Debaixo dos Céus Os Mundos de Manuel Amaro Mendonça

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Participação na revista digital SAMIZDAT





Iniciou-se hoje a minha participação na revista digital SAMIZDAT, o objetivo é contribuir com um texto mensal para este excelente grupo de autores.

Vai ser para mim uma honra, publicar os meus humildes trabalhos, ao lado dos diversos escritores lusófonos que aqui participam.

As razões para este nome, estão devidamente explicadas na sua página de apresentação "Por que SAMIZDAT?" e só me fazem sentir solidário e irmão nos sentimentos e objetivos. Não é sem significado que, os meus três livros publicados, foram-no sem recurso aos serviços de qualquer editora, para além dos de impressão.

"A indústria cultural - e o mercado literário faz parte dela - também realiza um processo de exclusão, baseado no que se julga não ter valor mercadológico. Inexplicavelmente, estabeleceu-se que contos, poemas, autores desconhecidos não podem ser comercializados, que não vale a pena investir neles, pois os gastos seriam maiores do que o lucro.
A indústria deseja o produto pronto e com consumidores. Não basta qualidade, não basta competência; se houver quem compre, mesmo o lixo possui prioridades na hora de ser absorvido pelo mercado.
E a autopublicação, como em qualquer regime excludente, torna-se a via para produtores culturais atingirem o público."

A industria cultural, nomeadamente a literária, não quer arriscar e pretende que o seu negócio se faça às custas do autor... ele deve financiar a impressão e venda do seu trabalho e por isso são pedidas grandes somas para a impressão de um X número de exemplares, uma parte dos quais será entregue ao próprio. Os outros, espera-se que se vendam e se tal acontecer, será só lucro, porque foi tudo pago "à cabeça" pelo esperançoso candidato a escritor. Com muito talento ou pouco, vítima da falta de uma divulgação capaz, o "seu negócio" está falido à nascença, vítima de um investimento que não tem hipóteses de rentabilizar. Longe vão os tempos em que não se publicava isto ou aquilo por falta de qualidade literária, ou porque se afastava da "política editorial da editora"; agora, basta ter dinheiro (ou querer gasta-lo) e publica-se qualquer coisa.

Mas já me estou a afastar do tema desta publicação, que apenas pretende anunciar a minha primeira "postagem" nesta revista, onde pretendo publicar todos os dias 29.

Para os que gostam de ler e para os que identificam com aquilo que é ser escravo da imaginação, aqui vai:

Prioridades




quarta-feira, 27 de março de 2019

Antologia "Sol de Inverno" conto selecionado






De: SUI GENERIS
Enviado: 27 de março de 2019 11:06
Para:
Manuel Amaro
Assunto: SOL 002 - Manuel Amaro Mendonça - Selecção

Bom dia,

Manuel Amaro Mendonça  


Comunicamos que o texto de sua autoria com o título


MANHÃ DE DOMINGO  


que submeteu ao processo de selecção para integrar a antologia «SOL DE INVERNO» foi seleccionado.

Agradecemos a sua participação nesta (nova) obra colectiva da Colecção Sui Generis, cuja relação de autores seleccionados – cerca de sessenta – será divulgada, a qualquer momento, nas nossas páginas e grupos da rede social Facebook e nos nossos blogues.

Esta informação não é definitiva, por enquanto. É a selecção inicial, estando ainda sujeita a confirmação.

A selecção final (definitiva) de autores que integram este projecto literário será divulgada em momento oportuno, após ter-se dado cumprimento aos Pontos 7 e 8 do Regulamento subscrito, que se encontra publicado neste endereço:


Continuaremos a dar notícias sobre «Sol de Inverno» durante todo o processo de selecção, produção e edição da obra. Tornaremos a comunicar brevemente, com informações (mais) concretas sobre o andamento desta Antologia.

Outras informações sobre os diversos projectos Sui Generis podem ser acompanhadas através das nossas páginas e grupos do Facebook e do blogue Edições Sui Generis.

Grato pela sua atenção.

Saudações literárias

Isidro Sousa
SOL DE INVERNO
Organização


--
Cumprimentos
ISIDRO SOUSA


quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

A Última Habitante de Vale Santeiro




Faustina acordou com um estremeção. O quarto onde se encontrava estava na penumbra; ainda a noite ia alta. Quase não se conseguia mexer, com a enormidade de mantas que tinha em cima de si, mas, cada vez que acordava, sentia o frio que lhe mordia o corpo. Teve sede e, com dificuldade arrastou os 92 anos que lhe pesavam nos ossos e desceu da cama alta, para as alpercatas que a esperavam no chão de soalho.

Era uma mulher magra e engelhada, envergando a camisa de dormir puída, mas grossa, sobre umas calças de pijama azuis, já coçadas. A cabeleira alva caía-lhe sobre as costas, confundindo-se com a camisa. Embrulhou os ombros com uma das mantas, que levantou com esforço.

Tateou a parede junto à cabeceira da cama de ferro para pegar o pau que lhe servia de bengala. Não acendeu a vela no criado-mudo e serviu-se da escassa luminosidade que chegava da cozinha, para ver o caminho. Arrastou-se, mais do que caminhou, pela porta estreita, contrariando as fortes tonturas que a atormentavam.

A espaçosa divisão tinha mais luz que o quarto; escoava-se pelas aberturas das enormes telhas de ardósia que se divisavam acima do travejamento despido do teto e pelas generosas frestas da porta da habitação. Uma robusta mesa de madeira maciça e alguns bancos, ocupavam um dos lados, onde sobressaía um imponente escano, vestígios dos tempos em que aquela era uma casa cheia. No lar[1], brilhavam algumas brasas envergonhadas, vascas da fogueira do dia anterior. O vento assobiava pelas frestas e a velha cortina que tapava a única janela, oscilava com a corrente de ar.

Apertando a manta em volta do pescoço e sempre tremendo de frio, Faustina contraiu o rosto enrugado ao beber a água gelada do púcaro de alumínio. Uma coluna de vapor soltou-se do seu hálito.

