domingo, 29 de janeiro de 2023

Os Outros Homens

 

Na Madrugada dos Tempos – Parte 6

O espírito de propriedade duplica a força do homem.

Voltaire

Filósofo francês

(1694-1778)

Imbuído de uma força de vontade impressionante, o novo local de oração do Clã do Leão das Montanhas começou a ganhar forma. Nehir e Zia, reconhecidas pelos seus conhecimentos astronómicos, marcaram a primeira pedra para que ficasse apontada às estrelas-que-guiam; o conjunto das estrelas mais brilhantes do céu que formam um retângulo que parece arrastar três outras[1], indicaria o Ner[2]. Mais três outras pedras assinalariam Swol[3], Hewsos[4] e outra Wes[5], teriam assim um santuário perfeitamente alinhado com as divindades. Usaram uma corda de tendões entrançados, com o comprimento de três homens e amarraram o ídolo central, caminhando depois em volta dele; assim desenharam o círculo onde iriam erguer os seus monólitos. Terminaram os preparativos com um sacrifício onde abriram duas lebres nas entranhas das quais Zia leu o futuro que parecia ser auspicioso. Naquela noite, após ofertarem pelo fogo as entranhas de algumas cabras, banquetearam-se na presença dos deuses.

A cada quatro noites, que é o número das estrelas-guias, um grupo de quatro mais quatro homens e mulheres eram escolhidos para retomar o trabalho onde grupo anterior o interrompera. A equipa chefiada por Nehir percorria os montes até encontrar a pedra da qualidade e tamanho certos que era depois desbastada com recurso a pedaços de basalto. Assim que estivesse pronta, era arrastada pela paisagem num enorme trenó de madeira; por vezes os obstáculos eram tão formidáveis que precisavam recorrer a ajuda adicional da aldeia. Por fim, chegados ao local da construção, abriam uma cova com cerca de um quarto da altura da pedra, onde depositavam a extremidade mais volumosa. O monólito era depois erguido com alavancas de madeira e puxado por grossas cordas trançadas com fibras vegetais. As pás de osso das omoplatas de burros e as picaretas de cornos de bisonte trabalhavam incessantemente a abrir covas e a endireitar o chão.

Menos de vinte dias depois do ataque aos homens-macaco, morreu Ediz. Há algum tempo que jazia na enxerga coberta de peles sem dar acordo de si e o ferimento na barriga, por mais esforços que Nehir fizesse, estava com mau aspeto e exalava um odor forte e desagradável. Nos últimos dias em que ainda mantinha a consciência pedira para ficar no santuário que estavam a construir. Foi numa tarde dominada por um vento gelado que o corpo do guerreiro, agora quase só pele e osso, foi depositado na terra aos pés dos ídolos do sol e da lua. Ao pescoço levava o colar de couro adornado com os dentes de vítimas das suas muitas caçadas e a seu lado depositaram a lança e a faca de sílex. O seu saco de couro continha as habituais oferendas com comida e bebida para a viagem que faria para o mundo das sombras. Cobriram-no com alguns seixos do rio, mas maioritariamente com os retraços do desbaste dos monólitos, antes de cobrir tudo com a terra endurecida do frio. Zia, entre lágrimas, em pé em cima do túmulo recente, proferiu um grande elogio ao irmão perdido, encorajando os outros a seguir-lhe o exemplo. Depois todos se recolherem às suas casas onde os aguardava o aconchego da fogueira. Ediz deixava a jovem Ayla sozinha com duas crianças ainda pequenas.

Conforme esperado, o frio crescente trazia a escassez de caça e os caçadores precisavam de cobrir áreas cada vez maiores. Mesmo os mamutes eram raros, em grupos pequenos e mais vigilantes; não permitiam a aproximação dos humanos. As expedições, que era raro durarem mais de um dia, agora prolongavam-se o dobro e às vezes o triplo. Para juntar às preocupações de Erem, os caçadores informaram que foram vistos outros grupos de humanos na área e que haviam seguido um deles em direção a poente onde se depararam com um povoado. Possuía tendas e casas de pedra com alguns invernos de existência. Afinal, já não estavam sozinhos nas montanhas.

Quando chegou a vez de Erem incluir um grupo de caça, decidiram seguir em direção a sul e evitar a proximidade do outro povoado; iriam até à Pedra do Leão da Montanha para rever a enorme planície do lago salgado de onde haviam partido há dez invernos. Foi uma desilusão, porém, já não conseguiram sequer encontrar o promontório de onde se despediram de Birol e o seu clã. Os pontos de referência e toda a planície que esperavam ver, estavam agora debaixo de uma descomunal massa de água que se estendia a perder de vista… se as águas continuassem a subir daquela maneira, todo o mundo desapareceria em breve.

Vaguearam um pouco pelas margens e entraram pelo lado nascente de um povoado onde foram olhados com alguma desconfiança. Eram bastantes as habitações de pedra, algumas compridas e com esquinas, em vez de simplesmente redondas, como as que conheciam e faziam. Os habitantes vestiam maioritariamente roupas de linho e lã, em vez das peles costuradas que Erem e os seus usavam. Tratava-se de uma população muito numerosa, a avaliar pelo número de construções e pelos bandos de crianças que os cercaram e seguiam, rindo e fazendo troça das suas roupas grosseiras, até se cansarem e desparecerem. Havia muito peixe e pouca carne a secar junto das casas. No meio das águas, alguns homens sentados no que pareciam bocados de madeira, pescavam calmamente com canas, outros em pé sobre plataformas faziam-no com lanças. Quando por fim chegaram ao limite poente da extensa aldeia, havia uma azáfama com várias dezenas de homens e mulheres, uns arrastando troncos, outros a apará-los e outros ainda a erguê-los numa fila ininterrupta que já se estendia há umas dezenas de metros. Os buracos feitos no chão pareciam indicar que preparavam uma parede em volta do casario.

Não tardou que fossem abordados por um grupo de homens armados de lanças e arcos que transportavam no braço um grande pedaço de couro redondo.

O que parecia ser o chefe interpelou-os numa fala áspera, que se compreendia com dificuldade. Queria saber quem eram e o que estavam ali a fazer. Erem assumiu o seu papel de líder e explicou que eram uma expedição de caça de uma aldeia situada a uns dias de viagem de costas para o sol. Depararam com a povoação por puro acaso.

O comandante dos guerreiros olhou-os um a um com desconfiança antes de sentenciar: — Não têm nada a fazer por aqui se não vêm fazer trocas. Vão-se embora depressa. — Ele apontou o caminho para fora da aldeia com a lança, cuja ponta rubra e reluzente chamou a atenção de Erem.

— Mas… não entendo. — Contestou este enquanto os seus homens tomavam posições defensivas perante os outros que ameaçavam cercá-los. — Estamos só de passagem, não estamos a fazer mal nenhum…

— Fomos atacados várias vezes nos últimos dias por gentes vindas desses lados. — Explicou o chefe. — Por isso estamos a erguer as nossas defesas e não queremos cá estranhos. Vão-se embora, rápido!

Aborrecidos por serem enxotados como ratos, obedeceram à ordem e iniciaram o regresso à sua própria aldeia. Pelo caminho conseguiram encontrar um numeroso grupo de auroques. Isolaram, perseguiram e mataram um velho macho … com mais de quinhentos quilos de carne para levar para o seu povo, a caçada compensara. Desmancharam a carcaça rapidamente, antes que o cheiro a sangue fresco atraísse predadores perigosos e distribuíram o peso entre eles. Tinham de se deslocar rapidamente, um urso poderia ser um adversário formidável e não se coibiria de os enfrentar, apesar de estar em inferioridade numérica, mas também as hienas das cavernas ou mesmo leões se podiam atrever contra grupos de humanos.

