto das vozes de pena dos familiares e amigos… farto da vida… na escuridão.
Há vinte e seis meses que, gradualmente, a luz foi-se desvanecendo, até mergulhar numa eterna noite sem estrelas nem luar.
Para mim, os setenta e seis anos não desculpavam, nem justificavam coisa nenhuma. Sempre fui "são como um pero" e fui assistindo, enquanto os meus amigos, um a um, se iam abaixo pelas pernas, ou pela cabeça, às vezes por ambos, até se irem de todo. Sempre me mantive mais ágil e lúcido, com caminhadas diárias de vários quilómetros. Porque me haveriam de falhar os olhos, impedindo-me de ler os livros que reuni uma vida inteira?
Sentei-me na cama, respondi com um resmungo à despedida da minha nora e submeti-me, em silêncio, à humilhação de ser despido pelas enfermeiras.
— Boa tarde. Meu nome é André. — A voz grave e jovem chegou-me aos ouvidos, quando achava que me encontrava já sozinho. — Sou o seu companheiro de quarto. Voltei o rosto na direção do som, com os olhos a vaguear, perdidos na noite eterna.
— Oh, desculpe… não sabia. — A voz do meu companheiro tremeu e eu percebi que devia estar com a mão estendida, a aguardar que lha apertasse. — Não se desculpe. — Grasnei sem emoção, enquanto tateava pela mão que veio ao meu encontro. — Não é culpado pelo meu estado. Chamo-me Herculano.
Criamos ali uma bela amizade e, fruto da boa disposição do jovem, o meu rancor e desconforto foram-se esbatendo rapidamente numa sã convivência. Debatíamos as notícias da televisão, que eu só podia ouvir, mas que ele dizia não ter perdido nada, porque as imagens eram repetitivas e maçadoras. Discutimos animadamente qualquer tema e eu estava felicíssimo por finalmente encontrar alguém com um nível intelectual e cultural capaz. Penso agora que nunca lhe perguntei a idade, nem dei grande atenção à razão pela sua estadia naquele local.
Até o meu filho e a minha nora, quando me visitaram, ficaram surpreendidos com a boa disposição que aparentava, totalmente diferente de todas as outras estadias naqueles "hotéis" cheios de pessoas doentes.
Inevitavelmente, com os dias a passar e eu a recuperar da primeira de três cirurgias, a conversa acabou por cair sobre o amor, o romance e os livros. Lamentei-me não poder ler e tinha uma enorme biblioteca com os já lidos e uma pilha, dos que ainda não conseguira ler.
Um dia perguntou-me se eu queria que me lesse um romance pois, por acaso, estava a ler um e estava a gostar muito. Assenti, entre o contrafeito e o expectante, nada habituado a que me contassem histórias como se faz às crianças.
Foi para mim uma enorme surpresa, mas, após o primeiro capítulo, estava já aprisionado da narrativa:

"Gabriel, um dos protagonistas, era o filho de um importante comerciante do Porto setecentista e apaixonara-se por uma amiga de sua irmã, de condição francamente inferior, Arabela."

Até aqui, parece um simples romance de cordel, mas as discussões entre pai e filho, eram tão verosímeis, que dava por mim a comentá-las com o meu narrador, como se de um caso real se tratasse.

"Inevitavelmente, Arabela foi proibida de frequentar a casa e o jovem Gabriel incompatibilizou-se de vez com o pai e abandonou o lar familiar, fugindo com a sua amada. Nenhum dos dois estava preparado para viver sem o apoio das respetivas famílias e tiveram de alugar um quarto, numa das zonas mais pobres da cidade, para procurarem trabalho."