Hesitante, caminhou até à porta e abriu a metade superior, sendo brindada com vários flocos de neve que esvoaçaram para dentro.
As escadas e a rua da aldeia, eram um tapete branco. As casas em frente estavam decoradas com alvos mantos, nas estruturas destelhadas e derruídas e as janelas eram negros olhos que a fitavam, inertes. O silêncio absoluto só era perturbado pelo tilintar dos vários espanta-espíritos, pendurados na borda do telhado e pelo vento e o sussurrar permanente dos pinhais em volta. Para além das casas, distorcido pelos farrapos de algodão esvoaçante, o imponente Marão velava sobre o casario e a paisagem, numa vigília que começara no princípio dos tempos.

Tremendo descontroladamente, a comprimir as gengivas, quase desdentadas, para que não batam, cerrou a porta e apressou-se a regressar à cama.

Uma cabrita baliu na loja[2], sentindo o caminhar da proprietária.

Encolheu-se de novo debaixo da montanha de roupas e apertou, o mais que pode, os joelhos esquálidos contra o peito, enquanto se agitava em tremores. Sentia o bafo fervente nas mãos, contrastando com o frio que sentia. Estava doente!

Tossiu convulsivamente. Não se recordava a última vez que esteve doente, mas já começara a suspeitar com o frio que sentia e as tonturas que a assombravam há vários dias. Se pensasse bem, também já vinha a notar fraqueza e falta de apetite há mais de uma semana e nestes últimos três dias, piorara a olhos vistos. Tossiu novamente, terminando com vómitos e os olhos cheios de lágrimas… vomitar o quê, se há dois dias que estava só a água?

Se calhar devia ter aceite a oferta do jovem caçador, que ali passara antes do nevão, para a levar à vila, ao médico. Sorriu de si para si, enquanto se encolhia mais para baixo dos lençóis gelados. Os caçadores eram uma boa companhia, apareciam, conversavam um pouco, dividiam a merenda com ela ou comiam um pouco do pouco que ela por lá tinha e havia sempre uma garrafita de vinho, um bocado de presunto, ou salpicão para dividir com eles, trazidos pelo bom senhor Fonseca. O carteiro, agora reformado, nunca deixou de a visitar, mesmo depois de já não ter obrigação de trazer cartas, porque ao fim e ao cabo, já nem carteiro lá ia. Era uma excelente pessoa e trazia-lhe os bens essenciais, pagos com os dinheiritos que fazia a vender uns ovos, frangos e um ou outro cabrito aos caçadores ou caminheiros que por ali passavam.

Contentava-se com pouco, não precisava de muito dinheiro. Mesmo o vinho durava-lhe muito tempo, não bebia todos os dias e a carne, comia pouca, eram mais os legumezitos que conseguia arrancar da horta nas traseiras, mais ou menos abrigada dos frios da serra. Estes dias, porém, não conseguira sequer levar as cabritas, nem dar de comer às galinhas. "Pobrezinhas, devem estar a estranhar não me verem." Uma lágrima correu do canto do olho.

Também a GNR a visitava, de tempos em tempos e trazia as coisas que ela pedia, na ronda seguinte. Normalmente o cabo Gonçalves, de poucas falas, mas bom rapaz e a guarda Salomé, uma menina muito querida, que a tratava por avó Tina, vinham bater-lhe à porta e perguntar se estava tudo bem. Eram as únicas quebras de rotina naquele mundo perdido na serra e esquecido por Deus… e pelo Diabo.

O rosto iluminou-se-lhe com a recordação da aldeia cheia de gente, na sua infância e juventude. Parecia que ainda se estava a ver, cântaro na mão, com o vestido aos quadrados, que já fora da sua irmã, a correr descalça pelo empedrado da rua, até à fonte. Ali, pegava-se invariavelmente com a Micas do porqueiro e com a Ana da Chã, mas tinha sempre a ajuda da irmã, a Joaquina e da vizinha Luísa, contra aquelas duas invejosas.

"A querida Luísa… era tão bonita e tão carinhosa. Tive tanta pena quando se casou e foi embora para Angola com o marido. Será que ainda é viva?"

Quando chegava a casa, a mãe gritava com ela porque vinha suja e molhada e o pai, se não estivesse embriagado, defendia-a sempre. Era uma casa cheia, esta mesma casa onde vivia. O pai e a mãe dormiam no quarto, ela e a Joaquina, junto da mesa, mais próximo do lar e os quatro rapazes do outro lado da cozinha. A maior parte das vezes, porém, eles preferiam dormir no palheiro onde ficava o burro, que era mais quente.

E as festas que se faziam naquele povo… havia sempre o "ti" João com o harmónio, o Celestino ferreiro, com a gaita de foles e o "Zé tolinho" com o tambor; faziam uma algazarra tal, que ecoava nos montes, invocando as povoações em redor. O Tino ferreiro era uma estrela, não só ali, como pelos povos em redor. Ficava-se hipnotizado a ouvir as músicas que tocava, algumas de sua autoria. Mas era um maroto: habituado a apertar os foles, estava sempre de mão lampeira para apertar peito macio ou rabo rijo. Uma vez, também ela lhe sentiu o aperto numa festa e só não lhe acertou uma valente "tapona", porque o facínora, treinado que estava nestas andanças, afastou-se rapidamente, com um sorriso traquina. Ao fim e ao cabo, a sensação de ofensa durava pouco, face àquele rosto bem-talhado e sorriso desarmante. Mas com a gaita de foles era um Deus na terra e com os companheiros, punha a dançar o maior pé-de-chumbo. Dançavam-se as modas com alegria e em tais rodopios, que por vezes até caíam no chão empedrado do largo da fonte.

Foi naquela mesma fonte, no meio da aldeia, que percebeu o olhar do António Joaquim, filho do sapateiro de São Miguel das Chãs. Ela sempre se portou com ele como uma potra selvagem, com "coices" e empurrões, cada vez que ele se aproximava, mas como ele não desistia, casaram num tórrido dia do estio do ano de 1946.