Quando, com alívio, chegaram à aldeia, Erem comentou com os seus companheiros como se tornava evidente que havia uma anormal falta de caça. A aproximação do inverno provocava naturalmente uma redução de animais disponíveis, mas cada nova estação o seu número parecia menor. Recordavam-se que, nos primeiros anos da separação do clã de Birol, avistavam-se algumas manadas de mamutes e atualmente apenas esporádicos grupos familiares. As manadas de auroques, que antes eram enormes, agora apenas tinham cerca de metade dos elementos e mesmo ursos ou leões não eram tão vulgares… decididamente não se podiam atribuir todas as culpas à estação fria, mas sim ao aumento das populações humanas na região. Gastava-se cada vez mais tempo na caça, o seu povo, se queria crescer e desenvolver-se, teria de apostar mais na agricultura e aumentar o número de cabras e ovelhas no rebanho.

Uma tarde, quando Erem aguardava o regresso de um grupo de caça, foi alertado da proximidade de alguns humanos e dirigiu-se para o extremo nascente da aldeia, onde assistiu à aproximação dos estranhos.

Eram apenas dez; quatro adultos, três adolescentes e três crianças, uma delas de colo. Estavam cansados e pareciam famintos. Pararam hesitantes a uns vinte metros das primeiras casas e hesitavam entre avançar e afastarem-se, a agitação entre os adultos aumentou ao verem que Erem e vários vizinhos se aproximavam, alguns com as lanças a postos.

Fikri, um dos filhos de Lemi, colocou-se à frente de Erem, com a lança em riste e olhou interrogativamente para o chefe, que lhe devolveu um aceno negativo com a cabeça.

— Queres que vá saber o que querem? — Interrogou o jovem ainda sem alterar a pose defensiva.

— Não. Deixa-os aproximarem-se e falarem livremente. — Comandou Erem fazendo um gesto aos estranhos para que se aproximassem. — Não vês que têm fome e pelo menos um deles está ferido? Não são uma ameaça.

O pequeno grupo aproximou-se e um dos homens ergueu as mãos em prece ao meio do rosto para Erem, num gesto de agradecimento. Mais perto viam que todos tinham arranhões e hematomas, sinal de que estiveram envolvidos em combates o que lançou a desconfiança entre os residentes.

O mais interativo dos forasteiros falou algumas palavras que ninguém entendeu e depois, vendo que não o compreendiam, experimentou outras com sonoridade diferente, mas que se entendiam com alguma dificuldade. Expressou a gratidão do grupo e explicou que vagueavam de aldeia em aldeia e foram atacados ao chegar a uma delas a cerca de um dia de viagem para nascente. Quase tudo o que tinham foi-lhes roubado nesse ataque e, quando tentaram refugiar-se na aldeia, foram corridos à pedrada.

Erem indicou-lhes o caminho para o centro da aldeia e mandou que acendessem a fogueira para darem as boas-vindas aos recém-chegados. Rapidamente, fortes labaredas expulsavam os maus espíritos do céu, alimentadas pelos troncos que se guardavam secos debaixo de peles e colmo. Sentaram-se em volta do fogo em pequenos tocos de madeira que foram trazidos de várias casas.

Lemi e o grupo que estava assignado à construção chegaram quase ao mesmo tempo que os caçadores e todos ficaram apreensivos com os estranhos. Eram as primeiras “visitas” em muitos anos.

Apenas Erem e depois Zia, chegada posteriormente, se sentaram com os forasteiros e partilharam com eles algumas lascas de pão duro e carne seca. Os restantes, cujo número foi aumentando até estarem todos os habitantes da aldeia, ficaram em círculo escutando e observando tudo o que se passava.

Todos tinham olhos castanhos, amendoados, cabelos compridos, ondulados e pele escura e os homens, mesmo o mais velho, tinham apenas uma penugem em vez das barbas espessas dos seus anfitriões. Vestiam capotes de pele sobre grossos camisolões de lã e calçavam peludas botas de pele de carneiro. Estavam bem preparados para o frio que chegava. O homem mais velho chamava-se Alim e a mulher Nadi e viajavam com três filhos, a mulher do mais velho deles e três netos…

Alim e a sua família eram provenientes de uma aldeia que se desmembrou com a subida do nível do mar. Alguns mudaram-se para pontos elevados, outros para aldeias distantes e outros ainda, como eles, tornaram-se errantes vivendo alternadamente vários locais. Aos poucos, foram reunindo os mais diversos bens que trocavam por outros. Já possuíam quatro vacas e seis cabras, além de uma grande quantidade de produtos e procuravam assentar em breve nalguma aldeia. Há uns dias, tudo lhes fora roubado, além da vida de um irmão de Alim que os acompanhava. Foram atacados por uns homens enormes de cabelos e barbas soltas, armados com espadas e machados.

— Que são espadas? — Perguntou Erem sem se conter.

— Não sabes o que são espadas? — O estrangeiro não conseguiu conter a admiração. — São como facas, mas muito mais compridas.

— Facas compridas? — O chefe da tribo continuava surpreendido exibindo a sua faca de sílex do tamanho de uma mão. — Se a pedra for mais comprida do que isto, parte-se e não serve de nada.

— Pedra?!? — O estrangeiro sorriu surpreendido, enquanto mostrava um punhal de cobre trabalhado. — Não de pedra, de metal; maior do que esta faca!

— Para Hewsos[6] daqui, — interrompeu Beki, o filho de Alim, despejando um conjunto de pequenas peças metálicas na palma de uma mão —, praticamente já ninguém usa sílex para as armas, isto são pontas de seta que trazemos para vender. Salvaram-se porque as trazia comigo, em vez de estarem no trenó com o resto das coisas.

Zia pegou numa das pontas de flecha e observou-a cuidadosamente enquanto Erem estudava o peso e a maneabilidade do punhal, simulando movimento e estocada… passou a lâmina na mão e fitou pensativamente o fio de sangue que se soltou… se havia muitas armas como aquela, o mundo estava a mudar… e a ficar muito mais perigoso.


[1] Constelação da Ursa-menor, cuja última estrela da cauda indica o Norte.

[2] Proto Indo-Europeu: Esquerda (que acabará por ser o ponto cardeal Norte) por oposição ao sol do meio-dia

[3] Proto Indo-Europeu: Sol é um dos principais deuses do panteão, mas também significa o sol do meio-dia, um dos pontos cardeais que originará o Sul

[4] Proto Indo-Europeu: Madrugada é uma das deusas do panteão, mas também um dos pontos cardeais que dará origem ao Leste

[5] Proto Indo-Europeu: Noite é um dos pontos cardeais que dará origem ao Oeste

[6] Proto Indo-Europeu: Madrugada ou Nascente

 

 

 

 

5 - Os Deuses e os Homens

Parte 5 – Os Deuses e os Homens

A seguir:         

Parte 7 – A Obra Nasce

Na Madrugada dos Tempos

Introdução – Na Madrugada dos tempos

Share:

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Os Deuses e os Homens

 

Na Madrugada dos Tempos – Parte 5

 

Já não adianta nada dizer que matar em nome de Deus é fazer de Deus um assassino. Para os que matam em nome de Deus, Deus é o Pai poderoso que juntou antes a lenha para o auto-de-fé e agora prepara e coloca a bomba.

 

José Saramago

Escritor e prémio nobel português

(1922-2010)

 

No dia seguinte, o ar estava espesso e saturado por uma névoa esbranquiçada, enquanto flocos de neve esvoaçavam, rebeldes, rebrilhando ao sol encoberto.

Erem mandou reunir toda a gente frente à sua choça no largo onde faziam a fogueira em volta da qual se reuniam muitas noites. Usava o capote feito com a pele e a cabeça de um leão das montanhas e o fio de couro com uma pedra reluzente apanhada no rio de onde eram originários; os símbolos do poder nele investido.  Estava de mão dada com Zia, que usava o cocar de penas de corvo e pomba, assinalando o seu estatuto de oráculo. O casal e a filha Zehir, ocupavam os lugares mais influentes no clã e eram respeitados por todos, mesmo por aqueles que por vezes discordavam das suas decisões.

