quarta-feira, 29 de março de 2023

O Mundo Pula e Avança

 

Na Madrugada dos Tempos – Parte 8

Eles não sabem nem sonham

Que o sonho comanda a vida

E que sempre que o homem sonha

O mundo pula e avança

 

António Gedeão (pseudónimo de Rómulo Vasco da Gama de Carvalho)

Professor e poeta português

(1906-1997)

 

Apesar do choque inicial, a maioria das pessoas achou que as cabeças dos homens-macaco seriam uma boa oferenda aos deuses e não foram por isso removidas dos postes onde foram empaladas.

O inverno avançava em passos largos e os grupos de caça já regressavam com presas cada vez mais pequenas ou mesmo de mãos vazias. A neve caía, por vezes durante dias sem interrupção e havia um manto branco mais ou menos permanente a cobrir toda a paisagem.

Os cereais começavam a reduzir drasticamente e as frutas armazenadas comeram-se ou tiveram de se deitar fora por se estragarem. Temendo a fome no clã, Erem mandou convocar aqueles cuja opinião tinha em maior conta, embora o acesso fosse livre e frequentado pela maior parte dos aldeões. Em volta de uma enorme fogueira que derretera toda a neve e gelo em volta, os enregelados vizinhos foram-se acumulando, mantendo-se encostados para conservar ao máximo o calor corporal.

Na sua voz grave, Erem expôs o problema que todos tinham conhecimento; corriam o risco de não ter alimentos suficientes para sobreviver à época dos grandes frios e necessitavam de arranjar soluções.

Depois de várias vozes que se limitaram a apresentar queixas ou sublinhar as dificuldades já sentidas, pediu a palavra Alim, o mais velho dos nómadas, cujo grupo estava já completamente integrado na comunidade.

Ele começou por abordar o frio que todos sentiam nestas reuniões, que, aliás, deveriam repetir-se mais vezes sobre outros assuntos. Sugeriu que fosse construído um edifício maior onde coubessem de forma confortável os membros de um conselho que debateria o futuro do clã. Necessitariam de menos lenha para se aquecerem e os problemas das pessoas teriam um lugar onde serem apresentados para se obterem soluções.

Imediatamente se levantaram um conjunto de vozes discordantes que alegavam a incapacidade de se construir um espaço grande o suficiente, duvidavam da necessidade do mesmo ou até se queixavam do tempo que levaria a construir. No entanto, havia muitos rostos sorridentes que aprovavam a ideia.

Erem foi um dos que se interessou e pediu silêncio, fazendo sinal ao outro para continuar.

Alim explicou que era o que se fazia em muitas das localidades por onde passaram e que a construção de espaços maiores do que as pequenas casas redondas que erguiam não era muito complicada. O seu filho Beki ajudara por várias vezes nessas construções que juntavam madeira encaixadas e pedras, tudo unido por lamas endurecidas. Estava certo de que conseguiriam construir algo suficientemente digno recorrendo a esses conhecimentos. O tempo para o fazer; não há caça, nem agricultura, nem frutas, de certeza que se arranjará sempre uns pares de mãos para se avançar com a obra. A necessidade da mesma era outra questão: todos sentiram uma vez ou outra dificuldade ou um assunto que deveria ser trazido ao conhecimento da comunidade e que por vezes até nem o fazia porque chovia, ou estava muito frio, ou até muito calor.

Lemi, Erem e Zia conferenciaram entre eles em voz baixa enquanto Fikri ridicularizava a ideia, secundado por alguns outros. Naci, que chegara tarde e indolentemente, aproveitou o desdém do amigo para afirmar que quem decidia o que devia ou não ser apresentado ao clã era o seu chefe e não um estrangeiro qualquer.

Uma vez mais, Erem ergueu as mãos a pedir silêncio. Reafirmou que a ideia tinha interesse e iria ser discutida com ele mais em pormenor… via muitas possibilidades para essas “casas grandes” nomeadamente para um melhor armazenamento dos víveres do clã, em vez de estarem distribuídos por várias pequenas casas. O problema que os trouxe ali, no entanto, continuava sem sugestões de resolução, mas também nesse tema Alim alegava ter algo a sugerir e o chefe fez-lhe sinal para que continuasse, enquanto Lemi exigia silêncio às vozes discordantes.

A sugestão do homem ia no sentido de se iniciar uma atividade por demais conhecida por ele e o seu grupo: o comércio; tinham pouca comida, mas havia peles e ossos trabalhados, alguns tecidos, ou mesmo um, ou outro animal. Visitariam as aldeias em redor e fariam trocas por outros itens mais vantajosos e comida. Asil poderia dar algumas das estatuetas que esculpia, Enis os tecidos que produzia, até mesmo algumas das mezinhas de Nehir se podiam trocar.

Uma vez mais, Naci fez-se ouvir acima dos outros alegando que ninguém no seu juízo perfeito trocaria comida em pleno inverno, o outro, porém, tinha a resposta na ponta da língua; lembrou terem peles curtidas e arranjadas e que haveria quem trocasse animais vivos por elas, que consomem muito tempo e necessitam habilidade para ficar prontas.

Mas Alim tinha mais uma surpresa; aproveitando ter deixado o seu oponente sem resposta, informou ter um presente para o chefe da tribo, enquanto se aproximava e ofertava Erem com um objeto comprido, quase do seu tamanho, enrolado em pele.

Erem desenrolou rapidamente o objeto, revelando ser um elegante arco recurvado, totalmente diferente daqueles grosseiros que quase não utilizavam devido ao pouco alcance e força obtidos. Observou cuidadosamente a obra, perante os olhares admirados da assistência e apreciou como era composto por osso, madeira e couro endurecido, formando um elemento só mantido sob tensão por uma corda de tendão. O estrangeiro sorriu-lhe e explicou, enquanto lhe entregava uma seta, que levou muito tempo a fazer aquele trabalho, porque a cola utilizada precisava secar por muitos dias. Também a seta era habilmente trabalhada, resultando numa haste direita, lisa, com algumas penas na parte de trás e uma reluzente ponta de cobre.