Protestei fracamente, quando o meu benemérito pediu para interromper a história, para poder descansar e, tal e qual como uma criança, passei parte da noite a imaginar qual seria o destino dos dois amantes.
No dia seguinte, sentia-me nervoso e irritado com toda a demora, enquanto as enfermeiras nos faziam a higiene diária e recebíamos a visita dos médicos. Foi apenas depois de almoço que foi possível retomar a narrativa com calma.
De novo me deixei envolver na voz sonora e cava de André, enquanto ele relatava:

"Gabriel teve muitas dificuldades para arranjar uma forma de sustento, até conseguir ganhar umas míseras moedas para varrer a oficina de um escultor, que era o trabalho normalmente feito por uma criança de oito anos.
Um dia, o mestre surpreendeu o jovem a esculpir um pequeno anjo em madeira, por cópia de outro que estava a ser preparado para decorar uma igreja. O velho artesão ficou espantadíssimo com a versão melhorada do original. Logo ali o convidou a fazer uma das colunas que iria precisar. Era o estilo barroco, a moda da época e cada coluna de madeira era profundamente trabalhada com anjos e motivos florais, não deixando espaços vazios. Não foi preciso mais e, no espaço de poucos meses, Gabriel deixara de ter de varrer a oficina, para trabalhar a tempo inteiro na escultura em madeira. Cada vez chegavam mais encomendas de clientes que gostaram de outros trabalhos. A vida estava a começar a correr bem para o jovem casal, mesmo Arabela, conseguira um emprego de dama de companhia de uns ricos burgueses onde era muito bem tratada."

Os dias iam-se passando e eu cada vez mais dependente daquela história que se desenrolava aos meus olhos sem luz, intercalada com as saídas, minhas, ou de André, para tratamentos e análises.

"Gabriel era agora o braço direito do mestre e saía com vários aprendizes para fazer as montagens das peças esculpidas com maestria, nas igrejas e capelas por toda a cidade. No entanto, a velha raposa não deixava que se soubesse que era o seu aprendiz, o autor das obras agora tão cobiçadas. Até que um dia, um dos andaimes onde se encontrava Gabriel e um dos ajudantes partiu-se e caíram ambos de grande altura. O ajudante teve morte imediata e o jovem escultor ficou gravemente ferido."

Novas sequências de tratamentos levaram André a estar afastado de mim e a interromper a o desenrolar da narrativa que eu tanto ansiava. O meu companheiro de quarto, sabia-o agora, sofria de um problema do trato digestivo e estava a ser preparado para uma cirurgia complexa.
Por fim chegou o meu grande dia e fui submetido à última operação, que deveria devolver-me a vista. Regressei do recobro, cansado e aborrecido, mas a voz grave e feliz de André trouxe-me de volta à vida. Ofereceu-se de imediato para retomar a narrativa, avisando que, no fim do dia de amanhã seria a vez dele, enfrentar o bisturi.
Retomamos a história onde esta parara.

"Gabriel ficara ferido com gravidade na queda do andaime. Para o seu mestre, foi um grande aborrecimento, pois que teria de ser ele a fazer o trabalho em vez do discípulo e mandou-o para casa, sem mais compensações do que o pagamento dos dois dias que faltavam para acabar a semana. A pobreza em que viviam, atacou de novo o jovem casal, reduzido às parcas moedas que Arabela ganhava. A maior parte era gasta a pagar aos físicos, pouco mais que curandeiros, para aliviar as dores ao marido, que se sumia a olhos vistos.
Entretanto, o pai de Gabriel não estava em paz e decidiu procurar o filho. Estava disposto a aceitar as suas escolhas, fossem quais fossem. Percorreu a cidade fazendo perguntas até ser encaminhado, pelas descrições, ao jovem na oficina de escultura. Quando lá chegou, ouviu da voz dos restantes aprendizes, como Gabriel era explorado pelo velho artesão, que escondia o talento do jovem atrás da sua fama. Quando o encontrou pessoalmente, tratou-o com o desprezo que sentia e exigiu que lhe fossem entregues os pertences do filho e lhe indicassem onde residia.
Ao recolherem as poucas ferramentas que havia comprado e a bata manchada de sangue que envergava. Encontraram, coberta com uma manta, uma estátua em tamanho natural, que só tinha terminada a cabeça e os ombros. Representava inequivocamente Arabela, mas a sua perfeição era tal, que, pai e escultor, choraram de emoção ao apreciá-la.
Ambos feridos pelo arrependimento, foram à humilde casa que habitavam os amantes, para depararem com o jovem moribundo, cujas forças se acabavam rapidamente. Pediram-lhe perdão entre lágrimas, cada um pelos seus pecados e prometeram que cuidariam da sua esposa, para que nada lhe faltasse e vivesse como uma senhora daquele dia em diante. Questionado com o destino a dar à bela estátua, respondeu: "Não façam nada. Não a terminem, deixem-na como está. Comecei-a pelo amor que Deus me deu a conhecer e cada entalhe que lá está feito é um dia de felicidade por a ter a meu lado. Cada entalhe que lá falta, é por cada dia de amor, que Deus me deve ao lado dela."
O jovem morreu passados poucos dias, mas numa cama confortável na residência de seu pai, ao lado da mulher que amava e por quem foi capaz de abdicar de tudo. Arabela, viveu uma vida feliz e desafogada acompanhada da cunhada, de quem era tão amiga. Quanto à estátua, vestiram-lhe roupas de santa e está algures num altar duma igreja da diocese do Porto, recebendo a devoção que merece. Inadvertidamente, cada penitente que a ela se ajoelha, recorda cada dia de amor que Deus é devedor a Gabriel."