Ele olhou tristemente para todos os seus amigos e familiares, a maior parte deles ostentando as marcas do combate recente e levou as duas mãos ao peito, abrindo-as depois sobre a audiência, no gesto comum de saudação a todos os presentes.

— Filhos, irmãos e primos. — Começou com a voz grave que fazia todos pararem e deitar atenção. — A vida não tem sido fácil para o nosso clã. Sozinhos nestas planícies, progredimos com muitas dificuldades pedindo o favor dos deuses.

Vários entre a audiência acenaram em concordância uns para os outros.

— Perdemos entes queridos para as doenças e para os ataques, — continuou —, mas se Welnos[1] nos tem levado uns, Da Matter[2] abençoa-nos com novos rebentos assegurando sangue novo e força que serão o aconchego daqueles que conhecerem a velhice.

Alguns homens e mulheres mais jovens soltaram expressões de júbilo e grunhidos enquanto erguiam os punhos fechados em demonstração de força.

— Há, porém, uma grande sombra negra sobre nós. — Erem baixou os olhos e os braços exibindo desalento. — Os homens-macaco estão a ser uma grande provação para o nosso povo. Não só nos roubam muitas vezes a carne necessária para a nossa sobrevivência, também mataram o meu amado filho Nuri, vosso primo, sobrinho, irmão… e agora levaram-nos Fuat e Alev, além de deixarem vários de nós incapazes de trabalhar para si ou para os outros.

Havia agora vozes iradas e gritos insultuosos contra os homens-macaco.

— Não me atrevo, neste momento, — o chefe continuava com as mãos abertas numa súplica —, a pedir-vos para arriscar as vossas vidas e as dos que nos são queridos noutro ataque. Não temos condições, há demasiados feridos e penso que os deuses estão distraídos dos seus filhos.

A audiência silenciou-se em espanto com a revelação.

— Temos de fazer alguma coisa para obter os favores dos deuses. Algo que eles vejam dos céus e se lembrem de nós e do quanto precisamos do seu auxílio. — Ele apontou na direção do improvisado templo presidido pelas representações divinas. — Não chega uma simples cova no local que eles escolheram com o fogo do céu. Temos de lhes mostrar os sacrifícios que fazemos! Precisamos que aqueles que foram para junto dos deuses nos protejam a todos e não apenas aos familiares diretos, precisamos que intercedam pelo clã junto de Swol[3] e Mensis[4].

Todos apoiaram com urros e gritos de concordância.

— Por cada um dos nossos mortos, — continuou ele sobrepondo-se à ovação —, colocaremos uma grande pedra em volta da cova de oração.

Os gritos de apoio foram reduzindo à medida que começavam a interiorizar a enormidade da tarefa.

— Não era mais importante caçar para nos alimentarmos e vestirmos, agora que vêm os grandes frios, do que andar pelas colinas a arrastar pedras? — Interveio Naci, azedo, mas obtendo assentimentos de uma parte dos ouvintes.

— De que te adianta palmilhar os montes, ou correr atrás de animais mais velozes do que tu, se não tiveres a ajuda dos deuses para conseguires apanhar a presa? — Ripostou Zia apontando-lhe um dedo acusador. — Que és tu perante um leão, se não tiveres a proteção divina?

— Os deuses não foram de grande ajuda na gruta dos homens-macaco. — Resmungou a discordância. — A minha Su foi ferida com gravidade por aqueles monstros, assim como vários de nós e ainda não recuperou.

— Devíamos ter feito um grande sacrifício e aberto uma lebre para ver se os deuses estavam do nosso lado, antes de partirmos arrogantes da nossa força! — A mãe continuava a fustigar o filho enquanto o resto da audiência murmurava em concordância. — Ainda ontem estive na cova de orar e sacrifiquei uma cabrita pela recuperação tua mulher… vi que a madeira dos ídolos Swol e Mensis está a ficar podre e bichenta. — Perante as expressões de horror dos vizinhos, ela dirigiu-se-lhes: — É o sinal de que os deuses se ressentem do pouco caso que lhes fazemos. É tempo de fazer mais honrarias aos nossos protetores.

Este último argumento pareceu convencer a maioria e as manifestações e gritos de apoio regressaram. Naci abandonou a audiência, ressentido.

— Erem tem razão! — Apoiou Lemi, erguendo as mãos a pedir silêncio. — Temos de fazer alguma coisa para pedir o favor dos deuses…

— Agora, nos grandes frios que estão a chegar, precisamos de toda a ajuda possível na caça. — Avisou Civam, um dos irmãos de Zia. — Os animais são poucos e estão muito dispersos, temos de ir cada vez mais longe.

— Ou bem que estaremos a caçar, ou a arrastar pedras para o santuário! — Resmungou Fikri, um dos filhos de Lemi, cruzando os braços. — As duas coisas não podem ser! A terra pouca coisa dá nesta época e os rebos não se comem.

— Teremos de nos organizar ainda melhor. — Esclareceu Erem, conciliador. — Dividimo-nos em menos grupos, mas maiores, uns caçam e outros trabalham, depois trocamos. As tarefas como fazer roupas, fiar, curtir as peles, cultivar a terra, cuidar do gado, serão desempenhadas por quem tem mais jeito para elas, ou pelos que não podem caminhar; poderão trabalhar para todo o clã e receberão os alimentos pelo trabalho. Além disso, para nossa segurança, precisamos de mandar grupos maiores de caçadores. Mas não quero que lutem com os homens-macaco se eles aparecerem e irão aparecer, quando a caça reduzir…

— Deixamos que nos roubem então? — Asil abriu os braços em desalento.

— Não! Não podemos é arriscar a vida de mais dos nossos. — O chefe olhou o filho com tristeza. — A sobrevivência do nosso clã pode estar em risco se perdermos mais gente. Precisamos todos de começar a praticar a funda; viram como eles ficaram surpreendidos quando Eda e Ezgi os atacaram? Não contavam que as pedras pequenas voassem com tanta força, tão longe e tão certeiras, enquanto eles só sabem atirar calhaus à mão. — Ele sorriu para todos antes de continuar: — Penso que a solução estará aí; dispersarem em todas as direções, para eles não saberem quem perseguir e depois atacá-los por todos os lados com as fundas. Não largam as vossas lanças, porém, que são precisas para se defenderem.

Uma onda de otimismo pareceu correr a assistência. Todos falavam apressadamente e satisfeitos com a nova estratégia.

— Lembrei-me disto mesmo antes de adormecer… — continuou o chefe sorridente — logo depois de ter decidido que iriamos construir o santuário aos deuses. Bastou isso para começarmos a ser abençoados.

— Já falei com algumas das nossas mulheres para cortarem e polirem tiras de couro para as fundas e fazerem sacos para as pedras — avisou Zia — a partir de agora, ninguém deve sair sem a funda e o saco com seixos do rio.

— Uma excelente ideia. — Também Lemi estava entusiasmado. — Vamos organizar os grupos de trabalho e de caça, assim como começar imediatamente a treinar a funda.

— Mesmo aqueles que ficarão normalmente na aldeia, até as crianças, devem saber usar a arma! — Acrescentou Erem. — Se tivermos um ataque aqui, todos, com exceção dos doentes e crianças muito pequenas, terão de lutar e defender o clã. Eles podem ser como um bando de hienas das cavernas, mas nós seremos como os auroques; podemos não ter dentes tão fortes, mas, numa carga organizada espezinhamos tudo no nosso caminho.

