sábado, 29 de outubro de 2022

O Ataque

 

Na Madrugada dos Tempos – Parte 3   

O justo se alegrará quando vir a vingança; lavará os seus pés no sangue do ímpio.

Salmos 58:10

 

— Então? — A voz de Zia, companheira de Erem, trouxe-o de volta à realidade. O rosto dela, uma pequena mancha de lama branca emoldurada pela enorme cabeleira negra, estava irreconhecível. Ela insistiu batendo com o cabo da lança no chão. — É agora ou nunca, temos de aproveitar que estão ainda a dormir.

— Eu sei. — Erem estava reticente. — Não sabemos quantos estão ali, pergunto-me se não seria melhor ir fazendo algumas emboscadas aos grupos de caça deles e matando-os gradualmente. Se o número deles reduzir, de certeza se mudarão para longe.

— Isso exigirá tê-los sempre vigiados. — Considerou Lemi. — Não somos assim tantos para fazer isso.

— Não vamos vingar o meu irmão? — Naci parecia estar sempre zangado, mesmo sem a justificação que tinha agora. — Não quero saber se fogem ou não. Mataram Nuri; por um dos nossos, terão de morrer pelo menos três deles! — Ele ostentava ainda as marcas da luta, principalmente um enorme hematoma que quase lhe fechava um dos olhos.

— É verdade que nunca mataram antes… sempre se limitaram a fazer-nos fugir e levavam a caça. — Considerou Asil. — Tu e o Nuri é que reagiram quando eles tentaram levar a gazela. Depois tivemos de atacar todos para vos ajudar e mesmo comigo, Civam e Ediz, todos os cinco, não conseguimos vencer apenas quatro deles.

— Querias fugir e deixá-los levar a comida do clã? — Naci olhou-o incrédulo. — Nuri estava certo, hoje tiram-nos a caça, amanhã roubam-nos dentro da própria aldeia.

— Basta! — Exigiu Lemi. — Fazemos muito barulho.

— Mesmo assim, — Cortou nervosamente Su, a mulher de Naci. — não sabemos contra quantos vamos lutar. — Ela penteou um dos lados da longa e escorrida cabeleira negra, soltando as folhas que estavam presas nela. — Se forem mais que nós…

— Quem não quiser vir que vá embora agora! — Exigiu Zia com os dentes cerrados. — Estamos a perder o tempo que precisamos. Mesmo que se vão todos embora, eu ficarei e haverei de mandar para o mundo das sombras pelo menos um.

— Eu também fico! — Afirmou Naci batendo com a lança no chão e logo secundado pelos seus irmãos Tekin e Asil.

— Parem com isso! — Ordenou Erem. — Claro que temos de ir todos. Vamos vingar o meu filho e dar-lhes uma lição que não esqueçam. Temos de entrar e matar os que nos aparecerem pela frente e, ao meu sinal, ou de Lemi, fugimos de novo para este sítio onde estamos agora. Aqui, esperamos a ver se nos tentam seguir, antes de regressar às nossas casas. Perceberão que a sua ação teve consequências e deverá ensiná-los a manterem a distância ou mudarem-se para longe.

Começaram a descer da crista ocultando-se nos tufos de vegetação. De súbito, Lemi percebeu movimento na entrada da gruta e fez um gesto aos outros. Habituados a serem comandados nas caçadas, imobilizaram-se em silêncio.

Na enorme abertura surgira um dos homens-macaco. Era baixo, como todos os da sua espécie, com os braços e as pernas cabeludos que pareciam troncos de árvore, grossos e duros. Cada soco daqueles punhos nodosos e desproporcionais tinha a força de uma pedrada. O cabelo hirsuto, indistinguível das barbas que lhe caíam pelo peito, tombava sobre o rosto quadrado de celhas negras e grossas que encimavam a arcada supraciliar saliente. Os olhos pequenos e vivos estavam semicerrados quando o indivíduo se abeirou da borda, soltou um ruidoso traque e começou a urinar algures do meio das peles que o envolviam. Assim que terminou, esfregou os olhos, soltou uns roncos preguiçosos e olhou em volta, farejando o ar. Satisfeito com a avaliação, regressou ao interior coçando as nádegas.

Em resposta a novo sinal, todo o grupo reiniciou a progressão começando a subir a encosta enquanto dois deles ficavam para trás certificando-se de que não havia o perigo de serem atacados pelas costas. Quase não era preciso falar, todos eram experientes caçadores e estavam bem habituados a vigiar as costas uns dos outros para não serem surpreendidos por algum outro predador quando caçavam. No ano anterior, um dos filhos de Lemi fora morto por um leão quando corria atrás de uma corça e um cunhado de Zia, acabara por morrer na aldeia vítima dos ferimentos provocados por um urso.

Naci, sempre mais arrojado, lançou-se na escalada primeiro que os outros, logo seguido do irmão Tekin e de Fuat um dos filhos mais novos de Lemi, ansiosos por mostrar o seu valor. A subida não foi difícil; os invasores usaram os pequenos socalcos, invisíveis a partir de baixo, que deviam ser usados pelos habitantes da gruta e rapidamente Tekin e Fuat ultrapassaram Naci, chegando ao patamar à frente de todos os outros.