De volta à realidade, eram já altas horas da noite. Chorei com André a infelicidade do jovem casal, que tanto prometia e tanto merecia e, extasiado com a beleza da história, pedi que me dissesse quem era o autor. Respondeu-me que o livro era velho e o nome estava apagado.
Despedi-me distraidamente do meu companheiro quando partiu para a sua cirurgia mas pensei esperar que regressasse para lhe pedir para tocar no livro.
Acabei por adormecer, só acordando de manhã para a higiene e a visita do médico, que me veio retirar as ligaduras. Um brilho imenso e doloroso atingiu-me apesar de ele dizer que o quarto estava na penumbra. Era um bom sinal, porém: já não viveria na total escuridão.
Foi então que me apercebi que André ainda não regressara e questionei o médico, que foi evasivo. Acabei por me enervar e exigi que me dissesse onde estava e como se encontrava. Acedeu e contou-me que tinha sido submetido a uma extensa cirurgia para extração de um cancro no intestino. A situação estava muito pior do que todos esperavam e tinha-se ficado na mesa de operações.
Não quis ouvir mais. Atirei-me para a cama, com os olhos a rebentar, com as lágrimas e a mágoa de perder um amigo e companheiro, do qual nunca tinha visto o rosto.
Quando me acalmei, percebi que conseguia divisar os contornos dos objetos, na escuridão total do quarto. Acendi a luz, tendo o cuidado de fechar os olhos com força e abri-los muito devagar.
O mundo que perdera há muitos anos estava de volta: o mobiliário, as cores das cortinas, das paredes e das camas estavam lá novamente. Mas não era isso que me preocupava naquele momento; dirigi-me avidamente à mesa de cabeceira do meu infeliz companheiro e abri a gaveta da mesa de cabeceira, como tantas vezes o ouvi fazer nos últimos dias.
Lá dentro, havia apenas uma capa, comportando um grande número de folhas em desalinho, garatujadas numa escrita alongada e quase ilegível, de quem está habituado a escrever muito. Por todas as páginas havia secções riscadas e apontamentos laterais. Consegui decifrar as últimas frases:

"Quanto à estátua, vestiram-lhe roupas de santa e está algures num altar duma igreja da diocese do Porto, recebendo a devoção que merece. Inadvertidamente, cada penitente que a ela se ajoelha, recorda cada dia de amor que Deus é devedor a Gabriel."

Procurei rapidamente a primeira página onde estavam bem legíveis três linhas:

"Por Cada dia de Amor"
de André Matos
Dedicado ao meu amigo Herculano, sem o qual esta história não seria terminada."


segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

2019 está quase a terminar


Com 2019 quase a terminar, trago aqui um pequeno resumo da minha atividade literária neste período. 

