A chegada de Daqueles Além Marão

Publicado em 2017, deveria ter sido lançado por uma editora pela obtenção do primeiro lugar num concurso.

Capa de Terras de Xisto e Outras Histórias

Um livro de contos diversos onde circunstâncias dramáticas obrigam os personagens a contrariar a sua própria natureza.

Capa de Lágrimas no Rio

A pacata aldeia de São Cristóvão do Covelo sofre um terrivel cataclismo que vai revelar forças estranhas.

A Amazon apoia a publicação independente

Todos os meus livros são publicados pela Amazon de forma independente e não exploradora. Estão à venda em todo o mundo.

A família de livros "Debaixo dos Céus" continua a crescer desde 2015

Desde a publicação de "Terras de Xisto" em 2015 até "Entre o Preto e o Branco" em 2020, vão milhares e milhares de palavras escritas.

A capa de Daqueles Além Marão

Os contos aqui incluídos têm todos protagonistas transmontanos. A capa escolhida é feita a partir dos azulejos da estação ferroviária do Pinhão, na linha do Douro.

A chegada de Terras de Xisto e Outras Histórias

Foi emocionante a entrega destes livros, os primeiros publicados em exclusivo com o meu nome.

A chegada de Lágrimas no Rio

As primeiras apresentações que fiz foram desta obra.

A capa de Entre o Preto e o Branco

A primeira capa 100% desenhada por mim, com recurso a uma foto royalty free.

A chegada de Entre o Preto e o Branco

Como das vezes anteriores, quando chegou a primeira remessa já estava toda vendida.

sábado, 29 de maio de 2021

Suspenso


— Vai-te depressa, é o meu marido!

A frase chegou-me ao cérebro em uníssono com o som característico de uma chave a ser introduzida numa fechadura.

Saltei na cama, atordoado e fiquei sentado a olhá-la, um pouco incrédulo.

Ela fitou-me com os seus olhos azuis. Duas pérolas refulgentes na obra de arte que era o rosto emoldurado pelo cabelo encaracolado escuro.

Por uns instantes, uns segundos apenas, gelamos, um frente ao outro, soerguidos na cama onde há tão pouco tempo havíamos dado largas à paixão. Os seus peitos alvos e fartos, de mamilos quase invisíveis de tão rosados, subiam e desciam nervosamente, acompanhando o respirar entrecortado.

— Depressa! — O tom sussurrado e suplicante, trouxe-me de volta à realidade em simultâneo com o ruído de passos pesados no corredor.

— Disseste-me que ele não vinha hoje! — Protestei, recolhendo as roupas de cima da poltrona que havia aos pés da cama. Dei graças pelos meus hábitos de, mesmo enlouquecido pelo desejo, amontoar a roupa toda no mesmo sítio.

— Deve ter trocado o serviço, que queres que te faça? — O sussurro irritado insistia na urgência.

— Não seria melhor acabar com isto de uma vez? — Engoli em seco.

— Estás cansado de viver? — A retórica foi suficientemente elucidativa.

Os passos chegaram junto à porta do quarto e o manípulo rodou devagar. Escondi-me na casa de banho, onde sabia que existia uma saída para o corredor e vesti-me rapidamente, no escuro, enquanto espreitava pela frincha da porta. Na penumbra do quarto, consegui divisar o marido; cerca de um metro e noventa de homem, cabelo cortado à escovinha, envergando o uniforme da PSP e ainda com a arma e o cassetete suspensos da cintura.

— Que porra de situação. — Lamentei-me calçando o segundo sapato e observando-o a espreitar a jovem esposa, que se fingia adormecida.

Esgueirei-me para o corredor às escuras e em passos largos e silenciosos, encaminhei-me para a porta de saída do apartamento. Uma manada de cavalos enlouquecidos corria desenfreadamente no meu peito, enquanto tentava, sem sucesso, abrir a porta que fora fechada com a chave.

Conseguia escutar murmúrios do quarto. Devia estar a tentar “acordá-la” para fazer aquilo que tinha feito comigo nas últimas horas… Porque diabos haveria de voltar tão cedo?

Em vão, apalpei no topo da credencia pelas chaves que me permitiriam sair daquela situação…

Os murmúrios terminaram de repente e o corredor iluminou-se com a luz proveniente da casa de banho que eu acabara de abandonar.

Corri para sala e olhei em volta; aquela divisão que conhecia tão bem, onde cada maple e cadeira tinha uma recordação agradável, em busca de um sítio para me esconder. A única coisa que me pareceu mais adequada foi o sofá; com um salto acrobático, consegui literalmente mergulhar para a parte traseira, comprimindo-me o mais que pude entre a parede e as costas.

