A chegada de Daqueles Além Marão

Publicado em 2017, deveria ter sido lançado por uma editora pela obtenção do primeiro lugar num concurso.

Capa de Terras de Xisto e Outras Histórias

Um livro de contos diversos onde circunstâncias dramáticas obrigam os personagens a contrariar a sua própria natureza.

Capa de Lágrimas no Rio

A pacata aldeia de São Cristóvão do Covelo sofre um terrivel cataclismo que vai revelar forças estranhas.

A Amazon apoia a publicação independente

Todos os meus livros são publicados pela Amazon de forma independente e não exploradora. Estão à venda em todo o mundo.

A família de livros "Debaixo dos Céus" continua a crescer desde 2015

Desde a publicação de "Terras de Xisto" em 2015 até "Entre o Preto e o Branco" em 2020, vão milhares e milhares de palavras escritas.

A capa de Daqueles Além Marão

Os contos aqui incluídos têm todos protagonistas transmontanos. A capa escolhida é feita a partir dos azulejos da estação ferroviária do Pinhão, na linha do Douro.

A chegada de Terras de Xisto e Outras Histórias

Foi emocionante a entrega destes livros, os primeiros publicados em exclusivo com o meu nome.

A chegada de Lágrimas no Rio

As primeiras apresentações que fiz foram desta obra.

A capa de Entre o Preto e o Branco

A primeira capa 100% desenhada por mim, com recurso a uma foto royalty free.

A chegada de Entre o Preto e o Branco

Como das vezes anteriores, quando chegou a primeira remessa já estava toda vendida.

quinta-feira, 29 de julho de 2021

Brindemos a Laurinda

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Photo by Tembela Bohle from Pexels

Naquela tarde de agosto, André caminhava apressadamente pelo passeio largo, ao lado da rua movimentada. Já há muito não passava por ali, mas só arranjara estacionamento longe do local onde se dirigia e estava a cortar caminho.

Junto das mesas da esplanada de uma confeitaria, um dos clientes agarrou-lhe o braço. Olhou-o com surpresa e irritação, mas logo o seu rosto se transformou:

— Filipe?!? — Exibiu um sorriso rasgado e abraçou o outro assim que ele se ergueu. —Que andas a fazer por aqui?

— Tive de voltar para tratar da venda da casa. — Fez-lhe um gesto de convite e ambos se sentaram. — Há quase um ano que estava fechada e como não faço tenções de voltar a viver lá… melhor vender do que deixá-la estragar-se.

— De certa forma tens razão. — Concordou André. — Mas não esperava nada ver-te e confesso, já tinha saudades tuas.

— Eu também. Temos de nos encontrar mais vezes, marcar uma data no mês, sei lá. — Ele fez aquele ar de comprometido de quem faz uma promessa que não pensa cumprir. — Afinal, estou a menos de trinta quilómetros daqui, é um instante.

— E escolheste logo esta confeitaria… — André fez um gesto a abarcar o conjunto das mesas e cadeiras.

— Foi de propósito. — Confessou Filipe. — Fez parte da melancolia que me atingiu assim que cheguei.

— Eu nunca mais voltei cá… desde que aquilo aconteceu. Mas fizemos bem em nos mantermo-nos separados. — André baixou os olhos, enquanto o empregado do estabelecimento trazia as bebidas que pediram.

— Não sei porquê. — Cortou Filipe, assim que o empregado se afastou. — Somos irmãos, qual é o problema de sermos vistos juntos? Não é natural? — O outro manteve o olhar no chão, enquanto ele se inclinava para mais proximidade. — Não íamos sempre de férias juntos? Mesmo antes dela?

André brincou com as mãos sobre o tampo da mesa, antes de pegar na caneca de cerveja e beber dois ruidosos tragos. Como que para engolir algo que se lhe prendera na garganta.

— Ela era maravilhosa… — Elogiou ao pousar a caneca, com os olhos perdidos nas marcas da mesa metálica. — Tão linda e meiga, sempre pronta a satisfazer as mais loucas fantasias.

— Sim e manipuladora e intriguista. Que reagia mal, quando não conseguia o que queria. — Cortou Filipe rudemente, antes de dulcificar também o seu tom. — Mas quem conseguia recusar-lhe fosse o que fosse quando ela fazia aquele beicinho e os olhinhos tristes.

— Foste um bocado canalha, ao envolver-te com ela! — Censurou André com secura, antes de meter os lábios de novo à caneca. — A mulher do teu próprio irmão…

— Mas que queres? Tão bonita, tão querida, tão… disponível.

— Porque é que havíamos de ter ido para o Gerês. — Como que se autocensurou André. — Para aquele bangalô no meio de nenhures.

— Exatamente para aquilo que fomos! — Esclareceu Filipe! — Para bebermos, para nos rirmos, divertirmo-nos, em suma! E nós fizemo-lo!

— Meus Deus! — Reconheceu André. — Bebedeiras de caixão à cova até de madrugada, depois dormir e acordar já de tarde para beber mais… bolas, que parvalheira… depois, tu e ela…

— Quando me apercebi, ela já estava agarrada a mim aos beijos e a abrir-me a breguilha. — Confessou Filipe. — Mas tu até te rias, não parecias importar-te e acabamos por fazê-lo ali mesmo no sofá. À tua frente. — Agora era ele quem firmava os olhos no tampo da mesa a recordar toda a história. — Quando acabamos, ela foi para o pé de ti, decidida a continuar contigo o que começara. Eu levantei-me para ir à casa de banho e ouvi-vos discutir…

— … eu estava tão bêbado… — Reconheceu André. — …não me estava a incomodar nada que ela tivesse feito amor contigo. Mas, quando veio para junto de mim, o cheiro de sexo recente, sabê-la suja por alguém que não eu…

— Adormeci no meu quarto, quando tudo ficou em silêncio. — Continuou Filipe. — Quando me levantei de manhã, tu ressonavas no sofá e ela estava no chão, nua, enrolada sobre ela própria.

