Debaixo dos Céus Os Mundos de Manuel Amaro Mendonça

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Nova entrevista na revista "Divulga Escritor"

 



Já saiu a edição de setembro de 2020 da revista Divulga Escritor, com a qual colaboro de tempos em tempos e, à semelhança do que tenho feito com os anteriores lançamentos de livros, aqui está uma entrevista dedicada ao meu último trabalho, intitulado "Entre o Preto e o Branco".




A "Divulga Escritor" tem feito um bom trabalho a ajudar os escritores e as suas obras a serem conhecidos fora da sua área normal de "convivência" e a trazer conhecimento mútuo entre os amantes das letras do mundo lusófono.


Resta-me desejar que a revista e a sua editora, a jovem e bela Shirley Cavalcante, não desanime desta sua demanda e continue a ajudar à divulgação dos escritores de língua portuguesa.










   


quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Por trás da objectiva

 



Não deixes os teus olhos parar de sorrir e imagina que estou eu, por trás da objectiva, a ver o teu belo e saudoso rosto.

Como que numa outra dimensão, intangível, separados apenas por um vidro côncavo, que mostra as imagens invertidas, mas é capaz de revelar a alma.

Tenho a certeza que os teus olhos ainda sorriem e brilham como estrelas em céu de veludo, como eu os vi cintilar um dia, há milénios.

Desfasada pela lente, pareces distante e triste, esquecida de quem és, mas aqui estou eu, do outro lado da imagem, para te recordar. Eu sou aquele que não se vê, a parte da foto em que ninguém pensa, mas que é o fulcro dos teus olhos.

Não podes por isso esquecer-te de os fazer brilhar, de ofuscar os que te rodeiam, com a força e a vida que tens dentro de ti.

O teu brilho está aí, onde sempre esteve, dentro do teu peito, onde deitaste essa cortina escura, que oculta o mundo na penumbra. Não deixes esmorecer a tua luz maravilhosa.

Alegra esses teus olhos, brilha para mim, ainda que apenas alguns segundos.



segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Os mortos do meu Facebook



Há uns dias, numa das suas muitas funcionalidades, o Facebook trouxe-me uma memória de há uns anos atrás: a avaliação muito positiva que uma boa amiga fez da leitura de um dos meus livros... poderia ser uma memória feliz, não fosse dar-se o caso dessa amiga ter falecido há poucos meses.
Senti um aperto no coração e verti uma lágrima envergonhada (porque os homens não choram, dizem por aí). Entrei no perfil da minha amiga, que continuava ativo e estive a ver algumas fotografias dela e de alguns amigos em comum.
Depois lembrei-me de procurar por outros que comigo privaram e que já passaram a ténue, mas opaca, fronteira que separa a vida da morte. Ali encontrei nomes queridos, gente jovem e outros assim assim, desaparecidos do mundo dos vivos, mas ainda presentes no mundo virtual do “Livro dos Rostos”.
Revisitei dores antigas e senti a saudade dos sorrisos daqueles que partiram, imortalizados para sempre em pixels coloridos, depositados numa nuvem indistinta de exabytes, que ninguém sabe exatamente onde mora.
Recordei a dor pessoal, nas semanas seguintes ao desaparecimento do meu próprio pai, cada vez que via o seu saudoso rosto na minha lista de amigos ou em antigas partilhas, até pedirmos a eliminação do seu perfil.
O Facebook não está preparado para a morte e os rostos dos que se foram, ali continuam, sorridentes e imortais, ferindo como setas os corações desprevenidos daqueles que os amavam. Continua a mandar notificações dos aniversários, que já não cumprem e a recordar-nos de tempos cheios de vida em que nos falavam, ou comentávamos as mesmas publicações.
Lentamente, localizei um a um estes resquícios de tempos felizes, que já se foram e fui removendo as amizades, como que libertando as amarras que prendiam uma existência que já não o era a outra que tenta subsistir.
Adeus Sandra, amiga e leitora fervorosa, adeus Rui, tranquilo, de humor subtil, adeus Pires, divertido e com pressa de viver, adeus Teresa, temperamento desconfiado, mas de coração grande, adeus Virgínia de riso fácil, que via sempre o lado divertido de tudo.
Como se estivesse no fundo de um mar escuro, vendo a luz rebrilhando lá muito longe, na superfície, libertei cada um dos meus amigos que saíam a “esvoaçar”, livres e flutuantes, em direção à luz.


sábado, 29 de agosto de 2020

Campónios e Extraterrestres

 


O sol principiava grandiosamente a aparecer no topo das montanhas a leste. Raios de fogo projetavam-se em todas as direções, anunciando a chegada do astro-rei e o início de um novo dia.