A assistência abriu um caminho, sem que fosse preciso pedir, assim que o chefe em gestos lentos preparou-se para disparar a elegante arma.

Erem apreciou a tensão obtida no arco e esticou o máximo que pode, sempre pronto para ouvir o conhecido estalo que significava a destruição por esforço do utensílio. Não conseguiu, porém, que o objeto se partisse; estava já a ficar sem força para esticar muito mais quando soltou a corda e um velocíssimo projétil voou com um silvo pelo espaço aberto pela comunidade, desaparecendo de vista depois das últimas casas da aldeia. Algumas crianças saíram a correr a persegui-lo, apesar dos gritos de dissuasão das mães, para que não se afastassem, pois começava a escurecer.

Um clamor de espanto e admiração ecoou por toda a assistência, enquanto falavam entusiasticamente uns com os outros. Aquela era uma arma fantástica; poderiam caçar animais de distâncias maiores, antes que eles se apercebessem nem sequer da sua presença. Entre a alegria e excitação, ninguém se apercebeu do olhar rancoroso de Naci, que abandonou a reunião logo seguido por Fikri.

As novas ideias eram bem recebidas pelo chefe do clã e pela maior parte dos seus elementos, ajudava a isso a presença de estrangeiros das outras aldeias, que começava a ser frequente, fruto da admiração pela construção do santuário. Começavam a ser encarados com alguma naturalidade os grupos que vinham ajudar na construção por um ou dois dias, trazer oferendas ou simplesmente rezar aos deuses. Alguns fixavam-se em tendas nos arredores, com autorização do chefe, embora com o aviso de que teriam de respeitar as determinações do chefe, não teriam a palavra nas reuniões do clã, nem teriam acesso à distribuição de alimentos que era feita aos doentes, velhos e órfãos. Mas mesmo assim, isso representava uma ofensa para Naci e um reduzido rol de descontentes que desprezavam os estrangeiros e os seus conhecimentos.

As sugestões de comércio de Alim produziram o resultado necessário e poucos dias após partir com mais três homens e dois trenós carregados de bens, ele regressou com várias cabras, ovelhas e cereal. Ficou muito feliz ao deparar com a construção de um grande edifício a decorrer no extremo do casario. O progresso chegara a Barinak, que quer dizer santuário, o nome pelo qual começava a ser conhecida a aldeia nas redondezas.

O inverno estava no seu pico. A neve depositava-se sobre neve tornando as deslocações difíceis, alguns dos estrangeiros que visitavam o santuário, procuravam Asil pelas suas estatuetas em madeira que trocavam por objetos decorativos e até já havia encomendas para objetos de maior tamanho que seriam pagos com algumas cabras ou mesmo meio javali. Alguns queixavam-se de serem atacados e roubados no caminho para Barinak, outros diziam ter conhecimento da morte de um ou outro “peregrino”. Além de penosas, as viagens tornavam-se perigosas.

O Clã do Leão das Montanhas florescia em pleno inverno, quando a maioria apenas sobrevivia, mas os velhos inimigos não dormem. Uma noite, envolvido na escuridão, um estranho bando invadiu a aldeia e matou dois dos estrangeiros que residiam nos arredores, feriu com gravidade uma mulher do clã e roubaram toda a carne pendurada a secar. Entraram numa das casas onde estava armazenado cereal e levaram o que puderam, espalhando e espezinhando o restante pelo chão. Os homens-macaco haviam chegado.

 

 

 

            7 - A Obra Nasce

Parte 7 – A Obra Nasce

A seguir:         

Parte 9 – Velhos Inimigos

Na Madrugada dos Tempos

Introdução – Na Madrugada dos tempos

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terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

A Obra Nasce

Na Madrugada dos Tempos – Parte 7

 

Deus quer, o Homem sonha,

A obra nasce.

 

Fernando Pessoa

Escritor português

(1888-1935)

 

O pequeno grupo de nómadas estabeleceu-se na aldeia e gradualmente, o clima de desconfiança da maioria dos vizinhos desvaneceu-se. Claro que havia exceções, sendo as mais conhecidas Fikri e Naci, a que se juntava Cemil, um dos irmãos de Erem, que continuavam a desprezar os recém-chegados. Acreditavam que eles eram deserdados da sorte, sem casa e atacados por todos, porque não tinham o favor dos deuses e estes não iriam gostar que os acolhessem.

Naci estava principalmente sensível devido ao estado de saúde da sua mulher Su, que nunca recuperara completamente desde o ataque aos homens-macaco. Nehir lograra fechar o ferimento, mas ocasionalmente atacavam-lhe “uns calores” muitos fortes e caía desacordada com o corpo todo a ferver. Nessas alturas, a curandeira passava o dia inteiro a tentar baixar-lhe a temperatura com folhas de videira molhadas na testa e fazendo-a engolir pastas de alho e mel para combater os maus espíritos do corpo, mas após cada uma dessas crises, ela estava mais fraca que antes.

Ignorando as vozes discordantes, vários aldeãos emprestaram peles e ajudaram os nómadas a erguer quatro tendas nos limites da povoação. Como agradecimento, a noite fria em volta da fogueira foi abrilhantada por Beki e os irmãos que fizeram um pequeno espetáculo de malabarismo e dança. O ritmo era mantido pelo bater sobre peles esticadas em vimes entrançados num círculo. Todos ficaram extasiados pelas cabriolas acrobáticas dos jovens, pela percussão e pelas cantigas das mulheres. Gritos de alegria e assombro ecoaram na noite sob o límpido teto de veludo ponteado a prata antes de todos irem descansar.

Nos dias seguintes, Erem avisou Alim que se esperava deles a participação em todas as atividades da comunidade e, entre elas, a construção do santuário. Todos os que tivessem força para levantar um pote de barro cheio de água teriam de ser recrutados para as tarefas. Foi uma forma de os integrar e dar mais confiança.