    

   

[1] Deus do submundo

[2] Deusa-mãe

[3] Sol

[4] Lua

 

 

 

4 - Lambendo as feridas

Parte 4 – Lambendo as Feridas

6 - Os Outros Homens

Parte 6 – Os Outros Homens

Na Madrugada dos Tempos

Introdução – Na Madrugada dos tempos

Share:

terça-feira, 29 de novembro de 2022

Lambendo as Feridas

 

Na Madrugada dos Tempos – Parte 4

 

Um pecado tem sempre como consequência outro pecado.

Ben Hazzai

      (Sábio rabínico do século II)

 

Destroçados e de cabeça baixa, entraram na aldeia arrastando os mortos e ajudando os feridos. Foram recebidos em silêncio numa primeira fase e depois com prantos e consternação de todos quantos haviam ficado de guarda às crianças, casas e bens.

Lemi, que fora um dos instigadores da vingança, estava arrasado pela morte do filho, Fuat e para Erem, se também lamentava a perda do primo, a do seu irmão Alev era impossível de suportar. Na tentativa de vingar uma morte havia agora mais duas e uma delas era o pai de cinco crianças que deixava agora a viúva sozinha.

Nos dias que se seguiram, todo o povoado tentou regressar à normalidade, considerando que, apesar do preço que pagaram, a vingança da morte de Nuri fora cumprida. Os grupos de caça retomaram o seu trabalho, sempre atentos à possibilidade de aparecimento de homens-macaco, enquanto outros pescavam e outros ainda cuidavam das magras colheitas ou do curtir das peles. O gado, composto basicamente por cabras-selvagens criadas desde pequenas nas imediações da aldeia, eram responsabilidades das mulheres e dos mais jovens, assim como o cuidar das colheitas e a busca e colheita dos frutos silvestres. Já tinham tentado criar jovens javalis, mas eles arranjavam sempre uma forma de fugir, por mais cercas, ou cordas, que fizessem ou com que os amarrassem.

A organização das tarefas, era uma herança do clã do Rio Brilhante, que devia o sucesso e crescimento ao facto de ter dado os primeiros passos no sedentarismo há algumas gerações atrás. Após comprovarem que se podiam semear e colher algumas das plantas comestíveis, foi fácil que alguns dos membros do clã não quisessem deslocar-se em migração, preferindo ficar junto das suas colheitas que eram um complemento para a caça e a pesca. Após se fixarem, já podiam construir paredes de pedras empilhadas em volta das tendas de paus e peles, para se protegerem do frio do inverno e pouco tempo depois já abdicavam da tenda, erguendo simplesmente os muros circulares e utilizando as peles apenas para o teto. A lama servia para tapar os espaços entre as pedras para reduzir a entrada do frio e consolidar as paredes. A estabilidade conduziu à conclusão de que não podiam andar todos a caçar ou a pescar e começaram a criar-se grupos especializados nas tarefas que mais gostavam de fazer, ou que aprenderam desde crianças.

Quando estavam no vale do lago salgado, eram visitados ocasionalmente por grupos de nómadas com quem trocavam peles ou mesmo caça. Acabava sempre por ficar um ou dois entre eles, porque estava ferido ou doente, ou simplesmente porque estava cansado de vaguear, por vezes até famílias inteiras. Ali, nas terras altas, não tinham visto ainda nenhum outro grupo de humanos. Estavam entregues a si próprios, eram pioneiros em desbravar as terras que o degelo deixara para eles.

Nos primeiros anos, a dureza do clima mais agreste, e as terras duras e pouco generosas causaram mal-estar no clã do Leão da Montanha. Havia críticas sussurradas e lamentos por seguirem o jovem chefe para uma tão grande provação, principalmente da parte dos irmãos de Zia que começavam a perguntar-se se não teria sido melhor ficar com Birol, ao invés de Erem. Os verões eram frios, em comparação ao vale e os invernos rigorosos, embora, talvez fruto do hábito, parecessem mais amenos a cada ano que passava. As sementes não germinavam com facilidade e a terra era dura e difícil de cavar, no entanto, a caça era abundante e um rio próximo tinha muita fartura de peixe, embora não pudessem viver demasiado próximo dele devido aos ursos. Foi só ao terceiro ano que se decidiram sobre o local onde deveriam fixar-se, abandonar as tendas e construir as suas casas de pedra; um planalto batido pelo sol e protegido dos ventos do Norte por um monte mais alto.

Nehir fora a segunda criança a nascer da união de Erem e Zia. A menina rebelde, tornou-se uma adolescente indómita e depois uma mulher laboriosa e independente. Não deixava que nenhum homem se aproximasse demasiado e, os que se atreviam a fazê-lo, saíam derrotados pela argúcia e às vezes até pela força. Forte para uma mulher; herdara a estatura do pai e a determinação da mãe. Quando faziam parte do Clã do Rio Brilhante, cedo se interessou pelo trabalho do xamã e, quem a queria encontrar, fá-lo-ia junto de Gokai e das suas duas esposas. Com eles adquiriu o conhecimento das ervas, da forma de tratar as feridas e mesmo dos encantamentos necessários para curar algumas maleitas. Agora, porém, sentia-se sozinha e impotente perante a quantidade dos feridos e gravidade dos ferimentos.

Erem emitiu um ronco, para evitar um grito, quando Nehir cauterizou o corte sob a vista direita, que parecia querer infetar, recorrendo a um graveto de oliveira em brasa. As nódoas negras quase tinham desaparecido e as dores no corpo já eram coisa do passado.

— Como está Tekin? — Perguntou ele para se distrair da dor.

— Está muito mal. — Informou Nehir mantendo a atenção enquanto tirava os vestígios de cinza do ferimento do pai. — Tem vários ossos partidos e respira com muita dificuldade. — Ela suspirou. — Mas acho que podemos ter outros casos mais complicados.

— Quais? — Erem olhou-a alarmado.

— Há vários bastante feridos por lanças e pedradas, mas são ferimentos pouco profundos, as lanças deles não são de ponta de sílex como as nossas, apenas paus afiados ao fogo. Não é o caso de Su e Ediz; ela tem um buraco profundo nas costas que lhe dificulta a respiração e ele outro na barriga. — A mulher torceu o nariz revelando pouca esperança. — Fiz-lhes pachos com folha cheirosa, folha doce e folha amarga após queimar o ferimento e fiz a reza a Da matter[1], mas têm muitas dores… receio por eles. Os deuses terão de usar o seu poder.

Ele coçou a barba, pensativo, Ediz era seu cunhado, irmão de Zia e Su, mulher de Naci, sua nora, o primeiro jovem e sem filhos, mas a segunda deixava duas crianças. Mais preocupações para o chefe; além de familiares próximos e estimados, eram braços fortes e decididos que deixavam órfãos.

Erem saiu da tenda de Nehir preocupado, (como ela era uma mulher solteira, não construíra uma casa) foi visitar Su e Ediz, para tirar ele próprio as dúvidas. Regressou muito pessimista, temendo que a sua filha e curandeira/xamã podia ter razão.

Sentado na pedra que mandara por para o efeito na entrada da sua choça, ficou a observar uma das noras de Lemi ajoelhada em frente ao totem que ergueram quando decidiram fixar-se naquele local. O grande tronco de madeira com mais de três metros fora aliviado da sua casca e da maior parte dos ramos, deixando-lhe apenas dois laterais com curvas em ângulo reto, dando-lhe uma aparência antropomórfica. Nos seus “braços”, iam sendo pendurados presas, cornos, cascos ou mesmo peles, em agradecimento à intervenção divina na caçada bem-sucedida. Aos pés ou pendurados no ídolo havia bocados de cabelo, lanças, facas ou outros objetos que lembravam aqueles que já partiram… estava lá o chapéu de pele do seu filho Nuri.

Se não tivessem cuidado, todos eles não passariam de recordações naquele totem… até que não houvesse mais ninguém para os lembrar.