Lemi soltou um pequeno silvo para que os dois mais jovens se detivessem, enquanto Zia o ultrapassava também. Ele era o mais velho e ficava para último. Os dois rapazes desapareceram na borda do penhasco e já Naci e uma das cunhadas de Erem os seguiram. No momento seguinte ouviram-se vozes e gritos irados que ecoaram vale e espantaram um bando de aves de uma das árvores que crescia inclinada sobre o barranco. Já Erem, um dos seus irmãos, Zia e um irmão dela se guindavam para a plataforma. Havia luta na entrada da gruta e um corpo voou sobre os que ainda escalavam, batendo no fundo da ravina com um baque surdo; Lemi reconheceu o seu filho Fuat. À medida que mais invasores atingiam o patamar, a gritaria intensificava-se; dois corpos agarrados tombaram do patamar e rebolaram na encosta arrastando com eles dois dos invasores que descansavam na subida. Quase derrubaram Lemi que se viu de repente o único na face do barranco. Havia cinco corpos no fundo, e só um era dos homens-macaco.

Sem fôlego para subir mais depressa e desesperado por ir ajudar os companheiros, Lemi esforçava-se ao máximo. Um dos inimigos voou por cima dele com um grito silenciando-se em simultâneo com o baque no solo duro. Várias pedras e algumas lanças caíram em seguida.

Depois da sua subida imprudente, Fuat, Tekin e Naci, viram-se num patamar, meio direito, com cerca de dez metros até à entrada da gruta, de onde saíam quatro homens-macaco gritando de forma alarmante.

Um deles gritou-lhes incompreensivelmente, mas o outro disse com clareza: —Vão embora!

Naci não estava ali para conversar; atirou e cravou a sua lança no pescoço do que falara a língua deles. Tekin imitou o irmão, mas falhou o alvo que se esquivou agilmente. Os três defensores restantes atacaram os invasores de mãos nuas e soltando gritos selvagens.

Fuat não conseguiu usar a lança, partida de imediato pelos braços fortes do oponente que logo o agarrou pelo pescoço. Sem conseguir opor-se-lhe, o filho de Lemi conseguiu pegar a faca de pedra da sua bolsa e cravou-a várias vezes no ventre musculoso do homem-macaco. Este soltou um grito lancinante e empurrou o infeliz do penhasco.

Tekin, esquivou-se habilmente do ataque do seu inimigo e foi mais feliz com a faca do que com a lança, conseguindo espetá-la profundamente entre as costelas do outro.

Havia já mais companheiros a subir ao patamar e a ajudar Naci que, caído no chão, era alvo dos socos impiedosos do seu oponente. Zia cravou-lhe a lança nas costas e um companheiro pontapeou-o no rosto assim que ele caiu, espetando-o várias vezes no peito a seguir.

O homem-macaco que Tekin espetara soltou um enorme grito de fúria e agarrou-o pelo tronco, prendendo-lhe os braços tentando esmagá-lo. Asil correu em socorro do irmão e espetou a lança nas costas do inimigo que, na tentativa de fuga, precipitou-se com a sua presa no vazio.

Da entrada da gruta soavam novos gritos e vários homens e mulheres-macaco corriam na direção deles, enquanto outros atiravam pedras e lanças grosseiras: eram mais de vinte! Mais dois dos atacantes tombaram feridos.

Eda e Ezgi, respetivamente cunhadas de Erem e Zia usaram as fundas em que eram exímias e derrubaram alguns dos defensores, causando a confusão entre os restantes. As lanças bem apontadas de Erem e dos outros causaram mais vítimas e pararam a investida, com exceção de um deles que se chegou perto o suficiente do grupo invasor para sofrer vários golpes de e tombar imóvel. Havia agora vários corpos caídos na área da esplanada.

Os defensores, refugiados na entrada da caverna, atiraram nova chuva de pedras e lanças com pouco efeito, tirando alguns feridos ligeiros. Eda e Ezgi causaram novas vítimas com as suas fundas que tinham um alcance muito maior, fazendo os inimigos recuarem ainda mais para o interior. Lemi chegava nesse momento à borda do patamar.

Erem tentava assimilar rapidamente a situação complicada em que se encontravam; não podiam investir, pois, os outros eram em número superior e eram precisos vários para liquidar apenas um deles, além disso, já tinham vários feridos e seriam rapidamente suplantados. — Desçam depressa, vamos, fujam! — Gritou decidido na borda do patamar. — Eda, atira-lhes mais pedras, mantém-nos lá dentro. Cemil, ajuda-me, atiremos-lhes com as lanças deles.

Enquanto os restantes desciam e ajudavam os feridos, um pequeno grupo de quatro tentou manter os inimigos à distância, mas as lanças eram mais pesadas e mais toscas, caíam quase sem força ou batiam inutilmente nas paredes da gruta.

Vendo que o número de atacantes era irrisório, os homens-macaco começaram timidamente a sair da gruta atirando mais pedras e os quatro resistentes tiveram de se lançar na descida de forma meio atabalhoada. No fundo do barranco, já os outros acabavam com um dos inimigos que ainda estava vivo e arrastavam os seus mortos e feridos pela encosta contrária.

Enquanto Eda descia, Asli conseguia atirar com a funda algumas pedras bem colocadas para assobiarem à cabeça dos defensores que se atreveram a espreitar na borda do penhasco, mas isso não impediu que uma chuva de grandes rebos caísse sobre eles. Um dos projéteis acertou com força sobre as costas e ombro de Erem fazendo-o cair e foi Cemil, seu irmão, quem o ajudou a refugiar-se com os restantes atrás da crista onde haviam iniciado o desgraçado ataque.