O som de passos a entrar na sala… a televisão começou a funcionar… o ruído do cinturão a ser pousado na mesa de apoio e um peso brutal caiu sobre o sofá, esmagando-me ainda mais. Quase não consegui suster um gemido.

Deixei-me ficar, naquela posição tremendamente incómoda, enquanto ouvia a sessão de zapping a decorrer. Ao fim do que me pareceu uma eternidade, levantou-se novamente, dando descanso às minhas dilaceradas costelas e ouvi os passos que se dirigiam à cozinha.

Aproveitei a oportunidade e corri para a varanda, cuja porta abri muito devagar e passei para o exterior… não consegui tornar a encostar a corrediça, que me pareceu ficar presa em qualquer coisa.

Corria uma aragem fria do fim do verão… o céu sem estrelas era providencial e espreitei para a rua… quatro andares abaixo. Lembrei-me naquela altura que, de futuro, deveria incluir, como requisitos na minha lista de escolhas femininas, aquelas que vivessem no rés-do-chão, vá lá, no máximo primeiro andar… e que os maridos não fossem polícias, ou qualquer tipo de agente que incluísse armas.

Eu estava a ficar gelado rapidamente. Na sala, o homem retomara o zapping e de repente, olhou na minha direção, para a porta mal fechada, de onde devia estar a sentir corrente de ar. Ergueu-se e começou a experimentar a corrediça para verificar porque encravava, vi a sua perna sair para a varanda e era óbvio que teria de passar à próxima e ainda mais assustadora tática de esconderijo: debrucei-me sobre a balaustrada e fiquei suspenso no vazio, agarrado aos ferros.

O coração parecia querer saltar-me pela boca. Sentia o corpo todo tremer descontroladamente, sabendo que não aguentaria muito tempo assim. Abaixo de mim, ligeiramente desalinhada de uma eventual trajetória descendente, via a varanda do terceiro piso… conseguira saltar para ali? E depois para a seguinte? Dei graças por não haver ninguém na rua.

Escutei o ruído do isqueiro e a longa baforada que se seguiu… as mãos começavam a doer… se eu o enfrentasse, ele contentar-se-ia com uns socos ou… o mais certo era atirar-me da varanda ou dar-me um tiro… choraminguei silenciosamente a minha estupidez por me ter arrastado para aquela situação.

Estava a achar que não aguentava muito mais, quando vi o morrão do cigarro a voar para a rua, numa trajetória que me pareceu eterna, até ressaltar em pequenas faúlhas no asfalto. A porta da varanda fechou-se.

Tentei regressar à placa salvadora, mas os meus braços não tinham força para erguer o peso do corpo. Com os pés, tateei freneticamente em busca de algo que me apoiasse um pouco e facilitasse a tarefa. Os dedos estavam a fraquejar e iriam falhar a todo o momento. Olhei de novo a varanda abaixo de mim. Tinha de ser! Baloucei-me e larguei os ferros, lançando-me no vazio. Falhei a balaustrada abaixo de mim por uns milímetros e com os braços agitando freneticamente numa vã tentativa de  me agarrar, entrei numa queda silenciosa e interminável.

Saltei na cama, sufocado e encharcado em suor.



quinta-feira, 29 de abril de 2021

O Teu Brilho Esta Noite



Estava uma noite serena e morna. Pequenos diamantes refulgiam sobre o puro veludo negro da noite, guardando a descomunal lua de prata, que pairava sobre a paisagem. O ambiente ideal para meditar ou sonhar, naquele terraço do hotel, com vista sobre a cidade de luzes douradas na margem contrária do rio. A perturbar tão idílico ambiente, estava o som de fundo de vozes, risos e copos a tilintar. O homem de estatura média, cabelo escuro e barba aparada, segurando o copo com o líquido dourado e reluzente, preferia o silêncio da noite estival, à animação que decorria nas suas costas.

André, assim se chamava, ponderara muito, antes de aceitar comparecer àquela festa, especialmente aquela. Perdera o hábito de frequentar tais convívios e transformara-se num autêntico eremita. Desperdiçara mais de três anos, numa embriaguez permanente, enquanto escrevia crónicas com língua viperina, para as revistas “cor-de-rosa”. Meses de recuperação alcoólica, disseram-lhe que não poderia viver daquela maneira e afastou-se do gin e da sociedade. Em vão recebia convites de conhecidos, para que fosse a este ou aquele convívio, na esperança de serem contemplados, para o bem ou para o mal, num dos artigos que repentinamente deixaram de jorrar da sua caneta. Desaparecera do mundo, refugiara-se no seu apartamento e num contrato com uma revista, a escrever o que lhe pediam. Na verdade, fora mais do que um problema alcoólico a afastá-lo da sociedade; havia aquela mulher, que não via há uns anos e que lhe deixara um vazio imenso, a mesma cuja eventual presença o fizera aceitar este convite. Sofia, era a mulher que nunca conseguiu esquecer, talvez por ser a única que não se deixou prender na sua teia depressiva e resolveu seguir em frente, antes que ele a deixasse.