Precisavam mesmo de ajuda divina; teria de implorar a Da Mater pela salvação daqueles dois e que o ajudasse a fazer o melhor pelo seu povo. Teria de fazer um sacrifício para manter os maus Ansu[2] afastados e que apenas os bons pairassem sobre a aldeia. Há alguns invernos, os deuses marcaram o lugar onde deveriam ser adorados com um raio que destruiu um imenso pinheiro. Ali se ergueram os troncos gravados por Asil representando Swol[3] e Mensis[4] com a madeira do pinheiro destruído e todo o povo gostou do santuário… talvez estivesse na altura de fazer mais alguma coisa para agradar aos deuses.

Zia saiu do interior da casa e sentou-se, sorridente, ao lado dele. Erem retribuiu o sorriso, apreciando aquele rosto redondo e moreno adornado com dois carvões reluzentes, que acompanhava a sua vida há tantos anos. Apesar dos cabelos que começavam a branquear, mantinha-se em boa forma e não se deixara engordar, mesmo após seis partos bem-sucedidos e um nado-morto. Logo que as dores do nascimento a abandonavam, começava a pastorear as cabras, enquanto a criança precisava de mais acompanhamento e logo retornava às tarefas de caçadora, calcorreando os montes e equiparando-se, ou mesmo suplantando, os homens em resistência e tenacidade. As suas funções de oráculo não a prejudicavam, antes a complementavam, fazendo previsões se haveria um bom dia de caça ou não. Os quase vinte e oito anos não pesavam no seu físico, porque não se deixava abater e engordar após o segundo parto, como grande parte das mulheres.

— Que fazes aqui? — Perguntou Zia sem deixar de sorrir. — Não vais entrar?

— Estava aqui a matutar no que fazer a seguir… — Erem desviou o olhar da companheira para o chão. — Por minha culpa, perdemos dois dos nossos e estamos em riscos de perder mais dois, numa vingança estúpida e impensada.

— Não foste tu quem nos levou. — Ela pegou o rosto dele entre as mãos para lhe ver os olhos. — Todos nós queríamos ir. Fomos todos inconscientes, não nos preparamos, achávamos que Tarhun[5] estaria do nosso lado pela justeza da nossa causa. Um só dos Seus raios seria suficiente para dizimar os homens-macaco, mas tal não aconteceu. Agora resta-nos lamber as feridas e esperar melhores dias.

— Os deuses estão ocupados nas Suas vidas — ele exibiu um sorriso desalentado —… os homens estão entregues a si próprios, implorando a Sua atenção, desde os tempos de Manu[6]. Implorei a Da Mater pela salvação de Su e Ediz, esperemos que nos ouça.

— Consultei as pedras e os ossos. — Zia disse, mas também baixou os olhos. — No caso dele, havia apenas uma linha curta; o fim deve estar breve, mas para ela os resultados eram confusos, não consegui uma certeza.

— Se Su morrer, Naci vai ficar pior do que o costume — previu o chefe —… se ele já é revoltado e impaciente, se ficar sem ela…

— Ontem falei com Nehir, naquela tenda gelada onde vive e ela também acha que Ediz é o caso pior, Su terá mais hipóteses. — Informou a companheira.

— Não sei porque é que ela quer estar ali. — Ele encolheu os ombros. — Connosco, ficaria melhor.

— Lá pode receber e estar com quem quiser… — ela exibiu um sorriso conhecedor.

— O quê? — Erem entusiasmou-se. — Já arranjou finalmente um homem? Vamos ter mais netos? Algum dos teus sobrinhos?

— Não… — Zia retorceu os lábios a olhar para o companheiro —… é mais… Enis, uma das filhas de Lemi.

— Que raio… — Ele coçou a cabeça perturbado.

— Por isso é que ela não quer estar aqui. Teme que não aproves.

— Ela já não tem idade para esses impulsos, essas preferências normalmente passam quando crescem! — O chefe sentia-se desalentado. — Não teremos novos netos, então…

— Sim, mas não te preocupes, o que interessa é que ela esteja feliz. — Afirmou ela sorridente, erguendo-se e puxando-lhe pela mão. — Anda, pode ser que se arranje outro filho em vez de um neto.


[1] Deusa-mãe

[2] Espíritos

[3] Sol

[4] Lua

[5] Deus do trovão, da caça e da guerra

[6] O primeiro humano

 

 

 

3 - O ataque

Parte 3 – O Ataque

5 - Os Deuses e os Homens

Parte 5 – Os Deuses e os Homens

Na Madrugada dos Tempos

Introdução – Na Madrugada dos tempos

Share:

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Publicação de "Na Sombra da Mentira"

 


No passado dia 22, publicado o meu novo livro, “Na Sombra da Mentira”.
Trata-se de um romance contemporâneo, onde Gabriel, um homem de negócios na casa dos sessenta anos, é contactado por um desconhecido, já idoso e em fim de vida, que afirma ter informações pertinentes do seu passado.
O contacto com esse homem vai trazer-lhe à lembrança suspeitas antigas sobre a sua paternidade, que decide tentar esclarecer de uma vez por todas.
O regresso a São Mamede de Infesta, a terra que o viu nascer, vai reconduzi-lo pelas ruas da sua infância numa investigação que lhe mostrará como viveram os seus pais na década de quarenta do século passado. Os factos que descobrirá, porém, estão para além de tudo aquilo que poderia imaginar.
Uma complexa teia de manipulação, mentiras e crimes estavam firmemente entrançadas no seu nascimento e a conclusão da sua investigação é completamente diferente daquilo que imaginaria à partida.
Num forte carga autobiográfica, o protagonista visitará ambientes e pessoas que receberam ambientes e personalidades provenientes da minha própria infância, mas colocados num cenário totalmente fictício.
Capa mole - Na Sombra da Mentira

 

Não deixe de visitar esta minha nova história e acompanhe Gabriel a desvendar o seu passado. Entretanto, não deixe de ver o vídeo promocional que certamente lhe abrirá o apetite.
Este romance é mais um trabalho produzido para as Produções Debaixo dos Céus, impresso e distribuído pela Amazon. Saiba mais em https://www.debaixodosceus.pt/na-sombra-da-mentira
PDDC_Square_branco_transparente R
Share:

sábado, 29 de outubro de 2022

O Ataque

 

Na Madrugada dos Tempos – Parte 3   

O justo se alegrará quando vir a vingança; lavará os seus pés no sangue do ímpio.

Salmos 58:10

 

— Então? — A voz de Zia, companheira de Erem, trouxe-o de volta à realidade. O rosto dela, uma pequena mancha de lama branca emoldurada pela enorme cabeleira negra, estava irreconhecível. Ela insistiu batendo com o cabo da lança no chão. — É agora ou nunca, temos de aproveitar que estão ainda a dormir.

— Eu sei. — Erem estava reticente. — Não sabemos quantos estão ali, pergunto-me se não seria melhor ir fazendo algumas emboscadas aos grupos de caça deles e matando-os gradualmente. Se o número deles reduzir, de certeza se mudarão para longe.

— Isso exigirá tê-los sempre vigiados. — Considerou Lemi. — Não somos assim tantos para fazer isso.

— Não vamos vingar o meu irmão? — Naci parecia estar sempre zangado, mesmo sem a justificação que tinha agora. — Não quero saber se fogem ou não. Mataram Nuri; por um dos nossos, terão de morrer pelo menos três deles! — Ele ostentava ainda as marcas da luta, principalmente um enorme hematoma que quase lhe fechava um dos olhos.

— É verdade que nunca mataram antes… sempre se limitaram a fazer-nos fugir e levavam a caça. — Considerou Asil. — Tu e o Nuri é que reagiram quando eles tentaram levar a gazela. Depois tivemos de atacar todos para vos ajudar e mesmo comigo, Civam e Ediz, todos os cinco, não conseguimos vencer apenas quatro deles.