Infelizmente, ainda não foi este ano que publiquei o meu romance, que está em produção desde 2016, espero consegui-lo em 2020, mas aqui está a minha resolução de ano novo.

Obrigado pela sua companhia e pelo prazer que me dá, sabendo que está aí, a ler os meus textos. Por mim, comprometo-me a continuar a escrever e a publicar grande parte do meu trabalho, para que o possam ler sem qualquer custo.

Um abraço e votos de um bom 2020 com muita saúde e felicidade e... claro, boas leituras.


Editora SUI GENERIS
A colaboração com a editora Sui Generis continua de vento em popa e vou respondendo, sempre que possível aos desafios que o meu amigo Isidro Sousa vai propondo. Este ano foram três antologias, sendo que duas delas já estão publicadas: "Sol de Inverno" e "Bendita Manjedoura" (artigos abaixo), a outra, intitulada "Eternamente Enamorados" ficará para 2020.
O conto "Manhã de Domingo" foi escolhido para fazer parte da antologia "Sol de Inverno" da editora Sui Generis
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O conto "O Natal de Miriam" foi escolhido para fazer parte da antologia "Bendita Manjedoura" da editora Sui Generis.
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Revista SAMIZDAT
Também a revista digital SAMIZDAT, continua a publicar os meus textos, aos dias 29 de cada mês. Os últimos publicados, estão nos artigos abaixo, "O Natal de Miriam" e "Depois do Paraíso". Para ler todas as minhas colaborações nesta revista, basta seguir esta ligação.
"O Natal de Miriam" foi a quarta publicação nesta revista, em novembro. Um pequeno conto de Natal passado num cenário incomum.
Leia o conto na integra...
Para o mês de dezembro, decidi procurar as páginas do Génesis e mostrar uma velha história, por um novo ponto de vista.
Leia o conto na integra...
Grupo PENTAUTORES
grupo Pentautores, no qual orgulhosamente me incluo, junto com Ana Paula Barbosa, Carlos Arinto, Jorge Santos e Suzete Fraga, deu mais um passo para dar a conhecer ao mundo os seus trabalhos. Depois de "Antes Quebrar Que Torcer" em 2017, publicou agora "Além", de que poderá saber mais no artigo abaixo.
Além é um tema que permite, a cada autor, uma liberdade de pensamento e, como é hábito, as mais diversas variações e interpretações da palavra. Mas ficam aqui algumas palavras de Carlos Arinto, num excerto da introdução à obra:
"Sendo o tema muito abrangente, ou pelo menos, suficientemente abrangente para permitir todas as interpretações, cada um dos autores criou aquilo que lhe parece ser demonstrativo desse espaço imaginado: um espaço onde se pode ir sempre mais além.
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domingo, 29 de dezembro de 2019