A igreja, nome pomposo para a pequena capela no centro do povoado, onde se acotovelaram os vizinhos, nos tempos das famílias de muitos filhos, não passava agora de umas paredes ao alto, despojadas há muito dos objetos de culto. Estava bonita, no dia do seu casamento, todo o templo, caiado de novo, tinha os altares decorados com belas flores silvestres e muitos verdes, colaboração de todas as mulheres da aldeia. Até o chão tinha um belo tapete florido, decorado com motivos geométricos ricamente elaborados. Cheia de vergonha, a cabeça coberta com um lenço branco e o rosto corado, estava simples, mas radiosa. Apesar dos pais não lhe poderem comprar um vestido de tule branca, envergava uma alva camisa, finamente bordada, costurada pela "ti" Rosário, que entrava numa saia cinza claro, comprida, que quase tapava os pequenos sapatos pretos, bem engraxados. A seu lado, um sorridente António Joaquim, de chapéu preto de aba direita, fartos bigodes e fato cinza claro, empinava-se nas botas de couro luzidio e dava-lhe o braço, de forma protetora… como eram jovens, mesmo a mais pobre das indumentárias, era trajo de príncipes. E foi assim que se sentiram durante a cerimónia e no circuito que tiveram de fazer, nos dois povoados, de braço dado, para que todos reconhecessem o novo casal.

Faustina foi viver para as Chãs com os sogros, mas ao fim de três anos os irmãos tinham emigrado para o Brasil, um após outro e o tifo levara-lhe o pai e a irmã. Regressou a Vale Santeiro com o marido e dois filhos, mas um deles morreu naquele mesmo ano, com febres muito altas, o outro também as apanhou e durou apenas mais cento e poucos dias. No mesmo ano de 1951, nasceram os gémeos e batizaram-nos António Luís e António José, exigência do marido.

As colheitas da castanha e da azeitona eram sempre motivo de festa; a aldeia enchia-se de romeiros, que vinham de longe trabalhar à jeira nos soutos ou nos olivais. Eram uma boa desculpa para o endiabrado trio musical se juntar às "orquestras" que acompanhavam aquelas hordas e festejar o fim das colheitas com bailes que iam pela noite dentro, assim o permitissem o frio, a chuva, ou mesmo a neve. Para muitos, aquela mão cheia de castanhas assadas e o púcaro de vinho, eram a única maneira de bastar a fome que lhes atormentava as costelas o resto do ano.

A fome e uma profunda crise, ainda efeitos do terrível conflito mundial que acabara há apenas cinco anos, grassava pela totalidade do país, mas por aqueles lados, sempre se arranjava uma hortaliça, uma batata ou uma côdea de pão. O marido, porque estava insatisfeito com o pouco que ganhava de sapateiro, deixou-se levar pela febre da emigração. O sonho do Brasil levou-o para longe dela, com promessas de a mandar buscar… durante a viagem de barco, levou-o o diabo… só o soube dois meses depois.

A vida nunca lhe sorria verdadeiramente, antes parecia rir de escárnio.

Faustina e a mãe trabalharam juntas nos terrenos que o pai comprara com os dinheiros ganhos no volfrâmio, até a matriarca não poder mais. Era até curioso que o pai tivesse ganho a vida a vender minério para alimentar a guerra na Europa em 1943 e avô tivesse perdido a vida nas trincheiras da Flandres em 1917.

A mãe foi-se já velhinha e sem poder levantar-se da cama. Ainda assistiu à partida dos netos gémeos para França, nos anos setenta, fugidos à guerra colonial… a doença da emigração levava mais dois.

O primeiro ano custou-lhe imenso. Com quarenta e cinco anos, a casa vazia, o trabalho todo para ela. Faltavam-lhe as brincadeiras dos rapazes, até mesmo as vezes que lhes ralhava porque iam para a taberna até tarde. Noutras ocasiões, irritava-se porque riam e falavam alto, na cozinha, a gastar petróleo no candeeiro e sem a deixar dormir. De manhã, acordava-os ainda mais cedo, para os castigar, mas aquelas almas lá se levantavam. Resmungavam, mas obedeciam.

Com o tempo, as memórias deles já não passavam de palavras escritas em missivas curtas, lidas num tom monocórdico pelo senhor Fonseca carteiro. Estavam bem, casaram e tinham filhos, netos que ela só conheceu com cerca de dez anos. Por volta dos anos oitenta… vieram passar umas férias, mas não se demoraram, o objetivo eram as praias do Algarve. Traziam mulheres francesas e os filhos não diziam palavra de português. Não gostaram de ver o Fernando, o irmão do António Joaquim a viver com ela, ainda para mais sem casar. "Que queriam eles?" Pensou franzindo o sobrolho, mas mantendo os olhos cerrados. "Tantos anos sem quererem saber, nunca lhes respondi, senão às primeiras cartas. Nunca aquelas almas vieram saber se estava bem, ou precisava de alguma coisa." Já quando se foram para França "a salto[3]", foi ela quem pagou ao "passador" e deu-lhes as poucas economias que tinha. Ficou em grandes dificuldades, mas mesmo assim, achavam-se no direito de dizer que tinham vergonha pelo falatório que havia na aldeia, por causa dela e do tio deles. Trocaram palavras amargas, para uma despedida. Ela estava contente por vê-los escapar à guerra, que já vitimara dois jovens da aldeia, mas lamentava ver os filhos ir para longe, além da falta que lhe iriam fazer aqueles dois pares de fortes braços.

Era à porta da taberna do "ti" Acácio, que Faustina encontrava Fernando, ao fim do dia, após o trabalho. Ela fazia de propósito para ir à água na hora em que o sabia por lá… e ele fazia questão de sair à porta, assim que a via assomar à boca da rua, com o cântaro debaixo do braço. As mulheres e as raparigas riam maliciosamente ou sussurravam umas com as outras quando passavam, mas eles ignoravam-nas, ou nem se apercebiam da sua passagem. Ela era já viúva e não via, ou não queria ver, mal nenhum em falar com o cunhado. Ele, "quase" viúvo, tinha ali a oportunidade de ter junto de si um rosto bonito e alegre.

Mesmo Fernando só lhe fez companhia por cerca de quinze anos. Juntara-se com ela, apenas quando ele enviuvou também. Embora conversassem muito desde a partida do irmão, sempre tentou respeitar Maria do Carmo, a mulher dele, que estava de cama há anos, não a abandonando nem pondo outra mulher no lugar que lhe pertencia. Maria do Carmo foi outra infeliz; desejava ardentemente ter filhos e por três vezes sofreu partos pavorosos, que deram em crianças deformadas e, felizmente, mortas. O último foi de tal forma difícil, que tiveram de mandar vir o médico da vila. Salvou-lhe a vida, mas não conseguiu salvar-lhe o juízo.