— Discutimos muito… — Esclareceu André. — Estávamos abraçados, mesmo assim, mas ela tentou soltar-se e eu apertei-a, ela deu-me uma cabeçada e eu esbofeteei-a e empurrei-a… era geniosa, mas pouco musculada, apesar das corridas que fazia.

— És um bruto! — Censurou o outro, com um gesto de desagrado. — Cala-te não fales mais nada.

— A culpa foi dela! Atirou-me com o cinzeiro e eu apanhei-o e atirei-lho de volta. Acertou-lhe na cabeça, ela gritou, insultou-me e depois deitou-se ali a chorar… não achei que fosse muito grave…

— Agora cala-te! — Insistiu Filipe em voz baixa e olhando em volta, preocupado.

— Se não fosses tu… — Continuou o assassino. — … a ideia de lhe vestir o equipamento de corrida, atirá-la da ravina e chamar socorro porque ela saíra para correr e não regressara… o pior foi a polícia a investigar e as custas da recuperação do corpo.

— Que até ficou barato, comparado com a perspetiva de uma boa temporada na cadeia, não achas? — Comparou o irmão, num sussurro.

— Sim, claro, mas ainda penso muito nela… — Duas grossas lágrimas soltaram-se dos olhos de André. — … eu amava-a muito, sabes?

— Agora esquece! — Ordenou Filipe, enquanto erguia a caneca e elevava os olhos ao céu. — Brindemos a Laurinda, um sonho de mulher bela e maravilhosa! — Depois de tilintar a vasilha com a do irmão, bebeu dois largos tragos e concluiu: — Agora, temos de arranjar outra!

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Um Grande Orgulho



Foi com alguma surpresa, que recentemente me veio ter às mãos um exemplar do jornal semanal "O Gaiense" que conta já com dezoito anos de publicações e segundo a sua própria designação é "um projecto de informação centralizado no concelho de Vila Nova de Gaia e, por via disso, atento ao desenvolvimento social, político, religioso e desportivo do concelho".
Ao folhear as suas páginas, deparei com a razão pela qual me mostraram esta publicação especificamente: mais ou menos a meio, havia um enorme artigo de duas páginas intitulado "Será Gaia uma cidade de cultura inteligente?" assinado pela minha sobrinha Beatriz Mendonça.


Ao longo dessas duas páginas, numa abordagem bastante profissional e inteligente, além de detalhes de uma conversa com a vereadora da cultura, a Beatriz fala-nos de alguns dos marcos culturais da cidade e trazendo á luz detalhes pouco conhecidos desses sítios. Termina convidando-nos para uma visita à sua cidade natal, de que obviamente muito se orgulha.
Mas não se fica por aí a sua participação nesta publicação; umas páginas à frente, encontramos novo artigo, desta feita sobre outra das suas paixões, a música.
Neste artigo, a Beatriz fala-nos do "GARBAND Music Fest" um grande projeto de divulgação da música menos conhecida que se faz por este Portugal onde só se conhecem os "consagrados" ou os que conseguem chegar aos concursos como os "Idolos", "Got Talent" e outros que tais. Não há nada melhor do que fazer o que se gosta e ela mostra-nos isso mesmo ao informar-nos da existência deste projeto apadrinhado pelo Centro Recreativo de Mafamude com base na ideia original do meu irmão, pai da Beatriz, Luís Mendonça.
Esta ideia surge após a apresentação ao público do grupo "Cave 44", do qual é parte integrante como vocalista, no Centro Recreativo atrás referido.


Uma vez mais, de forma simples mas prazerosa, conta-nos em que consiste o projeto GARBAND e o que se espera dele. É de louvar, não só a atitude destes jovens, mas principalmente a da instituição que tão bem os apoia. A maior parte das organizações ditas culturais existem apenas para projetos que contemplam personagens específicos, porque são "feitas de encomenda", ou de entidades consagradas, porque dá menos trabalho. Parabéns ao CRM.


A doce Beatriz, começa a despontar e a menina, bem comportada e tímida, começa a mostrar-se e a revelar as capacidades tão bem moldadas e acarinhadas pelos pais e pelos avós.


Tenho tido o grande privilégio de ter a sua voz suave e aconchegante nas apresentações dos meus livros e é com um grande orgulho, que vejo a minha menina crescer e com muitos e bons caminhos possíveis à sua frente, saída de uma infância comoda e feliz. Voa alto, querida Beatriz, que o sol te seja sempre brilhante e ameno e as inevitáveis tempestades, curtas e pouco penosas.

2017 - Casa Regional dos Transmontanos do Porto - Apresentação "Daqueles Além Marão"

2017 - Café Luso-Brasileiro - Apresentação "Daqueles Além Marão"

2017 - CITICA - Carrazeda de Ansiães - Apresentação de "Daqueles Além Marão"

2016 - CITICA - Carrazeda de Ansiães - Apresentação de "Lágrimas no Rio"

2016 - ISLA - Vila Nova de Gaia - Apresentação de "Lágrimas no Rio"

Graças à sua presença constante, tenho tido a grande honra de conhecer outras pessoas fantásticas como o Eduardo SousaMiguel Caldas e o Carlos Magano que foram incansáveis, na componente musical destas apresentações.