— Querias fugir e deixá-los levar a comida do clã? — Naci olhou-o incrédulo. — Nuri estava certo, hoje tiram-nos a caça, amanhã roubam-nos dentro da própria aldeia.

— Basta! — Exigiu Lemi. — Fazemos muito barulho.

— Mesmo assim, — Cortou nervosamente Su, a mulher de Naci. — não sabemos contra quantos vamos lutar. — Ela penteou um dos lados da longa e escorrida cabeleira negra, soltando as folhas que estavam presas nela. — Se forem mais que nós…

— Quem não quiser vir que vá embora agora! — Exigiu Zia com os dentes cerrados. — Estamos a perder o tempo que precisamos. Mesmo que se vão todos embora, eu ficarei e haverei de mandar para o mundo das sombras pelo menos um.

— Eu também fico! — Afirmou Naci batendo com a lança no chão e logo secundado pelos seus irmãos Tekin e Asil.

— Parem com isso! — Ordenou Erem. — Claro que temos de ir todos. Vamos vingar o meu filho e dar-lhes uma lição que não esqueçam. Temos de entrar e matar os que nos aparecerem pela frente e, ao meu sinal, ou de Lemi, fugimos de novo para este sítio onde estamos agora. Aqui, esperamos a ver se nos tentam seguir, antes de regressar às nossas casas. Perceberão que a sua ação teve consequências e deverá ensiná-los a manterem a distância ou mudarem-se para longe.

Começaram a descer da crista ocultando-se nos tufos de vegetação. De súbito, Lemi percebeu movimento na entrada da gruta e fez um gesto aos outros. Habituados a serem comandados nas caçadas, imobilizaram-se em silêncio.

Na enorme abertura surgira um dos homens-macaco. Era baixo, como todos os da sua espécie, com os braços e as pernas cabeludos que pareciam troncos de árvore, grossos e duros. Cada soco daqueles punhos nodosos e desproporcionais tinha a força de uma pedrada. O cabelo hirsuto, indistinguível das barbas que lhe caíam pelo peito, tombava sobre o rosto quadrado de celhas negras e grossas que encimavam a arcada supraciliar saliente. Os olhos pequenos e vivos estavam semicerrados quando o indivíduo se abeirou da borda, soltou um ruidoso traque e começou a urinar algures do meio das peles que o envolviam. Assim que terminou, esfregou os olhos, soltou uns roncos preguiçosos e olhou em volta, farejando o ar. Satisfeito com a avaliação, regressou ao interior coçando as nádegas.

Em resposta a novo sinal, todo o grupo reiniciou a progressão começando a subir a encosta enquanto dois deles ficavam para trás certificando-se de que não havia o perigo de serem atacados pelas costas. Quase não era preciso falar, todos eram experientes caçadores e estavam bem habituados a vigiar as costas uns dos outros para não serem surpreendidos por algum outro predador quando caçavam. No ano anterior, um dos filhos de Lemi fora morto por um leão quando corria atrás de uma corça e um cunhado de Zia, acabara por morrer na aldeia vítima dos ferimentos provocados por um urso.

Naci, sempre mais arrojado, lançou-se na escalada primeiro que os outros, logo seguido do irmão Tekin e de Fuat um dos filhos mais novos de Lemi, ansiosos por mostrar o seu valor. A subida não foi difícil; os invasores usaram os pequenos socalcos, invisíveis a partir de baixo, que deviam ser usados pelos habitantes da gruta e rapidamente Tekin e Fuat ultrapassaram Naci, chegando ao patamar à frente de todos os outros.

Lemi soltou um pequeno silvo para que os dois mais jovens se detivessem, enquanto Zia o ultrapassava também. Ele era o mais velho e ficava para último. Os dois rapazes desapareceram na borda do penhasco e já Naci e uma das cunhadas de Erem os seguiram. No momento seguinte ouviram-se vozes e gritos irados que ecoaram vale e espantaram um bando de aves de uma das árvores que crescia inclinada sobre o barranco. Já Erem, um dos seus irmãos, Zia e um irmão dela se guindavam para a plataforma. Havia luta na entrada da gruta e um corpo voou sobre os que ainda escalavam, batendo no fundo da ravina com um baque surdo; Lemi reconheceu o seu filho Fuat. À medida que mais invasores atingiam o patamar, a gritaria intensificava-se; dois corpos agarrados tombaram do patamar e rebolaram na encosta arrastando com eles dois dos invasores que descansavam na subida. Quase derrubaram Lemi que se viu de repente o único na face do barranco. Havia cinco corpos no fundo, e só um era dos homens-macaco.

Sem fôlego para subir mais depressa e desesperado por ir ajudar os companheiros, Lemi esforçava-se ao máximo. Um dos inimigos voou por cima dele com um grito silenciando-se em simultâneo com o baque no solo duro. Várias pedras e algumas lanças caíram em seguida.

Depois da sua subida imprudente, Fuat, Tekin e Naci, viram-se num patamar, meio direito, com cerca de dez metros até à entrada da gruta, de onde saíam quatro homens-macaco gritando de forma alarmante.

Um deles gritou-lhes incompreensivelmente, mas o outro disse com clareza: —Vão embora!

Naci não estava ali para conversar; atirou e cravou a sua lança no pescoço do que falara a língua deles. Tekin imitou o irmão, mas falhou o alvo que se esquivou agilmente. Os três defensores restantes atacaram os invasores de mãos nuas e soltando gritos selvagens.

Fuat não conseguiu usar a lança, partida de imediato pelos braços fortes do oponente que logo o agarrou pelo pescoço. Sem conseguir opor-se-lhe, o filho de Lemi conseguiu pegar a faca de pedra da sua bolsa e cravou-a várias vezes no ventre musculoso do homem-macaco. Este soltou um grito lancinante e empurrou o infeliz do penhasco.

Tekin, esquivou-se habilmente do ataque do seu inimigo e foi mais feliz com a faca do que com a lança, conseguindo espetá-la profundamente entre as costelas do outro.

Havia já mais companheiros a subir ao patamar e a ajudar Naci que, caído no chão, era alvo dos socos impiedosos do seu oponente. Zia cravou-lhe a lança nas costas e um companheiro pontapeou-o no rosto assim que ele caiu, espetando-o várias vezes no peito a seguir.

O homem-macaco que Tekin espetara soltou um enorme grito de fúria e agarrou-o pelo tronco, prendendo-lhe os braços tentando esmagá-lo. Asil correu em socorro do irmão e espetou a lança nas costas do inimigo que, na tentativa de fuga, precipitou-se com a sua presa no vazio.

Da entrada da gruta soavam novos gritos e vários homens e mulheres-macaco corriam na direção deles, enquanto outros atiravam pedras e lanças grosseiras: eram mais de vinte! Mais dois dos atacantes tombaram feridos.

Eda e Ezgi, respetivamente cunhadas de Erem e Zia usaram as fundas em que eram exímias e derrubaram alguns dos defensores, causando a confusão entre os restantes. As lanças bem apontadas de Erem e dos outros causaram mais vítimas e pararam a investida, com exceção de um deles que se chegou perto o suficiente do grupo invasor para sofrer vários golpes de e tombar imóvel. Havia agora vários corpos caídos na área da esplanada.

Os defensores, refugiados na entrada da caverna, atiraram nova chuva de pedras e lanças com pouco efeito, tirando alguns feridos ligeiros. Eda e Ezgi causaram novas vítimas com as suas fundas que tinham um alcance muito maior, fazendo os inimigos recuarem ainda mais para o interior. Lemi chegava nesse momento à borda do patamar.