Gritos de vitória e de desafio dos defensores, postados na borda do penhasco, faziam-se ouvir.

Cheio de dores, Erem olhou para os companheiros; Fuat e Alev estavam mortos, Tekin estava bastante ferido e teria de ser carregado, quase todos ostentavam ferimentos mais ou menos ligeiros, com exceção de Lemi que estava pálido de cansaço, ofegante e com a cabeça entre os joelhos.

Apesar de terem causado bastantes vítimas, o resultado era pior para eles. Os homens-macacos ganharam o combate.

 

 

Clã do Leão da Montanha

Parte 2 – O Clã do Leão da Montanha

A seguir:   

Parte 4 – Lambendo

as feridas

Na Madrugada dos Tempos

Introdução – Na Madrugada dos tempos

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quinta-feira, 29 de setembro de 2022

O Clã do Leão da Montanha

 

Na Madrugada dos Tempos – Parte 2

Há pessoas que são excelentes a executar, mas que não querem liderar, têm medo, não querem tomar decisões. Essas não servem para líderes. Mas fazem coisas que os líderes não fazem.

Belmiro de Azevedo

Empresário e industrial português

(1938-2017)

Uma cabeça espreitou sobre a crista do monte; primeiro apenas um, mas, depois outros se lhe seguiram nervosamente. O vento gelado soprava e pequenos flocos de neve esvoaçavam, colando-se ao rosto e cabelos deles. Havia vários dias que o céu estava coberto de chumbo e a temperatura caíra a pique assinalando o fim daquele verão envergonhado.

Eram um grupo heterogéneo; cerca de vinte homens e mulheres, uns com grossas túnicas de lã e outros cobertos com peles mal curtidas. Todos traziam cabelos compridos que usavam soltos ou amarrados em tranças, alguns dos homens também tinham tranças nas longas barbas. Tinham os rostos e as barbas cobertos de lama branca onde pintaram riscas de carvão. Empunhavam lanças com pontas de pedra lascada e machados do mesmo material.

Assim que subiram aquele monte perceberam que haviam chegado ao seu destino; após a descida que se seguia, a terra lançava-se novamente em abrupta subida para outro monte ainda mais alto que ostentava na sua face a abertura de uma enorme gruta onde tremeluzia a luz de uma fogueira. Haviam partido da aldeia ainda de noite, para chegarem ao raiar do dia.

Baixaram-se, ocultando-se de novo atrás da crista e olharam uns para os outros.

— Chegamos. — Anunciou desnecessariamente com voz grave o homem que ostentava várias tranças no cabelo e na barba cobertos de barro branco. — É ali que eles vivem.

— E agora, como fazemos? — Perguntou um dos mais velhos, com grandes barbas raiadas de pelos brancos. — Atacamos enquanto ainda dormem?

— É o melhor! — Considerou um dos mais novos. — Eles são mais fortes do que nós, qualquer um deles pode com dois de nós… nem sequer sabemos quantos ali estão. Sabes, pai? — Dirigiu-se ao das tranças.

— Não, Asil, não sei. — O homem brincou pensativamente com uma das tranças da barba. — Nunca vimos grupos de caça maiores do que três ou quatro acho que serão poucos mais do que nós, se contarmos as mulheres que possam estar lá.

— Tens de decidir, Erem. — Exigiu o mais velho para o das tranças. — Era o teu filho e meu sobrinho, mas tu é que és o chefe. Foi a ti que escolhemos seguir.

O visado fitou o tio Lemi pensativamente. Quantas vezes vira nele o pai, Birol, tão parecidos que eram. Chegou mesmo a pensar se ele o tinha mesmo seguido ou deixara o irmão a pedido deste para proteger o filho.

Já se havia passado muito tempo desde que abandonaram o clã do Rio Brilhante. Asil era ainda uma criança de colo e Naci crescia na barriga de Zia. Apesar dos desacordos frequentes com o pai, a vida era boa. Não havia fome entre eles; as mulheres enterravam algumas sementes que, junto com as cabras montesas que aprisionavam, as frutas que conseguiam apanhar e a caça abundante, dava para satisfazer a todos. Nos últimos tempos, porém, o seu mundo modificava-se; o chão tremia com frequência e o lago salgado, junto do qual se haviam fixado, alargava-se cada vez mais.

O Xamã dizia que era o Rio Brilhante que enchia o lago, mas ninguém percebia como é que, com tanta água doce, as águas continuavam salgadas.

Gradualmente, os pequenos lameiros que semeavam foram sendo engolidos e a própria aldeia estava novamente ameaçada. A incerteza pairava sobre eles; uns queriam simplesmente continuar a afastar-se um pouco de cada vez, à medida que as margens cresciam, outros queriam ir para nascente, de onde era originário um dos genros de Birol. O chefe, porém, decidiu que rumariam a poente a caminho da gigantesca cascata que um outro clã disse que engordava o “seu” lago; teria de ser a sua vontade a prevalecer.