Tal como a minha muito querida Beatriz, também eu tenho imenso a agradecer aos seus pais, o meu irmão Luís e a minha cunhada Susana, pelo suporte incondicional todos estes anos. Depois do meu filho Miguel e da minha esposa Delmina, são eles os três o meu suporte e o incentivo da minha modesta carreira na escrita.
Como eu costumo dizer, os amigos, nós podemos escolher, mas a família, essa é-nos oferecida para o bem ou para o mal e eu considero-me abençoado por Deus pelas as Suas ofertas.





 

terça-feira, 29 de junho de 2021

Idiossincrasia

 


Image by Gerd Altmann from Pixabay 

— Sim, ouviu bem. Peço desculpa! — Humberto mostrava-se verdadeiramente contristado a falar com o Inácio, quando se encontraram casualmente ao sair do bloco de apartamentos onde ambos residiam. — Por toda a razão do mundo que eu pudesse ter, nada me dava o direito de falar consigo da forma como falei.

Ele estava consciente da expressão apatetada de Inácio, de quem era vizinho vai para dez anos, que não sabia como reagir a esta sua nova atitude completamente discordante da que sempre lhe conhecera.

 Como a maior parte dos habitantes de prédios, conheciam-se mais ou menos superficialmente, fruto de contactos esporádicos em reuniões de condomínio, ou na frequência das áreas comuns do edifício, como as garagens, átrios, escadas ou elevadores. A relação entre ambos, porém, sempre fora tensa e desagradável, devido ao péssimo feitio de Humberto, que explodia ao mínimo contratempo e partia para o insulto pessoal e a ameaça física. Não era, de resto, apenas com Inácio esta atitude, a fama dele alargava-se a todo o bloco… e à maior parte dos locais frequentados por ele.

— Mas que se passa consigo? — Interrogou o baixo e anafado vizinho, entre o receoso e o divertido. — Está doente? Alguma doença em fase terminal?

— Não, Graças a Deus que não… penso eu. — Humberto sorriu, para maior espanto do interlocutor. — Apenas estou a pôr a mão na consciência e a perceber que não tenho agido bem consigo estes anos todos e, principalmente ontem, quando discutimos por causa do seu cão a ladrar no corredor quando você entrava em casa. O barulho incomoda-me e peço-lhe por favor que evite que o animal o faça naquele local onde ecoa imenso. Tenha um bom dia.

Com estas palavras, voltou-lhe as costas e caminhou pelo passeio, deixando o vizinho olhando-o assombrado, segurando a porta da entrada com uma mão e o saco de papel da padaria na outra.

Humberto tinha consciência do seu péssimo feitio e muitas das vezes arrependia-se, algumas horas depois, das coisas que dizia ou fazia. Mas o simples relembrar da situação, trazia de volta o azedume e acabava por rematar com um sentenciador “Foi-lhe bem feita!”

Não era nenhum “hércules”. Nos seus quarenta e muitos anos, sempre fora magro, alto e seco de carnes; era a violência latente nas suas palavras e gestos, aliada à transfiguração instantânea de uma pessoa educada noutra sem qualquer filtro, que surpreendia e deixava sem reação as “suas vítimas”. Não poucas vezes, se vira envolvido em trocas de socos com alguns objetos da sua raiva, menos preparados ou educados, ou que simplesmente não aceitaram ser desaforados de ânimo leve. A coisa resolvia-se em poucos segundos; ou ficava-se, ou os presentes envolviam-se e separavam os contendores, permitindo-lhe manter a face (intacta).

A sua existência decorria num mundo onde as pessoas pareciam fazer fila para o desfeitear, desprezar, ou simplesmente aborrecer e ele fazia questão de se manifestar ruidosa e odiosamente, sempre que tal acontecia. Mesmo no emprego, a maior parte dos colegas de trabalho, temiam-no ou evitavam-no, apesar de lhe reconhecerem a diligência e eficiência profissionais. A grande exceção era Lucília, sua mulher, que conhecera nesse mesmo emprego e com quem casara, rendido aos seus encantos e à surpreendente capacidade de dulcificar o seu comportamento. Apenas a ela aquiescia quando censurado e só a ela reconhecia o seu problema. Após a violenta discussão com Inácio na noite anterior, Lucília, cansada e envergonhada dos problemas com os vizinhos, repreendeu-o asperamente e apresentou-lhe um ultimato: Ou ele mudava de atitude, ou ela mudava de casa… sozinha.

Humberto não conseguia conceber a sua existência de regresso à solidão dos tempos antes dela. Quando discutia no emprego, bastava um vislumbre da sua presença, para que o possante dragão que cuspia fogo pelas ventas, se transformasse num dócil cordeiro, ou no mais cordial dos colegas de trabalho. Quando regressava a casa, era como se saísse de um túnel quente, escuro e sujo e entrasse num imenso vale ensolarado, fresco e florido. A sua “fada do lar” recebia-o com o “solvente de mau-humor” que só ela possuía. Por isso, decidiu que aquele dia seria o primeiro do resto da sua vida mais tolerante e afável.

Envolvido nessas doces vibrações, sonhava acordado com a admiração e alegria que esperava ver mais logo nos belos olhos da sua doce Lucília. Ignorou de forma estoica o buzinar insolente do camionista quando se demorou a atravessar a passadeira, não resmungou, como sempre fazia, pelo ruído das motos e deu os bons dias a muitos dos conhecidos, alguns dos quais se imobilizaram no passeio, para confirmar se tinham ouvido bem.

No Pão Quente, não se incomodou pelo facto do funcionário ter atendido primeiro os que estavam sentados, nem por ter três outros clientes à sua frente. Quando chegou à sua vez, sorriu e saudou o empregado, deixando-o ainda mais nervoso e confundido. Quando este pousou o saco de papel com o seu pedido em cima do balcão, um dos pães rodou para o tampo de granito e ele colocou-o rapidamente de volta à embalagem. Humberto estremeceu e arregalou os olhos, corou, mas controlou-se e expeliu ruidosamente o ar do peito.