Caminhando no trilho calcado que seguia entre as árvores, o homem conhecido por Tone Canhoto, bufava com as costas carregadas por um grande saco de lona. Trazia um chapéu surrado e envergava um casaco demasiado grande. À cinta, no pedaço de couro que lhe segurava as calças, que não chegavam às botas cansadas, uma faca e a coronha decorada de uma pistola de fecho de pederneira espreitavam.

Repentinamente, apercebeu-se que não seguia ninguém atrás dele e pousou o saco no chão, olhando em volta, confundido.

— Xico…? — Chamou quase a medo. — Zé?

Ninguém respondia e não havia meio de aparecer alguém, nos cerca de cinquenta metros de caminho que conseguia ver até à curva.

— Raios partam… — Gemeu baixinho. — Onde demónios se encafuaram aqueles dois?

Com esforço, tornou a carregar o saco nas costas e avançou em sentido contrário, a procurar os companheiros.

— Vais morrer!!! — Uma voz forte gritou de entre as árvores, enquanto dois vultos lhe saltam ao caminho.

— Credo, em Cruz, mãe de Deus! — O Canhoto arregalou os olhos de susto e soltou um grito estrangulado, antes de reconhecer os amigos, que riam do terror que lhe haviam infligido. — Seus gandulos, artajeiros! Quase que me esfoiro todo de susto!

— Só queria que visses a tua fuça! — O mais magro do trio, chorava a rir encostado a uma árvore.

— Mijaste-te, maninho? — Também o mais forte, a quem chamavam de Xico Zangão, tinha lágrimas de tanto gargalhar.

— Ah, vão à merda. Isto não se faz. — O Canhoto ainda tinha as pernas a tremer.

— Coitadinho… — O mais magro, conhecido por Zé Patranhas, fez menção de o acarinhar, mas foi prontamente sacudido.

— Sai-te daqui! Pincha-Grilos de um raio! Andas sempre à turra e à maça com o meu irmão, mas me fazerem galdrumeiras, já se ajuntam!

— Então, Tone. — Tornou o Xico. — Não sejas assim! Borraste as ceroulas foi? — Soltou nova gargalhada em uníssono com o Zé.

— Raio que vos pele! — Amuou Tone, alombando novamente o saco e virando-lhes as costas, retomando o caminho.

Os outros dois, ainda a rir, correram a buscar os seus sacos, que esconderam no mato e tornaram para junto do companheiro, para o atazanar mais um pouco.

— Valeu a pena assaltar a casa do velho Menezes ou não valeu? — O Patranhas queria reconhecimento. — O Badocha deu-nos uma boa dica.

— Até gostava de voltar lá… — Riu o Canhoto. — A criadita era bem engraçada.

— Mesmo a mulher do Menezes… Vejam lá aquele velho asqueroso com uma lasca daquelas! — Acrescentou o Zangão. — E sorria-se toda para mim, parecia até que gostava de ser assaltada.

— E gostava! — Gargalhou o Patranhas. — Estava toda consolada, que eu estava a apalpar-lhe as cascas!

— Mentiroso! — Xico enfureceu-se. — Pantominas de um raio…

— Vá, calem-se lá. Já vão começar novamente? — Interveio Tone, conciliador. — Temos aqui um bom saque para dividir e ir vender ao Galego de Chaves. Ou só se juntam contra mim?

Ai, é verdade! — Xico soltou uma sonora gargalhada. — Precisavas mesmo ver as tuas ventas de cagaço!

Enquanto estavam nestas brincadeiras, um enorme objeto voador, fortemente iluminado, passou a baixa altitude, quase roçando as copas das arvores e levantando uma nuvem de poeira, folhas e ramos soltos. Logo de seguida, o silvo grave que perseguia o objeto, ensurdeceu-os por segundos, até tudo se quedar num silêncio pesado. Uma enorme árvore seca caiu mais à frente.

— Que demónios foi isto? — Perguntou o Patranhas assustadíssimo.

— Vinha a voar, com muita luz! Era um anjo! — Exclamou o Canhoto.

— Com aquele barulho dos infernos?!? — Discordou o Zangão. — Era na certa obra do mafarrico!

— Vamos embora, depressa. — O Zé não tirava os olhos da direção tomada pelo estranho objeto.

— Acho que está ali, por trás daquelas árvores. Vêm-se as luzes. — Apontou Tone. — Deve estar naquela clareira que há ali abaixo.

— Vou lá espreitar. — Anunciou o Zangão.