Fernando e Faustina acabaram por se consolar um ao outro. Encontravam-se às escondidas, às vezes na calada da noite, no palheiro dela, ou noutro lugar qualquer mais recatado, mas inevitavelmente acabaram por ser vistos… e falados. A viuvez dele, a partida dos filhos dela e a velhice da mãe, foram a combinação perfeita para se juntarem definitivamente em casa dela. Foi um suporte essencial, quando a mãe dela partiu deste mundo. Viveram bons tempos, ele foi uma companhia serena e carinhosa, até o coração lhe ter “pregado uma partida” aos sessenta e um anos. E Faustina tornou a ficar só.

Não quis mais homem nenhum. Não que houvesse algum por aqueles lados, pelo menos viúvo, mas não queria mais partilhar a sua vida com alguém que a abandonasse novamente.
Os filhos retornaram por volta de 1990. Ou que alguém lhes chamasse a atenção, ou que os remorsos os mordessem, apareceram de surpresa, apenas os dois, para “saberem como ela estava e se precisava de alguma coisa”. António Luís, sempre mais falador, manteve uma conversa variada, contando a forma como viviam em França e que o irmão, agora divorciado, vivia temporariamente com eles. Mas António José notava-se comprometido, como se estivesse ali contra a vontade. Por fim, a conversa acabou por cair na aldeia, cada vez mais deserta e no facto de ela estar sozinha há tantos anos. “O melhor mesmo” dizia Luís “era vender as territas e a casa e ir para o lar da vila, onde não lhe faltaria nada.” Até trazia já os impressos para assinar e tudo. Tinha pressa para ir ter com o resto da família, que o aguardava no Algarve. Claro que acabaram aos gritos em casa e expulsos pela matriarca… Nunca mais voltaram. Ela sabia que não deveria ter atirado a pedra, que partiu o vidro da porta do carro do filho, mas depois de atirada, já não havia nada a fazer. “Eles que fossem lá para as porcas das francesas e se enchessem do bom e do melhor que havia naquela terra para onde os mandou, com todos os tostões ganhos com o suor do seu rosto. Não precisava deles, nem de ninguém.” Gritava a miúde com quem lhe puxava tal conversa.

Os vizinhos foram desaparecendo, um após outro. Com mais ou menos dificuldades, acompanhou alguns até à última morada e despediu-se de outros, que foram para o lar de idosos ou para o hospital e já não regressaram.

Por fim, o padre já não vinha dizer a missa à aldeia e tinham de ir às Chãs, que pouca mais gente tinha. Depois, já nem lá. O sacerdote só aparecia para os funerais e o coveiro tinham de o mandar vir da vila. O templo estava fechado, mas não deixaram que levassem as imagens, quando o padre as mandou buscar; pertenciam ao povo e não à igreja! Faustina ainda conheceu, já muito velho, o neto do santeiro que esculpiu a Senhora da Piedade, que era tão bonita.

Mantiveram o culto como podiam. A “ti” Sabina, a única que sabia ler, recitava trechos da bíblia e partes do missal todos os dias à noite, enquanto os diabetes não a cegaram, depois já só rezavam o terço. Eram as cerimónias que tinham para alimentar a fé, que não parecia esmorecer. Uma vez por mês, lavavam o chão de soalho e tiravam as teias de aranha dos santos, mas as pinturas e reparações eram demasiada exigência para as fracas posses físicas e monetárias da população. As paredes brancas estavam sujas e descascadas. Já tinha a aldeia só para si e não deixava de ir rezar o terço, por hábito, no salão sombrio e solitário que fechava cuidadosamente ao fim do dia. Uma noite, o telhado ruiu com estrondo e ela só o soube pela manhã, pois teve medo de sair à rua para ver o que tinha acontecido… chorou e teve pena de não estar lá dentro, a rezar, na hora em que aconteceu.

Há quanto tempo estava sozinha? Dez? Quinze anos? Já quando faleceu o Fernando, Vale Santeiro só tinha oito habitantes… havia menos pessoas do que cães e mesmo esses foram desaparecendo.

Lembrava-se perfeitamente quando a filha da Maria do Céu veio para a levar para Lisboa, para junto dela, só restavam elas as duas…. Insistiu tanto com Faustina para que fosse para a vila, para o lar de terceira idade… “Foi a única vez que gritei com ela, pobrezinha, que já estava tão fraquinha." Suspirou. "Ainda me escreveu umas vezes, depois deixou de escrever. Mais tarde, a filha mandou dizer que ela tinha morrido. Eramos as últimas pessoas de Vale Santeiro… e agora só resto eu." Lágrimas molharam o travesseiro.

Não sabia se tinha estado a sonhar se acordada, a sensação era de estar a dormir há décadas. Os lábios estavam secos e gretados. Doíam-lhe. Afastou as mantas e arrancou o corpo à cama, puxado a gemidos.

Cambaleou até ao balde onde fazia as necessidades e destapou-o, sendo agredida de imediato pelo cheiro intenso. Desceu as calças com dificuldade e quando se baixava, sentiu uma violenta náusea, acompanhada de um formigueiro nas mãos e nos pés.
Acordou com as pernas e os braços rígidos de frio. Estava deitada no chão, os membros entorpecidos quase não lhe obedeciam e um zumbido ensurdecedor inundava-lhe o cérebro. Gatinhou, gemendo e chorando de dores até à cama, que era uma estrutura de ferro demasiado alta para ser alcançada, mas a esperança da tonelada de mantas e o colchão de palha eram forte apelo.

Não sabia se estava a dormir, se acordada, estava de novo debaixo das mantas. Ouvia ao longe, trazido pelo sopro do vento, as melodias tristes que tocava o Tino ferreiro, ecoando nas encostas agrestes da serra. Vozes falavam de longe num tom baixo. Parecia-lhe a voz do senhor Fonseca carteiro, que conversava com alguém: "…tive que ir até às Chãs, que aqui não há rede…". Tentou organizar as ideias e forçar-se a perceber o que estava a acontecer, enquanto ele continuava: "… coitadinhas, já não comiam nem bebiam há uns dias. Pus-lhes ração e água…"

 Avó Faustina, como está a senhora? — Agora era a voz de Salomé, a GNR que a visitava frequentemente, que lhe chegava de muito longe. — Está tão quente! Tem febre? Que magra que está, não se tem alimentado bem!