Depois do Paraíso



Olhei, desalentado e incrédulo para o terreno semeado e lavrado há pouco tempo. Todos os sulcos de terra, feitos com tanto esforço, estavam destruídos pelo bando de corvos que, como uma onda de carvão, faziam um festim com as sementes, numa algazarra inacreditável.
Atirei-lhes um pau, com pouca convicção, que caiu no meio das aves. Estas, porém, pouco ou nada se importaram. Mesmo aquela que foi atingida pelo míssil, limitou-se a um pequeno salto e a grasnar-me um insulto qualquer, indignada, antes de mudar de poiso.
Deixei-me ficar a assistir ao banquete.
De facto, sofro de uma falta de sorte impressionante. Os meus pais fartam-se de falar de um tempo em que estavam numa terra muito boa, onde as árvores davam tudo o que precisássemos, sem ter de cultivar…, mas foram expulsos de lá, por uma injustiça, ou um mal-entendido qualquer, do qual eu nunca me importara em saber pormenores. Agora, havia que trabalhar duramente, para arrancar alimentos desta terra paupérrima e ingrata… e dá-los aos canalhas dos corvos. 
— Os corvos fazem uma festa. — A vozinha sibilante fez-me olhar para o maciço de ervas, de onde espreitava a enorme serpente dourada que lá morava.
— Pareces feliz! — Exclamei, amargurado.
— Nem feliz, nem infeliz. — Mas a expressão da serpente parecia contradizê-la. — Simplesmente não é natural, teres de ferir a terra para produzir alimento… no fim, quem se consola são os corvos e os gafanhotos. Assim, encontram tudo o que precisam para encher a barriga, no mesmo sítio. Estão-te agradecidos, os bichinhos.
— Ah, cala-te! — Exigi, revoltado. — Qual é a alternativa?
— Podias voltar para a terra de onde os teus pais foram expulsos. Lá era tudo mais fácil. — A serpente concluiu, erguendo-se sobre o seu corpo, quase à minha altura. — Foi uma injustiça o que lhes fizeram.
— Eles dizem que têm lá guardas terríveis, que nos matam, se nos aproximarmos.
— Então… — Continuou o réptil. — Podias tornar-te pastor, como o teu irmão.
— Se ele já faz isso… — Desprezei o conselho. — Vamos comer só cordeiro? E o pão, as couves, os tomates…?
— Foi só uma sugestão… — Tenho a certeza de que a serpente encolheria os ombros se os tivesse. — Podias convencer o teu irmão a ser ele o lavrador.
— Ele não quer. Está muito contente com o seu trabalho, a passear os bichos pelas pastagens. — Retorqui, amargurado. — E só lhe acontecem coisas boas! Ainda outro dia, apareceu o senhor destas terras, que costuma levar alguns dos nossos produtos e não quis nada do que eu tinha! Mas o cordeirinho do meu irmão, não só gostou, como fez uma fogueira, para que o assassem e comessem ambos!
— Uma injustiça! — Apoiou a minha sibilante companheira.
— É mesmo! — Continuou. — Veio ali, com a sua túnica branca como a neve, lá de onde não falta nada, desprezar o meu trabalho, regado com o suor do rosto.
— Que sabe ele do trabalho duro do campo? — Interrogou uma conhecida voz suave, feminina. 
Voltei-me, para ver a antiga mulher de meu pai, segundo ela dizia, avançar na nossa direção. Ao chegar, chutou um alvo crânio de burro, que rolou até aos meus pés.
— Estavas a ouvir? — Perguntei desconfiado. — Será que a minha má sorte não estará relacionada contigo?
— Ouço mais coisas do que podes imaginar! — Afirmou ela, com um sorriso conhecedor. — Também não suporto injustiças, mas esse teu irmão, é quem está no caminho do teu reconhecimento. Eu não tenho nada a ver com isso. Pedi que não dissesses a ninguém que me conheceste, porque o teu pai não iria gostar.
— Sim o teu irmão podia, ao menos, ajudar-te no teu trabalho, em vez de ficar a tocar flauta, enquanto o rebanho pasta. — Acrescentou a cobra.
— Em tempos, — Disse eu melancolicamente, chutando o crânio descarnado. —, tive este burro, que me ajudava a lavrar e a transportar as cargas, mas depois morreu.
— Se calhar, devias alimentá-lo melhor… — Censurou a mulher com um risinho.
— Ou não lhe bater tanto! — A serpente também me recriminava.
— Era um descarado! — Enfureci-me. — Não queria trabalhar e quando lhe batia, para que o fizesse, ainda me ameaçava, dizendo que iria ser a causa da minha desgraça!