Foi o filho do chefe, no entanto, o causador da dissensão; queria seguir as estrelas-guias, escalar as montanhas para as terras altas e entrar no território dos homens-macaco. Muitos anos antes dele nascer, estavam ainda cobertas de gelo, mas agora eram grandes extensões verdejantes com manadas de auroques, gazelas e alguns mamutes. Não queria seguir o pai e Birol, que era um grande líder amado por todos, aceitou a decisão do filho com grande tristeza. O clã do Rio Brilhante, cuja dimensão de mais de cem elementos era extremamente invulgar, ficou reduzido a menos de setenta.

Erem e a sua companheira Zia com os seus quatro filhos, dois deles já com mulher e crianças, fizeram-se acompanhar de dois irmãos dele e três dela com respetivas famílias, além do tio Lemi, as suas duas mulheres e toda a descendência, formaram um novo clã com cerca de trinta almas. Do alto de um promontório acenaram o adeus a Birol e aos seus companheiros no fundo do vale, que partiam ao longo da margem do lago salgado, rumo ao sol poente. Aquele promontório tinha a forma de uma cabeça de leão e resolveram assumir esse nome; assim nascia o clã do Leão da Montanha.

Cedo conseguiram deixar as tendas e construir casas em pedra ou madeira que cercavam pequenos campos onde cresciam alguns legumes e vagueavam as cabras do rebanho comum. Nasceram mais crianças, embora também tenham morrido algumas e alguns adultos também. Os acidentes na caça e as doenças aconteciam e os recém-nascidos por vezes morriam à nascença ou com poucos dias de vida, mas o saldo era positivo e agora eram quase quarenta indivíduos.

Nos primeiros tempos, Erem ainda fez deslocações esporádicas à Pedra da Cabeça de Leão para olhar as terras baixas de onde viera, na esperança de ver Birol e os seus homens. Mas em vez disso, via como o lago se tornava descomunal, a outra margem perdendo-se de vista e poucos animais se divisavam junto das águas salobras.

Tiveram quase logo alguns recontros violentos com pequenos grupos de homens-macaco e isso raramente acontecia no vale do lago salgado pois normalmente não desciam lá, mas Erem já sabia que este era o território deles. Quem os batizara, fora alguém do clã de Birol dizendo que, cabeludos como eram, pareciam os macacos que viviam nas árvores do outro lado do lago salgado. Eles mantinham-se à distância e fugiam à sua aproximação dos membros do clã, o problema era que, quando a caça escasseava, tornavam-se mais atrevidos, atacavam os caçadores, ou roubavam a carne que secava ao pé das fogueiras.

Normalmente, os confrontos cingiam-se a uma troca de pancadas com as lanças grossas que usavam, ou algumas pedradas para afugentar, mas o último deles fora o pior; os caçadores reagiram e não deixaram que os homens-macaco levassem a caça. Além dos costumeiros braços partidos e cabeças rachadas, também os atacantes levavam alguns feridos com eles, mas Nuri, o filho mais novo de Erem e Zia ficara caído sem vida; uma pancada na cabeça fora-lhe fatal.

 

 
O Enterro

Parte 1 – O Enterro

   O ataque

Parte 3 – O Ataque

Na Madrugada dos Tempos

Introdução – Na Madrugada dos tempos

 
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segunda-feira, 29 de agosto de 2022

O Enterro


 

Na Madrugada dos Tempos – Parte 1

É incerto o lugar onde a morte te espera;

espera-a, pois, em todos os lugares.

Séneca

(Filósofo romano do século I)

Ouvia-se o choro soluçante fora da casa redonda erguida com pedras e lama, coberta por um telhado de colmo e com a entrada tapada por uma cortina de cor incerta. Lá dentro, uma mulher de cabelo desgrenhado e rosto sujo, vestindo uma túnica grosseira e comprida de pano cru, pranteava desconsoladamente. Estava sentada no chão de terra e com os pés descalços na cova recentemente escavada no centro da única divisão, mesmo ao lado dos restos queimados e apagados da madeira com que diariamente se aqueciam. Os lamentos dela produziam pequenas nuvens de vapor no ar gelado da tarde de inverno.

Do exterior ouviam-se mais gemidos de mulheres misturados com as vozes iradas de homens e essa algazarra irritava-a e fazia-a querer chorar ainda mais alto.

Dois homens vestidos de enormes cabeleiras e barbas hirsutas, envergando túnicas de pele curtida, afastaram a cortina e entraram, algo a medo e depositaram braçados de três ou quatro seixos do rio, cada um maior que o tamanho de dois punhos, ao lado da fogueira apagada. Assim que saíram, outros dois se lhe seguiram e assim continuou até se formar uma pilha que dava pela altura dos joelhos.

Fez-se um silêncio repentino do lado de fora e só o choro da mulher, agora murmurando uma ladainha incompreensível se fazia ouvir.

Um coro de uma cantilena chorosa começou no exterior, destacando-se as vozes agudas femininas e sons guturais masculinos.

Outros dois homens entraram, os seus cerdosos cabelos e barbas estavam cobertos de cinzas e transportavam, pendurado pelos braços e pernas, o corpo franzino e inanimado de um jovem onde ainda mal despontara a barba. O corpo pálido, magro e ossudo, envergava apenas uns pequenos trapos de pano cru por bragas.

— Cala-te mulher! — Censurou asperamente o recém-chegado mais velho. — Já chega!

— Eu é que sei se chega! — Ripostou de imediato a mulher, o rosto sujo de cinza borratado pelas lágrimas era uma máscara de terror. — Era o meu filho e choro-o como e quanto quiser! — Tirou os pés da cova e sem se levantar, virou as costas aos dois homens.