Erem tentava assimilar rapidamente a situação complicada em que se encontravam; não podiam investir, pois, os outros eram em número superior e eram precisos vários para liquidar apenas um deles, além disso, já tinham vários feridos e seriam rapidamente suplantados. — Desçam depressa, vamos, fujam! — Gritou decidido na borda do patamar. — Eda, atira-lhes mais pedras, mantém-nos lá dentro. Cemil, ajuda-me, atiremos-lhes com as lanças deles.

Enquanto os restantes desciam e ajudavam os feridos, um pequeno grupo de quatro tentou manter os inimigos à distância, mas as lanças eram mais pesadas e mais toscas, caíam quase sem força ou batiam inutilmente nas paredes da gruta.

Vendo que o número de atacantes era irrisório, os homens-macaco começaram timidamente a sair da gruta atirando mais pedras e os quatro resistentes tiveram de se lançar na descida de forma meio atabalhoada. No fundo do barranco, já os outros acabavam com um dos inimigos que ainda estava vivo e arrastavam os seus mortos e feridos pela encosta contrária.

Enquanto Eda descia, Asli conseguia atirar com a funda algumas pedras bem colocadas para assobiarem à cabeça dos defensores que se atreveram a espreitar na borda do penhasco, mas isso não impediu que uma chuva de grandes rebos caísse sobre eles. Um dos projéteis acertou com força sobre as costas e ombro de Erem fazendo-o cair e foi Cemil, seu irmão, quem o ajudou a refugiar-se com os restantes atrás da crista onde haviam iniciado o desgraçado ataque.

Gritos de vitória e de desafio dos defensores, postados na borda do penhasco, faziam-se ouvir.

Cheio de dores, Erem olhou para os companheiros; Fuat e Alev estavam mortos, Tekin estava bastante ferido e teria de ser carregado, quase todos ostentavam ferimentos mais ou menos ligeiros, com exceção de Lemi que estava pálido de cansaço, ofegante e com a cabeça entre os joelhos.

Apesar de terem causado bastantes vítimas, o resultado era pior para eles. Os homens-macacos ganharam o combate.

 

 

Clã do Leão da Montanha

Parte 2 – O Clã do Leão da Montanha

4 - Lambendo as feridas 

Parte 4 – Lambendo as feridas

Na Madrugada dos Tempos

Introdução – Na Madrugada dos tempos

Share:

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

O Clã do Leão da Montanha

 

Na Madrugada dos Tempos – Parte 2

Há pessoas que são excelentes a executar, mas que não querem liderar, têm medo, não querem tomar decisões. Essas não servem para líderes. Mas fazem coisas que os líderes não fazem.

Belmiro de Azevedo

Empresário e industrial português

(1938-2017)

Uma cabeça espreitou sobre a crista do monte; primeiro apenas um, mas, depois outros se lhe seguiram nervosamente. O vento gelado soprava e pequenos flocos de neve esvoaçavam, colando-se ao rosto e cabelos deles. Havia vários dias que o céu estava coberto de chumbo e a temperatura caíra a pique assinalando o fim daquele verão envergonhado.

Eram um grupo heterogéneo; cerca de vinte homens e mulheres, uns com grossas túnicas de lã e outros cobertos com peles mal curtidas. Todos traziam cabelos compridos que usavam soltos ou amarrados em tranças, alguns dos homens também tinham tranças nas longas barbas. Tinham os rostos e as barbas cobertos de lama branca onde pintaram riscas de carvão. Empunhavam lanças com pontas de pedra lascada e machados do mesmo material.

Assim que subiram aquele monte perceberam que haviam chegado ao seu destino; após a descida que se seguia, a terra lançava-se novamente em abrupta subida para outro monte ainda mais alto que ostentava na sua face a abertura de uma enorme gruta onde tremeluzia a luz de uma fogueira. Haviam partido da aldeia ainda de noite, para chegarem ao raiar do dia.

Baixaram-se, ocultando-se de novo atrás da crista e olharam uns para os outros.

— Chegamos. — Anunciou desnecessariamente com voz grave o homem que ostentava várias tranças no cabelo e na barba cobertos de barro branco. — É ali que eles vivem.

— E agora, como fazemos? — Perguntou um dos mais velhos, com grandes barbas raiadas de pelos brancos. — Atacamos enquanto ainda dormem?

— É o melhor! — Considerou um dos mais novos. — Eles são mais fortes do que nós, qualquer um deles pode com dois de nós… nem sequer sabemos quantos ali estão. Sabes, pai? — Dirigiu-se ao das tranças.

— Não, Asil, não sei. — O homem brincou pensativamente com uma das tranças da barba. — Nunca vimos grupos de caça maiores do que três ou quatro acho que serão poucos mais do que nós, se contarmos as mulheres que possam estar lá.

— Tens de decidir, Erem. — Exigiu o mais velho para o das tranças. — Era o teu filho e meu sobrinho, mas tu é que és o chefe. Foi a ti que escolhemos seguir.

O visado fitou o tio Lemi pensativamente. Quantas vezes vira nele o pai, Birol, tão parecidos que eram. Chegou mesmo a pensar se ele o tinha mesmo seguido ou deixara o irmão a pedido deste para proteger o filho.

Já se havia passado muito tempo desde que abandonaram o clã do Rio Brilhante. Asil era ainda uma criança de colo e Naci crescia na barriga de Zia. Apesar dos desacordos frequentes com o pai, a vida era boa. Não havia fome entre eles; as mulheres enterravam algumas sementes que, junto com as cabras montesas que aprisionavam, as frutas que conseguiam apanhar e a caça abundante, dava para satisfazer a todos. Nos últimos tempos, porém, o seu mundo modificava-se; o chão tremia com frequência e o lago salgado, junto do qual se haviam fixado, alargava-se cada vez mais.

O Xamã dizia que era o Rio Brilhante que enchia o lago, mas ninguém percebia como é que, com tanta água doce, as águas continuavam salgadas.

Gradualmente, os pequenos lameiros que semeavam foram sendo engolidos e a própria aldeia estava novamente ameaçada. A incerteza pairava sobre eles; uns queriam simplesmente continuar a afastar-se um pouco de cada vez, à medida que as margens cresciam, outros queriam ir para nascente, de onde era originário um dos genros de Birol. O chefe, porém, decidiu que rumariam a poente a caminho da gigantesca cascata que um outro clã disse que engordava o “seu” lago; teria de ser a sua vontade a prevalecer.

Foi o filho do chefe, no entanto, o causador da dissensão; queria seguir as estrelas-guias, escalar as montanhas para as terras altas e entrar no território dos homens-macaco. Muitos anos antes dele nascer, estavam ainda cobertas de gelo, mas agora eram grandes extensões verdejantes com manadas de auroques, gazelas e alguns mamutes. Não queria seguir o pai e Birol, que era um grande líder amado por todos, aceitou a decisão do filho com grande tristeza. O clã do Rio Brilhante, cuja dimensão de mais de cem elementos era extremamente invulgar, ficou reduzido a menos de setenta.

Erem e a sua companheira Zia com os seus quatro filhos, dois deles já com mulher e crianças, fizeram-se acompanhar de dois irmãos dele e três dela com respetivas famílias, além do tio Lemi, as suas duas mulheres e toda a descendência, formaram um novo clã com cerca de trinta almas. Do alto de um promontório acenaram o adeus a Birol e aos seus companheiros no fundo do vale, que partiam ao longo da margem do lago salgado, rumo ao sol poente. Aquele promontório tinha a forma de uma cabeça de leão e resolveram assumir esse nome; assim nascia o clã do Leão da Montanha.

Cedo conseguiram deixar as tendas e construir casas em pedra ou madeira que cercavam pequenos campos onde cresciam alguns legumes e vagueavam as cabras do rebanho comum. Nasceram mais crianças, embora também tenham morrido algumas e alguns adultos também. Os acidentes na caça e as doenças aconteciam e os recém-nascidos por vezes morriam à nascença ou com poucos dias de vida, mas o saldo era positivo e agora eram quase quarenta indivíduos.