— É melhor não… — O Patranhas tremia visivelmente. — Anjo ou demónio, pode não gostar de ser visto.

— Sim, acho que seja lá o que for, devemos deixá-lo em paz… — Concordou o Canhoto, para as costas do irmão, que abandonara o saco no chão e já se pusera a caminho.

— Oh, raios me partam, lá vai ele meter-nos em sarilhos! — A voz do Zé também tremia. — Com homens grandes ou mal-encarados eu cá me entendo, mas com estas coisas, não gosto nada de estar por perto.

Como o companheiro os ignorasse e, de varapau na mão, descesse o carreiro na direção da clareira, os outros dois olharam um para o outro, indecisos.

— É meu irmão… — Desculpou-se o Canhoto, empunhando a sua pistola.

Sozinho no caminho, o Patranhas olhou em volta, para as árvores ainda envolvidas nas sombras da madrugada. Ficar ali, enquanto eles iam, também não lhe parecia grande ideia. Num resmungar choramingado, ocultou na vegetação os sacos abandonados no caminho e correu atrás dos companheiros. Tirou a pistola do cinto e armou-a. Eles já estavam escondidos na vegetação, fora da estrada e fizeram-lhe o gesto para que se aproximasse em silêncio.

Para além das giestas e ramos onde se acoitavam, existia uma enorme clareira de mato rasteiro, onde se arrastava um pequeno ribeiro, que se tornava um colosso com as chuvas invernais. Eles chamavam-lhe a praça dos recos bravos, pois, normalmente, viam-se imensos por ali. Grande parte da clareira estava ocupada pelo que parecia ser uma imensa, luminosa e fumegante casa sem janelas. Havia forte emanação de calor a partir da inusitada construção.

Quando o Patranhas ia manifestar o seu espanto, o Zangão voltou a gesticular para que fizesse silêncio e apontou para o lado direito, onde estavam quatro pequenas pessoas, vestindo o que parecia ser uma roupa cinzenta, que os cobria da cabeça aos pés.

Os elementos do pequeno e estranho grupo gesticulavam entre eles, apontando o céu e emitindo assobios e estalidos. Com o que parecia um pequeno graveto luminoso, um deles começou a escrevinhar em pleno ar; o extraordinário, é que os gatafunhos apareciam e ficavam estáticos na frente dele. Um outro, apagava alguns símbolos e substituía-os, numa aparente correção, enquanto tagarelavam animadamente.

— Aquela porcaria pode valer uma pipa de moedas! — Sussurrou o Canhoto, olhando espantado para os outros dois.

— Vamos botar-nos a eles. — Sentenciou o Zangão. — Aparecemos-lhes de três lados diferentes. Eu quero uma caneta daquelas, como não sei escrever, pode ser que com ela não seja preciso.

— Mas… já viste? — Observou o Patranhas, pouco animado. — Eles são tão estranhos… que tipo de bicho ou coisa são eles?

— São de fora, que queres? Não podem usar os paramentos que quiserem? — Simplificou o Zangão, sussurrando. — Por mim, podiam vestir a albarda do cavalo, ou a sotaina do prior. — E continuou como quem fala com crianças. — Aparecemos; tu e o meu irmão apontam-lhes as pistolas, eu dou uma barduada ou duas, se for necessário, pegamos o que queremos e chispamos daqui para fora. Agora vamos!

— Xico. — Também Tone estava preocupado. — Aquilo parece mesmo bruxaria…

Enquanto estão neste debate, um dos estranhos pega num pequeno retângulo e começa, como que olhando através dele, efetuando um semicírculo em volta da sua localização. Quando fica alinhado com a posição em que se encontravam os nossos assaltantes, pára e chama o companheiro com um gesto. Os dois olham pelo retângulo e depois sem ele. Os três amigos perceberam que tinham, de alguma maneira, sido detetados.

— Tem de ser agora, já! — Ordenou Xico erguendo-se e caminhando temerariamente na direção dos estranhos, de varapau em punho.

— Maldição! — Exclamou o Canhoto, erguendo-se também, mas engatilhando a pistola.

— Lá vamos nós arranjar problemas por causa deste torgueiro! — Gemeu Zé, seguindo os companheiros.

— Santa manhã, amigos! — Exclamou o Zangão para os quatro surpreendidos estranhos. — Tendes aí uma casa muito bonita.

— E também umas coisas interessantes. — Complementou Tone. — Vamos aliviar-vos do peso delas.

Os símbolos flutuantes desapareceram e os estrangeiros cinzentos começaram a gesticular e a emitir os assobios e estalidos entre eles, apontando os recém-chegados.