Apreciou o copo quase vazio, sabendo perfeitamente que não deveria ter aceitado aquela bebida e ponderou deitar o resto no canteiro ali ao lado. Decidiu-se por não desperdiçar aquela fuga à sua disciplina e esgotou o conteúdo do copo, inclinando despudoradamente a cabeça para trás, para não perder nem uma gota. Tendo consciência dos efeitos do álcool no seu já destreinado organismo, olhou em volta em busca de um local onde pousar o recipiente esgotado e foi quando a viu.

Atravessando uma das enormes portas que davam acesso ao terraço e olhando em volta, como se procurasse alguém, ali estava Sofia; trazia um vestido preto sem alças que contornava os peitos e acentuava a sua cintura fina, continuando numa saia que abria num gracioso leque terminada por um rendilhado preto sobre o joelho. Nos pés, calçava sapatos também negros, onde reluziam alguns brilhantes em volta do tornozelo. Mas era o seu cabelo acobreado escuro, natural, solto e luxuriante, envolvendo o rosto de linhas firmes e nariz aquilino, que faziam com que não se conseguisse tirar os olhos dela. O seu sorriso, enquanto cumprimentava os conhecidos, continuava deslumbrante e toda ela irradiava luz, ofuscando a própria iluminação artificial.

Quando ela o viu, foi como se uma nuvem tapasse o sol e o resplandecente sorriso transformou o belo rosto com um ar preocupado e triste. Ele apercebeu-se que estava sem respirar e soltou um suspiro involuntário, enquanto o copo tremeu ligeiramente na sua mão.

— Olá, André. — A voz quente envolveu-o, assim que ela se aproximou em passos calculados para que a sua passagem fosse notada. — Há muito que não te via… estás mais magro. Fica-te bem!

— Em compensação, tu estás cada vez mais bonita. Parabéns. Continuas a atrair os olhos de toda a gente… — ele aproximou o rosto do dela para um cândido beijo, enquanto sussurrava — … homens e mulheres.

— Vejo que continuas a ser um comentador acutilante. — Ela sorriu, sem corresponder ao beijo, mas sem se afastar. — Fico feliz por aceitares o meu convite. Vai ser agora que me vais brindar com umas linhas num dos teus artigos de gosto duvidoso, naquela revista execrável?

— A revista execrável paga-me o ordenado, sem ter de arriscar a vida nas guerras deste mundo, como fazia antes… fazíamos. — André encostou-se à balaustrada da varanda e cruzou os braços sobre o peito, sem soltar o copo vazio. — De resto, não fui o único a procurar uma “atividade” mais segura e rentável, deves recordar-te porque me tornei um “vampiro dos costumes”.

— “Touché.” — Reconheceu Sofia com um sorriso maroto. — Penso que estás a definir o meu casamento com um rico industrial da hotelaria como uma “atividade segura e rentável”. Já sei que ninguém consegue esgrimir palavras contigo sem sofrer uma estocada mortal.

— Ambos trocamos um jornalismo de ação… por atividades diferentes. — Ele retribuiu o sorriso e a ironia. — Por mim, teve de ser mesmo assim; os industriais da hotelaria nunca quiseram nada comigo, apenas os editores de revistas execráveis… pelo menos também não tenho de dormir com nenhum. Mas descansa — continuou — nunca escreveria nada sobre ti… pelo menos de mal e o tipo de matéria que eventualmente sairia, não interessa aos meus patrões.

— Fico feliz que assim seja. — Ela pousou suavemente uma mão sobre a dele, num gesto de uma cumplicidade antiga, que o fez estremecer. — Espero que essa trégua abranja o meu futuro marido.

— Não há aqui nenhuma trégua, para isso teria de haver uma guerra, não te parece? — André endireitou-se enquanto tentava, sem sucesso, agarrar a mão dela que recuava.

— Oh, mas há, meu querido. — Ela cruzou candidamente as mãos sobre o ventre. — Uma guerra fria! Há quase dez anos que tens os misseis apontados na minha direção, à espera de uma “causam belli”.

— Não é verdade. Nunca estive zangado contigo… — defendeu-se ele. — … apenas desiludido. Aproveitares a minha reportagem para surgires de repente com o fim da tua carreira ao lado desse… palhaço.