Nos primeiros tempos, Erem ainda fez deslocações esporádicas à Pedra da Cabeça de Leão para olhar as terras baixas de onde viera, na esperança de ver Birol e os seus homens. Mas em vez disso, via como o lago se tornava descomunal, a outra margem perdendo-se de vista e poucos animais se divisavam junto das águas salobras.

Tiveram quase logo alguns recontros violentos com pequenos grupos de homens-macaco e isso raramente acontecia no vale do lago salgado pois normalmente não desciam lá, mas Erem já sabia que este era o território deles. Quem os batizara, fora alguém do clã de Birol dizendo que, cabeludos como eram, pareciam os macacos que viviam nas árvores do outro lado do lago salgado. Eles mantinham-se à distância e fugiam à sua aproximação dos membros do clã, o problema era que, quando a caça escasseava, tornavam-se mais atrevidos, atacavam os caçadores, ou roubavam a carne que secava ao pé das fogueiras.

Normalmente, os confrontos cingiam-se a uma troca de pancadas com as lanças grossas que usavam, ou algumas pedradas para afugentar, mas o último deles fora o pior; os caçadores reagiram e não deixaram que os homens-macaco levassem a caça. Além dos costumeiros braços partidos e cabeças rachadas, também os atacantes levavam alguns feridos com eles, mas Nuri, o filho mais novo de Erem e Zia ficara caído sem vida; uma pancada na cabeça fora-lhe fatal.

 

 
O Enterro

Parte 1 – O Enterro

   O ataque

Parte 3 – O Ataque

Na Madrugada dos Tempos

Introdução – Na Madrugada dos tempos

 
Share:

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

O Enterro


 

Na Madrugada dos Tempos – Parte 1

É incerto o lugar onde a morte te espera;

espera-a, pois, em todos os lugares.

Séneca

(Filósofo romano do século I)

Ouvia-se o choro soluçante fora da casa redonda erguida com pedras e lama, coberta por um telhado de colmo e com a entrada tapada por uma cortina de cor incerta. Lá dentro, uma mulher de cabelo desgrenhado e rosto sujo, vestindo uma túnica grosseira e comprida de pano cru, pranteava desconsoladamente. Estava sentada no chão de terra e com os pés descalços na cova recentemente escavada no centro da única divisão, mesmo ao lado dos restos queimados e apagados da madeira com que diariamente se aqueciam. Os lamentos dela produziam pequenas nuvens de vapor no ar gelado da tarde de inverno.

Do exterior ouviam-se mais gemidos de mulheres misturados com as vozes iradas de homens e essa algazarra irritava-a e fazia-a querer chorar ainda mais alto.

Dois homens vestidos de enormes cabeleiras e barbas hirsutas, envergando túnicas de pele curtida, afastaram a cortina e entraram, algo a medo e depositaram braçados de três ou quatro seixos do rio, cada um maior que o tamanho de dois punhos, ao lado da fogueira apagada. Assim que saíram, outros dois se lhe seguiram e assim continuou até se formar uma pilha que dava pela altura dos joelhos.

Fez-se um silêncio repentino do lado de fora e só o choro da mulher, agora murmurando uma ladainha incompreensível se fazia ouvir.

Um coro de uma cantilena chorosa começou no exterior, destacando-se as vozes agudas femininas e sons guturais masculinos.

Outros dois homens entraram, os seus cerdosos cabelos e barbas estavam cobertos de cinzas e transportavam, pendurado pelos braços e pernas, o corpo franzino e inanimado de um jovem onde ainda mal despontara a barba. O corpo pálido, magro e ossudo, envergava apenas uns pequenos trapos de pano cru por bragas.

— Cala-te mulher! — Censurou asperamente o recém-chegado mais velho. — Já chega!

— Eu é que sei se chega! — Ripostou de imediato a mulher, o rosto sujo de cinza borratado pelas lágrimas era uma máscara de terror. — Era o meu filho e choro-o como e quanto quiser! — Tirou os pés da cova e sem se levantar, virou as costas aos dois homens.

O corpo foi depositado cuidadosamente em posição fetal no buraco, sem esquecer o cuidado de lhe colocar uma das mãos sob a cabeça, como se estivesse adormecido. Tinha sido cuidadosamente lavado e várias nódoas negras destacavam-se na pele quase transparente. A seu lado, ao alcance da mão, colocaram-se respeitosamente uma lança de madeira e um machado cuja lâmina era composta de uma pedra chata cuidadosamente afiada. Próximo da cabeça, depositaram uma lebre morta, um recipiente de barro com azeitonas e outro com nozes. Junto da cinta pousaram uma cabaça com água.

O homem mais velho empurrou a mulher para o lado com um safanão e um empurrão para se poderem chegar ao monte de godos brancos. Os seixos foram usados primeiro para preencher todos os espaços livres à volta do corpo e depois para o cobrir e, assim que já nada era visível, começaram a cobrir a sepultura deitando a terra com os pés e as mãos.

Lá fora a cantoria transformara-se numa algazarra de machos que gritavam e se instigavam como se numa luta estivessem, enquanto corriam e cabriolavam em volta do casebre enquanto em fundo as fêmeas carpiam alto.

Assim que os dois homens terminaram a cobertura, quase em simultâneo, a cantoria terminou repentinamente. O mais novo saiu da casa passando exatamente por cima da sepultura acabada de tapar e logo um outro entrou e passou pelo mesmo sítio, tornando a sair e assim sucessivamente até todos os elementos masculinos passarem, pelo local e só o homem mais velho e a mulher ali restarem em pé junto da campa.

Agarraram os restos apagados da fogueira e colocaram-nos sobre a sepultura recente, para que mais logo se acendesse o fogo que aqueceria a todos, agora aconchegado pelo elemento da família que partira.

O homem gritou com a mulher que continuava a chorar e deu-lhe uma lambada que a atirou ao chão. Ela ergueu-se de um salto e gritou com ele batendo-lhe por sua vez. Trocaram uma sequência de socos e tabefes entre eles, sendo evidente que que a força masculina iria prevalecer.

A cortina da entrada abriu-se bruscamente e entraram dois homens armados com lanças.

— Que estás a fazer pai? — Perguntou o mais alto deles. — Vais ficar aí a gritar e a carpir como as mulheres?

— Se não vieres, não és mais filho do meu irmão! — Vociferou o outro.

Foi a vez da fêmea empurrar o macho, agarrar com força uma lança que estava encostada à parede e colocar-se sobre as cinzas e lenhos acabados de colocar.

— Se ele não tem coragem de ir vingar o filho, tenho eu! — Exclamou a mulher altivamente. — Tanto posso empunhar a lança para matar um porco bravo, como para matar o assassino do meu filho!

Do lado de fora, obviamente escutaram-se as palavras de desafio e um coro de gritos guerreiros responderam ao apelo.

— Temos de ir atrás daqueles homens-macaco, invadir as grutas e acabar com todos! — Sentenciou o outro homem. — Como são mais fortes que nós, não conseguimos disputar-lhes a caça e roubam-nos aquilo que caçamos. Mas chega! Verão que não temos medo deles e não tornarão a fazer mal a um dos nossos!

 

 
Na Madrugada dos Tempos

Na Madrugada dos Tempos – Introdução

Clã do Leão da Montanha

Parte 2 – O Clã do Leão da Montanha

   
Share:

Em Destaque

Publicação de "Na Sombra da Mentira"

  No passado dia 22, publicado o meu novo livro, “Na Sombra da Mentira”. Trata-se de um romance contemporâneo, onde Gabriel, um ho...

Receba as últimas novidades

Receba as novas publicações por correio eletrónico:

Mensagens populares

Número total de visualizações de páginas

Publicações aleatórias

Colaborações


Imprimir

Print Friendly and PDF