— O Criador saberá o que um simples burro queria dizer! — Estava ali a mulher, a criar o dogma da sabedoria dos jumentos, imagine-se.
— Era o que mais me faltava! — Exasperei-me. — Aqui a discutir a filosofia dos asnos com uma cobra e uma desconhecida.
— Não é filosofia! — Contrapôs o réptil. — Trata-se mesmo de tratar bem, quem nos ajuda! E eu não sou uma cobra, sou uma serpente!
— E eu não sou uma desconhecida! — Insurgiu-se a mulher. — Sabes o meu nome, chamo-me Lilith e, quase podemos dizer que sou tua tia! Afinal, também vivi com o teu pai.
— Chega de conversa! — Enervei-me. — Desapareçam e deixem-me só com a minha desgraça!
Ressentidos, mas obedientes, desapareceram assim que lhes virei as costas. Ao mesmo tempo, o número de corvos parecia reduzir; estava-se a acabar o suprimento de sementes.
— Irmão! — Ouvi a voz nas minhas costas.
— Só me faltava este! — Resmunguei baixinho.
— Vi um bando de corvos a vir nesta direção e desconfiei logo do que se passava! — A voz acriançada, que tanto me irritava, continuou. — Não posso acreditar, lá se foi a sementeira.
— Muito te preocupa! — Enfrentei-o. — Vai lá, limpar o traseiro às tuas ovelhinhas!
— Porque falas assim comigo? — Lá estava aquele ar de incompreendido, exatamente igual ao meu pai, que tanto me irritava. — Estou aqui em solidariedade contigo…
— Solidariedade?!? — Sentia-me cada vez mais furioso. — Sabes onde podes meter a tua solidariedade? Precisava é que me ajudasses a lavrar os campos!
— Tinhas um burrito a ajudar-te. — Passou ele da defesa, ao ataque, num instante. — Maltrataste-o e deste-lhe fome. Agora morreu e os outros, nem abeiram por aqui. Inclusivamente, são cada vez mais os animais que deixaram de nos falar, por causa dos teus atos.
— Também tu?!? — Enfureci-me. — Que querias? Que andasse com ele às costas como fazes com os cordeiros?!? Ele era preguiçoso e não queria puxar o arado. Era melhor se o meu trabalho fosse como o teu, de papo para o ar, à espera que as ovelhas cresçam!
— De papo para o ar?!? — Foi a vez dele se revoltar, enquanto que os corvos, sentindo os nossos gritos e a nossa raiva, crocitavam ainda mais alto e esvoaçavam mais furiosamente. —Também tu não gostas de trabalhar e escolheste a agricultura porque, do trabalho que o pai faz, só vias o descanso nos dias de chuva. Eras cego às jornas de sol a sol, a escavar e a lavrar as terras. Por isso te revoltas, só queres a parte boa dos ofícios. O pai, está triste com o teu desempenho e o Senhor também está desagradado. Começam a questionar se serás um bom herdeiro, ou se terão de repensar o assunto.
— Ah, traidor, que andas a armar-me uma cilada! — Exclamei, cheio de raiva, percebendo a extensão da trama e atirando-me ao pescoço dele.
Rolamos no chão, dando socos e puxando cabelos, insultando-nos mutuamente. As palavras doíam quase tanto como as pancadas. Até que me apercebi do crânio do burro, junto a mim. Parti-lho, com toda a força, na cabeça, pois estava queimado pelo sol. Aproveitando a confusão momentânea, agarrei na queixada e espetei-o no peito e no pescoço, enquanto a minha raiva não se esgotou.
Levantei-me a chorar de frustração e fitei, estarrecido, o corpo ensanguentado do meu irmão. Olhos esbugalhados, numa acusação muda. Estava morto!
Entrei em pânico e abanei-o, sem sucesso, enquanto me interrogava, desesperado. “Que iria fazer? Como fora capaz de tal crime? Que iriam dizer o pai e a mãe?”
Olhei em volta, para ver se havia alguém por perto e arrastei o corpo para as ervas mais altas. Escavei como um doido, até conseguir cobri-lo com grandes tufos de verdura. Os corvos haviam desaparecido como que por magia, porém, o vento acusava num sussurro: “Assassino, assassino”.
Larguei numa corrida, em busca de refúgio e proteção. Não diria a ninguém o que se passou, apenas que não via o meu irmão desde ontem. Armado com este alibi, atravessei a mata, sem reparar na mulher e na serpente, que assistiram a toda a cena, com ar de satisfação.
Ao sair da floresta, quase choquei com o dono das terras, na sua túnica alva, de cabelos e as barbas brancas a oscilar ao vento que soprava cada vez mais forte. Estaquei, aterrorizado, sem conseguir soltar palavra.
— Caim. — Trovejou ele. — Onde está o teu irmão, Abel?