 Não sei o que se passa. — Respondeu numa voz sumida, sem abrir os olhos, por entre os arrepios de frio. Não sabia ainda se falava com um sonho. — Tenho tido muito frio e passo o tempo debaixo das mantas. Nem fome tenho. Não sei há quanto tempo não saio com as cabras… tem havido muita neve.

 Não acendeu o lume… — A guarda censurou com meiguice.

 Ainda acendi um destes dias, mas a lenha está a acabar e não me sinto com forças para ir buscar mais. Debaixo das mantas não está tanto frio. — A velhota respondeu, tirando os olhos e espreitando debaixo do monte de cobertas, apercebendo-se pela primeira vez da luz azulada que piscava, iluminando todo o compartimento a espaços. — Será que me podia trazer um braçadito de galhos? E dar umas “coivitas” às galinhas? As pobrezinhas bem chamam…

 A senhora precisa de ajuda e vamos levá-la para um sítio quentinho, com uma cama fofinha, onde terá mais gente para conversar. — Salomé continuou carinhosamente, quase a falar-lhe em segredo. — Não precisa de sair com as cabras, nem de andar “atrás das galinhas” nem da lenha. Vai ter sempre alguém para cuidar da senhora, está bem? Vai passar o Natal com muitos amigos novos.

Só aí Faustina se apercebeu do outro guarda e três jovens de bata branca e até do senhor Fonseca carteiro, que aguardavam atrás, iluminados pela silenciosa e faiscante luz azulada.

— Ora, vejam tanta gente. — Gemeu na voz fraca. — E eu não tenho quase nada. Deve haver para aí um "cibito[4]" de presunto e pão. Talvez um tantinho de vinho…

Salomé sorriu-lhe e beijou-lhe a mão descarnada antes de dar passagem aos jovens de bata branca, que, com palavras carinhosas, mudaram-na da cama com todo o cuidado, para a maca que trouxeram. Em seguida, levaram-na pelo quarto e depois a cozinha, que foram a existência dela por tantos anos.

Cá fora, o mundo era cinzento e as nuvens pesadas continuavam a navegar o céu, deixando escapar, aqui e além, uma nesga da promessa do sol forte, que se escondia mais acima.
Ao ser colocada na ambulância, sabia que não veria mais as cabrinhas, nem as galinhas, que eram a sua companhia de todos os dias. Não tornaria a ver os cumes do Marão tão de perto, nem voltaria a sentir o ar fresco da madrugada a bater-lhe no rosto, antes dos calores das tardes de verão.

Não mais veria as ruas desertas de Vale Santeiro, nem poderia reviver a sua vida, em cada uma daquelas esquinas arruinadas, ou lembrar bons momentos debaixo de muitos telhados que já não existem, dos amigos que já se foram há muito.

Fechou os olhos e, forçando um sorriso, enclavinhou as mãos sobre o peito, como que guardando em si aquelas recordações.
E deixou-se levar.



[1] Lareira, conforme é utilizado em grande parte da região transmontana.
[2] Grande parte das casas transmontanas possui um piso inferior à habitação que era usado para arrumações, criar os porcos e outros animais. Era útil para os poderem alimentar sem sair da casa e ao mesmo tempo geravam calor.
[3] As saídas do país eram fortemente controladas durante o regime salazarista e principalmente durante a guerra colonial. A forma de passar as fronteiras, para os civis e principalmente os jovens em idade militar, era clandestinamente, com ajuda de "passadores" envolvidos em autênticas redes de tráfico humano.
[4] De cibo, pequena quantidade de alimento.


segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Mais um ano a chegou ao fim


Chegamos ao fim do ano de 2018, que trouxe mais umas reviravoltas a este mundo em que vivemos.

Nas linhas seguintes será apresentada uma relação de eventos de 2018 de Portugal e do mundo, que me pareceram importantes e alguns comentários, aos que me mereceram mais alguma atenção. Em seguida, farei um resumo dos factos mais relevantes para a minha carreira das letras, sendo que, ao contrário daquilo que eu previa, não foi possível fazer a edição de mais um livro este ano... talvez 2019 traga novidades.


CRONOLOGIA DO MUNDO EM 2018


A ciência não pára e há muitas novidades, em termos de tecnologia espacial, como o Electron, da Rocket Lab que se torna o primeiro foguete a fazer voo orbital através do uso de motor alimentado por bomba elétrica ao mesmo tempo que velhos "players", como a estação espacial chinesa Tiangong, que caiu na terra e o telescópio espacial Kepler, da NASA, que ficou sem combustível, saem de cena. Se a estação espacial chinesa tinha apenas sete anos e caiu para a terra, desintegrando-se na entrada da atmosfera, a sonda Kepler tinha quase dez e descobriu mais de 2.600 exoplanetas e agora, exaurida, vai manter sua órbita atual e segura, longe da Terra.
Também da NASA, foi lançada a sonda Parker, em direção ao Sol e chegou a Marte a sonda Insight.



Nos últimos anos, verifica-se que a corrida ao espaço está definitivamente lançada e a Space X, empresa privada, fundada pelo multi-milionário Elon Musk, que também é o fundador da Tesla Motors, lança foguetes cada vez mais avançados, a série Falcon, com o objetivo de tornar uma futura viagem e colonização de Marte mais acessíveis e cria projetos destinados a liberalizar o "turismo" no espaço como o DearMoon.  



A ESA, Agência Espacial Europeia, em conjunto com a JAXA, a sua congénere japonesa, lançaram a sonda BepiColombo em direção a Mercúrio.

Triste, é que mesmo com tantos desenvolvimentos e tanta tecnologia, seja possível que o último rinoceronte-branco-do-norte macho do mundo, morra no Quênia. Mais uma espécie a juntar às lista das extintas. Também o Japão, abandona os tratados internacionais e retoma a pesca à baleia para fins comerciais... se todos os outros signatários lhe seguirem o exemplo, em breve se acabarão as baleias.