Percebendo a ameaça, o que estivera a escrever no ar, fez um pequeno gesto com a "caneta" e as pistolas dos dois assaltantes saltaram-lhes das mãos e colaram-se ao chão milagrosamente. O mesmo caminho seguiu o punhal do Canhoto que, no trajeto, cortou o pedaço de couro que lhes servia de cinto, deixando-o literalmente com as calças na mão. Não aconteceu o mesmo ao Patranhas, porque o cinturão era mais resistente e ele conseguiu livrar-se da faca irresistivelmente atraída para o solo. O Zangão viu-se de repente o único com uma arma e carregou sobre eles soltando um chorrilho de palavrões.

Outro dos cinzentos conseguiu, do que parecia uma mão vazia, atirar uma rede de fios finíssimos, que crescia à medida que voava na direção do atacante. A teia caiu sobre o assaltante e colou-se fortemente aos braços e às pernas fazendo-o cair.

Com o elemento mais forte imobilizado, o Patranhas e o Canhoto perceberam que precisavam de uma nova estratégia. Após uma fração de segundo de hesitação, fugiram para o mato.

O cinzento que atirara a teia, obviamente o chefe, fez um gesto aos restantes, que saíram a correr atrás dos fugitivos.

— Solta-me desta merda, espantalho! — Gritava o Zangão debatendo-se.

O chefe ignorava-o. Olhava para o pequeno retângulo com que os localizara e emitia os ruídos da sua fala, dando instruções aos companheiros.

— Quando me soltar desta bosta, vai levar tantas… — Insistia o Zangão.

O cinzento dignou-se a deitar-lhe um olhar do seu rosto inexpressivo, que quase não tinha nariz entre os enormes olhos negros e cuja boca era pouco mais do que uma fissura sem lábios. Apontou-lhe a palma da mão e saiu outra das teias de aranha, mais pequena, que se colou na cara do furioso Xico. Com a mão esquelética de quatro dedos, compôs a cola sobre a boca do prisioneiro, de forma a reduzir os seus gritos a irados grunhidos. Após isso, ergueu elegantemente a mão atravessada sobre a sua própria boca, numa caricatura do sinal de silêncio. Depois regressou ao acompanhamento da caçada.

Não tardou que os três cinzentos regressassem com os dois aterrorizados amigos, o Canhoto ainda a segurar as calças. Mas é nesse momento que se dá a reviravolta; o furioso Zangão está a conseguir soltar-se das teias que o prendiam. Os incrédulos cinzentos olham para o homem a cortar os fios com uma faca.

— Vocês estão tão, mas tão f**! — Exclamou Xico empunhando a arma. — Isto! — Exibiu triunfalmente. — É uma lâmina de osso, não de metal!

Mas mesmo assim, orgulhosamente, colocou a arma no cinto e pegou no bordão.

— Agora vou mostrar-vos com quantos paus se faz uma canoa! — Gritou Zangão começando a perseguir os apavorados cinzentos, que emitiam assobios aflitos.

Depois de uma curta, mas intensa perseguição, onde eles conseguiram furtar-se por pouco aos golpes de varapau, os quatro estranhos conseguiram reunir-se junto da estrutura e uma luz azul envolveu-os.

As pauladas de Xico estouravam ruidosamente sobre a luz azul, mas não conseguiam atingir os cinzentos, que mesmo assim se encolhiam de medo.

Tone e Quim, finalmente se recuperavam do medo e, vendo as criaturas encurraladas, atiravam-lhes com o que podiam, embora tudo fosse repulso pelo halo azul. O chefe das criaturas parecia escrever febrilmente no retângulo que já antes usara.

Por fim, abriu-se uma porta atrás dos cinzentos, de onde provinha uma fortíssima luz branca e eles correram de imediato para ela. Assim que a porta se fechou, o azul que os envolvia desapareceu e o Zangão conseguiu aproximar-se estrutura. Estranhou não ser metal nem madeira, nem nada que reconhecesse, mas era sólido o suficiente para o seu bordão e ele usou-o por várias vezes.

— Saiam daí, seus vassouros, venham cá para fora! — Gritava Xico. — Covardes!

Repentinamente, toda a estrutura ficou envolvida pela luz azul e os três amigos foram projetados para trás com violência. De seguida levantou voo silenciosamente e desapareceu em segundos no céu azul.

— Eu não disse que era bruxaria? — Gemeu o Canhoto sentado no chão. — Escapamos de boa.