— Eu?!? Aproveitei a tua reportagem? — Ela soltou uma gargalhada nervosa e cínica. — Depois de te pedir encarecidamente que não fosses… estiveste fora um ano!

— Foi complicado… — Ele acalmou-se perturbado pelas recordações. — Fui sequestrado e…

— Bem sei! — Sofia atirou com irritação. — Segui cada notícia, contactei todos os que conhecia, chateei, persegui um secretário de estado, para que se interessassem pelo teu problema. — Perante o olhar de espanto dele, ela fez uma careta cínica. — Achas que te libertaram pelos teus lindos olhos? Ou pelo teu talento jornalístico?

— Não sabia…

— Bem sei que não! Pedi que não dissessem. — Ela volveu o olhar ao chão. — Também não deves saber que abortei três meses após a tua partida…

— Meu Deus! — O espanto de André dizia tudo. — Que aconteceu? O nosso filho, estavas grávida?

— Quando te foste também ainda não sabia. Não sei o que foi, alguma incompatibilidade, deficiência, stress, sei lá. Agora também não interessa, não quero falar disso. — Sofia falou rapidamente enquanto atirava tudo para trás, com um gesto e uma expressão triste. — Isto não está a correr nada como eu esperava. Queria que ficássemos amigos, tenho saudades das nossas conversas…

— Só das conversas? — Ele baixou a cabeça para lhe poder ver os olhos verdes que lhe devolveram o olhar nervosamente. — Nunca deixei de te amar…

— Meu querido. — Sofia ergueu a cabeça, endireitou os ombros e deu um passo atrás. — O que foi não volta a ser! Estou casada e feliz há dez anos. Gosto muito de ti e gostava muito que fossemos amigos, mas só isso.

— Que esperavas? Que festejasse contigo? — André enfureceu-se. — Regresso de uma das piores experiências da minha vida para encontrar a mulher com que amava casada com o playboy dos hotéis!

— E que esperavas tu? — Por uns instantes os olhos dela faiscaram de raiva. — Foste embora na altura em que mais precisava de ti, porque a tua carreira, ou o teu desejo de morte, era mais forte! Preferias a adrenalina de arriscar a vida nas reportagens dos conflitos, do que a alternativa de uma existência medíocre de classe média… ao meu lado. — O rosto suavizou-se e acariciou-lhe ternamente a face. — Acabaste por deixar tudo na mesma, para te tornares ainda mais amargo, do que já eras em tempos de paz.

— Vem comigo! — Pediu André tentando segurar a mão gelada que lhe acariciava a face. — Deixa tudo isto, as luzes, a riqueza desse homem que não vale nada. Sabes que o negócio dos hotéis é a capa para a venda de armas nos conflitos, por isso nos encontrávamos os três, muitas vezes, durante o nosso trabalho.

— Também nós e tu mais do que eu, vivemos desses mesmos conflitos. — Ela puxou a mão suavemente. — Por mim já tinha demasiado tempo, suja de terra nos campos de batalha, ou nos hotéis bombardeados, sempre à espera que o meu quarto fosso próximo atingido e pedia que, quando o fosse, atingisse em cheio e não me deixasse estropiada ou a sofrer. — Sofia pousou os olhos no chão. — Chama-me fútil, mas estou numa vida cómoda rodeada pelo luxo e tudo o mais que quiser. Não vou retroceder.

André fitou a mulher com estranheza, como se a visse pela primeira vez. Aquela não era a sua antiga companheira, aquela que partilhou o perigo com ele, em mais de uma dezena de conflitos por esse mundo fora. Que tivera nos seus braços, escondidos entre os escombros, durante os bombardeamentos. Não era a mulher que tirara fotos fantásticas que ilustraram os seus relatórios apaixonantes e que fizeram as páginas principais de revistas e jornais. Afinal, também ele já não era o repórter de guerra, mas sim um frívolo cronista, mais ocupado com quem dorme com quem na sociedade. Já não contava histórias de morte e paixão pela liberdade, mas sim os podres da existência humana em tempos de paz, vivida às custas de outras guerras.

— Este senhor está a incomodar-te, querida? — Ao lado dela apareceu um homem, ligeiramente mais baixo, praticamente careca, mas impecavelmente vestido com um fato de corte moderno. — Queres que chame os seguranças? — Exibiu um sorriso de superioridade, enquanto abraçava a mulher pela cintura. — Como estás, André? Quem é a “vítima” do teu desprezo pela sociedade esta noite? Espero que não a minha doce Sofia.

— Já a descansei a ela e descanso-te a ti também, meu caro Ricardo. — Respondeu o visado erguendo o copo vazio à guisa de um brinde. — Façamos desta noite, uma noite de paz e… tréguas.