Após consultar os astros e conferenciar com as outras mulheres, Zia anunciou a chegada da Noite das Sombras, que marcava o início da estação fria[1]. Nesta noite, dizia-se, os espíritos dos que já se foram podiam vaguear entre mundo das sombras e o dos vivos. Havia até quem afirmasse que, nas noites de nevoeiro, podiam-se distinguir as fogueiras do lado das sombras. Era uma noite de apreensão, pois representava o fim do período de maior abundância de caça e frutas. Os cereais estavam já moídos em farinha que se esperava que aguentasse muitos meses e as cabras e ovelhas mais velhas abatidas e a sua carne seca para consumir durante o inverno. As peles e os ossos resultantes da matança armazenaram-se para utilização futura.

Zia preparava a cerimónia que daria as boas-vindas ao inverno; a época dos dias frios em que o sol dava mostras de morrer e no coração de todos ficava o medo de que não voltasse. Em volta dos ídolos de Swol e Mensis já se erguiam quatro imponentes megálitos, dos vinte e quatro previstos. As pedras eretas foram coroadas com ramos de oliveira e colocaram-se coroas e folhas nos locais onde se previam erigir as restantes.

Desde o início da construção existiu grande polémica acerca do número de pedras a erguer no santuário e se no início pensaram apenas em dezasseis, cedo começaram as discussões se não deveriam, isso, sim, representar toda a aldeia e erguer uma pedra por cada um. Nem assim chegavam a acordo, pois, se nascesse alguma criança, teriam de erguer rapidamente outra pedra, ou retirar se morresse alguém. As discussões em redor da fogueira por vezes eram apaixonadas e se uns achavam serem precisas muitas para honrar os deuses, outros havia que não queriam arrastar mais do que as estritamente necessárias… ou mesmo nenhumas. Por fim, foi Lemi quem deu a solução para resolver o dilema; cada homem tem dez dedos nas mãos e a mulher, porque um homem não deve viver sozinho, tem outros tantos dedos. Não teriam uma pedra para cada homem e cada mulher, mas apenas duas vezes dez pedras, isso simbolizava todo o clã, o número de dedos com que produzem tudo o que necessitam para sobreviver! Após uns segundos a “digerir” a ideia, ergueu-se um clamor de aprovação de toda a audiência. Zia acalmou-os erguendo as mãos e pedindo a palavra: “Concordo com as vinte pedras.” — Informou ela erguendo a voz acima do burburinho. — “Mas acrescento quatro! Quatro pedras que definirão esse círculo de dez mais dez e defini-lo-ão da mesma forma que é marcado e definido o círculo da nossa vida. Como nascemos, crescemos, amadurecemos e morremos, também Swol assim é. Renasce ao fim de muitos dias moribundo e começa a ganhar força, a erguer-se no céu e a trazer a luz por mais tempo, trazendo o cio nos dentes e despertando a caça. Depois reina sobre o céu, inchando os dias com luz e calor, dourando as espigas e chamando as grandes manadas de auroques e bisontes. Mais tarde começa a perder a força, no período das colheitas, enquanto se aproxima do fim da terra, até ficar moribundo. Fica depois quase morto com a chegada dos grandes frios, quando as sombras ameaçam a luz e trazem a incerteza do seu renascimento… quatro pedras do ciclo da vida de Swol.”

Zia era a autoridade incontestável na marcação dos dias e todos confiavam cegamente nas suas indicações de quando era a época para deitar as sementes à terra, quando haveria mais abundância de caça ou quando seria a altura de o rio transbordar. Com os muitos conhecimentos passados de pais para filhos, ela possuía uma pele onde estavam meticulosamente atados um conjunto de ossos e paus enfileirados que era um dos seus guias. Por ali conseguia seguir as fases da lua e complementava as suas medições com a observação do tamanho das sombras projetadas por um pau espetado no chão para distinguir os solstícios e os equinócios. A mulher, munida daquele compêndio dos saberes dos antigos, era um calendário vivo.

Dos quatro grandes monólitos que começavam a demarcar o círculo, o último, erguido apenas no dia anterior e era o que representaria o início da estação dos grandes frios, a morte de Swol[2]. Estava perfeitamente alinhado com o sol do meio-dia e a sua sombra alongada tocava o ídolo correspondente ao astro-rei no centro do complexo.

Zia fazia-se acompanhar de uma Su débil e insegura, que ninguém conseguira demover de colaborar na preparação das cerimónias. A sogra obrigava-a a que estivesse sentada a entrançar as plantas para as coroas, enquanto as restantes mulheres iam recolhê-las entre as árvores da floresta. Apesar do frio que já dominava, aquele dia mostrava-se com um sol invulgarmente quente que fazia transpirar os laboriosos celebrantes.

Su, tendo terminada uma pequena coroa verde que adornou com alguns fios dourados de feno, ergueu-se e caminhou até ao local onde haviam enterrado Ediz. A terra remexida, na sombra de um dos megálitos, ainda estava húmida pela geada noturna e a rapariga baixou-se para pousar a singela homenagem no lugar onde estaria a cabeça do guerreiro. Quando se ergueu, sentiu que todo o mundo começara a correr à sua volta e as enormes pedras rodopiavam e cabriolavam ameaçando cair sobre ela. A cabeça parecia explodir com uma dor insuportável e soltou um grito lancinante antes de cair desacordada.

Quando Naci chegou com os grupos que arrastavam os grandes toros de lenha para a fogueira no santuário, já a sua jovem esposa havia partido deste mundo. Ele soltou gritos furiosos, com os olhos injetados de sangue, empurrou quem o tentou acalmar e nem mesmo a mãe conseguiu que sossegasse. Entrou como um ciclone na sua casa, fazendo fugir as mulheres que velavam e ajoelhou-se banhado em lágrimas ao lado do corpo débil e sem vida da companheira. Saiu depois a correr cegamente na direção da floresta gritando imprecações contra os deuses.