— Meu caro. — Avisou apaziguadoramente para o jovem funcionário que parara de respirar, pois percebia ter cometido uma falta, embora não soubesse ainda qual. — Esse pãozinho, rolou num balcão duvidosamente limpo e você apanhou-o com a sua mãozinha descuidada, pois a luva ficou ali em cima da prateleira. Importa-se de o substituir?

 Como um foguete e quase em pânico, o rapaz calçou a luva de plástico, pegou novo pão da caixa e trocou-o pelo “conspurcado”. O sorriso condescendente de Humberto estremeceu e desmoronou-se quando, o solícito funcionário, arremessou a unidade recusada para a caixa onde se encontravam os restantes pães para venda.

“Lembra-te, este é o primeiro dia de uma nova vida!” Humberto recomendou para si próprio, quando virou as costas ao balcão onde deixara as moedas para pagamento, sem agradecer nem se despedir. “Pelo menos aquele pão já não será para mim.”

Regressou a casa, satisfeito consigo mesmo, enquanto contornava alguns dejetos canídeos abandonados no passeio. Evitou os seus comentários a meia voz contra os amantes de animais, porcos, ignorantes e menos inteligentes que o seu animal de estimação. Não insultou a criança que quase o atropelou com a bicicleta nem se sentiu incomodado com o cão que o veio farejar, no limite da trela do dono.

Estava realmente um belo dia de primavera, com sol e uma temperatura amena, os pássaros chilreavam nos fios elétricos e nos beirais dos telhados. Tudo para ser feliz, não percebia como podia estar sempre zangado.

Em frente à porta de entrada, com o saco do pão debaixo do braço enquanto procurava a chave no bolso, recebeu sobre o ombro os generosos dejetos de uma das pombas, “que a estúpida da velha do quinto esquerdo insistia em alimentar”. Algumas pingas, perante o olhar escandalizado dele, caíram sobre os alimentos.

Simultaneamente, a porta do prédio abriu-se e de forma intempestiva, Inácio saiu, arrastado pelo enorme e trapalhão Retriever que possuía, quase derrubando Humberto. O saco de papel estatelou-se no chão; pães rolaram pelo passeio em todas as direções.

— Grandessíssima besta! — Explodiu Humberto, descontrolado, apontando o indicador espetado diretamente aos olhos do outro. — Que tens nessa cabeça de balofo gorduroso? Não sabes controlar o “cavalo”? Em qual das pontas da trela está o animal inteligente? Devia de te rebentar essas fuças!

Manuel Amaro Mendonça

sábado, 29 de maio de 2021

Suspenso


— Vai-te depressa, é o meu marido!

A frase chegou-me ao cérebro em uníssono com o som característico de uma chave a ser introduzida numa fechadura.

Saltei na cama, atordoado e fiquei sentado a olhá-la, um pouco incrédulo.

Ela fitou-me com os seus olhos azuis. Duas pérolas refulgentes na obra de arte que era o rosto emoldurado pelo cabelo encaracolado escuro.

Por uns instantes, uns segundos apenas, gelamos, um frente ao outro, soerguidos na cama onde há tão pouco tempo havíamos dado largas à paixão. Os seus peitos alvos e fartos, de mamilos quase invisíveis de tão rosados, subiam e desciam nervosamente, acompanhando o respirar entrecortado.

— Depressa! — O tom sussurrado e suplicante, trouxe-me de volta à realidade em simultâneo com o ruído de passos pesados no corredor.

— Disseste-me que ele não vinha hoje! — Protestei, recolhendo as roupas de cima da poltrona que havia aos pés da cama. Dei graças pelos meus hábitos de, mesmo enlouquecido pelo desejo, amontoar a roupa toda no mesmo sítio.

— Deve ter trocado o serviço, que queres que te faça? — O sussurro irritado insistia na urgência.

— Não seria melhor acabar com isto de uma vez? — Engoli em seco.

— Estás cansado de viver? — A retórica foi suficientemente elucidativa.

Os passos chegaram junto à porta do quarto e o manípulo rodou devagar. Escondi-me na casa de banho, onde sabia que existia uma saída para o corredor e vesti-me rapidamente, no escuro, enquanto espreitava pela frincha da porta. Na penumbra do quarto, consegui divisar o marido; cerca de um metro e noventa de homem, cabelo cortado à escovinha, envergando o uniforme da PSP e ainda com a arma e o cassetete suspensos da cintura.

— Que porra de situação. — Lamentei-me calçando o segundo sapato e observando-o a espreitar a jovem esposa, que se fingia adormecida.

Esgueirei-me para o corredor às escuras e em passos largos e silenciosos, encaminhei-me para a porta de saída do apartamento. Uma manada de cavalos enlouquecidos corria desenfreadamente no meu peito, enquanto tentava, sem sucesso, abrir a porta que fora fechada com a chave.

Conseguia escutar murmúrios do quarto. Devia estar a tentar “acordá-la” para fazer aquilo que tinha feito comigo nas últimas horas… Porque diabos haveria de voltar tão cedo?

Em vão, apalpei no topo da credencia pelas chaves que me permitiriam sair daquela situação…

Os murmúrios terminaram de repente e o corredor iluminou-se com a luz proveniente da casa de banho que eu acabara de abandonar.