— Ah, a guerra fria! — O outro fingiu um olhar sonhador e divertido. — Em tempos de paz, prepara-te para a guerra! Há que armazenar mais e mais armas!

 — Graças a isso, há quem enriqueça mais e mais, sobre armazéns de armas, ou pilhas de cadáveres! — Atirou André amargamente, fazendo com que Sofia arregalasse os olhos num aviso.

— Acutilância! — Divertido, Ricardo piscou um olho e apontou o indicador ao outro, numa expressão marota. — Em todos os conflitos, ganha quem tiver mais recursos! É uma lei da vida! — Apertou mais e agitou significativamente a cinta de Sofia. — Julguei que tivesses aprendido alguma coisa nos anos de guerra que ambos vivemos. — O sorriso desapareceu rapidamente enquanto olhava para a mulher. — Temos de ir, querida, o presidente da câmara está ansioso por te conhecer. — Depois tornou para André. — Aprecia o melhor que puderes desta festa. Sei que o tema não te agrada, mas enfim, quando não podemos caçar, comemos do que nos dão!

Sofia deixou que Ricardo a puxasse suavemente, deitando apenas um último olhar contristado ao antigo companheiro.

André ficou ali, encostado na balaustrada, vendo os dois afastarem-se, dividido entre o olhar triste de Sofia e o sorriso triunfante de Ricardo. Com ela, ia-se o sol embora de vez e repousava sobre os seus ombros uma noite eterna e fria, que teria de passar sem a mulher que amava.

— Aproveitemos o que nos dão, enquanto se dissipa o brilho de Sofia! — Concluiu para si próprio, afastando-se da parede e caminhando lentamente para o salão. —  Preciso de uma boa bebida, para tirar este sabor amargo da garganta.


domingo, 11 de abril de 2021

Revista Divulga Escritor - Abril 2021

 


    Já saiu a revista Divulga Escritor de abril 2021. Pela segunda edição consecutiva, as homenagens ao meu amigo e editor, desaparecido recentemente, aparecem pela voz de quem o conheceu, pessoalmente ou à distância. Todos os que, de alguma forma, contactaram com o Isidro Sousa, não ficaram indiferentes e reconheceram-lhe muitas qualidades e vontade de singrar na vida. O seu inesperado desaparecimento, chocou e continua a chocar a comunidade de escritores que com ele convivia.





    Também nesta edição foi publicado um dos meus contos: "Expiação" que pode ser lido na integra neste blogue ou na própria revista.



    Se pretender ler a revista Divulga Escritor de abril na totalidade, basta clicar aqui.


Boas leituras


segunda-feira, 29 de março de 2021

Os Anjos Têm Olhos Azuis (Republicação 2016)