O corpo foi depositado cuidadosamente em posição fetal no buraco, sem esquecer o cuidado de lhe colocar uma das mãos sob a cabeça, como se estivesse adormecido. Tinha sido cuidadosamente lavado e várias nódoas negras destacavam-se na pele quase transparente. A seu lado, ao alcance da mão, colocaram-se respeitosamente uma lança de madeira e um machado cuja lâmina era composta de uma pedra chata cuidadosamente afiada. Próximo da cabeça, depositaram uma lebre morta, um recipiente de barro com azeitonas e outro com nozes. Junto da cinta pousaram uma cabaça com água.

O homem mais velho empurrou a mulher para o lado com um safanão e um empurrão para se poderem chegar ao monte de godos brancos. Os seixos foram usados primeiro para preencher todos os espaços livres à volta do corpo e depois para o cobrir e, assim que já nada era visível, começaram a cobrir a sepultura deitando a terra com os pés e as mãos.

Lá fora a cantoria transformara-se numa algazarra de machos que gritavam e se instigavam como se numa luta estivessem, enquanto corriam e cabriolavam em volta do casebre enquanto em fundo as fêmeas carpiam alto.

Assim que os dois homens terminaram a cobertura, quase em simultâneo, a cantoria terminou repentinamente. O mais novo saiu da casa passando exatamente por cima da sepultura acabada de tapar e logo um outro entrou e passou pelo mesmo sítio, tornando a sair e assim sucessivamente até todos os elementos masculinos passarem, pelo local e só o homem mais velho e a mulher ali restarem em pé junto da campa.

Agarraram os restos apagados da fogueira e colocaram-nos sobre a sepultura recente, para que mais logo se acendesse o fogo que aqueceria a todos, agora aconchegado pelo elemento da família que partira.

O homem gritou com a mulher que continuava a chorar e deu-lhe uma lambada que a atirou ao chão. Ela ergueu-se de um salto e gritou com ele batendo-lhe por sua vez. Trocaram uma sequência de socos e tabefes entre eles, sendo evidente que que a força masculina iria prevalecer.

A cortina da entrada abriu-se bruscamente e entraram dois homens armados com lanças.

— Que estás a fazer pai? — Perguntou o mais alto deles. — Vais ficar aí a gritar e a carpir como as mulheres?

— Se não vieres, não és mais filho do meu irmão! — Vociferou o outro.

Foi a vez da fêmea empurrar o macho, agarrar com força uma lança que estava encostada à parede e colocar-se sobre as cinzas e lenhos acabados de colocar.

— Se ele não tem coragem de ir vingar o filho, tenho eu! — Exclamou a mulher altivamente. — Tanto posso empunhar a lança para matar um porco bravo, como para matar o assassino do meu filho!

Do lado de fora, obviamente escutaram-se as palavras de desafio e um coro de gritos guerreiros responderam ao apelo.

— Temos de ir atrás daqueles homens-macaco, invadir as grutas e acabar com todos! — Sentenciou o outro homem. — Como são mais fortes que nós, não conseguimos disputar-lhes a caça e roubam-nos aquilo que caçamos. Mas chega! Verão que não temos medo deles e não tornarão a fazer mal a um dos nossos!

 

 
Na Madrugada dos Tempos

Na Madrugada dos Tempos – Introdução

Clã do Leão da Montanha

Parte 2 – O Clã do Leão da Montanha

   
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quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Na Madrugada dos Tempos

Na Madrugada dos tempos é contada uma história passada na alvorada da civilização sem preocupações de rigor histórico.
Através da história do Clã do Leão das Montanhas, conta-se um pouco do que seria a vida no Neolítico (de 10.000 a.c a 3.000 a.c.) e aborda-se o que poderá ter sido a convivência dos humanos modernos com os Neandertal que estavam em franco declínio. Mas, para interesse do enredo, incluíram-se os efeitos do degelo da última glaciação e o renascimento do mar mediterrâneo que esteve quase seco durante um grande período, embora há cerca de 6 milhões de anos.
Assim sendo, venha comigo nesta viagem de há dez mil anos e viva a epopeia de Erem e Zia num mundo inclemente e selvagem ao qual só sobrevive o mais hábil e forte.
 
O Enterro

Parte 1 – O Enterro

Clã do Leão da Montanha

Parte 2 – O Clã do Leão da Montanha

O ataque
Parte 3 – O Ataque

A seguir:  

Parte 4 – Lambendo

as feridas

 
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terça-feira, 28 de junho de 2022

Erros Meus, Má Fortuna

 


Fernando arrastou os sapatos de couro gasto e quase sem brilho, pelo passeio de cimento. Tinha o cabelo castanho cheio de brancas que lhe chegava aos ombros, mas estava lavado… pelo menos hoje. A pele do rosto, queimada do sol e vincada milhares de vezes, estava para além dos cinquenta e oito anos que dizia ter, mas hoje estava mais clara e reluzente. A alva barba estava penteada e limpa e até as mãos de dedos curtos e gordos, estavam lavadas e com as unhas escuras cortadas.

Hoje estava destinado a ser um dia especial. Foi por isso que foi ao abrigo tomar banho, arranjou um fato cinza-claro (que era obviamente para alguém maior que ele) e convenceu a Eduarda, a bonita, mas cansada voluntária do abrigo, a penteá-lo e fazer-lhe a manicura possível.