Corri para sala e olhei em volta; aquela divisão que conhecia tão bem, onde cada maple e cadeira tinha uma recordação agradável, em busca de um sítio para me esconder. A única coisa que me pareceu mais adequada foi o sofá; com um salto acrobático, consegui literalmente mergulhar para a parte traseira, comprimindo-me o mais que pude entre a parede e as costas.

O som de passos a entrar na sala… a televisão começou a funcionar… o ruído do cinturão a ser pousado na mesa de apoio e um peso brutal caiu sobre o sofá, esmagando-me ainda mais. Quase não consegui suster um gemido.

Deixei-me ficar, naquela posição tremendamente incómoda, enquanto ouvia a sessão de zapping a decorrer. Ao fim do que me pareceu uma eternidade, levantou-se novamente, dando descanso às minhas dilaceradas costelas e ouvi os passos que se dirigiam à cozinha.

Aproveitei a oportunidade e corri para a varanda, cuja porta abri muito devagar e passei para o exterior… não consegui tornar a encostar a corrediça, que me pareceu ficar presa em qualquer coisa.

Corria uma aragem fria do fim do verão… o céu sem estrelas era providencial e espreitei para a rua… quatro andares abaixo. Lembrei-me naquela altura que, de futuro, deveria incluir, como requisitos na minha lista de escolhas femininas, aquelas que vivessem no rés-do-chão, vá lá, no máximo primeiro andar… e que os maridos não fossem polícias, ou qualquer tipo de agente que incluísse armas.

Eu estava a ficar gelado rapidamente. Na sala, o homem retomara o zapping e de repente, olhou na minha direção, para a porta mal fechada, de onde devia estar a sentir corrente de ar. Ergueu-se e começou a experimentar a corrediça para verificar porque encravava, vi a sua perna sair para a varanda e era óbvio que teria de passar à próxima e ainda mais assustadora tática de esconderijo: debrucei-me sobre a balaustrada e fiquei suspenso no vazio, agarrado aos ferros.

O coração parecia querer saltar-me pela boca. Sentia o corpo todo tremer descontroladamente, sabendo que não aguentaria muito tempo assim. Abaixo de mim, ligeiramente desalinhada de uma eventual trajetória descendente, via a varanda do terceiro piso… conseguira saltar para ali? E depois para a seguinte? Dei graças por não haver ninguém na rua.

Escutei o ruído do isqueiro e a longa baforada que se seguiu… as mãos começavam a doer… se eu o enfrentasse, ele contentar-se-ia com uns socos ou… o mais certo era atirar-me da varanda ou dar-me um tiro… choraminguei silenciosamente a minha estupidez por me ter arrastado para aquela situação.

Estava a achar que não aguentava muito mais, quando vi o morrão do cigarro a voar para a rua, numa trajetória que me pareceu eterna, até ressaltar em pequenas faúlhas no asfalto. A porta da varanda fechou-se.

Tentei regressar à placa salvadora, mas os meus braços não tinham força para erguer o peso do corpo. Com os pés, tateei freneticamente em busca de algo que me apoiasse um pouco e facilitasse a tarefa. Os dedos estavam a fraquejar e iriam falhar a todo o momento. Olhei de novo a varanda abaixo de mim. Tinha de ser! Baloucei-me e larguei os ferros, lançando-me no vazio. Falhei a balaustrada abaixo de mim por uns milímetros e com os braços agitando freneticamente numa vã tentativa de  me agarrar, entrei numa queda silenciosa e interminável.

Saltei na cama, sufocado e encharcado em suor.



quinta-feira, 29 de abril de 2021

O Teu Brilho Esta Noite



Estava uma noite serena e morna. Pequenos diamantes refulgiam sobre o puro veludo negro da noite, guardando a descomunal lua de prata, que pairava sobre a paisagem. O ambiente ideal para meditar ou sonhar, naquele terraço do hotel, com vista sobre a cidade de luzes douradas na margem contrária do rio. A perturbar tão idílico ambiente, estava o som de fundo de vozes, risos e copos a tilintar. O homem de estatura média, cabelo escuro e barba aparada, segurando o copo com o líquido dourado e reluzente, preferia o silêncio da noite estival, à animação que decorria nas suas costas.

André, assim se chamava, ponderara muito, antes de aceitar comparecer àquela festa, especialmente aquela. Perdera o hábito de frequentar tais convívios e transformara-se num autêntico eremita. Desperdiçara mais de três anos, numa embriaguez permanente, enquanto escrevia crónicas com língua viperina, para as revistas “cor-de-rosa”. Meses de recuperação alcoólica, disseram-lhe que não poderia viver daquela maneira e afastou-se do gin e da sociedade. Em vão recebia convites de conhecidos, para que fosse a este ou aquele convívio, na esperança de serem contemplados, para o bem ou para o mal, num dos artigos que repentinamente deixaram de jorrar da sua caneta. Desaparecera do mundo, refugiara-se no seu apartamento e num contrato com uma revista, a escrever o que lhe pediam. Na verdade, fora mais do que um problema alcoólico a afastá-lo da sociedade; havia aquela mulher, que não via há uns anos e que lhe deixara um vazio imenso, a mesma cuja eventual presença o fizera aceitar este convite. Sofia, era a mulher que nunca conseguiu esquecer, talvez por ser a única que não se deixou prender na sua teia depressiva e resolveu seguir em frente, antes que ele a deixasse.

Apreciou o copo quase vazio, sabendo perfeitamente que não deveria ter aceitado aquela bebida e ponderou deitar o resto no canteiro ali ao lado. Decidiu-se por não desperdiçar aquela fuga à sua disciplina e esgotou o conteúdo do copo, inclinando despudoradamente a cabeça para trás, para não perder nem uma gota. Tendo consciência dos efeitos do álcool no seu já destreinado organismo, olhou em volta em busca de um local onde pousar o recipiente esgotado e foi quando a viu.