No princípio tudo estava escuro. Pequenos pontos de luz, quase como estrelas, viam-se ao longe. Estaria a ver o céu? Estaria deitado num prado relvado numa noite estrelada de verão? Algumas “estrelas” moviam-se lentamente e outras com mais velocidade… mas moviam-se sem dúvida. Estrelas cadentes? Tantas? O universo estava definitivamente vivo!
O negrume intimidador parecia até convidativo, sentia vontade de se juntar àquela dança de estrelas, de ser uma delas a vogar na imensidão. Sentia isso, mas não percebia o que sentia mais, havia uma leveza, uma ausência de algo… O seu corpo; percebia que mandava comandos aos dedos e depois aos braços e às pernas, mas não sabia se eram executados. Na escuridão absoluta, mexia os braços e as pernas e não tocava em nada. Não, não estava deitado no prado verdejante, antes flutuava naquela matéria escura, longe das estrelas. Flutuava? Caía! Uma sensação de terror percorreu o corpo que não sentia e arrepiou os pelos do pescoço que não sabia se estavam lá.
Agora estava… no fundo do mar? A sua visão ondulava, como que debaixo de água e havia pequenas fitas verdes, que partiam do chão coberto de seixos e areia dourada, agitavam-se, tentando libertar-se e fugir para a superfície. Vendo-as de perto, parecia distinguir rostos que apareciam e desapareciam em expressões de angustia ou simplesmente desespero. Por entre as fitas, passavam por vezes corpos escuros, como golfinhos luzidios e sorridentes, flutuando, nadando?
“Isabel?” O pensamento pareceu ganhar forma e solidez e como as sombras escuras, nadou para longe. Mas o que quer que fosse que o fez pensar naquele nome, não se fora embora e o rosto dela acudiu-lhe à memória, dolorosamente.
Uma das sombras escuras pareceu imobilizar-se à distância e observa-lo, por entre as ondulantes fitas verdes. Depois, nadou decididamente na sua direção enquanto se metamorfoseava numa mulher, de cabelos escuros e esvoaçantes. O corpo coberto por um diáfano vestido branco, ocultava-lhe os pés, que agora caminhavam. Toda ela era em tons de cinzento, sobressaindo da tonalidade azulada das águas e do verde das fitas entre eles.
“Luís.” A voz quente ecoou-lhe na privacidade dos seus pensamentos. “Vieste!”
“Como poderia não vir?” Ele achava que tinha lágrimas nos olhos, se eles existissem.
“Não devias!” A voz que o acariciava, repreendia-o. “Fiz-te muito mal, deixei-te...”
“Disse-te que o meu amor estava para além de tudo. Não podia deixar de vir.”
Ela “flutuou” em volta dele fazendo-o rodar sobre si próprio e reluzir fracamente, como um holograma. Encostou o nariz ao dele, focando os expressivos e brilhantes olhos azuis, a única parte que parecia manter-se colorida nela.
“Os teus olhos… tão azuis!” Ele suspirou mentalmente.
“Já eram azuis, assim continuam.” Ela afirmou pragmática.
“Todos os anjos têm olhos azuis?” Era mais um pensamento do que propriamente uma pergunta.
“Porque achas que sou um anjo?” Havia divertimento na interrogação.
“És bela como um anjo, flutuas… tens olhos azuis...”
“A beleza, é a dos teus olhos. Aqui somos todos iguais: simples sombras acinzentadas, vagueando numa tristeza morna. Libertos da prisão do corpo, mas presos numa decisão precipitada. São os teus olhos que me veem com amor e constroem aquilo que não se vê… como podiam os olhos serem azuis, num mundo onde o cinzento reina?”
“Mas há os teus olhos, azuis, as fitas verdes que se querem libertar do chão de areias douradas. A própria água é um azulado cristalino!” Ele contrapôs.
O rosto dela mascarou-se de uma tristeza momentânea, antes de brilhar novamente com esperança. Ergueu lentamente uma mão que usou para acariciar com suavidade o rosto de Luís, que se tornou sólido para receber o afago. E ele sentiu aquele toque suave e meigo, embora sem calor, mas igual a tantos outros, há tantos milhares de anos atrás.
“És um anjo sim!” Concluiu ele, de olhos fechados, com um sorriso beatífico. “Agora estou feliz.”
“Também estou feliz por te ver.” Os lábios finos dela arredondavam-se num sorriso subtil, mas os olhos tremiam numa tristeza profunda. “Fiz-te muito mal e gostava de te poder compensar… não sei se alguma vez conseguirei… Fiquei feliz por te ver, mas não pode ser assim!”
“Que dizes?” Todo o corpo dele começava a adquirir uma solidez igual à dela e os dois seres, cinzentos, flutuavam um em frente ao outro, de mãos dadas.
“Não pode ser assim.” Ela repetiu, afastando o azul dos olhos para se perderem no horizonte. “Ainda não é hora! Não podemos ficar juntos.”
“Porquê? O que se passa?” Havia alarme nos pensamentos fazendo tremeluzir as águas, pressentindo o desequilíbrio.
“Não é hora, simplesmente.” Ela soltou as mãos dele e afastou-se uns centímetros. “Tens de ir!”
“Não quero!” Ele insistiu, o corpo cintilando entre desvanecer-se e agrupar-se num corpo quase sólido.
O rosto dela endureceu por uns segundos mas rapidamente voltou a máscara do amor e os seus lábios estreitaram-se num beijo. No segundo seguinte, empurrou-o com violência e imprimiu forte o pensamento: “Vai!”
Foi de um salto só que ele caiu da banheira, de joelhos sobre o tapete da casa de banho, completamente encharcado e nu.
Chorando de dor e saudade, vomitou golfadas de água e comprimidos mal digeridos.



quarta-feira, 17 de março de 2021

Histórias da Chuva e do Vento -- De novo os Pentautores

 


Mesmo em plena pandemia, a imaginação dos Pentautores não pára!

A convidada escolhida por Ana Paula BarbosaCarlos ArintoJorge SantosManuel Amaro Mendonça e Suzete Fraga desta vez foi Ana Maria Monteiro, membro do grupo "Tertúlia A Velha Escrita" que se reúne semanalmente.

Durante mais de duzentas páginas, os Pentautores e a sua convidada contaram algumas novas histórias.