No mundo, aconteceram algumas novidades, umas esperadas e outras não.
O papa Francisco, apenas igual a si próprio, continua de "peito aberto" a desafiar os poderes e a falar o que muitos não querem ouvir e, logo no início do ano, na sua viagem ao Chile e ao Perú, não hesita em falar na corrupção, que é um vírus que ataca povos e democracias da América Latina. Também no seu discurso anual, em dezembro, enfrentou a vergonha, que a Igreja Católica não queria assumir e apela aos padres e ministros da igreja, prevaricadores, que se entreguem à justiça dos Homens e se preparem para a Justiça Divina. Se por um lado, cresce a admiração internacional por este homem, por outro, também cresce o número dos seus inimigos, à medida que a sua luta contra a corrupção no Vaticano se intensifica.  



Com mais ou menos surpresa, no mês de fevereiro, Raul Castro, irmão de Fidel, abandona o poder. Acabava-se assim o governo da dinastia Castro, que durou 60 anos.

Sem surpresa, em março, Vladimir Putin é reeleito presidente da Rússia

Donald Trump assinalou um ano na presidência dos Estados Unidos da América e assinou a saída do país do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Num completo desprezo pelas instituições internacionais, o país mais poderoso do mundo (?) continua a abandonar protocolos e acordos assinados, alguns deles de sua própria iniciativa. A estratégia de isolamento e protecionismo do Estados Unidos está a tomar proporções complicadas e a anunciar uma guerra comercial que ninguém sabe como poderá terminar.

Num estranho incidente, diversos pacotes suspeitos com explosivos são enviados simultaneamente para líderes do partido Democrata nos Estados Unidos, entre eles, o ex-presidente Barack Obama, a ex-primeira-dama Hillary Clinton e a rede de TV CNN, além de congressistas e personalidades

O Reino Unido e o seu BREXIT mantiveram durante todo o ano uma dança de aproximação e afastamento e Theresa May começa a ver-se numa situação complicada para levar até ao fim o seu intento. A sua própria bancada ameaça não aceitar as negociações com a União Europeia, pois não concorda com um "mau acordo" e, com a libra a descer diariamente, a primeira ministra tem um prazo cada vez mais curto. Não é surpresa para ninguém que os ingleses sempre quiseram a parte boa de qualquer negócio e esperavam que a UE se "atirasse para o chão" a implorar que não saísse e a oferecer tudo o que eles quisessem. A desilusão é grande e os britânicos vêem-se sem um plano B que possa "salvar a face". Na minha modesta opinião, um resultado de 51,9% dos votos, diante de 48,1% não deveria ser vinculativo e houve muito descontente que achou que iria dar uma lição, ao votar contra e outros fizeram-no sem perceberem muito bem as implicações. O resto, foi aproveitamento político de umas quantas figuras menores, para chegar à ribalta, embora alguns  não tenham suportado o peso da responsabilidade e se sentissem esmagados pela enormidade do seu feito.




Donald Trump e Kim Jong-un fazem reunião de cúpula entre Estados Unidos e Coreia do Norte na ilha Sentosa, Singapura. Ninguém sabia exatamente o que esperar desta reunião, mas de certeza que grande parte das pessoas contava com alguma coisa de "disparatado" de algum dos intervenientes.

O presidente sul-coreano Moon Jae-in e o líder norte-coreano Kim Jong-Un comprometem-se a assinar um acordo de paz para encerrar oficialmente a Guerra da Coreia, iniciada em 1950




Este ano assinalou-se também o centenário do fim da Primeira Guerra Mundial, um dos mais sangrentos conflitos da história.

Em junho de 2018, é finalmente autorizado às mulheres conduzir automóveis na Arábia Saudita. A mentalidade medieval demora a ser deixada para trás.

No Brasil, o clima altamente instável, desde a impugnação de Dilma Rousseff e governação interina de Michel Temer e prisão do ex-presidente Lula da Silva, termina com a surpreendente eleição do polémico candidato da extrema direita, Jair Bolsonaro.



Um incêndio de grandes proporções atingiu os três andares do prédio do Museu Nacional do Brasil, na Quinta da Boa Vista, zona norte do Rio de Janeiro. Com ele desaparecem peças únicas e de valor incalculável para a história do Brasil e de Portugal.

Nos Estados Unidos, a fricção entre os adeptos do fim do livre acesso às armas e o poder da industria do armamento, continua sem fim à vista e entretanto os assassinatos múltiplos mantêm-se sem controlo:  14 de fevereiro — Um jovem chamado Nikolas Cruz entra armado num cólegio de Parkland, Flórida e deixa 17 mortos e 15 feridos, 27 de outubro — Um atirador identificado como Robert Bowers invade uma sinagoga em Pittsburgh, na Pensilvânia, e dispara deixando 11 mortos e 4 feridos, 7 de novembro — Um atirador invade uma festa de universitários em Thousand Oaks, na Califórnia, e deixa 12 mortos.

Os ataques terroristas em França, com "lobos solitários" equipados com armas, um em março, outro em setembro e outro em dezembro, fazem poucas vítimas, mas inspiram terror, já o ataque químico com gás Sarin em Douma, na Síria, fez mais de cinquenta mortos.

A incúria, ou simplesmente incompetência, causam acidentes aqui e ali: A Ponte Morandi, em Gênova na Itália, cai e causa 43 mortes, em Borba, Portugal, uma estrada que devia há muito estar encerrada, cedeu e arrastou para a morte cinco pessoas, em São Paulo, o viaduto da Marginal Pinheiros cedeu próximo à Ponte do Jaguaré e causou alguns feridos... podia ter sido bem pior.


Derrocada de estrada em Borba

A infelicidade bateu à porta daqueles que arriscam a vida em prol dos outros e um helicóptero do Instituto Nacional de Emergência Médica despenhou-se em Valongo, na Serra de Santa Justa e de Pias. Morreram os 4 ocupantes da aeronave que regressavam de um transporte de emergência entre Macedo de Cavaleiros e o Hospital de Santo António, no Porto.

Sem precisar de ajudas, também a natureza faz as suas vítimas e nos terremotos seguidos de tsunami, ocorridos na Indonésia em setembro e em dezembro, saldam-se mais de 2.500 mortos e mais de 5.000 desaparecidos. 