— Escapamos? — O Zangão olhou para o irmão. — Eles é que nem sabem do que se safaram! Estiveram por um pelo de levar um chuveiro de barduadas, que tão cedo não esqueceriam!

— Este raivoso do catano! — Exclamou o Patranhas. — Está sempre a meter-nos em alhadas!

— Raivoso? — O Zangão ergueu-se com o varapau em riste. — Seu aldrúbias canastrão! Olha que eu…

— Lá estão eles outra vez! — O canhoto levantou-se e virou costas aos dois amigos que discutiam acaloradamente.

 

 

(Nota do autor: Este acontecimento deu-se algures no século XIX, mas acredito que, por causa dele, são pouco vulgares em Portugal os fenómenos envolvendo extraterrestres ou OVNIs)


quarta-feira, 29 de julho de 2020

Sem Te Olhar Nos Olhos


Com quase setenta anos, João Henrique Antunes era ainda um homem elegante e bem-parecido. Naquele frio fim de tarde de março, hesitava frente à capela mortuária, debaixo do céu cinzento de nuvens ameaçadoras. Algumas das pessoas que entravam, olhavam-no com curiosidade.
Por fim, encheu o peito de ar e subiu os quatro degraus necessários para atravessar o umbral.
Lá dentro estava quente. Viam-se irradiadores nas paredes laterais. No centro da nave estava um caixão coberto de flores, com muitas mais no chão. De um lado e outro do esquife, pessoas sentadas e, aqui e além, pequenos grupos que conversavam em voz baixa. Todos olharam o recém-chegado com variados graus de curiosidade e persistência, mas a maioria regressou ao que estava a fazer.
João, após mirar rapidamente os presentes, despiu o sobretudo azul escuro e colocou-o sobre o braço, dirigindo-se depois à mesa, onde se encontrava o livro de condolências. Por uns segundos, repousou os olhos azuis sobre a foto ao lado do livro. A mesma fotografia que vira no jornal: Eduarda, mais de quarenta anos depois! Embora a dor que ela provocou na altura, estivesse bem gravada na memória. Estava mais velha, claro, mas envelhecera bem, continuava bela. Os olhos castanhos e o rosto moreno, adornado pelo cabelo, agora branco, era a mulher que ele gostaria de ter a seu lado. Ele, que estava viúvo há mais de dez anos.
Assinou o livro com a caligrafia quase ilegível, que lhe era característica e acrescentou “Eterna Saudade”, enquanto pensava quantas vezes, noutros casos, tinha dito estas duas palavras tão sentidas, sem que significassem praticamente nada.
Encarou então as pessoas à volta do ataúde. Reconheceu um ou dois rostos, de amigos dela, mas de quem já nem recordava o nome, mas distinguiu o irmão de Eduarda, que aparentemente não tinha tirado os olhos dele, desde que chegara.
Altivamente, costas bem direitas, dirigiu-se a ele, Pedro, que sempre o culpara de algo que ele suspeitava o que era, mas nunca teve a certeza. Estendeu a mão num cumprimento, a que o outro tardou em responder, fitando-a como se tivesse lepra. Por fim, Pedro ergueu-se, apertou-lhe a mão e abraçou-o, dizendo-lhe ao ouvido: “Que fazes aqui? Não sabes que não és bem-vindo?”
João afastou-se ligeiramente do homem, fitou-o nos olhos, tão parecidos com os da irmã e com um sorriso triste, respondeu-lhe, num meio sussurro: “Os meus sentimentos pela tua perda.”
Depois, virou-lhe simplesmente as costas, para olhar o corpo em repouso no caixão. Parecia mais pequena, embora ela nunca tivesse sido grande. A mulher pequena e turbulenta, que fez as delícias da sua vida, por cerca de três anos. Apesar do seu tamanho, quando o deixou, ficou um enorme espaço vazio, que nunca ninguém conseguiu preencher… e ele bem tinha tentado.
As memórias daquela época, os finais da década de 1980, estavam bem frescas na sua memória. Com vinte e oito anos, estava num período excelente no departamento de marketing da empresa onde trabalhava; ganhava bem, era amigo do patrão e o mundo sorria-lhe, principalmente a parte feminina. Vivia com Eduarda há três anos, que conhecera no casamento do irmão, Pedro, com quem se fizera amigo na faculdade.
Eduarda conseguia encher uma casa, a falar e a rir das suas próprias palavras. Tinha sempre tema de conversa e ele recordava-se de muitas vezes lhe ter pedido para se acalmar e falar menos, que estava cansado de a ouvir. Não imaginava, na altura, como haveria de lhe sentir a falta.
— Não ouviste o que te disse? — Insistiu Pedro, sobre o ombro, em voz baixa.
— Sim, ouvi. — Respondeu João asperamente, no mesmo tom, sem se voltar. — Não tens o direito de decidir isso, como não tinhas o direito de te intrometer.