Agora estava ali, a chegar à paragem de autocarro onde se sentou pesadamente e cruzou a perna, à espera. Sentia-se orgulhoso, não bebia desde o jantar de ontem e bem olhara para a garrafa de tinto ainda meia que deixara com os seus pertences.

Soltou um suspiro soluçado, enquanto pensava nos cartões, cobertores e restantes tralhas a que ele chamava “as suas coisas” que deixara à guarda do Tone “Figo”. Não sabia o apelido dele, todos o chamavam assim porque para ele, tudo o que comia, dizia que “chamou-lhe um figo!” Era bom rapaz, se se pode chamar isso a alguém com cinquenta e muitos anos, mas faltava-lhe a coragem para se defender a si e ao que é seu. Sabia bem que se um dos outros sem-abrigo fosse lá roubar as coisas que ficaram ao seu cuidado, ele nada faria para o impedir. De qualquer maneira, Fernando dissera-lhe que se não voltasse naquela noite poderia ficar com tudo, mesmo com o maravilhoso relógio despertador a pilhas que tanto estimava.

Roeu nervosamente a unha do indicador direito e continuou com o sabugo até que lhe doeu. Gemeu e olhou os dedos maltratados com as unhas negras. Aquele lixo, se insistisse na lavagem, levaria anos a sair… assim como levou anos a amontoar-se.

Estava nervoso, claro que sim. Acordara na última madrugada decidido a dar uma volta na sua vida. Quase não dormira a sonhar como o iria fazer e se bem pensou, rápido o fez; foi quase o primeiro a comparecer na fila do duche do abrigo e depois correu ao vestiário para arranjar as roupas novas. Agora ali estava… pronto para ir à casa da filha de onde saíra há… demasiado tempo.

Pensou no rosto de Maria Inês, sua filha, mas não conseguia lembrar-se dela com vinte e muitos anos, quando ele saiu de casa, apenas via a Inês de quinze anos sempre abraçada a ele, aos beijos. “Como as pessoas podem mudar assim?” — Pensou para si. — “Era um amor profundo e terno, que parecia não morrer nunca. Ela tomava sempre o meu partido nas minhas discussões com a mãe dela.”

A sua expressão alterou-se para preocupação. Como reagiria a filha assim que o visse, agora, dez anos passados? Que pensaria ela do homem que saiu pela porta fora, zangado com ela e com o mundo e que nunca mais voltou nem deu notícias? Primeiro, acreditou que seria uma noite ou duas e dormiu no chão entre os cartões e o lixo. Alcoolizado, os cheiros não o incomodavam, nem dava pelo tempo passar e uma manhã, aquele amanhecer precisamente, levara dez anos a chegar.

Também ela estava zangada com ele… e com razão. Fora ela, aliás, quem começara a discussão; encontrara-o de novo a dormir no chão do quarto, embriagado, com as roupas fétidas e sujas de vómito e urina.

Agora que pensava bem, as discussões eram frequentes. Bernardo, o genro, tentava pôr “água na fervura”, apelava à calma dela e à minha compreensão de que não podia agir assim. Desde que nascera a criança deles, Inês estava insuportável, gritava à menor contrariedade… ou seria ele que se embriagava com demasiada frequência?

Desde a morte de Alzira, sua mulher, Inês nunca mais planeou casar e ter a sua própria casa. Fazia questão de ficar junto do pai para cuidar dele. Fernando, por seu lado, perdida a mulher que fazia parte da sua vida há mais de vinte e cinco anos, sentia-se desolado e desamparado. A filha tratava da sua própria vida, a trabalhar e a acabar os estudos e depois a namorar… não conseguiu perceber quando tudo começou. Ele bebia em casa o que havia e depois ia para fora a procurar mais. Começou por beber para esquecer, depois já não se lembrava porque bebia.

Uma lágrima correu veloz pelas rugas do rosto. Ele tinha noção que Alzira conseguia ser insuportável, mas era a mulher que ele escolheu e que o escolhera. Discutiam e zangavam-se, mas, após uns “amuos” começavam a falar normalmente e acabavam de fazer as pazes à noite, na cama. Depois partiu deste mundo e levou a alma dele com ela.

Inês cuidou dele, sim, pobre menina, o melhor que pôde. Aturou-lhe a depressão, o mau-humor e as bebedeiras. Depois conheceu Bernardo e a sua vigilância sobre ele aligeirou… a dependência do álcool e as suas consequências, cada vez mais difíceis de esconder, atiraram-no para o desemprego. — Ele franziu o sobrolho. — Quando nasceu a sua neta, Inês chamou-lhe Alzira, como se mais alguém pudesse digno de ser portador de tal nome.

Era obrigado a compreender que ele transformava a vida deles num inferno… baixou a cabeça e repousou-a entre as mãos com os cotovelos nos joelhos… ao longe o relógio da igreja soltou dez badaladas. Pensou que o autocarro se demorava.

— Bom dia, amigo. — Uma voz masculina bem-disposta interrompeu-lhe os pensamentos e ele levantou o rosto para ver um homem montado numa bicicleta, parado a seu lado. — Está à espera do autocarro aqui? Não vê que a paragem está desativada há mais de um ano? A carreira que passava aqui foi mudada para a outra rua paralela a esta.