 Ficava assombrada com tal perda a celebração do primeiro dia de inverno. Alguns diziam que uma morte no recinto do santuário não era um bom presságio, mas logo outros contrapunham que ela morrera na sua casa e não ali e, mesmo que assim não fosse, não era aquele também um monumento aos mortos? Embora com muito menos ânimo, resolveram continuar com os preparativos.

Erem, que começava a ficar preocupado com Naci, mandou dois homens procurá-lo, mas eles voltaram passado algum tempo sem o encontrarem. Acrescentaram que ele era um caçador experiente e conhecia bem as florestas e, se não quisesse ser encontrado não seria. Com a noite a cair, Zia estava preocupada porque o cadáver de Su não devia ficar insepulto depois do por-do-sol. Se isso acontecesse, ela não conseguiria encontrar o caminho para as grandes pastagens nos braços da Da Matter[3]e ficaria eternamente a vaguear sobre a terra como um Ansu[4] perdido.

A sacerdotisa tomou a iniciativa e mandou que fossem buscar a infeliz para o santuário; ficaria ali sepultada, no local onde tanto se esforçara para estar. Os filhos Zilo e Nali, o rapaz com quatro e a rapariga com dois anos, assistiram tristemente ao sepultamento abraçados pelas tias. A avó cantou as orações rituais presididas pelo olhar atento do avô, após o que todos caminharam sobre a sepultura acabada de tapar.

Os últimos laivos de luz desapareceram no horizonte e a noite aparecia fria, com um ar fino e gélido e a Lua Nova impercetível no céu. Um murmúrio de espanto e receio percorreu os aldeãos assim que se aperceberam de dois pequenos grupos com seis ou sete homens e mulheres cada, composto apenas por estrangeiros que se aproximaram timidamente do santuário. Lemi, encabeçando uma improvisada segurança com vários elementos do clã, questionou as intenções dos recém-chegados que exibiram algumas oferendas compostas por coroas de flores secas, peles e mesmo cabritos. Eram oriundos de duas aldeias próximas e pretendiam assistir à cerimónia, algo a que Erem assentiu com um gesto magnânimo.

A audiência amontoou-se vocalizando um som profundo e gutural, em volta do círculo definido pelas pedras já erguidas e os locais das próximas. Archotes compridos, feitos de vimes secos e gordura animal, crepitavam e pingavam no chão onde estavam espetados, deixando a audiência numa penumbra irreal. Iluminada pela luz bruxuleante da grande fogueira, Zia orou ao Sol para que voltasse e não abandonasse os seus filhos, enquanto a noite se enchia de pequenos pontos brilhantes e a Via-Láctea impressionava como um imenso rasgão no céu. A percussão nas peles esticadas sobre as coroas de vimes fazia tremer o peito e aumentava o temor e o sentimento de reverência pelos deuses.

Com maestria, a sacerdotisa espetou a faca de sílex no pescoço de uma pequena cabra e sangrou-a para um recipiente de barro. Em seguida aspergiu as chamas e a assistência com o sangue obtido gritando para os céus que aquela era uma oferta dos filhos de Sol que pediam para que regressasse rápido e trouxesse o ventre cheio de caça e espigas douradas. Dois dos rapazes mais jovens aproximaram-se dela sendo marcados em ambas as faces com três dedos ensanguentados, após o que voltaram o cadáver da cabrita de patas para cima expondo o ventre para Zia. A mulher do chefe fez um corte profundo expondo as entranhas do animal, sem as cortar. Extraiu os intestinos e todos os órgãos da carcaça, distribuindo-os cuidadosamente por vários recipientes, deitando especial atenção ao coração e ao fígado, que cortou em vários pedaços, chegando mesmo a comer alguns. Ergueu-se depois, com os braços abertos ao céu, as mãos escorrendo sangue e gritou: — Swol voltará! Vem aí muito frio, chuva e neve, onde Ele parecerá moribundo e ausente, mas não esquecerá os seus filhos e regressará para nós! Swol! — Gritou por três vezes, recebendo o eco de felicidade de toda a audiência.

Com o sangue recolhido, a sacerdotisa marcou cada um dos monólitos com uma mão carmim de dedos bem abertos.

Durante toda a cerimónia, o chefe do clã não tirava os olhos da orla da floresta, sempre esperando ver regressar Naci.

Quando todos se recolhiam, Zia queria organizar buscas pelo filho, mas foi Erem quem a desencorajou. Na busca por Naci, no meio da floresta e na escuridão, arriscavam-se a perder mais alguém.

— Por muito que me custe — o chefe sentenciou com as lágrimas nos olhos —, ele é um homem feito e um dos nossos melhores caçadores e pisteiros. Sabe para onde foi e saberá encontrar o caminho de volta… se quiser voltar.

A noite para ambos foi insone; de olhos abertos e em silêncio, sempre a esperar ouvir os cães a assinalar a chegada de alguém. Acabaram por adormecer completamente esgotados para serem chamados às primeiras horas do dia. Naci havia chegado e estava no santuário.

Correram para lá; o filho de ambos, com o rosto marcado por vários pequenos cortes e equimoses, estava embrulhado numa grossa pele de urso e sentado ao lado da sepultura da mulher. Na entrada do santuário, havia duas estacas exibindo as cabeças decepadas de dois homens-macaco.



[1] Refere-se ao solstício de inverno, 20/21 de dezembro

[2] Refere-se ao solstício de inverno, 20/21 de dezembro

[3] Deusa mãe

[4] Espírito

 

 

 

 

6 - Os Outros Homens

Parte 6 – Os Outros Homens

8 - O Mundo Pula e Avança

Parte 8 – O Mundo Pula e Avança      

Na Madrugada dos Tempos

Introdução – Na Madrugada dos tempos

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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

Obrigado a todos os leitores

 

 
 
Este meu blogue, onde partilho convosco muitos dos meus trabalhos, atingiu as 45 000 visualizações.
 
Obrigado por lerem o os frutos da minha imaginação.
 
Um abraço e boas leituras.
 