— Ela era minha irmã! — O outro começou a alterar-se.
— Acalma-te e senta-te, não queiras dar espetáculo. — Tornou João, mais conciliador. — Tua irmã, mas minha mulher, a tua intromissão entre nós, deu no que deu.
— O quê?!? — Pedro ficou lívido. — Queres justificar os teus atos com a minha intromissão? Eu tive de intervir, para a defender das tuas atitudes. Porque foste tu que a afastaste! Eu só colaborei naquilo que ela me pediu: que nunca te dissesse onde ela estava.
— Era minha mulher e eu tinha o direito de saber, de lhe perguntar porque me abandonou, se estava tudo bem entre nós. — João voltou-se para o interlocutor. — Tinha direito a uma segunda oportunidade…
— …ou terceira, ou quarta… — Continuou o outro com um sorriso de escárnio. — Estavas sempre a traí-la! Foi por isso que te abandonou!
Os presentes estavam a ficar nervosos com a conversa dos dois, cada vez mais alterados.
— Senhores, por favor. Respeitem ao menos a mulher, que aqui está deitada. — Um outro homem, dos seus quarenta anos, logo seguido por uma mulher pouco mais nova, aproximaram-se. — Tio, então? — Dirigiu-se a Pedro que, assim admoestado, virou costas e abandonou a capela.
— As minhas desculpas, não devia ter cedido à provocação. — Pediu João. — Eu sou ex-marido da Eduarda e…
— Sim, a minha mãe disse-me, pouco tempo antes de falecer, que poderia aparecer por aqui. — Continuou o homem. — Meu nome é Henrique e sou o filho mais velho, esta é a minha irmã, Idalina.
Olharam-se nos olhos e a João pareceu-lhe ver uma versão de si próprio quando era mais novo. Não lhe faltavam os olhos aquosos azuis e o nome parecia um carimbo de identificação. Já Idalina, tinha os olhos castanhos e pequenos da Eduarda.
— A minha mãe deixou-me uma carta para si. — Também Henrique parecia perturbado com aquela semelhança, enquanto lhe entregava um envelope. — A doença que a levou, foi lenta a consumi-la e ela teve tempo de sobra, para preparar as despedidas. A carta, disse-me, já está escrita há muitos anos, mas nunca teve coragem de a enviar. Não sei o que diz, não abri, mas também não quero saber exatamente quem é você, nem o que fez à minha mãe. Por favor, leia-a lá fora e… agradeço que não volte.
Derrotado, consciente de ter estado a falar com o seu próprio filho, abandonou a capela, sentindo dezenas de olhos nas costas. Lá fora, atravessou o olhar azedo de Pedro, envolto em baforadas nervosas de fumo, mas seguiu em sentido contrário, para evitar retomar uma discussão velha de quarenta anos.
Sentou-se num dos bancos de pedra, oculto das vistas de quem circulasse por ali e abriu o sobrescrito, que revelou uma cola ressequida e soltou pequenos grãos de pó. Lá dentro havia uma folha escrita e uma fotografia de Eduarda, a perder cor e ligeiramente desenquadrada, mas linda como ela era há quarenta e muitos anos. Os olhos aparentavam ter estado a chorar, mas era ela, a mulher que sempre amara. É verdade que a traíra algumas vezes, que ela descobrira uma e outras não, mas ela perdoara sempre e retomavam a relação ainda com mais força que antes.
Foi numa dessas alturas que ela se fora. Tinham discutido por causa de uma colega do emprego, a Lurdes, mas fizeram as pazes. Uma vez mais ele tinha prometido que não teria mais nada com ela. Dois dias depois, Eduarda foi-se embora, sem uma palavra; quando ele regressou do emprego, simplesmente todos os vestígios da presença dela haviam desaparecido.
Nos dias seguintes iria aumentar o desespero, à medida que as colegas de trabalho diziam que não a viram e que já não ia ao emprego há uns dias. Por fim, procurou Pedro, que o recebeu com “quatro pedras na mão” e lhe disse que a irmã estava bem. Bem melhor agora, que estava longe de João. Não queria vê-lo mais e pedia que não a procurasse.
Inicialmente, ainda pensou seguir o irmão, ou mandar segui-lo, para perceber onde ela se acoitava, mas depois, o orgulho foi mais forte e achou que ela haveria de voltar. Mas à medida que o tempo se passava, foi-se deixando abater até que um dia, bebido além da conta, foi fazer uma cena à casa de Pedro e acabaram à pancada. A mulher dele chamou a polícia e João foi proibido de se aproximar dele. O orgulho e a vergonha fizeram com que nunca mais a procurasse.
Ao retirar a carta de dentro do sobrescrito parecia sentir já o peso da acusação sobre ele.
A folha estava amarelada e datava de três anos após o ter deixado. Estava escrita a esferográfica azul, naquela caligrafia tão feminina que ela tinha e rezava assim:

11 de abril de 1991
João, meu amor.
Penso que ainda te posso chamar assim, porque, apesar de tudo, o meu amor por ti é que me levou a tomar a atitude que tomei. O problema principal é que tu não consegues ter apenas uma mulher e eu não consigo deixar de te perdoar… e fico a odiar-me por isso.
Cada vez que me olhas com os teus olhos de anjo, me pedes perdão e dizes que não se volta a repetir, eu sei que é apenas um intervalo. Por trás desse olhar doce, há um coração volúvel, que, por muito amor que me tenha, não se consegue preencher só comigo.
Só agora, sem te olhar nos olhos e quase três anos depois, me sinto com coragem para te dizer o que me vai no coração. Temo, porém, que te sintas encorajado a procurar-me e, uma vez mais, me faças cair na teia dos teus encantos, onde eu sei que sou enganada e não me importo. Não o faças por favor.
Casei com um homem bom e companheiro, que não teve qualquer pejo em cuidar do teu filho, como se dele fosse. Sim, eu estava grávida quando me vim embora e agora estou novamente, desta vez deste homem puro, que não me vai trocar por outra na primeira oportunidade.
Foi-me insuportável, depois de me garantires que não tornavas a sair com a Lurdes, eu descobrir, sem querer, que continuavas a fazê-lo. Só que desta vez, não precisei que me dissessem, vi-o com os meus olhos e tens a prova na tua mão.
Recebe um beijo desta que te ama e continua a tua vida, livre das amarras que te prendiam a mim, preenchendo o teu coração com quantas mulheres conseguires.
Sempre com muito amor, Eduarda.

PS: Depois de muito pensar, decidi não te enviar esta mensagem, não quero correr o risco de que me faças destruir este casamento. Talvez um dia me decida a dar-ta, quando já for tarde demais para me quereres, ou eu a ti.

Sentiu-se atordoado com a catadupa de informação que recebera, ela não o deixara porque tinha outro, ou porque não o amava, mas porque sabia que estava a ser traída novamente. A prova em sua mão?!?
Olhou de novo a fotografia mal-enquadrada da bela Eduarda e percebeu que, em segundo plano, ele próprio e Lurdes, beijavam-se, acoitados no umbral de uma porta.



Manuel Amaro Mendonça




quarta-feira, 15 de julho de 2020

Histórias da Minha Aldeia-Concurso de Escrita Criativa




Há Festa na Aldeia | Oficina de escrita criativa | os resultados

A Associação das Aldeias de Portugal propõe uma estratégia de desenvolvimento descentralizada e em rede, procurando sinergias entre a população rural e urbana, sustentada em formas renovadas de valorização do património, reforçando o tecido económico e a capacidade de organização das comunidades, baseada na cultura e no turismo.

Esses são os pilares que servem de base a todas as iniciativas Há Festa na Aldeia.

Na impossibilidade de um trabalho de proximidade, no terreno, a oficina de escrita criativa surgiu neste âmbito e temos muito orgulho em partilhar convosco os resultados. Do trabalho dos cerca de 15 participantes, resultaram 9 contos individuais. Histórias de memórias viva, algumas antigas e esbatidas, outras saídas da imaginação, essa que não tem limites, mas todas enaltecendo o nosso território rural.

Sem mais, anunciamos os três vencedores.
Fabíola Mourinho, Collete Canteiro e Manuel Amaro, os nossos parabéns!

Os contos serão editados em livro e disponibilizados digitalmente.


Aqui está a publicação do resultado de um trabalho que gostei muito de fazer.

Fomos desafiados a escolher uma das aldeias do site Aldeias de Portugal (https://www.aldeiasdeportugal.pt/) e escrever uma história passada nessa aldeia, incluindo na mesma história, a resposta a vários desafios de escrita.

A aldeia que escolhi foi Freixo de Numão (https://www.aldeiasdeportugal.pt/aldeia/freixo-de-numao/) e a história, tratava de um homem que deixou a terra há cinquenta anos, devido a uma situação complicada. O seu regresso em 2020, é acompanhado de um jornalista, a quem ele vai contando o seu passado. 