Nas palavras da nossa convidada:

"Qualquer história poderá sempre ser da chuva, do vento, do que quisermos, pois nós próprios somos um acaso que se constrói ao sabor dos elementos que sujeitamos e nos sujeitam. Somos vento, chuva, tempestade, acalmia, onda, rio, nascente, leito, foz. Dificilmente as imagens animadas, que ganham corpo dentro de nós enquanto lemos, serão apagadas algum dia. Esse é o poder da palavra escrita — fica impressa, por vezes marcada a fogo dentro do leitor."


Não perca, por isso, mais esta fantástica antologia e venha ouvir as histórias da Chuva e do Vento.





domingo, 28 de fevereiro de 2021

A Promessa



Bruno conduzia a velha motorizada, em velocidade, a caminho de casa, na noite fria de inverno. O impulso que trazia era mais devido à inclinação da estrada do que propriamente pela potência do cansado motor. A ausência de receio nas curvas apertadas, essa, era devido aos copos de tinto que sorvera na tasca do Guedes, por entre as cartas da sueca e as anedotas porcas com amigos e colegas de trabalho. Na saca do almoço, presa na grelha traseira, seguiam duas garrafas de verde tinto, de beber e chorar por mais. Não seria a estrada serrana e as bermas compostas por penhascos de dezenas de metros, que haveriam de atrasar ainda mais o regresso ao covil onde habitava a sua Madalena. A adorada esposa, por estas horas, havia de estar a soprar fogo pelas ventas, com o retardo do marido, em dia de recebimento.

Cumpriram-se naquele dia quarenta e oito anos, que saíra do ventre prenhe de sua mãe, de onde haviam saído os outros sete irmãos em anos anteriores. Começara a trabalhar nas obras de construção civil aos onze. A família não podia manter quem não contribuía para o rendimento mensal, fortemente debilitado pelo consumo desregrado de tabaco e vinho do pater familias, também ele “mestre” trolha. Por isso, “deu com os lombos” a trabalhar nas construções, ao lado do pai, logo que terminou a escola primária. Estava-se nos últimos anos da ditadura não precisava de estudar mais. Não se pense por isso que o trabalho lhe fora facilitado, nunca esqueceu as “lambadas” que levava cada vez que se demorava a entregar o que lhe pediam, ou os dolorosos chutos nos fundilhos, que descarregavam a frustração do progenitor.

Agora, com estes agravos quase diluídos nos anos que se passaram, resolvera passar pela tasca, festejar e beber um copo com os amigos, depois de um dia muito longo. Bem sabia que prometera a Madalena não tornar a gastar na taberna o que lhes fazia tanta falta, mas que sabia ela das necessidades de um homem? "Reduzi aos cigarros e deixei de passar na tasca todos os dias, não deveria haver uma compensação de vez em quando? E afinal, para que servem as promessas, se não for para serem quebradas?" Argumentou para si próprio. "Se ela se puser com muita conversa, ainda vai enfardar uns tabefes."

Ruminava nestes pensamentos desde que saíra do estabelecimento, já noite, mais leve cinquenta euros, de cabeça pesada e ouvidos a zunir. O barulho irritante do motor da motorizada tornava-se quase hipnotizante, mesmo na estrada sinuosa e reluzente do gelo que se começava a formar nos pequenos fios de água que atravessavam o asfalto. O capacete parecia-lhe cada vez mais pesado e as pálpebras pareciam ficar coladas quando as fechava. Foi num ápice que sentiu o motociclo deslizar numa curva gelada e se viu, impotente, a rebolar para berma até se lançar no vazio.

Após uns segundos de incredulidade, tomou consciência da sua situação. Estava em cima de uma árvore seca, um velho castanheiro, debruçado sobre um barranco de mais de dez metros. Conseguia divisar a vegetação, no escuro, a acompanhar todo o declive até quase desaparecer de vista no fraguedo que o aguardava no fundo.

— Meu Deus! — Gemeu alto, aflito. A árvore estremeceu, ameaçando soltar-se e ele teve de agarrar-se com mais força.

Olhou o céu gélido, coberto de pequenos pontos luminosos, onde reinava o enorme disco prateado que parecia olhá-lo desdenhosamente, perfeitamente insensível ao seu drama. Olhou a toda a volta, em busca de uma solução para o seu problema, antes de se tornar a focar nas ominosas fragas que representavam, estragos muito dolorosos, se não mesmo a morte. O tronco onde se agarrava estremeceu de novo, avisando-o que tinha de arranjar uma solução urgentemente.

— Meu Deus! — Recomeçou, olhando o céu. — Minha Nossa Senhora de Fátima, pedi por mim a Nosso Senhor que perdoe as minhas faltas.