Capa principal Terras de Xisto 2a Edição Capa principal Lagrimas no Rio 2a Edição CapaFrenteDaquelesAlemMarao
CapaFrenteEntreO PretoEOBranco A Caixa do Mal Capa frente Capa principal Na Sombra da Mentira
 
 

 
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domingo, 29 de janeiro de 2023

Os Outros Homens

 

Na Madrugada dos Tempos – Parte 6

O espírito de propriedade duplica a força do homem.

Voltaire

Filósofo francês

(1694-1778)

Imbuído de uma força de vontade impressionante, o novo local de oração do Clã do Leão das Montanhas começou a ganhar forma. Nehir e Zia, reconhecidas pelos seus conhecimentos astronómicos, marcaram a primeira pedra para que ficasse apontada às estrelas-que-guiam; o conjunto das estrelas mais brilhantes do céu que formam um retângulo que parece arrastar três outras[1], indicaria o Ner[2]. Mais três outras pedras assinalariam Swol[3], Hewsos[4] e outra Wes[5], teriam assim um santuário perfeitamente alinhado com as divindades. Usaram uma corda de tendões entrançados, com o comprimento de três homens e amarraram o ídolo central, caminhando depois em volta dele; assim desenharam o círculo onde iriam erguer os seus monólitos. Terminaram os preparativos com um sacrifício onde abriram duas lebres nas entranhas das quais Zia leu o futuro que parecia ser auspicioso. Naquela noite, após ofertarem pelo fogo as entranhas de algumas cabras, banquetearam-se na presença dos deuses.

A cada quatro noites, que é o número das estrelas-guias, um grupo de quatro mais quatro homens e mulheres eram escolhidos para retomar o trabalho onde grupo anterior o interrompera. A equipa chefiada por Nehir percorria os montes até encontrar a pedra da qualidade e tamanho certos que era depois desbastada com recurso a pedaços de basalto. Assim que estivesse pronta, era arrastada pela paisagem num enorme trenó de madeira; por vezes os obstáculos eram tão formidáveis que precisavam recorrer a ajuda adicional da aldeia. Por fim, chegados ao local da construção, abriam uma cova com cerca de um quarto da altura da pedra, onde depositavam a extremidade mais volumosa. O monólito era depois erguido com alavancas de madeira e puxado por grossas cordas trançadas com fibras vegetais. As pás de osso das omoplatas de burros e as picaretas de cornos de bisonte trabalhavam incessantemente a abrir covas e a endireitar o chão.

Menos de vinte dias depois do ataque aos homens-macaco, morreu Ediz. Há algum tempo que jazia na enxerga coberta de peles sem dar acordo de si e o ferimento na barriga, por mais esforços que Nehir fizesse, estava com mau aspeto e exalava um odor forte e desagradável. Nos últimos dias em que ainda mantinha a consciência pedira para ficar no santuário que estavam a construir. Foi numa tarde dominada por um vento gelado que o corpo do guerreiro, agora quase só pele e osso, foi depositado na terra aos pés dos ídolos do sol e da lua. Ao pescoço levava o colar de couro adornado com os dentes de vítimas das suas muitas caçadas e a seu lado depositaram a lança e a faca de sílex. O seu saco de couro continha as habituais oferendas com comida e bebida para a viagem que faria para o mundo das sombras. Cobriram-no com alguns seixos do rio, mas maioritariamente com os retraços do desbaste dos monólitos, antes de cobrir tudo com a terra endurecida do frio. Zia, entre lágrimas, em pé em cima do túmulo recente, proferiu um grande elogio ao irmão perdido, encorajando os outros a seguir-lhe o exemplo. Depois todos se recolherem às suas casas onde os aguardava o aconchego da fogueira. Ediz deixava a jovem Ayla sozinha com duas crianças ainda pequenas.

Conforme esperado, o frio crescente trazia a escassez de caça e os caçadores precisavam de cobrir áreas cada vez maiores. Mesmo os mamutes eram raros, em grupos pequenos e mais vigilantes; não permitiam a aproximação dos humanos. As expedições, que era raro durarem mais de um dia, agora prolongavam-se o dobro e às vezes o triplo. Para juntar às preocupações de Erem, os caçadores informaram que foram vistos outros grupos de humanos na área e que haviam seguido um deles em direção a poente onde se depararam com um povoado. Possuía tendas e casas de pedra com alguns invernos de existência. Afinal, já não estavam sozinhos nas montanhas.

Quando chegou a vez de Erem incluir um grupo de caça, decidiram seguir em direção a sul e evitar a proximidade do outro povoado; iriam até à Pedra do Leão da Montanha para rever a enorme planície do lago salgado de onde haviam partido há dez invernos. Foi uma desilusão, porém, já não conseguiram sequer encontrar o promontório de onde se despediram de Birol e o seu clã. Os pontos de referência e toda a planície que esperavam ver, estavam agora debaixo de uma descomunal massa de água que se estendia a perder de vista… se as águas continuassem a subir daquela maneira, todo o mundo desapareceria em breve.

Vaguearam um pouco pelas margens e entraram pelo lado nascente de um povoado onde foram olhados com alguma desconfiança. Eram bastantes as habitações de pedra, algumas compridas e com esquinas, em vez de simplesmente redondas, como as que conheciam e faziam. Os habitantes vestiam maioritariamente roupas de linho e lã, em vez das peles costuradas que Erem e os seus usavam. Tratava-se de uma população muito numerosa, a avaliar pelo número de construções e pelos bandos de crianças que os cercaram e seguiam, rindo e fazendo troça das suas roupas grosseiras, até se cansarem e desparecerem. Havia muito peixe e pouca carne a secar junto das casas. No meio das águas, alguns homens sentados no que pareciam bocados de madeira, pescavam calmamente com canas, outros em pé sobre plataformas faziam-no com lanças. Quando por fim chegaram ao limite poente da extensa aldeia, havia uma azáfama com várias dezenas de homens e mulheres, uns arrastando troncos, outros a apará-los e outros ainda a erguê-los numa fila ininterrupta que já se estendia há umas dezenas de metros. Os buracos feitos no chão pareciam indicar que preparavam uma parede em volta do casario.