Com esta explicação, o homem retomou a sua marcha pedalando e afastou-se rapidamente, sem mesmo escutar o “obrigado” quase inaudível.

Fernando ergueu-se e constatou o aviso quase apagado colado na placa indicativa da carreira. Pousou o olhar no chão, pensativo, como que a decidir o que fazer. “Então a carreira não me quer levar, é?” — Pensou de si para si. — “Se calhar também eles estão melhor sem mim…”

Sacudiu o pó das calças e começou a caminhar na direção de onde viera, rematando em voz alta:

— Vou ver se o Figo guardou as minhas coisas em condições, afinal, a garrafa do tinto ainda estava meia. Espero bem que não lhe tenha dado a sede.

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quarta-feira, 8 de junho de 2022

Viagens, Parabéns Lucinda Maria

Foi no passado dia 4 de junho que foi apresentado na Biblioteca Municipal de Oliveira do Hospital o novo livro de Lucinda Maria, "Viagens através da Imaginação".

Patrocinado pela Câmara Municipal, não podiam faltar a esta sessão o presidente, José Francisco Rolo, a vereadora da Cultura, Maria da Graça Silva e o presidente da Assembleia Municipal José Carlos Mendes.https://www.cm-oliveiradohospital.pt/index.php/municipio/item/2166-novo-livro-de-lucinda-maria-e-apresentado-no-sabado


Uma vez mais se nota o gosto pela cultura e o carinho e interesse pela produção artística dos seus munícipes nas Câmaras do interior do país. No litoral, talvez pelo facto de existir mais "oferta" cultural e mais artistas, há um desinteresse pelos "santos da casa" e prefere-se dar atenção às figuras nacionais em detrimento das locais. Claro que é muito mais fácil, sucesso garantido, divulgar a presença de um best-seller nacional, das editoras consagradas, ou alguém que aparece na TV frequentemente, do que patrocinar escritores ou outros artistas com pouca visibilidade. O pelouro da cultura tem a sua própria agenda e, na maior parte das vezes, desconhece completamente o que se produz no concelho.
 

Este novo livro da Lucinda Maria (sétimo publicado) apresenta-nos uma forte carga autobiográfica com alguns contos obviamente ligados à infância da autora e outros que espelham sem qualquer dúvida o amor incondicional à terra que a viu nascer.

Conheci a Lucinda Maria há pouco tempo, embora o seu nome tenha constado com o meu em algumas publicações de antologias organizadas pelo nosso saudoso amigo comum, o editor e escritor Isidro Sousa (1973-2020).

Foi principalmente fruto do desaparecimento deste nosso amigo que se criou uma proximidade maior entre nós, com a minha iniciativa de editar um dos trabalhos não concluídos desse editor. A antologia "Filhos de Um Deus Menor" foi um dos projetos dele que me empolgou e que tive pena nunca ter visto a luz do dia. Por esse motivo, resolvi por mãos à obra e contactar os autores já selecionados para essa obra para que colaborassem .nesta nova antologia. Para meu desencanto, muito poucos responderam mas, entre os que o fizeram, estava esta nova amiga.


 

Depois dos vários contactos e trocas de opiniões que tivemos acerca desta obra, foi fácil ver nela uma valiosa colaboradora para a nova antologia dos Pentautores, que estava em projeto na altura. Não tive muito trabalho para convencer os meus companheiros, alguns dos quais já conheciam a escrita da Lucinda e assim nasceu "Deusas, Fadas e Bruxas" com a convidada Lucinda Maria, que, como é apanágio de todos os nossos convidados, além do conto, contribui com o prefácio da obra. A nossa amiga provou tratar-se de uma boa aposta e ficamos todos muito satisfeitos com o resultado final.


Daqui até ao acordo que fizemos para a publicação do seu livro "Viagens", foi apenas um passo.

Eu já tinha colaborado de diversas formas com outros escritores para a publicação das suas edições de autor e, gradualmente, fui dando relevo à minha chancela pessoal "Produções Debaixo dos Céus". Aqui estava eu novamente a criar bases, quem sabe, para uma nova editora.

 
Com uma capa pintada pela própria autora, vão se revelando as várias facetas desta artista que junta a pintura à sensibilidade da poesia e à capacidade narrativa.

No passado dia 4, foi então o lançamento público desta obra e foi também o dia em que pude conhecer pessoalmente esta excecional mulher e escritora. Eu e o meu amigo e escritor Fernando Ventura Morgado, acompanhados das respetivas esposas, fizemos questão de cobrir a considerável distância que separa as nossas cidades para a felicitar e dar um abraço de amizade e incentivo a esta nossa amiga.


Não foi difícil ver as qualidades humanas da Lucinda Maria, que de resto já tinha adivinhado durante todos os nossos contactos prévios, mas foi aqui que se comprovou a sua amizade, generosidade e humildade, materializada numa sala completamente cheia de pessoas que a vieram ver e ouvir.

 
Tivemos a oportunidade de ouvir falar da autora por quem a conhece e escutar alguns poemas de sua autoria, relativos a marcos importantes do concelho, declamados por alguns dos seus amigos.
 


Resta-me acrescentar que foi um dia maravilhoso e bem passado e a Lucinda Maria está de parabéns, não só por este novo livro, mas pelo seu excelente grupo de amigos e leitores e por ser o ser humano que é.

Bem hajas Lucinda Maria e muito sucesso.
 