Neste ano desapareceram também grandes figuras das artes e da politica, entre as quais destaco a cantora americana Aretha Franklin, a cantora portuguesa Madalena Iglésias, a atriz brasileira Tônia Carrero, o realizador checo Miloš Forman,  o DJ sueco Avicii, o ator e humorista Agildo Ribeiro, o politico moçambicano Afonso Dhlakama,  o artista plástico português, Júlio Pomar, o escritor americano Philip Roth, o escritor e jornalista americano Jerry Hopkins, a atriz portuguesa Laura Soveral, o jornalista e escritor português Altino do Tojal, o médico e político português João Semedo, a cantora portuguesa Celeste Rodrigues, irmã de Amália Rodrigues, o político americano John McCain, o ator americano Burt Reynolds, o cantor francês Charles Aznavour a soprano espanhola Montserrat Caballé o empresário americano e co-fundador da Microsoft Paul Allen, a apresentadora portuguesa Helena Ramos, a cantora portuguesa Maria Guinot, o criador de histórias em quadradinhos americano e "pai" de muitos super-heróis Stan Lee, o militar e político Loureiro dos Santos, o cineasta italiano Bernardo Bertolucci, o pintor e filósofo argentino Tomás Maldonado e o ex-presidente dos Estados Unidos George H. W. Bush, alguns serão lembrados com saudade, outros nem por isso.

No nosso "jardim à beira mar plantado" começamos o ano de 2018 com uma vaga de frio que chegou a atingir os sete graus negativos em Carrazeda de Ansiães (para os distraídos da geografia, Carrazeda de Ansiães fica no distrito de Bragança) (para os outros que também não sabem e não percebem nada de geografia, o distrito de Bragança é aquele cantinho, da parte superior direita, no mapa de Portugal)






















O Festival Eurovisão da Canção foi finalmente realizado em Portugal, na sequência da vitória obtida  no anterior, por Salvador Sobral. Apesar do feito conseguido pelo cantor português, há muito que a minha credulidade na imparcialidade deste festival estava ferida de morte, por perceber que, muitas das vitórias, não têm praticamente nada que ver com a qualidade da canção, ou mesmo do intérprete. Isto, no ponto de vista do meu (duvidoso) bom gosto, nem vamos falar nos conhecimentos técnico-musicais, porque aí, de certeza que haverá uns quantos entendidos (leia-se especialistas) a chamar-me mentecapto, ignorante ou coisas piores. Diga-se de passagem que a vencedora da edição de 2018 não me convenceu que não havia nada um bocadinho melhor. Para não cometer o erro de comparar a canção vencedora com as outras, já há muito que não vejo este festival e limito-me a um interesse relativo em saber quem ganhou.


Agora o tema preferido da maioria dos portugueses... futebol... ou melhor, não falo do desporto em si, mas das coisas que existem nos bastidores e que, à semelhança do leite em ebulição, por vezes ferve demais e transborda. Depois de uma presidência, no mínimo polémica, Bruno de Carvalho sai em desgraça do cargo após um acontecimento que envergonha Portugal e os portugueses: A invasão da academia de Alcochete e agressão dos jogadores e do treinador do Sporting. Pelos vistos, para o ex-presidente, "o crime é uma coisa do dia-a-dia e temos mais é que nos habituar"... puseram-no na rua... eles, do Sporting, a polícia foi busca-lo depois, para juntar a uns vinte e tal energúmenos que congeminaram e executaram a façanha.




Uma vez mais e à semelhança de 2017, o fogo devorou mais uma parte do nosso país (felizmente com menos vítimas) e aquele que  nasceu em Monchique e alastrou para Silves e Portimão foi, não apenas o maior da Europa, como registamos também mais área ardida que qualquer outro país.
Em vão se procuram culpados para os acontecimentos e se "atiram pedras" aos SIRESP, à proteção civil e aos "amadores" dos bombeiros. Acho que o que falta mesmo no meio disto tudo é alguém que governe realmente toda esta manta de retalhos que, à semelhança de muitas outras coisas neste belo país, funciona muito bem por iniciativa local, que até é mais barato. O problema é quando se começa a entrar nas "quintas" geridas por outros e a fricção é demasiada. Na voz da Liga dos Bombeiros Portugueses, o financiamento do estado é ridículo, tendo em conta que eles (bombeiros), realizam 98% da atividade de proteção cívil. Eventualmente até terão alguma razão... Parece haver alguma preocupação da parte do governo em mudar as coisas e olhar para os bombeiros como uma força de socorro sempre necessária e não como alguém que se chama quando a "mata está a arder"... a aposta nas unidades profissionais é uma boa medida... pelo menos até que comece a haver desinvestimento, ou as célebres cativações.
Como nota triste, assinale-se que, neste momento, nos últimos dias do ano de 2018, ainda há pessoas sem casa, vítimas dos incêndios do ano passado, à mistura com os escândalos da subversão no uso dos dinheiros atribuídos pelo estado e beneméritos.




Os acidentes rodoviários continuam a ser uma das principais causas de morte e 2018 já se tornou o ano com maior número de mortes de sempre, foram mais de 100.000 acidentes. Seja pelo excesso de velocidade, seja pela má qualidade das estradas ou dos condutores, é uma loucura a quantidade de vidas que se perdem neste flagelo. Todos os anos se falam das "operação" isto e "operação" daquilo, mas a presença policial não é realmente visível, pelo menos pelas autoestradas que normalmente frequento. As multas, lá vão aparecendo, eu sei que não sou dos mais respeitadores em termos de velocidade, mas a "forte presença policial" na maior parte das vezes, cinge-se às "emboscadas" aos automobilistas, com radares escondidos nos locais onde sabem que acontecem as distrações.