Atravessando uma das enormes portas que davam acesso ao terraço e olhando em volta, como se procurasse alguém, ali estava Sofia; trazia um vestido preto sem alças que contornava os peitos e acentuava a sua cintura fina, continuando numa saia que abria num gracioso leque terminada por um rendilhado preto sobre o joelho. Nos pés, calçava sapatos também negros, onde reluziam alguns brilhantes em volta do tornozelo. Mas era o seu cabelo acobreado escuro, natural, solto e luxuriante, envolvendo o rosto de linhas firmes e nariz aquilino, que faziam com que não se conseguisse tirar os olhos dela. O seu sorriso, enquanto cumprimentava os conhecidos, continuava deslumbrante e toda ela irradiava luz, ofuscando a própria iluminação artificial.

Quando ela o viu, foi como se uma nuvem tapasse o sol e o resplandecente sorriso transformou o belo rosto com um ar preocupado e triste. Ele apercebeu-se que estava sem respirar e soltou um suspiro involuntário, enquanto o copo tremeu ligeiramente na sua mão.

— Olá, André. — A voz quente envolveu-o, assim que ela se aproximou em passos calculados para que a sua passagem fosse notada. — Há muito que não te via… estás mais magro. Fica-te bem!

— Em compensação, tu estás cada vez mais bonita. Parabéns. Continuas a atrair os olhos de toda a gente… — ele aproximou o rosto do dela para um cândido beijo, enquanto sussurrava — … homens e mulheres.

— Vejo que continuas a ser um comentador acutilante. — Ela sorriu, sem corresponder ao beijo, mas sem se afastar. — Fico feliz por aceitares o meu convite. Vai ser agora que me vais brindar com umas linhas num dos teus artigos de gosto duvidoso, naquela revista execrável?

— A revista execrável paga-me o ordenado, sem ter de arriscar a vida nas guerras deste mundo, como fazia antes… fazíamos. — André encostou-se à balaustrada da varanda e cruzou os braços sobre o peito, sem soltar o copo vazio. — De resto, não fui o único a procurar uma “atividade” mais segura e rentável, deves recordar-te porque me tornei um “vampiro dos costumes”.

— “Touché.” — Reconheceu Sofia com um sorriso maroto. — Penso que estás a definir o meu casamento com um rico industrial da hotelaria como uma “atividade segura e rentável”. Já sei que ninguém consegue esgrimir palavras contigo sem sofrer uma estocada mortal.

— Ambos trocamos um jornalismo de ação… por atividades diferentes. — Ele retribuiu o sorriso e a ironia. — Por mim, teve de ser mesmo assim; os industriais da hotelaria nunca quiseram nada comigo, apenas os editores de revistas execráveis… pelo menos também não tenho de dormir com nenhum. Mas descansa — continuou — nunca escreveria nada sobre ti… pelo menos de mal e o tipo de matéria que eventualmente sairia, não interessa aos meus patrões.

— Fico feliz que assim seja. — Ela pousou suavemente uma mão sobre a dele, num gesto de uma cumplicidade antiga, que o fez estremecer. — Espero que essa trégua abranja o meu futuro marido.

— Não há aqui nenhuma trégua, para isso teria de haver uma guerra, não te parece? — André endireitou-se enquanto tentava, sem sucesso, agarrar a mão dela que recuava.

— Oh, mas há, meu querido. — Ela cruzou candidamente as mãos sobre o ventre. — Uma guerra fria! Há quase dez anos que tens os misseis apontados na minha direção, à espera de uma “causam belli”.

— Não é verdade. Nunca estive zangado contigo… — defendeu-se ele. — … apenas desiludido. Aproveitares a minha reportagem para surgires de repente com o fim da tua carreira ao lado desse… palhaço.

— Eu?!? Aproveitei a tua reportagem? — Ela soltou uma gargalhada nervosa e cínica. — Depois de te pedir encarecidamente que não fosses… estiveste fora um ano!

— Foi complicado… — Ele acalmou-se perturbado pelas recordações. — Fui sequestrado e…

— Bem sei! — Sofia atirou com irritação. — Segui cada notícia, contactei todos os que conhecia, chateei, persegui um secretário de estado, para que se interessassem pelo teu problema. — Perante o olhar de espanto dele, ela fez uma careta cínica. — Achas que te libertaram pelos teus lindos olhos? Ou pelo teu talento jornalístico?

— Não sabia…

— Bem sei que não! Pedi que não dissessem. — Ela volveu o olhar ao chão. — Também não deves saber que abortei três meses após a tua partida…

— Meu Deus! — O espanto de André dizia tudo. — Que aconteceu? O nosso filho, estavas grávida?

— Quando te foste também ainda não sabia. Não sei o que foi, alguma incompatibilidade, deficiência, stress, sei lá. Agora também não interessa, não quero falar disso. — Sofia falou rapidamente enquanto atirava tudo para trás, com um gesto e uma expressão triste. — Isto não está a correr nada como eu esperava. Queria que ficássemos amigos, tenho saudades das nossas conversas…

— Só das conversas? — Ele baixou a cabeça para lhe poder ver os olhos verdes que lhe devolveram o olhar nervosamente. — Nunca deixei de te amar…

— Meu querido. — Sofia ergueu a cabeça, endireitou os ombros e deu um passo atrás. — O que foi não volta a ser! Estou casada e feliz há dez anos. Gosto muito de ti e gostava muito que fossemos amigos, mas só isso.

— Que esperavas? Que festejasse contigo? — André enfureceu-se. — Regresso de uma das piores experiências da minha vida para encontrar a mulher com que amava casada com o playboy dos hotéis!