 

 

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domingo, 29 de maio de 2022

A Despedida


 

O dia estava límpido e temperado. Daqueles dias claros, depois da chuva, em que se conseguem divisar quilómetros, nas poucas áreas das cidades em que se consegue discernir o horizonte.

O local, o campo do repouso final, com os retângulos de mármore ou granito cuidadosamente alinhados em grande extensão para um lado e para o outro.

Uma tumba específica, recente, de granito comum, sem grandes ornamentos, mas completamente nova. Na cabeceira, apenas a fotografia de um homem na casa dos quarenta, moreno de cabelo curto e barba aparada. Como epitáfio apenas o nome e as datas de nascimento e morte, sem saudades, dores ou sofrimentos. Apenas assinalado o local onde depositaram a concha vazia que havia sido aquele homem.

A mulher aproximou-se. Era morena, cabelo castanho forte, pelos ombros e de estatura pequena, de aspeto nervoso. Envergava uma t-shirt branca sem estampagens e umas calças de ganga clara que terminavam em sapatilhas brancas, salpicadas de lama. A roupa folgada pouco conseguia disfarçar os peitos fartos e as ancas bem torneadas, mas pela ausência de maquilhagem e de cuidado em salientar as formas, via-se que não tentava causar impacto nos demais… ou já não se preocupava.

Ela ajoelhou-se sobre a pedra tumular e limpou com os dedos as gotas de água e pó que estavam sobre o esmalte colorido que exibia o rosto sorridente.

— Não podia deixar de vir despedir-me. — Começou ela sem rodeios e esboçando um sorriso triste. — Se calhar não volto aqui. De certeza que não, tão cedo.

Brincou com os dedos sujos de limpar a fotografia, espalhando o pó cinzento e molhado pelos restantes.

— Não vou dizer que não terei saudades. — Recomeçou. — Que não vou sentir falta de ouvir a tua voz logo pela manhã, ou sentir o calor do teu abraço antes do pequeno-almoço. Acho que até sentirei falta das sonoras palmadas com que agraciavas as minhas nádegas que tanto dizias gostar.

Sentada e de olhos fechados, empurrou as mãos entre as pernas numa memória voluptuosa que lhe causou um arrepio.

— Eras tão carinhoso no início. — Observou, perscrutando cada pormenor do rosto na minúscula fotografia. — Nem consigo precisar quando foi que as coisas começaram a mudar. Quando foi a primeira sapatada com força excessiva, o primeiro beliscão a deixar marca ou mesmo o primeiro torção dos mamilos a fazer-me gritar de dor. Acho que foi uma coisa gradual, a que eu fui correspondendo com gritos mais ou menos excitados e joelhadas e dentadas que te pareciam excitar ainda mais.

Ela apertou ainda mais as pernas e soltou um suspiro profundo.

— Sim o sexo era ótimo. — Ela sorriu com a recordação, enquanto deixava correr uma lágrima pelos olhos semicerrados. — Não só quando passávamos horas abraçados a devorarmo-nos mutuamente, mas também depois, quando as coisas começaram a ficar mais brutas e depois violentas. Quando acabávamos os dois esgotados, transpirados, maçados e pisados. — Limpou as lágrimas. — Não percebi quando as coisas passaram de sexo excitado e apaixonado para espancamentos e quase violações. Quando deixei de ter força para te combater e as nossas lutas desiguais acabavam comigo subjugada e forçada onde quisesses, o tempo que precisasses.

Tirou um pacote de lenços de papel do bolso e limpou as lágrimas, assoando-se em seguida.

— Mas não foi isso que me quebrou. — Ela continuou a calma retrospetiva. — Nem mesmo quando a violência começou a extravasar a cama e a visitar-me quando chegavas a casa meio embriagado. Quando te excitavas em dar-me dolorosos socos nos braços ou nas costas, como represália do pontapé nas canelas com que eu respondia ao puxão de cabelos e ferradela canina nos ombros com que me cumprimentavas.

Emitiu um suspiro entrecortado e coçou o cabelo com força, quase como se o tentasse arrancar.

— O que me doeu — Continuou ela. — foi saber que tudo aquilo que agora havia entre nós, que eu achava ser amor descontrolado, não passava de sexo bruto e sem respeito. Fiquei devastada quando soube daquela cabra com quem te consolavas antes de vir para casa… encher-me de porradas.

Limpou a foto da campa com o lenço de papel.

— Eras um cabrão bonito. — Concedeu a mulher. — E sabias fazer bom sexo, mas a partir daquela altura, tudo aquilo que para mim era amor e que suportava por isso, transformou-se em violência sem respeito e numa humilhação. Isso tinha de acabar.

Ela exibiu um sorriso e olhou a fotografia com amor.

— Se pudesse ressuscitar-te, fá-lo-ia. Faria amor contigo novamente e enlouquecer-nos-íamos com pancadas e dentadas. Na cama, no chão, no balcão da cozinha... como antes, não importavam as nódoas negras nem as dolorosas marcas de dentes… seria tudo como antes…, mas… antes que voltasses para a aquela cabra, envenenava-te outra vez.

Ergueu-se, sorriu com bonomia e colocou um beijo nos dedos que depositou demoradamente no rosto do homem que amava. Em seguida voltou costas à campa e aproximou-se do casal de polícias que a aguardavam pacientemente a alguns metros de distância. Estendeu os braços e deixou que a algemassem.

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