Por ter sido uma das três escolhidas pelos organizadores, vai ser agora publicada.
Seguem-se um excerto das simpáticas palavras que me foram enviadas pela parte dos responsáveis do concurso:

"Escrevo, com muito gosto, para anunciar que foi um dos vencedores do nosso concurso de escrita criativa, não só pelo cumprimento exemplar dos desafios propostos mas pela excelência dos conteúdos e o cuidado em manter vivo um património tão importante. Muitos parabéns!"





quarta-feira, 10 de junho de 2020

ENTRE O PRETO E O BRANCO - pré-lançamento




Quase três anos depois de "Daqueles Além Marão", estava mais do que na altura de publicar um novo livro. Eis que chega a vez de uma nova antologia de contos a ser lançada no segundo semestre de 2020.
Este livro é uma compilação de contos escritos desde 2016, alguns deles inéditos e outros que vêm sendo publicados em blogues e/ou desafios literários.
Durante cerca de duzentas páginas, irei abordar diversos temas em dezasseis histórias, com personagens por vezes polémicos, mas acima de tudo, humanos. Nós somos as nossas escolhas, mas a vida e as pessoas que nos rodeiam, limitam o número de escolhas que nos estão acessíveis, o que acaba por nos tornar vítimas das circunstâncias.
Veja abaixo a lista dos contos incluídos e uma pequena abordagem a cada uma das histórias.

Uma Casa nas Ruas
Um sem abrigo é um criminoso? Um oportunista sem coração? Venha conhecer Francisco, um dos muitos habitantes das ruas, que fazemos por não ver e que fazem o que for preciso para ter o que necessitam.

A Última Afronta
Qual é o nível de maus tratos e afrontas que se pode estar disposto a suportar? Por vezes, abandonar um cônjuge problemático, pode não ser o suficiente; problemas antigos podem acompanhar-nos e serem muito maiores do que imaginamos. Suportamos mais facilmente a afronta que nos fazem, do que aquela feita àqueles que amamos.

Criminoso
Vagabundo e oportunista, sempre em busca da próxima vítima, mas um dia é da caça e outro o do caçador...

Inácio
O vício, seja ele qual for, é um sorvedouro de dinheiro e está apenas nas mãos do viciado corrigir-se. Tudo se torna mais difícil, se alguém lhe suporta o vício.

Luís e Isabel
Mesmo o amor incondicional tem os seus limites. Luís amava Isabel, mas mesmo ele, podia ter uma fase de saturação. 

Menina Bonita
Uma viagem por outros tempos, numa abordagem quase autobiográfica da infância.

Passagem de Ano
Será que temos a certeza de todas as nossas decisões? Estaremos realmente dispostos a suportar todas as consequências e fazer sofrer aqueles que amamos?

Prioridades
O trabalho ou um hobby, podem ser viciantes mas... estarás a dar atenção àqueles que precisam de ti?

Tudo por Amor
Será que o amor pode justificar todas as ações? Como uma moderna Jezabel, Ângela, de nome enganador, está disposta a tudo, para atingir os seus fins.

Manhã de Domingo
"Depois de ti mais nada" será que é mesmo assim?

Por Cada Dia de Amor
Um convalescente no hospital faz amizade com outro doente, que lhe conta a história de um escultor do século XIX. Uma história, contada dentro de outra. 

A Vida Que Eu Quiser
Será que viver nas ruas é uma infelicidade ou uma opção? A vida não é igual para todos e cada um escolhe o caminho entre aqueles que lhe estão disponíveis.

A Caminhada
O pequeno passeio ao fim do dia de um octogenário, pode afinal ser algo completamente diferente do que se imagina.

Solidão
A solidão da terceira idade, as suas realidades e as daqueles que com eles convivem. 

Um Dia Como os Outros
Para os seguranças e utentes daquele aeroporto, estava-se a começar o que parecia ser um dia como os outros, ambos estavam enganados.

A Última Habitante de Vale Santeiro
Noventa anos, sozinha numa aldeia deserta: a receita para a desertificação no interior do nosso envelhecido país. A emigração, as doenças e a idade, levaram todos os habitantes de Vale Santeiro, exceto um... sozinha entre as casas, que fará quando não conseguir cuidar de si própria?

Aqui está um pequeno aperitivo para este novo livro de contos que apresento aos vossos olhos. Espero que gostem.

Boas leituras, leia autores portugueses e não apenas os clássicos. Dê uma oportunidade aos menos conhecidos.