Não tardou que fossem abordados por um grupo de homens armados de lanças e arcos que transportavam no braço um grande pedaço de couro redondo.

O que parecia ser o chefe interpelou-os numa fala áspera, que se compreendia com dificuldade. Queria saber quem eram e o que estavam ali a fazer. Erem assumiu o seu papel de líder e explicou que eram uma expedição de caça de uma aldeia situada a uns dias de viagem de costas para o sol. Depararam com a povoação por puro acaso.

O comandante dos guerreiros olhou-os um a um com desconfiança antes de sentenciar: — Não têm nada a fazer por aqui se não vêm fazer trocas. Vão-se embora depressa. — Ele apontou o caminho para fora da aldeia com a lança, cuja ponta rubra e reluzente chamou a atenção de Erem.

— Mas… não entendo. — Contestou este enquanto os seus homens tomavam posições defensivas perante os outros que ameaçavam cercá-los. — Estamos só de passagem, não estamos a fazer mal nenhum…

— Fomos atacados várias vezes nos últimos dias por gentes vindas desses lados. — Explicou o chefe. — Por isso estamos a erguer as nossas defesas e não queremos cá estranhos. Vão-se embora, rápido!

Aborrecidos por serem enxotados como ratos, obedeceram à ordem e iniciaram o regresso à sua própria aldeia. Pelo caminho conseguiram encontrar um numeroso grupo de auroques. Isolaram, perseguiram e mataram um velho macho … com mais de quinhentos quilos de carne para levar para o seu povo, a caçada compensara. Desmancharam a carcaça rapidamente, antes que o cheiro a sangue fresco atraísse predadores perigosos e distribuíram o peso entre eles. Tinham de se deslocar rapidamente, um urso poderia ser um adversário formidável e não se coibiria de os enfrentar, apesar de estar em inferioridade numérica, mas também as hienas das cavernas ou mesmo leões se podiam atrever contra grupos de humanos.

Quando, com alívio, chegaram à aldeia, Erem comentou com os seus companheiros como se tornava evidente que havia uma anormal falta de caça. A aproximação do inverno provocava naturalmente uma redução de animais disponíveis, mas cada nova estação o seu número parecia menor. Recordavam-se que, nos primeiros anos da separação do clã de Birol, avistavam-se algumas manadas de mamutes e atualmente apenas esporádicos grupos familiares. As manadas de auroques, que antes eram enormes, agora apenas tinham cerca de metade dos elementos e mesmo ursos ou leões não eram tão vulgares… decididamente não se podiam atribuir todas as culpas à estação fria, mas sim ao aumento das populações humanas na região. Gastava-se cada vez mais tempo na caça, o seu povo, se queria crescer e desenvolver-se, teria de apostar mais na agricultura e aumentar o número de cabras e ovelhas no rebanho.

Uma tarde, quando Erem aguardava o regresso de um grupo de caça, foi alertado da proximidade de alguns humanos e dirigiu-se para o extremo nascente da aldeia, onde assistiu à aproximação dos estranhos.

Eram apenas dez; quatro adultos, três adolescentes e três crianças, uma delas de colo. Estavam cansados e pareciam famintos. Pararam hesitantes a uns vinte metros das primeiras casas e hesitavam entre avançar e afastarem-se, a agitação entre os adultos aumentou ao verem que Erem e vários vizinhos se aproximavam, alguns com as lanças a postos.

Fikri, um dos filhos de Lemi, colocou-se à frente de Erem, com a lança em riste e olhou interrogativamente para o chefe, que lhe devolveu um aceno negativo com a cabeça.

— Queres que vá saber o que querem? — Interrogou o jovem ainda sem alterar a pose defensiva.

— Não. Deixa-os aproximarem-se e falarem livremente. — Comandou Erem fazendo um gesto aos estranhos para que se aproximassem. — Não vês que têm fome e pelo menos um deles está ferido? Não são uma ameaça.

O pequeno grupo aproximou-se e um dos homens ergueu as mãos em prece ao meio do rosto para Erem, num gesto de agradecimento. Mais perto viam que todos tinham arranhões e hematomas, sinal de que estiveram envolvidos em combates o que lançou a desconfiança entre os residentes.

O mais interativo dos forasteiros falou algumas palavras que ninguém entendeu e depois, vendo que não o compreendiam, experimentou outras com sonoridade diferente, mas que se entendiam com alguma dificuldade. Expressou a gratidão do grupo e explicou que vagueavam de aldeia em aldeia e foram atacados ao chegar a uma delas a cerca de um dia de viagem para nascente. Quase tudo o que tinham foi-lhes roubado nesse ataque e, quando tentaram refugiar-se na aldeia, foram corridos à pedrada.

Erem indicou-lhes o caminho para o centro da aldeia e mandou que acendessem a fogueira para darem as boas-vindas aos recém-chegados. Rapidamente, fortes labaredas expulsavam os maus espíritos do céu, alimentadas pelos troncos que se guardavam secos debaixo de peles e colmo. Sentaram-se em volta do fogo em pequenos tocos de madeira que foram trazidos de várias casas.

Lemi e o grupo que estava assignado à construção chegaram quase ao mesmo tempo que os caçadores e todos ficaram apreensivos com os estranhos. Eram as primeiras “visitas” em muitos anos.

Apenas Erem e depois Zia, chegada posteriormente, se sentaram com os forasteiros e partilharam com eles algumas lascas de pão duro e carne seca. Os restantes, cujo número foi aumentando até estarem todos os habitantes da aldeia, ficaram em círculo escutando e observando tudo o que se passava.