— E que esperavas tu? — Por uns instantes os olhos dela faiscaram de raiva. — Foste embora na altura em que mais precisava de ti, porque a tua carreira, ou o teu desejo de morte, era mais forte! Preferias a adrenalina de arriscar a vida nas reportagens dos conflitos, do que a alternativa de uma existência medíocre de classe média… ao meu lado. — O rosto suavizou-se e acariciou-lhe ternamente a face. — Acabaste por deixar tudo na mesma, para te tornares ainda mais amargo, do que já eras em tempos de paz.

— Vem comigo! — Pediu André tentando segurar a mão gelada que lhe acariciava a face. — Deixa tudo isto, as luzes, a riqueza desse homem que não vale nada. Sabes que o negócio dos hotéis é a capa para a venda de armas nos conflitos, por isso nos encontrávamos os três, muitas vezes, durante o nosso trabalho.

— Também nós e tu mais do que eu, vivemos desses mesmos conflitos. — Ela puxou a mão suavemente. — Por mim já tinha demasiado tempo, suja de terra nos campos de batalha, ou nos hotéis bombardeados, sempre à espera que o meu quarto fosso próximo atingido e pedia que, quando o fosse, atingisse em cheio e não me deixasse estropiada ou a sofrer. — Sofia pousou os olhos no chão. — Chama-me fútil, mas estou numa vida cómoda rodeada pelo luxo e tudo o mais que quiser. Não vou retroceder.

André fitou a mulher com estranheza, como se a visse pela primeira vez. Aquela não era a sua antiga companheira, aquela que partilhou o perigo com ele, em mais de uma dezena de conflitos por esse mundo fora. Que tivera nos seus braços, escondidos entre os escombros, durante os bombardeamentos. Não era a mulher que tirara fotos fantásticas que ilustraram os seus relatórios apaixonantes e que fizeram as páginas principais de revistas e jornais. Afinal, também ele já não era o repórter de guerra, mas sim um frívolo cronista, mais ocupado com quem dorme com quem na sociedade. Já não contava histórias de morte e paixão pela liberdade, mas sim os podres da existência humana em tempos de paz, vivida às custas de outras guerras.

— Este senhor está a incomodar-te, querida? — Ao lado dela apareceu um homem, ligeiramente mais baixo, praticamente careca, mas impecavelmente vestido com um fato de corte moderno. — Queres que chame os seguranças? — Exibiu um sorriso de superioridade, enquanto abraçava a mulher pela cintura. — Como estás, André? Quem é a “vítima” do teu desprezo pela sociedade esta noite? Espero que não a minha doce Sofia.

— Já a descansei a ela e descanso-te a ti também, meu caro Ricardo. — Respondeu o visado erguendo o copo vazio à guisa de um brinde. — Façamos desta noite, uma noite de paz e… tréguas.

— Ah, a guerra fria! — O outro fingiu um olhar sonhador e divertido. — Em tempos de paz, prepara-te para a guerra! Há que armazenar mais e mais armas!

 — Graças a isso, há quem enriqueça mais e mais, sobre armazéns de armas, ou pilhas de cadáveres! — Atirou André amargamente, fazendo com que Sofia arregalasse os olhos num aviso.

— Acutilância! — Divertido, Ricardo piscou um olho e apontou o indicador ao outro, numa expressão marota. — Em todos os conflitos, ganha quem tiver mais recursos! É uma lei da vida! — Apertou mais e agitou significativamente a cinta de Sofia. — Julguei que tivesses aprendido alguma coisa nos anos de guerra que ambos vivemos. — O sorriso desapareceu rapidamente enquanto olhava para a mulher. — Temos de ir, querida, o presidente da câmara está ansioso por te conhecer. — Depois tornou para André. — Aprecia o melhor que puderes desta festa. Sei que o tema não te agrada, mas enfim, quando não podemos caçar, comemos do que nos dão!

Sofia deixou que Ricardo a puxasse suavemente, deitando apenas um último olhar contristado ao antigo companheiro.

André ficou ali, encostado na balaustrada, vendo os dois afastarem-se, dividido entre o olhar triste de Sofia e o sorriso triunfante de Ricardo. Com ela, ia-se o sol embora de vez e repousava sobre os seus ombros uma noite eterna e fria, que teria de passar sem a mulher que amava.

— Aproveitemos o que nos dão, enquanto se dissipa o brilho de Sofia! — Concluiu para si próprio, afastando-se da parede e caminhando lentamente para o salão. —  Preciso de uma boa bebida, para tirar este sabor amargo da garganta.


domingo, 11 de abril de 2021

Revista Divulga Escritor - Abril 2021

 


    Já saiu a revista Divulga Escritor de abril 2021. Pela segunda edição consecutiva, as homenagens ao meu amigo e editor, desaparecido recentemente, aparecem pela voz de quem o conheceu, pessoalmente ou à distância. Todos os que, de alguma forma, contactaram com o Isidro Sousa, não ficaram indiferentes e reconheceram-lhe muitas qualidades e vontade de singrar na vida. O seu inesperado desaparecimento, chocou e continua a chocar a comunidade de escritores que com ele convivia.





    Também nesta edição foi publicado um dos meus contos: "Expiação" que pode ser lido na integra neste blogue ou na própria revista.



    Se pretender ler a revista Divulga Escritor de abril na totalidade, basta clicar aqui.