O anos de 2018 tem sido forte em greves, com mais ou menos impacto. Os transportes, são principalmente os "cliente" do costume, mas também os professores, que exigem aquilo que lhes foi prometido... quem não pode, não promete, lá diz o ditado, lembram-se das 35 horas? Alguém se esqueceu que, se há gente a trabalhar menos horas e queremos manter, ou melhorar, o serviço, é preciso meter mais pessoal, ou pagar horas extra. O problema é quando os funcionários fazem greve ao trabalho extraordinário. Outro caso é o dos estivadores, o direito à greve que lhes assiste, causa problemas a quase toda a (pouca) industria exportadora portuguesa, uma vez mais, um problema difícil de perceber: pessoas a trabalhar anos a fio, com contratos de um dia?!? Não me venham dizer que os sucessivos governos não sabem disto. Se um funcionário é contratado todos os dias, durante vários anos, quer dizer que não é um eventual e não pode ser tratado como tal. Onde estão os defensores dos direitos dos trabalhadores na assembleia da republica? Parece-me que estas reivindicações só vêm para a "ordem do dia" quando interessa. Ao fim e ao cabo, a nossa extrema esquerda está finalmente domesticada e passaram os tempos das épicas indignações da Catarina Martins, que agora está muito mais seleta. Será que cheira a "cadeira" no poder? O único que continua fiel a si próprio é o camarada Jerónimo de Sousa. Sabe bem que "o dia do favor é a véspera da ingratidão" e se alinhou nesta, carinhosamente chamada geringonça, é porque "a direita tem que ser derrotada a qualquer custo", mesmo sacrificando a própria credibilidade e eleitorado.




Os "coletes amarelos"foram outra novidade, neste ano que termina. Os levantamentos que aconteceram em vários pontos da França, quase podiam ser chamados de motins, uma vez que terminavam em vandalismo e confrontos com a polícia. Por toda a razão que se possa ter, não creio que a destruição da propriedade privada e as cenas de guerra com a polícia resolvam verdadeiramente os problemas, mas há imensos contestatários que acham ser essa a única forma de serem ouvidos. Quando tentaram "importar" a moda para Portugal, deu no que deu. Que se pode esperar de um povo onde há uma abstenção superior a 60% nos atos eleitorais? Não apareceu quase ninguém: uns com receio das eventuais repressões policiais, outros não se queriam associar aos possíveis desacatos ou prevaricadores, mas a grande maioria, por não estarem mesmo para se incomodar. Se não partiram tudo, como aconteceu na Grécia, quando começou o "brutal aumento de impostos", porque é que o iriam fazer agora, quando o primeiro ministro diz que está tudo bem?

Não vou nem comentar as "desgraças" que vêm acontecendo na justiça com eventuais desaparecimentos de processos que deveriam estar resolvidos há muito e justamente agora que foram efectuadas mudanças nas estruturas judiciais, relacionadas com eles. Palpita-me que vêm para aí um conjunto de absolvições por "falta de provas" ou nulidades por "erros de processo". Ainda bem que eu não percebo nada de justiça e muito menos de política.



CRONOLOGIA PESSOAL DE 2018


Mas relativamente à minha paixão pelas letras, que é realmente o fundamento desta minha, já longa, publicação, o ano não foi tão produtivo como poderia ser...

Logo no início de janeiro, iniciei a publicação de um conto, no blogue Correio do Porto, sob a forma de fascículos semanais. Intitulava-se "Na Pele do Lobo" e a história tratava um acontecimento imaginário, ocorrido num convento perdido na serra do Gerês, em plena idade média. Durante cinco semanas, a trama foi sendo desenrolada e prendendo a atenção dos leitores. Foi uma pequena experiência no capítulo da literatura fantástica, que penso ter sido bem sucedida. Poderá rever todos os capítulos, clicando na imagem do conto.


 Na Pele do Lobo no Correio do Porto


Fascículos "Na Pele do Lobo" neste blogue



No final de fevereiro, foi a vez de "Uma Casa Nas Ruas", este publicado no blogue "Memórias e Outras Coisas... Bragança". Aqui o tema era contemporâneo e contavam-se as aventuras e desventuras de um sem-abrigo da cidade do Porto. Foram oito capítulos publicados semanalmente. Podem rever toda a história clicando na imagem do conto, logo abaixo.



Capítulos "Uma Casa nas Ruas" neste blogue

Em março, o semanário "Minho Digital", no âmbito de uma parceria com a revista "Divulga Escritor", com a qual colaboro de vez em quando, publicou a apresentação do meu livro "Daqueles Além Marão"



Nova parceria "Divulga Escritor"

Em junho, saiu o número quatro da revista "SG Magazine" do meu amigo Isidro Sousa que, como de costume, publicou um dos meus contos.

SG Magazine número 4

Em setembro escrevi o texto "Tralhariz - Uma fonte de inspiração" onde falei da minha terra adotiva e da forma como ela tem influenciado os meus escritos. O texto foi apreciado e, como tal, foi publicado no número cinco da SG Magazine, no blogue "Memórias e Outras Coisas" e no número 37 da revista "Divulga Escritor"

 (Setembro) SG Magazine número 5


(Setembro) Tralhariz-Fonte de Inspiração
(Novembro) Divulga Escritor nº 37

Em outubro, faleceu Teresa Maria Queiroz, poeta e diretora de um conjunto de pequenas editoras. Não sendo de temperamento fácil e por isso ter criado alguns desaguisados com alguns autores, não podemos no entanto deixar de a lembrar como uma das pessoas que permitiu que escritores/autores desconhecidos se tornassem visíveis. Responsável pela publicação de perto de duas dezenas de colectâneas de prosa e poesia, assim como várias edições de concursos de escrita, deixou um espaço enorme na panorâmica do submundo das letras lusófonas. Até sempre, Teresa.


Também em outubro, tive a grata surpresa de ser informado que o meu conto "Para um Bem Maior", foi escolhido, entre mais de 140 participantes, para ser publicado na revista Bang, da Editora Saída de Emergência.
No final do mês de outubro, mais propriamente no dia 27, decorreu o festival BANG no Pavilhão Carlos Lopes em Lisboa, sessão em que foi distribuída a revista que contém o meu conto sorteado. Lá fui assistir às diversas apresentações e conhecer um bocadinho mais desta revista e do fantástico pavilhão, instalado no Parque Eduardo Sétimo.


Sem mais assuntos a partilhar com vocês, despeço-me, esperando não ter sido demasiado maçador.

Resta-me desejar a todos um bom ano de 2019, cheio de alegria e felicidade e, claro, boas leituras.