Todos tinham olhos castanhos, amendoados, cabelos compridos, ondulados e pele escura e os homens, mesmo o mais velho, tinham apenas uma penugem em vez das barbas espessas dos seus anfitriões. Vestiam capotes de pele sobre grossos camisolões de lã e calçavam peludas botas de pele de carneiro. Estavam bem preparados para o frio que chegava. O homem mais velho chamava-se Alim e a mulher Nadi e viajavam com três filhos, a mulher do mais velho deles e três netos…

Alim e a sua família eram provenientes de uma aldeia que se desmembrou com a subida do nível do mar. Alguns mudaram-se para pontos elevados, outros para aldeias distantes e outros ainda, como eles, tornaram-se errantes vivendo alternadamente vários locais. Aos poucos, foram reunindo os mais diversos bens que trocavam por outros. Já possuíam quatro vacas e seis cabras, além de uma grande quantidade de produtos e procuravam assentar em breve nalguma aldeia. Há uns dias, tudo lhes fora roubado, além da vida de um irmão de Alim que os acompanhava. Foram atacados por uns homens enormes de cabelos e barbas soltas, armados com espadas e machados.

— Que são espadas? — Perguntou Erem sem se conter.

— Não sabes o que são espadas? — O estrangeiro não conseguiu conter a admiração. — São como facas, mas muito mais compridas.

— Facas compridas? — O chefe da tribo continuava surpreendido exibindo a sua faca de sílex do tamanho de uma mão. — Se a pedra for mais comprida do que isto, parte-se e não serve de nada.

— Pedra?!? — O estrangeiro sorriu surpreendido, enquanto mostrava um punhal de cobre trabalhado. — Não de pedra, de metal; maior do que esta faca!

— Para Hewsos[6] daqui, — interrompeu Beki, o filho de Alim, despejando um conjunto de pequenas peças metálicas na palma de uma mão —, praticamente já ninguém usa sílex para as armas, isto são pontas de seta que trazemos para vender. Salvaram-se porque as trazia comigo, em vez de estarem no trenó com o resto das coisas.

Zia pegou numa das pontas de flecha e observou-a cuidadosamente enquanto Erem estudava o peso e a maneabilidade do punhal, simulando movimento e estocada… passou a lâmina na mão e fitou pensativamente o fio de sangue que se soltou… se havia muitas armas como aquela, o mundo estava a mudar… e a ficar muito mais perigoso.


[1] Constelação da Ursa-menor, cuja última estrela da cauda indica o Norte.

[2] Proto Indo-Europeu: Esquerda (que acabará por ser o ponto cardeal Norte) por oposição ao sol do meio-dia

[3] Proto Indo-Europeu: Sol é um dos principais deuses do panteão, mas também significa o sol do meio-dia, um dos pontos cardeais que originará o Sul

[4] Proto Indo-Europeu: Madrugada é uma das deusas do panteão, mas também um dos pontos cardeais que dará origem ao Leste

[5] Proto Indo-Europeu: Noite é um dos pontos cardeais que dará origem ao Oeste

[6] Proto Indo-Europeu: Madrugada ou Nascente

 

 

 

 

5 - Os Deuses e os Homens

Parte 5 – Os Deuses e os Homens

7 - A Obra Nasce

Parte 7 – A Obra Nasce

Na Madrugada dos Tempos

Introdução – Na Madrugada dos tempos

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quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Os Deuses e os Homens

 

Na Madrugada dos Tempos – Parte 5

 

Já não adianta nada dizer que matar em nome de Deus é fazer de Deus um assassino. Para os que matam em nome de Deus, Deus é o Pai poderoso que juntou antes a lenha para o auto-de-fé e agora prepara e coloca a bomba.

 

José Saramago

Escritor e prémio nobel português

(1922-2010)

 

No dia seguinte, o ar estava espesso e saturado por uma névoa esbranquiçada, enquanto flocos de neve esvoaçavam, rebeldes, rebrilhando ao sol encoberto.

Erem mandou reunir toda a gente frente à sua choça no largo onde faziam a fogueira em volta da qual se reuniam muitas noites. Usava o capote feito com a pele e a cabeça de um leão das montanhas e o fio de couro com uma pedra reluzente apanhada no rio de onde eram originários; os símbolos do poder nele investido.  Estava de mão dada com Zia, que usava o cocar de penas de corvo e pomba, assinalando o seu estatuto de oráculo. O casal e a filha Zehir, ocupavam os lugares mais influentes no clã e eram respeitados por todos, mesmo por aqueles que por vezes discordavam das suas decisões.

Ele olhou tristemente para todos os seus amigos e familiares, a maior parte deles ostentando as marcas do combate recente e levou as duas mãos ao peito, abrindo-as depois sobre a audiência, no gesto comum de saudação a todos os presentes.

— Filhos, irmãos e primos. — Começou com a voz grave que fazia todos pararem e deitar atenção. — A vida não tem sido fácil para o nosso clã. Sozinhos nestas planícies, progredimos com muitas dificuldades pedindo o favor dos deuses.

Vários entre a audiência acenaram em concordância uns para os outros.

— Perdemos entes queridos para as doenças e para os ataques, — continuou —, mas se Welnos[1] nos tem levado uns, Da Matter[2] abençoa-nos com novos rebentos assegurando sangue novo e força que serão o aconchego daqueles que conhecerem a velhice.

Alguns homens e mulheres mais jovens soltaram expressões de júbilo e grunhidos enquanto erguiam os punhos fechados em demonstração de força.

— Há, porém, uma grande sombra negra sobre nós. — Erem baixou os olhos e os braços exibindo desalento. — Os homens-macaco estão a ser uma grande provação para o nosso povo. Não só nos roubam muitas vezes a carne necessária para a nossa sobrevivência, também mataram o meu amado filho Nuri, vosso primo, sobrinho, irmão… e agora levaram-nos Fuat e Alev, além de deixarem vários de nós incapazes de trabalhar para si ou para os outros.

Havia agora vozes iradas e gritos insultuosos contra os homens-macaco.

— Não me atrevo, neste momento, — o chefe continuava com as mãos abertas numa súplica —, a pedir-vos para arriscar as vossas vidas e as dos que nos são queridos noutro ataque. Não temos condições, há demasiados feridos e penso que os deuses estão distraídos dos seus filhos.

A audiência silenciou-se em espanto com a revelação.