Como resposta, o castanheiro deu mais um sacão, soltando terra e algumas raízes, ameaçando colapsar a qualquer momento. Com uma lentidão exasperante, todo o tronco começou a inclinar-se para o vazio. Um verdadeiro réptil, Bruno rastejou sobre os ramos, procurando o corpo principal da árvore

— Eu prometo, Meu Deus! — Chorou, arrastando-se ao longo do tronco, tentando chegar às giestas que se eriçavam no declive. — Eu vou cumprir a promessa feita à minha Madalena. — Mais uns centímetros de inclinação, arrancaram a promessa final. — Eu deixo de beber, eu juro, eu prometo! Não volto a levar um copo aos lábios, Meu Deus, deixa-me voltar para a minha doce Madalena!

Ao invés de tombar de uma vez, o castanheiro encostou-se completamente ao declive, permitindo a Bruno agarrar-se com todas as suas forças à vegetação rasteira e iniciar a escalada para a salvação. Um enorme monte de terra saliente assinalava o local onde a raiz se libertara, deixando uma cratera. Na subida, teve de se esquivar das pedras e terra solta que parecia querer acompanhar a arvore na sua caminhada final.

— Obrigado Meu Deus! — As lágrimas, sangue e o muco do nariz, misturados com a terra, transformaram-no numa criatura de terror. Os cotovelos e os joelhos sangravam em manchas no vestuário. — Eu prometo, Meu Deus, eu prometo! — Arrastou-se, exausto, para a berma do asfalto e deitou-se no chão, a chorar desabridamente.

Cerca de um metro à sua frente, a pasta do almoço estava tombada e aberta, a marmita espalhara os restos do arroz misturando-os com o carmim de uma garrafa que se quebrara na queda. A outra, intacta, rebolara na sua direção.

Bruno sentou-se no chão e apanhou a vasilha, mirando-a com a saliva a formar-se na boca. Atrás e abaixo dele, o velho castanheiro devia estar a arrastar um pedaço da encosta, na sua agonia. Tirou a rolha, limpou o gargalo com a manga e deu dois grandes goles.

— Tendes de me perdoar Meu Deus. — Exclamou passando a língua nos lábios húmidos do néctar. — Preciso mesmo de uns goles… além do mais, eu prometi que não tornaria a levar um copo à boca, não uma garrafa.

Soltou uma gargalhada que ecoou no vale, mas foi a última, pois, no seu apego à terra onde nascera, o carvalho provocou uma enorme avalanche e metade da estrada foi arrastada, levando o perjuro para a sepultura, numa torrente de terra e pedras.


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Será que ainda ouves?




Às vezes pergunto-me se ainda me ouves... se ainda nos ouves... lá no lugar distante para onde partiste.

Será que nos vês? Será que sentes o que sentimos? A dor que se ferrou em meu peito e que eu calco e sufoco, para os recônditos mais fundos da minha alma. 

Que é feito dos nossos murmúrios, das nossas preces? Será que os ouves? Quando rezo ao Criador ou peço à Sua Santa Mãe que interceda por nós... consegues escutar as minhas palavras? Logo as minhas, que fui o  teu filho mais ausente.

Penso que ainda ouço a tua voz, por vezes. O teu conversar calmo e sereno, a tua paixão, quando falavas das coisas que gostavas.

Às vezes, tenho de olhar para as fotografias para recordar o teu rosto e vejo que não estava esquecido. Estava lá, onde sempre esteve, entre as coisas bonitas e boas da minha vida, no sótão desarrumado e poeirento das minhas memórias. Entre as coisas que guardo com carinho. 

A imagem que vejo, porém, não é daquele involucro quebrado e triste, mas do homem que sempre foste, lutador e vencedor, ainda que a duras penas. Foste sempre o meu herói. Mesmo naquela idade estupida em que achamos que sabemos tudo, lembras-te que muitas vezes procurei o teu conselho... ainda que não vezes suficientes.

Mesmo quando eu estava longe, sabia onde estavas e isso era um conforto para mim, no meu egoísmo. 

É verdade que não falamos as vezes que merecias, nem as que eu gostaria, muito menos as que deveria. Mas os nossos olhos falavam muito e a minha ligação contigo sempre foi muito de poucas palavras, porque o amor não se fala nem se escreve, sente-se. E eu sinto.

Sinto a tua falta, tenho saudades de ti e da tua voz, mas não o quero dizer.

Também no dia em que te foste eu estava ausente. Tive uma noite agitada e confusa, onde tu e a tua situação não saiam dos meus sonhos, até à hora em que, naquela manha de verão, me telefonaram a dar as piores notícias. Sei, por isso, que tive lugar nos teus últimos pensamentos, que não duvido foram de amor para a tua mulher e teus filhos.

Gostava porém de te ter ouvido uma última vez, a mentir-me, a dizer que ia ficar tudo bem.