Boas leituras


segunda-feira, 29 de março de 2021

Os Anjos Têm Olhos Azuis (Republicação 2016)


No princípio tudo estava escuro. Pequenos pontos de luz, quase como estrelas, viam-se ao longe. Estaria a ver o céu? Estaria deitado num prado relvado numa noite estrelada de verão? Algumas “estrelas” moviam-se lentamente e outras com mais velocidade… mas moviam-se sem dúvida. Estrelas cadentes? Tantas? O universo estava definitivamente vivo!
O negrume intimidador parecia até convidativo, sentia vontade de se juntar àquela dança de estrelas, de ser uma delas a vogar na imensidão. Sentia isso, mas não percebia o que sentia mais, havia uma leveza, uma ausência de algo… O seu corpo; percebia que mandava comandos aos dedos e depois aos braços e às pernas, mas não sabia se eram executados. Na escuridão absoluta, mexia os braços e as pernas e não tocava em nada. Não, não estava deitado no prado verdejante, antes flutuava naquela matéria escura, longe das estrelas. Flutuava? Caía! Uma sensação de terror percorreu o corpo que não sentia e arrepiou os pelos do pescoço que não sabia se estavam lá.
Agora estava… no fundo do mar? A sua visão ondulava, como que debaixo de água e havia pequenas fitas verdes, que partiam do chão coberto de seixos e areia dourada, agitavam-se, tentando libertar-se e fugir para a superfície. Vendo-as de perto, parecia distinguir rostos que apareciam e desapareciam em expressões de angustia ou simplesmente desespero. Por entre as fitas, passavam por vezes corpos escuros, como golfinhos luzidios e sorridentes, flutuando, nadando?
“Isabel?” O pensamento pareceu ganhar forma e solidez e como as sombras escuras, nadou para longe. Mas o que quer que fosse que o fez pensar naquele nome, não se fora embora e o rosto dela acudiu-lhe à memória, dolorosamente.
Uma das sombras escuras pareceu imobilizar-se à distância e observa-lo, por entre as ondulantes fitas verdes. Depois, nadou decididamente na sua direção enquanto se metamorfoseava numa mulher, de cabelos escuros e esvoaçantes. O corpo coberto por um diáfano vestido branco, ocultava-lhe os pés, que agora caminhavam. Toda ela era em tons de cinzento, sobressaindo da tonalidade azulada das águas e do verde das fitas entre eles.
“Luís.” A voz quente ecoou-lhe na privacidade dos seus pensamentos. “Vieste!”
“Como poderia não vir?” Ele achava que tinha lágrimas nos olhos, se eles existissem.
“Não devias!” A voz que o acariciava, repreendia-o. “Fiz-te muito mal, deixei-te...”
“Disse-te que o meu amor estava para além de tudo. Não podia deixar de vir.”
Ela “flutuou” em volta dele fazendo-o rodar sobre si próprio e reluzir fracamente, como um holograma. Encostou o nariz ao dele, focando os expressivos e brilhantes olhos azuis, a única parte que parecia manter-se colorida nela.
“Os teus olhos… tão azuis!” Ele suspirou mentalmente.
“Já eram azuis, assim continuam.” Ela afirmou pragmática.
“Todos os anjos têm olhos azuis?” Era mais um pensamento do que propriamente uma pergunta.
“Porque achas que sou um anjo?” Havia divertimento na interrogação.
“És bela como um anjo, flutuas… tens olhos azuis...”
“A beleza, é a dos teus olhos. Aqui somos todos iguais: simples sombras acinzentadas, vagueando numa tristeza morna. Libertos da prisão do corpo, mas presos numa decisão precipitada. São os teus olhos que me veem com amor e constroem aquilo que não se vê… como podiam os olhos serem azuis, num mundo onde o cinzento reina?”
“Mas há os teus olhos, azuis, as fitas verdes que se querem libertar do chão de areias douradas. A própria água é um azulado cristalino!” Ele contrapôs.
O rosto dela mascarou-se de uma tristeza momentânea, antes de brilhar novamente com esperança. Ergueu lentamente uma mão que usou para acariciar com suavidade o rosto de Luís, que se tornou sólido para receber o afago. E ele sentiu aquele toque suave e meigo, embora sem calor, mas igual a tantos outros, há tantos milhares de anos atrás.
“És um anjo sim!” Concluiu ele, de olhos fechados, com um sorriso beatífico. “Agora estou feliz.”
“Também estou feliz por te ver.” Os lábios finos dela arredondavam-se num sorriso subtil, mas os olhos tremiam numa tristeza profunda. “Fiz-te muito mal e gostava de te poder compensar… não sei se alguma vez conseguirei… Fiquei feliz por te ver, mas não pode ser assim!”
“Que dizes?” Todo o corpo dele começava a adquirir uma solidez igual à dela e os dois seres, cinzentos, flutuavam um em frente ao outro, de mãos dadas.
“Não pode ser assim.” Ela repetiu, afastando o azul dos olhos para se perderem no horizonte. “Ainda não é hora! Não podemos ficar juntos.”
“Porquê? O que se passa?” Havia alarme nos pensamentos fazendo tremeluzir as águas, pressentindo o desequilíbrio.
“Não é hora, simplesmente.” Ela soltou as mãos dele e afastou-se uns centímetros. “Tens de ir!”
“Não quero!” Ele insistiu, o corpo cintilando entre desvanecer-se e agrupar-se num corpo quase sólido.
O rosto dela endureceu por uns segundos mas rapidamente voltou a máscara do amor e os seus lábios estreitaram-se num beijo. No segundo seguinte, empurrou-o com violência e imprimiu forte o pensamento: “Vai!”
Foi de um salto só que ele caiu da banheira, de joelhos sobre o tapete da casa de banho, completamente encharcado e nu.
Chorando de dor e saudade, vomitou golfadas de água e comprimidos mal digeridos.