— Temos de fazer alguma coisa para obter os favores dos deuses. Algo que eles vejam dos céus e se lembrem de nós e do quanto precisamos do seu auxílio. — Ele apontou na direção do improvisado templo presidido pelas representações divinas. — Não chega uma simples cova no local que eles escolheram com o fogo do céu. Temos de lhes mostrar os sacrifícios que fazemos! Precisamos que aqueles que foram para junto dos deuses nos protejam a todos e não apenas aos familiares diretos, precisamos que intercedam pelo clã junto de Swol[3] e Mensis[4].

Todos apoiaram com urros e gritos de concordância.

— Por cada um dos nossos mortos, — continuou ele sobrepondo-se à ovação —, colocaremos uma grande pedra em volta da cova de oração.

Os gritos de apoio foram reduzindo à medida que começavam a interiorizar a enormidade da tarefa.

— Não era mais importante caçar para nos alimentarmos e vestirmos, agora que vêm os grandes frios, do que andar pelas colinas a arrastar pedras? — Interveio Naci, azedo, mas obtendo assentimentos de uma parte dos ouvintes.

— De que te adianta palmilhar os montes, ou correr atrás de animais mais velozes do que tu, se não tiveres a ajuda dos deuses para conseguires apanhar a presa? — Ripostou Zia apontando-lhe um dedo acusador. — Que és tu perante um leão, se não tiveres a proteção divina?

— Os deuses não foram de grande ajuda na gruta dos homens-macaco. — Resmungou a discordância. — A minha Su foi ferida com gravidade por aqueles monstros, assim como vários de nós e ainda não recuperou.

— Devíamos ter feito um grande sacrifício e aberto uma lebre para ver se os deuses estavam do nosso lado, antes de partirmos arrogantes da nossa força! — A mãe continuava a fustigar o filho enquanto o resto da audiência murmurava em concordância. — Ainda ontem estive na cova de orar e sacrifiquei uma cabrita pela recuperação tua mulher… vi que a madeira dos ídolos Swol e Mensis está a ficar podre e bichenta. — Perante as expressões de horror dos vizinhos, ela dirigiu-se-lhes: — É o sinal de que os deuses se ressentem do pouco caso que lhes fazemos. É tempo de fazer mais honrarias aos nossos protetores.

Este último argumento pareceu convencer a maioria e as manifestações e gritos de apoio regressaram. Naci abandonou a audiência, ressentido.

— Erem tem razão! — Apoiou Lemi, erguendo as mãos a pedir silêncio. — Temos de fazer alguma coisa para pedir o favor dos deuses…

— Agora, nos grandes frios que estão a chegar, precisamos de toda a ajuda possível na caça. — Avisou Civam, um dos irmãos de Zia. — Os animais são poucos e estão muito dispersos, temos de ir cada vez mais longe.

— Ou bem que estaremos a caçar, ou a arrastar pedras para o santuário! — Resmungou Fikri, um dos filhos de Lemi, cruzando os braços. — As duas coisas não podem ser! A terra pouca coisa dá nesta época e os rebos não se comem.

— Teremos de nos organizar ainda melhor. — Esclareceu Erem, conciliador. — Dividimo-nos em menos grupos, mas maiores, uns caçam e outros trabalham, depois trocamos. As tarefas como fazer roupas, fiar, curtir as peles, cultivar a terra, cuidar do gado, serão desempenhadas por quem tem mais jeito para elas, ou pelos que não podem caminhar; poderão trabalhar para todo o clã e receberão os alimentos pelo trabalho. Além disso, para nossa segurança, precisamos de mandar grupos maiores de caçadores. Mas não quero que lutem com os homens-macaco se eles aparecerem e irão aparecer, quando a caça reduzir…

— Deixamos que nos roubem então? — Asil abriu os braços em desalento.

— Não! Não podemos é arriscar a vida de mais dos nossos. — O chefe olhou o filho com tristeza. — A sobrevivência do nosso clã pode estar em risco se perdermos mais gente. Precisamos todos de começar a praticar a funda; viram como eles ficaram surpreendidos quando Eda e Ezgi os atacaram? Não contavam que as pedras pequenas voassem com tanta força, tão longe e tão certeiras, enquanto eles só sabem atirar calhaus à mão. — Ele sorriu para todos antes de continuar: — Penso que a solução estará aí; dispersarem em todas as direções, para eles não saberem quem perseguir e depois atacá-los por todos os lados com as fundas. Não largam as vossas lanças, porém, que são precisas para se defenderem.

Uma onda de otimismo pareceu correr a assistência. Todos falavam apressadamente e satisfeitos com a nova estratégia.

— Lembrei-me disto mesmo antes de adormecer… — continuou o chefe sorridente — logo depois de ter decidido que iriamos construir o santuário aos deuses. Bastou isso para começarmos a ser abençoados.

— Já falei com algumas das nossas mulheres para cortarem e polirem tiras de couro para as fundas e fazerem sacos para as pedras — avisou Zia — a partir de agora, ninguém deve sair sem a funda e o saco com seixos do rio.

— Uma excelente ideia. — Também Lemi estava entusiasmado. — Vamos organizar os grupos de trabalho e de caça, assim como começar imediatamente a treinar a funda.

— Mesmo aqueles que ficarão normalmente na aldeia, até as crianças, devem saber usar a arma! — Acrescentou Erem. — Se tivermos um ataque aqui, todos, com exceção dos doentes e crianças muito pequenas, terão de lutar e defender o clã. Eles podem ser como um bando de hienas das cavernas, mas nós seremos como os auroques; podemos não ter dentes tão fortes, mas, numa carga organizada espezinhamos tudo no nosso caminho.

    

   

[1] Deus do submundo

[2] Deusa-mãe

[3] Sol

[4] Lua

 

 

 

4 - Lambendo as feridas

Parte 4 – Lambendo as Feridas

6 - Os Outros Homens

Parte 6 – Os Outros Homens

Na Madrugada dos Tempos

Introdução – Na Madrugada dos tempos

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